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Jornal da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia

On-line version ISSN 2179-6491

J. Soc. Bras. Fonoaudiol. vol.24 no.4 São Paulo  2012

http://dx.doi.org/10.1590/S2179-64912012000400020 

COMUNICAÇÃO BREVE

 

Frênulo lingual: modificações após frenectomia

 

 

Irene Queiroz MarchesanI; Roberta Lopes de Castro MartinelliII; Reinaldo Jordão GusmãoIII

ICEFAC Saúde e Educação - São Paulo (SP), Brasil
IICentro de Atendimento à Criança, Prefeitura Municipal de Brotas - Brotas (SP), Brasil
IIIDepartamento de Oftalmologia e Otorrinolaringologia, Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - Campinas (SP), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Descrever as mudanças ocorridas após a frenectomia com relação à mobilidade e funções da língua.
MÉTODOS: Foram avaliados 53 sujeitos, os quais nunca haviam se submetido a fonoterapia ou a cirurgia do frênulo. Um protocolo com escores específicos para avaliação do frênulo lingual foi utilizado para avaliar os sujeitos com evidências de alteração neste aspecto. Foi encontrada alteração em dez sujeitos, que foram encaminhados a um otorrinolaringologista para frenectomia. Após a cirurgia, esses sujeitos foram reavaliados pelo fonoaudiólogo utilizando-se o mesmo protocolo. Fotos e vídeos foram usados para comparação.
RESULTADOS: Trinta dias após a cirurgia, os sujeitos apresentaram a forma da ponta da língua modificada, assim como os movimentos melhorados. O fechamento labial e a fala também melhoraram.
CONCLUSÃO: A frenectomia é eficiente para melhorar a mobilidade e a postura da língua, assim como suas funções, incluindo a produção da fala.

Descritores: Freio lingual. Transtornos da articulação. Otolaringologia. Fonoaudiologia. Procedimentos cirúrgicos ambulatoriais


 

 

INTRODUÇÃO

O frênulo da língua é uma pequena prega de membrana mucosa que conecta a metade da face sublingual da língua ao assoalho da boca, interferindo nos movimentos da língua e em suas funções. As funções orofaciais podem estar alteradas de acordo com o grau de alteração do frênulo da lingual(1-4).

A avaliação do frênulo lingual é requerida quando os movimento da língua e as funções orofaciais de mastigação, deglutição e fala estão alteradas(5-8). Vários profissionais avaliam o frênulo da lingual de acordo com seus conhecimentos. Em geral, avalia-se a anatomia da cavidade oral e do frênulo assim como as funções exercidas pela língua. Não é comum o uso de um protocolo específico para essa avaliação. Cirurgias são indicadas apenas quando as funções orofaciais estão significativamente comprometidas(9). A frenectomia é o procedimento mais comum para liberar o frênulo lingual(10). O objetivo desse estudo foi descrever as modificações na mobilidade de língua e nas funções orofaciais após a frenectomia.

 

MÉTODOS

Cinquenta e três sujeitos que nunca haviam se submetido a fonoterapia ou a cirurgia do frênulo lingual foram avaliados por um fonoaudiólogo em 2010. Esses sujeitos foram encaminhados para avaliação fonoaudiológica por professores, pediatras e dentistas de Brotas (SP), e suspeitou-se de alteração de frênulo em 14 (26,4%) deles. Nenhum dos sujeitos apresentava síndromes genéticas, alterações auditivas, cognitivas ou motoras. Aplicou-se um protocolo com escores, específico para avaliação de frênulo lingual, quando havia suspeita de alteração do frênulo(6). Dez sujeitos entre 2 e 33 anos, sendo oito homens e duas mulheres, apresentaram alteração no frênulo lingual e em funções orofaciais. Eles foram encaminhados pelo fonoaudiólogo a um otorrinolaringologista para frenectomia. Para comparação antes e após a cirurgia, fotos e vídeos foram realizados utilizando-se uma câmera digital Sony® HX1. Os dados coletados foram tabulados e analisados por meio do Excel®. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética do CEFAC (protocolo 107/10).

 

RESULTADOS

Trinta dias após a cirurgia, os pacientes foram reavaliados utilizando-se o mesmo protocolo. Foram observadas mudanças no frênulo lingual e na mobilidade da língua. A protrusão, lateralização e elevação da língua melhoraram em diferentes graus. O melhor resultado foi para a protrusão, e o pior foi para a elevação da língua. Seis sujeitos dos dez tinham a forma da ponta da língua alterada, e todos melhoraram nesse aspecto após a cirurgia. A Figura 1 mostra as mudanças obervadas em dois pacientes após a cirurgia.

Dificuldades de protrusão de língua, limpeza da cavidade oral e abertura de boca durante a fala apresentaram nítida melhora após a cirurgia. Ocorreu melhor abertura da boca em seis pacientes de oito que falavam com a boca muito fechada. De oito pacientes que tinham distorções na fala, quatro deixaram de ter; os sons da fala passaram a ser melhor pronunciados devido a maior abertura da boca e maior amplitude na movimentação da língua, melhorando a inteligibilidade. Todos os sujeitos reportaram melhora na comunicação oral. A Tabela 1 compara os dados das avaliações pré e pós cirurgia.

 

DISCUSSÃO

As alterações do frênulo lingual, a frenectomia e a terapia fonoaudiológica para pacientes com alterações do frênulo são assuntos controversos(2-3). Como as alterações do frênulo da língua variam de leve a severa, as funções orofaciais nem sempre são comprometidas. A frenectomia será considerada importante de acordo com o conhecimento que o médico tem sobre as futuras alterações que o frênulo alterado pode causar(1,5,9-10).

Alguns profissionais da área da saúde referem os pacientes para fonoterapia antes da cirurgia. Entretanto, nem sempre a terapia fonoaudiológica traz bons resultados, uma vez que a alteração do frênulo é mecânica. O resultado só será suficiente se a alteração não for severa. A utilização de um protocolo adequado para avaliação do frênulo poderá auxiliar na indicação de fonoterapia ou de cirurgia(6).

Avaliar todos os sujeitos antes e após a frenectomia, assim como os resultados da fonoterapia, é fundamental para aumentar as evidências científicas do que é melhor para os pacientes. Isso traria maior assertividade em casos de alterações do frênulo da língua.

As restrições dos movimentos da língua e das funções realizadas por ela, quando o frênulo lingual está alterado, são amplamente descritas na literatura(1-13). Embora a melhora dos movimentos da língua imediatamente após a frenectomia seja comentada na literatura(11), as funções exercidas pela língua e outras alterações encontradas em sujeitos com alterações do frênulo não são comumente descritas.

O presente estudo demonstra que a postura e a mobilidade da língua, as funções orofaciais e a postura do lábio melhoraram em diferentes graus após a frenectomia, independentemente da fonoterapia. Esses resultados evidenciam que a frenectomia deve ser realizada na maior parte dos casos. Sabe-se que as alterações do frênulo lingual, a idade do sujeito e os diferentes tipos de procedimentos cirúrgicos influenciam os resultados finais.

 

CONCLUSÃO

Em diferentes graus, a frenectomia é eficiente para melhorar a postura e os movimentos da língua, as funções orais, a postura de lábios, e a comunicação oral.

 

REFERÊNCIAS

1. Suter VGA. Ankyloglossia: facts and myths in diagnosis and treatment. J Periodontol. 2009;80(8):1204-19.         [ Links ]

2. Hooda A, Rathee M, Yaday S, Gulia J. Ankyloglossia: a review of current status. The Internet Journal of Otorhinolaryngology. 2010;12(2).         [ Links ]

3. Johnson PRV. Tongue-tie - exploding the myths. Infant. 2006;2(3):96-9.         [ Links ]

4. Lee HJ, Park HS, Park BS, Choi JW, Koo SK.The Improvement of tongue mobility and articulation after frenotomy in patient with ankyloglossia. J Otorhinolaryngol Head Neck Surg. 2010;53:491-6.         [ Links ]

5. Hong P. Ankyloglossia (tongue-tie). Published ahead of print October 15, 2012. DOI:10.1503/cmaj.120785.         [ Links ]

6. Marchesan IQ. Protocolo de avaliação do frênulo da lingual. Rev CEFAC. 2010;12(6):977-89.         [ Links ]

7. Darshan HE, Pavithra PM. Tongue tie: from confusion to clarity - a review. Int J Den Clin 2011;3(1):48-51.         [ Links ]

8. Braga LAS, Silva J, Pantuzzo CL, Motta AR. Prevalência de alteração no frênulo lingual e suas implicações na fala de escolares. Rev CEFAC. 2009;11(3):378-90.         [ Links ] 9. Oredsson J, Törngren A. Frenotomy in children with ankyloglossia and breast-feeding problems. A simple method seems to render good results. Lakartidningen. 2010;107(10):676-8.         [ Links ]

10. Knox I, Tongue tie and frenotomy in the breastfeeding newborn. Neoreviews 2010;11:513-9.         [ Links ]

11. Ostapiuk B. Tongue mobility in ankyloglossia with regard to articulation. Ann Acad Med Stetin. 2006;52(3):37-47.         [ Links ]

12. Marchesan IQ. Lingual frenulum: classification and speech interference. Int J Orofacial Myology. 2004;30:31-8.         [ Links ]

13. Chaubal TV, Dixit MB. Ankyloglossia and its management. J Indian Soc Periodontol. 2011;15(3):270-2.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Irene Queiroz Marchesan
R. Cayowaá, 644, São Paulo (SP), Brasil, CEP 05012-000.
E-mail: irene@cefac.br

Conflito de interesses: Não

Recebido em: 20/6/2012
Aceito em: 20/11/2012

 

 

Estudo realizado no Centro de Atendimento à Criança, Prefeitura Municipal de Brotas - Brotas (SP), Brasil.

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