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Dental Press Journal of Orthodontics

versão On-line ISSN 2176-9451

Dental Press J. Orthod. vol.15 no.3 Maringá jun. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S2176-94512010000300015 

ARTIGO INÉDITO

 

Raça versus etnia: diferenciar para melhor aplicar

 

 

Diego Junior da Silva SantosI; Nathália Barbosa PalomaresI; David NormandoII; Cátia Cardoso Abdo QuintãoIII

IAlunos do Curso de Especialização de Ortodontia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
IIMestre em Clínica Integrada pela Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo - USP. Especialista em Ortodontia pela PROFIS - USP/ Bauru. Professor Adjunto da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal do Pará (UFPA). Doutorando em Odontologia pela UERJ
IIIDoutora e Mestre em Odontologia (Ortodontia) pela UFRJ. Professora Adjunta de Ortodontia da UERJ

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Frequentemente, estudos que utilizam populações são questionados quanto à homogeneidade de suas amostras em relação à raça e etnia. Esses questionamentos procedem, pois a heterogeneidade amostral pode aumentar a variabilidade dos resultados e mascará-los. Esses dois conceitos (raça e etnia) são confundidos inúmeras vezes, mas existem diferenças sutis entre ambos: raça engloba características fenotípicas, como a cor da pele, e etnia também compreende fatores culturais, como a nacionalidade, afiliação tribal, religião, língua e as tradições de um determinado grupo. A despeito da ampla utilização do termo "raça", cresce entre os geneticistas a definição de que raça é um conceito social, muito mais que científico.

Palavras-chave: Etnia e saúde. Distribuição por raça ou etnia. Grupos étnicos.


 

 

INTRODUÇÃO

Embora a categorização de indivíduos em raça e etnia seja amplamente utilizada, tanto em diagnóstico quanto na pesquisa científica, seus significados são frequentemente confundidos ou mesmo desconhecidos no meio acadêmico.

O uso da raça como uma característica distintiva nas populações ou indivíduos que procuram por assistência médica é um costume bem aceito na área de saúde. Apesar da origem dessa prática refletir atitudes preconceituosas do passado, seu uso atual tem sido defendido como um meio útil de aprimoramento de diagnóstico e de esforços terapêuticos7.

A classificação de raça pode ser utilizada para verificar se estudos randomizados foram bem-sucedidos. Também pode ser útil para os leitores como uma descrição da população participante de um determinado estudo12. Na Ortodontia, a tentativa de identificar o grupo racial em uma amostra tenta controlar a variação inerente às características faciais específicas a determinados grupos raciais.

Este artigo tem como objetivo esclarecer:

(1) A diferença conceitual entre raça e etnia.

(2) As categorias raciais determinadas por alguns estudos.

 

HISTÓRICO do termo "RAÇA"

A primeira classificação racial dos homens foi a "Nouvelle division de la terre par les différents espèces ou races qui lhabitent" (Nova divisão da terra pelas diferentes espécies ou raças que a habitam) de François Bernier, publicada em 168411.

Em 1790, o primeiro censo americano classificou a população em homens brancos livres, mulheres brancas livres e outras pessoas (nativos americanos e escravos). Já o censo de 1890 classificou a população utilizando termos como: branco, preto, chinês, japonês e índios3.

Carolus Linnaeus (1758), criador da taxonomia moderna e do termo Homo sapiens, reconheceu quatro variedades do homem:

1) Americano (Homo sapiens americanus: vermelho, mau temperamento, subjugável);

2) Europeu (europaeus: branco, sério, forte);

3) Asiático (Homo sapiens asiaticus: amarelo, melancólico, ganancioso);

4) Africano (Homo sapiens afer: preto, impassível, preguiçoso).

Linnaeus reconheceu também uma quinta raça sem definição geográfica, a Monstruosa (Homo sapiens monstrosus), compreendida por uma diversidade de tipos reais (por exemplo, Patagônios da América do Sul, Flatheads canadenses) e outros imaginados que não poderiam ser incluídos nas quatro categorias "normais". Segundo a visão discriminatória de Linnaeus, a classificação atribuiu a cada raça características físicas e morais específicas11.

Em 1775, o sucessor de Linnaeus, J. F. Blumenbach, reconheceu "quatro variedades da humanidade":

1) Europeu, Asiático do Leste, e parte de América do Norte;

2) Australiano;

3) Africano;

4) Restantes do novo mundo.

A visão de Blumenbach continuou a evoluir e, em 1795, deu origem a cinco variedades - Caucasiano, Mongol, Etíope, Americano e Malaio -, diferindo do agrupamento anterior, onde os esquimós passaram a ser classificados com os Asiáticos do Leste11.

Em 1916, Marvin Harris descreveu a teoria da hipodescendência, útil na classificação de um indivíduo produto do cruzamento de duas raças diferentes. Nessa teoria, a criança fruto deste cruzamento pertenceria à raça biológica ou socialmente inferior: "o cruzamento entre um branco e um índio é um índio; o cruzamento entre um branco e um negro é um negro; o cruzamento entre um branco e um hindu é um hindu; e o cruzamento entre alguém de raça europeia e um judeu é um judeu". Em alguns países, uma regra de 1/8 ou 1/16 foi estabelecida a fim determinar a identidade racial apropriada de indivíduos oriundos de mistura de raças. Sob essas regras, se o indivíduo for, pelas linhas da descendência, 1/8 ou somente 1/16 de negro (preto uniforme), o indivíduo é também negro11.

 

EXISTE DIFERENÇA ENTRE OS TERMOS "RAÇA" E "ETNIA"?

O termo raça tem uma variedade de definições geralmente utilizadas para descrever um grupo de pessoas que compartilham certas características morfológicas. A maioria dos autores tem conhecimento de que raça é um termo não científico que somente pode ter significado biológico quando o ser se apresenta homogêneo, estritamente puro; como em algumas espécies de animais domésticos. Essas condições, no entanto, nunca são encontradas em seres humanos13. O genoma humano é composto de 25 mil genes. As diferenças mais aparentes (cor da pele, textura dos cabelos, formato do nariz) são determinadas por um grupo insignificante de genes. As diferenças entre um negro africano e um branco nórdico compreendem apenas 0,005% do genoma humano. Há um amplo consenso entre antropólogos e geneticistas humanos de que, do ponto de vista biológico, raças humanas não existem1.

Historicamente, a palavra etnia significa "gentio", proveniente do adjetivo grego ethnikos. O adjetivo se deriva do substantivo ethnos, que significa gente ou nação estrangeira. É um conceito polivalente, que constrói a identidade de um indivíduo resumida em: parentesco, religião, língua, território compartilhado e nacionalidade, além da aparência física4,9.

No Brasil, os povos indígenas constituem uma identidade racial. Entretanto, em razão das diferentes características socioculturais, os grupos são definidos por etnia. Como exemplos, no estado do Amazonas, aonde vivem mais de 80.000 índios, existem 65 etnias indígenas5. Apesar do conceito de raça estar muitas vezes associado ao de etnia, os termos não são sinônimos. Enquanto raça engloba características fenotípicas, como a cor da pele, a etnia também compreende fatores culturais, como a nacionalidade, afiliação tribal, religião, língua e as tradições de um determinado grupo (Fig. 1)8.

 

 

AS CATEGORIAS RACIAIS SÃO ATRIBUÍDAS CORRETAMENTE?

Uma das mais conhecidas classificações para se coletar dados sobre raça é a do órgão norte-americano OMB (Office of Management and Budget) cuja diretriz n° 15, desenvolvida nos anos 70 do século passado, padroniza dados referentes a categorias raciais e étnicas3.

O censo norte-americano do ano 2.000 expandiu as categorias raciais para cinco: índios americanos ou nativos do Alaska, brancos, pretos ou afro-americanos, nativos havaianos, e asiáticos3.

No Brasil, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia Estatística), o censo demográfico do ano 2.000 investigou a raça ou cor da população brasileira através da autoclassificação em: branco, preto, pardo, indígena ou amarelo6. Há muito na literatura a respeito de classificações raciais; no entanto, são contraditórias entre si.

Uma recente pesquisa comparou a exatidão da classificação de raça e etnia através do autorrelato do indivíduo questionado e a impressão do questionador. Os resultados mostraram que a percepção do questionador quanto à raça do entrevistado era mais precisa para pretos e brancos, enquanto em relação a outras raças, em muitos casos, os questionadores tinham dúvidas a respeito da raça do indivíduo e a classificavam como "desconhecida". Assim, concluiu-se que a raça e/ou etnia do indivíduo deveria ser obtida por autorrelato e não a partir da opinião do questionador, pois a classificação étnico-racial foi mais precisa através da autoqualificação2. Muitos estudos na Ortodontia brasileira têm tentado definir a raça através da cor da pele, sendo frequentemente utilizados os termos leucodermas, xantodermas e melanodermas. A cor da pele não determina sequer a ancestralidade. Isso é especialmente verídico nas populações brasileiras, pelo seu alto grau de miscigenação. Estudo sobre a genética da população brasileira revelou que 27% dos negros de uma pequena cidade mineira apresentavam uma ancestralidade genética predominantemente não africana. Enquanto isso, 87% dos brancos brasileiros apresentam pelo menos 10% de ancestralidade africana10.

 

CONCLUSÕES

Raça e etnia são dois conceitos relativos a âmbitos distintos.

Raça refere-se ao âmbito biológico; referindo-se a seres humanos, é um termo que foi utilizado historicamente para identificar categorias humanas socialmente definidas. As diferenças mais comuns referem-se à cor de pele, tipo de cabelo, conformação facial e cranial, ancestralidade e genética. Portanto, a cor da pele, amplamente utilizada como característica racial, constitui apenas uma das características que compõem uma raça. Entretanto, apesar do uso frequente na Ortodontia, um conceito crescente advoga que a cor da pele não determina a ancestralidade, principalmente nas populações brasileiras, altamente miscigenadas.

Etnia refere-se ao âmbito cultural; um grupo étnico é uma comunidade humana definida por afinidades linguísticas, culturais e semelhanças genéticas. Essas comunidades geralmente reclamam para si uma estrutura social, política e um território.

 

REFERÊNCIAS

1. American Anthropological Association. Statement on Race [Internet]. Arlington: American Anthropological Association; 1998. [acesso 2010 fev 12]. Disponível em: www.aaanet.org/stmts/racepp.htm.         [ Links ]

2. Baker DW, Cameron KA, Feinglass J, Thompson JA, Georgas P, Foster S, et al. A system for rapidly and accurately collecting patients race and ethnicity. Am J Public Health. 2006 Mar;96(3):532-7.         [ Links ]

3. Bussey-Jones J, Genao I, St. George DM, Corbie-Smith G. The meaning of race: use of race in the clinical setting. J Lab Clin Med. 2005 Oct;146(4):205-9.         [ Links ]

4. Dein S. Race, culture and ethnicity in minority research: a critical discussion. J Cult Divers. 2006 Summer;13(2):68-75.         [ Links ]

5. Fundação Nacional do Índio. Grupos indígenas-Amazonas [Internet]. Brasília, DF: FUNAI; 2009. [acesso 2009 jul 31]. Disponível em: www.funai.gov.br/mapas/etnia/etn_am.htm.         [ Links ]

6. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo demográfico 2000 [Internet]. [acesso 2009 jul 2009]. Disponível em: www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2000/populacao/censo2000_populacao.pdf        [ Links ]

7. Jay NC. The use of race and ethnicity in medicine: lessons from the African American heart failure trial. J Law Med Ethics. 2006 Fall;34(3):552-4.         [ Links ]

8. Lott J. Do United States racial/ethnic categories still fit? Popul Today. 1993 Jan;21(1):6-7.         [ Links ]

9. Meteos P. A review of name-based ethnicity classification methods and their potential in population studies. Popul Space Place. 2007;13:243-63.         [ Links ]

10. Parra FC, Amado RC, Lambertucci JR, Rocha J, Antunes CM, Pena SDJ. Color and genomic ancestry in Brazilians. Proc Natl Acad Sci USA. 2003 Jan 7;100(1):177-82.         [ Links ]

11. Silva JC Jr, organizador. Raça e etnia [internet]. Amazonas: Afroamazonas; 2005. [acesso 2009 jun 15]. Disponível em: www.movimentoafro.amazonida.com/raca_e_etnia.htm.         [ Links ]

12. Winker MA. Race and ethnicity in medical research: requirements meet reality. J Law Med Ethics. 2006;34(3):520-5.         [ Links ]

13. Witzig R. The medicalization of race: scientific legitimation of a flawed social construct. Ann Intern Med. 1996;125(8):675-9.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Diego Junior da Silva Santos
Av. Rui Barbosa, 340 ap. 701, Liberdade
CEP: 27.521-190 - Resende/SP
E-mail: djrsantos@bol.com.br

Enviado em: agosto de 2009
Revisado e aceito: setembro de 2009