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Jornal da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia

versão On-line ISSN 2179-6491

J. Soc. Bras. Fonoaudiol. vol.24 no.2 São Paulo  2012

http://dx.doi.org/10.1590/S2179-64912012000200018 

COMUNICAÇÃO BREVE

 

Estímulos visuais e produção escrita de surdos sinalizadores

 

 

Laís Alves Jacinto; Karen Barros Ribeiro; Aparecido José Couto Soares; Maria Silvia Cárnio

Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo - USP - São Paulo (SP), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Verificar a interferência de estímulos visuais na escrita de surdos sinalizadores sem queixas de leitura e escrita.
MÉTODOS: O grupo de pesquisa foi composto por 12 alunos com escolaridade entre o quarto e o quinto ano do ensino fundamental, com perda neurossensorial de grau severo ou profundo, usuários de Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) e com nível alfabético de escrita. Os sujeitos foram orientados a elaborar um texto para cada estímulo visual apresentado: figuras de sequência lógica e uma figura de ação. A análise foi realizada seguindo-se os critérios das competências comunicativas.
RESULTADOS: Não foram observadas diferenças na produção escrita dos sujeitos da pesquisa para ambos os estímulos. Observou-se ausência de título e pontuação, verbos no modo infinitivo, ausência de elos coesivos e inclusão de palavras inventadas.
CONCLUSÃO: Os diferentes estímulos visuais não interferem na produção textual dos sujeitos.

Descritores: Educação; Redação; Surdez; Avaliação; Linguagem de sinais


 

 

INTRODUÇÃO

Os surdos usuários de língua de sinais podem apresentar uma escrita fragmentada e um vocabulário reduzido devido às características estruturais e gramaticais próprias desta língua, diferentes do Português escrito, o que resulta em uma dificuldade em relacioná-las(1,2). Portanto, para surdos sinalizadores, o processo de aquisição da escrita se dá por grande influência do canal visual(3).

Dessa forma, é importante desenvolver estratégias que possam maximizar o uso do português escrito por esta população, uma vez que propiciará maior desenvolvimento acadêmico e inserção social. Nesse sentido, objetivou-se verificar a interferência de estímulos visuais na escrita de surdos sinalizadores sem queixas de leitura e escrita.

 

MÉTODOS

A pesquisa foi aprovada pela Comissão de Ética da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (CEP-FMUSP), sob nº003/10 e realizada em uma escola de educação especial para surdos. Todos os pais/responsáveis pelos sujeitos assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Participaram 12 estudantes com idades entre 9 e 13 anos, de ambos os gêneros. Os critérios de inclusão foram: perda auditiva neurossensorial severa ou profunda; ausência de distúrbios neurológicos, comportamentais e cognitivos; possuir nível alfabético de escrita(4) e ausência de queixa de alteração de leitura e escrita (qualquer reclamação dos pais ou professores em relação ao desempenho escolar dos estudantes).

Para a confirmação dos critérios de inclusão, os professores responderam a um questionário sobre o desempenho escolar dos estudantes, indicando se o desempenho estava de acordo com o esperado para a idade e escolaridade. Os pais responderam a uma anamnese e todos os sujeitos foram submetidos à triagem fonoaudiológica.

Provas experimentais

Os estudantes foram instruídos a produzir um texto, com base em dois diferentes estímulos visuais: figuras de sequência lógica e uma figura de ação. Tal orientação foi dada por uma instrutora surda, por meio de um vídeo gravado. Não houve instrução para produção de gêneros textuais específicos. Os sujeitos foram colocados em grupos pequenos, de forma a não se comunicarem.

Em seguida, foram apresentadas quatro figuras em sequência, impressas em papel, selecionadas de um estudo internacional(5), para a elaboração do primeiro texto. Em outro momento, apresentou-se uma figura de ação, também impressa em papel, retirada de um livro utilizado na área de linguagem(6,7) para a realização da segunda produção escrita.

As produções escritas foram analisadas segundo as Competências Comunicativas(8) (Genérica, Linguística, e Enciclopédica), adaptadas em protocolo por estudo brasileiro(9) (Anexo 1). Competência Genérica é a capacidade de produzir enunciados no âmbito de certo número de gêneros. Já a Competência Linguística relaciona-se com o domínio da língua, e a Competência Enciclopédica refere-se ao conhecimento de mundo(8).

Cada produção escrita foi analisada qualitativa e quantitativamente. A análise qualitativa foi realizada com o apoio de cinco juízes devidamente treinados e com experiência na área de leitura e escrita.

Cada juiz fez a análise individualmente. Posteriormente, foi realizada uma reunião para discussão dos casos divergentes. A análise quantitativa ocorreu por meio do teste de McNemar, com nível de significância de 5%.

 

RESULTADOS

Quanto à Competência Genérica, predominou o Gênero Narrativo para ambos os estímulos.

Em relação à Competência Enciclopédica (Tabela 1), e Linguística (Tabela 2), o teste estatístico só pôde ser aplicado para os itens Fidedignidade ao Tema, Uso de Inferências, Pontuação e Coesão Global e não ocorreram diferenças para ambos os estímulos. Quanto aos demais itens o teste estatístico não pôde ser aplicado por limitações do mesmo.

 

DISCUSSÃO

Sabe-se que o uso de imagens é considerado um forte aliado no trabalho com surdos, pois estes necessitam do apoio visual para a construção do significado(5). Assim, este estudo confirma tal dado, no sentido de que ambos os estímulos eliciaram produção de textos pelos surdos sinalizadores.

Pode-se afirmar que esta pesquisa traz uma contribuição inovadora ao propor uma nova forma de análise das produções escritas, utilizando, para isso, uma adaptação(9) da análise do discurso, fazendo uso do conceito de Competências Comunicativas. Isso permitiu a caracterização mais precisa das potencialidades e necessidades dos surdos desta pesquisa, o que pode possibilitar melhor direcionamento terapêutico.

No texto escrito, a predominância da Narração na Competência Genérica justifica-se por ser um dos primeiros gêneros textuais trabalhados na escola(10), além de ser encontrada em livros infantis(11).

As alterações na Competência Enciclopédica mostram que os surdos possuem pouco conhecimento de mundo e distanciamento da leitura e da escrita, revelando imaturidade quanto ao domínio da língua escrita(12-14).

Quanto à Competência Linguística, as alterações ortográficas e a ausência de elementos coesivos corroboram achados de outros estudos(9,10,14). Isso pode ocorrer porque muitas vezes os professores de estudantes surdos oferecem frases e palavras prontas, que atendem aos requisitos morfossintáticos da Língua Portuguesa(13) , mas não possibilitam seu uso criativo.

Uma possível explicação para a semelhança das produções escritas dos sujeitos dessa pesquisa pode estar no fato de que o conjunto de figuras em sequência não representava um evento por si só, pois cada uma das figuras possuía elementos de ação isolados, o que propiciou uma aproximação com a figura de ação propriamente dita, sendo esta uma possível limitação do estudo. Além disso, estes dados não permitem generalizações em decorrência da amostra reduzida, denotando a necessidade de outras pesquisas na área, com maior número de sujeitos. Salienta-se ainda a necessidade de pesquisas para a seleção mais acurada de imagens como elemento eliciador, uma vez que as figuras deste estudo induziram predominantemente o gênero narrativo.

 

CONCLUSÃO

Os diferentes estímulos visuais não interferem na produção textual dos surdos. Estes dados podem indicar novos caminhos para a prática fonoaudiológica, denotando a importância do uso de múltiplos estímulos para a melhor utilização do Português escrito por esta população, além de propor uma nova forma para a análise das produções escritas.

 

AGRADECIMENTOS

Agradecemos à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pelo apoio concedido para realização dessa pesquisa, sob processo número 2010/00500-5.

À instrutora surda Maria Lúcia Garcia de Almeida pela competência e parceria na coleta e análise dos dados.

Aos profissionais e alunos da escola pesquisada pela disponibilidade e acolhimento na realização desta pesquisa.

 

REFERÊNCIAS

1. Carvalho CD, Rafaeli YM. A língua de sinais e a escrita - possibilidades de se dizer para o surdo. Estilos Clín. 2003;8(14):60-7.         [ Links ]

2. Biser E, Rubel L, Toscano RM. Bending the rules: when deaf writers leave college. Am Ann Deaf. 2007;152(4):361-73.         [ Links ]

3. Hermans D, Knoors H, Ormel E, Verhoeven L. Modeling reading vocabulary learning in deaf children in bilingual education programs. J Deaf Stud Deaf Educ. 2008;13(2):155-74.         [ Links ]

4. Ferreiro E, Teberosky A. A psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artes Médicas; 1985.         [ Links ]

5. Burman D, Nunes T, Evans D. Writing profiles of deaf children taught through british sign language. Deafness Educ Int. 2007;9(1):2-23.         [ Links ]

6. Mayer M. Frog, where are you? New York: Dial Press; 1969        [ Links ]

7. van Beijsterveldt LM, van Hell JG. Evaluative expression in deaf children's written narratives. Int J Lang Commun Disord. 2009;44(5):675-92.         [ Links ]

8. Maingueneau D. Análise de textos de comunicação. São Paulo: Cortez; 2002.         [ Links ]

9. Lima FT, Cárnio MS. Análise da produção escrita de surdos do ensino superior. In: 16o. Congresso de fonoaudiologia [Internet]. Campos do Jordão (SP); 24 a 28 Setembro; 2008. [citado 2012 Jun 4]; Disponível em: http://www.sbfa.org.br/portal/anais2008/resumos/R0457-2.pdf. [Adaptado de Romano-Soares S. Práticas de narrativas escritas em estudantes do ensino fundamental [dissertação]. São Paulo: Universidade de São Paulo, Faculdade de Educação; 2007.         [ Links ]]

10. Dolz J, Noverraz M, Schneuwly B. Sequências didáticas para o oral e a escrita: apresentação de um procedimento. In: Schneuwly B, Dolz J. Gêneros orais e escritos na escola. Campinas: Mercado das Letras; 2004. p. 95-128.         [ Links ]

11. Silva IR, Kauchakje S, Gesueli ZR. Cidadania, surdez e linguagem: desafios e realidades. São Paulo: Plexus; 2003.         [ Links ]

12. Antia SD, Reed S, Kreimeyer KH. Written language of deaf and hard-of-hearing students in public schools. J Deaf Stud Deaf Educ. 2005;10(3):244-55.         [ Links ]

13. Crato AN, Cárnio MS. Marcação de tempo por surdos sinalizadores brasileiros. Pró-Fono. 2010;22(3):163-8.         [ Links ]

14. Arfé B, Perondi I. Deaf and hearing students' referential strategies in writing: what referential cohesion tells us about deaf students' literacy development. First Lang. 2008;28(4):355-74.         [ Links ]

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