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Jornal da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia

On-line version ISSN 2179-6491

J. Soc. Bras. Fonoaudiol. vol.24 no.3 São Paulo  2012

http://dx.doi.org/10.1590/S2179-64912012000300017 

COMUNICAÇÃO BREVE BRIEF COMMUNICATION

 

Influência da queixa e do estilo de canto na desvantagem vocal de cantores

 

 

Felipe MoretiI; Maria Emília Barros de ÁvilaII; Clara RochaII; Maria Cristina de Menezes BorregoII; Gisele OliveiraII; Mara BehlauI

ICentro de Estudos da Voz - CEV - São Paulo (SP), Brasil; Departamento de Fonoaudiologia, Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP - São Paulo (SP), Brasil
IICentro de Estudos da Voz - CEV - São Paulo (SP), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O objetivo deste trabalho foi verificar se a diferença nos estilos de canto e a presença de queixas de voz influenciam na percepção de desvantagem vocal de cantores. Foram selecionados 118 protocolos de autoavaliação da desvantagem vocal no canto referentes a 17 cantores populares com queixas vocais, 42 populares sem queixas, 17 clássicos com queixas e 42 clássicos sem queixas. Os grupos eram semelhantes em relação à idade, gênero e naipes. Os protocolos utilizados, Índice de Desvantagem para o Canto Moderno e Índice de Desvantagem para o Canto Clássico, apresentam questões específicas para os respectivos estilos de canto e são compostos por 30 itens divididos igualmente em três subescalas: incapacidade (domínio funcional), desvantagem (domínio emocional) e defeito (domínio orgânico), respondidos de acordo com a frequência de ocorrência. Cada subescala apresenta valor máximo de 40 pontos, e o total corresponde a 120 pontos. Quanto maior a pontuação, maior a desvantagem vocal percebida. Para análise estatística, utilizou-se o teste ANOVA, com significância de 5%. Cantores clássicos e populares referiram maior defeito, seguido por incapacidade e desvantagem. Contudo, o grau dessa percepção nesse grupo variou de acordo com o estilo de canto e a presença de queixas vocais. Cantores clássicos com queixas vocais apresentaram maior desvantagem vocal que os cantores populares também com queixas. Clássicos sem queixas relataram menor desvantagem que populares também sem queixas. Isso evidencia que o cantor clássico tem maior percepção sobre sua própria voz e que uma alteração vocal nesse grupo pode causar maior desvantagem vocal do que no grupo de cantores populares.

Descritores: Voz; Qualidade de vida; Estudos de avaliação; Protocolos; Música; Questionários


 

 

INTRODUÇÃO

Na área de voz, o Voice Handicap Index - VHI é um dos mais conhecidos e utilizados protocolos de autoavaliação do impacto de um problema de voz(1), desenvolvido nos Estados Unidos(2) e validado em quase 20 países(3), inclusive no Brasil(4), como Índice de Desvantagem Vocal - IDV. Apesar da indiscutível validade e confiabilidade do VHI, sua sensibilidade para avaliar cantores é pobre, uma vez que os fatores associados à percepção do indivíduo sobre sua desvantagem na voz cantada não são abordados neste protocolo(5).

Para atender a essa população, foram desenvolvidas adaptações do VHI para a voz cantada, em inglês(6) e francês(7). Cantores populares e clássicos possuem diferentes formações musicais, diferindo em suas técnicas, exigências vocais e percepção de suas próprias vozes, e por isso merecem análises de formas diferentes, para uma maior especificidade da avaliação. Recentemente, o foniatra italiano Franco Fussi propôs duas versões específicas para o estilo de canto clássico e popular: Modern Singing Handicap Index - MSHI, para cantores populares e Classical Singing Handicap Index - CSHI, para cantores clássicos(8), traduzidas e culturalmente adaptadas para o português brasileiro como Índice de Desvantagem para o Canto Moderno - IDCM(9) (Anexo 1) e Índice de Desvantagem para o Canto Clássico - IDCC(10) (Anexo 2), respectivamente. Ainda não se sabe se as desvantagens de ambos os estilos são comparáveis.

Desta forma, o objetivo desta pesquisa foi verificar se a diferença dos estilos de canto e a presença de queixas de voz influenciam na percepção de desvantagem vocal de cantores.

 

MÉTODOS

A pesquisa foi aprovada pelo comitê de ética institucional, sob o número 0819/11 e utilizou um banco dados de protocolos com a devida autorização do responsável pela instituição detentora destes documentos. Foram consultadas as respostas dos questionários de autoavaliação da desvantagem vocal no canto, específicos para cantores populares (IDCM) e clássicos (IDCC). Selecionou-se 118 protocolos, distribuídos em quatro grupos: 17 cantores populares com queixas vocais - CpCQ, 42 populares sem queixas - CpSQ, 17 clássicos com queixas - CcCQ e 42 clássicos sem queixas - CcSQ. Os grupos eram demograficamente semelhantes, com média de idade de 29,5 anos (p=1,000), sendo 66 mulheres - 44 sopranos e 22 contraltos - e 52 homens - 26 tenores e 26 baixos - (distribuição por gênero: p=0,776 e naipes: p=0,665).

Ambos os protocolos possuem questões específicas para os respectivos estilos de canto e são compostos por 30 itens, divididos igualmente em três subescalas: incapacidade (domínio funcional), desvantagem (domínio emocional) e defeito (domínio orgânico). As questões foram respondidas de acordo com a frequência de ocorrência (nunca, quase nunca, às vezes, quase sempre e sempre). Cada subescala apresenta valor máximo de 40 pontos e o escore total do protocolo corresponde a 120 pontos. Quanto maior a pontuação, maior a desvantagem vocal percebida.

Para a análise estatística, adotou-se o nível de significância de 5% (0,05). Foi utilizado o teste paramétrico ANOVA.

 

RESULTADOS

Apesar de os escores terem sido diferentes para os estilos, a ordenação da maior desvantagem para a menor foi a mesma: defeito (domínio orgânico), seguida por incapacidade (domínio funcional) e desvantagem (domínio emocional). Maiores escores foram apresentados pelo grupo CcCQ (Tabela 1).

Indivíduos com queixas vocais, de ambos os estilos, apresentaram maior desvantagem em relação aos sem queixas, em todas as subescalas (Tabela 2).

 

DISCUSSÃO

Fatores como demanda vocal elevada, uso da voz em extremos vocais, falta de domínio técnico e limitada experiência no canto(5-8) podem explicar o maior desvio da subescala defeito(11) e, consequentemente, colocar os indivíduos em uma situação de risco vocal potencial(6). Normalmente os cantores clássicos possuem uma maior exigência e melhor técnica em relação ao uso da voz que os cantores populares(12), o que pode gerar uma percepção mais aguçada de um problema vocal. Desta forma, cantores clássicos sem queixas referem pequena desvantagem vocal, enquanto os cantores clássicos com queixas referem maior desvantagem, pois possivelmente um problema de voz poder colocar sua carreira em elevado risco(10). Já no canto popular, pequenas alterações vocais podem inclusive ser usadas para composição do estilo e assinatura vocal do cantor(9).

A presença da queixa de voz foi determinante na manifestação da desvantagem vocal(13). Isso mostra a sensibilidade de cada protocolo de acordo com o estilo para as populações de cantores populares e clássicos com queixas vocais(11,14).

 

CONCLUSÃO

Cantores clássicos e populares referem maior defeito (domínio orgânico), seguido por incapacidade (domínio funcional) e desvantagem (domínio emocional). Contudo, o grau dessa percepção varia de acordo com o estilo de canto e a presença de queixas vocais.

Os cantores clássicos com queixas vocais apresentam maior desvantagem vocal que os cantores populares também com queixas vocais, enquanto os clássicos sem queixas relatam menor desvantagem que os populares também sem queixas. Isso evidencia que o cantor clássico tem uma maior percepção sobre sua própria voz e que uma alteração vocal nesse grupo pode causar maior desvantagem vocal do que no grupo de cantores populares.

 

REFERÊNCIAS

1. Gräßel E, Hoppe U, Rosanowski F. Graduierung des Voice-Handicap-Index. HNO. 2008;56(12):1221-8.         [ Links ]

2. Jacobson BH, Johnson A, Grywalski C, Silbergleit A, Jacobson G, Benninger MS, et al. The Voice Handicap Index (VHI): development and validation. Am J Speech Lang Pathol. 1997;6(3):66-70.         [ Links ]

3. Verdonck-de Leeuw IM, Kuik DJ, De Bodt M, Guimaraes I, Holmberg EB, Nawka T, et al. Validation of the voice handicap index by assessing equivalence of European translations. Folia Phoniatr Logop. 2008;60(4):173-8.         [ Links ]

4. Behlau M, Alves dos Santos LM, Oliveira G. Cross-cultural adaptation and validation of the voice handicap index into brazilian portuguese. J Voice. 2011;25(3):354-9.         [ Links ]

5. Cohen SM, Noordzij JP, Garrett CG, Ossoff RH. Factors associated with perception of singing voice handicap. Otolaryngol Head Neck Surg. 2008;138(4):430-4.         [ Links ]

6. Cohen SM, Jacobson BH, Garrett CG, Noordzij JP, Stewart MG, Attia A, et al. Creation and validation of the Singing Voice Handicap Index. Ann Oto Rhino Laryngol. 2007;116(6):402-6.         [ Links ]

7. Morsomme D, Gaspar M, Jamart J, Remacle M, Verduyckt I. Adaptation du Voice Handicap Index à la voix chantée. Rev Laryngol Otol Rhinol (Bord). 2007;128(5):305-14.         [ Links ]

8. Fussi F, Fuschini T. Foniatria artistica: la presa in carico foniatrico-logopedica del cantante classico e moderno. Audiologia & Foniatria. 2008;13(1-2):4-28.         [ Links ]

9. Moreti F, Rocha C, Borrego MC, Behlau M. Desvantagem vocal no canto: análise do protocolo Índice de Desvantagem para o Canto Moderno - IDCM. Rev Soc Bras Fonoaudiol. 2011;16(2):146-51.         [ Links ]

10. Ávila ME, Oliveira G, Behlau M. Índice de desvantagem vocal no canto clássico (IDCC) em cantores eruditos. Pró-Fono. 2010;22(3):221-6.         [ Links ]

11. Jotz GP, Bramati O, Schimidt VB, Dornelles S, Gigante LP. Aplicação do "Voice Handicap Index" em Coralistas. Arq Otorrinolaringol. 2002;6(4):260-4.         [ Links ]

12. Zampieri SA, Behlau M, Brasil OO. Análise de cantores de baile em estilo de canto popular e lírico: perceptivo-auditiva, acústica e da configuração laríngea. Rev Bras Otorrinolaringol. 2002;68(3):378-86.         [ Links ]

13. Murry T, Zschommler A, Prokop J. Voice Handicap in Singers. J Voice. 2009;23(3):376-9.         [ Links ]

14. Rosen CA, Murry T. Voice handicap index in singers. J Voice. 2000;14(3):370-7.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Felipe Moreti
R. Machado Bittencourt, 361/1001, Vila Clementino
São Paulo (SP), Brasil, CEP: 04044-905
E-mail: felipemoreti@uol.com.br

Recebido em: 2/9/2011
Aceito em: 12/12/2011
Conflito de interesses: Não

 

 

Trabalho realizado no Centro de Estudos da Voz - CEV - São Paulo (SP), Brasil.

 

 


Anexo 1 - Clique para ampliar

 

 


Anexo 2 - Clique para ampliar