SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.17 issue40The newspaper A Escola and the construction of modern and republican school (Laguna, decade of 1910)The Das Band Newspaper at Deutsche Hilfsvereinsschule and schools writtens about germain imigration (Colégio Farroupilha/RS, 1929-1938) author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


História da Educação

On-line version ISSN 2236-3459

Hist. Educ. vol.17 no.40 Santa Maria May/Aug. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S2236-34592013000200005 

 

 

O Estudo e sua materialidade: revista das alunas-mestras da escola complementar/normal de Porto Alegre/RS (1922-1931)1

 

O Estudo and its materiality: student's journal of the escola complementar/normal from Porto Alegre/RS (1922-1931)

 

O Estudo y su materialidade: revista de las alumnas-maestras de la escola complementar/normal de Porto Alegre/RS (1922-1931)

 

O Estudo et sa materialite: revue des etudiants de l'escola complementar/normal Porto Alegre/RS (1922-1931)

 

 

Andréa Silva de Fraga

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Brasil

 

 


RESUMO

A revista O Estudo foi um impresso estudantil publicado pelas alunas do Grêmio de Estudantes da Escola Complementar/Normal de Porto Alegre/RS, entre os anos de 1922 a 1931. Na perspectiva da História da Educação e dos pressupostos da história da cultura escrita, o artigo tem como propósito apresentar a descrição de sua materialidade, isto é, do seu suporte e dos diferentes aspectos que caracterizam O Estudo como objeto impresso, de modo a compreender sua composição e especificidades.

Palavras-chave: imprensa estudantil, história da educação, história da cultura escrita.


ABSTRACT

The journal O Estudo was a student printed published by the guild of students of the Escola Complementar/Normal from Porto Alegre/RS, between the years 1922 to 1931. In view of the history of education and premises of history of written culture, the article has the purpose present a description of its materiality, that is, your support and the different aspects that characterize O Estudo as a printed object, in order to understand their composition and characteristics.

Key-words: student press, history of education, history of written culture.


RESUMEN

La revista O Estudo fue un impreso dos estudiantes publicado por lo Gremio de los estudiantes de la Escola Complementar/Normal de Porto Alegre/RS, entre los años 1922 a 1931. En vista de la historia de la educación y los supuestos de la historia de la cultura escrita, el artículo tiene como objetivo presentar una descripción de su materialidad, es decir, el soporte y los diferentes aspectos que caracterizan O Estudo como un objeto impreso, con el fin de entender su composición y especificidades.

Palabras-clave: prensa estudiante, historia de la educación, historia de la cultura escrita.


RÉSUME

La revue O Estudo était imprimé étudiant publié pour la guilde des élèves de l'Escola Complementar/Normal Porto Alegre/RS, entre les 1922 à 1931. En vue de la histoire de l'éducation et les hypothèses de l'histoire de la culture écrite, l'article vise à présenter une description de sa matérialité, c'est-à-votre support et les différents aspects qui caractérisent O Estudo comme un objet imprimé, afin de comprendre sa composition et les spécificités.

Mots-clé: presse étudiant, histoire de l'education, histoire de la culture écrite.


 

 

Introdução

Este artigo trata de um impresso estudantil publicado na cidade de Porto Alegre/RS, pelo Grêmio de Estudantes da Escola Complementar/Normal2, entre os anos de 1922 a 1931. Como impresso estudantil, a revista O Estudo porporciona um olhar sobre a cultura escolar, fundamentalmente direcionando atenção para um grupo de jovens estudantes e futuras professoras.

A revista O Estudo possui atributos diferenciados: além de ser um impresso produzido por alunas e futuras professoras, apresenta-se como revista e não como jornal. Trata-se de aspecto relevante para a análise pois, como afirma Roger Chartier, "os textos não estão fora dos materiais de que são veículos. Contra a abstração dos textos, é preciso lembrar que as formas que permitem sua leitura, sua audição ou sua visão participam profundamente da construção de seus significados" (2002, p. 61-62).

Texto, suporte e leitura é o tripé de análise, segundo Chartier (1992), essencial para uma história da leitura e da escrita. Seus vértices se encontram unidos por laços de existência e dependência, porque o texto torna-se objeto pela sua materialização, ou seja, quando transposto a um suporte. Para o suporte existir, como veículo material do escrito, é necessário a presença do texto. Ambos são pensados e criados para serem manuseados, transportados, colecionados, vistos, ouvidos e lidos, enfim, sujeitos a várias utilizações, assim como a participação na construção de práticas culturais e seus significados.

Desta tríade o suporte, ou melhor, a revista O Estudo, em sua materialidade, ganhará aqui destaque. Portanto, este artigo discorre sobre a descrição do suporte e dos diferentes aspectos que caracterizam O Estudo como objeto impresso, de modo a compreender sua composição e especificidades.

 

Gênero revista

Tratar do início do século 20 e do que circulava como veículo de comunicação é examinar um suporte de leitura específico, isto é, as revistas ilustradas. A publicação do gênero revista teve seu início no século 19 e, com o passar do tempo, se transformou em um suporte de textos e de leitura cada vez mais presente, que ultrapassou o continente europeu e chegou ao território brasileiro.

A imprensa periódica foi responsável por produzir, em diversos suportes, modalidades e práticas de escrita e de leitura. Para Castillo Gómez (2001), o século 19 caracteriza-se como o século dos leitores da imprensa periódica e de livros populares. Dos usos de tais impressos emerge um novo modelo de leitor, aquele apressado e superficial, interessado em notícias das últimas vinte e quatro horas, por exemplo. Concomitante ao aumento da demanda leitora de imprensa periódica, de semanários e de revistas ilustradas, o investimento em tecnologia de reprodução dos textos e das ilustrações foi incentivado. Foi criada a linotipia, a litografia, a fabricação de rolos de papel contínuo e o aparecimento da prensa rotativa, que possibilitaram imprimir, dobrar e cortar dezenas de milhares de exemplares a cada hora. A imprensa periódica e as leituras populares foram produzidas ao mesmo tempo em que ocorreu a expansão da escolarização e da alfabetização, o que gerou modificações na aprendizagem da leitura, assim como nos usos e práticas sociais da mesma (Castillo Gómez, 2001).

Jornais e revistas se constituem em veículo de informação com características específicas. Para Ana Luiza Martins (2008), os jornais, em sua grande maioria, dedicam-se a noticiar conteúdos com teor político e de divulgação imediata. As revistas apresentam temas variados e com informações mais elaboradas. Neste caso, a revista tem

o mérito de condensar numa só publicação, uma gama diferenciada de informações, sinalizadoras de tantas inovações propostas pelos novos tempos. Intermediando o jornal e o livro, as revistas prestaram-se a ampliar o público leitor, aproximando o consumidor do noticiário ligeiro e seriado, diversificando-lhe a informação. E mais - seu custo baixo, configuração leve, de poucas folhas, leitura entremeada de imagens, distinguiu-a do livro, objeto sacralizado, de aquisição dispendiosa e ao alcance de poucos. (Martins, 2008, p. 40)

A diversificação de informações, o formato leve, com poucas páginas em comparação com o livro, e o uso recorrente de imagens são características marcantes do suporte revista. Nesse sentido, a criação da revista O Estudo, concebida como uma das maneiras de escrever e publicar das alunas da Escola Complementar/Normal, significou uma espécie de mimetização de um veículo de comunicação popularizado e de grande circulação nos anos de 1920, ou seja, a moda das revistas ilustradas e de variedades.

Com relação ao aspecto variedades, Tania de Luca (2005) afirma que esse modelo de publicação no Brasil teve início com a publicação, no ano de 1900, da Revista da Semana, de Álvaro Teffé, na cidade do Rio de Janeiro. A partir dessa revista ocorreu o que ela caracteriza como os tempos eufóricos deste modelo de impresso que se destacava pela

apresentação cuidadosa, de leitura fácil e agradável, diagramação que reserva amplo espaço para as imagens e conteúdo diversificado, que poderia incluir acontecimentos sociais, crônicas, poesias, fatos curiosos do país e do mundo, instantâneos da vida urbana, humor, conselhos médicos, moda e regras de etiqueta, notas policiais, jogos, charadas e literatura para crianças, tais publicações forneciam um lauto cardápio que procurava agradar a diferentes leitores, justificando o termo variedades. (Luca, 2005, p. 121)

Seguindo o modelo de publicação, a revista O Estudo apresentou uma fórmula nominal comum às revistas ilustradas e de variedades, isto é, se intitulou revista mensal, illustrada, litteraria, scientifica, didactica.

Em vista disso, o impresso revista manteve uma fórmula cujas características compreendem os seguintes aspectos: o primeiro corresponde à formatação do suporte, que se encontra em forma de brochura e não em folhas soltas, a presença de capa e periodização geralmente mais espaçada. O segundo aspecto diz respeito à criação: a revista é, em geral, uma criação em grupo. No caso da revista O Estudo, vinculava-se ao grêmio de alunos da Escola Complementar/Normal e contava com a colaboração de vários autores. O terceiro aspecto que diferencia de um jornal é que se associa mais à publicação literária e menos à informativa. Oferece um menu revisteiro com contos, crônicas, poesias, notas sociais, publicidade. Por fim, a revista é um veículo de proposta ligeira, condensada, intermediária entre o jornal e o livro e, portanto, de maior facilidade à leitura.

O Estudo mantém essa tendência, isto é, a mesma fórmula revista. Nos 31 números analisados, a revista apresenta um trabalho de composição gráfica com qualidade tipográfica profissional.

 

Forma do impresso e composição gráfica: capas, ilustrações e anúncios

A revista O Estudo apresenta-se no formato de brochura, composta por uma capa, folhas presas e de menor tamanho. Deste modo, ganha materialidade a intenção da revista em apresentar-se como meio termo entre o jornal, com folhas soltas e em formato tablóide, e o livro.

As edições d'O Estudo correspondem ao tamanho de 18x27cm3, com capas ilustradas e coloridas. Em geral, o número de páginas apresentadas em cada número corresponde a uma variação entre 16 e 43 páginas, em média. A maior quantidade de páginas por edição aparece em edições que abarcam dois números conjuntamente4. A publicação bimestral, provavelmente, está relacionada às dificuldades encontradas pelas alunas diante das atividades escolares, assim como a dificuldade em ter material para compor a revista, pois aparecem publicados constantes pedidos por colaboração de alunas e professores, inclusive de profissionais de outras localidades, para que enriqueçam com os "primores da sua intellectualidade com os conceituados conselhos" as páginas da revista (O Estudo, n. 3, 1922, p. 7).

A materialidade do impresso, observada por sua forma e por sua composição gráfica, permite que os textos sejam lidos e manuseados, o que implica um processo de criação e escolha de indivíduos envolvidos na publicação do impresso. Tal processo se chama mediação editorial5.

Apresento, a seguir, as escolhas e realizações que deram aos textos impressos da revista O Estudo a sua forma material.

 

As capas

No mundo dos impressos, características específicas são criadas e a capa é uma delas. Ela se torna essencial no gênero revista, proporcionando-lhe um perfil e uma marca distintiva, principalmente para se diferenciar do jornal.

Uma capa pode ser composta por elementos linguísticos verbais e não verbais, que compõem a diagramação da mesma, tais como, imagens, cores no plano de fundo, formato e cores das letras, qualidade do papel.

A imagem de uma capa de revista pode ser considerada um protocolo de leitura e, como tal, tem por propósito comunicativo sugerir ao leitor uma maneira de ler e produzir uma significação do texto. Conforme Chartier (1998), a imagem pode se constituir para o leitor em um lugar de memória que indica, por meio de uma representação, a história, o ensinamento ou constrói, como uma figura simbólica, o sentido que o texto deve ter ao ser lido.

Nos 31 números analisados, há 12 modelos diferentes de capas. Dentre eles, foram identificadas quatro formas de apresentação.

 

Figura 1

 

Na primeira forma, figura da esquerda, há objetos da cultura escolar, representados por uma imagem central ao estilo greco-romano, livros e globo terrestre, sobre um fundo escuro6. Nesta capa, o único texto presente corresponde ao título da revista, sem maiores informações e trabalho gráfico-editorial.

Quanto à segunda forma, figura da direita, as capas aparecem coloridas. Os quatro números7 que adotam este modelo variam apenas quanto à cor do papel: capa em marrom, rosa, verde e azul. O contraste está na diferenciação do tom da cor usada na diagramação, que vai do mais claro, ao fundo, ao mais escuro, usado na imagem e no título da revista. A mudança da capa durante as edições do ano de 1922 ocorreu na edição de número 4/5 (ago./set.) e coincide com as comemorações do centenário da Independência do Brasil. Nesta capa, o título permanece na parte superior. No canto direito consta uma imagem que representa uma alegoria da Pátria, com a apresentação da bandeira nacional. Ao lado desta encontram-se as datas de 1822-1922 e uma lista de intelectuais e artistas brasileiros: Farias Brito, Euclides da Cunha, Ruy Barbosa, Benjamim Constant, Pedro Américo, Carlos Gomes e Castro Alves. Logo abaixo a frase "Ditosa pátria que taes filhos teve" (O Estudo, 1922, n. 4/5).

Nos dois primeiros modelos de capa apresentados, o imaginário social acerca da cultura escolar e do civismo estão representados pelos objetos escolares, pela alegoria feminina e pela bandeira nacional. De acordo com José Murilo de Carvalho (1990), "o imaginário social é constituído e se expressa por ideologias e utopias [...], mas também [...] por símbolos, alegorias, rituais e mitos" (p. 10). Nesse sentido, o imaginário pode ser utilizado na educação pública para ajudar na formação das almas. O uso da figura feminina, em destaque nas capas, remonta à alegoria empregada pelos revolucionários franceses e a qual os republicanos brasileiros aderem com a mesma simbologia. A presença de imagens femininas de inspiração greco-romana, que evocam divindades da antiguidade, representam ideias, valores e sentimentos referentes à república, à liberdade e à revolução (Carvalho, 1990). A presença da figura feminina, da bandeira e o uso dos símbolos nacionais também faz parte dessa evocação cívica.

Na terceira forma, figura que segue, a imagem feminina é substituída pela apresentação do sumário. Nesta fase, a cor de fundo varia entre o tom cinza e o branco e a diagramação é composta por uma moldura e flores em marca d'água nos tons de marrom, amarelo e rosa8, assim como, por apenas uma moldura com tom marrom em um fundo claro9. Nestas capas, além do sumário, estão presentes outros dados, como os créditos da editoria, da redação e do complemento que descreve a revista como mensal, illustrada, literária, scientifica, didactica, mantida pelo Gremio dos Estudantes da Escola Complementar.

 

Figura 2

 

Na quarta forma, figura da direita, são destacadas fotografias e ilustrações de edifícios, locais e professores homenageados pelas alunas10. Apresenta o fundo claro em com uma moldura em torno da página e as letras nos tons de marrom, azul ou verde. Os professores da escola que foram homenageados são Alcides Flores Soares, Oswaldo Aranha e Alcides Cunha. As fotografias de homenageados não apresentam legendas, somente no conteúdo da revista há a alusão ao mesmo. Os locais em destaque correspondem à Catedral de Porto Alegre, Basílica de São Pedro em Roma, Antigo Seminário de Porto Alegre e uma vista de São Leopoldo.

Nas ilustrações e fotografias de locais e edifícios há legendas de identificação. A questão que se levanta, a partir dessas ilustrações e fotografias, principalmente com referência às edificações e lugares, é porque, em se tratando de uma instituição pública e laica, as imagens apresentadas referem-se à Igreja Católica, já que três das quatro ilustrações correspondem a prédios importantes para o catolicismo. Nenhum indicativo de resposta foi encontrado no interior da revista, o único indício para um entendimento está no fato de que estes números, em especial, foram publicados pelas Officinas Graphicas do Centro da Boa Imprensa, oficina gráfica ligada à Cúria Metropolitana de Porto Alegre.

A revista O Estudo contempla em suas páginas tanto o ideário religioso, como o laico, ao tratar de assuntos da moderna pedagogia e do civismo nacional, por essa razão veicula imagens e artigos com essas temáticas. Encontra-se na passagem de uma educação vinculada à Igreja para uma educação pública e laica de responsabilidade do Estado republicano11.

Esse tripé também esteve presente nas escolas laicas da época. É o caso da Escola Complementar/Normal de Porto Alegre, onde estão veiculadas imagens sacras e de locais religiosos, que compõem a representação da moralidade e religião, enquanto os símbolos e alegorias da pátria representam a civilidade na revista O Estudo.

A capa de uma revista proporciona ao leitor o primeiro contato tátil-visual com os suportes e os textos. Nesse contato ela dá indícios que sugerem um enquadramento do sentido dos textos transmitidos à leitura. Como protocolo de leitura, a capa, dispositivo tipográfico, fruto do trabalho da mediação editorial, proporciona mobilidade às possíveis atualizações do texto (Chartier, 2009), e nada mais atualizável do que textos publicados em uma revista, pois novos textos são postos em circulação a cada número lançado.

No caso das capas12 da revista O Estudo, o conteúdo temático varia em retratar e informar o leitor sobre as representações da escola por meio de símbolos alusivos à instituição, como a imagem de alguns livros, do globo terrestre, de uma estátua greco-romana, e do civismo, com a homenagem à independência do país e com a impressão de nomes de intelectuais e da bandeira nacional. As capas também se reportam ao conteúdo da revista, apresentando-o ao leitor, que assim se depara com um contato inicial com seu conteúdo pelo sumário. Outras vezes as capas homenageiam professores ou dão destaque a determinados prédios religiosos e locais do Estado.

 

As ilustrações e fotografias

A revista O Estudo caracteriza-se por ser um periódico que contempla mais textos do que ilustrações e fotografias. Das 726 páginas da revista, nos 31 números examinados, são publicadas 108 imagens, sem contar com o design gráfico da diagramação dos textos e páginas.

Não há um local fixo para a localização ou disposição das ilustrações e fotografias no espaço das páginas. As imagens podem ser encontradas logo abaixo do título, anteriores ao texto, entre o texto, local onde a maior parte se encontra, ou após o texto. Também podem ocupar todo o espaço de uma página.

Algumas das ilustrações e fotografias não apresentam relação direta com os temas abordados nos textos, porém, a maioria das imagens aparece como complemento dos textos publicados para ilustrar, de maneira informativa, os conteúdos enfocados. Dessa forma, as ilustrações e fotografias visam a assegurar a clareza das informações difundidas e direcionar o entendimento daquilo que se pretende transmitir. É nesse sentido que Chartier (2004), ao analisar as ilustrações nos livros da Biblioteca Azul13, afirma:

Quando a imagem é única, ela se encontra mais frequentemente ou nas primeiras páginas do livro ou na última. Instaura-se assim uma relação entre ilustração e o texto em seu todo, e não entre a imagem e esta ou aquela passagem particular. Colocada no começo, a ilustração induz a leitura, fornecendo uma chave que diz através de que figura o texto deve ser entendido, seja porque a imagem leva a compreender o todo do texto pela ilustração de uma de suas partes, seja porque propõe uma analogia que guiará a decifração. [...] Colocada na última página, a imagem tem outra função, já que permite fixar e cristalizar, em torno de uma representação única, aquilo que foi uma leitura entrecortada e quebrada. Ela fornece, assim, a memória e a moral do texto. (p. 276-277)

Portanto, o uso das ilustrações e fotografias, entendidas como elementos gráficos dispersos nos textos, tem por propósito o fornecimento de chaves decifradoras que indicam ao leitor a compreensão do texto, assim como intentam a cristalização da memória do que foi lido e, consequentemente, à uma determinada produção de significados a partir da leitura.

No caso d'O Estudo, as fotografias14 são imagens requisitadas pelo grupo redator da revista, como consta no editorial intitulado Correspondentes, no qual se afirma: "Lembramo-lhes também o nosso pedido relativo á remessa de photographias de edifícios escolares, grupos de alumnos e, sobretudo, paisagens pittorescas que nos tornem conhecidos os recantos admiraveis do nosso Estado" (O Estudo, n. 3, 1922, p. 7).

As ilustrações e fotografias enriquecem a revista com informações sobre a cultura escolar e locais pitorescos do Estado. Essas imagens, analisadas como elementos de composição gráfica da revista, após terem sido identificadas, foram distribuídas, para fins de análise, em sete grupos, de modo a apreender os vários tipos utilizados pela mediação editorial. Os grupos são os seguintes:

a) Fotografias de homenageados: grupo composto por 36 fotografias, em preto e branco, de indivíduos ligados à escola, principalmente de professores homenageados e paraninfos, e de homenagens póstumas para colegas falecidos.

A seguir, há alguns exemplos de fotografias em homenagem póstuma a colegas e professores na revista O Estudo.

 

Figura 3

 

b) Fotografias de localidades, monumentos, prédios: são 29 fotografias que decorrem do desejo das alunas de apresentarem o que havia de mais pitoresco no Estado do Rio Grande do Sul. Desse total, apenas duas fotografias fazem referência a imagens de edifícios escolares: o Gymnasio Julio de Castilhos e o Antigo Seminário.

c) Fotografias de alunas, com ou sem professores: as 13 fotografias identificadas retratam imagens das alunas da Escola Complementar/Normal e, também, de outras escolas, demonstrando que o pedido por fotografias de grupos de alunos de outras escolas foi atendido. A fotografia a seguir é um exemplo deste grupo, na qual aparecem alunas e professores em atividade fora da escola.

 

Figura 4

 

d) Reproduções de pintura: foram encontradas 15 imagens, das quais 11 representam imagens sacras. Há, também, reproduções de personagens históricos e músicos. Neste grupo foram encontradas cinco imagens, tais como as de José Bonifácio, Tiradentes e de D. Pedro I.

e) Desenhos de alunos: este grupo é composto por dez imagens que ilustram redações de alunos, como resultado de aula prática do curso de aperfeiçoamento ou complementar. Nos três exemplos a seguir, a primeira imagem ilustra um desenho espontâneo a partir de uma leitura realizada, a segunda corresponde à homenagem ao diretor Emilio Kemp e a terceira apresenta uma narrativa em texto e imagem. São exemplos da aplicação prática na sala de aula do ensino primário.

 

Figura 5

 

 

Figura 6

 

 

Figura 7

 

f) Design gráfico: chamei de design gráfico os recursos editoriais usados na tipografia para ilustrar as páginas e os textos da revista, que podem aparecer no início ou final da página. Assim como as molduras, o design gráfico aparece como recurso decorativo, pois muitas vezes essas imagens não correspondem diretamente ao conteúdo do texto. Constituem, contudo, protocolos de leitura, sinalizadores de um sentido a ser atribuído a esses textos por seus leitores.

Os três exemplos foram escolhidos porque no primeiro e no terceiro as imagens mostram o design gráfico finalizando o texto. No segundo, a imagem encabeça o texto. O primeiro e segundo correspondem a um padrão tipográfico comumente utilizado, principalmente, no ano de 1928, e corresponde há, mais ou menos, quinze estilos de imagens que parecem narrar uma cena.

 

Figura 8

 

As ilustrações e fotografias aqui apresentadas fazem parte da composição da revista O Estudo, seja como adorno, sem relação direta com os temas abordados nos textos, seja como complemento dos mesmos. Desta forma representam

a disposição e a divisão do texto, sua tipografia, sua ilustração. Esses procedimentos de produção de livros não pertencem à escrita, mas à impressão, não são decididas pelo autor, mas pelo editor-livreiro e podem sugerir leituras diferentes de um mesmo texto. Uma segunda maquinaria, puramente tipográfica, sobrepõe seus efeitos variáveis segundo a época, aos de um texto que conserva a sua própria letra o protocolo de leitura desejada pelo autor. (Chartier, 2009, p. 97)

Enfim, n'O Estudo as imagens constituem protocolos de leitura que dizem respeito aos textos, à matéria tipográfica, ao editor, à mediação editorial. Um leitor é idealizado e os protocolos compõem o corpus de atitudes do ato de ler.

 

Os anúncios

Na revista das alunas normalistas os anúncios estão presentes e são numericamente significativos. De acordo com Martins (2008), existe uma relação entre o gênero revista e os anúncios nela veiculados:

Dos vários suportes que se prestaram à propaganda e à publicidade, a revista talvez tenha sido dos mais efetivos, concentrando a força da propaganda e a evolução dinâmica da publicidade, expressando-as em suas representações mais acabadas. Para a última, em particular, tornou-se de tal forma o veículo ideal que, em sua essência, quase se confundia com ela, uma vez que ambas, revista e publicidade, direcionavam-se para o mesmo propósito, qual seja: dar-se a conhecer, divulgar-se, "produzir-se para vender-se", razão pela qual muitos periódicos revelaram-se economicamente viáveis, tão-só pela proposta de divulgação de produtos, isto é, pelo seu caráter publicitário. A revista, pois, era a publicidade; ou por outra, no periodismo da época, a revista transformou-se na embalagem ideal para o produto publicidade. (p. 244)

Nesse sentido, perceber a revista como embalagem para o produto publicidade implicou em analisar a presença de 164 anúncios que ocupam as páginas da revista O Estudo, meio de divulgação dos seus produtos ou serviços.

Os anúncios encontram-se, em sua maioria, nas contracapas da revista, poucos estão colocados nas páginas centrais. Com relação ao tamanho, uso de imagens e quantidade por páginas não há uma regularidade.

Diversos tipos de produtos e serviços foram anunciados nas páginas da revista: máquina de escrever, automóveis, instrumentos musicais, livros, tecidos e serviços: farmacêuticos, dentistas, tintureiros, tipógrafos, entre outros.

Um mapeamento desses anúncios aparece na tabela 1.

Com esse levantamento é possível perceber que os anúncios mais presentes na revista O Estudo correspondem às livrarias, casas de tecidos, joalherias, relojoarias e tipografias. Porém, a análise deve se deter também naqueles que aparecem em menor número: cursos e aulas particulares, venda de máquina de escrever, atelier de costura, artigos finos, instrumentos musicais, fábrica de sombrinha, produtos de beleza femininos, calçados e meias para senhoras, entre outros.

As livrarias anunciadas são: Livraria Selbach: presente entre 1922 a 1931, num total de oito aparições; Livraria do Globo: presente entre 1922 a 1930, num total de sete aparições; Livraria Americana: presente entre 1922 a 1927, num total de sete aparições; Livraria Echenique: somente em 1922, n. 6; Livraria Ideal: em 1928, n. 1 e n. 2/3; Rocambole: somente em 1929, n. 1; e Carlos J. Mueller: somente em 1929, n. 1.

Livrarias Americana, Selbach e Globo faziam parte de um circuito da cidade de Porto Alegre frequentado, principalmente, por intelectuais17, mas também por senhoras, moças e estudantes. Se a revista fazia propaganda desses espaços, significa que a população circulante e frequentadora pode ter tido contato com este periódico.

Além das livrarias, outros anúncios estão relacionados com os estudos e a cultura escolar. É caso do anúncio da máquina de escrever Royal, que se encontrava a venda na loja de Barcellos, Bertaso & Cia, assim como o anúncio do curso oferecido pela Escola Remington Official para formar datilógrafos. Também são ofertadas aulas de francês e piano, juntamente com os anúncios de instrumentos musicais, oferecidos pela Casa D'Alo, e pianos pela Casa Pratt.

Os anúncios arrolados também têm ligação com o fato de as editoras da revista serem mulheres, por isso é significativo o número de casas de tecidos, joalheria, relojoaria e de outros produtos de consumo feminino. As casas de tecido ofereciam fazendas, modas e miudezas. A Casa Brito ofertava as mesmas coisas e mais artigos para noivas. O Atelier de Costuras Palais Royal aceitava toda e qualquer encomenda. Os anúncios que fazem menção ao vestuário feminino se completam com a presença de sapatarias, que vendiam calçados finos para senhoras e meias de seda, e com as casas de artigos finos e chapéus.

Dos anúncios ligados ao embelezamento femininos estão as jóias e relógios anunciados pela loja A Esmeralda e pela Casa Masson, que possuía sortimento de anéis na secção de venda em prestações, além de oferecer os serviços de um gabinete para exame dos olhos. Os cosméticos, como o Pó de Arroz Lady, Brancol ou Cêra Mercolisada de Lisboa, também faziam parte desse universo feminino dos anúncios.

Com o mapeamento, também é possível perceber que os anunciantes correspondem aos comerciantes do centro da cidade, relativamente próximos da Escola Complementar/Normal, pois esta se localizava na Rua da Igreja, hoje Duque de Caxias. Foram levantados os seguintes logradouros: Rua dos Andradas, Rua Uruguay, Rua Marechal Floriano, Rua Vigário José Ignacio, Rua General Victorino, Rua Fernando Machado, Rua Voluntários da Pátria. O único anúncio que corresponde a um endereço na Rua Boa Vista, no bairro Partenon, é o da Fabrica Rio-Grandense de Velas para Filtros e Louças de Barro, que aparece somente uma vez, no ano de 1931. Uma hipótese para tamanha mudança no endereço do anunciante esteja no fato de estar relacionado com uma rede de sociabilidade, ou seja, tenha ligação direta com uma das alunas.

Portanto, a variedade de anúncios permite afirmar que a revista O Estudo, para além da presença feminina na editoração e de uma leitura especificamente de gênero, era lida por leitores de diferentes segmentos sociais. Foram encontrados anúncios voltados para o público feminino, assim como, em menor número, para o público em geral. Os anúncios sugerem a diversidade dos leitores: aquele interessado em comprar um carro Ford ou em comprar algum material na ferragem Lindolpho Bohrer & Cia., instalações elétricas na Casa Lux ou, ainda, interessado em arrumar os dentes com o dentista Prudente de Castro, comprar medicamento na Pharmacia Central, investir no Banco Nacional do Commercio ou utilizar os serviços tipográficos da Typographia Esperança, entre outros anúncios18.

 

Circulação

Os dados que permitem vislumbrar a circulação de uma revista correspondem à sua periodicidade, tiragem, permuta com outros impressos, assim como aquelas informações que ajudam na confecção do impresso, como o grupo editorial, as tipografias e outras estratégias como assinaturas e concursos.

 

Periodicidade

A periodicidade d'O Estudo corresponde às edições mensais, que foram mais regulares nos anos de 1922, 1925 e 1928. No geral, circularam entre 6 a 9 números anuais. Nestes anos, não houve uma regra para o mês inicial de publicação, pois este variou de maio em 192219, julho em 1925 a abril em 1928,. Nos demais anos, os meses foram junho em 1923 e 1926, agosto em 1927 e 1930 e setembro em 1931. No ano de 1929, o número 1 corresponde ao período de janeiro a junho, ou seja, o primeiro semestre do ano e não foi localizada qualquer explicação das autoras para esse fato.

A variação do mês de publicação do primeiro número da revista está relacionada ao calendário escolar e ao fato de que o grupo responsável pela manutenção ser composto por alunas do último ano de curso, as mesmas que concorriam ao Grêmio de Estudantes. Como a cada início de ano letivo a formatura era comemorada nos meses de março ou abril, conforme consta no Livro De Actas de Entrega de Premios e Titulos de Alumnas-Mestras da Escola Complementar, é após este período que o novo grupo de estudantes tomava posse na diretoria do grêmio e da revista.

Mas este não é o único motivo que explica o atraso na publicação da revista. As alunas dependiam das atividades escolares, como informa o Aviso (O Estudo, n.4/5, 1928, p. 109), que alega o motivo do segundo exame parcial, realizado naquele mês, para o fato de que os dois números da revista viessem a ser publicados no mês seguinte. Portanto, até que a nova diretoria do Grêmio fosse eleita e assumisse suas funções, incluindo a edição da revista, ou por depender das atividades escolares, o cronograma de publicação não seguia uma regularidade.

Cabe aqui ressaltar o ano de 1924, em que não foi publicado nenhum número. A edição número 1, de 1925, em seu primeiro artigo, escrito pelo professor dr. Eduardo Sarmento Leite Filho, e intitulado Exordio, refere-se à volta do periódico. Em suas palavras, a revista teve

imprevistos varios, contratempos inesperados que interromperam de inopino a marcha ascensorial do 'O Estudo', porém agora volta "Sem solução de continuidade, há de alentar o animo da juventude estudiosa, incutindo-lhe n'alma o amôr ao trabalho, o espírito de sacrificio, ensinando-lhe a cultuar o Bom e o Bello, infundindo-lhe a virtude da perseverança, incitando-a prosseguir avante e sempre avante. (O Estudo, n. 1, 1925, p. 1-2)20.

Também são reiteradas as desculpas, pois devido aos "imprevistos varios, inesperados contratempos" (O Estudo, n. 1, 1927, p. 2), a revista não foi editada entre os meses de setembro de 1926 a agosto de 1927.

 

As alunas redatoras

Uma vez estabelecida a escolha do suporte revista, por que foi criado O Estudo? Com que propósito? Em alguma medida a resposta consta no editorial do número 1 de 1922, que não foi localizado. Entretanto, algumas pistas podem ser colhidas em outras edições.

O grupo responsável pela edição da revista aparece no cabeçalho de cada número do periódico. A equipe de redação é constituída pelas alunas do último ano do curso Complementar/Normal, as mesmas eleitas para compor o Grêmio de Estudantes.

Os números publicados por estas estudantes não apresentam com regularidade um editorial, mas artigos que noticiam as atividades escolares, acontecimentos festivos, pedidos de colaboração, agradecimentos, avisos, esclarecimentos aos leitores sobre os objetivos da revista. Eles ocupam espaços aleatórios na página e se encontram tanto nas páginas iniciais, como nas centrais ou ao final de cada número. Porém, são esses artigos que indiciam e fornecem detalhes da composição da revista O Estudo.

Da análise de 16 artigos21 foi possível mapear o trabalho de uma equipe de redação, ou seja, a produção de textos como espécie de editorial e informações ao público leitor. Os textos tratam de pedidos e agradecimentos pela colaboração, explicações sobre ausência de publicação, notificação do recebimento de correspondências, pedidos de doação de livros para a biblioteca do Grêmio e, principalmente, os objetivos da revista. É o caso do artigo O Estudo (n. 6/7, 1922, p. 26), no qual é abordado o encerramento do ano de 1922 com um agradecimento aos colaboradores, aos assinantes, aos professores e às alunas do 4º ano, fundadoras d'O Estudo. No mesmo artigo, ressalta-se que, devido às férias, a publicação seria interrompida, mas que a mesma voltaria no próximo ano, com uma nova equipe diretiva e com

os mesmos fins elevados de propalar os modernos methodos de pedagogia, de promover a união, entre o professorado do Estado, de ligar por uma especie de interesse comum e sympathia aquelles que já exercem a dignificante carreira do magistério e os que se preparam, enthusiastas e idealistas, para compartilhar das suas glorias e dos seus pesares. (O Estudo, 1922, p. 26)

Portanto, a partir desse texto, percebe-se que a revista O Estudo tinha por propósito divulgar os modernos métodos da Pedagogia. Objetivo novamente destacado no artigo Aos professores e aos alunos, em que diz: "Aos nossos professores das mais esquecidas villas, esta revista levará noticias dos modernos aperfeiçoamentos introduzidos nos methodos de ensino" (O Estudo, n.1, 1925, p. 2). É demonstrada a intenção da equipe de redação de publicar uma revista que proporcionasse aos professores-leitores as tendências e novidades do campo educacional.

Outra função da equipe de redação da revista aparece no texto Notas da redacção. Nele consta o trabalho da equipe de redação quanto ao pedido de colaboração e de avisar aos colaboradores que os textos a serem publicados passariam por uma seleção. Assim escrevem: "Os artigos que não estiverem de accôrdo com os nossos fins, não serão publicados. Os originais, embora não publicados, não serão devolvidos" (O Estudo, n. 1, 1925, p. 23). No entanto, os critérios de seleção dos artigos não são explicitados em nenhum momento.

As alunas redatoras da revista assim descrevem suas atividades de editoras e colocam em circulação um periódico que se propõe a ser uma revista mensal ilustrada, litteraria, scientifica, didactica. Mas o trabalho da equipe de redação se materializa com a impressão e, neste caso, a realização é feita por órgão especializado, ou seja, a tipografia.

 

Tipografia

As tipografias ou editoras se encarregavam de manter o mercado editorial com a publicação e venda de livros e periódicos22. No caso da revista O Estudo, o levantamento apresenta que os 31 números publicados foram impressos em cinco tipografias: Officinas Graphicas do Centro da Boa Imprensa - Antigo Seminário, Livraria do Globo, Typographia Esperança, Officinas Graphicas da Sul Graphica Ltda e Typographia J. R. da Fonseca & Cia.

Dessas tipografias, a Livraria do Globo imprimiu apenas dois exemplares d'O Estudo, em 1922. A Officinas Graphicas do Centro da Boa Imprensa foi a que mais imprimiu O Estudo. Nas páginas do impresso há a referência de que pertencia à Cúria Metropolitana de Porto Alegre ou Antigo Seminário Episcopal23. Em alguns artigos a equipe de redação agradecia ao cônego Leopoldo Neis, diretor da oficina, "a solicitude com que sempre nos acolheu, a presteza com que nos serviu e o valioso auxílio material que nos dispensou" (O Estudo, n. 8/9, 1928, p. 169).

Ao pesquisar no arquivo da Escola à procura de informações acerca da revista, encontrei em um papel, com uma anotação manuscrita sem maiores detalhes de quem a escreveu:

Em 1928 a revista era impressa nas oficinas dirigidas pelo Cônego Leopoldo Neis. Off. n. 77 - 15/06/1930. Illmo. Sr. J. R. da Fonseca e Cia. Conforme autorização do Sr. Secretario do Interior podeis imprimir a revista "O Estudo" do grêmio de estudantes desta Escola, correndo a despesa por conta do Thesouro do Estado. O preço da página da revista será de vinte mil réis, não podendo cada número ter mais de 50 páginas. Saúde e fraternidades. Director.

Por essa anotação se percebe que a tipografia Centro da Boa Imprensa foi substituída pelos serviços de J. R. da Fonseca, que foi contratado e ficou responsável pela edição do n. 1 de agosto de 1930. Essa pequena anotação também traz outras informações: a de que a revista era impressa com o financiamento de dinheiro público e que o diretor da escola, que na época era Emílio Kemp, interferia no processo editorial ao estipular o número total de páginas e o valor de capa da revista. Não há, contudo, maiores detalhes sobre a tiragem do impresso. Uma hipótese para o uso do dinheiro público está no fato de que a Escola era considerada modelo padrão para outras escolas normais do Estado (Louro, 1986) e, como modelo, nada mais significativo do que investir em práticas escolares, como a produção de um impresso estudantil.

 

Permuta com outros periódicos

A permuta com outros periódicos ajuda a entender os espaços de circulação e as comunidades leitoras da revista O Estudo. Pela publicação de informações acerca de revistas recebidas pelo Grêmio de Estudantes, dos mais diferentes gêneros e localidades do Estado, é possível perceber a troca de impressos. Cabe destacar um dos objetivos da sua edição: "Collaborae, pois, conosco, para que O Estudo consiga desempenhar o seu programma e levar aos quatro campos do Rio Grande do Sul o éco dos ensinamentos proveitosos que nos são ministrados pelos competentes professores de nossa Escola" (O Estudo, n. 1, 1925, p. 2).

Dentre os 31 exemplares analisados, em dez exemplares aparecem os nomes das revistas, boletins e jornais recebidos pela equipe editorial d'O Estudo: dois exemplares da revista O Nacionalista, publicado pela Liga Rio-Grandense Nacionalista; dois exemplares da revista Ceres, do Grêmio de Estudantes do Curso de Capatazes Rurais de Viamão; seis exemplares da revista Hyloea, da Sociedade Cívica e Literária do Colégio Militar24; um exemplar do Boletim da Associação Esportiva e Literaria do Collegio Cruzeiro do Sul, intitulado O Pindorama; um exemplar da revista Silhueta, sem identificação de quem a produz; dois exemplares da revista Hygia, dos estudantes da Faculdade de Medicina de Porto Alegre; um exemplar da Revista Comemorativa do Centenário de Independência, da Vila de Palmeira, sem mais referências; e um exemplar do Jornal Comemorativo do Centenário da Independência, da cidade de Venâncio Aires.

As notícias sobre o recebimento de tais impressos não oferece maiores detalhes acerca dos mesmos, tais como, edição, número, localização; apenas os notifica apresentando o título do periódico e o agradecimento por tal envio. Porém, se existe a constatação de que houve o recebimento de impressos, significa que a revista O Estudo também foi enviada a outros grupos de editores e equipes de redação. Assim indicia a seguinte notícia: "O jornal „Republica', que se publica na adiantada capital do visinho Estado de Santa Catarina, em seu numero de 3 de Agosto, traz uma elogiosa referencia a „O Estudo'. Penhoradas pela distincção, agradecemos" (s/autor, O Estudo, n. 4/5, 1922, p. 36).

A circulação de um impresso também pode ser analisada a partir de outras estratégias, que no caso do gênero revista, encontra-se na fórmula de assinaturas e concursos.

 

Assinaturas e concursos

O alcance de circulação da revista O Estudo pode ser percebido por ela se encontrar à venda em livrarias de Porto Alegre: Livraria do Globo, Livraria Echenique e Livraria Americana (O Estudo, n. 6, 1922, contracapa interna), assim como pelo sistema de assinaturas.

A assinatura é uma estratégia utilizada para vender e divulgar o periódico. Com o dinheiro arrecadado das assinaturas, garante-se a publicação e a situação financeira num determinado período de tempo. No caso da revista O Estudo, a assinatura era anual e abrangeu a capital e o interior do Estado, nos valores de 7$000 réis, para a capital, e 8$000 réis para o interior25.

É possível perceber, pelo teor dos avisos e editoriais publicados na revista, que o sistema de assinaturas foi ativo:

AVISO

Pedimos aos nossos assignantes ainda em debito que effectuem suas assignaturas, até dia 20 de Dezembro.

A respectiva importancia poderá ser enviada em vale postal, dirigido á secretaria da Escola. (O Estudo, n. 6, 1922, p. 24)

O excerto explicita a importância do pagamento das assinaturas, já que O Estudo dependia dessa arrecadação para sobreviver financeiramente. Por essa razão, oferecia-se aos assinantes a quitação do débito na forma de pagamento por vale postal, que podia ser remetido à secretaria da Escola, ao endereço da tesoureira do Grêmio ou ao próprio Grêmio de Estudantes. Havia, ainda, o aspecto promocional das assinaturas: uma grátis para quem apresentasse dez assinantes.

O concurso foi mais uma estratégia para aumentar a circulação e incentivar a aquisição da revista:

A assinatura e a venda nas charutarias, livrarias, estações de ferro e hotéis, somados à figura do agente-representante converteram-se em expedientes corriqueiros de colocação efetiva do periódico no mercado. Uma vez lançado, importava condicionar o leitor ao seu consumo, vinculá-lo ás seções, torná-lo dependente do jornal e/ou revista, garantindo a renovação da assinatura, a conquista definitiva do cliente leitor. Estratégias de toda ordem foram experimentadas pelos editores, muitas delas reveladoras do interesse do momento, de valores em curso, de atrativos em voga. (Martins, 2008, p. 237)

Pelo concurso buscava-se proporcionar ao leitor uma maior interação com o periódico e tal participação indica um traço das práticas de leitura. É o caso da figura 9, que apresenta uma ilustração a partir da qual devia-se produzir uma historieta26. Isso demonstra que a revista também se direcionava ao público infantil, principalmente aos alunos das futuras alunas-mestras da Escola Normal.

 

Considerações finais

Este artigo chega ao fim depois de expor descritivamente a materialidade do suporte revista e sua composição, com vistas a entender suas especificidades e particularidades. O suporte relaciona-se com o texto, a ponto de que "qualquer compreensão de um texto, não importa de que tipo, depende das formas com as quais ele chega até o leitor" (Chartier, 1992, p. 220). Importou demonstrar aquilo que Viñao Frago (2001) descreveu como a tipologia das técnicas de execução, utensílios e suportes da escrita.

A passagem de um suporte a outro, a troca de utensílios de escrita, os usos de uma nova técnica de execução e a variada disposição gráfica não podem ser reduzidas a meras mudanças técnicas, porque "afetam tanto aquele que, e como, escreve e lê, como os contextos, meios e finalidades para quem se escreve e se lê, isto é, as funções, usos e práticas sociais relacionadas com o escrito" (Viñao Frago, 2001, p. 34). Sendo assim, a relação entre o texto, o suporte e a leitura podem variar se houver alteração em um desses três elementos. A descrição realizada até aqui se orientou nesse sentido.

A criação do suporte revista, utilizado na materialização do impresso estudantil O Estudo, foi realizada como prática de escrita das alunas, que em princípio mimetizaram as revistas ilustradas e de variedades circulantes nas décadas de 1920 e 1930. Por essa razão, as alunas usaram uma fórmula nominal revista mensal, illustrada, litteraria, scientifica, didactica, comum a muitas revistas da época. Também utilizaram uma forma física para a apresentação do seu impresso, com determinadas características e composições gráficas típicas do sistema de publicação de revistas. Estabeleceram determinados protocolos de leitura pela apresentação de capas, ilustrações e disposição gráfica. A revista proporcionou novos usos, outros gestos diante do formato em brochura, leve e pequeno, novas leituras, intermediárias entre o livro e o jornal, e novos hábitos, como, por exemplo, as assinaturas e os concursos que a revista promovia.

O Estudo, com sua apresentação física, sua composição gráfica e sua circulação, periodicidade e assinatura, propagou textos que foram dispostos, impressos e publicados de maneira diversa. Enfim, as alunas produziram o gênero revista no âmbito escolar e fomentaram a produção de impressos estudantis.

Nesse processo de composição, difusão e apropriação, a instituição escolar contribuiu de modo significativo, pois além do processo do ensino da leitura e da escrita, também colaborou com novos usos e práticas que fez dos impressos.

A escola lançou mão da prática de escrita de um impresso em formato de revista, um artefato sociocultural existente, ao incluí-lo como prática escolar, isto é, a escola e, mais especificamente as alunas da Escola Complementar/Normal, manipularam, compre-enderam e apreenderam a palavra escrita em circulação na sociedade e estiveram envolvidas com a produção de um impresso estudantil, incentivado como prática escolar.

 

Referências

AMARAL, Giane Lange do; SILVA, Daiani. Aspectos da cultura escolar veiculados pelo impresso estudantil Complementarista da Escola Complementar de Pelotas/RS. ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO SUL RIO-GRANDENSE DE PESQUISADORES EM HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO, 11, 2005, Pelotas, Anais ... Pelotas: Asphe, 2005.         [ Links ]

AMARAL, Giane Lange do; SILVA, Daiani. Os impressos estudantis em investigações da cultura escolar nas pesquisas histórico-institucionais. História da Educação, Pelotas: Asphe, n. 11, 2002, p. 117-130.         [ Links ]

BASTOS, Maria Helena Camara; LEMOS, Elizandra. Uma iconografia da cultura escolar: as capas da Revista do Ensino/RS (1951-1978). In: SCHELBAUER, Analete Regina; ARAÚJO, José Carlos. História da educação pela imprensa. Campinas: Alínea, 2007, p. 177-217.         [ Links ]

BICCAS, Maurilane de Souza. O impresso como estratégia de formação: Revista do Ensino de Minas Gerais (1925-1940). Belo Horizonte: Argumentum, 2008.         [ Links ]

CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Cia da Letras, 1990.         [ Links ]

CASTILLO GOMEZ, Antonio. Historia de la cultura escrita: del proximo oriente antiguo a la sociedad informatizada. Astúrias/Espanha: Trea, 2001.         [ Links ]

CHARTIER, Roger. As utilizações do objeto impresso (séculos XV-XIX). Portugal: Difel, 1998.         [ Links ]

CHARTIER, Roger. Do livro à leitura. In: CHARTIER, Roger (dir.). Práticas da leitura. São Paulo: Estação Liberdade, 2009.         [ Links ]

CHARTIER, Roger. Textos, impressão, leituras. In: HUNT, Lynn. A nova história cultural. São Paulo: Martins Fontes, 1992, p. 211-238.         [ Links ]

CHARTIER, Roger. Leituras e leitores na França do Antigo Regime. São Paulo: Unesp, 2004.         [ Links ]

CHARTIER, Roger. Os desafios da escrita. São Paulo: Unesp, 2002.         [ Links ]

CUNHA, Maria Teresa Santos. Professoras nos discursos de formatura da revista Pétalas: a voz das oradoras. CONGRESSO LUSO-BRASILEIRO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO, 4, 2002, Porto Alegre, Anais ... Porto Alegre: Ufrgs, 2002.         [ Links ]

CUNHA, Maria Teresa Santos. Rezas, ginástica e letras: normalistas do Colégio Coração de Jesus. Florianópolis décadas de 1920 e 1930. In: DALLABRIDA, Norberto (org.). Mosaico de escolas: modos de educação em Santa Catarina na Primeira República. Florianópolis: Cidade Futura, 2003, p. 199-220.         [ Links ]

DARNTON, Robert. A questão dos livros: passado, presente e futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.         [ Links ]

FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre: guia histórico. Porto Alegre: Ufrgs, 2006.         [ Links ]

LOURO, Guacira Lopes. Prendas e antiprendas: uma história da educação feminina no Rio Grande do Sul. Campinas: Unicamp, 1986. 273f. Tese (doutorado em Educação). Faculdade de Educação, Universidade de Campinas.         [ Links ]

LUCA, Tania Regina de. Fontes impressas: história dos, nos e por meio dos periódicos. In: PINSKY, Carla B. Fontes históricas. São Paulo: Contexto, 2005, p. 111-153.         [ Links ]

MARTINS, Ana Luisa. Revistas em revista: imprensa e práticas culturais em tempos de República, São Paulo (1890-1922). São Paulo: USP/Fapesp, 2008.         [ Links ]

MACHADO JR., Claudio de Sá. Imagens da sociedade porto-alegrense: vida pública e comportamento nas fotografias da Revista do Globo (década de 1930). São Leopoldo: Oikos, 2009.         [ Links ]

MONTEIRO, Charles. Porto Alegre e suas escritas: história e memórias da cidade. Porto Alegre: PUCRS, 2006.         [ Links ]

PADILHA, Márcia. A cidade como espetáculo: publicidade e vida urbana na São Paulo nos anos 20. São Paulo: Annablume, 2001.         [ Links ]

PIÑEDA, Silvana S. Hyloea: o feminino na revista dos alunos do Colégio Militar de Porto Alegre (1922-1938). Porto Alegre: Ufrgs, 2004. 193f. Dissertação (mestrado em Educação). Faculdade de Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul.         [ Links ]

TORRESINI, Elisabeth R. Breve história da circulação de livros, das livrarias e editoras no Rio Grande do Sul (séculos 19 e 20). In: BRAGANÇA, Aníbal; ABREU, Márcia (orgs.). Impresso no Brasil: dois séculos de livros brasileiros. São Paulo: Unesp, p. 235-252.         [ Links ]

TORRESINI, Elisabeth R. Editora Globo: uma aventura editorial nos anos 30 e 40. São Paulo: USP; Porto Alegre: Ufrgs, 1999.         [ Links ]

VIÑAO FRAGO, Antonio. Por uma história da cultura escrita: observações e reflexões. Cadernos de Projeto Museológico, Santarém: Escola Superior de Santarém, n. 77, 2001, p. 3-53.         [ Links ]

 

 

Recebido em 18 de setembro de 2012.
Aceito em 29 de março de 2013.

 

 

ANDRÉA SILVA DE FRAGA tem graduação em História e mestrado em Educação, pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atualmente, é professora na rede estadual de ensino e estudante do curso de doutorado em História, no Programa de Pós-Graduação em História da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
Endereço: Travessa Escobar, 554/209 - 91910-400 - Porto Alegre - RS - Brasil. E-mail: andreasfraga@yahoo.com.br.

 

 

1 Este artigo originou-se de um dos capítulos da dissertação de mestrado intitulada Imprensa estudantil e práticas de escrita e de leitura: o caso da revista O Estudo (Porto Alegre/RS, 1922-1931), apresentada em 2012 na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
2 Uso a expressão Escola Complementar/Normal porque a Escola Complementar existiu de 1906 até 1929, quando passou a se chamar Escola Normal.
3 O mesmo formato é adotado em algumas revistas em circulação no Brasil no mesmo período, como é o caso da revista Fon-Fon!, revista ilustrada produzida de 1907 a 1945, no Rio de Janeiro. Era um semanário alegre, politico, crítico e esfuziante, com noticiário avariado, telegrafia sem arame, crônica epidêmica, conforme ela mesma se apresentava. De acordo com Claudio Machado Jr. (2009), a revista Fon-Fon! refletia o sentimento cosmopolita que pairava na capital brasileira e que buscava uma afinidade muito grande com Paris, pois "na década de 1920, o Rio de Janeiro dividia-se entre Hollywood e Paris, num conglomerado de culturas que ditava aquilo que se costuma denominar como modernidade carioca (Machado, 2009, p. 90).
4 Conforme os seguintes números d'O Estudo: 1922, 4/5, 6/7; 1925, 5/6; 1926, 3/4; 1928, 2/3, 4/5, 6/7, 8/9.
5 Para saber mais sobre a mediação editorial, ver Darnton (2010) e Chartier (2002).
6 Este modelo de capa aparece nos números 2 e 3 de 1922 e do número 1 ao 5/6 de 1925.
7 Os números que possuem esta imagem na capa são 4/5, 6, 6/7, de 1922, e o número 1 de 1923.
8 Este formato está presente nos números 1, 2 e 3/4 de 1926.
9 É o caso dos números 1, de 1927, e 1 de 1931.
10 Os números que apresentam fotografias em suas capas correspondem do número 1 ao 8/9 de 1928, número 1 de 1929 e número 1 de 1930.
11 Maria T. Santos Cunha (2002), ao analisar os discursos de formatura impressos na revista Pétalas, enfatiza que as normalistas do Colégio Coração de Jesus (Florianópolis/SC) representavam em seus discursos uma idealização do magistério e de uma educação apoiada no tripé civilidade, moralidade e religião. Sobre a revista Pétalas, criada em 1933 pela direção do Colégio Coração de Jesus e publicada até 1961, ver Cunha (2003).
12 Maiores informações a respeito da análise de capas de revistas, ver Bastos (2007). Neste artigo, a autora estuda as capas da Revista do Ensino/RS (1951-1978) "que reproduzem fotos do cotidiano escolar ou composições gráficas elaboradas pela equipe editorial, com o objetivo de analisar o que expressam em termos educativo-pedagógicos e como dispositivos de subjetivação da professora moderna" (p. 179).
13 A Biblioteca Azul corresponde a uma coletânea de textos publicados em livros de baixo custo, impressos em grande quantidade e vendidos por ambulantes na França do Antigo Regime. Para saber mais, ver Chartier (2004).
14 Márcia Padilha (2001), ao analisar a revista A Cigarra, 1914-1954, demonstra que as fotografias ainda eram novidades nos anos de 1920. "As revistas exploravam a admiração causada por seus aspectos técnicos e por seu caráter supostamente imparcial. A qualidade técnica das fotografias era um atrativo amplamente aproveitado pelos periódicos, que muitas vezes, dispensavam qualquer justificativa temática para a impressão de seus clichês. Pipocavam em A cigarra retratos, fotografias de grupos, de ruas, paisagens e outros temas, acompanhados apenas de uma breve legenda, sem nenhuma relação com o restante do conteúdo de suas páginas" (p. 45).
15 Para facilitar ao leitor, transcrevo o conteúdo das páginas. "A) A nossa saudosa collega Julieta dos San-tos Parrot, fallecida em 1920. B) Homenagem do Estudo - Dr. Alcides Flores Soares, DD. Director da Escola Complementar. Major Dr. Alcides Cunha. Dignissimo Lente de Português do 3º anno da Escola Complementar. C) Homenagem d'O Estudo. D. Florinda Sampaio. Srta. Olga Acauan. Ouvimos em aula de Pedagogia que o primeiro cuidado do mestre deve se o de captivar a affeição e estima dos alumnos. E isso plenamente conseguiram Olga Acauan e Florinda Tubino, respectivamente professoras de Pedagogia e de História. Ao talento, energia e distincção, sabem alliar a modéstia, a delicadeza e o carinho. De intelligencia brilhante, estudando sempre com louvável constância, tornaram-se já auctoridades nas matarias que leccionam. O Estudo vem prestar ás queridas mestras uma homenagem singela, porém dictada pelo affecto e gratidão que lhes votamos."
16 Quadro elaborado pela autora, com base nos dados constantes nos exemplares da revista no período analisado.
17 De acordo com Monteiro (2006), as livrarias compuseram parte do cenário freqüentado pela intelectua-lidade de Porto Alegre nas primeiras décadas do século 20. A Livraria Americana situava-se em frente ao Café Colombo, localizado na Rua da Praia, esquina com Rua da Ladeira, e publicava livros de vários gêneros literários. A Livraria Selbach, localizada na Rua Marechal Floriano, n. 92 e 94, especializada em livros escolares, atendia ao Colégio Anchieta, Sevigné e Bom Conselho. A Livraria do Globo publicava livros técnicos, escolares, literários.
18 De acordo com Maurilane Biccas (2008), os anúncios pretendem comunicar ao público as qualidades de um determinado produto. Nesse sentido, os anúncios apresentam imagens e outros recursos que produzam "sentidos no público que se queira atingir" (p. 119).
19 Esse número não foi consultado diretamente, mas, por dedução, acredita-se ser este o mês de lança-mento, uma vez que o número 2 corresponde ao mês de junho de 1922.
20 Nesse mesmo número, na página 21, é publicada, com o título Acta n. 17 e Acta n. 18, a posse da nova diretoria do grêmio e da revista, o que aconteceu no dia 9 de maio de 1925. Verifica-se mais um indício de que para dar início à publicação da revista era necessária a posse da nova diretoria, pois no ano de 1925, o número 1 corresponde ao mês de julho. Em 1928, a diretoria tomou posse em 17 de março e o número 1 apareceu em abril.
21 Foram encontrados 16 artigos, sendo que alguns repetem o mesmo título: Ao Publico (n. 2, 1922, p. 12), Correspondentes (n. 3, 1922, p.7), O Estudo (n. 6/7, 1922, p. 26; n. 1, 1930, p. 2; n. 1, 1931, p. 1). Notas da Redacção (n. 1, 1923, p. 7; n. 1, 1925, p. 23). Exordio (n. 1, 1925, p. 1-2). Aos professores e alunos (n. 1, 1925, p. 2). Acta n. 17 e Acta n. 18 (n. 1, 1925, p. 21). Aviso (n. 5/6, 1925, p. 31; n. 2/3, 1928, p. 109). Caro Leitor (n. 1, 1926, p. 1). Aos leitores (n. 1, 1927, p. 2). Posse da Directoria (n. 1, 1928, p. 54; n. 1, 1929, p. 32). Agradecimento (n. 1, 1928, p. 169).
22 Conforme Torresini (2010), os vendedores de livros já estavam presentes na província de São Pedro do Rio Grande do Sul na década de 1820. E "o comércio de livros acontecia na tipografia, na casa do vendedor, na rua ou numa casa de negócios" (p. 237).
23 Conforme Sérgio da Costa Franco (2006), a construção do prédio teve inicio em 1865 e témino em 1888.
24 Sobre a revista Hyloea, ver Piñeda (2003).
25 O valor avulso de cada exemplar da revista variou entre 1$000 réis, nos anos de 1922, 1923 e 1927, 1$500 réis, nos anos de 1925, 1926, 1928 e 1930, 2$000 réis, nos anos de 1926 e 1931 e 3$000 réis, nos anos 1928 e 1929. Apenas o valor da assinatura anual permaneceu sem alteração durante os anos editados.
26 De acordo com Martins (2008), as competições literárias voltadas ao público infantil eram procedimentos correntes. Revistas infantis como o Pequeno Polegar (1905) e Nenê, Jornal da Infância (1906), anunciavam competições em seus programas (p. 241).

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License