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Jornal da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia

On-line version ISSN 2179-6491

J. Soc. Bras. Fonoaudiol. vol.24 no.3 São Paulo  2012

http://dx.doi.org/10.1590/S2179-64912012000300016 

FONOAUDIOLOGIA BASEADA EM EVIDÊNCIAS EVIDENCE-BASED SPEECH-LANGUAGE PATHOLOGY AND AUDIOLOGY

 

Distúrbios da voz em docentes: revisão crítica da literatura sobre a prática da vigilância em saúde do trabalhador

 

 

Maria da Conceição C. Pessoa de SantanaI; Bárbara Niegia Garcia de GoulartII; Brasilia Maria ChiariIII

IResidência Multiprofissional em Saúde da Família, Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas - UNCISAL - Maceió (AL), Brasil
IIDepartamento de Psicologia Social e Institucional, Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS - Porto Alegre (RS), Brasil
IIIDepartamento de Fonoaudiologia, Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP - São Paulo (SP), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar a produção bibliográfica científica sobre a prática da vigilância à saúde do trabalhador relacionada aos distúrbios vocais em professores.
ESTRATÉGIA DE PESQUISA: Foram seguidos os preceitos do Cochrane Handbook, que envolveu a formulação da questão a ser investigada, a localização, a seleção dos estudos e a avaliação crítica dos artigos.
CRITÉRIOS DE SELEÇÃO: Os artigos publicados entre 2000 e 2011 foram selecionados por meio das bases de dados PubMed, LILACS, MEDLINE e Biblioteca Cochrane, utilizando-se os descritores distúrbio da voz/voice disorders, docentes/faculty, saúde do trabalhador/occupational health, vigilância em saúde do trabalhador/surveillance of the workers health.
AnÁLISE DE DADOS: Os textos foram analisados utilizando-se um formulário padronizado, quando os seguintes dados foram coletados: objetivos, desenho da pesquisa, características do grupo pesquisa, resultados obtidos e discussão sobre a prática da vigilância relacionada ao distúrbio da voz.
RESULTADOS: Inicialmente, foram identificados 141 estudos. Após revisão dos títulos e resumos, consideração dos critérios de inclusão e exclusão, verificação da coerência com a temática pesquisada e eliminação por estarem concomitantemente em mais de uma base de dados, 32 foram efetivamente analisados por referirem nos resultados e/ou nas conclusões a prática da vigilância relacionada aos distúrbios vocais em professores.
CONCLUSÃO: A prática da vigilância em saúde do trabalhador foi evidenciada nesta pesquisa principalmente enquanto identificação dos fatores de riscos associados aos distúrbios vocais em professores, visando à transformação das condições de trabalho e à garantia da qualidade da assistência a esses profissionais como trabalhadores.

Descritores: Distúrbios da voz; Docentes; Saúde do trabalhador; Vigilância em saúde do trabalhador; Disfonia; Riscos ocupacionais


 

 

INTRODUÇÃO

O trabalho complementa e dá sentido à vida e é uma das mais importantes maneiras de o homem se posicionar como indivíduo, sendo a boa condição de trabalho fator determinante e condicionante da saúde(1). O interesse em investigar a relação entre os distúrbios vocais e o trabalho docente tem crescido nos últimos anos. Autores explicam o adoecimento dos docentes por meio das mudanças na organização do trabalho e da incompatibilidade entreeste e as condições reais laborais(2).

A vigilância de ambientes de trabalho tem sido compreendida no Sistema Único de Saúde como uma das operações componentes da vigilância à saúde do trabalhador. Esta ação tem se estruturado nos centros, núcleos ou programas de saúde do trabalhador e tem se caracterizado pela presença de equipes multidisciplinares, que viabilizam a integração de olhares de várias disciplinas e instituições(3). Os agravos à comunicação humana já foram largamente descritos. Há que evoluir no conhecimento mais detalhado de questões ligadas aos fatores de risco para tais alterações, além da repercussão destes na vida do sujeito(4).

Esta revisão certamente contribuirá com as discussões sobre as relações entre trabalho docente, processo saúde-doença e voz do professor, que constituem um sinalizador do avanço necessário para reorientar ações, superando dicotomias e fragmentações.

 

OBJETIVO

Analisar a produção bibliográfica científica sobre a prática da vigilância à saúde do trabalhador relacionada aos distúrbios vocais em professores.

 

ESTRATÉGIA DE PESQUISA

Seguiram-se os preceitos do Cochrane Handbook(5), que envolveu a formulação da questão a ser investigada, a localização, a seleção dos estudos e a avaliação crítica dos artigos. A pergunta de investigação que subsidiou a revisão foi: "Quais práticas de vigilância em saúde do trabalhador estão sendo direcionadas aos distúrbios vocais em professores?".

A partir da formulação da pergunta de investigação, buscou-se realizar a pesquisa bibliográfica sobre o tema central deste trabalho, nas bases de dados PubMed, LILACS, MEDLINE e Biblioteca Cochrane. Foram utilizados os seguintes descritores associados pelo operador booleano AND: distúrbio da voz/voice disorders; docentes/faculty; saúde do trabalhador/occupational health; vigilância em saúde do trabalhador/surveillance of the workers health.

 

CRITÉRIOS DE SELEÇÃO

Foram incluídos neste estudo artigos publicados em inglês e português, no período de 2000 a 2011, disponíveis na íntegra. Isso possibilitou uma análise mais detalhada das práticas de vigilância em saúde do trabalhador relacionadas aos distúrbios de voz em professores.

Para os artigos selecionados, foram utilizados os seguintes critérios de inclusão: possuir, pelo menos, dois dos descritores utilizados na busca e apresentar como sujeito da pesquisa o professor. Dos textos completos obtidos, excluíram-se aqueles que não se relacionaram ao objetivo da pesquisa.

 

ANÁLISE DOS DADOS

Foram avaliados e selecionados apenas os estudos cujos resumos tivessem relação com o objetivo do estudo, para posterior obtenção dos artigos em textos completos. Analisaram-se os textos completos, potencialmente relevantes para a revisão, utilizando-se um formulário padronizado, quando os seguintes dados foram coletados: objetivos, desenho da pesquisa, características do grupo pesquisa, resultados encontrados e discussão sobre a prática da vigilância relacionada ao distúrbio da voz.

 

RESULTADOS

Inicialmente, foram identificados 141 estudos. Após revisão dos títulos e resumos, consideração dos critérios de inclusão e exclusão, verificação da coerência com a temática pesquisada e eliminação por estarem concomitantemente em mais de uma base de dados, 32 foram efetivamente analisados por referirem nos resultados e/ou nas conclusões a prática da vigilância relacionada aos distúrbios vocais em professores.

Analisando-se os artigos selecionados (Quadro 1), verificou-se a preocupação de pesquisadores, especialmente a partir do ano de 2003, quanto à utilização de um instrumento para investigar as condições de trabalho do professor. Um estudo(6) transversal, por exemplo, com 328 professores de quatro instituições de ensino de São Paulo objetivou validar um questionário de autoavaliação para professores de todos os níveis de ensino, incluindo, além dos sintomas clínicos, os fatores de organização do trabalho. Entre os resultados, retrataram-se a organização do trabalho e a qualidade de vida da população do estudo. Os autores referiram que o instrumento se mostrou satisfatório na descrição e elaboração de parâmetros com o objetivo de implementar programas preventivos para professores expostos a fatores de riscos relacionados ao desenvolvimento de distúrbios vocais. Outros pesquisadores brasileiros também têm investigado as condições de produção da voz do professor(7) e proposto como instrumento de pesquisa um questionário que vem sendo aperfeiçoado continuamente(8), por meio da sua utilização enquanto instrumento de pesquisa em outras investigações com professores de diferentes níveis de ensino.

Muitos estudos têm sido realizados com o propósito de se investigar a prevalência dos distúrbios de voz em professores, sendo as condições de trabalho contempladas nos resultados. Um estudo observacional transversal realizado em 2000(9) em oito creches da cidade de São Paulo, nas quais estavam sendo desenvolvidas ações de um programa, teve como objetivo verificar a prevalência de alteração vocal autorreferida em educadoras de creche e os fatores associados. Os autores concluíram que a adequada percepção das educadoras para seus problemas de voz pode vir a se tornar uma ferramenta importante em futuros trabalhos com essa população, com vistas a diminuir a alta prevalência de alteração vocal encontrada.

Entre os estudos verificados, observa-se que o empenho em compreender as causas das alterações vocais em professores, a fim de prevenir tais problemas e promover sua saúde, vem sendo empreendido especialmente por autores fonoaudiólogos. Nos últimos anos, as discussões têm sido orientadas para os aspectos ambientais e relativas às condições e à organização do trabalho, na busca de relações mais amplas entre este, a saúde e a qualidade de vida(10-12). Um achado preocupante é que os docentes demonstram dificuldades na percepção do processo saúde-doença(13). Alguns autores, inclusive, chegaram à conclusão que professores, com trabalho caracterizado como ativo e de alta exigência, apresentam um maior comprometimento nos domínios da qualidade de vida, sendo necessário maior investimento em políticas de promoção da saúde desses trabalhadores(14).

Um estudo(13) teve como objetivo avaliar aspectos associados à qualidade de vida de professores e buscar relações com questões de saúde vocal, em 2002. Foi estudada uma amostra de 128 professores de ensino médio de quatro escolas estaduais de Rio Claro, em São Paulo. Apesar de razoavelmente satisfeitos com a voz e a qualidade de vida, os professores mostraram dificuldades na percepção do processo saúde-doença. Em suas conclusões, os autores mencionaram que, uma vez ampliados os focos da ação fonoaudiológica, as oficinas e os grupos de vivência de voz seriam um espaço social possível para as intervenções.

Pesquisadores ressaltam que programas de prevenção são importantes e devem focar na conscientização dos problemas pelos profissionais, reconhecimento precoce dos sintomas e orientação sobre uma boa higiene vocal(10). No entanto, a prática de oferecer treinamento às populações de risco para prevenir o desenvolvimento de distúrbios de voz não obtém apoio de evidências definitivas sobre sua efetividade(12). Um estudo experimental(15), desenvolvido por meio de programa teórico-prático, abordando uso vocal profissional junto a 26 educadoras de duas creches paulistas, teve como objetivo avaliar, ao longo do programa de intervenção fonoaudiológica oferecido, mudanças em comportamentos considerados na literatura especializada como negativos para a voz. O estudo concluiu que as mudanças observadas ao longo do programa foram interessantes, mas muito restritas, levando à reflexão sobre o alcance desse tipo de prática e o quanto mudanças mais amplas não dependem apenas de pequenas modificações individuais, o que em geral é preconizado.

Estudos, todavia, apontam estratégias diante dos resultados obtidos, como um de coorte transversal(16), junto a 451 professores de 66 escolas municipais de Mogi das Cruzes, em São Paulo, que objetivou observar a prevalência da disfonia e avaliar fatores e sintomas associados. Ficou evidente, nas conclusões, que medidas preventivas devem contemplar a redução da carga horária e do número de alunos por classe, bem como o tratamento de afecções concomitantes.

Considera-se que o trabalho humano possui um duplo caráter: pode ser fonte de realização, satisfação e prazer, estruturando e conformando o processo de identidade dos sujeitos; mas pode também transformar em elemento patogênico, tornando-se nocivo à saúde(17). A legislação proposta pela Occupational Health and Safety (OSH), na União Européia, afirma que a compreensão dos problemas de saúde relacionados ao trabalho deve partir da observação da interação entre o trabalhador, o ambiente e as condições de seu posto de trabalho(18). Na Saúde do Trabalhador, desponta a necessidade de assumir uma visão totalizadora e integrada do sujeito em sua relação com o trabalho, bem como a de considerar as questões de ordem política, econômica, administrativa, logística, tecnológica, ambiental, social, cultural e psicológica que definem as características do processo de produção e da organização do trabalho e que delineiam as relações sociais nos contextos de trabalho em que se desenvolve o processo saúde-doença do trabalhador(19).

As dimensões de atuação em Saúde do Trabalhador se estabelecem em três níveis de intervenção: sobre os danos, sobre os riscos e sobre os determinantes sócio-ambientais(20). A partir da revisão realizada, observou-se que o estudo das condições de trabalho dos professores no Brasil é uma abordagem recente no campo das atividades profissionais. A partir de 1999, destacaram-se as pesquisas realizadas pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) em parceria com o Laboratório de Psicologia do Trabalho da Universidade de Brasília (LPT-UNB), que divulgaram, em três séries, o Retrato da Educação no Brasil, principalmente a educação pública, fazendo relação entre a condição de trabalho e a saúde dessa categoria(20).

O termo vigilante traz na história da saúde pública brasileira o sentido estrito de vigiar para controlar, para prevenir o aparecimento de novos casos, a transmissão do agravo para comunicantes, enfim, vigiar para impedir a transmissão, para evitar novos casos. Etimologicamente, o termo vigilância, originado de vigilare, do latim, indica algo ou alguém a quem se pretende observar atentamente. Originalmente, a vigilância destinava-se a reconhecer e a intervir nos fatores do meio, predisponentes à doença e a observar nas pessoas suspeitas os primeiros sinais de uma infecção(17).

É inadmissível falar em qualidade do trabalho sem pensar na qualidade do ambiente e das condições laborais, o que seria sobremaneira auxiliado pela democratização das relações sociais nos locais de trabalho(21). Pensar o professor como um trabalhador implica, também, pensar a escola como um ambiente com determinadas condições e organização que configuram cargas de trabalho que podem ser mais ou menos salutares, influenciando e determinando o processo saúde-doença do trabalhador professor. É importante monitorar os ambientes de trabalho, analisando os fatores de risco para o desenvolvimento de doenças em professores, verificando-se quais ações podem ser realizadas para minimizar ou eliminar tais fatores(22).

As reclamações recorrentes no discurso dos trabalhadores é fato comum nas organizações como uma manifestação de insatisfação(23). Enquanto fato isolado, é pouco citada nos estudos. No contexto de uso profissional da voz, são relevantes as múltiplas dimensões das relações que se estabelecem entre o professor e o seu trabalho. Nos estudos detectados, a autoavaliação ou autopercepção vocal tem sido muito valorizada(24). Uma análise reflexiva sobre os Seminários de Voz da Pontífica Universidade Católica de São Paulo(25), eventos que ganharam corpo, voz e tradição ao longo dos anos, apontou que há significativo avanço na atenção da sociedade para o problema e na oferta de programas de prevenção e promoção de saúde da voz profissional.

Um estudo transversal(26) que abrangeu 126 professores do Ensino Fundamental da rede municipal, em Maceió (AL), selecionados aleatoriamente, concluiu que é possível intervir de forma direta e simples nos fatores ambientais e organizacionais do trabalho, o que certamente auxiliaria na redução da ocorrência de patologias relacionadas ao trabalho.

A Fonoaudiologia inserida na Saúde do Trabalhador caminha com a particularidade de ser uma área que institui práticas inovadoras em construção, perseguidora da integralidade da atenção à saúde e da modificação de uma situação dada, conseguindo, muitas vezes, desfazer a dicotomia existente entre ações preventivas e curativas e entre assistências individuais e coletivas. Procura aprimorar e aperfeiçoar a comunicação do trabalhador, por meio de orientações quanto às possibilidades de melhoria das condições ambientais e eliminação dos fatores que interferem na comunicação, tornando mais eficaz a interação do indivíduo com o seu meio, essencial para o seu bem estar(27).

A Vigilância à Saúde do Trabalhador é, de forma mais específica, o conjunto de ações que visa conhecer a magnitude dos acidentes e doenças relacionadas ao trabalho, identificar os fatores de riscos operacionais, e estabelecer medidas de controle e prevenção e avaliar os serviços de saúde de forma permanente, buscando a transformação das condições de trabalho e a garantia da qualidade da assistência à saúde do trabalhador(28). A prática sanitária que organiza os processos de trabalho em saúde, sob a forma de operações, para enfrentamento contínuo de problemas num dado território-população também está relacionada ao conceito de Vigilância à Saúde do Trabalhador(28). Esse enfrentamento exige ações que atuem sobre os condicionantes e determinantes dos problemas de modo convergente (o que inclui ações intersetoriais), sistemático e com impacto favorável sobre a qualidade de vida de uma população(29). É importante monitorar os ambientes de trabalho, analisando os fatores de risco para o desenvolvimento de doenças em professores, verificando-se quais ações podem ser realizadas para minimizar ou eliminar tais fatores(30). Outrossim, a importância dada pelos gestores especialmente ao bem-estar vocal é de extrema importância.

Um estudo de natureza qualitativa e exploratória, desenvolvido a partir de entrevistas semiestruturadas, em 2011, objetivou investigar a importância dada ao bem-estar vocal do professor durante a graduação, pelos coordenadores dos cursos de Educação do Estado de São Paulo. Segundo os participantes da investigação, na maioria das instituições não há programas contínuos de prevenção, destinados ao bem-estar vocal do professor. Concluiu-se que, embora os coordenadores tenham ressaltado a importância do bem-estar vocal, nos currículos dos cursos, por eles coordenados, esse aspecto não é questionado(31). Considera-se isso grave, já que estudos demonstram que o distúrbio vocal representa um dos diagnósticos ocupacionais responsáveis pelo maior número de afastamentos de professores das atividades laborativas(32).

A presença do autorrelato de patologias vocais está sendo associada a fatores que apontam para a necessidade do desenvolvimento de ações que promovam a saúde vocal dos professores e as mudanças em sua estrutura de trabalho e organização. Tal necessidade foi apontada em um censo com base epidemiológica, de estudo transversal, realizado com 4.495 docentes da rede primária e secundária na cidade de Salvador, Nordeste do Brasil, entre março e abril de 2006(33).

Percebeu-se, principalmente nos últimos anos, a preocupação de autores em verificar a associação entre a presença autorreferida de distúrbio de voz e de aspectos isolados, considerados importantes fatores de risco, como a violência. Num estudo, por exemplo, foram selecionados 422 professores da rede municipal de ensino de São Paulo, que responderam instrumento contendo questões do tipo sim ou não, para investigar a associação entre distúrbio vocal e aspectos referentes à violência escolar(34). Concluiu-se que a autorreferência à presença de distúrbio de voz está associada a situações frequentes de ameaça ao professor, agressões, insultos e violência à porta da escola ou contra os funcionários, independentemente das variáveis gênero e tempo de exercício profissional.

Outro aspecto que vem sendo muito investigado no contexto do docente é o psicológico. Estudos apontam o estresse como um fator de risco importante relacionado aos distúrbios vocais em professores(35-37).

Também foi observado o interesse em investigar a correlação entre estilo de vida e agravos à saúde e voz, como verificado em um estudo com 51 docentes, de uma escola pública estadual da cidade de Campinas (SP). Os dados foram analisados por meio de estatística descritiva e, posteriormente, compararam-se aqueles fornecidos pelos professoresque referiram alteração vocal com os daqueles que a negaram, nas variáveis dos itens saúde, hábitosde vida, hábitos vocais e lazer, presentes no instrumento. A conclusão foi a de que houve correlação entre estilo de vida e agravos à saúde e voz nas variáveis "já ter fumado" e "fazer a última refeição até 30 minutos antes de dormir"(38).

O objetivo de identificar os fatores de riscos, estabelecer medidas de controle e prevenção e avaliar os serviços de saúde, visando à transformação das condições de trabalho e à garantia da qualidade da assistência à saúde do trabalhador, não está presente apenas na literatura nacional(39), mas também na internacional(40). Estudos identificaram grupos mais propensos a desenvolver distúrbios de voz, como o de professores com 40 anos de idade ou mais, com história familiar de disfonia, trabalhando mais de 20 horas semanais, com a presença do pó de giz(39).

Uma consideração abrangente sobre esta revisão é que a prática no âmbito da vigilância em saúde do trabalhador relacionada aos distúrbios vocais em professores foi consistente e crescente ao longo do período estudado. A crescente contribuição sobre promoção de saúde/prevenção de alterações vocais em professores é corroborada pela crescente ocorrência de estudos descritivos de intervenção fonoaudiológica entre professores e de avaliação do efeito de programas de saúde vocal. A caracterização do problema vocal do professor é feita principalmente por descrições dos sinais e sintomas e por análise perceptivo-auditiva da voz. A identificação das condições de uso da voz no trabalho de determinadas amostras populacionais deu origem a uma série de estudos descritivos, com deslocamento da ótica de análise da voz do sujeito para o ambiente e organização do trabalho docente. Evidenciou-se, com a realização desta revisão, a busca pela identificação de problemas a serem minimizados em favor da saúde vocal dos professores.

Como apontado em outra revisão(41), estudos constituem suportes para a elaboração de propostas de políticas públicas para o reconhecimento do distúrbio de voz como doença relacionada ao trabalho(42). Destaca-se a importante elaboração do documento Distúrbio de Voz Relacionado ao Trabalho com o objetivo de auxiliar profissionais da voz em geral e, portanto, os professores, na prevenção, assistência, reabilitação, notificação e pagamento de benefícios. Todavia, há a necessidade de uma produção científica cada vez mais eficaz no oferecimento de dados consolidados para embasar tais iniciativas(41,42).

A literatura aponta para a a importância de intervenções multidisciplinares na promoção e prevenção da saúde vocal do professor e destacam que é fundamental considerar o ponto de vista do professor ao se desenvolver um programa de intervenção(43). Além disso, ressalta-se que a procura ou não pela assistência à saúde se articula aos fatores relacionados a outras dimensões além do adoecimento(44).

É importante destacar também a diversidade das populações dos estudos quanto aos níveis de ensino. Os professores universitários estão sendo contemplados por investigações especialmente nos últimos anos(45,46).

Por meio desta revisão, evidenciou-se também que, cada vez mais, autores fonoaudiólogos procuram realizar caracterização sócio-demográfica, condições ambientais e organizacionais do trabalho dos docentes, mostrando que professores trabalham em condições de trabalho desfavoráveis, que podem colaborar para o uso intensivo e abusivo da voz(47). Percebeu-se que a identificação do processo de alteração vocal em professores está contemplando a compreensão da relação entre trabalho e saúde, na perspectiva dos trabalhadores. A caracterização do adoecimento vocal em professores, atualmente, visa identificar os fatores intervenientes nesse processo e propor ações fonoaudiológicas pertinentes, de modo a preservar a salubridade e qualidade de vida na escola(48).

Autores já apontam, inclusive, que é necessário que o fonoaudiólogo incorpore as estruturas de vigilâncias à sua prática, identificando e modificando os riscos provenientes das atividades ocupacionais(49). Além disso, esse profissional pode assessorar na preservação vocal e indicar mudanças que tornem o trabalho mais salutar(50). Mencionam que a vigilância deve ter caráter antecipatório, possibilitando o fornecimento de informações importantes para o planejamento de ações e garantindo a qualidade da assistência à saúde da população de trabalhadores(49).

 

CONCLUSÃO

A prática da vigilância à saúde do trabalhador foi evidenciada nesta pesquisa principalmente enquanto identificação dos fatores de riscos associados aos distúrbios vocais em professores, visando à transformação das condições de trabalho e à garantia da qualidade da assistência a esses profissionais como trabalhadores. Estudos apontam a importância de ações de prevenção e promoção à saúde vocal em professores e ressaltam a necessidade da consideração dos fatores determinantes dos problemas de voz no sentido de reconhecerem que um distúrbio vocal não é determinado simplesmente pelo uso prolongado ou excessivo da voz, mas que há outros fatores concorrendo para o desenvolvimento dessas alterações. A partir desta pesquisa, é possível sugerir a realização de estudos que verifiquem o impacto de ações que atuam sobre os condicionantes e determinantes dos problemas de modo convergente, sistemático e com impacto na qualidade de vida dos professores.

 

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Endereço para correspondência:
Bárbara Niegia Garcia de Goulart
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
R. Ramiro Barcelos, 2600, Santa Cecília
Porto Alegre (RS), Brasil, CEP: 90035-003
E-mail: bgoulart@ufrgs.br

Recebido em: 20/12/2011
Aceito em: 8/8/2012
Conflito de interesses: Não

 

 

Trabalho realizado na Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas - UNCISAL - Maceió (AL), Brasil, em parceria com a Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP - São Paulo (SP), Brasil, e Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS - Porto Alegre (RS), Brasil.