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Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso

On-line version ISSN 2176-4573

Bakhtiniana, Rev. Estud. Discurso vol.14 no.2 São Paulo Apr./June 2019  Epub Apr 15, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/2176-457339683 

ARTIGOS

Compreensão e linguagem em Heidegger: ex-sistência, abertura ontológica e hermenêutica

Jaqueline Stefani* 
http://orcid.org/0000-0002-2421-4965

Natalie Oliveira da Cruz** 
http://orcid.org/0000-0002-2513-4350

*Universidade de Caxias do Sul - UCS - Programa de Pós-Graduação em Filosofia e Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade de Caxias do Sul, Campus Caxias do Sul, Rio Grande do Sul, Brasil; https://orcid.org/0000-0002-2421-4965; jaquelinestefani@yahoo.com.br

**Universidade de Caxias do Sul - UCS - Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade de Caxias do Sul, Campus Caxias do Sul, Rio grande do Sul, Brasil; https://orcid.org/0000-0002-2513-4350 natalie.oliveira.cruz@hotmail.com

RESUMO

O artigo investiga de que modo a hermenêutica heiddeggeriana, especialmente nas obras A caminho da linguagem, Os conceitos fundamentais da metafísica: mundo, finitude, solidão e Ser e tempo, propõe que se tome o ato da compreensão de algo, por meio de uma ontologia fundamental, em sua facticidade e historicidade, de maneira oposta à abordagem científica. Conclui-se que a compreensão supõe: uma abertura fundamental; uma retomada da noção de verdade grega; a circularidade que está envolvida em todo ato compreensivo; a compreensão de si que está presente em toda compreensão filosoficamente originária sobre algo e a noção de linguagem como a casa do ser. Trata-se de uma abordagem da linguagem para além de mero instrumento comunicativo, dado que a razão instrumental tem conduzido o homem para um modo inautêntico de ser. A linguagem, tomada de modo essencial e originário, é constituinte do próprio Dasein, histórico e finito, contraposta a uma teoria proposicional lógico-científica da linguagem.

PALAVRAS-CHAVE: Heidegger; Linguagem; Compreensão; Verdade; Finitude

Introdução

Objetiva-se, aqui, compreender em que sentido a hermenêutica heideggeriana é um tipo de interpretação tomada como o ato primário da compreensão por meio de uma ontologia fundamental. Para tanto requer que se investigue a proposta heideggeriana de uma abordagem contrária à abordagem científica no intuito de compreender a vida pela experiência da própria vida, em sua facticidade e historicidade, e de possibilitar o desvelamento do ser supondo, sempre, a estrutura existencial do ser-lançado e do pro-jeto, do passado e do futuro.

No primeiro momento, será feita uma análise introdutória do conceito de compreensão em Heidegger, com ênfase em Ser e tempo, abordando noções como abertura, verdade e a compreensão de si que está presente em toda compreensão filosoficamente originária sobre algo. No segundo momento, será investigada a noção de linguagem como o lugar em que habitamos, como a morada do ser. Trata-se de uma abordagem da linguagem para além de mero instrumento comunicativo. No momento seguinte, e último, caberá compreender a circularidade da compreensão e de que modo o redirecionamento radical do círculo hermenêutico influenciou de modo decisivo a hermenêutica.

1 COMPREENSÃO: temporalidade, historicidade, finitude e abertura

A compreensão, antes mesmo de ter seu sentido atribuído a partir do interesse de cunho teórico ou pragmático, tem seu sentido original atribuído a seu caráter ontológico, próprio da vida humana (HEIDEGGER, 2014). A compreensão torna-se estrutura existencial do Dasein, que se encontra jogado no mundo, entregue a sua própria existência, a sua própria temporalidade:

Ao interpretá-lo como existenciário fundamental, mostra-se que esse fenômeno é assim concebido como modus fundamental do ser do Dasein. Ao oposto, "entender", no sentido de um possível modo-de-conhecimento entre outros, algo distinto de "explicar", deve com este ser interpretado como um derivado existenciário do entender primário que é coconstitutivo do ser do "aí" em geral (HEIDEGGER, 2014, §31, p.407).

Dessa maneira, a compreensão é o nosso modo de ser, o modo como nos relacionamos com a nossa projeção no mundo, na temporalidade, realizando existencialmente este modo de ser do Dasein que é o poder-ser, sendo o único ente que em seu poder-ser possui existência. Ao encontro dessa característica, o conceito de existência deve ser tomado etimologicamente como ex-sistere, ou seja, estar fora, ultrapassar a realidade simplesmente-presente, reafirmando sua abertura:

O entender é o ser existenciário do poder-ser próprio do Dasein ele mesmo e isto de tal maneira que este ser abre em si mesmo o que lhe toca. [...] O entender como abrir abrange sempre o todo da constituição-fundamental do ser-no-mundo. Como poder-ser, o ser-em é cada vez poder-ser-no-mundo. Este não é aberto somente qua mundo como possível significatividade, mas o próprio pôr-em-liberdade o ente do-interior-do-mundo deixa esse ente livre em suas possibilidades (HEIDEGGER, 2014, §31, p.411).

Assim, o compreender1 torna-se, também, abertura a possibilidades, movimento constitutivo que acontece no tempo. Não há algo compreendido, acabado. O que há é uma compreensibilidade em constante devir. Todo compreender implica um saber prático, um saber-fazer, que muito mais do que objetivo de qualquer ciência é o fundamento de todo ato compreensivo, e de toda busca por conhecimento. Esse saber que orienta a prática, que traz consigo um poder ou uma capacidade, um saber como se situar diante das várias situações da vida, é o sentido do compreender. Tal sentido é mais facilmente percebido se levarmos em conta a escolha do termo Verstehen, que na língua alemã carrega consigo essa aplicabilidade e equivale a dizer que aquele que compreende algo é porque também sabe lidar com ele.

A significação de Fenomenologia, na teoria heideggeriana (2014), supõe abertura para que se vejam as coisas tais como se manifestam. O ato de compreender principia no contato com a coisa, em sua manifestação. A abertura às possibilidades é a abertura constitutiva da compreensão que, em Heidegger (2014), é a condição propriamente dita para o Dasein projetar-se enquanto possibilidades. Contudo, a abertura essencial à consciência hermenêutica não pode ser considerada como um ato primeiramente racional. Essa abertura, segundo Heidegger (2014), é uma disposição afetiva, uma das estruturas existenciais do ser-aí. Isso mostra que o compreender é sempre um compreender afetivamente. Algo que, ao se tornar visível, nos interpela e nos afeta; é a verdadeira abertura para a compreensão, momento em que nos damos conta de nossa pertença à tradição quando algo nos coloca à prova, por meio da linguagem.

Conforme Heidegger, esta abertura revela o caráter de projeto que reveste toda a compreensão. O caráter projetivo do compreender constitui a abertura do do ser que, como ser-no-mundo, é um poder-ser. Esse constante reprojetar abre a possibilidade de novas leituras e interpretações que estarão sempre sujeitas às revisões e elaborações de sentido. Essas reelaborações são chamadas por Heidegger (2014) de interpretação. Assim,

Chamamos interpretação o desenvolvimento do entender. Na interpretação, o entender, entendendo, apropria-se do seu entendido. Na interpretação, o entender não se torna algo diverso, mas torna-se ele mesmo. A interpretação se funda existenciariamente no entender e este não surge dela. A interpretação não consiste em tomar conhecimento do entendido, mas em elaborar possibilidades projetadas no entender (HEIDEGGER, 2014, §32, p.421).

A interpretação se realiza a partir de algo dado anteriormente, uma pressuposição que se projeta na abertura para ser reelaborada.

Heidegger (2014), assim, faz da estrutura de antecipação da compreensão a condição de possibilidade para o compreender, e a denomina como pré-compreensão. Para ele, a interpretação é sempre interpretação de algo previamente compreendido. Logo, Heidegger explicita as três estruturas prévias da compreensão, e diz: "A interpretação de algo como algo funda-se essencialmente por ter-prévio, ver-prévio e conceito-prévio. A interpretação nunca é uma apreensão sem-pressupostos de algo previamente dado [...]" (HEIDEGGER, 2014, §32, p.427).

Filosofia e ciência lidam com modos distintos de compreensão. As perguntas filosóficas colocam o próprio questionador em questão e a busca pelo desvelamento de algo, é, também e primordialmente, uma pergunta pelo desvelamento do ser que pergunta:

[...] o conhecimento filosófico da essência do mundo não é jamais a tomada de conhecimento de algo simplesmente dado. Ao contrário, ele é o descortinamento compreensivo de algo em meio a um questionamento determinadamente direcionado. Este questionamento nunca deixa o questionado se transformar em um ente simplesmente dado (HEIDEGGER, 2003a, §70, p.334-335).

Tal ato de compreensão implica o próprio ser que conhece no conhecimento da coisa, dizendo respeito à experiência que está em jogo no movimento da compreensão. A compreensão altera o ser que compreende: "A metafísica é uma interrogação na qual nos inserimos de modo questionador na totalidade e perguntamos de uma tal maneira que, na questão, nós mesmos, os questionadores, somos colocados em questão" (HEIDEGGER, 2003a, §3, p.11). O ser que questiona algo, questiona também a si próprio. O desvelamento do ser do ente ocorre através da própria experiência do compreender em sua finitude e historicidade.

Para Heidegger (2014), a temporalidade e a historicidade são constituintes, dado que a essência é movente, é temporal. A pretensão de subtrair a temporalidade e a finitude da linguagem é ingenuidade, ilusão.

Heidegger (2014) resgata uma compreensão de logos grega provinda do conceito de aletheia, em que o conceito de verdade tem o sentido de desvelamento, ato de trazer algo encoberto para a luz: "Assim, tudo aqui consiste em ficar livre de um conceito de verdade construído no sentido de uma "concordância". Essa ideia não é de modo algum primária, no conceito de aletheia". (HEIDEGGER, 2014, §7, p.115).

Verdade supõe desvelar, descobrir; falsidade supõe velar, encobrir. Tal compreensão de um logos primordial realça a noção de um logos enquanto oikos, no sentido da casa em que o ser habita. Tal é a linguagem tomada em sua acepção originária que conduz ao desvelamento.

Para os gregos, logos indica linguagem, discurso, e não ratio, como traduziram tradicionalmente, assumindo significação de "razão, juízo, conceito, definição, fundamento, relação. [...] Também quando se entende logos no sentido de enunciação, mas enunciação como "juízo", essa tradução em aparência legítima pode perder no entanto o significado-fundamental [...]" (HEIDEGGER, 2014, §7, p.113).

Segundo Lawn (2007, p.83), a hermenêutica existencial de Heidegger, ao enfatizar a pré-estrutura da compreensão, e redefinir a verdade, "[...] possibilitou o renascimento de uma versão mais fundamental da verdade [...]". No mesmo sentido, argumenta Gadamer:

Ao recuperar o sentido da palavra grega que designa a verdade, Heidegger possibilitou em nossa geração um conhecimento promissor. Não foi Heidegger o primeiro a descobrir que Aletheia significa propriamente desocultação (Unverborgenheit). Heidegger nos ensinou o que significa para o pensamento do ser o fato de a verdade precisar ser arrebatada da ocultação[...] Há um nexo originário, portanto, entre ser verdadeiro e discurso verdadeiro (GADAMER, 2002, p.59-60).

Ao retomar o conceito grego de logos proveniente do conceito de aletheia,Heidegger (2014) retoma a ambiguidade essencial, presente na autenticidade do conceito de logos e remete aos pré-socráticos, implicando a noção de verdade como a tensão entre velar e desvelar. O filósofo defende a ideia de que a verdade é originária, antecede o dito, o conceito, a predicação proposicional, o enunciado lógico:

O ente contido no ter-prévio, por exemplo, o martelo, é de imediato utilizável como instrumento. Se esse ente se torna "objecto" de uma enunciação, então com a atitude enunciante já se produz, de antemão e em um único golpe, uma mutação no ter-prévio. O com-quê utilizável do ter-de-fazer, da execução, se torna um "acerca de quê" da enunciação mostrativa (HEIDEGGER, 2014, §33, p.445).

A proposição conceitualiza aquilo com que o ser, antes, estava lidando, estava em contato. A proposição, portanto, objetiva algo que antes não estava objetivado. É nesse momento prévio em que se está lidando-com que a coisa se manifesta de modo primordial, momento, portanto, anterior à conceitualização.

Conforme Gadamer (2013, p.393), "[...] a partir da mudança de rumo ontológico que Heidegger deu à compreensão como um "existencial" e a partir da interpretação temporal que aplicou ao modo de ser da pre-sença", a distância temporal pôde ser pensada e recuperada. Foi com a superação da ingenuidade do historicismo2 que Heidegger (2014) recupera a situação histórica hermenêutica, a historicidade do intérprete no ato compreensivo, fazendo do tempo seu próprio alicerce.

2 EXPERIÊNCIA e a busca infinita da linguagem pela própria linguagem

Um dos problemas filosóficos centrais em Heidegger (2003a, 2003b, 2001, 2014) é a questão acerca das possibilidades da linguagem. Segundo ele (2014), não há relacionamento humano sem linguagem e a comunicação é só uma de suas múltiplas possibilidades. Com a obra Ser e tempo, a hermenêutica projeta-se de forma incisiva para o centro da reflexão filosófica e a linguagem passa a ser tomada como aquilo que cria o mundo ao dizê-lo, e não mais como uma ferramenta da consciência para dizer o pensado. A linguagem assume a própria condição de possibilidade de ser no mundo e do próprio mundo. Segundo Heidegger:

Falamos e falamos sobre a linguagem. Aquilo de que falamos, a linguagem, já sempre nos precede. Falamos sempre a partir da linguagem. Isso significa que somos sempre ultrapassados pelo que já nos deve ter envolvido e tomado para falarmos a seu respeito. Ou seja, falando sobre a linguagem, estamos sempre constritos a falar da linguagem de forma insuficiente (2003b, p.138).

Gadamer (2002) observa que a questão da linguagem passa a ter um lugar central a partir do pensamento de Heidegger e afirma que, com Heidegger: "O que ocorre no fenômeno da linguagem ultrapassa a reflexão da filosofia transcendental e supera radicalmente o conceito de uma subjetividade transcendental como base de toda demonstração última" (GADAMER, 2002, p.499).

O problema da interpretação da linguagem como proposição demonstrativa ocorre quando se toma tal interpretação como única e verdadeira. Segundo Heidegger (2001), essa é uma das possibilidades da linguagem, mas não a única nem a principal. A linguagem lógica não compreende a pluralidade da linguagem, sequer tangencia a problemática mais essencial: a questão do ser. A ciência e a técnica acabaram por encobrir a fundamental questão do ser, e este é um dos motivos pelos quais Heidegger denuncia o esquecimento do ser:

A ciência natural só pode observar o homem como algo simplesmente presente na natureza. [...] Dentro desse projeto científico-natural só podemos vê-lo como ente natural, quer dizer, temos a pretensão de determinar o ser-homem por meio de um método que absolutamente não foi projetado em relação à sua essência peculiar (HEIDEGGER, 2001, p.53).

O que há, portanto, é uma crítica à tradição e sua concepção de linguagem e de verdade, concepção permeada por um devaneio ontoteológico, trazendo a noção de finitude: ser é tempo.

Assim, a analítica existencial questiona fundamentalmente a possibilidade estrutural da linguagem em sua totalidade, análise oposta à investigação das partes de uma proposição como sujeito, cópula e atributo. Trata-se de um questionamento fundamental que acena ao individual sempre dentro de uma totalidade, realçando a relevância do contexto em que cada coisa encontra-se inserida, trazendo a análise para a relação da coisa imersa na totalidade de seu contexto. Tal análise é contrária à pretensão de analisar conceitos isolados de seu contexto com pretensão de que carreguem noções de imutabilidade e eternidade.

A verdade não se encontra em uma proposição declarativa que expressa um sujeito, uma cópula e um predicado, mesmo que tal proposição seja verdadeira, pois: "a essência do ser em sua multiplicidade jamais pode ser em geral recolhida a partir da cópula e de suas significações" (HEIDEGGER, 2003a, §73, p.391).

É na experiência3 feita com a linguagem que ocorre o acesso primordial à própria linguagem, pois "é na linguagem que a linguagem, sua essência, seu vigor se deixam dizer" (HEIDEGGER, 2003b, p.148). Tal experiência toma a linguagem como a morada do ser, oposta, portanto, à concepção de linguagem instrumental, que está ao serviço da comunicação:

[...] fazer uma experiência com a linguagem é algo bem distinto de se adquirir conhecimentos sobre a linguagem. [...]. Atualmente, o alvo cada vez mais mirado pela investigação científica e filosófica das línguas é a produção do que se chama de 'metalinguagem' [...]. Metalinguística é a metafísica da contínua tecnicização de todas as línguas, com vistas a torná-las um mero instrumento de informação capaz de funcionar interplanetariamente, ou seja, globalmente (HEIDEGGER, 2003b, p.122).

Com isso, a hermenêutica ganha nova direção, como afirma Grondin (1999), pois, com Heidegger, a linguagem carrega a própria relação hermenêutica. Heidegger, a partir de Ser e Tempo, realoca a questão da compreensão e da busca da verdade, que estava colocada no âmbito da teoria do conhecimento, e as lança para o plano existencial.

Cabe salientar que a fenomenologia hermenêutica heideggeriana, com sua análise da historicidade do Dasein, tinha o intuito de propor a renovação da questão do ser, não sendo, então, objetivo de Heidegger a formulação de uma teoria das ciências do espírito nem a superação das aporias do historicismo (GADAMER, 2013). A existência humana se constitui na experiência da linguagem, sendo esta um universo intransponível para o homem, fora do qual qualquer pensamento ou comunicação se tornariam impossíveis. É somente ela que torna possível a convivência humana, o entendimento, o consenso maior:

Foi com Heidegger que Gadamer aprendeu a ler a definição aristotélica "o homem é o ser vivo dotado de logos" não como "o ente vivo que possui razão" (animal rationale), mas "o ente que possui linguagem". O logos, enquanto linguagem, não pode ser mais concebido instrumentalmente. [...] Enquanto ser que possui logos, o homem constitui-se e experiencia-se no modo de ser linguagem [...] Nosso pensar e conhecer, nosso sentir e imaginar, nosso querer e desejar estão sempre impregnados pela compreensão linguística do mundo, e, "neste sentido, a linguagem é a verdadeira pegada de nossa finitude. Sempre nos ultrapassa. A consciência do indivíduo não é o critério para medir seu ser" (ROHDEN, 2002, p.225-226).

Assim, a linguagem deixa de ser instrumento e passa a ser princípio constituinte e constituidor de sentido. Não é uma ferramenta que de tanto utilizarmos possamos chegar a dominar o seu uso. Ela é o que nos possibilita pensar e compreender o mundo, é o elo que nos une a ele. Tomar a linguagem como a casa em que o ser habita, de modo original e primeiro, é recusar qualquer tentativa de controlar a linguagem. Segundo Heidegger (2003b), a linguagem autêntica aparece

raramente, lá onde não encontramos a palavra certa para dizer o que nos concerne, o que nos provoca, oprime ou entusiasma. Nesse momento, ficamos sem dizer o que queríamos dizer e assim, sem nos darmos bem conta, a própria linguagem nos toca, muito de longe, por instantes e fugidiamente, com seu vigor" (2003b, p.123).

Assim, a linguagem está em sua própria ausência, no titubeio, na demora em encontrar a palavra, no silêncio, lugares opostos ao lugar das respostas prontas, memorizadas e ditas repetidamente. A linguagem é uma busca incessante pela linguagem, pelo inédito que se encontra fora das demarcações do que já está pronto, formulado, dominado, controlado. É um incessante estar-a-caminho no âmbito do que é prévio, do que antecede.

3 A LINGUAGEM e o círculo ontológico da compreensão

Heidegger (2014) explicita, a partir do movimento constante da compreensão e interpretação, o caráter circular da compreensão, e faz um redirecionamento radical do círculo hermenêutico influenciando de maneira incisiva a hermenêutica. Heidegger, assim, foi o primeiro a tematizar o círculo hermenêutico não mais pela perspectiva epistemológica como um método universal para a compreensão de sentido.

A descrição heideggeriana do círculo hermenêutico (2014) concede, à estrutura circular da compreensão, a fundação de um novo sentido, o sentido existencial, evidenciando o caráter ontológico da compreensão. Assim, deixa claro que tal circularidade da compreensão não é primeiramente uma exigência à própria práxis, mas é a descrição do próprio desdobramento que a interpretação compreensiva realiza. "A reflexão hermenêutica de Heidegger tem o seu ponto alto não no fato de demonstrar que aqui prejaz um círculo, mas que este círculo tem um sentido ontológico positivo" (GADAMER, 2013, p.355).

Heidegger (2014), em Ser e tempo, elabora a hermenêutica da facticidade a partir da analítica temporal da existência humana (Dasein). A facticidade significa o modo de ser do Dasein, que encontra, no tempo, a possibilidade de sua revelação: "A estrutura da temporalidade aparece assim como a determinação ontológica da subjetividade. Mas ela era mais que isso. A tese de Heidegger era: o próprio ser é tempo" (GADAMER, 2013, p.345). Com isso, Heidegger (2014) supera de vez o subjetivismo da filosofia moderna e toda metafísica que compreende o ser a partir do presente, como algo dado, imediato. Para este filósofo, a compreensão deixa de depender de um método e passa a ser o próprio modo de ser do Dasein.

Portanto, é a partir da análise da existência humana que Heidegger (2014) recupera o sentido mais essencial do círculo da compreensão. No compreender, o círculo do todo e das partes não se dissolve, ao invés disso, ele atinge sua autêntica realização:

O decisivo não é sair do círculo mas nele penetrar de modo correto. Esse círculo do entender não é um círculo comum, em que se move um modo de conhecimento qualquer, mas é a expressão da existenciária estrutura-do-prévio do Dasein ele mesmo. O círculo não deve ser degradado em vitiosum nem ser também tolerado. Nele se abriga uma possibilidade positiva de conhecimento o mais originário, possibilidade que só pode ser verdadeiramente efetivada de modo autêntico, se a interpretação entende que sua primeira, constante e última tarefa consiste em não deixar que o ter- prévio, o ver-prévio e o conceber-prévio lhe sejam dados por ocorrências e conceitos populares, mas em se assegurar do tema científico mediante sua elaboração a partir das coisas elas mesmas (HEIDEGGER, 2014, §32, p.433).

Todo intérprete já se encontra imerso naquilo que pretende compreender. Não é possível anular a si, anulando as suas opiniões prévias. Não é possível efetuar a sua saída do círculo hermenêutico. Do mesmo modo que é leviano acreditar que as nossas pressuposições e expectativas sempre venham a confirmar-se nas coisas mesmas. O importante é conscientizar-se que uma interpretação correta precisa proteger-se da arbitrariedade das intuições ingênuas, das opiniões de cunho ordinário, e dos hábitos de pensar imponderados, mantendo-se atenta para as coisas, elas mesmas.

No compreender, a cada revisão do projeto prévio é possível lançar outro projeto de sentido para que, na interpretação das possibilidades, novas elaborações possam surgir até que se confirme de maneira mais unívoca a unidade de sentido. A interpretação que se dá a partir de uma concepção prévia deve estar sempre à disposição, ou seja, aberta às substituições de novos projetos, novas elaborações, na busca de conceitos mais adequados. A compreensão é um processo infinito, pois sempre poderão surgir novas interpretações à luz do que o intérprete sabe, conforme a época histórica em que ele vive.

Portanto, compreender o sentido fundamental do círculo hermenêutico não é apenas entender que a antecipação da compreensão encontra-se desde sempre inserida no projeto da interpretação. É mais do que isso, é assegurar que a antecipação tenha sua origem e validez postas à prova. Para a compreensão alcançar a sua verdadeira possibilidade, assegurando o seu tema científico, é preciso que o intérprete não aborde aquilo que deseja compreender de forma direta, arbitrária e acrítica e, sim, que examine suas opiniões quanto à sua legitimidade.

Sobre isso, relata Stein (2010): "É uma circularidade em que nós nos compreendemos e compreendemos o ser, resultante de nossa abertura, revelação" (p.66). Isso torna evidente a relação de reciprocidade da abertura existente no compreender. Somente nos compreendemos ao compreender o outro, e é compreendendo o outro que vamos compreendendo a nós mesmos. Estar aberto é revelar-se na compreensão; é estar aberto à verdade que surge desta relação de abertura. Abertura que se efetiva entre nós e o mundo, na medida em que o último é para nós horizonte de sentido e também abertura.

É no compreender, a partir da relação entre o familiar e o estranho, que se situa a verdadeira tarefa hermenêutica:

A hermenêutica deve partir do fato de que quem quer compreender está ligado à coisa que vem à fala na tradição, mantendo ou adquirindo um vínculo com a tradição a partir de onde fala o texto transmitido. Por outro lado, a consciência hermenêutica sabe que não pode estar ligada a esta coisa, nos moldes de uma unanimidade inquestionável e óbvia, como no caso da continuidade ininterrupta de uma tradição. Dá-se realmente uma polaridade entre familiaridade e estranheza, sobre a qual baseia-se a tarefa da hermenêutica. Esta não deve, porém, ser compreendida psicologicamente [...]. Deve ser compreendida de modo verdadeiramente hermenêutico, isto é, na perspectiva de algo dito: a linguagem com que a tradição nos interpela, a saga que ela nos conta. A posição que, para nós, a tradição ocupa entre estranheza e familiaridade, é portanto o Entre, entre a objetividade distante, referida pela história, e a pertença a uma tradição. Nesse Entre situa-se o verdadeiro local da hermenêutica (GADAMER, 2002, p.79).

A circularidade da compreensão não pode ser objetiva e nem tão pouco subjetiva, por mais que as nossas pressuposições sejam atos de subjetividade. Ainda que a nossa pré-compreensão seja a condição do compreender e esteja desde já envolvida no processo, não se pode inferir que essa seja somente nossa. Antes disso, a nossa compreensão prévia é o resultante da nossa comunhão com a tradição. Uma relação que está em constante formação, algo que vai constituindo-se e transformando-se na medida em que vamos compreendendo.

Assim, ao mesmo tempo em que vamos compreendendo o acontecer da tradição, do qual somos partícipes, vamos compreendendo a nós mesmos. Logo, a verdadeira possibilidade da realização da compreensão está em colocar a validade dos nossos preconceitos constantemente à prova, destacando-os e trazendo-os para dentro da execução da compreensão, fazendo com que o historicamente distinto possa valer-se de sua alteridade.

Nessa relação se realiza a compreensão, que constitui-se como auto compreensão. Heidegger (2014) é quem elabora a tarefa da concretização da consciência histórica, ao descrever o movimento das estruturas da compreensão e ao revelar o caráter ontológico do círculo hermenêutico (TESTA, 2004).

Outra contribuição importante de Heidegger (2014) foi a questão da pertença, como uma condição para o sentido originário do interesse histórico. É a partir dele que o problema da historicidade passa a ser desenvolvido mais radicalmente. É com a estrutura prévia da compreensão que o conhecimento histórico recebe sua legitimidade, ou seja, pela primeira vez a estrutura da compreensão histórica torna-se ciente da sua fundamentação ontológica. "[A] historicidade da pre-sença humana em toda sua mobilidade do relembrar e do esquecer é a condição de possibilidade de atualização do passado em geral" (GADAMER, 2013, p.351). Logo, não interpretamos o mundo como uma tabula rasa; somos seres históricos e partícipes de uma tradição que nos influencia indiscutivelmente.

Sempre compreendemos e interpretamos o mundo a partir da nossa pré-compreensão, o criamos a partir da nossa própria visão e posição que assumimos perante ele. E, mesmo que essa nossa compreensão não seja totalmente consciente, adotamos involuntariamente um modo de ser que Heidegger (2014) denomina hermenêutico.

É hermenêutico, porque o Dasein, através de seus envolvimentos práticos no mundo já culturalmente interpretado, está se projetando constantemente para o futuro, enquanto permanece enraizado em entendimentos tácitos no presente e no passado. A existência humana não está presa nos pré-entendimentos, pois eles são a condição na qual buscamos entender o mundo de maneira mais explícita e autoconsciente (LAWN, 2007, p.80).

Heidegger (2014) revela também um aspecto importante ao descrever a estrutura prévia da compreensão na suposta leitura daquilo que está ali, ou seja, a leitura de algo distinto do intérprete, o outro como um texto, a tradição, ou alguém, que se encontra apartado do intérprete. Há que se considerar o caráter de abertura da consciência formada hermeneuticamente que, ao ouvir a voz do outro, já se coloca em relação com este. Mas esta relação deve possibilitar a consciência dos pressupostos do próprio intérprete para que aquilo que for diferente e estranho possa valer-se de sua alteridade. O intérprete, ao tornar-se consciente de seus preconceitos, impede que estes continuem exercendo uma dominação cega, possibilitando a autêntica abertura ao texto, deixando-o apresentar-se como o outro da relação e, por fim, viabilizando a exposição da sua verdade, trazendo-a ao diálogo.

A pertença do intérprete ao seu objeto tem seu sentido demonstrado por Heidegger (2014), encontrando a legitimação que não havia conseguido através da reflexão da escola histórica, explicitando que tal demonstração de sentido é tarefa da hermenêutica.

Conforme Gadamer (2013, p.393), "[...] a partir da mudança de rumo ontológico que Heidegger deu à compreensão como um 'existencial' e a partir da interpretação temporal que aplicou ao modo de ser da pre-sença", a distância temporal pôde ser pensada e recuperada. O tempo, alicerce da historicidade do intérprete no ato compreensivo, nos dá condições de resolver a questão crítica da hermenêutica, "[...] distinguir os verdadeiros preconceitos, sob os quais compreendemos, dos falsos preconceitos que produzem os mal-entendidos" (GADAMER, 2013, p.395), suspendendo os preconceitos particulares, possibilitando o reconhecimento dos preconceitos legítimos.

Considerações finais

A união de uma razão autossuficiente e arrogante com o método supostamente infalível das ciências da natureza, clarificada à luz do Iluminismo, tem conduzido o homem para um modo inautêntico de ser. A razão instrumental moderna transformou o mundo de modo objetificador científico, e transformou o homem num objeto manipulável. Gradualmente, a humanidade foi se tornando vítima dos próprios feitos, tornando-se cada vez mais incapaz de ouvir e de enxergar o essencial da vida.

Opondo-se ao modelo epistemológico e ao seu postulado de legitimação do conhecimento, Heidegger (2014) desbanca a pretensão do método científico das ciências naturais como o único meio legítimo de acesso à verdade, e nos desperta para uma verdade que está aquém e além daquela garantida pela razão adestradora.

Com a hermenêutica, conhecer a verdade passa a ser experienciar a verdade. Essa experiência que nos oportuniza ir ao encontro da verdade, que nos possibilita conhecer e compreender o mundo e a nós mesmos, é a experiência hermenêutica como autêntica abertura ao outro. Esta experiência é ontológica por ser aquela que experimentamos antes de toda atividade racional e reflexiva. É como uma experiência de arrebatamento na qual nos fogem as palavras para externar o nosso pensamento.

Tal experiência não é aquela que corresponde às nossas expectativas, confirmando-as. Não é aquela que é vista como experimento científico, tendo o seu sentido atrelado à repetição, que produz inúmeras vezes o mesmo resultado. É aquela que, ao frustrar as nossas expectativas, faz com que percebamos que algo não é como imaginávamos. Não no aspecto de um engano que é visto e corrigido, mas na compreensão de que isto representa um novo horizonte de sentido e visão, que inexoravelmente nos transforma.

Toda compreensão parte, linguisticamente, daquilo que somos, da nossa postura de abertura com relação ao outro, ao diferente de mim que me confronta imprevisivelmente e me incita a pensar e a discernir a respeito desta situação.

De acordo com Heidegger (2014), quando não estamos tomados pelo modo inautêntico de ser, o modo fundamental de compreensão implica na tomada da linguagem como constituinte do próprio Dasein, histórico e finito, como um lugar onde a linguagem pronta e decorada se ausenta; lugar em que a própria linguagem acena ao seu acontecimento, seu desvelamento; o lugar mais autêntico de criação.

A linguagem lógica e a linguagem científica passam longe do que é mais originário e primordial: a questão do ser. Isso porque a proposição declarativa supõe determinações categóricas e uma postura explicativa, controladora, redutora do ente. Tal postura é imprópria e inautêntica por ser tomada como o único modo correto de abordar a linguagem.

Assim, a hermenêutica da facticidade implica um questionamento em que a compreensão supõe compreensão de algo e compreensão de si, i.e., do próprio Dasein que questiona. Tal compreensão, em seu modo mais autêntico, acontece, primariamente, no lidar com algo. A fenomenologia hermenêutica de Heidegger (2014) traz à luz a noção de logos como desvelamento, grifando sua pertença à linguagem como o lugar em que o humano habita, em sua finitude.

1Tomando como pano de fundo a hermenêutica filosófica gadameriana, ligada de modo fundamental à filosofia heideggeriana, utilizaremos o termo compreender como equivalente ao termo Verstehen, utilizado tanto por Gadamer quanto por Heidegger.

2Conforme Gadamer, "A ingenuidade do que chamamos de historicismo consiste em que, evitando esse tipo de reflexão e confiando em sua metodologia, acaba por esquecer sua própria historicidade". A pressuposição ingênua do historicismo era a exigência de se transferir para o espírito da época, de se pensar com os conceitos e representações da época e não com os próprios e, desse modo, forçar uma passagem para a objetividade histórica (GADAMER, 2002, p.81).

3"Fazer a experiência de alguma coisa significa: a caminho, num caminho, alcançar alguma coisa. Fazer uma experiência com alguma coisa significa que, para alcançarmos o que conseguimos alcançar quando estamos a caminho, é preciso que isso nos alcance e comova, que nos venha ao encontro e nos tome, transformando-nos em sua direção" (HEIDEGGER, 2003b, p.137).

REFERÊNCIAS

GADAMER, H-G. Verdade e método. Trad. Flávio Paulo Meurer, revisão da tradução de Enio Paulo Giachini. 13. ed. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2013. [ Links ]

GADAMER, H-G. Verdade e método II: complementos e índice. Trad. Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista, SP: Editora Universitária São Francisco, 2002. [ Links ]

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HEIDEGGER, M. Os conceitos fundamentais da Metafísica: mundo, finitude, solidão. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003a. [ Links ]

HEIDEGGER, M. A caminho da linguagem. Petrópolis: Vozes ; Bragança Paulista, SP: Editora Universitária São Francisco, 2003b. [ Links ]

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TESTA, E. Hermenêutica filosófica e história. Passo Fundo: UPF, 2004. [ Links ]

Recebido: 22 de Outubro de 2018; Aceito: 13 de Fevereiro de 2019

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