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Dental Press Journal of Orthodontics

On-line version ISSN 2176-9451

Dental Press J. Orthod. vol.16 no.5 Maringá Sept./Oct. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S2176-94512011000500009 

ARTIGO INÉDITO

 

Um método para o retratamento da recidiva do desalinhamento dentário

 

 

David NormandoI; Leopoldino Capelozza FilhoII

IEspecialista em Ortodontia pela PROFIS-USP/Bauru. Professor da disciplina de Ortodontia da UFPA. Coordenador do curso de especialização em Ortodontia da EAP/ABO-PA. Mestre em Clínica Integrada pela FOUSP. Doutor em Odontologia pela UERJ
IIProfessor Doutor da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo/Bauru. Membro do setor de Ortodontia do HRAC-USP/Bauru

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

INTRODUÇÃO: o ortodontista clínico deve esperar alguma perda do alinhamento dentário obtido durante o tratamento ortodôntico nos casos em que a contenção ortodôntica foi suspensa pelo profissional ou perdida pelo paciente. Nessa situação, os pacientes são, frequentemente, relutantes em novamente usar braquetes para retratar o alinhamento dentário perdido após o tratamento.
OBJETIVO: esse artigo descreve o uso de uma técnica simples e eficiente para corrigir pequenas alterações do alinhamento dentário. Esse procedimento, inovador e de baixo custo, produz a resolução da recidiva em poucas semanas. A força usada para realinhar os dentes é obtida através de um fio elastomérico transparente amarrado a uma contenção fixa, de vários filamentos, colada às arcadas superior e inferior.

Palavras-chave: Movimentação dentária. Aparelhos ortodônticos. Incisivo. Recidiva.


 

 

INTRODUÇÃO

Estudos longitudinais de casos tratados ortodonticamente têm demonstrado que, mesmo quando a oclusão ideal é alcançada, existe uma tendência de recidiva pós-tratamento1-4. Além disso, a satisfação do paciente está moderadamente associada à estabilidade do tratamento ortodôntico5, enquanto o uso de contenções é um fator importante para a estabilidade do movimento ortodôntico4. Portanto, preservar o alinhamento dos dentes pode contribuir significativamente para um melhor nível de satisfação, em longo prazo, dos pacientes submetidos ao tratamento ortodôntico.

A forma mais efetiva para o retratamento ortodôntico do apinhamento ou diastemas requer o uso de braquetes e fios de nivelamento. Contudo, os pacientes são, geralmente, relutantes em usar, mais uma vez, aparelhos fixos convencionais. Algumas alternativas têm sido propostas na literatura, envolvendo o uso de aparelhos removíveis ativos6-10, contenção com ganchos linguais11 ou o uso de fios de níquel-titânio como dispositivos de contenção12. Uma técnica inédita, que envolve o uso das contenções já instaladas e fios elastoméricos transparentes, é apresentada neste artigo.

 

APRESENTAÇÃO DA TÉCNICA

O uso da contenção fixa inferior é uma rotina ao final do tratamento ortodôntico, e a sua eficiência tem sido amplamente reportada na literatura ortodôntica4,13. Entretanto, o uso da contenção fixa superior não parece tão popular. Dessa forma, rotineiramente, os ortodontistas fazem uso da placa de Hawley para conter o movimento ortodôntico realizado na arcada superior, enquanto a contenção fixa, tipo 3X3, é a opção primária para a arcada inferior14,15. Essa escolha parece estar baseada na perspectiva de que a recidiva é mais frequente na arcada inferior que na superior1,4; além de ser mais difícil manter a contenção colada na arcada superior, em razão do trespasse vertical e dos riscos de fratura pelo contato incisal durante a mastigação. Apesar do desalinhamento ser mais frequentemente observado na arcada inferior, é razoável acreditar que a instabilidade do movimento realizado na arcada superior cause maior insatisfação ao paciente, principalmente nos casos onde exista sua maior exposição estética no sorriso. Além disso, a colagem eficaz da contenção superior requer um cuidado adicional durante a instalação do fio, que deve ser posicionado abaixo do ponto de contato. Por outro lado, um estudo prévio16 demonstrou uma excelente taxa de sucesso da estabilidade em longo prazo das contenções fixas superior e inferior.

A técnica apresentada neste artigo requer o uso de contenções fixas em ambas as arcadas. Também é importante o uso de fio multifilamentado, tipo coaxial, fabricado em aço inoxidável com 0,021" de diâmetro, devido à sua excelente estabilidade15 e à rugosidade superficial - que permite ao fio manter a posição do cordão elastomérico que produzirá a força necessária para movimentar os dentes. A direção dessa força será definida pelo posicionamento do fio elástico em relação à contenção fixa. O elastômero é substituído a cada duas semanas, em média. Assim, é possível corrigir deslocamentos dentários em direção vestibular (Fig. 1), rotações (Fig. 2) e a reabertura de espaços (Fig. 3) nas arcadas superior e/ou inferior. Entretanto, deve-se observar que, na maioria dos casos de deslocamento vestibular dos incisivos, faz-se necessária a criação de espaço, que pode ser conseguido através de procedimentos de desgaste dentário dos dentes envolvidos (Fig. 1).

 

CASOS CLÍNICOS

Três casos clínicos serão usados para ilustrar a técnica apresentada nesse artigo. Eles são representativos da recidiva do desalinhamento dentário após a fratura ou perda das contenções fixas previamente instaladas.

O primeiro caso envolve a recidiva de um incisivo em direção vestibular (Fig. 1); o segundo é o caso de uma rotação de um incisivo inferior (Fig. 2); e o terceiro é o retratamento de uma reabertura de espaço anterior (Fig. 3). A descrição do método para amarrar o cordão elástico na contenção é mostrada na Figura 4.

 

DISCUSSÃO

A estabilidade dos resultados tem sido um dos objetivos principais do tratamento ortodôntico, embora a ciência ortodôntica reconheça que a movimentação ortodôntica não seja estável, em razão de múltiplos fatores que podem interferir no equilíbrio oclusal pós-tratamento. A despeito de um grande número de publicações científicas sobre o tema, uma revisão sistemática17 reporta que os dados científicos obtidos até o momento são insuficientes para dar suporte científico à prática clínica adotada no que concerne à escolha das contenções.

O risco de recidiva no segmento anterior, comparado ao posterior4, é uma indicação clínica para uma contenção fixa inferior. Fios multifilamentados, semiflexíveis, têm sido propostos para a confecção das contenções fixas - com base na sua capacidade de permitir os movimentos fisiológicos dos dentes, além da sua superfície oferecer um aumento na retenção mecânica do adesivo18,19. Entretanto, apesar da eficácia desse tipo de contenção na prevenção de recidivas do desalinhamento dos incisivos inferiores20, alterações pós-tratamento da região anterior da arcada dentária são esperadas quando ocorrem falhas no sistema adesivo resina-fio1-4.

Estudos longitudinais de casos tratados ortodonticamente têm demonstrado uma tendência de recidiva pós-tratamento1-4, mesmo em casos bem finalizados. Essas alterações podem ocorrer intempestivamente em caso de perda ou fratura das contenções. Embora a forma mais efetiva para o retratamento ortodôntico do apinhamento ou diastemas requeira o uso de braquetes e fios de nivelamento, a vantagem de se utilizar um procedimento mais simples, rápido e de baixo custo justificaria, por si só, a adoção desse método. A técnica descrita nesse artigo, além de eficiente, parece ser de maior aceitabilidade pelo paciente em face à rapidez dos retratamentos e ao menor impacto na estética. Contudo, requer que o ortodontista faça uso de contenções fixas para ambas as arcadas dentárias. O procedimento é capaz de corrigir pequenas alterações pós-tratamento, tais como o deslocamento vestibular dos incisivos (Fig. 1), rotações (Fig. 2) e diastemas (Fig. 3) dos dentes anteriores.

Embora eficiente na correção de pequenas alterações, típicas do desalinhamento dentário na região anterior, deve-se ressaltar que alterações maiores ainda parecem mais eficientemente tratadas com aparelhos fixos. Nesse caso, o profissional terá que "quebrar" a usual resistência do paciente - que, geralmente, reluta em usar braquetes e fios ortodônticos - ou buscar outras formas alternativas para executar o retratamento. Entretanto, a desvantagem de se montar o aparelho fixo novamente para a correção de pequenos movimentos parece perfeitamente substituível através do método descrito no presente artigo.

 

CONCLUSÃO

A técnica descrita nesse artigo mostrou-se eficiente para corrigir pequenas alterações, na região dos dentes anteriores, que podem se manifestar (após o tratamento ortodôntico) quando ocorre uma falha na colagem das contenções. A aplicabilidade desse procedimento, de simples emprego, requer o uso de contenções fixas em ambas as arcadas. Estudos prospectivos envolvendo amostras maiores devem ser conduzidos com o objetivo de investigar cientificamente a taxa de sucesso desse procedimento clínico.

 

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Endereço para correspondência
David Normando
Rua Boaventura da Silva, 567, ap. 1201 - Belém / PA
CEP: 66.0550-090
E-mail: davidnor@amazon.com.br

Enviado em: 23 de fevereiro de 2011
Revisado e aceito: 3 de maio de 2011