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Jornal da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia

On-line version ISSN 2179-6491

J. Soc. Bras. Fonoaudiol. vol.24 no.1 São Paulo  2012

http://dx.doi.org/10.1590/S2179-64912012000100011 

ARTIGO ORIGINAL

 

Análise da narrativa oral de pré-escolares antes e após estimulação de linguagem

 

 

Beatriz Lopes Porto VerzollaI; Selma Mie IsotaniII; Jacy PerissinotoII

IPrograma de Aprimoramento Profissional em Saúde Coletiva, Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – USP – São Paulo (SP), Brasil
IIDepartamento de Fonoaudiologia, Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP – São Paulo (SP), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Verificar as habilidades de narrativa oral em pré-escolares, antes e após estimulação de linguagem.
MÉTODOS: Foram analisadas narrativas de 58 pré-escolares. O estudo foi desenvolvido em três etapas: 1. Etapa pré-estimulação (Momento 1) – os pré-escolares produziram a primeira narrativa autônoma a partir de uma sequência de figuras e a segunda narrativa autônoma após tutela do adulto; 2. Etapa de estimulação – foi realizada a leitura de histórias infantis em grupo, semanalmente, durante dez semanas; 3. Etapa pós-estimulação (Momento 2) – foi repetido o procedimento da primeira etapa. A análise dos resultados considerou: a ocorrência de eventos centrais e secundários; a conduta justificativa/explicativa, classificada segundo causas físicas, regras morais/sociais e estado interno; a expressão e retificação de falsas crenças, analisadas por meio da conduta justificativa/explicativa de estado interno.
RESULTADOS: Houve aumento na ocorrência de eventos centrais no Momento 2, e após a tutela, com decréscimo de eventos secundários comparando-se os dois momentos e a presença da tutela. Em relação à conduta justificativa/explicativa, não houve diferenças para as justificativas do tipo físico, regras sociais/morais e estado interno. A conduta justificativa/explicativa do tipo estado interno foi a tipologia predominantemente encontrada em todas as narrativas.
CONCLUSÃO: A leitura de histórias infantis e a tutela do adulto contribuem para o aumento da ocorrência de eventos nas narrativas autônomas. Não há variação na tipologia da conduta justificativa/explicativa nas narrativas. A tipologia de conduta justificativa/explicativa de estado interno é predominantemente utilizada pelos pré-escolares.

Descritores: Pré-escolar; Narração; Desenvolvimento infantil; Linguagem infantil; Teoria da mente; Comportamento verbal


 

 

INTRODUÇÃO

A linguagem oral começa a se desenvolver logo ao nascimento. Desde esse momento, a criança já é exposta ao código oral e, gradualmente, familiariza-se com os sons de sua língua, para posteriormente produzi-los funcionalmente por meio da fala. Dentre as capacidades que a criança apresenta para dominar a linguagem oral, uma das mais significativas é a de narrar eventos. A criança começa a relatar as próprias experiências ao fazer o encadeamento das palavras e adquirir percepção dos eventos temporais. Essa capacidade aprimora-se e a criança passa a recontar histórias e criar cenários e personagens fictícios, explorando sua imaginação(1).

A leitura de histórias infantis pode ser utilizada como um recurso promotor do desenvolvimento. Tal recurso contribui para o desenvolvimento das competências sociocognitivas, o processamento da informação social e a compreensão de estados mentais(2).

O adulto pode assumir diversos papeis de tutela em atividades de compreensão e produção na interação adulto-criança. Ele pode agir como alguém que dá instruções, que expõe um saber ou que sustenta os sujeitos em suas tentativas de verbalização. Sobretudo, atua como parceiro na contribuição para a elaboração discursiva da criança(3).

As habilidades narrativas das crianças antes de sua entrada na vida escolar podem ser consideradas como um importante preditor do desempenho escolar especialmente para crianças consideradas de risco para o desenvolvimento acadêmico e de linguagem(4).

O sucesso da interação social pode ser atribuído ao desenvolvimento da "inteligência social", especialmente em relação à capacidade de entender e manipular estados mentais de outros indivíduos e, assim, alterar seu comportamento(5). Durante a compreensão de histórias, a teoria da mente pode ser ajustada para inferir os estados mentais dos personagens(6).

Relacionado com a atribuição de estados mentais está o conceito de falsa crença, caracterizada como uma crença que diverge da realidade por estar pautada em informações perceptuais parciais sobre determinada situação. Inicialmente, as crianças lidam com representações emocionais distintas, atribuindo-as adequadamente a determinados contextos, para posteriormente adquirir instrumentos para as representações de crenças conflitantes, ou seja, a atribuição de emoções ocorre mais precocemente do que a atribuição de falsas crenças(7).

Neste contexto, a conduta justificativa e explicativa (CJE) apresenta-se como uma utilização da linguagem que visa à ação sobre os estados internos de seu interlocutor(8). Pesquisas baseadas nos conflitos e nas disputas entre crianças ou entre um adulto e uma criança revelam que crianças pequenas produzem justificações para gerar interação e para que seu próprio ponto de vista seja mais facilmente aceito pelo interlocutor(9).

A realização desta pesquisa justifica-se, portanto, pela importância atribuída à estimulação de linguagem mediada pelo adulto em crianças pré-escolares, visando ao aprimoramento de sua elaboração discursiva e, consequentemente, contribuindo para o desenvolvimento geral da linguagem. O objetivo deste estudo foi verificar as habilidades de narrativa oral em pré-escolares, antes e após estimulação de linguagem.

 

MÉTODOS

Este estudo foi realizado em parceria com um Programa de Integração, vinculado ao Departamento de Fonoaudiologia da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), em projeto intitulado "Estimulação da linguagem em pré-escolares por meio da leitura de histórias infantis". Houve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da UNIFESP sob o número 0204/09. Todos os participantes da pesquisa eram alunos regularmente matriculados no Jardim II de uma escola pública do município de São Paulo e foram autorizados por seus pais ou responsáveis a serem incluídos no Programa de Extensão no qual a instituição de ensino e a universidade são parceiras. Os dados coletados durante a realização do projeto fazem parte dos arquivos do Departamento de Fonoaudiologia, que autorizou sua utilização para esta pesquisa. Foram analisadas as narrativas orais de 58 pré-escolares, com idades entre 5 e 6 anos, que não foram pareados segundo gênero. Neste estudo, consideramos para a estimulação de linguagem a leitura de histórias infantis, como forma de intervenção coletiva, e a tutela do adulto, como forma de intervenção individual.

Etapas do estudo

Etapa de produção de narrativa autônoma antes e após tutela do adulto (Momento 1)

Nesta etapa, os pré-escolares produziram uma primeira narrativa autônoma a partir da sequência lógico-temporal de cinco figuras, que formam a história "A pedra no caminho"(10). A sequência lógico-temporal, utilizada no estudo, pode ser classificada como uma sequência do tipo intencional, onde é necessária uma interpretação dos estados mentais dos personagens, como a atribuição de falsas crenças, e não apenas a descrição do seu comportamento(11). A história tem como foco um mal-entendido entre dois personagens em relação a uma apreciação diferente de um acontecimento-chave, e contém oito eventos (ações). Cinco deles são considerados eventos centrais, ou seja, fundamentais para o entendimento da história, e três deles são considerados secundários, que não determinam o entendimento da história. O mal-entendido presente na história é baseado na falsa crença que um dos personagens atribuiu ao outro sobre um empurrão não intencional. Em seguida, os pré-escolares foram submetidos à tutela do adulto, que auxiliou os pré-escolares na retomada da história, e produziram uma segunda narrativa autônoma. Ambas as narrativas autônomas foram gravadas e transcritas para análise. O tempo utilizado nesta etapa do estudo foi de dez minutos, em média, para cada pré-escolar.

Etapa de estimulação por meio de leitura de histórias pelo adulto

Realizou-se, durante dez semanas, a leitura de dez diferentes histórias infantis, que foram selecionadas em parceria com as educadoras e coordenadoras da pré-escola e fazem parte de um conjunto previamente elaborado para utilização no Projeto de Extensão(12). Os livros foram selecionados de acordo com o planejamento pedagógico, o interesse e a faixa etária dos alunos e, e abordavam temas como preconceito, respeito, comportamento, amor, medo, ética, pluralidade cultural, solidariedade e seres fantásticos. A ordem de apresentação dos livros foi discutida em conjunto com a equipe escolar, respeitando o conteúdo programático das aulas e o nível de complexidade das histórias, partindo dos menos para os mais complexos.

Os livros foram lidos aos pré-escolares em sala de aula, na presença da professora e/ou da auxiliar de sala. Após cada leitura, o tema da história foi retomado, permitindo que os pré-escolares fizessem comentários, a fim de garantir a compreensão da história. A duração média de cada encontro para leitura foi de 30 minutos em cada sala, uma vez por semana, totalizando dez sessões em um período de três meses de estimulação. As atividades foram realizadas em duas salas, contendo entre 25 e 30 alunos em cada, aproximadamente.

Etapa de produção de narrativa autônoma antes e após tutela do adulto (Momento 2)

Nesta etapa, a avaliadora apresentou novamente aos pré-escolares a sequência de figuras utilizada na etapa de pré-estimulação. Foi produzida uma primeira narrativa autônoma e, após a tutela da avaliadora, uma segunda narrativa autônoma.

Todas as narrativas autônomas foram gravadas e transcritas em procedimento idêntico ao realizado na etapa de pré-estimulação. Esta etapa foi realizada após o procedimento anterior e, portanto, três meses após o término das avaliações realizadas no Momento 1.

Procedimentos de análise

Neste estudo, foram consideradas duas etapas para comparação: a etapa de pré-estimulação por meio da leitura de histórias pelo adulto, chamada de Momento 1, e a etapa de pós-estimulação por meio de leitura de histórias pelo adulto, chamada de Momento 2. Em ambos os momentos foram analisadas as quatro narrativas autônomas transcritas, ou seja, as narrativas realizadas antes e após a tutela do adulto. Foi considerada como critério de análise das narrativas a referência aos eventos contidos na história, classificados como eventos centrais (tropeção, empurrão, contraempurrão, apontar a pedra, reconciliação) e eventos secundários (saudação, queda, choro)(13).

Para a análise da CJE, cada evento explicado foi analisado quanto à relação física, de estado mental ou regra social entre o que é explicado e o que explica. Desta maneira, foram registrados: causas físicas, em que o evento explicativo se dá por causalidade física; estado interno, em que a explicação considera a percepção e a intenção dos personagens; regras sociais e morais, em que a explicação é do tipo moral, faz apelo às regras e convenções sociais, utilização e práticas culturais(14). A expressão e retificação de falsas crenças foram avaliadas a partir da referência à conduta justificativa/explicativa de estado interno, que permite a resolução do mal-entendido presente na história.

Todas as narrativas produzidas por cada um dos pré-escolares foram analisadas de acordo com os parâmetros acima descritos. As referências aos eventos centrais e secundários, bem como a utilização da conduta justificativa/explicativa foram computadas e analisadas por meio de testes estatísticos apropriados.

Método estatístico

Para a análise do aumento da ocorrência dos eventos presentes na história, foi utilizada a Análise de Variância com Medidas Repetidas em dois fatores de repetição, que comparou os resultados do grupo de pré-escolares entre o Momento 1 e o Momento 2 (denominado de efeito de tempo) e os resultados antes e após a tutela do adulto (denominado efeito de estímulo). Para verificar a presença de interação entre os resultados, ou seja, comportamentos diferenciados em função de uma ou outra variável, foi utilizado o teste de Bonferroni.

A presença de interação pode indicar que o grupo de pré-escolares analisado antes e após a tutela apresenta comportamentos diferenciados para cada momento considerado. Pode indicar, ainda, que há diferenças entre os momentos apenas para determinada situação (antes ou após a tutela).

Para a análise do aumento do uso da CJE foi utilizada a Equação de Estimação Generalizada. Para as tipologias de CJE que apresentaram número reduzido de respostas, foi utilizado o teste não paramétrico de Friedman. Para todas as análises, foi adotado nível de significância de 0,05 (5%) e foram adotados intervalos de confiança estatística de 95%.

 

RESULTADOS

Comparação da ocorrência dos eventos no Momento 1 e no Momento 2, antes e após tutela do adulto

Na análise dos resultados, verificou-se a presença de interação entre o desempenho dos pré-escolares nos dois momentos considerados, antes e após tutela do adulto. Foi encontrada diferença na análise dos eventos centrais, com efeito de tempo, efeito de estímulo e efeito de interação (Tabela 1). Estes resultados apontam para um aumento na ocorrência dos eventos centrais na narrativa autônoma dos pré-escolares tanto após estimulação com a leitura de histórias infantis (efeito de tempo), quanto após tutela do adulto (efeito de estímulo).

A presença de interação pode indicar que o grupo de pré-escolares analisado antes e após a tutela apresenta comportamentos diferenciados para cada momento considerado.

Na análise das correlações múltiplas, considerando apenas o efeito da tutela do adulto no desempenho dos pré-escolares, verificou-se que houve aumento da ocorrência de eventos centrais no Momento 1 (p<0,001) e no Momento 2 (p=0,012) após a tutela. Estes resultados indicam que a tutela do adulto foi eficaz para o aumento da ocorrência de eventos centrais na narrativa autônoma dos pré-escolares, independentemente da estimulação por meio da leitura de histórias infantis.

Na análise das correlações múltiplas considerando apenas o efeito da estimulação de linguagem por meio da leitura de histórias infantis no desempenho dos pré-escolares, verificou-se que houve aumento da ocorrência de eventos centrais antes da tutela (p<0,001) e após a tutela (p<0,001) em ambos os momentos considerados. Estes resultados indicam que a estimulação da linguagem por meio da leitura de histórias infantis foi eficaz para o aumento da ocorrência de eventos centrais na narrativa autônoma dos pré-escolares, independentemente da tutela do adulto.

Na análise dos eventos secundários, foi observada diferença apenas para o efeito de interação (Tabela 2). Na análise das correlações múltiplas considerando apenas o efeito da tutela do adulto no desempenho dos pré-escolares, verificou-se que houve aumento da ocorrência de eventos secundários apenas no Momento 1 (p<0,008), após a tutela. Estes resultados indicam que a tutela do adulto foi eficaz para o aumento da ocorrência de eventos secundários na narrativa autônoma dos pré-escolares apenas na situação de pré-estimulação.

Na análise das correlações múltiplas considerando apenas o efeito da estimulação de linguagem por meio da leitura de histórias infantis no desempenho dos pré-escolares, não foram obtidas diferenças após a tutela em nenhum dos dois momentos considerados. Estes resultados indicam que a estimulação da linguagem por meio da leitura de histórias infantis não interferiu no desempenho dos pré-escolares em relação aos eventos secundários, independentemente da tutela, e sugerem um decréscimo na ocorrência destes eventos.

Comparação das tipologias de CJE utilizadas no Momento 1 e no Momento 2, antes e após tutela do adulto

Apesar de os valores percentuais sugerirem aumento da ocorrência da CJE, principalmente após tutela do adulto, não foram encontradas diferenças para as justificativas do tipo físico (efeito de tempo: p=0,782; efeito de estímulo: p=0,160; efeito de interação: p=0,892). Para a justificativa do tipo físico no Momento 1, foram encontrados percentuais de 8,6% de ocorrência antes da tutela e 15,5% após a tutela. Para a justificativa do tipo físico no Momento 2, foram encontrados percentuais de 6,9% de ocorrência antes da tutela e 13,8% após a tutela (Figura 1).

 

 

Para a justificativa do tipo regras sociais e morais, não foram encontradas diferenças (p=0,532) e os resultados percentuais também não indicaram diferença (Figura 2).

 

 

Embora os valores percentuais sugiram aumento da ocorrência da justificativa do tipo estado interno, também não foram encontradas diferenças estatísticas (efeito de tempo: p=0,345; efeito de estímulo: p=0,247; efeito de interação: p=0,096). Para a justificativa do tipo estado interno no Momento 1, foram encontrados percentuais de 8,6% de ocorrência antes da tutela e 29,3% após a tutela. Para a justificativa do tipo estado interno no Momento 2, foram encontrados resultados percentuais de 15,5% de ocorrência antes da tutela e 22,4% após a tutela (Figura 3).

 

 

Na análise percentual das respostas, foi encontrada predominância da CJE do tipo estado interno, conforme indicam os resultados mencionados anteriormente. A CJE do tipo estado interno sugere a presença da expressão e retificação de falsas crenças nas narrativas dos pré-escolares.

 

DISCUSSÃO

Os pré-escolares foram capazes de realizar as narrativas autônomas, sequencializando e descrevendo os fatos, conforme esperado e exposto pela literatura(13,15). Os resultados mostraram que o efeito da tutela é imediato, porém existe também um efeito em longo prazo, analisando-se o aumento da ocorrência de eventos no Momento 2. Caracterizando-se a tutela como uma possibilidade de interação social entre o adulto e a criança, esta relação contribui para o desenvolvimento das habilidades linguísticas, nas quais ambos contribuem com suas experiências e conhecimentos para o curso da interação, estabelecendo uma relação recíproca e bidirecional(16).

O aumento da ocorrência de eventos centrais, com redução da ocorrência de eventos secundários, sugere que, após tutela do adulto, os pré-escolares focam sua atenção nos eventos mais relevantes para o entendimento da história. O material utilizado para avaliação das narrativas pode ter contribuído na seleção dos elementos centrais, por utilizar uma representação pictográfica. A representação pictográfica das histórias faz com que a criança não tenha que narrar todos os fatos envolvidos, pois já tem essa imagem visualmente. Dessa forma, podem ser escolhidos para a narrativa os dados mais relevantes, sem prejudicar seu entendimento(17).

A exposição a diferentes histórias infantis durante as sessões de estimulação com mediação do adulto proporcionou aos pré-escolares o contato mais próximo com a estrutura narrativa, favorecendo a retomada dos conceitos centrais das histórias, permitindo destaque aos elementos essenciais para o seu entendimento. Tal exposição pode ter contribuído para o resgate de eventos centrais, em detrimento dos eventos secundários, na retomada das narrativas autônomas dos pré-escolares na etapa de pós-estimulação desta pesquisa. Autores apontam que os jovens não são ensinados a contar uma história, mas são envolvidos desde a infância por histórias contadas e repetidas diversas vezes por seus pais e professores, o que favorece a construção mais elaborada de roteiros mentais, necessários à compreensão e criação de narrativas próprias(18).

A estimulação por meio da leitura de histórias infantis consistiu também em uma forma de tutela do adulto realizada em grupo, na medida em que, após a primeira leitura da história, o adulto retomava a temática e os eventos principais presentes na narrativa com os pré-escolares. O papel do adulto na estimulação da linguagem infantil é importante tanto em situações em grupo quanto individuais, conforme mencionado pela literatura em relação aos diferentes tipos de tutela e intervenção(3,4,19).

O aumento da ocorrência de eventos centrais na narrativa dos pré-escolares, verificado no Momento 2, pode ser atribuído às sessões de estimulação de linguagem exercidas durante as dez semanas de narração das histórias infantis e ao trabalho complementar de estimulação exercido pela equipe pedagógica da instituição envolvida, de acordo com as ações previstas pelo Programa de Extensão do Departamento de Fonoaudiologia. O ambiente escolar também contribui para estimulação da linguagem oral dos pré-escolares na medida em que proporciona o contato destes com seus pares e com adultos intencionados na aquisição do conhecimento e na estimulação da linguagem infantil(16).

A predominância da CJE do tipo estado interno confirma, conforme exposto pela literatura, a capacidade de crianças, de cinco e seis anos de idade, ajustarem-se ao outro e assumirem perspectivas de outras pessoas, demonstrando a habilidade de teoria da mente, como a expressão e retificação de falsas crenças(8,20).

A ausência de diferenças estatísticas no aumento do uso da CJE pode ser explicada, pois as crianças em idade pré-escolar ainda não são capazes de relacionar ações entre os personagens e estabelecer relações de causa/efeito do tipo intencional, apesar de atribuírem estados mentais a si e a outras pessoas. Os pré-escolares iniciam a compreensão de que estados mentais existem, tais como intenções, vontades, conhecimentos e crenças, que influenciam os comportamentos dos indivíduos e que podem ser diferentes entre esses mesmos indivíduos, demonstrando habilidades relacionadas à teoria da mente(21-23).

Assim como em estudos anteriores, no presente estudo também foi possível observar a narrativa autônoma encadeada por uma sequência de fatos, mas sem a preocupação com uma ação que conduzisse à resolução do conflito(13,15). Estudo realizado com crianças de cinco, oito e dez anos de idade, utilizando a mesma sequência de figuras utilizada neste estudo, verificou que a história pode ser contada tanto em nível descritivo, como em nível mais elaborado, em que são atribuídas intenções e crenças aos personagens(19). Dessa forma, os resultados obtidos no presente estudo podem indicar que a amostra de pré-escolares analisada utilizou predominantemente os recursos narrativos descritivos. Isso ocorreu mesmo havendo a retomada, durante a tutela do adulto, dos elementos envolvidos na resolução do conflito, que representam a conduta justificativa/explicativa do tipo intencional.

Em estudo que analisou a ocorrência de estados mentais na narrativa de pré-escolares a partir de imagens, foram encontrados, predominantemente, termos perceptivos, focalizando ações e atos físicos dos personagens em detrimento dos estados subjetivos (pensamentos, emoções, desejos e intenções)(24). No presente estudo, as autoras verificaram maior facilidade das crianças em descrever comportamentos observáveis, como as ações dos personagens, do que atitudes envolvendo ações implícitas, confirmando os dados de estudo anterior(24).

As histórias infantis utilizadas na etapa de estimulação deste estudo podem não ter valorizado os aspectos de justificações/explicações, em que são fornecidas não apenas causas ou razões sobre os fenômenos, mas também relações justificativas, incluindo razões ou motivações psicológicas do dizer, da ação ou de atos comunicativos em geral.

Apesar de os livros indicados para pré-escolares apresentarem referências a estados mentais, pesquisas apontam para uma porcentagem reduzida de referências a falsas crenças(25-27). Dessa forma, os livros infantis utilizados na etapa de estimulação deste estudo, podem não ter contribuído significativamente para aumentar a expressão e retificação de falsas crenças presentes nas narrativas dos pré-escolares.

De maneira geral, pode-se afirmar que a estimulação de linguagem realizada por meio da leitura de histórias infantis e a tutela do adulto contribuíram para o aprimoramento das habilidades narrativas dos pré-escolares, principalmente com aumento da ocorrência de eventos centrais.

Diante dos resultados obtidos no presente estudo e dos comentários expostos acima, pode-se afirmar a importância da continuidade de estudos relacionados à narrativa dos pré-escolares, particularmente em relação aos aspectos das justificações/explicações, dada sua importância no desenvolvimento das habilidades linguísticas infantis. Novas pesquisas também podem ser sugeridas em relação à análise do conteúdo dos livros infantis utilizados na fase de estimulação deste estudo, privilegiando aqueles que utilizem temáticas relacionadas à atribuição de estados mentais. Dessa forma, poderia haver maior possibilidade de abordagens relacionadas às justificações e explicações e à expressão e retificação de falsas crenças.

 

CONCLUSÃO

A leitura de histórias infantis e a tutela do adulto contribuem para o aumento da ocorrência de eventos nas narrativas autônomas. Há aumento da ocorrência de eventos centrais, com redução da ocorrência de eventos secundários nas narrativas autônomas dos pré-escolares tanto após estimulação por meio da leitura de histórias infantis, quanto após tutela do adulto.

Apesar de os resultados percentuais sugerirem uma variação, não há diferença significante na tipologia da conduta justificativa/explicativa presente nas narrativas. A tipologia de conduta justificativa/explicativa de estado interno é predominantemente utilizada nas narrativas dos pré-escolares.

 

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Endereço para correspondência:
Jacy Perissinoto
R. Botucatu, 802, Vila Clementino, São Paulo (SP), Brasil, CEP: 04023-900
E-mail: jacyperi@terra.com.br

Recebido em: 14/7/2011
Aceito em: 10/11/2011

 

 

Trabalho realizado no Núcleo de Investigação Fonoaudiológica em Linguagem e Fala da Criança e do Adolescente (NIFLINC), Departamento de Fonoaudiologia, Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP – São Paulo (SP), Brasil.
Conflito de interesses: Não