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Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso

On-line version ISSN 2176-4573

Bakhtiniana, Rev. Estud. Discurso vol.13 no.3 São Paulo Sept./Dec. 2018

https://doi.org/10.1590/2176-457339172 

APRESENTAÇÃO

Das línguas e das culturas

Beth Brait* 
http://orcid.org/0000-0002-1421-0848

Maria Helena Cruz Pistori** 
http://orcid.org/0000-0003-0751-3178

Bruna Lopes-Dugnani*** 
http://orcid.org/0000-0001-9440-779X

Orison Marden Bandeira de Melo Júnior**** 
http://orcid.org/0000-0002-7592-449X

*Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUCSP, São Paulo, São Paulo, Brasil; Faculdade de Filosofia, Comunicação e Artes - FAFICLA, Departamento de Linguística; Universidade de São Paulo - USP, São Paulo, São Paulo, Brasil; CNPq; https://orcid.org/0000-0002-1421-0848; bbrait@uol.com.br

**Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUCSP/Editora Associada Bakhtiniana. Revista de Estudos do Discurso, São Paulo, São Paulo, Brasil; https://orcid.org/0000-0003-0751-3178; mhcpist@uol.com.br

***Universidade Federal Rural de Pernambuco - UFRPE, Unidade Acadêmica de Serra Talhada, Serra Talhada, Pernambuco, Brasil; https://orcid.org/0000-0001-9440-779X; blopesdugnani@gmail.com

****Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN, Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Departamento de Línguas e Literaturas Estrangeiras Modernas, Natal, Rio Grande do Norte, Brasil; https://orcid.org/0000-0002-7592-449X; junori36@uol.com.br


Poderia Victor, o “selvagem de Aveyron”, ter falado? O interesse por crianças que permaneceram isoladas do convívio humano, vivendo em completo abandono e fora do meio civilizado, foi bastante comum durante o séc. XVIII. Um exemplo é o menino encontrado em Aveyron (povoado situado ao sul da França), em janeiro de 1800. Ele não falava, só emitia grunhidos e foi levado, em agosto do mesmo ano, para o Instituto Nacional dos Surdos-Mudos - Paris (Institution Nationale des Sourds-Muets - Paris), a fim de ser observado e tratado. Comparado aos alienados internos no hospital Bicêtre, localizado em Le Kremlin-Bicêtre (subúrbio ao sul de Paris), por Philippe Pinel (1745-1826), médico especialista em “doenças mentais” e já famoso naquele momento, seu tratamento ficou a cargo do jovem Dr. Jean-Marc Gaspard Itard (1774-1838), que assumiu a tarefa como “um experimento científico”. A experiência, relatada nos escritos de Itard, continua despertando interesse contemporâneo, conforme atestam o filme de François Truffaut, O menino selvagem, 1970 [L’enfant sauvage], e duas obras brasileiras: A educação de um selvagem. As experiências pedagógicas de Jean Itard (BANKS-LEITE; GALVÃO, 2000) e O garoto selvagem e o dr. Jean Itard. História e diálogos contemporâneos (BANKS-LEITE; GALVÃO; DAINEZ, 2017). Esse significativo evento possibilita uma reflexão a respeito da importância do movimento iluminista na construção científica da surdez, uma vez que, até então, essa condição dava ao indivíduo que a portava um “estatuto de imbecilidade, de semi-animalesco, de não-humano” (DALCIN, 2009, p.4). Uma competente resenha da obra O garoto selvagem e o dr. Jean Itard. História e diálogos contemporâneos (2017), realizada por Raphael Uchôa (Centro Simão Mathias de Estudos em História da Ciência - CESIMA, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo), fecha este número de Bakhtiniana (13.3), dando aos leitores motivos para adentrar essa importante temática e suas expressivas mudanças do século XVIII até nossos dias.

Situado no século XXI, o leitor terá diante de si a maneira como o tema da deficiência auditiva avançou para a discussão da cultura surda e de sua língua: a língua de sinais, tão rica e complexa como qualquer outra língua existente no mundo. Bakhtiniana reuniu, neste número, oito artigos que o Editorial se encarrega de pontuar, cuja temática centra-se nas especificidades dessa língua e, em especial, na tradução e interpretação da língua brasileira de sinais - LIBRAS. O conjunto de reflexões, por sua vez, remete, necessariamente, à abrangência do pensamento bakhtiniano no que se refere às diferentes questões de linguagem implicadas em qualquer língua. Como lembra Mikhail Bakhtin: “A vida é dialógica por natureza. Viver significa participar do diálogo: interrogar, ouvir, responder, concordar, etc. Nesse diálogo o homem participa inteiro e com toda a vida: com os olhos, os lábios, as mãos, a alma, o espírito, todo o corpo, os atos” (2006, p.349). O diálogo é exercido por meio de palavras, mas o ser humano se expressa dialogicamente com o corpo inteiro, como bem atesta a língua de sinais, seu plano de expressão visual e a riqueza de seus discursos transitando hoje em diferentes esferas artísticas e cotidianas.

Os 8 artigos e a resenha congregaram 14 autores, representantes de 6 universidades brasileiras (UFSC, UFRS, UFPA, UFSCAR, USP, PUCSP) e 2 estrangeiras (Universidad de la República Uruguay e Rochester Institute of Technology, Henrietta, Nova Iorque). Desse modo, Bakhtiniana propõe a seus leitores, autores e pesquisadores de modo geral um diálogo que poderia ter se iniciado em Libras, mas que, na realidade, é expresso axiologicamente por meio de nossa participação integral na vida, interrogando, ouvindo, respondendo, concordando...

Como o contexto brasileiro não mudou, novamente lembramos que, no difícil momento vivido pelo país, seria impossível chegar à publicação do número sem o auxílio do MCTI/CNPq/MEC/CAPES e da PUC-SP, por meio do Plano de Incentivo à Pesquisa (PIPEq) / Publicação de Periódicos (PubPer-PUCSP) - 2018, a quem agradecemos imensamente. Reiteramos ainda que uma alta quantidade de submissões, assim como sua rigorosa seleção, realizada por competentes e colaborativos pareceristas do Conselho e ad hoc, permitiu chegar a um excelente resultado, como o leitor poderá constatar. Neste momento em que a internacionalização e a visibilidade do periódico, exigência do SciELO, parece mais próxima de ser alcançada, Bakhtiniana mantém-se firme no compromisso de sempre criar possibilidade dialógicas entre a pesquisa ligada aos estudos da linguagem, nacional e internacional.

RERERÊNCIAS

BANKS-LEITE, L.; GALVÃO, I.; DAINEZ, D. O garoto selvagem e o dr. Itard: história e diálogos contemporâneos. (Org.). Campinas, SP: Mercado de Letras, 2017. [ Links ]

BANKS-LEITE, L.; GALVÃO, I. (Org.) A educação de um selvagem: as experiências pedagógicas de Jean Itard. São Paulo: Editora Cortez. 2000. [ Links ]

BAKHTIN, M. Reformulação do livro sobre Dostoiévski. In: BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2006, p.337-358. [ Links ]

DALCIN, G. Psicologia da educação de surdos. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2009. Disponível em: [http://www.libras.ufsc.br/colecaoLetrasLibras/ eixoFormacaoPedagogico/psicologiaDaEducacaoDeSurdos/assets/558/TEXTOBASE_Psicologia_2011.pdf]. Acesso em: 25 ago. 2018. [ Links ]

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