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Dental Press Journal of Orthodontics

versão On-line ISSN 2176-9451

Dental Press J. Orthod. vol.16 no.4 Maringá jul./ago. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S2176-94512011000400013 

ARTIGO INÉDITO

 

Resistência ao cisalhamento de braquetes metálicos utilizando sistema adesivo autocondicionante

 

 

Camilo Aquino MelgaçoI; Graciele Guerra de AndradeII; Mônica Tirre de Souza AraújoIII; Lincoln Issamu NojimaIV

IDoutorando em Ortodontia pela FO-UFRJ. Professor do curso de Especialização em Ortodontia da FO-UFMG
II Cirurgiã-dentista graduada pela FO-UFRJ. Especialista em Odontopediatria
IIIMestre e Doutora em Ortodontia pela FO-UFRJ. Professora Adjunta da FO-UFRJ
IVMestre e Doutor em Ortodontia pela FO-UFRJ. Professor Adjunto da FO-UFRJ

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: avaliar a resistência ao cisalhamento de braquetes metálicos colados com sistema autocondicionante utilizado imediatamente e após 2, 5 e 9 dias depois da ativação e armazenagem.
MÉTODOS: utilizaram-se 64 dentes bovinos divididos igualmente em quatro grupos e devidamente preparados para receber a colagem dos braquetes. Em T1, realizou-se a ativação de 7 blisters de adesivos autocondicionantes (de acordo com as normas do fabricante) e procedeu-se à colagem imediata apenas dos braquetes do grupo I. Os adesivos ativados foram, então, armazenados à temperatura de 4ºC e reutilizados em períodos de 2 dias (T2), 5 dias (T3) e 9 dias (T4) para a colagem dos braquetes dos grupos II, III e IV, respectivamente.
RESULTADOS: não se observou diferença estatística quando comparados os valores médios de tensão para resistência ao cisalhamento entre os grupos I, II e III. Entretanto, diferença estatística foi encontrada quando esses valores foram comparados aos do grupo IV.
CONCLUSÃO:
o armazenamento do adesivo autocondicionante depois de ativado, à temperatura média de 4ºC, por até 5 dias, parece não afetar os resultados quanto às tensões de resistência ao cisalhamento; novos estudos são necessários para avaliação das demais características do material quando de sua utilização por período de tempo prolongado após sua ativação.

Palavras-chave: Cisalhamento. Adesivo autocondicionante. Esmalte bovino. Colagem.


 

 

INTRODUÇÃO

Desde que Buonocore3 propôs, em 1995, a técnica de condicionamento ácido, o conceito de colagem ao esmalte dentário permitiu o desenvolvimento e aplicação de diversas técnicas e materiais em todos os campos da Odontologia19. O uso de ácido fosfórico para o condicionamento permite o escoamento da resina entre as porosidades criadas na estrutura do esmalte, gerando forças adesivas que melhoram a retenção mecânica do adesivo à superfície dentária. Como consequência, diversos materiais adesivos para colagem direta em Ortodontia têm sido desenvolvidos, fazendo-se necessário o desenvolvimento de estudos que possam comprovar a eficácia proposta pelos fabricantes12,17,18.

A utilização das técnicas de colagem direta trouxe grandes benefícios aos ortodontistas. A melhora estética, o menor risco de descalcificação do esmalte, o fácil controle da placa bacteriana pelo paciente, os menores índices de irritação gengival, além da redução do tempo de cadeira foram ganhos importantes, uma vez que a colagem direta é menos trabalhosa que a adaptação de anéis em todos os dentes20.

Dentre a enorme variedade de novos materiais, o adesivo autocondicionante (ácido já incorporado ao primer ) utiliza química e tecnologia de condicionamento ácido diferentes dos produtos tradicionais existentes no mercado14. Primeiramente, foram disponibilizados para uso na Odontologia restauradora8 e, recentemente, têm sido estudados produtos específicos para colagem de acessórios ortodônticos15.

O adesivo estudado neste trabalho é o Transbond Plus Self Etching Primer (3M). Esse adesivo possui ésteres de ácido fosfórico metacrilato (hidroxietilmetacrilato), formando uma molécula bifuncional. Ao ser friccionado no esmalte, o componente ácido expõe os prismas do esmalte enquanto os componentes do primer penetram simultaneamente nesses prismas expostos. O ácido fosfórico remove cálcio da hidroxiapatita. O grupo fosfato forma um composto com cálcio que é incorporado ao produto durante a polimerização, uma vez que nesse sistema adesivo não há a lavagem do ácido5. O pH do adesivo autocondicionante é em torno de 1,0, tendo, portanto, uma boa penetração nos tecidos dentários — já que, quanto menor o pH da substância, maior sua capacidade de penetração nos tecidos dentários. Esse produto tem como solvente a água, viabilizando a ionização dos monômeros do ácido e auxiliando na desmineralização dos tecidos dentários14. Após a aplicação do adesivo autocondicionante sobre a superfície dentária, deve-se aplicar um leve jato de ar para que os solventes evaporem. Caso essa secagem não seja realizada de forma adequada, as forças de adesão serão menores10.

Alguns estudos não observaram diferenças estatisticamente significativas quanto à resistência ao cisalhamento de braquetes colados com sistema convencional ou com adesivo autocondicionante7,18.

Outra preocupação por parte de alguns pesquisadores seria o uso de dentes humanos em pesquisas. Como o uso desses dentes tem se tornado cada vez mais difícil, a utilização de dentes bovinos tornou-se bem documentada e preferida, devido à composição de seu esmalte ser semelhante à do esmalte de dentes humanos e à sua fácil aquisição11,13,15,18.

Esse estudo visa avaliar a resistência ao cisalhamento de braquetes metálicos colados em dentes bovinos com adesivo autocondicionante utilizado imediatamente após sua ativação e com intervalos de tempo de 2 dias, 5 dias e 9 dias depois de ativado e armazenado.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram utilizados 64 incisivos bovinos com faces vestibulares íntegras e recentemente extraídos após a morte dos animais. O critério para seleção dos dentes foi o mesmo utilizado por Sponchiado et al.18 e incluiu: o esmalte dentário intacto, sem trincas e ausência de prévia aplicação de agentes químicos como timol, peróxido de hidrogênio, álcool ou formol. Os dentes foram limpos e conservados em água destilada, mantidos a uma temperatura média de 4ºC. Em cada dente foi feita uma marcação pontual com grafite na maior projeção da sua face vestibular, facilitando a identificação da área de colagem. As coroas foram, então, incluídas em resina acrílica manipulada conforme as instruções do fabricante, sendo pressionadas contra uma placa de vidro até que o ponto marcado inicialmente se tornasse visível. O conjunto (placa de vidro, resina e dente) foi colocado em recipiente específico para polimerização com pressão hidrostática, evitando-se, assim, a formação de bolhas (Fig. 1).

 

 

Após completa polimerização, a resina acrílica foi desgastada com lixas de madeira nº 150 (a seco) e lixas d'água nº 400 e 600 (com resfriamento em água) até expor superfície de esmalte com área suficiente para a colagem do braquete metálico Edgewise com dimensões de 3,3mm por 3,6mm e slot 0,022"X0,028". A porção radicular dos dentes foi incluída em anéis de PVC, preenchidos com gesso pedra tipo IV manipulado segundo especificações do fabricante. Os dentes foram posicionados com suas superfícies vestibulares perpendiculares à base do anel, com auxílio de um esquadro especialmente confeccionado para esse fim (Fig. 2, 3).Após a presa do gesso, o conjunto foi imerso em água destilada e armazenado em estufa a uma temperatura de 37±1ºC, estando os dentes prontos para a colagem dos braquetes. Os corpos de prova foram divididos aleatoriamente em quatro grupos iguais e numerados (I, II, III e IV).

 

 

 

 

Antes da colagem dos acessórios, os dentes receberam profilaxia com pedra-pomes de granulação fina e isenta de flúor, taça de borracha e água, utilizando motor de baixa rotação por 15s. Em seguida, realizou-se a lavagem com spray ar/água por mais 15s e secagem com jato de ar. Procedeu-se, então, à ativação do adesivo autocondicionante, de acordo com as instruções do fabricante e em quantidade suficiente para a colagem de 64 braquetes (7 blisters ). No momento da ativação, foram realizadas as colagens de 16 braquetes do grupo I, da seguinte forma:

» Adesivo friccionado sobre a superfície de cada dente por 3s e seco com secador de cabelos pelo mesmo período.
» Transbond XT fotoativado foi aplicado na base dos braquetes, seguindo as recomendações do fabricante. Os acessórios foram posicionados e comprimidos sobre a superfície do esmalte e o excesso de resina foi removido com auxílio de sonda exploradora nº5. A polimerização se deu por 10s em cada superfície lateral do braquete, com aparelho fotopolimerizador de luz visível (marca 3M, modelo 5560AF, EUA), com intensidade de 488mW/cm2 (aferido por radiômetro Demetron, modelo 100).
» O braquete foi posicionado com seu slot perpendicular ao anel de PVC, com auxílio de um esquadro especialmente confeccionado para essa finalidade (Fig. 4).
» Os corpos de prova do grupo I foram, então, armazenados por 7 dias em água destilada a 37±1ºC em estufa e todo o restante do adesivo já ativado foi armazenado em geladeira a uma temperatura média de 4ºC para futura utilização nos grupos II, III e IV.

 

 

Seguindo a mesma metodologia, após um intervalo de 48 horas da ativação do adesivo foram realizadas colagens dos 16 braquetes do grupo II. Os 16 braquetes dos grupos III e os 16 do grupo IV foram colados com intervalos de 5 e 9 dias, respectivamente, após a ativação inicial do adesivo. Os corpos de prova dos grupos II, III e IV também foram armazenados em estufa por 7 dias em água destilada a 37±1ºC.

Após o período de armazenamento, procedeu-se ao ensaio de cisalhamento, realizado na máquina de ensaios mecânicos EMIC DL 10.000 do Instituto Militar de Engenharia do Rio de Janeiro, utilizando o programa MTest versão 1.01 (Fig. 5, 6). A análise estatística foi realizada com aplicação do teste t de Student para amostras não pareadas.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados da resistência ao cisalhamento em Megapascal (MPa) podem ser visualizados na Tabela 1, para todos os grupos. O grupo I e o grupo III apresentaram, respectivamente, o menor e o maior valor de desvio-padrão, com valores de 2,2 e 3,56, respectivamente.

Em relação à resistência ao cisalhamento, os resultados demonstram que não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos I, II e III. Entretanto, todos esses grupos mostraram uma diferença significativa em relação ao grupo IV (Tab. 2).

 

 

Alguns estudos9,16 sugeriram que a força de adesão para sucesso na colagem de braquetes deveria estar, no mínimo, entre 6 e 8MPa, já que esses valores seriam capazes de suportar as forças mastigatórias e ortodônticas. Outros estudos que realizaram ensaios de cisalhamento com esse tipo de material mostram valores de resistência ao cisalhamento variando entre 7,5 e 10,57MPa7,18. Todas as tensões encontradas nesse estudo, inclusive do grupo IV, estão próximas desses valores (Gráf. 1). Isso indica que o material pesquisado poderia ser utilizado até 9 dias após sua ativação, mantendo sua característica ideal de resistência ao cisalhamento. Para que se obtenham melhores resultados com esse material, no que diz respeito à força de adesão à superfície dentária, o operador deve obedecer cuidadosamente às recomendações dadas pelo fabricante. Sponchiado et al.18 mostraram que variações na técnica de colagem utilizando o sistema adesivo autocondicionante podem afetar de maneira significativa a resistência ao cisalhamento. Outros fatores que podem afetar a resistência ao cisalhamento e que devem ser considerados são o tamanho do braquete, a composição química do esmalte1, adequada profilaxia2 e o ambiente em que o procedimento foi realizado6. Todos esses fatores, com exceção da composição química do esmalte, podem ser controlados pelo operador.

 

 

Outro aspecto a ser levado em consideração é o fato de o esmalte bovino oferecer níveis de força de adesão diferentes quando comparado ao esmalte humano11. Além disso, o preparo dos dentes bovinos durante o experimento é crucial para a não alteração dos resultados4. Mesmo assim, a utilização de dentes bovinos tornou-se preferida devido à sua fácil aquisição e às características histológicas e histoquímicas semelhantes às do esmalte humano, tornando-se de grande valia em estudos que utilizam forças adesivas11,13,15,18.

 

CONCLUSÕES

De acordo com resultados obtidos nesse estudo, pode-se concluir que:

» Os níveis de tensão de resistência ao cisalhamento nos grupos I, II, III e IV se mantiveram acima do mínimo preconizado pela literatura.
» O armazenamento do adesivo autocondicionante em temperatura média de 4ºC por até 5 dias não afetou os resultados quanto às tensões de resistência ao cisalhamento.
» O grupo IV (9 dias após ativação do adesivo) mostrou diferença de resistência ao cisalhamento estatisticamente significativa em relação aos demais grupos.
» Devido à grande sensibilidade do material estudado, torna-se de fundamental importância seguir corretamente as instruções de uso preconizadas pelo fabricante para obter as melhores propriedades do material. » São necessários novos estudos para avaliação das demais características do material quando de sua utilização por período prolongado após a ativação.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
Camilo Aquino Melgaþo
Rua Espírito Santo, n. 1111/1401 - Centro
CEP: 30.160-031 - Belo Horizonte / MG
E-mail: camiloaquino@ig.com.br

Enviado em: 07/08/2008
Revisado e aceito: 08/08/2008

 

Os autores declaram não ter interesses associativos, comerciais, de propriedade ou financeiros, que representem conflito de interesse, nos produtos e companhias descritos nesse artigo.