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Dental Press Journal of Orthodontics

versão On-line ISSN 2176-9451

Dental Press J. Orthod. vol.16 no.4 Maringá jul./ago. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S2176-94512011000400011 

ARTIGO INÉDITO

 

Um novo fio de aço inoxidável para aplicações ortodônticas

 

 

André Itman FilhoI; Rosana Vilarim da SilvaII; Roney Valdo BertoloIII

IDoutor em Ciência e Engenharia dos Materiais pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)
IIDoutora em Ciência e Engenharia dos Materiais pela Escola de Engenharia de São Carlos (EESC-USP)
III
Cirurgião-dentista pela Faculdade de Odontologia de Lins - SP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: desenvolver uma metodologia para fabricação de fios ortodônticos de aço inoxidável austeno-ferrítico SEW 410 Nr. 14517 por meio dos processos convencionais de laminação e trefilação.
MÉTODOS: o aço austeno-ferrítico foi elaborado em um forno elétrico de indução. A qualidade dos fios foi avaliada por ensaios de tração e medidas de microdureza. A ductilidade e a manuseabilidade foram analisadas por meio da confecção de componentes ortodônticos.
RESULTADOS E CONCLUSÕES:
os valores encontrados mostraram que os fios de aço inoxidável austeno-ferrítico atenderam às normas BS 3507:1976 e ISO 5832-1, e apresentaram ótima ductilidade para confecção de componentes ortodônticos com dobras complexas.

Palavras-chave: Aços inoxidáveis duplex. Fios ortodônticos. Propriedades de fios ortodônticos.


 

 

INTRODUÇÃO

A prática de implantes cirúrgicos já era conhecida no início da era cristã, embora o primeiro caso documentado, em 1565, tenha sido o da restauração do palato de um paciente com uma placa de ouro13. Apesar de praticados desde o século XVI, esses procedimentos são pouco conhecidos no que diz respeito à fabricação e qualidade dos componentes utilizados. Somente a partir de 1895, com a observação da fixação metálica e cicatrização óssea das fraturas através do raio X, a aplicação dos biomateriais metálicos em implantes humanos foi estimulada. Inicialmente, as ligas de ouro, prata e platina foram utilizadas por apresentarem um alto grau de biocompatibilidade associado à facilidade de conformação12,15. A partir de 1930, ligas de metais com níquel, cobalto, cromo e molibdênio começaram a ser empregadas na confecção de próteses parciais, pois a combinação de baixo custo e boas propriedades mecânicas fez com que substituíssem as ligas mais nobres10,11. Essas ligas, chamadas de básicas, requeriam altas temperaturas de fusão e equipamentos especiais para o acabamento superficial dos componentes fabricados. A metalurgia das ligas era extremamente complexa e as chances de sucesso dependiam de variáveis importantes como a composição química apropriada do material e a avaliação das propriedades mecânicas, além do conhecimento das técnicas de fundição4,13. Na mesma linha tecnológica, essas ligas não ferrosas começaram a ser gradualmente substituídas pelos aços inoxidáveis austeníticos da série ASTM 300, no que diz respeito à prática ortodôntica. Esses aços, além da menor densidade, quando comparados às ligas básicas, apresentavam resistência mecânica adequada, boa resistência à corrosão e suficiente biocompatibilidade com menor custo1,9,12. Nos tratamentos ortodônticos, os fios metálicos são submetidos aos esforços mecânicos provenientes da mastigação, os quais provocam deformações permanentes e tensões residuais localizadas. Para essa finalidade, os fios requerem resistência mecânica suficiente à deformação plástica e às tensões envolvidas nos movimentos das articulações, além de biocompatibilidade. Nesse caso, os aços ASTM 302 e ASTM 304 são os mais utilizados, enquanto o inoxidável austenítico ASTM 316L é o mais apropriado para implantes cirúrgicos (Tab. 1). Atualmente, o conhecimento das propriedades mecânicas das diversas ligas proporciona a otimização dos tratamentos ortodônticos. Em geral, os fios fabricados com os aços inoxidáveis austeníticos são adequados para utilização nos estágios finais dos tratamentos, em razão da ótima rigidez e resistência à corrosão no meio bucal3,5,8. Outras propriedades, como a tenacidade, a resistência à fadiga e a ductilidade, contribuem para a escolha do material mais adequado. Sendo assim, a liga ideal deverá ter resistência suficiente para suportar as tensões envolvidas nos movimentos das articulações, capacidade de absorver a energia mecânica sem deformação plástica, ser inerte aos fluídos orgânicos e não liberar produtos tóxicos2.

Considerando-se a resistência mecânica e à corrosão, os aços inoxidáveis austeníticos têm sido substituídos pelos austeno-ferríticos em várias aplicações industriais, pois esses últimos, quando comparados aos primeiros, apresentam melhor resistência à propagação de trincas em corrosão sob tensão6,14. Resultados da literatura também mostraram que as características de biocompatibilidade de um aço inoxidável austenítico e de um austeno-ferrítico são similares1. No caso dos tratamentos ortodônticos, a substituição dos aços inoxidáveis austeníticos pelos austeno-ferríticos poderá apresentar a vantagem da redução do custo e da hipersensibilidade ao níquel nos pacientes.

 

OBJETIVO

O objetivo deste trabalho foi a confecção de fios de aço inoxidável austeno-ferrítico SEW 410 Nr. 14517 por meio da laminação e trefilação, similares aos processos de fabricação dos fios comerciais de aço inoxidável austenítico utilizados nos tratamentos ortodônticos. Esse aço duplex foi o escolhido, pois é muito utilizado em diversas aplicações industriais. Para verificar se os fios confeccionados atendiam aos requisitos das nor-mas, foram realizados ensaios em tração e medidas de microdureza. A ductilidade do material foi avaliada por meio de análises fratográficas e confecção de componentes ortodônticos.

 

PROCEDIMENTO EXPERIMENTAL

O aço austeno-ferrítico foi elaborado em um for-no elétrico de indução, com capacidade nominal de 500kg, na Fundição do Grupo Metal (Tietê/SP). O metal líquido foi vazado em um molde de areia aglomerada com resina fenólica uretânica na forma de bloco tipo quilha (ASTM A781-M) adaptado a uma peça comercial. A composição química do aço foi obtida por meio da análise em um espectômetro de emissão óptica. A barra inicial, de aproximadamente ø11 × 180mm de comprimento, foi usinada em torno mecânico até atingir o diâmetro de 10mm e, posteriormente, foi reduzida ao diâmetro de 2,5mm pelo processo de laminação. Esses fios laminados, com aproximadamente 1m de comprimento, foram soldados aos do aço inoxidável ASTM 304 para ser trefilados até o diâmetro de 0,4mm, conforme procedimento convencional a frio na Superfine Steel (Santa Bárbara D'Oeste/SP). Para avaliar a resistência máxima à tração, amostras dos fios cortadas durante as etapas do processo de trefilação foram tracionadas em uma máquina universal EMIC DL 10000 com a velocidade de 1mm/minuto, conforme especificação das normas ASTM E 8-00 e NBR 6152/92. Nessas amostras também foram feitas medidas das microdureza, seguindo os critérios da norma ASTM E 384-89.A manuseabilidade dos fios foi avaliada comparativamente à dos fios de aços inoxidáveis comerciais, por meio da confecção de componentes ortodônticos. Para verificar as características morfológicas da fratura após ensaio em tração, uma amostra do fio com 0,9mm de diâmetro foi analisada por meio de microscopia eletrônica de varredura.

 

ReSULTADOS

Os valores, em percentuais de peso, mostrados na Tabela 1, revelam que os teores dos elementos atendem às especificações da composição química do aço inoxidável austeno-ferrítico SEW 410 Nr. 14517.

A Tabela 2 mostra os valores médios de resistência à tração com os respectivos desvios-padrão, após realização dos ensaios em cinco corpos de prova nos diâmetros relacionados. Esses valores atendem às exigências das normas BS 3507:1976 e ISO 5832-1. Na mesma tabela são apresentadas as medidas de microdureza das amostras submetidas aos ensaios em tração.

 

 

Na Figura 1 é mostrado um Bionator confeccionado com os fios do aço inoxidável austeno-ferrítico. As Figuras 2A, 2B e 2C mostram as características fractográficas representativas de uma amostra submetida ao ensaio de tração.

 

 

DISCUSSÃO

A principal dificuldade para a realização deste trabalho foi desenvolver o processo de fabricação do fio em equipamentos convencionais de conformação mecânica, pois esses são utilizados para grande quantidade de material, diferentemente da amostra inicial do aço austeno-ferrítico, de aproximadamente 500g. Em geral, as fusões nos fornos são realizadas para, no mínimo, 500kg de aço, fato que encarece a obtenção de materiais para projetos de pesquisa. Assim, para obter uma amostra inicial do aço inoxidável austeno-ferrítico, foi necessária a adaptação de um molde tipo quilha a uma peça comercial. A redução até o diâmetro de 2,5mm foi realizada em laboratório, tendo como resultado fios com aproximadamente 1m de comprimento. Como as trefilas industriais necessitam de comprimentos maiores para o início do processo, foi necessária a soldagem dos fios ø2,5mm aos do aço inoxidável ASTM 304, que tem composição compatível ao austeno-ferrítico. Considerando as etapas de conformação, o efeito do elevado grau de deformação a frio pode ser constatado na Tabela 2, com redução de 80,2% no último passe de trefila (ø0,9mm → ø0,4mm). Mesmo com o aumento significativo do valor da dureza após a trefilação no diâmetro final, não houve prejuízo da ductilidade e da manuseabilidade, pois foram confeccionados vários componentes com diversas dobras, sem que houvesse a ruptura dos fios. Quanto à resistência mecânica elevada, associada à rigidez característica do aço inoxidável, são parâmetros importantes para assegurar que o fio mantenha os dentes na posição adequada após o término do tratamento ortodôntico. Outro fator importante é que o processo de conformação para obter o diâmetro desejado foi similar aos utilizados na fabricação de fios de aços inoxidáveis comerciais. Isso favorece a produção em escala industrial sem alterações no processo de manufatura dos aços. Os valores da dureza e resistência máxima à tração, similares aos dos fios inoxidáveis ortodônticos comerciais ASTM 302 e ASTM 304, são um indicativo de que o aço pode suportar o atrito característico da movimentação dos fios entre os braquetes com propriedades adequadas para aplicações na Ortodontia, conforme a norma BS 3507/1976 e ISO 5832-1. Com relação à ductilidade do aço, essa característica é comprovada por meio da Figura 2, que mostra a fractografia da microtrinca iniciando-se no centro do fio e terminando por cisalhamento nas bordas, conforme o modelo típico "taça e cone"7. Quanto à manuseabilidade do fio, foi observado que o aço inoxidável austeno-ferrítico tem ductilidade adequada para dobramentos intensos, tais como os exigidos na confecção do Bionator, e é apropriado para fabricação de outros componentes ortodônticos. No teste comparativo com fios de aço inoxidável austenítico comercial utilizado nos procedimentos de rotina, não foi constatada diferença ao manusear os dois tipos.

 

CONCLUSÃO

Os resultados dessa pesquisa mostraram que o aço inoxidável austeno-ferrítico suportou uma grande redução de área nas etapas de fabricação dos fios. Assim, o valor da resistência mecânica à tração superior a 2 000MPa, associado à ductilidade, à biocompatibilidade e às características de processamento, indica que os aços inoxidáveis austeno-ferríticos apresentam grande potencial para substituir os austeníticos nas aplicações ortodônticas.

 

REFERÊNCIAS

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15. Willians DF, Roaf R. Implants in surgery. London: W. B. Saunders Company; 1973.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
André Itman Filho
Rua José Teixeira, 228, apto. 1102 – Praia do Canto
CEP: 29055-310 - Vitória / ES
E-mail: andreitman@hotmail.com

Enviado em: 23/03/2006
Revisado e aceito: 02/12/2009

 

 

Os autores declaram não ter interesses associativos, comerciais, de propriedade ou financeiros, que representem conflito de interesse, nos produtos e companhias descritos nesse artigo.