SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.15 issue1Between Hidden and Open PolemicsBetween the Decent and the Precarious: A Biopolitical Framework of Women in Journalistic Photographs about the Bolsa-Família Program author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso

On-line version ISSN 2176-4573

Bakhtiniana, Rev. Estud. Discurso vol.15 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2020  Epub Nov 28, 2019

https://doi.org/10.1590/2176-457341595 

ARTIGOS

“É verdade este bilete”: relações dialógicas e(m) discurso no ciberespaço

Eliane Fernandes Azzari* 
http://orcid.org/0000-0003-3861-0712

Maria de Fátima Silva Amarante** 
http://orcid.org/0000-0003-2787-9003

Eliane Righi de Andrade*** 
http://orcid.org/0000-0003-4610-4262

*Pontifícia Universidade Católica Campinas - PUC-Campinas, Programa de Pós-graduação em Linguagens, Mídia e Arte, Faculdade de Letras, Câmpus I, Campinas, São Paulo, Brasil; https://orcid.org/0000-0003-3861-0712 ; elianeazzari@terra.com.br

**Pontifícia Universidade Católica Campinas - PUC-Campinas, Programa de Pós-graduação em Linguagens, Mídia e Arte, Faculdade de Letras, Câmpus I, Campinas, São Paulo, Brasil; https://orcid.org/0000-0003-2787-9003 ; fatimaamarante@uol.com.br

***Pontifícia Universidade Católica Campinas - PUC-Campinas, Programa de Pós-graduação em Linguagens, Mídia e Arte, Faculdade de Letras, Câmpus I, Campinas, São Paulo, Brasil; https://orcid.org/0000-0003-4610-4262 ; elianerighi@terra.com.br


RESUMO

Este artigo contempla nosso estudo de práticas socioculturais que demonstram que/como o sujeito contemporâneo dialoga online com enunciados advindos de acontecimentos do universo off-line. Nosso corpus apresenta postagens circuladas publicamente em páginas diversas no Facebook em que se lê: “É verdade esse bilete”. A afirmativa, proveniente de um bilhete escrito por uma criança em sua esfera familiar e divulgado em redes sociais, foi (re)apropriada por múltiplos interlocutores no ciberespaço a fim de produzir efeitos de humor e(m) dizeres contraditórios em diferentes instâncias discursivas. Para a análise, recorremos a elementos constitutivos do dialogismo de proposição bakhtiniana; aos conceitos de meme e remix e às discussões foucaultianas acerca da vontade de verdade. Nossas interpretações apontam que é possível rastrear, nas réplicas ativas analisadas, posições axiológicas que nos remetem ao sujeito contemporâneo, o qual, usando a ironia e(m) efeitos de humor, constitui/compartilha enunciados no intuito de estabelecer sua vontade de verdade na ágora digital.

PALAVRAS-CHAVE: Dialogismo; Discurso; Sujeito contemporâneo; Tecnologias digitais

ABSTRACT

This paper presents a study of sociocultural practices that exemplify how subjects interact online with offline events. We analyse selected posts collected from social media profiles supported by Facebook. Each excerpt shows the affirmative “It’s true this notte,” a rough translation of a written message addressed by a four-year-old Brazilian boy to his mother stating that there would “supposedly” be a school holiday the following day. The note went viral after his teacher posted it publicly on her social media timeline and the reassuring assertion was (re)appropriated multiple times in the cyberspace so as to as trigger a humour effect in different discourse instances. Grounded on the concepts of meme; remix; Bakhtinian dialogism and Foucauldian’s ideas on truth, we perform a discursive analysis. Our results point to track marks of axiological positions of contemporary subjects that resort to irony to construct/share utterances in order to establish their will to truth in the digital landscape.

KEYWORDS: Dialogism; Discourse; Contemporary subject; Digital technologies

Considerações iniciais

Língua(gem), sujeito e sociedade são conceitos que operam em interface, de modo que, a fim de estudá-los, é preciso recorrer a um olhar integrador. Por conseguinte, interessadas em conhecer sujeito(s) e(m) discursos nos dias presentes, propomos abordar o tema por intermédio da análise de práticas socioculturais, orientando-nos pelo viés do dialogismo.

Apoiadas em Bakhtin (2018, p.207-208), entendemos que é no campo discursivo que se encontram as “relações dialógicas” que, sendo constitutivas, denotam ao discurso o caráter de “língua em sua integridade concreta e viva”. Como esclarece o estudioso russo, a “vida do discurso” é “fenômeno concreto, muito complexo e multifacético” (BAKHTIN, 2018, p.207).

Na atualidade, percebemos a “vida do discurso” hibridizada em tempos-espaços digitais e, portanto, entendemos que os “atos” - no sentido proposto nas/pelas discussões bakhtinianas (BAKHTIN, 2017a) - sejam igualmente permeados por um ir e vir do sujeito entre universos off-line (que entendemos como tempos-espaços da realidade de vivência num mundo presencial, assíncrono, analógico; da materialidade dos corpos e encontros físico-presenciais) e online (que dizem respeito à vivência digital, síncrona, ubíqua e materializada nos/por algoritmos e arquiteturas do ciberespaço).

Como sugerem Barton e Lee (2015), cabe sempre destacar o papel central que a língua(gem) ocupa nas reconfigurações comunicativas, nas formas interativas e de (inter)relacionar-se que caracterizam os dias presentes. Em concordância com esses autores, entendemos que “[...] muitos pesquisadores estão cientes de que noções de interação, como tomada de turno e face a face, funcionam de maneira diferente com os dados online” e é também junto com Barton e Lee (2015, p.13; ênfase em itálico adicionada pelos autores) que acreditamos que “noções de autor e público tornam-se ainda mais complexas” quando a vida discursiva é contextualizada em/por ambientes digitais.

Ademais, acreditamos que as proposições de Bakhtin e do Círculo acerca do dialogismo que permeia os discursos e(m) suas concretudes continuam sendo aporte pertinentemente útil para o estudo e o entendimento do sujeito, da sociedade e das relações culturais contemporaneamente estabelecidas em meio (a um universo) digital.

Por conseguinte, pensamos que a exploração de paisagens digitais, termo que empregamos a exemplo do que fazem Blommaert (2016) e Ivković (2012), nos permite acessar enunciações1 que - por suas relações dialógicas, somadas a outros aspectos, tais quais os que pertencem ao campo linguístico -, marcam percursos traçados pelo sujeito e(m) construção da linguagem. Essas orientações nos permitem acreditar que seja possível identificar e (re)conhecer esse sujeito que, engajado em práticas socioculturais, indicia atos de resposta à palavra do outro, já que tais relações “[...] devem personificar-se na linguagem, tornar-se enunciados, converter-se em posições de diferentes sujeitos expressas na linguagem [...]” (BAKHTIN, 2018, p.209).

Nesse contexto, este artigo contempla nosso estudo de manifestações discursivas que, situadas em paisagens digitais, carregam trajetos e implicações de enunciados advindos do diálogo que o sujeito contemporâneo tece ao posicionar-se axiologicamente, em réplica ativa a acontecimentos que passam a navegar na interface entre os universos off-line/online.

Nossa busca por conhecer tal percurso/encadeamento enunciativo é realizada por meio de pesquisa qualitativa e recorre à análise de discursos circulados em tempos-espaços síncronos e públicos. Somos, assim, orientadas por uma visão social, histórica e dialógica de língua(gem). À vista disso, usando a ferramenta de busca disponível na plataforma Facebook2, selecionamos postagens encontradas em páginas diversas desse site adotando como critério de busca a afirmativa “é verdade esse bilete” e/ou “bilete”3. Via de regra, esses termos foram encontrados na nomeação de páginas de perfis públicos e/ou na composição de memes, como recurso para gerar efeitos de humor.

A afirmativa “é verdade esse bilete” advém de um ato sui-generis desempenhado por uma criança em esfera familiar (universo off-line) e foi, posteriormente, divulgada por uma de suas professoras em suas redes sociais digitais (universo online), tornando-se bastante popular e inumeravelmente (re)apropriada. O evento foi, inclusive, tema de notícias divulgadas em mídias jornalísticas4.

Como critério para seleção do corpus, estabelecemos a escolha de postagens que constam como “públicas”, em páginas de perfis que circulam no Facebook. Selecionamos enunciados que, a nosso ver, possibilitam a investigação em acordo com nossos objetivos, ou seja, produções que nos permitem observar marcas de diferentes posições enunciativas do sujeito nos dias correntes, constituídas por seu ato de dialogar ativamente com o discurso de outrem.

Acreditamos, então, que os excertos compilados para a composição de nosso corpus possam ser analisados de forma a trazer à tona “[..] discurso, ou seja, enunciado e ganhar autor, criador de dado enunciado cuja posição ele expressa [..]” (BAKHTIN, 2018, p.210; ênfase em itálico pelo autor), de forma que possamos (re)conhecer um tanto mais (d)esse sujeito contemporâneo e(m) práticas sociais.

Nossa análise conta também com as observações que fazem Knobel e Lankshear (2008) em relação ao conceito de remix e as proposições de Komesu, Gambarato e Tenani (2018) referentes ao meme. Nessa discussão, acataremos remix como recurso estratégico (que marca o estilo) e meme como gênero discursivo. Da maneira como vemos, esses dois elementos são mobilizados pelo sujeito para a concretização enunciativa nas interações discursivas e para gerar efeitos de sentido que recorrem ao humor no estabelecimento do discurso polêmico e/ou contraditório.

A seguir, expandimos a revisão das discussões teóricas que aportam nosso dispositivo analítico para, então, tecer nossa leitura do corpus selecionado.

1 Um olhar sócio-histórico e dialogicamente orientado para o sujeito e a língua(gem)

Sob a perspectiva bakhtiniana, o conceito de dialogismo pode ser visto como um modo de entender a vida. Em diversos e diferentes momentos e discussões, Bakhtin e o Círculo preocupam-se em focalizar as relações humanas estabelecidas por intermédio da/com a linguagem e a sociedade.

Em seu ensaio O discurso no romance, Bakhtin (2015) explora a heteroglossia no discurso (não só do romance, mas também do cotidiano), posicionando-a contrariamente a visões linguísticas homogeneizantes e monológicas. Dessa discussão, podemos inferir que, a fim de compreendermos o dialogismo na interface linguagem-ideologia-sociedade, é necessário entender que “o discurso é concebido como fenômeno social - social em todos os campos da vida e em todos os seus elementos, da imagem sonora às camadas semânticas abstratas” (2015, p.21).

A busca para a compreensão das formas pelas quais e/ou em que condições os sentidos são produzidos, leva-nos, assim, ao que se encontra extraposto ao domínio exclusivo da palavra (código linguístico) que, sob tal abordagem, não mais se apresenta fechada, monolítica ou encarceradora de sentidos e/ou significados estáveis e estabilizadores. Aliás, como esclarece Bakhtin,

[...] o enfoque dialógico é possível a qualquer parte significante do enunciado, inclusive a uma palavra isolada, caso esta não seja interpretada como palavra impessoal da língua, mas como signo da posição semântica de um outro, como representante do enunciado de um outro, ou seja, se ouvirmos nela a voz do outro (BAKHTIN, 2018, p.210).

A partir de éticas e estéticas outras, Bakhtin e o Círculo nos informam que adotar a visão dialógica implica compreender que, mais do que um conjunto de regras unificadoras, a linguagem (termo que amplia o conceito para além da ideia de expressão unicamente verbal) está submersa nas “forças criadoras da vida da língua” (BAKHTIN, 2015). Ou seja, nessa perspectiva, para além dos elementos de um sistema organizador estruturante, a linguagem é tratada como um conjunto que, conquanto movido por forças internas centralizadoras (i.e., regras linguísticas subjacentes à língua e que tornam possível a identificação em comum de um código por seus falantes), é igualmente afeito a forças externas que dizem respeito ao universo saturado por potências provenientes de diferentes esferas da vida ideológica. A relação entre essas forças (centrípetas e centrífugas) é bilateral e de mútua influência.

Dedicando-se às questões pertinentes aos gêneros do discurso, Bakhtin (2016) retoma a premissa de que para estudar a linguagem é preciso situá-la no campo das práticas sociais, das pluralidades que se encontram em interface com as atividades humanas, a “comunicação/interação discursiva” (termos que adotamos apoiadas nas traduções de Bezerra (BAKHTIN, 2016). Conforme esclarecem Grillo e Américo (2017), Bakhtin e o Círculo tratam “do uso concreto da língua em uma situação social mais próxima e em um meio social mais amplo, resultando no enunciado” (BAKHTIN, 2017b, p.201; nota das tradutoras).

De acordo com Bakhtin (2016, p.117), é em meio a diversos e ilimitados campos da vida social que “[...] a linguagem torna possível a vida discursiva, e por outro, ela mesma é influenciada por ela”. De tal forma, novas formas de expressão, lexicais e gramaticais, bem como fraseologias, por exemplo, surgem em interações discursivas, histórica e socialmente situadas. Por esta razão, entendemos que se justifique nosso interesse em pesquisar discursos que têm em comum a apropriação que fazem da afirmativa “É verdade esse bilete”.

Nessa mesma direção, ainda apoiadas nas discussões bakhtinianas, entendemos que:

[...] Discurso é a língua in actu. É inadmissível contrapor língua e discurso em qualquer que seja a forma. O discurso é tão social quanto a língua. As formas do enunciado também são sociais e, como a língua, são igualmente determinadas pela comunicação (BAKHTIN, 2016, p.117).

Ainda ao tratar dos gêneros e insistindo que as ideias de pluralidade e de heterogeneidade discursivas em nada contradizem “a unidade nacional de uma língua”, Bakhtin (2016, p.11) ressalta o papel dos gêneros do discurso na organização de usos “multiformes” da linguagem, nos igualmente múltiplos campos da atividade humana. Esclarece-nos esse estudioso que em cada um desses “campos” as interações entre os participantes são organizadas em/por enunciados, empregados de forma oral ou escrita. Formas únicas e concretas de que lançam mãos os interlocutores, em acordo com as especificidades e fins de campo em que se encontram, os enunciados apresentam conteúdo (temático), estilo e construção composicional - os três elementos fundamentais que os caracterizam. Bakhtin (2016, p.12) informa que esses componentes “estão indissoluvelmente ligados no conjunto do enunciado” (ênfase em itálico adicionada pelo autor). A esta definição, o pesquisador acrescenta que

[e]videntemente, cada enunciado particular é individual, mas cada campo de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, aos quais denominamos gêneros do discurso (BAKHTIN, 2016, p.13; ênfase em itálico adicionada pelo autor).

Cabe lembrar que, ao contrário do sujeito cartesiano que “é” ao/por pensar, o sujeito dialógico proposto nas discussões bakhtinianas “torna-se”, ao dialogar. Inacabado, marcado por infinita incompletude, o sujeito dialógico nunca se emudece. De tal forma, “eu vivo em um mundo de palavras do outro. E toda a minha vida é uma orientação nesse mundo; é reação às palavras do outro [...]” (BAKHTIN, 2011, p.379).

Esse é, portanto, um sujeito ativamente replicante, cujo ato de tornar-se, em comunicação discursiva, é permeado por interdiscursividades, movido pela relação eu-outro, que é bidirecional e constitutiva do ser. No exercício da alteridade, propiciado pelo engajamento de (inter)locutores em interações discursivas, o sujeito constitui a si enquanto constrói a língua(gem), afetando e sendo afetado pelas práticas e relações sociais que (e em que se) estabelece. De tal forma, fadado ao inacabamento, o sujeito bakhtiniano carece do diálogo, do estabelecimento do ouvir e responder, a fim de buscar aquilo que, de seu próprio (e único, singular) lugar, não consegue enxergar.

2 O discurso de outrem e a respondibilidade: a palavra em diálogo e o humor

No âmbito do dialogismo, a compreensão, enquanto processo, é vista como uma tomada de posição ativa e dialogada entre interlocutores que “[...] encontram-se num novo, num terceiro mundo, no mundo dos contatos; dirigem-se um ao outro, entram em ativas relações dialógicas [...]” (BAKHTIN, 2016, p.113). Nesse sentido, como esclarece Ponzio (2017) ao tratar dos escritos filosóficos de Bakhtin sobre o ato responsável

[...] “Postupok” é um ato, de pensamento, de sentimento, de desejo, de fala, de ação, que é intencional, e que caracteriza a singularidade, a peculiaridade, o monograma de cada um, em sua unicidade, em sua impossibilidade de ser substituído, em seu dever responder, responsavelmente, a partir do lugar que ocupa, sem álibi e sem exceção [...] (PONZIO, 2017, p.10).

Enfatizando a originalidade acerca das maneiras pelas quais se poderia falar em sujeito do discurso nas relações dialógicas, no ensaio O problema do texto na linguística, na filologia e em outras ciências humanas, Bakhtin (2011, p.326) afirma sua visão da “compreensão como diálogo”, como ato responsivo, uma réplica ativa a enunciados passados e predecessora daqueles em devir. Reforçando a ideia de que o ato, a réplica, constrói enunciado “novo e singular” que “sempre cria algo que não existia antes dele [...] e que ainda por cima tem relação com o valor”, Bakhtin ressalta a posição enunciativa em encadeamento (inter)discursivo, remetendo inexoravelmente ao discurso de outrem, já que

[a]lguma coisa é sempre criada a partir de algo dado (a linguagem, o fenômeno observado da realidade, um sentimento vivenciado, o próprio sujeito falante, o acabado em sua visão de mundo, etc.). Todo o dado se transforma em criado (BAKHTIN, 2011, p.326).

As considerações acerca do “ato” são marcadas pela singularização, a distinção que torna cada evento único e que demanda do sujeito responder a, enquanto, inevitavelmente, torna-se responsável por sua resposta. Sendo essa uma condição inerente, como ilustra Ponzio supracitado (2017), não é permitido ao sujeito encontrar brechas a fim de escapar de sua tarefa responsiva. Por conseguinte, acreditamos que, ao “tornar-se”, o sujeito deixa rastros nos/por seus enunciados. Dessa lógica advém acreditarmos que, ao examinar discursos/enunciações, podemos nos aproximar do sujeito interlocutor/enunciador - conquanto essa seja uma aproximação igualmente dialógica e, por isso, parcial, uma vez que somos limitadas pela visão restrita ao/do local em que nos encontramos.

Por outro lado, ainda que um dado enunciado sempre seja patentemente singular, Bakhtin (2011, p.327-328) relembra que “a palavra (em geral qualquer signo) é interindividual” e, por isso, é preciso lembrar que as relações dialógicas, assim como as que incitam efeitos de humor nos remixes, memes e paródias, são instâncias em que “[...] se encontram posições integrais, pessoas integrais”, conquanto a expressão do dito extrapole os limites do falante, porque

[...] a palavra não pode ser entregue apenas ao falante. O autor (falante) tem os seus direitos inalienáveis sobre a palavra, mas o ouvinte também tem os seus direitos; têm também os seus direitos aqueles cujas vozes estão na palavra encontrada de antemão pelo autor (porque não há palavra sem dono). A palavra é um drama do qual participam três personagens (não é um dueto, mas um trio) (BAKHTIN, 2011, p.328).

Da seleção que fizemos para fins de análise neste trabalho, destaca-se o humor como recurso discursivo. Entendemos que tanto a polêmica quanto as paródias caracterizam “[...] sobreposições de sentido sobre o sentido, da voz sobre a voz, identificadas pela fusão (mas não identificação), combinação de muitas vozes” (BAKHTIN, 2011, p.327).

Construções discursivas caracterizadas como humorísticas nem sempre, necessariamente, destinam-se ao riso, como pontua Brait (2014). Essa autora esclarece que o humor, enquanto estratégia discursiva, caracteriza uma espécie de “jogo” que marca tensões entre o que se diz, o que se quer dizer e a maneira como é dito. Brait sugere que se perceba o humor “como categoria ampla, ainda que objetivado como traço revelador de um ponto de vista, um olhar sobre o mundo” (2014, p.13).

O sujeito enunciador que lança mão do humor como recurso ao incorporar discursos alheios, recuperando o já-dito de outrem, requer de seu interlocutor a capacidade de atentar para “contradições” decorrentes de um desequilíbrio proposital, discursivamente insuflado, entre “as dimensões” do que é dito neste (singular) enunciado de que se faz sujeito-autor, e a forma pela qual faz esse dizer. Como pontua Brait, tal “jogo” é estabelecido pelo enunciador “[…] com objetivos de desmascarar ou subverter valores, processo que necessariamente conta com formas de envolvimento do leitor, ouvinte ou espectador” (BRAIT, 2014, p.140). Esse é um movimento discursivo que encontra apoio na apropriação direta da palavra-alheia, tornando-a palavra-própria para expressar a ambivalência entre o que o enunciador está dizendo e o que de fato deseja dizer.

Nem sempre tratada como discurso citado (como se verá nos excertos analisados mais adiante neste texto), a voz autoral do enunciado apropriado permanece como indício ambivalente de que se quer contrapor o dito com o não-dito ao fazer-se alusão ao discurso de outrem. Desta forma, a constituição do humor como efeito de sentido pretendido pode requerer do interlocutor (o intérprete replicante ao enunciado) certo repertório discursivo. Ou não.

Uma das importantes características dos gêneros circulados em paisagens digitais - e, no caso específico desta discussão, (re)produzidos no âmbito das redes sociais síncronas - é o distanciamento da voz autoral, do sujeito-enunciador do(s) discurso(s)/enunciado(s) que se encontra(m) em interface no enunciado singularmente (re)construído.

Relembrando o que informa Bakhtin (2011), a fusão de vozes nem sempre resultará, necessariamente, em sua distinção, identificação. Nesse trabalho, entendemos que o meme, por exemplo, se torna um gênero digitalmente situado em que, ao remixar diferentes discursos (muitas vezes apoiando-se em multimodalidade e múltiplas semioses), a palavra-alheia pode, por fim, ser tomada para a construção de sentidos outros, distanciando-se sobremaneira de suas condições de produção anteriores, chegando-se ao ponto em que o interlocutor do enunciado presente sequer tenha (ou precise ter) noção do que essa palavra, dialogicamente relacionada, outrora implicou / protagonizou. Pode haver ou não, portanto, o apagamento de condições de produção do discurso/enunciado (re)apropriado.

Dessa forma, movemos este estudo para o contexto de produção e a caracterização dos enunciados com que estabeleceremos diálogo.

3 O ciberespaço é a ágora: meme e remix e(m) manifestações socioculturais

Na Grécia Antiga, Atenas era conhecida como um importante centro urbano que se tornou tão economicamente próspero quanto caótico ao atrair enorme fluxo migratório graças a sua prosperidade. Crescendo de forma desordenada, Atenas abrigava um amontoado de prédios e cidadãos advindos de zonas rurais que abarrotavam a cidade. Nesse contexto, floresceu um ponto de encontro público que, em pouco tempo, após a construção de uma arena concreta e fixa, se tornaria estável e permanente.

Ágora, a praça pública grega, era um lugar destinado ao debate e às discussões sociais, econômicas e políticas. É comumente descrita como um espaço politizado, por se tratar do berço de decisões democráticas que afetariam aquela sociedade como um todo. Etimologicamente derivada de agorien - palavra usada para se referir à discussão, deliberação e/ou tomada de decisão -, a ágora grega não foi a única a surgir na Antiguidade e, com o passar do tempo, as atividades previstas para acontecer naquele espaço foram deslocadas para outras áreas igualmente públicas. Interessa-nos, porém, destacar que essa ágora era um lugar reservado tanto para os negócios quanto para a socialização, uma vez que “[...] homens livres iam até lá não somente para realizar transações comerciais ou atuar como jurados, mas também para conversar e ficar à toa, um hábito mencionado com frequência por poetas cômicos [...]”, como informa a Enciclopédia Britânica Online (nossa tradução)5.

Agrada-nos pensar na ágora como metáfora para o ciberespaço - ou vice-versa - um lugar, tempo-espaço, propiciador de discussões e debates, negociações e entretenimento.

Prenhe de recursos midiáticos e suas propriedades - tais quais a sincronia e a ubiquidade, providos pela Internet e a rede mundial de computadores (a World Wide Web); a gratuidade e a mobilidade digital -, o ciberespaço assume papel semelhante ao que ocupava a praça pública grega. Essa ágora contemporânea, contextualizada e constituída em paisagem digital, seria, supostamente, lugar para vazão de pluralidades e diversidades (culturais, de linguagens e identidades), oportunizando o encontro e a manifestação de cidadãos provenientes das mais diversas origens e posição sociais.

Nesse sentido, encontramos apoio em Blommaert (2016), que afirma que as paisagens digitais podem ser vistas como um cenário urbano expandido em que acontece boa parcela dos embates/das interações sociais de que partilhamos e aos/às quais, inúmeras vezes, presenciamos. O ciberespaço, com seus recursos e propiciações, torna-se, pois, a arena pública em que as interações dão fluxo a “[...] economias comunicacionais em todos os níveis da vida social, e da metrópole para as margens mundiais”, como aponta Blommaert (2016, s/p). Por fim, vemos que a ágora se encontra hoje como uma arena digital, palco em que o sujeito dos dias correntes realiza, constrói, manifesta, representa, e constitui a si/outrem, nas relações dialógicas e dialogadas que estabelece, nos embates das diferentes forças e reações de poder que, no caso específico abordado neste texto, são manifestadas em interações discursivas ambientadas em redes sociais.

Ao lançar nosso olhar investigativo sobre a “ágora digital”, acreditamos que seja possível, portanto, (re)conhecer traços do sujeito, da sociedade e(m) seus discursos. Destarte, dois aspectos merecem nossa atenção: o meme, enquanto um gênero que marca práticas presentemente difundidas em redes sociais digitais, e o remix, como recurso (de estilo) que aparece na constituição do gênero meme.

O meme, aqui tomado por gênero, pode ser entendido como um fenômeno cultural que movimenta ideias com apoio em textos multimodais e nos recursos de construção, compartilhamento e rápida circulação oferecidos pelos ambientes digitais. Apoiadas em Knobel e Lankshear (2007), Komesu et al (2018, p.2) abordam o papel do meme, no campo da linguagem e comunicação como um dos meios pelos quais interlocutores constroem sentidos, interagem e produzem conhecimento. Essa abordagem requer ampliar noções de texto e (re)pensar o letramento nos dias atuais.

Assim como fazem Komesu et al (2018, p.3) e Azzari (2018), também nós entendemos que seja proveitoso, para fins deste estudo, observar o meme sob orientação do dialogismo bakhtiniano. O tratamento que Bakhtin (2011; 2016) e Volóchinov (2017), por exemplo, dão à palavra e ao encadeamento enunciativo nos permite examinar o meme como um gênero que remonta à vida concreta da língua(gem) e, por conseguinte, é marcado pelos rastros do sujeito (inter)locutor que, se (re)apropriando da palavra alheia, se manifesta por/em redes sociais via produção/circulação desses memes.

Como esclarece Azzari (2018, p.495), os memes são marcados por incluir fotos, imagens estáticas de cenas de vídeos diversos, de pinturas, gravuras e trechos extraídos de obras literárias, entre outros. Assim, entendemos que o meme pode ser visto como réplica ativa, dialogada, que marca o ato do sujeito-autor que se constitui na alteridade, estabelecendo relação dialógica com a palavra do outro. A estética do meme em paisagem digital tem base heteroglóssica, remonta ao encontro de vozes e, compilando textos outros, cria texto escancaradamente híbrido, já em seu berço. Esse processo estético, de forma/estilo marcadamente hibridizados, é maximizado pelo uso de um dos diversos recursos disponibilizados (e facilitados) em contexto digital: o remix.

Conquanto a mistura de gêneros, modos e semioses preceda o advento da internet e dos tempos-espaços digitais, pensamos como Knobel e Lankshear (2008, p.22) que o remix da era digital tenha se tornado uma prática sociocultural que deve ser observada por sua relevância enquanto prática letrada que trouxe novos contornos às tarefas de ler e escrever.

Apoiando-se nas ferramentas computacionais que permitem buscar, salvar, editar, recortar e colar, o sujeito-autor da atualidade se torna um bricoleur digital. Este é um procedimento que marca posições enunciativas do sujeito em relações dialógicas que, a exemplo do que sugere Bakhtin (2011, p.326), o sujeito-autor/enunciador “cria” a partir do que já “lhe foi dado”, estabelecendo a leitura/interpretação do enunciador e encadeando enunciados (e, portanto, diálogos) outros. Nesse processo interdiscursivo e intersubjetivo, a língua(gem) afeta e é afetada em interações que (re)velam a pluralidade inata dos fenômenos culturais, como sugere nossa análise, para a qual também recorreremos a alguns aspectos presentes nas discussões foucaultianas na elaboração de nosso dispositivo teórico-analítico.

4 Apropriações do “bilete” e suas implicações para esta discussão

Trazemos, como primeiro excerto que constitui o corpus desse artigo, o bilhete que originou as inúmeras apropriações discursivas, entre as quais algumas que elencamos na análise. De fato, apresentamos sua captura já na rede, quando passou então a ser conhecido e compartilhado no universo online, tornando-se o “dado”, enunciado que encadeia uma quantidade enorme de enunciados outros.

Gabriel Lucca - um menino de cinco anos, morador do pequeno município de Bocaina, em São Paulo - resolveu escrever e entregar um bilhete para sua mãe porque não queria ir à escola no dia seguinte. A Fig.1 apresenta uma captura de tela da postagem em Facebook, circulada pubicamente no perfil da professora de Gabriel, que difundiu o inusitado bilhete, que lhe fora encaminhado pela mãe da criança.

O ato (a escrita do bilhete, a ação de entregá-lo à mãe, estabelecendo interação discursiva) marca uma prática social situada no universo off-line e um gênero presente na vida cotidiana. O “bilete” desse jovem enunciador nos informa que, aos cinco anos de idade, Gabriel não somente já está alfabetizado (tem acesso ao código linguístico e sabe, em acordo com sua tenra idade, ler e escrever), mas também é letrado nos usos sociais de bilhetes (neste caso específico, bilhetes que circulam mensagens entre as esferas escolar e familiar). O letramento em questão indica que Gabriel entende as funções do gênero nesse contexto e sabe dele se (re)utilizar e (re)conhece condições de produção tais quais o endereçamento de seu enunciado ao interlocutor pretendido, no caso sua mãe. O menino indica, também, perceber o funcionamento das relações de poder estabelecidas entre enunciador e leitor-alvo (respectivamente professora e mãe), quando decide assegurar a “validade” de seu discurso ao afirmar “é verdade esse bilete”.

Primeiramente, a fim de dar início à análise desse exemplar (Fig. 1), acreditamos que seja pertinente estabelecer breve diálogo com o conceito foucaultiano de verdade (trabalhado diversas vezes ao longo da obra desse autor). Para Focault, a verdade se refere ao “conjunto de procedimentos que permitem a cada instante e a cada um pronunciar enunciados que serão considerados verdadeiros” (FOUCAULT, 2006, p.233), não porque de fato representem a verdade, mas por que indicam as condições de um regime de verdade que é validado como tal pelas condições sócio-históricas, ou seja, marcado por um tempo e espaço e por quem pode falar, isto é, está autorizado e legitimado pela ordem do discurso. Portanto, a verdade é determinada pelas relações de poder e é sancionada pelas instâncias de controle do saber e, consequentemente, do dizer, que se localizam em diferentes instâncias sociais, como a escola e a família, instituições presentes no interdiscurso que habita o enunciado em questão.

Partindo para uma análise da materialidade linguística do texto, identificamos inicialmente, no universo off-line em que é produzido, o gênero discursivo bilhete (escrito). Nessa instância, temos elementos que põem a funcionar e, ao mesmo tempo, questionar os jogos de verdade aos quais os enunciados estão submetidos. Primeiramente, temos alguns aspectos visuais que vêm a questionar a “veracidade” do bilhete: embora tal gênero seja do cotidiano, informal, ainda assim a caligrafia feita em letra bastão (não em cursiva), bem como a ortografia, revelam um enunciador que, embora letrado, esteja em fase de alfabetização (paes, bilete), o que põe em dúvida ser a professora a enunciadora, uma vez que esta representa a instituição escolar e, em seu nome, seria a responsável pela divulgação da informação de “ser feriado” o próximo dia. Esse fato também causa estranhamento, pois o calendário acadêmico é preparado pela Escola (instituição) e se faz conhecido e compartilhado com os pais com antecedência. A rasura que nele aparece é um outro indício dessas “flutuações” no campo da norma, uma vez que a professora estaria se dirigindo aos pais dos alunos (outra instituição à qual o pequeno Gabriel está submetido) e, portanto, provavelmente não cometeria um deslize desse tipo num documento, ainda que coloquial, a ser enviado aos pais.

Há outros indícios linguísticos que põem em dúvida a “veracidade” do bilhete, entendida como uma “vontade de verdade”, construída por meio de um suporte e de uma distribuição institucional, como postula Foucault (2002, p.18). Gabriel, em nome da professora, assina como “Tia Paulinha”, tratamento afetivo pelo qual, provavelmente, os alunos se dirigem à professora. Este é, então, o indício que escancara a verdadeira “identidade” do enunciador. A modalização “desajeitada” que se estabelece na construção “Amanhã não vai ter aula porque pode ser feriado” sugere a certeza de não ter aula, mas a dúvida de que o dia seguinte seja realmente feriado, o que afeta a lógica no pensamento expressado: se fosse feriado, naturalmente não haveria aula, algo que a instituição escolar não colocaria em dúvida.

A necessidade ainda de reforçar o comunicado, inserindo à estrutura do bilhete praticamente um “P.S.” (post scriptum) com valor de assertiva (“é verdade esse bilete”), indica que o enunciador não parece estar muito seguro da “eficiência” de seu comunicado, aplicando-lhe um “valor maior” de veracidade e reforçando, portanto, a sua “vontade de verdade”, relacionada à produção de um sentido único (talvez de não ir à escola no outro dia).

De fato, essa enunciação irá, inesperadamente, desencadear uma variedade de outros sentidos captados em diferentes e múltiplos contextos de produção. Cada um desses novos enunciados, e seus sentidos pretendidos, funcionará inversamente na construção de uma verdade, já que, recorrendo à ambiguidade como propriedade da ironia (BRAIT, 2008, p.51), provocará uma avalanche de sentidos outros que escapam da pretendida objetividade do bilhete de Gabriel, estabelecendo com esse diferentes formas de interdiscursividade.

Notamos assim que, por um lado, é no uso dos procedimentos discursivos instaurados disciplinarmente pelas instituições que o bilhete deseja constituir sua “vontade” de verdade, instaurada pelas regras sociais que normatizam a vida de todo sujeito e do pequeno Gabriel. Por outro lado, notamos que o bilhete, na falência de se validar como “documento” de verdade, exatamente pela ruptura da compreensão total desse conjunto de regras, irrompe sentidos outros, que põem a questionar socialmente os tais “jogos de verdade” de forma irônica e com humor.

Se a ação do garoto, estudante em uma escola infantil municipal, espanta e chama a atenção pela esperteza, ousadia e o diálogo que esse sujeito conseguiu estabelecer apesar de sua pouca idade, não menos espantosa e significativa é a repercussão gerada pela postagem em rede social. Muitos são os desdobramentos decorrentes das (re)apropriações discursivas que inúmeros outros enunciadores fazem da afirmativa “É verdade esse bilete”, em diversificadas páginas e perfis em redes sociais aportadas pelo Facebook.

Cerca de oito dias após “viralizar” o bilhete de Gabriel através da sua postagem (representada pela Fig. 1), a própria professora recorre à afirmativa como concretude linguística e, talvez, como sugerem algumas das discussões resenhadas por Brait (2008), como marca de estilo. A fim de causar efeito de humor, a assertiva (re)aparece na composição de uma postagem publicamente circulada em seu perfil, via Facebook.

A Fig. 2 apresenta a réplica ativa construída pela professora ao dialogar com enunciados outros, resultantes do encadeamento a partir de interações discursivas de outrem com sua postagem inicial, representada na Fig.1. Na foto que compõe sua nova postagem, a professora aparece segurando um cartaz trasmutado em bilhete e endereçado à empresa Reebok Brasil6, fabricante de produtos para práticas esportivas. O cenário, aparentemente, é o de uma academia de exercícios em que a enunciadora praticaria a modalidade de treinamento esportivo conhecida por crossfit.

Fonte: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=1963919000313503&set=p.1963919000313503&type=3&theater. Acesso em 05 de fev de 2019.

Figura 2 Captura de Tela de postagem da professora de Gabriel. 

Usando ironia e recorrendo ao humor (e, neste caso, possivelmente ao riso), a professora estabelece relação dialógica com as réplicas que verteram a afirmativa do “bilete” em um recurso estilístico que materializa uma estratégia discursiva. Conquanto a postagem esteja selecionada à visualização como “pública”, o “bilete” da professora tem endereçamento marcado e objetivo explicitado. A enunciadora (sujeito-autor) afirma “necessitar” do par de tênis almejado, o que se justifica pelo fato de se declarar “amante de crossfit”. Do ponto de vista semântico, percebe-se o não-dito, ambiguidade constituída perlocutoriamente: o desejo de ganhar um par de tênis diretamente do fabricante. Neste sentido, é possível entender que a enunciação estabelece “[...] o interdiscurso, as diferentes isotopias que produzem o efeito irônico”, o que está “marcado por elementos bastante precisos do ponto de vista verbal e visual” (BRAIT, 2008, p.51).

A enunciadora posa para a foto sorrindo, como que brincando com a ideia de escrever um bilhete com canetão e papel sulfite, com as mesmas marcas de estilo/linguagem que aparecem na mensagem de Gabriel (o sublinhado em forma de espiral; a abreviação de assinado por “Ass.:”, a letra que vai diminuindo de tamanho, mostrando que o uso da espacialidade na escrita ainda está em treinamento).

A professora diz - mais ou menos em entrelinhas e (sub)vertendo a polêmica velada que marca as ironias - o que “de fato” quer dizer. Enquanto sujeito-autora, (re)toma para si o bordão “É verdade esse bilete”. Mas, desta feita, ela o faz com voz de autoridade, autoral e responsiva e, também, inexoravelmente responsável por seu ato (BAKHTIN, 2017a), o que se evidencia ao usar o advérbio “realmente” na tentativa de estabelecer (sua) verdade, legitimar seu discurso, validar seu enunciado - ou, como proposto nas discussões foucaultianas, sua “vontade de verdade” (FOUCAULT, 2002; 2006).

A Fig. 2. nos permite rastrear um sujeito contemporâneo, em prática situada e decorrente do âmbito digital, e(m) (suas) diferentes posições enunciativas. Seu enunciado presente faz menção a anteriores (tais quais o seu próprio, em que assume o papel social de professora abismada pela esperteza do jovem aluno que trouxe à ágora digital o acontecimento construído no universo off-line), e outros tantos diversos enunciados, decorrentes daquele, que tomaram o “dado” para criar enunciados outros, marcados pelo dizer-o-não-dito.

Por outro lado, a “presente” posição enunciativa, indiciada na análise da Fig. 2, indica um sujeito social que navega por paisagens digitais e que com elas dialogiza discursivamente a fim de comunicar um interesse pessoal sob as vestes da paródia humorística. Essa posição mostra que a própria enunciadora se torna um / parte de um meme. Remixando recursos verbo-imagéticos (fotografia de si mesma e texto verbal escrito), esse sujeito ressignifica o bilhete (ou, neste caso, o “bilete”) hibridizando gêneros como o cartaz, o anúncio e a mensagem postada em perfil pessoal de rede social. O texto verbal que descreve a “foto” que compõe essa postagem é o mesmo que se lê no “cartaz-bilhete”. Transcrito como se fora uma legenda, marca a distinção entre: a forma eleita para a escrita do ‘bilete’ que instaura uma foto-meme, e o sujeito-autor da “escrita da professora”, diferenciando posições enunciativas, bem como seus papéis sociais.

Dessa prática sociocultural situada na ágora digital, notamos também as relações que esse sujeito-que-virou-meme estabelece ao tomar por base a visibilidade proporcionada pela WEB e algumas de suas consequências, tais como: o reconhecimento público de sua imagem (resultante da notabilidade que ganhou a postagem representada na Fig. 1) e a repercussão que deseja alcançar com a paródia. Também percebemos aqui as representações que essa posição enunciativa permite fazer de si, de como o outro é visto e do que esse sujeito parece pensar acerca do potencial comunicativo-discursivo das relações sociais estabelecidas na ágora digital.

De tal forma, encontrando apoio em diferentes recursos digitais, os gêneros, esses enunciados “mais ou menos estáveis” e inumeráveis, de fato, são (re)configurados.

Como exemplo dessa transmutação/hibridação por que passou o bilhete, trazemos o perfil em rede social criado na plataforma Facebook, representado na Fig. 3 (que traz captura de tela de sua página inicial). A página / perfil “Bilete” surge, segundo informações disponíveis no site, em 03 de setembro de 2018, ou seja, cerca de quinze dias após a postagem feita pela professora (Fig. 1).

Disponível em: https://www.facebook.com/ehverdadi/. Acesso em 11 fev 2019.

Figura 3 Captura de tela da página inicial do perfil “Bilete”. 

Embora o perfil (autodescrito como página da categoria “interesse”) apresente postagens de paródias de formato e temática variadas, é possível notar logo de início, pela foto de capa do autor do perfil, que há uma vertente crítica, propensa a dialogar com discursos políticos. Na Fig. 3, podemos ver que uma “foto” de perfil foi criada a partir do remix de uma imagem (desenhada) da bandeira brasileira, estrategicamente sobreposta pelo recorte da assertiva “é verdade esse bilete”, materializada como um recorte feito com “copiar e colar” da (suposta) escrita infantil. A referência intertextual ao bilhete de Gabriel empresta certa ingenuidade ao tom sarcástico subentendido no jogo ambíguo entre os dizeres “Ordem e Progresso” e o efeito de sentido de humor, com base na ironia, aplicado ao bordão.

O sujeito assume aqui uma posição enunciativa que, ao endereçar o público em geral que pode acessar esse tipo de postagem, pressupõe de seu interlocutor (leitor) um pré-conhecimento dos usos pretendidos da forma “é verdade esse bilete”. Atentando-nos à leitura desse texto (a foto de capa do perfil “Bilete”) notamos, como apontado por Brait (2008, p.53), um esforço em direção ao “[...] trabalho interativo na construção da significação irônica, conforme a ideia de conhecimento partilhado”. Por conseguinte, concordamos com a pesquisadora quando informa que

[e]ssa visão se alinha à ideia de interferência de séries na medida em que, envolvidos pelas formações imaginárias, ideológicas e discursivas (cuja diferenciação em muitos momentos é apenas “didática”, “metodológica”), os interlocutores partilham conhecimentos a ponto de decodificar, constantemente ou não, as implicações, as sugestões que estão veiculadas [...] (BRAIT, 2008, p.53).

Portanto, talvez esse enunciador pretenda, como parte de sua estratégia discursiva, que a fusão de vozes, neste caso, carregue-se de polifonia, seja distinguível, de forma que seu interlocutor possa identificar o trio de “personagens” que protagonizam o “drama” das vozes em dialogismo na palavra, como sugerido por Bakhtin (2011, p.328) e, também, o fluxo social por que navegam os enunciados, como esclarecido por Volóshinov (2017).

O mesmo pode ser observado na Fig 4 , abaixo:

Disponível em: https://www.facebook.com/umabelabosta/photos/a.150854405357607/529659387477105/?type=3&theater. Acesso em 11 de fev de 2019.

Figura 4 Captura de Tela de postagem da página de entretenimento “Uma Bela Bosta”. 

De outra parte, a nomeação da página “Uma Bela Bosta”, em que se encontra a postagem em destaque na Fig. 4, encerra uma contradição (“bela” versus “bosta”) que também já nos dá indício de que seu conteúdo é crítico (em alguma medida), anarquista, e que seu tom é de deboche e/ou ironia. Ademais, marca na contradição a criticidade aos seus próprios conteúdos, que constituem sua vontade de verdade, o que é corroborado pelo enunciado “Se tá na internet, é porque é verdade.”, materialização de denúncia, já que (é) “uma bela bosta”.

O enunciado apresenta muitas hashtags, procedimento discursivo comum à ágora digital, o que denuncia o desejo de transbordamento da postagem e o estabelecimento do diálogo com uma multiplicidade de interlocutores (aqueles que vierem a utilizar mecanismos de busca para localizar conteúdos que digam respeito a qualquer uma destas hashtags). Esse ato nos remete, também, à ideia de “espetacularização do eu”, questão abordada por Sibília (2016), certamente facilitada pela/na ágora digital. Chamando a atenção para as narrativas digitais, a autora aponta “como se desdobra, nas telas interconectadas pelas redes digitais, todo o fascínio - e, às vezes também, o tédio e a irrelevância - de “a vida como ela é” ” (SIBÍLIA, 2016, p.104).

Pensamos que parte do desejo de ser visto/lido/espetacularizado exige que o sujeito mostre conhecer o que se passa na ágora digital e, dessa forma, a (re)configuração do “bilete” (que se encontra na Fig. 4) é réplica-ativa que faz parte do funcionamento do dispositivo de poder que obriga à repetição, à paródia, ao remix, ao meme, para que se possa compartilhar do processo de viralização que constitui os discursos e os sujeitos da contemporaneidade. A paisagem digital é, portanto, o espaço-tempo da mesmidade-outridade, do mesmo-outro inscrito na materialidade linguística, do mesmo-outro constitutivo do sujeito de nossos dias.

Por fim, gostaríamos de apontar que essa mesmidade-outridade (outra ética) se configura também por meio de processos estetizantes (outra estética). Assim, chama nossa atenção o efeito generalizante do uso do plural nessa postagem (Fig.4), marcado em “molieres” e “homis”. A mesma estetização, que marca o estilo no enunciado (re)apropriado, e se encontra no uso da letra-bastão, da escrita em papel branco, da presença da caneta hidrográfica, está presente na materialidade linguística que transmuta “paes” (Fig.1) em “molieres” e transborda este processo para o enunciador “homis”. Dessa forma, a grafia se revela um elemento de estetização a que se recorre para efeitos de ironia, reforçando a viralidade de “É verdade esse bilete”, a que se soma “Se está na internet, é porque é verdade”.

Ainda em relação a esse excerto (Fig. 4), poderíamos nos aprofundar na interpretação semântico-objetal do que se fala (“Descobrimos aonde fica o clitoris”), mas acreditamos que, neste presente texto, bastar-nos-á lembrar que Foucault (1988) já apontava, há décadas, a proliferação dos discursos acerca da sexualidade. Nesse sentido, vemos que o enunciado indica, dialógica e interdiscursivamente, as disputas sobre a ignorância dos homens em relação ao corpo das mulheres. Inserida nesta postagem, a ambiguidade-ironia em relação ao (des)conhecimento de “aonde fica o clitóris”, e seu consequente (des)prazer, exacerba os efeitos de não-verdade, indiscutível, até porque se acha exposta à disseminação incontrolada na ágora digital. Nesse caso, o que está em funcionamento é um regime de verdade (FOUCAULT, 2006): quem fala, o que fala, para quem fala, quando fala, onde fala. Assim posto, vemos o distanciamento e que já vai longe o enunciado dado e (re)apropriado: o “bilete” circulado off-line pelo pequeno Gabriel que, de forma (in)gênu(ín)a, queria apenas ficar em casa por aqueles dias.

Considerações finais

Neste trabalho, buscamos nos apoiar em proposições bakhtinianas a fim de discutir processos dialógicos de sujeitos-enunciadores em réplicas-ativas. Em nossa análise, recorremos também às discussões foucaultianas acerca da produção da verdade, uma vez que nosso corpus se constituiu a partir da pesquisa da ocorrência da afirmativa “É verdade esse bilete”, derivada de uma postagem em rede social que se tornou viral e foi replicada ativamente na ágora digital. De nosso ponto de vista, devido às contradições apresentadas na postagem inicial, esse enunciado se (re)constituiu como materialização (estética) da ironia em suas recorrências, ao ser remixado em postagens outras.

Nossa investigação apresenta que, (re)apropriado, um bilhete escrito pelo pequeno Gabriel se tornou meme e gerou bordão linguístico para outros memes e outras formas de expressão discursiva, sendo (re)configurado por estratégias de remix e humor, em diversificadas (formas de) paródia. Doutra parte, o “bilete” também se tornou um substantivo próprio, um nome, ganhou peso de entidade, personificado, como sinônimo da representação ambígua e ubíqua, no discurso de outrem, em trânsito entre os universos off-line e online.

A interpretação dos excertos nos forneceu evidências de como o sujeito marca suas posições axiológicas no e pelo discurso ao constituir/compartilhar sentidos no estabelecimento de réplicas ativas ao discurso de outrem. Estas réplicas se configuram como mesmas e, ao mesmo tempo, como outras, reveladas na materialidade dos discursos, indicando os rastros do sujeito enunciador e mecanismos de produção da verdade em funcionamento no fio discursivo. Revelam, ainda, processos de espetacularização e estetização que nos remetem a um sujeito prét-à-porter (ANDRADE; AMARANTE, 2015) que consome, se consome e se faz consumir, na ágora digital.

Cabe notarmos, porém, que estamos cientes de que esta discussão nos coloca como intérpretes sem álibi quanto à responsabilidade que assumimos ao interpretar discursos pois “[...] a relação com o sentido é sempre dialógica. A própria compreensão já é dialógica.” (BAKHTIN, 2011, p.327). Ou seja, esta análise não se estabelece como última e/ou definitiva, mas sim como um ato, diálogo que ora ofertamos, como autoras deste ato, resposta ativa e parte do encadeamento de enunciados futuros.

Dessa forma, certas de que devemos considerar nossos resultados como provisórios, entendemos que ao apontar quem fala, o que fala, para quem fala, quando fala, onde fala e como fala, ou seja, ao evidenciar as relações dialógicas em comunicação discursiva, nossa análise expõe elementos do regime de verdade (sugerido nas discussões foucaultianas), que está em constituição na ágora digital, sendo esta uma de suas contribuições para a continuidade dos estudos sobre os discursos e os sujeitos da contemporaneidade.

1A exemplo do que fazem Brait e Melo (2005), entendemos que Bakhtin e o Círculo não façam uma distinção clara nem apresentem um consenso ou unificação conceitual quanto ao uso dos termos enunciação / enunciado concreto/ texto e/ou enunciado como produto. Assim, neste artigo, optamos por usar, à maneira intercambiável, os termos enunciado / produto / manifestação ao nos referirmos aos exemplos (materialidades) que compõem o recorte feito para o nosso corpus de pesquisa.

2A ferramenta de busca foi lançada pelo idealizador da plataforma, Mark Zuckerberg, em 2013, e seu uso e recurso podem ser conhecidos em: https://www.facebook.com/help/460711197281324/. Acesso em 21 janeiro 2019.

3Seguindo as regras de uso da plataforma Facebook, as postagens foram selecionadas a partir do acesso a redes sociais mediante o login realizado com o perfil de uma das autoras deste texto.

4Uma das reportagens a esse respeito, dentre outras, foi publicada no site jornalístico G1, disponível em: https://g1.globo.com/sp/bauru-marilia/noticia/2018/08/29/bilete-feito-por-menino-para-faltar-a-escola-vira-meme-e-ganha-versoes-feitas-por-bichos-e-famosos.ghtml. Acesso em 15 out 2018.

5No original: “[…] free men went there not only to transact business and to act as jurors but also to talk and idle-a habit often mentioned by comic poets”. Disponível em: https://www.britannica.com/topic/agora. Acesso em 03 jun 2018.

6Em consulta à página oficial da empresa em fevereiro de 2019, podia-se ver o destaque a produtos destinados a praticantes de Crossfit (uma modalidade de exercícios físicos em voga nas academias nesse momento). Disponível em: https://www.reebok.com.br. Acesso em 11 de fev de 2019.

Declaração de autoria e responsabilidade pelo conteúdo publicado

Declaramos que todas as autoras tiveram acesso ao corpus de pesquisa, participaram ativamente da discussão dos resultados e revisaram e aprovaram o processo de preparação da versão final do artigo.

REFERÊNCIAS

ANDRADE, E. R. de; AMARANTE, M. de F. O sujeito prét-à-porter: consumo e construção de subjetividades na contemporaneidade. Agália. Santiago de Compostela, n.112, p.73-98, 2º semestre 2015. [ Links ]

AZZARI, E. F. De tempos-espaços físicos aos digitais: memes, museus e a arquitetônica de paisagens linguísticas / semióticas na atualidade. Anais do V Simpósio Internacional de Inovação em Mídias Interativas. ROCHA, C. (Org). Goiânia: Media Lab / UFG, 2018. Disponível em: https://siimi.medialab.ufg.br/up/777/o/43_-_Eliane_Azzari.pdf. Acesso em 28 nov 2018. [ Links ]

BAKHTIN, M. O problema do texto na linguística, na filolofia e em outras ciências humanas. In: BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. Introdução e tradução do russo de Paulo Bezerra. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2011, p.307-336. [ Links ]

BAKHTIN, M. Apontamentos de 1970-1971. In: BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. Introdução e tradução do russo de Paulo Bezerra. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2011a, p.367-392. [ Links ]

BAKHTIN, M. O discurso no romance. In: BAKHTIN, M. Teoria do Romance I:A estilística. Tradução, prefácio, notas e glossário de Paulo Bezerra. Organização da edição russa de Serguei Botcharov e Vadim Kojinov.São Paulo: Editora 34, 2015, p.19-242. [ Links ]

BAKHTIN, M. Os gêneros do discurso. Organização, tradução, posfácio e notas de Paulo Bezerra. Notas da edição russa de Serguei Botcharov. São Paulo: Editora 34, 2016. [ Links ]

BAKHTIN, M. Para uma filosofia do ato responsável.Tradução aos cuidados de Valdemir Miotello e Carlos Alberto Faraco. 3. ed. São Carlos: Pedro & João Editores, 2017a. [1919/20] [ Links ]

BAKHTIN, M. Fragmentos dos anos 1970-1971. In: BAKHTIN, M. Notas sobre literatura, cultura e ciências humanas. Organização, tradução, posfácio e notas de Paulo Bezerra; notas da edição russa de Serguei Botcharov. São Paulo: Editora 34, 2017b, p.21-56. [ Links ]

BAKHTIN, M. Problemas da poética de Dostoiévski. 5. ed.revista/ 5ª reimpressão. Tradução direta do russo, notas e prefácio de Paulo Bezerra. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2018. [ Links ]

BARTON, D.; LEE, C. Linguagem online - textos e práticas digitais. Tradução de Milton Camargo Mota. São Paulo: Parábola, 2015. [1 ed. 2013] [ Links ]

BLOMMAERT, J. The Conservative Turn in Linguistic Landscape Studies. In: Ctrl+Alt+Dem - Research on Alternative Democratic Life in Europe, May 01st, 2016. Disponível em: https://alternative-democracy-research.org/2016/01/05/the-conservative-turn-in-linguistic-landscape-studies/. Acesso em 03 abril 2017. [ Links ]

BRAIT, B. Bakhtin e a natureza constitutivamente dialógica da linguagem. In: BRAIT, B. (org.) Dialogismo e construção do sentido. 2. ed. revista/5ª reimpressão. Campinas: editora Unicamp, 2015 p.87-98. [1 ed. 1997/ 2.ed. 2013] [ Links ]

BRAIT, B. Ironia em perspectiva polifônica. 2. ed. Campinas, SP: Ed. Unicamp, 2008. [ Links ]

BRAIT, B. Linguagem e identidade: um constante trabalho de estilo. Trab. educ. saúde [online]. Vol.2, n.1, p.15-32. 2004. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-77462004000100003&lng=en&nrm=iso&tlng=pt. Acesso em 04 fevereiro 2019. [ Links ]

BRAIT, B.; MELO, R. Enunciado / enunciado concreto / enunciação. In: BRAIT, B. (Org.). Bakhtin: conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2005, p.61-78. [ Links ]

FOUCAULT, M. Ditos e escritos. Estratégia, poder-saber. Tradução Inês Autran Dourado Barbosa. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006. [Volume IV] [ Links ]

FOUCAULT, M. A ordem do discurso. Tradução Laura Fraga de Almeida Sampaio. 8. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2002. [ Links ]

FOUCAULT, M. História da sexualidade I: A vontade de saber. Tradução de Maria Thereza da Costa e J.A. Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro: Graal, 1988. [ Links ]

IVKOVIć, D. Landscapes, Linguascapes, and Linguistic Mediation in Cyberspace, 2012. Disponível em: https://www.academia.edu/21744068/Landscapes_linguascapes_and_linguistic_mediation_in_cyberspace. Acesso em: 20 maio 2017. [ Links ]

KNOBEL, M.; LANKSHEAR, C. Remix: The Art and Craft of Endless Hybridization. Journal of Adolescent and Adult Literacy, 52 (1), p.22-33, set 2008. Disponível em: https://elearning.psu.edu/drupal6/content/aed511/file/remix_article.pdf. Acesso em: 04 fevereiro 2019. [ Links ]

KOMEZU, F. C.; GAMBARATO, R. R.; TENANI; L. E. ‘I Will Not Become an Internet Meme’: Visual-verbal Textualization Process in the Study of the Power and Resistance in Brazil. Acta Scientiarum. Language and Culture, v. 40 (2), e(43714), 2018. Disponível: https://doi.org/10.4025/actascilangcult.v40i2.43714. Acesso em: 04 fevereiro 2019. [ Links ]

PONZIO, A. A concepção bakhtiniana do ato como dar um passo. In: BAKHTIN, M. Para uma filosofia do ato responsável. 3. ed. Tradução aos cuidados de Valdemir Miotello e Carlos Alberto Faraco. São Carlos: Pedro e João, 2017, p.9-40. [ Links ]

SIBILIA, P. O show do eu: A intimidade como espetáculo. 2. ed., rev. Rio de Janeiro: Contraponto, 2016. [ Links ]

VOLÓCHINOV, V. (Círculo de Bakhtin). Marxismo e filosofia da linguagem. Problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Trad. Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: Editora 34, 2017. [ Links ]

Recebido: 22 de Fevereiro de 2019; Aceito: 03 de Outubro de 2019

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.