SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.19 número45Pela educação lutaremos o bom combate: a instrução operária como um campo de disputas entre católicos e anarquistas na primeira república brasileiraHistory of Latin American universities: tradition and modernity índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


História da Educação

versão On-line ISSN 2236-3459

Hist. Educ. vol.19 no.45 Santa Maria jan./abr. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/2236-3459/47461 

Artigos

O jornal Stella d'Italia e a defesa da escola étnica italiana (1902-1904)

El periódico Stella d'Italia y la defensa de la escuela étnica italiana (1902-1904)

Le journal Stella d'Italia et la défense de l'école ethnique italienne (1902-1904)

Gelson Leonardo Rech1 

Elomar Antonio Callegaro Tambara2 

1Universidade de Caxias do Sul, Brasil

2Universidade Federal de Pelotas, Brasil


RESUMO

O artigo analisa dois elementos recorrentes nas edições dos três primeiros anos do jornal portoalegrense Stella d'Italia (1902-1904), editado em italiano, a saber: o descontentamento com relação ao estado em que se encontrava a instrução entre os italianos e ítalos-brasileiros em Porto Alegre e a polêmica com o cônsul italiano Enrico Ciapelli, que resultou na suspensão do envio de material às escolas italianas, mantidas pelas sociedades italianas apoiadoras do jornal. A polêmica, não relatada nos relatórios oficiais do cônsul, teve como elemento detonador a acusação, sustentada pelo editor do jornal, de que o cônsul pouco se interessava pela escola italiana e pelos compatriotas. Considerando-se a escassa literatura sobre as escolas étnicas italianas de Porto Alegre, o jornal Stella d'Italia tem particular importância pelo destaque frequente à temática da educação e pela marcante opinião e zelo do editor, Adelchi Colnaghi, pela escola étnica italiana. Os apelos e considerações de Colnaghi na defesa da escola italiana, seu diagnóstico sobre as dificuldades da mesma, bem como o estado da educação entre os italianos em Porto Alegre foi reiterado, muitas vezes, nas páginas do jornal. Colnaghi estava convencido da importância da escola italiana, mas na perspectiva do jornal pouco se fez pela mesma e, às vezes, se fez contra.

Palavras-Chave: Stella d'Italia; Adelchi Colnaghi; Enrico Ciapelli; escolas étnicas italianas

ABSTRACT

This article analyzes two recurrent elements on the three first-year issues (1902-1904) of Stella d'Italia, a Porto Alegre's newspaper edited in italian, specifically the dissatisfaction with the condition of the Italian education in Porto Alegre, and the fuss involving the Italian consul Enrico Ciapelli, which resulted in the interruption of school materials being delivered to Italian schools kept by the Italian societies that supported the newspaper. The polemic issue, which was not described in the consul's official reports, resulted in indictment against the consul. The indictment, which was supported by the newspaper editor, accused the consul of neglecting the Italian school and his countrymen. Taking into consideration the lack of literature on ethnic Italian schools in Porto Alegre, Stella d'Italia newspaper is particularly important due to the frequent articles on education on its pages. Its remarkable opinion and care about this type of school throughout the texts which, in most cases, were written by Editor Adelchi Colnaghi. Colnaghi's appeals and considerations related to the defense of the Italian school, his diagnosis about the school difficulties as well as the Italian education conditions in Porto Alegre were many times published in the newspaper. Colnaghi was convinced of the italian school importance, but from the newspaper's perspective, very little was done about it and, sometimes, some things were done even against it.

Key words: Stella d’Italia; Adelchi Colnaghi; Enrico Ciapelli; ethnic Italian schools

Key words: Stella d’Italia; Adelchi Colnaghi; Enrico Ciapelli; ethnic Italian schools

RESUMEN

El artículo analiza dos elementos recurrentes en las ediciones de los tres primeros años del periódico porto-alegrense Stella d'Italia (1902-1904), editado en italiano, a saber: el descontentamiento con relación al estado en que se encontraba la instrucción entre los italianos y los ítalos-brasileños en Porto Alegre y la polémica con el cónsul italiano Enrico Ciapelli, que resultó en la suspensión del envío de material a las escuelas italianas, mantenidas por las sociedades italianas que apoyaban el periódico. La polémica, no relatada en los informes oficiales del cónsul, tuvo como elemento detonador la acusación, sustentada por el editor del periódico, de que el cónsul poco se interesaba por la escuela y por los compatriotas. Considerando la escasa literatura sobre las escuelas étnicas italianas de Porto Alegre, el periódico Stella d'Italia tiene particular importancia por el destaque frecuente a la temática de la educación y por la fuerte opinión y celo del editor, Adelchi Colnaghi, por la escuela étnica italiana. Los llamamientos y consideraciones de Colnaghi en defensa de la escuela italiana, su diagnóstico sobre las dificultades de la misma, así como el estado de la educación entre los italianos en Porto Alegre fue reiterado, varias veces, en las páginas del periódico. Colnaghi estaba convencido de la importancia de la escuela italiana, pero en la perspectiva del periódico poco se hizo por la misma y, a veces, se hizo contra ella.

Palabras-clave: Stella d'Italia; Adelchi Colnaghi; Enrico Ciapelli; escuelas étnicas italianas

Résumé

Cet article analyse deux éléments récurrents dans les éditions des trois premières éditions des trois premières années du journal de Porto Alegre Stella d'Italia (1902-1904), édité en italien, à savoir: le mécontentement lié à l'état dans lequel se trouvait l'instruction parmi les italiens et les italo-brésiliens à Porto Alegre et la polémique en ce qui concernait le consul italien Enrico Ciapelli, qui a résulté dans la suspension de l'envoie de matériel aux écoles italiennes, maintenues par les sociétés italiennes, qui appuyaient le journal. La polémique, pas relatée par les rapports officiels du consul, a eu comme élément détonateur l'accusation, sustentée par l'éditeur du journal, qu'il ne s'intéressait pas suffisamment à tout ce qui concernait l'école et ses compatriotes. Considérant la littérature faible sur les écoles ethniques italiennes à Porto Alegre, le journal Stella d'Italia a une importance particulière à cause de la mise en relief fréquente du thème de l'éducation et de l'opinion marquante et le zèle de l'éditeur, Adelchi Colnaghi, pour l'école ethnique italienne. Les appels et considérations de Colnaghi en défense de l'école italienne, son diagnostique sur ses difficultés, aussi que l'état de l'éducation parmi les italiens à Porto Alegre ont été réaffirmés, plusieurs fois, dans les pages du journal. Colnaghi était convaincu de l'importance de l'école italienne, mais dans la perspective du journal, peux a été fait pour elle et, parfois, on a même fait des choses contre l'école italienne.

Mots-clé Stella d'Italia; Adelchi Colnaghi; Enrico Ciapelli; écoles ethniques italiennes

ABSTRACT

This article analyzes two recurrent elements on the three first-year issues (1902-1904) of Stella d'Italia, a Porto Alegre's newspaper edited in italian, specifically the dissatisfaction with the condition of the Italian education in Porto Alegre, and the fuss involving the Italian consul Enrico Ciapelli, which resulted in the interruption of school materials being delivered to Italian schools kept by the Italian societies that supported the newspaper. The polemic issue, which was not described in the consul's official reports, resulted in indictment against the consul. The indictment, which was supported by the newspaper editor, accused the consul of neglecting the Italian school and his countrymen. Taking into consideration the lack of literature on ethnic Italian schools in Porto Alegre, Stella d'Italia newspaper is particularly important due to the frequent articles on education on its pages. Its remarkable opinion and care about this type of school throughout the texts which, in most cases, were written by Editor Adelchi Colnaghi. Colnaghi's appeals and considerations related to the defense of the Italian school, his diagnosis about the school difficulties as well as the Italian education conditions in Porto Alegre were many times published in the newspaper. Colnaghi was convinced of the italian school importance, but from the newspaper's perspective, very little was done about it and, sometimes, some things were done even against it.

Key words: Stella d’Italia; Adelchi Colnaghi; Enrico Ciapelli; ethnic Italian schools

Key words: Stella d’Italia; Adelchi Colnaghi; Enrico Ciapelli; ethnic Italian schools

As temáticas apresentadas nesse artigo compõem uma parte do projeto de pesquisa mais abrangente que investiga as escolas étnicas italianas urbanas s temáticas apresentadas nesse artigo compõem uma parte do projeto de vinculadas às diversas associações italianas do final do século 19 e início do século 20, especialmente as escolas das antigas colônias italianas do Rio Grande do Sul Caxias, Conde d'Eu e Dona Isabel - e as escolas de Porto Alegre.

Na investigação dessas escolas, particularmente as escolas de Porto Alegre, consideramos relevantes as publicações do periódico Stella d'Italia1, daqui em diante referido simplesmente Stella, publicado em italiano, cuja linha editorial promovia um discurso contundente em favor das escolas italianas, da educação étnica e do papel da educação como necessária para manutenção da italianidade.

Tomamos para análise dois elementos recorrentes nas edições dos três primeiros anos do jornal, 1902 a 19042: a) o descontentamento com relação ao estado em que se encontrava a instrução entre os italianos de Porto Alegre; b) a polêmica com o cônsul italiano Enrico Ciapelli, que resultou na suspensão do envio de material às escolas italianas mantidas pelas sociedades italianas apoiadoras do Stella. A polêmica, não presente nos relatórios oficiais do cônsul, teve como elemento detonador a acusação, sustentada pelo editor do jornal, de que o cônsul pouco se interessava pela escola italiana e pelos compatriotas.

Considerando-se a escassa literatura sobre as escolas étnicas italianas de Porto Alegre, entendemos que o jornal Stella tem particular importância pelo destaque frequente à temática da educação e pela marcante opinião e zelo do editor, Adelchi Colnaghi, pela escola étnica italiana.

A imprensa é, provavelmente, um dos meios pelo qual se pode ter um melhor conhecimento das realidades educativas, uma vez que, por meio dela, se manifestam o conjunto de problemas dessa área:

São as características próprias da imprensa (a proximidade em relação ao acontecimento, o caráter fugaz e polêmico, a vontade de intervir na realidade) que lhe conferem este estatuto único e insubstituível como fonte para o estudo histórico, sociológico da educação e da pedagogia. (Nóvoa, 2002, p. 131)

A imprensa favorece um amplo olhar da experiência citadina, de seus personagens, do plano público e privado, dos elementos do cotidiano e de efemérides dos elementos culturais e educacionais importantes ao investigador. Vieira (2007), ao comentar acerca das possibilidades de reconhecimento e da problematização do passado por meio da imprensa sustenta que é nela que "encontramos projetos políticos e visões de mundo e vislumbramos, em ampla medida, a complexidade dos conflitos e das experiências sociais" (p. 13).

Claro está que devemos situar os documentos, e aqui o jornal em particular, como um feixe de relações, como resultado de conflitos e de negociações que tornam visíveis ou invisíveis questões, acontecimentos ou formas de pensar. Vieira (2007) afirma que é necessário que o jornal "seja entendido como enunciado, isto é, como intervenção que visa demarcar e fixar formas de pensar que se expressam como valores, juízos, modos de classificação, enfim, justificativas para a ação social" (p. 14). O trabalho do investigador é o de compreender e explicar os diversos discursos com a pretensão de verdade e de espelhamento da realidade, presentes nesse veículo midiático relacionando os elementos ditos e não ditos, cercando-se das ferramentas da análise do discurso, entre outras, que problematizam a linearidade entre a narração e o acontecimento.

O jornal, o editor e seu posicionamento

No artigo Il giornalismo coloniale3, após a enumeração de jornais italianos4 e da exaltação de jornalistas, o texto evidencia o Stella e elogia seu editor-fundador, especialmente pelo apoio às escolas italianas:

Na lista de jornais e jornalistas italianos que enumerei anteriormente, sem nenhuma nota escrita confiando apenas na memória - e aqui a justificativa de qualquer provável omissão ou inexatidão em que eu possa ter caído - é justo destacar a posição honrosa do decano do jornalismo italiano no Rio Grande do Sul, posição ocupada pelo Stella d'Italia, de Porto Alegre, com seus 23 anos de existência e um programa honesto e austero que foi inspirado pelo caráter independente de seu fundador e diretor, Adelchi Colnaghi, pela causa da italianidade e dos interesses italianos no estado, à qual abnegadamente dedicou-se integralmente. Foi ele um incansável sustentáculo de nossas instituições coloniais, especialmente das escolas, e porta voz confiável de 22 associações italianas do estado, que delegaram a ele sua representação no Congresso dos Italianos do Exterior, realizado em Roma em 1911. (Cinquantenario5, 1925, p. 446)

A perspectiva de entusiasmo pela Itália marca o jornal, sendo que o discurso da italianidade é um continuum nos anos investigados, bem como a defesa da manutenção da língua italiana entre os compatriotas e os ítalo-brasileiros é reforçada inúmeras vezes.

O longo artigo Parliamo italiano, de 24 de agosto de 1903, é emblemático e reflete o ufanismo característico das narrativas da época com relação aos imigrantes:

Falemos o italiano, e onde possamos nos esforcemos a ensiná-lo também aos outros. Difundamos a nossa língua e os nossos costumes e, em poucos anos, sem esforço e sem luta nós nos encontraremos melhor estimados do que somos atualmente [...]. Contribuamos na manutenção das escolas que possuímos e as fortaleçamos! Obriguemos nossos filhos a freqüentá-las constantemente, a falar nosso idioma, a respeitar os seus professores, a venerar a pátria de seus pais. (Stella, 24/08/1902, p. 1)

As matérias do jornal, ou artigos relativos à instrução ou escola italiana, especialmente as de Porto Alegre, ocupam, normalmente, a página inicial e sempre em destaque.

Em reiteradas matérias o editor Adelchi Colnaghi assumia o discurso da educação como redentora e promotora da civilidade entre os compatriotas. Revelava sua preocupação com relação à pouca importância que se dava às escolas italianas na capital e, especialmente, criticava a falta de empenho das autoridades quanto à continuidade das mesmas.

Colnaghi era inspetor permanente das escolas mantidas pelas sociedades italianas e professor de aulas particulares de contabilidade, de língua italiana e de língua francesa, em sua casa ou à domicílio, como lemos em inúmeros anúncios do Stella. De acordo com Possamai (2005), Colnaghi era membro em grau terceiro da loja maçônica Ausônia, aberta em Porto Alegre em 1895 e fechada em 1903, o que "lhe acarretou uma constante oposição dos periódicos católicos, que acusavam seu jornal de divulgar idéias maçônicas" (p. 173). Seus textos revelam linguagem culta, fineza argumentativa, postura decidida, crítica severa e mordaz. Colnaghi ficou conhecido pela sua irreverência e independência. Faleceu em Milão em 1917.

Nos anos analisados se observou que o jornal publicava, frequentemente, informações a respeito do horário das aulas, período de férias, dados sobre os eventos de inauguração, informações sobre início do ano letivo e exames finais, cartas de professores de escolas das colônias italianas, anúncios de aniversário das escolas e descrição das respectivas solenidades, anúncio de festas com vistas a arrecadar fundos para as escolas, propaganda de livros, oferta de aulas particulares, correspondências de outras escolas, cartas de agentes consulares sobre a educação, divulgação de escolas religiosas italianas, eventos culturais relacionados às escolas, homenagens a professores e notícias do interior como, por exemplo, a demissão de um professor em Caxias do Sul.

A maioria dos jornais italianos em Porto Alegre teve vida curta. O Stella, que circulou por mais de duas décadas, foi uma exceção. De acordo com Possamai (2005) a maior parte dos jornais6 era de propriedade de maçons, os quais eram, entre os imigrantes, os mais escolarizados. Esses jornais defendiam as posições liberais do Estado italiano, promoviam a comemoração das datas nacionais italianas entre os imigrantes, motivo de constantes atritos com o clero7 ultramontano e com jornais de cunho católico, como o Correio Riograndense8. O Stella era, declaradamente, um jornal liberal e anticlerical.

Não fosse por informações do conjunto do jornal num determinado período, poderse-ia pensar, numa leitura apressada de alguns artigos do Stella, que havia centenas de alunos em cada escola da capital e uma efervescência estudantil. Porém, a realidade era outra: poucos alunos e muitas dificuldades. O artigo Il grave problema delle scuole italiane, de 8 de janeiro de 1903, aponta algumas dificuldades: poucos alunos, nesta data 161 alunos frequentavam as escolas Scuola Principessa Elena e Umberto I, pouco apoio do governo italiano, mestres com formação deficiente, falta de material didático e falta de inspetores escolares idôneos e capazes:

Eles [governantes] ignoram, além de tudo, que nas nossas Colônias faltam inspetores escolares idôneos e capazes; ignoram que os nossos raros professores abandonados exclusivamente a si próprios, não podem conseguir mais que medíocres resultados. Estão privados de direção, enganados pelas mudanças contínuas nos textos, obstaculizados pela natureza mesma de seus alunos os quais, ao contato com os brasileiros, aprendem tudo, menos o italiano. (Stella, 8 jan., 1903, p. 1)

Em carta aberta dirigida a possíveis sócios do jornal e à comunidade em geral, datada de 7 de fevereiro de 1902, o editor do jornal anunciava que em 30 de março daquele ano iniciaria as atividades do jornal com duas edições semanais:

Porto Alegre, 7 de fevereiro de 1902. Egrégio Senhor. Quando, no ano passado, um grupo de probos e corajosos compatriotas reunidos na Comissão promotores de um novo jornal, emanou uma circular cujo objeto está subscrito, que por bondade deles mesmos, eu fui convidado a fazer parte esperavam ver, em breve, surgir um periódico digno da coletividade italiana neste Estado. Desgraçadamente, um conjunto de imprevistas circunstâncias levou a maior parte dos iniciadores a abandonar o projeto; como sempre caem as nobres iniciativas. Todavia, as razões adotadas agora, que estavam naquela circular, não foram totalmente perdidas. Um número de patriotas e modestos compatriotas - modestos a ponto de esconderem seu próprio nome convencidos ainda da necessidade de um jornal que, longe das amarras políticas e partidárias, soubesse traduzir, de fato, as aspirações e os ideais da Colônia e da Pátria lutando sempre pela afirmação do nosso nome e do nosso direito, tomando para si o extinto projeto, se decidem, audaciosamente, a traduzi-lo em fato. Tendo recolhido o modesto capital, encarregaram da prática o senhor Benvenuto Crocetta, e ele, por sua vez, oferecia ao subscrito a direção do futuro periódico. Conhecendo quão árdua e espinhosa é esta empresa, todavia, eu a aceitei, depois do encorajamento de muitos amigos e do desejo ardente de colaborar com o incremento moral e material da coletividade italiana residente nestas terras férteis. Conseguirei? Certo, a minha capacidade é limitada; mas se eu interrogar o vivo afeto que sinto pela pátria e o eficaz e poderoso auxílio dos amigos dedicados e sinceros; se o apoio moral das nossas beneméritas Associações não me faltarem, e a estima e o conforto dos concidadãos não me faltar, estou quase certo de levar a um bom termo a obra a mim confiada..Tudo isso considerado quando um homem dá o quanto humanamente ele pode dar, há pelo menos para si, o conforto da própria consciência. Lutar, lutar sempre, até o sacrifício; levar alto, bem alto, o nome italiano, render-lhe em qualquer lugar respeito e amor: eis os princípios nos quais se inspiram a "STELLA D'ITALIA" e os seus colaboradores. No dia 30 de março próximo, será iniciada a publicação bissemanal sobre a qual ouso chamar desde agora a vossa benevolente atenção e a atenção de vossos amigos. Conheço os vossos patrióticos sentimentos e a eles apelo francamente. Do vosso apoio depende em parte o triunfo final do jornalismo italiano neste Estado e a afirmação da nossa coletividade diante dos nossos hospitaleiros irmãos. Sempre vosso, Adelchi Colnaghi - fundador. NB. - Para informações e esclarecimentos, dirigir-se a sede provisória do jornal "STELLA D'ITALIA" - Praça Senador Florêncio (antiga "Da Alfândega") número 321 - aonde ainda podem ser endereçadas as correspondências. (Colnaghi, Stella, 7 fev., 1902) O texto da Carta aberta reaparece na página inicial da primeira edição do jornal, publicada em 30 de março de 1902, como anunciado. O jornal manteve-se em atividade até 1923, com publicação bissemanal, com algumas exceções em que houve somente uma edição semanal. Intitulando-se um independente, saía às quintas e aos domingos, com 8 páginas, em formato tablóide, em italiano, com raros textos em português. Consta que o Stella "nunca teve circulação maior do que 1500 exemplares" (Bertaso; Lima, 1950, p. 60). No topo da primeira página aparecia a inscrição Publicado sob os auspícios de sociedades italianas estabelecidas no Rio Grande do Sul, seguida da nominata das associações apoiadoras: Vitorio Emanuelle II, Principessa Elena di Montenegro, Palestra Umberto I, Ausonia, Circolo Filarmonico Italiano (Porto Alegre), Giuseppe Mazzini (Tristeza), Principe di Napoli (Caxias do Sul).

Outras associações italianas agregaram-se à causa do jornal, patrocinando-o. Nesse sentido observa-se que, a partir do mês de outubro de 1902, também passam a ser suas patrocinadoras a Società Stella d'Italia, de Garibaldi e a Società Luigi Amedeo di Savoia, de Arroio Grande. Em 1903 encontramos como apoiadoras a Mutua Cooperazione, de Rio Grande, a Vitorio Emanuelle III, de São João de Montenegro, e o Circolo Giovine Italia, de Porto Alegre.

Quanto às associações italianas, a exemplo das apoiadoras do jornal, trata-se, segundo Luchese (2007), de agremiações que, tanto nas cidades, quanto nas colônias, se constituíram entre os imigrantes, pois eles sentiam a necessidade de se conhecer, de se unir e de se ajudar num ambiente em que as dificuldades se multiplicavam e, inicialmente, o conhecimento da língua portuguesa era escasso. As sociedades italianas no Rio Grande do Sul, em geral, tinham como finalidade unir e proteger os italianos, mantendo a nacionalidade como característica essencial. O mútuo socorro serviu-lhes como base da existência num ambiente novo, diferente do deixado na Itália e que exigia trabalho e sacrifícios.

Norbert Elias (1990) sugere que só podemos compreender muitos aspectos do comportamento ou das ações das pessoas individuais se começarmos pelo estudo do tipo da sua interdependência, da estrutura das suas sociedades, das configurações que se formaram entre uns e outros. Nesse sentido, as associações são catalisadoras e ordenadoras das relações.

O livro comemorativo do centenário da imigração italiana no Rio Grande do Sul destaca a importância das associações e aponta que a mais antiga foi a Società Italiana di Soccorso Mutuo e Beneficenza de Bagé, fundada em 1º de janeiro de 1871. No artigo terceiro de seu estatuto são enumeradas as finalidades, que em seguida foram adotadas pelas outras sociedades: "a) socorrer os sócios nas doenças; b) propagar no limite possível o conhecimento da língua italiana; c) estreitar os vínculos de fraternidade entre os italianos domiciliados no município de Bagé" (Centenário, 1975, p. 274). Calcula-se que em todo o Estado existiam 64 associações italianas, muitas com sede própria. Essas foram importantes do ponto de vista do processo educativo entre imigrantes. Segundo Luchese (2007; 2010), essas associações, criadas desde os primeiros anos da imigração, abrigaram em suas sedes escolas étnicas, embora efêmeras.

Dentre as sociedades italianas apoiadoras do jornal em Porto Alegre no período em análise, a Principessa Elena di Montenegro, a Umberto I e a Giovanni Emanuel mantinham escolas étnicas elementares.

Discursos em defesa da escola étnica italiana

Em matéria publicada na primeira página do Stella, intitulada Le nostre scuole e com o subtítulo Fra cinquant'anni tutti krumeri, encontramos um retrato desanimador da colônia italiana porto-alegrense:

Numa colônia como a nossa, onde os compatriotas são milhares é deplorável o a estado de abandono na qual é deixada a instrução em geral e o estudo do italiano em particular. Nos colégios e escolas públicas, cujo sistema deixa muito a desejar, cem, se tanto, crianças nossas estão nelas. Outra centena freqüenta as escolas Principessa Elena di Montenegro, sustentada pela Sociedade homônima e a Umberto I patrocinada pela Palestra, sua homônima também. Os outros girando pelas estradas ou se conservam nas suas próprias casas aonde, ao lado da ignorância cresce, também, o desamor por tudo quanto sabem de italiano. Não é necessário possuir uma grande dose de inteligência, para observar o lento, mas constante empobrecimento moral da nossa coletividade por culpa dos males supracitados [...]. Considerando junto, meninos e meninas, entre seis e doze anos, contamos outras mil almas. Duzentas bem ou mal, aprendem a ler e a escrever. Oitocentas crescem como ervas parasitas em meio a um campo incultivado, sujeitas aos mais rudes trabalhos domésticos desproporcionais aos seus frágeis e delicados organismos e a correr nas ruas da cidade ocupadas com medíocres e servis coisas. (Stella, 28 ago., 1902, p. 1)

Colnaghi utiliza o termo krumeri6 de forma recorrente no jornal para indicar o estado ao qual os descendentes de italianos chegariam caso a educação não fosse valorizada.

Nesse mesmo artigo evidencia-se que existiam muitas crianças nas praças formando uma "multidão desesperada para vender os primeiros bilhetes da loteria, um jornal ou simplesmente lustrar os sapatos" (Stella, 28 ago., 1902, p. 1) e que, se fossem convidadas à escola, diziam que os "pais não querem ou simplesmente, voltam às costas" (Stella, 28 ago., 1902, p. 1). Preocupado com o futuro da italianidade, pergunta: "o que acontecerá a daqui dez anos com esses abandonados? O que será de nossa italianidade depois que os nossos velhos terão um a um cessado de viver?" (Stella, 28 ago., 1902, p. 1). O autor conclui que, "felizmente alguns pais com amor e fé no coração fazem esforços sobre-humanos e sacrifícios imensos para encaminharem seus filhos para que aprendam a conhecer a pátria e a falar o harmonioso discurso e encaminham seus filhos à escola italiana" (Stella, 28 ago., 1902, p. 1). Na sequência, argumenta que é por conta desses poucos e valentes pais que se deve a existência da escola italiana:

A estes [pais] se deve a existência das escolas Principessa Elena di Montenegro e Umberto I: a primeira dirigida pela senhora Camila Roncoroni, a segunda pelo senhor Pedro Riva. Em meio a quase geral indiferença, aqueles dois modestos docentes se esforçam - sob os auspícios das duas associações - a manter viva e vivificar no peito de seus estudantes o fogo sagrado do amor pátrio. E precisa ver como aqueles pequeninos seres se interessam pelo estudo e procuram avançar; precisa observar com quanto afeto circundam seus mestres dos quais aprendem somente conhecimentos úteis. [...] é naquelas aulas que ainda se mantém, equilibrado e poderoso, o respiro da italianidade. Fora delas tudo é indiferença, egoísmo e brutalidade. A grande massa é e se conserva refratária aos princípios verdadeiramente civis. Escola e sociedade são (para a massa) sinônimo de sacrifício e tédio. Continuando assim e onde a imigração não receber sangue novo nas veias da nossa coletividade, a nova geração daqui a cinqüenta anos será selvagem. De quem é a culpa? (Stella, 28 ago., 1902, p. 1)

Colnaghi se refere às escolas italianas em Porto Alegre no período de 1902 a 1904. Situemo-nos: em Porto Alegre, em 11 de novembro de 1893, foi fundada, com o nome inicial de Bella Aurora, uma sociedade italiana que, em 1896, tomou o nome de Società Italiana di Beneficenza e Istruzione Principessa Elena di Montenegro,7 em homenagem às núpcias do príncipe de Nápoles com Elena de Montenegro. Desde 1893 a sociedade funcionou como albergue, como escola para os filhos dos imigrantes e também como centro cultural para os italianos e descendentes, em boa parte moraneses (Constantino, 1991). Anteriormente já funcionava o embrião desta sociedade e chamava-se Scuola Italiana Campo da Redempção, que fora organizada em 19 de janeiro de 1891 e que, provavelmente, seja a origem da Scuola Principessa Elena di Montenegro, a qual Colnaghi se refere. Colnaghi descreve essas mudanças de nome e um pouco do histórico desta sociedade em artigo publicado em 5 de novembro de 1903, por ocasião dos dez anos da fundação da sociedade. Saliente-se que o administrador do jornal, Benvenuto Crocetta, era o secretário da Società Principessa Elena di Montenegro, daí também a relação próxima com o que dizia respeito à vida desta sociedade e da escola por ela mantida e as referências no Stella.

A primeira sede da sociedade foi uma casa na rua Coronel Carvalho, na capital gaúcha. O prédio foi concluído e inaugurado em 20 de setembro de 1908 e sempre congregou os descendentes das diversas correntes migratórias da Itália.

Figura 1  Construção da sede da Società Italiana di Beneficenza e Istruzione Principessa Elena di Montenegro em 19088. Fonte: Acervo do Instituto Cultural Judáico Marc Chagall. 

Com ampla divulgação na imprensa da época, foi inaugurada a atual sede na rua João Telles, 317. No Cinquantenario (1925, p. 368) lemos que "a Principessa Elena no campo da mútua assistência, mas especialmente da instrução, tem título de mérito que a enaltece no conceito da colônia e da pátria".

Figura 2  Fachada atual da Società Italiana di Beneficenza e Istruzione Principessa Elena di Montenegro, hoje Sociedade Italiana do Rio Grande do Sul. Fonte: Acervo pessoal. 

Em 6 de maio de 1900 surgiu a Società di Beneficenza ed Istruzione Umberto I, com objetivo educativo, instrutivo e de mútuo socorro. Inicialmente se propunha ao ensino dos filhos dos italianos, mediante o teatro e a escola. Em 1902 surgiu a Società Giovanni Emanuel, por obra de Gennaro Scalzilli, que foi presidente honorário da Principessa Elena. A finalidade da Giovanni Emanuel era a escola e o teatro. Essa sociedade criou em 17 de julho de 1904, a Scuola Giovanni Emanuel. Depois de uma longa parada de suas atividades a sociedade retomou seu funcionamento em 1916, mas sem a escola. A sociedade Unione Meridionale Vitorio Emanuelle III também havia inaugurado uma escola em 1904, a qual permaneceu em atividade por quatro anos. As atividades dessas quatro escolas eram mencionadas frequentemente no jornal no período analisado.

A preocupação de Colnaghi sobre a situação moral dos italianos é corroborada pelo relatório de 1905, escrito pelo cônsul Enrico Ernesto Ciapelli9, que esteve na regência do consulado italiano no Rio Grande do Sul entre os anos de 1898 e 1904:

Infelizmente, a energia dos nossos compatriotas está diminuindo e continua a se enfraquecer; os vícios espalham-se largamente, especialmente o da embriaguez. No fundo, porém, não se pode atribuir a culpa disso aos imigrantes, pois, quando deixaram a Itália, ninguém lhes lembrou os deveres de uma vida civilizada e moral, com exceção, talvez, de algum bom sacerdote. Existem núcleos distantes das sedes dos municípios onde nunca existiu qualquer autoridade, de tal forma que lá o povo sempre viveu num estado semi-selvagem, sem controle e sem nenhuma orientação. (Ciapelli, 1905, p. 954)

O artigo de Colnaghi Fra cinquant'anni tutti krumeri ganhou repercussão. Nas edições de 5 e 10 de outubro de 1902, um dos agentes correspondentes10 do jornal na cidade de Encantado, professor Francesco Luigi Zuliani, comentou o artigo e acrescentou que também nas colônias o ensino não estava bem:

Daqui a cinqüenta anos todos [seremos] selvagens, o senhor disse, caro diretor, referindo-se à falta de instrução de nossos filhos. Infelizmente isso é verdade; a geração presente crescerá selvagem porque não somente na capital, mas também nas colônias a instrução é muito deficiente. Em cada centro colonial em média cerca de 200 crianças de ambos os sexos freqüentam a escola. Porém a culpa não é toda dos pobres colonos italianos. Neste distrito, sem o Planalto e o município de Estrela temos somente duas escolas italianas. Existem vários colonos que fazem sacrifício para que seus filhos freqüentem a escola, mas a maior parte não se preocupa com isto [com a escola]. Aqui temos milhares de crianças privadas de instrução. Extensões imensas, populosas estão sem escolas. [...] Os trabalhadores colonos mal podem fazer frente às necessidades primárias da vida, especialmente o núcleo de Guaporé! Não podem, portanto, pagar um professor - que de ar somente não vive - nem podem comprar os livros aos seus filhos para irem à escola. O que fazer? Não é culpa deles! A miséria não é crime! Quantos pais eu vi chorarem por não poderem colocar seus filhos onde pudessem ser educados. E quantos que, por estarem longe dos centros, eu mesmo emprestei livros para que eles mesmos ensinassem os filhos! (Stella, 10 nov., 1902, p. 1)

O lamento reiterado nas páginas do jornal corrobora a tese defendida por Luchese, de que os italianos tinham a preocupação com a educação, não podendo ser generalizada a posição contrária. Se nas colônias vemos discursos pedindo professores e escolas (Luchese, 2007; 2010), na capital do Estado temos um jornal que reivindica a urgência da educação, e educação em italiano.

A situação parece perdurar. Tanto que no relatório elaborado por Ranieri V. Pesciolini, Le colonie italiane nel Brasile meridionale, finalizado em 1913 e publicado em 1914 por encargo da Italia Gens, uma federação italiana para a assistência aos imigrantes transoceânicos, reitera-se a tese de Colnaghi de que a decaída da italianidade se deve à falta da escola italiana. O relatório, anos mais tarde produzido, realça à situação antevista por Colnaghi:

Na capital existem seis sociedades italianas, que contam no conjunto cerca de 900 sócios. Destas, as duas mais importantes, a Vitorio Emanuelle II e a Principessa Elena di Montenegro mantém duas escolas italianas elementares: as outras se limitam às comuns funções de mútua assistência. [...] Do ponto de vista da conservação nacional, a colônia italiana de Porto Alegre, como geralmente todas as colônias urbanas dos nossos imigrantes, deixa muito a desejar. O contato contínuo, por todos os interesses, com a população e com as instituições do local, a mistura dos filhos dos italianos, nas escolas e em toda a parte, com os jovens do país, produz no elemento italiano um processo rápido de desnacionalização. A prova evidente da decaída da italianidade se encontra no fato que apenas uma centena dos filhos dos italianos freqüentam as duas escolas italianas acima recordadas: número mesquinho para uma colônia de mais de 10.000 italianos! (Pesciolini, 1914, p. 29)

De fato, à época da publicação do relatório de Pesciolini (1914) somente duas escolas aparecem na sua análise. A escola da Unione Meridionale havia encerrado as atividades. A Scuola Giovanni Emanuel, que havia iniciado suas atividades em 17 de julho de 1904 e para a qual o Stella havia contribuído na divulgação e manutenção, já não funcionava. O Stella, em sua edição de 30 de junho de 1904, anunciava a inauguração dessa escola e apresentava dados como mensalidade e horário da matrícula.

Ainda, como vemos no relatório, há menção de uma escola mantida pela Società Vitorio Emanuelle II. Esta sociedade, fundada por iniciativa de Bartolomeo Pellerini em 1° de julho de 1877, foi a mais antiga sociedade italiana de Porto Alegre e manteve, desde sua fundação, uma escola de língua italiana subvencionada pelo governo de Roma e que, em data não identificada, foi incorporada à Scuola Principessa Elena di Montenegro. No período de análise do jornal essa escola não é referida. No mesmo relatório lê-se que

com relação às condições intelectuais do elemento italiano infelizmente não em todas, mas em várias colônias mais fora de mão, se nota regresso. É verdade que muitos destes colonos vênetos deixaram o seu país sendo pobres e analfabetos, mas o isolamento do mundo civil no qual por tantos anos permaneceram, isolamento entendido no sentido literal, isto é falta de instrução e de conforto, num sistema de vida primitivo, deixou-os e tanto mais seus filhos lá nascidos, ignorantes do progresso civil moderno, e muitas vezes faz seu caráter selvagem e desconfiado. Todos absorvidos no trabalho material para adquirir a terra e o dinheiro, privados de pessoas que os guiassem, descuidaram a cultura do intelecto. As escolas vieram muito tarde e são ainda muito deficientes. (Pesciolioni, 1914, p. 263)

Adelchi Colnaghi salienta, reiteradamente, nas edições do Stella, a necessidade do incentivo à escola italiana por parte dos pais, bem como das autoridades italianas, convicto de que "a cada vez que se abre uma escola é um templo de ignorância que se fecha, uma prisão que se desfaz" (Stella, 30 jun., 1904, p.1).

A polêmica com o cônsul italiano

Em 7 de dezembro de 1902, na primeira página, Colnaghi escreveu um artigo contrapondo uma informação do jornal Corriere Italiano, um jornal co-irmão, o qual atribuía ao cônsul Ciapelli a vida das escolas italianas, bem como o elogiava pelos bons resultados das mesmas. O articulista do jornal Corriere Italiano baseava-se nas informações contidas no relatório de Angelo Scalabrini, inspetor geral das escolas italianas no exterior de 1896 a 1911. Descontente com a posição do articulista, com reservas à participação do cônsul no apoio às escolas e sabedor da situação das escolas, assim Colnaghi se expressa:

Deixando de lado tudo o que se refere às escolas de Caxias, Jaguary, Antônio Prado, Lajeado, Estrela, Garibaldi, etc. [...] não podemos admitir e calar sobre o que se refere à escola Principessa Elena e Umberto I [...]. A pretensiosa declaração que atribui ao cônsul Ciapelli a vitalidade destas duas aulas de ensino é essencialmente inverídica. Tanto uma como a outra existiam muito tempo antes que o atual régio representante tivesse nascido! Elas foram fundadas com o concurso das duas sociedades das quais levam o nome; sociedades fundadas por honestos trabalhadores e pais de família os quais carregaram nos ombros com sacrifícios para mantê-las e consolidá-las. [...] é por conta desses que as escolas vivem e viverão, não pela ajuda de nosso cônsul. Estes, é verdade, distribuem muito material escolar enviado pelo pátrio governo; mas isto não é suficiente para criar-lhe uma áurea de glória. É simplesmente e puramente um dever. Ora, cumprir um dever não é, especialmente para um funcionário público, e nunca foi um título benemérito! [...] Se o senhor Ciapelli [...] fosse amigo das escolas, ele as visitaria espontaneamente e repetidas vezes como o fizeram seus predecessores [...] Ambas as escolas estariam mortas e sepultadas se dependessem da régia proteção do senhor Ciapelli. O único orgulho que o Régio Cônsul pode investir-se é de ter fundado a Escola Patronato, nobre tentativa na verdade, mas cujo fechamento revela patentemente sua inabilidade de seus esforços e de seus amigos. Quando o socorro do pobre lhes exigiu, os ricos lhes fecharam as portas. Os pobres apenas têm em alta a bandeira; homens de coração, úteis, modestos, não movidos pela ambição, mas unicamente pelo desejo de cumprir um nobre e santo dever. A esses somente aos seus sacrifícios e ao seu patriotismo devemos a vitalidade destas escolas, não à árida proteção do cônsul. (Stella, 7 dez., 1902, p. 1)

Na edição de 8 de janeiro de 1903 Colnaghi escreve a matéria O grave problema das escolas italianas em Porto Alegre, na qual é peremptório na análise sobre as escolas italianas, não poupando críticas ao governo e, particularmente, ao seu representante:

Um erro do nosso governo, e muito grave, é, pois, aquele de nomear os Cônsules antes de tê-los feito passar por uma triagem. Em seu conceito, cada Cônsul é talhado para todos os países; a preocupação que este homem possa ser útil ou nefasto aos interesses italianos aos quais é chamado a cuidar, não o move. Um Consulado está vacante; bem, o primeiro Cônsul que o [governo] dispõe é enviado a ocupar o posto, pouco importa que ele seja ou não idôneo. No nosso caso, vejamos os efeitos deste condenável procedimento: às portas do Consulado da Itália ocorrem dois exames finais; de uma das escolas o titular é presidente honorário; e ele não se mostra e nem permite que os outros o representem. Sem direção, sem apoio moral, desanimados, é muito difícil para os entes que sustentam as escolas se [o governo] não envia a aquele país o governo e quem o representa. Não é assim que a Itália conseguirá conservar viva a chama do patriotismo e da nossa língua no seio das grandes coletividades italianas neste país. Como as vestais conservam o fogo sagrado, assim as escolas conservam o sentimento da pátria. Os esforços do Governo vão e vem, sempre miseravelmente perdidos até que ele se decida abandonar o atual sistema burocrático. (Stella, 8 jan., 1903, p. 1)

Na edição de 19 de fevereiro de 1903 Colnaghi critica o cônsul por fazer um abaixo assinado contra o jornal. Colnaghi iniciou o artigo afirmando que "por graça do governo e por desgraça da colônia, Ciapelli, autorizando o protesto contra o Stella não faz mais do que expor sua nulidade" (p. 1). Continua afirmando estar convencido da incapacidade do cônsul, sendo dever da imprensa honesta e independente insurgir-se contra os que abusam do poder:

É dever da imprensa se insurgir contra os homens os quais, investidos de qualquer poder abusam covardemente [...]. A Itália, graças aos céus, tem abundância de funcionários capazes, enérgicos e corajosos, e o Rio Grande do Sul não os ignora. Não será, portanto, crime culpar um cônsul que por força de um disparate e fraquezas perdeu a confiança da colônia e merecido nos círculos políticos o epíteto de cônsul bom e inútil. (Stella, 19 fev., 1903, p. 3)

Na edição de 26 de abril de 1903 um leitor de Santa Maria, cujo nome não é apresentado, enviou uma carta na qual consta um elogio ao empenho de Colnaghi no incentivo às escolas italianas e critica a desatenção do cônsul Ciapelli com relação às escolas. O texto é taxativo quanto à atuação do representante:

É ruim, porém, que este nobre zelo, este santo dever seja percebido por poucos, pois a cultura da língua pátria e a educação moral dos nossos filhinhos deveria ser sentida como uma necessidade imperante de nossa vida coletiva, para a qual cada um deveria contribuir na medida de suas próprias forças intelectuais. Ai invés é sempre o esforço de poucos que se comprometem e, normalmente ridicularizado por muitos. Não se desencorajem, porém, os bons; não se desencoraje o senhor diretor de propagandear pelas escolas italianas e de levar para dentro das aulas de ensino a palavra auxiliadora. Ainda que o representante da pátria não cuide do desenvolvimento das escolas italianas, façamos nós, com disposição! É lamentável, porém, que esta indiferença de muitos é um sintoma triste de nossa desorganização colonial. (Stella, 26 abr., 1903, p. 3)

Em 29 de abril de 1903, na primeira página, com o título Scuole italiane a Porto Alegre, Colnaghi apresenta a situação das escolas italianas em Santa Catarina e atribui o desenvolvimento das mesmas "à iniciativa patriótica do cônsul régio, a propaganda constante e iluminadora de alguns voluntários e o sacrifício discreto e nobre da colônia tornou possível o milagre" (Stella, 29 abr., 1903, p. 1). Concluiu o artigo com a reprodução na íntegra da matéria do jornal La Patria, de Urussanga, Santa Catarina, que descrevia os avanços da escola italiana naquele Estado.

Na edição de 14 de maio de 1903, por ocasião do terceiro aniversário da Escola Umberto I, cuja festa é descrita em pormenores e com entusiasmo, lê-se a acusação de não patriotismo por conta de Ciapelli. Acusação motivada por sua ausência na comemoração do aniversário:

É na verdade deprimente e escandaloso ver um régio cônsul, representante oficial do nosso país, se ausentar de festas as quais todos consideram nota de grande patriotismo. Se o senhor cônsul condividisse os sentimentos da massa operária, se em seu coração vibrasse uma só fibra de amor pátrio, se o tremular das três cores fosse caro a ele, se o bem da colônia fosse mais do que uma mera utopia, passando sobre a mesquinhez pessoal desceria junto aos seus compatriotas e dividiria com eles as alegrias e as dores. [...] As escolas Umberto I e Principessa Elena subsistem apesar do abandono do Senhor Ciapelli enquanto o Patronato por ele fundado morre na indiferença geral. Este último era sustentado pelos ricos; aquelas duas pelos pobres. Sob a blusa do operário há mais coração do que sob a casaca do opulento! [...] a pátria exultará e nós teremos o imenso orgulho de termos cumprido um santo dever. (Stella, 14 maio, 1903, p. 1)

Na edição de 2 de julho de 1903 vemos descrita a solenidade de aniversário da Scuola Principessa Elena, que completava quatro anos. Colnaghi elenca os participantes e os pedidos de desculpas enviados por alguns convidados por não poderem participar da festa.

Quanto ao cônsul Ciapelli, um dos convidados, não se fez presente e nem se fez representar na solenidade. A indignação de Colnaghi é nítida e publicada na mesma edição:

quanto ao cônsul Ciapelli, surdo a qualquer preceito de etiqueta não se apresentou e nem se desculpou! Questão de delicadeza! [...] se um dia as duas únicas escolas que por enquanto temos forem fechadas, toda a nossa geração estará perdida inteiramente e a nossa pátria poderá considerar-se selvagem. (Stella, 2 jul., 1903, p. 2)

Na edição de 9 de agosto de 1903 foi publicada a nota da Società Vitorio Emanuelle II, assinada pelo seu presidente Giovanni Berutti e endereçada à direção do jornal, que solicitava fosse retirada do cabeçalho do Stella a inscrição que indicava o apoio dado por ela ao jornal, considerando que o mesmo polemizava frequentemente com o régio representante:

A última assembléia geral da benemérita sociedade Vitorio Emanuelle II deliberou, pela maioria dos votos, que o seu jornal (até então muito apreciado) não deve mais continuar sob os auspícios deste benemérito sodalício, em consideração às polêmicas suscitadas entre seu jornal e o régio cônsul senhor Enrico Ciapelli. (Stella, 9 ago., 1903, p. 1)

Na mesma edição, ainda na primeira página, propositadamente, Colnaghi estampa uma carta do presidente da Principessa Elena, Pietro Bonotto, exaltando e agradecendo ao jornal "pelo serviço grandioso que presta à associação" (Stella, 9 ago., 1903, p. 1) encorajando-o a "perseverar na eficaz propaganda que nobremente desenvolve no nome dos princípios sociais para o bem das todas as sociedades e da coletividade italiana" (Stella, 9 ago., 1903, p. 1). Colnaghi, sabedor da polêmica que suscitara expõe na mesma edição as duas missivas sob o título: Dois pesos e duas medidas: pró e contra o Stella d'Italia. Aonde está o bom senso?

Comentando a carta de Bonotto, Colnaghi acena para o efeito neutralizador das cartas em meio às acusações a quem "apenas quer manter o bom nome italiano" (Stella, 9 ago., 1903, p. 1). Nas breves palavras de Bonotto, Colnaghi lê "um incitamento a continuar no caminho proposto, a vencer o desânimo e a domar o ressentimento contra os ingratos" (Stella, 9 ago., 1903, p. 1).

Quanto à Sociedade Vitorio Emanuelle II, Colnaghi lamenta que esta retire seu apoio, considerando que o jornal sempre a apoiou na divulgação de seu nome para o bem da colônia. Utilizando-se de um jogo de palavras afirma que o "que mais dói e entristece é que a Vitorio Emanuele II defenda um homem que como cônsul não consola ninguém, que não vê que ele atiça o ódio e a vingança, de poucos, contra o Stella d`Italia e seus redatores" (Stella, 9 ago., 1903, p. 1).

As duras palavras dirigidas ao cônsul no conjunto das publicações do jornal levou Ciapelli a endereçar uma carta à Società Umberto I, apoiadora do Stella, na qual, em tom ameaçador, propunha retirar o apoio dado a Scuola Umberto I, sua mantida, com relação ao fornecimento de material escolar. O jornal na edição de 26 de novembro de 1903, na primeira página, estampa a carta do cônsul enviada ao presidente da sociedade, Antonio Mondin:

Porto Alegre, 19 de outubro de 1903. Ilustríssimo senhor, A Sociedade por vossa senhoria presidida tem sob seus auspícios o Jornal Stella d'Italia, cujo comportamento torna-se cada dia mais inconveniente com relação a mim. Estou na dolorosa necessidade de dever comunicar que, se o nome da sociedade continuar a figurar naquele periódico, serei obrigado a suspender o fornecimento de material à escola ligada à associação. É de fato evidente que o régio governo não pode subsidiar um instituto dependente de um sodalício o qual, de certo modo, se faz solidário às injúrias que aquele jornal lança contra um funcionário seu com tal descaramento, justificado apenas pela impunidade a qual julga gozar. Conforme a necessidade, e espero que isto não venha acontecer, comunicarei ao Régio Ministério das Relações Exteriores, esta minha deliberação. Queira, ilustríssimo senhor, aceitar de bom grado o sentido de minha observação. Régio Cônsul: E. Ciapelli. De que material e subsídios Ciapelli se refere? Kreutz e Luchese (2010) lembram que, além de livros enviados pelo governo italiano, também uma quantia em dinheiro era enviada às escolas administradas pelos cônsules e agentes consulares. Salientam, porém, que a maior atenção às escolas étnicas e envio de livros ocorreu no período do governo de Mussolini, desencadeando a fascistização da educação, com abundante literatura a respeito (Bertonha, 2001; Giron, 1994).

Colnaghi, em matéria de 31 de janeiro de 1904, é contundente e observa que a ajuda do governo italiano é irregular e nem sempre justa:

O governo se contenta por enviar em períodos irregulares material escolar, quase nunca correspondendo às reais necessidades; os cônsules, vicecônsules ou seus representantes, encarregados da distribuição, procedem quase sempre motivados pela simpatia do que pelo sentimento de justiça e equidade. Assim sucede que em muitas escolas faltam livros enquanto em outras possuem em abundância a ponto de fazer um comércio pouco louvável. A contínua troca dos textos é por isso um mal gravíssimo, pois, em pouco tempo as poucas aulas abertas estarão infestadas pela queda da educação. (Stella, 31 jan., 1904, p. 1)

O relatório de Pesciolini (1914) descreve que, entre escolas e escolinhas italianas no Rio Grande do Sul, existiam cerca de sessenta que recebiam subsídios do governo italiano: "um discreto número destas escolas são subsidiadas pelos régios consulados, com livros e também com dinheiro. A quantia dos subsídios dos consulados em dinheiro é variável: no Rio Grande vai de 50 a 100 mil réis (de 85 a 170 liras) ao ano, ou um pouco mais" (Pesciolini, 1914, p. 283). Concluiu o relatório dizendo que não há como ignorar que as escolas encontram duas dificuldades nas colônias: a deficiência de meios e a deficiência de mestres e que "é por isso que surgem e desaparecem continuamente" (Pesciolini, 1914, p. 284).

Iotti (2010) salienta que os inúmeros relatórios dos agentes consulares demonstram a incapacidade das autoridades italianas em auxiliar de maneira mais eficaz os súditos do reino estabelecidos no território gaúcho, creditando o sucesso ou a derrota de alguns elementos às suas qualidades pessoais. Nesse sentido, "cabe ressaltar a ênfase dada à questão da educação e da implantação de sociedades beneficentes, cuja ausência ou escassez foram justificadas pela falta de capacidade ou de iniciativa dos próprios imigrantes" (Iotti, 2010, p. 120).

Ciapelli, no período em que foi cônsul, escreveu quatro relatórios sobre a imigração italiana no Rio Grande do Sul. Iotti (2001) constata que nos relatórios dos cônsules há uma permanente preocupação com a preservação da identidade italiana e a manutenção dos vínculos entre os imigrantes e a pátria-mãe. Os discursos da italianidade estiveram presentes nos documentos consulares antes mesmo de transformarem-se em discurso oficial do Estado italiano. Ciapelli concluiu um de seus relatórios sugerindo a implantação de escolas italianas e a vinda de "professores honestos e capazes, aos quais poderia se confiar também as funções de agentes consulares, contribuindo assim também para a proteção dos concidadãos além da instrução" (Ciapelli, 1905, p. 954). Ciapelli lembrava que o envio destes profissionais já havia sido realizado e obtido sucesso em algumas localidades. Segundo Iotti (2001, p. 109) "provavelmente ele estaria se referindo ao caso de Luigi Petrocchi, que desde 1903, acumulava as funções de professor e agente consular no município de Bento Gonçalves."

Do mesmo período encontramos os relatórios escritos entre 1904 e 1906 por dois agentes consulares: Umberto Ancarini, que foi professor em Caxias do Sul, na escola mantida pela Sociedade Principe di Napoli, e Luigi Petrocchi, professor em Bento Gonçalves na escola mantida pela Sociedade Regina Margherita. Ambos salientam, em síntese, que à escola cabia uma missão regeneradora da juventude que, sem instrução, acabaria por viver uma existência brutalizada e não constituiria um povo orgulhoso do bom nome de sua pátria de origem.

Esclarecedora é a declaração de Tittone, em 1912, ministro dos Assuntos Exteriores da Itália, sobre os subsídios às escolas, considerando irrisória a contribuição às escolas subsidiadas pelo governo italiano:

De fato são essas [associações italianas] que fundaram e mantiveram a maior parte das nossas escolas; e os nossos subsídios, parcos para uma zona tão ampla, mais do que ajudar adequadamente na despesa, devem ser tomadas apenas como um apoio moral e um encorajamento. (Salvetti, 2009, p. 547)

Feitos esses esclarecimentos sobre o apoio, ou não, voltemos à carta enviada pelo cônsul Ciapelli à Società Umberto I. Em resposta à carta de Ciapelli e a sua ameaça, a sociedade enviou ao régio representante uma carta assinada por Antonio Mondin, presidente da mesma, com data de 21 de outubro de 1903. A carta foi publicada na edição de 26 de novembro de 1903. Seu conteúdo rebate as afirmações do cônsul e expõe a intenção de não atender ao pedido do mesmo. Seus conselheiros definem que não retirarão o nome da sociedade da testada do jornal. Transcrevemos duas considerações peremptórias redigidas pelo secretário Luigi Zuliani, professor da escola:

O conselho expressa seu parecer de não atender ao que vossa excelência solicita, isto é, de ordenar ao senhor Adelchi Colnaghi, de tirar a sociedade Umberto I da testada de seu jornal, também porque constam juntas no jornal outras sociedades mais antigas e quando essas quiserem retirar seus nomes do jornal, o conselho pensará o que fazer. [...] E quanto a castigar essa sociedade (segundo vossa excelência) através da supressão do fornecimento do material escolar a esta escola [...] trata-se de um ato o qual serão vítimas muitas crianças as quais não têm culpa e nem pensam nisso que o senhor A. Colnaghi escreve contra vossa excelência e por isto, o senhor não deveria fazê-lo. (Stella, 26 nov., 1903, p. 2)

A Società Umberto I reuniu-se em 17 de novembro e deliberou que uma comissão fosse falar com o cônsul "encarregada de provocar uma declaração do cônsul à respeito da ameaça e chegar a uma solução final" (Stella, 26 nov., 1903, p. 3). A reunião com o cônsul e representantes da sociedade ocorreu no dia 18 de novembro e, no dia seguinte, a sociedade reuniu-se para ouvir o resultado. Na mesma edição de 26 de novembro de 1903, Colnaghi publicou o relato da comissão aos membros da sociedade com respeito ao que havia acontecido na audiência com o cônsul:

Disse o relator que tendo perguntado ao cônsul se a Escola Umberto I por ocasião dos próximos exames finais, seria possível ter uma parte dos livros que o régio ministério havia propositadamente enviado, obteve por resposta uma formal negação [...] que o cônsul privava a escola dos tais prêmios, porque a sociedade não quis anuir ao seu pedido de retirar o apoio ao Stella d'Itália" (p. 2) [...] que além de negar os livros havia reenviado ao ministério 500 liras destinadas a construção da sede da associação e que a Umberto I depois do envio do ofício 18 (recebido pelo cônsul) poderia se considerar completamente abandonada por ele e pelo governo pátrio. (Stella, 26 nov., 1903, p. 2)

Segundo o relator, o cônsul estava inteiramente exaltado, não dando ouvidos às muitas observações razoáveis dos membros da comissão, pelo que essa comissão resolveu retirar-se convencida que o mesmo "estava cego na sua vontade de vingar-se sem a mínima noção do mal que daí derivava" (Stella, 26 nov., 1903, p. 2). Depois do breve relato da comissão à Sociedade, deliberou-se, por unanimidade, pela exclusão do cônsul da relação dos sócios da sociedade:

Esta assembléia assim decide: 1. A exclusão do Sr. E. Ciapelli da relação dos sócios, pela falta de pagamento das cotas de 7 meses, tendo por base o estatuto vigente. 2. A publicação dos ofícios trocados pelo cônsul e a associação no Jornal Stella d'Italia. 3. Publicação no mesmo jornal dos extratos das três reuniões dos conselheiros. (Stella, 26 nov., 1903, p. 2)

No último relatório do cônsul sobre o Rio Grande do Sul11, escrito em 1905, não há menção ao episódio da sua exclusão da Società Umberto I e nem do episódio da negação do fornecimento de subsídios à escola.

Desfecho da polêmica

Na edição de 6 de dezembro de 1903 Colnaghi retomou o texto que deu origem à celeuma e convidou a todos a manterem-se firmes na conservação das escolas, pois essas "são o templo santo da moderna sociedade e se o cônsul Ciapelli nega, contra a razão, qualquer apoio moral ou material, não devemos nos alarmar. Depois da chuva vem a bonança. [...] Eduquemos nossos filhos e conservemos as escolas" (Stella, 6 dez. 1903, p. 1).

Nos exames finais da Scuola Principessa Elena di Montenegro, em 27 de dezembro de 1903, o cônsul não se fez presente e as crianças receberam o Atestato di merito "faltando a assinatura e o carimbo do cônsul Ciapelli por ter categoricamente rejeitado comparecer mesmo sendo o presidente honorário da escola" (Stella, 3 jan., 1904, p. 1). Igualmente não se fez presente nos exames finais da Scuola Umberto I, em dezembro de 1903.

Em 12 de junho de 1904, Colnaghi escreveu um artigo no qual explicitava que sua intenção primeira ao solicitar os auspícios das sociedades italianas era de levá-las ao campo da ação e tirá-las de certa vida vegetativa, na medida em que se limitavam ao círculo prescrito de seus estatutos. Assim, pelo jornal, ele intencionava unir os movimentos isolados e até desorganizados e formar um "possante mecanismo capaz de atrair para si todas as energias morais e materiais da nossa colônia" (Stella, 12 jun., 1904, p. 1), pois percebia que, em comparação com os colonos alemães, muito faltava à coletividade italiana. Salientava que a perseguição oficial, embora não o tivesse feito abandonar o programa do jornal idealizado outrora, trazia problemas às sociedades e, sobretudo, às escolas, "a ponto de também à Principessa Elena ser negado o auxílio de materiais para sua escola" (Stella, 12 jun., 1904, p. 1). Colnaghi considerava importante que as sociedades voltassem a ter no representante do governo italiano seu patrocínio e acreditava ser melhor que fosse retirada a inscrição no cabeçalho do jornal com o nome das associações que o apoiavam "para o bem delas" (Stella, 12 jun., 1904, p. 1).

Segundo Colnaghi, a idéia de apresentar, na capa do jornal, a referência às sociedades anunciando seus auspícios não era para lhe dar autoridade, mas para que essas mesmas sociedades se organizassem, se conhecessem e tivessem talvez, a partir do jornal, uma confluência de forças para seus propósitos. No referido texto, Colnaghi retomou elementos que compuseram a perseguição ao jornal, a defesa das escolas levadas a cabo pelo jornal e concluiu que a campanha de difamação do jornal terminava exatamente no momento da partida do cônsul para outras terras. Julgava que era hora de uma mudança:

Quarta-feira passada, o triste herói desta impatriótica campanha partia; no vapor Prudente de Moraes entre aqueles que foram para mandá-lo embora, notava-se alguns dos pequeninos das duas escolas mencionadas que, em troca do mal recebido, lhe davam flores. Com a partida desaparecem todos os rancores e toda ira cessa! Todavia, com o aprendizado das lutas passadas algumas perguntas acometem o espírito: podemos continuar sob os auspícios das nobres sociedades quando essas pagam caro preço pela responsabilidade de nossos escritos? [...] podemos permitir o seu ulterior sacrifício? Queremos nós, continuar com uma luta infecunda na qual perece a paz da colônia e perecem os seus e os nossos mais nobres ideais? Não: cessada a causa cessam-se os efeitos! Ponhase uma pedra no passado e retornem as escolas e as sociedades ao patrocínio do representante da Pátria. O Stella d'Italia declina do apoio das sociedades para o bem comum. É um sacrifício mas, aos os nobres sodalícios que ornavam a testada agora não será mais possível. Nosso programa continuará inalterado [...]. O futuro nos dirá se a nossa decisão trará os frutos desejados. (Stella, 12 jun., 1904, p. 1)

Na edição do Stella, cujo texto acima estampava a primeira página, já não aparecia o nome das sociedades apoiadoras. Acabara um ciclo.

Considerações finais

Evidenciamos no jornal Stella o discurso sobre a importância da educação entre os italianos e descendentes estabelecidos em Porto Alegre e a preocupação quanto à continuidade das escolas. É importante salientar que o Stella, além de ser uma fonte para a compreensão da realidade das escolas étnicas italianas da capital gaúcha no final do século 19 e início do século 20, revela a fragilidade das mesmas e expõe o que a literatura sobre a imigração tem referido a respeito das escolas étnicas quanto ao deficiente apoio das autoridades italianas.

A reconstrução da polêmica entre o jornal e o cônsul Ciapelli revela, de alguma forma, os atritos políticos aos quais as sociedades italianas estavam expostas na medida da defesa de seus interesses, bem como fornece elementos para compreendermos a estrutura das escolas mantidas pelas sociedades italianas em Porto Alegre, enquanto dependentes de um poder que lhes concedesse, além de livros e outros subsídios, a reputação e o aval do representante régio.

Colnaghi estava convencido da importância das escolas étnicas. Por isso as evidenciava e as defendia nas páginas do jornal do qual era o editor. Sobre as dificuldades das escolas italianas muito se sabia, e o jornal buscava anunciar. Mas, na perspectiva do seu editor, pouco se fez. E, às vezes, se fez contra.

Referências

AZEVEDO, Thales de. Os italianos no rio Grande do Sul: cadernos de pesquisa. Caxias do Sul: UCS, 1994. [ Links ]

BERTASO, Henrique D'Avila; LIMA, Mário de Almeida. Álbum comemorativo do 75º aniversário da colonização italiana no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Revista do Globo, 1950. [ Links ]

BERTONHA, Fábio. O fascismo e os imigrantes italianos no Brasil. Porto Alegre: PUCRS, 2001. [ Links ]

COLNAGHI, Adelchi. Carta aberta. Stella D'italia, 7 fev., 1902. [ Links ]

CENTENÁRIO DA IMIGRAÇÃO ITALIANA. Porto Alegre: Edel, 1975. [ Links ]

CIAPELLI, Enrico. Lo stato di Rio Grande del Sud. In: Bolletino dell'emigrazione. Roma: Tipografia Nazionale de G. Bertero, v. 12, 1905. [ Links ]

CINQUANTENARIO della colonizzazione italiana nel Rio Grande del Sud. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1925. [ Links ]

CONSTANTINO, Núncia Santoro de. O italiano da esquina: imigrantes na sociedade porto-alegrense. Porto Alegre: EST, 1991. [ Links ]

COSTA, Rovílio; MARCON, Itálico. Imigração italiana no Rio Grande do Sul: fontes históricas. Porto Alegre: EST; Caxias do Sul: CS, 1988. [ Links ]

DE BONI, Luis Alberto; COSTA, Rovílio. A presença italiana no Brasil. Porto Alegre: Riocell, 1987. [ Links ]

DREHER, Martin Norberto; RAMBO, Arthur Blásio; TRAMONTINI, Marcos Justo. RS: imigração e imprensa. Porto Alegre: EST, 2004. [ Links ]

ELIAS, Norbert. O processo civilizador. Rio de Janeiro: Zahar, 1990. [ Links ]

GARDELIN, Mário; COSTA, Rovílio Frei. Povoadores da colônia Caxias. Porto Alegre: EST, 2002. [ Links ]

GIRON, Loraine Slomp. As sombras do littorio: o fascismo no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Parlenda, 1994. [ Links ]

IOTTI, Luiza Horn. Imigração e poder: a palavra oficial sobre imigrantes italianos no Rio Grande do Sul (1875-1914). Caxias do Sul: UCS, 2010. [ Links ]

IOTTI, Luiza Horn. O olhar do poder: a imigração italiana no Rio Grande do Sul, de 1875 a 1914, através dos relatórios consulares. Caxias do Sul: UCS, 2001. [ Links ]

JORNAL STELLA D'ITALIA. Anos de 1902 a 1904. [ Links ]

KREUTZ, Lúcio. A educação de imigrantes no Brasil. In: LOPES, Eliane Marta Teixeira et al (orgs.). 500 anos de educação no Brasil. Belo Horizonte: Autêntica, 2003, p. 347-370. [ Links ]

KREUTZ, Lúcio; LUCHESE, Terciane Ângela. Educação e etnia: as efêmeras escolas étnico-comunitárias italianas pelo olhar dos cônsules. Hist. Educ. (Online), Porto Alegre, v. 14, n. 30, 2010, p. 227-258. [ Links ]

LUCHESE, Terciane Ângela. O processo escolar entre imigrantes na região colonial italiana do Rio Grande do Sul, 1875 a 1930: leggere, scrivere e calcolare per essere alcuno nella vita. São Leopoldo: Unisinos, 2007. 495f. Tese (doutorado em Educação). Faculdade de Educação, Universidade do Vale do Rio dos Sinos. [ Links ]

MAESTRI, Mario. Os senhores da serra: a colonização italiana no Rio Grande do Sul 1875 -1914. Passo Fundo: UPF, 2000. [ Links ]

NÓVOA, António. A imprensa de educação e ensino: concepção e organização do repertório português. In: CATANI, Denice Barbara; BASTOS, Maria Helena Câmara (org.). Educação em revista: a imprensa periódica e a história da educação. São Paulo: Escrituras, 2002, p. 11-31. [ Links ]

PESCIOLINI, Ranieri Venerosi. Le colonie italiane nel brasile meridionale: estati di Rio Grande do Sul - Santa Catarina - Paraná. Torino: Fratelli Bocca, 1914. [ Links ]

POSSAMAI, Paulo. Dall'Italia siamo partiti: a questão da identidade entre os imigrantes italianos e seus descendentes no Rio Grande do Sul (1875-1945). Passo Fundo: UPF, 2005. [ Links ]

POZENATO, Kenia Maria Menegotto; GIRON, Loraine Slomp. 100 anos de imprensa regional 1897-1997. Caxias do Sul: UCS, 2004. [ Links ]

SALVETTI, Patrizia. Le scuole italiane all`estero. In: BEVILACQUA, Piero. DE CLEMENTI, Andreina; FRANZINA, Emilio. Storia dell'emigrazzione italiana: Arrivi. Roma: Donzelli, 2009, p. 535-549. [ Links ]

SULIANI, Antônio. Etnias & carisma: poliantéia em homenagem a Rovílio Costa. Porto Alegre: PUCRS, 2001. [ Links ]

VIEIRA, Carlos Eduardo. Jornal diário como fonte e como tema para a pesquisa em História da educação: um estudo da relação entre imprensa, intelectuais e modernidade nos anos de 1920. In: OLIVEIRA, Marcus Aurélio Taborda de (org.). Cinco estudos em história e historiografia da educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2007, p. 11- 40. [ Links ]

1 Os estudos realizados até o momento foram possíveis em função do prof. Mário Gardelin, conhecido historiador da colonização italiana, ter disponibilizado a coletânea dos exemplares do jornal Stella d'Italia dos anos de 1902, 1903 e 1904. Afora algumas edições do jornal disponíveis no Museu da Comunicação Social José Hipólito da Costa de Porto Alegre, não foram encontradas edições.

2 Outro elemento recorrente em todo o ano de 1904 é a necessidade de um programa padrão para as escolas italianas do Rio Grande do Sul. O editor lançou uma campanha no jornal para que professores e autoridades apresentassem uma proposta que desse unidade ao ensino das escolas italianas. Colnaghi afirmava que "o que é certo, porém, para progredir, para solidificar-se, para produzir efeitos benéficos, as nossas escolas precisam obedecer a um programa idêntico e os nossos professores devem perseguir um objetivo comum. [...] É, portanto, de sumo interesse que os programas das nossas escolas equiparem-se a fim de que as matérias de certa turma sejam identificadas em qualquer uma das outras, assim formando um todo homogêneo e disciplinado" (Stella, 24 jul., 1904, p. 1).

3 Giron e Pozenato (2004), com o ensaio 100 Anos de Imprensa Regional: 1897-1997, apresentaram um panorama completo dos jornais publicados na antiga região colonial italiana do Rio grande do Sul. Segundo as autoras, esse artigo foi o primeiro ensaio jornalístico regional no Estado sobre a imprensa italiana.

4 Segundo Possamai (2003, p. 12), "o grande número de italianos em Porto Alegre possibilitou o surgimento de vários jornais que, entretanto circularam por pouco tempo". O autor relata que em 1890 surgiram L'italiano e L'Avvenire; entre 1891 e 1895 circulou o Corriere Cattolico, publicado em italiano pela editora do jornal católico alemão Deustche Volksblatt. Em 1895 surgiu o jornal L'Italia, seguido pelo Progresso, em 1897; em 1902 apareceu o Corriere Italiano, que mudou seu nome para 20 Setembre em 1904 e deixou de circular em 1905. Em 1906 foi lançado o jornal Il Tempo e em 1913 L'Araldo Coloniale, que durou um ano. Ainda podem ser citados Il Commercio Italiano, L'Eco delle Colonie, La Cometa, La Patria Italo Brasiliana, Favilla, La Frusta e La Verità. Uma lista mais detalhada encontra-se em Trento (1989).

5 Obra comemorativa dos 50 anos da colonização italiana no Rio Grande do Sul intitulada Cinquantenario della colonizzazione italiana nel rio grande del sud. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1925.

6 Segundo Possamai (2005) os jornais italianos pouco refletiam os interesses da comunidade, devendo-se acrescentar, ainda, que raros imigrantes italianos conheciam o idioma, já que na comunicação com a família se serviam de dialetos regionais, enquanto utilizavam o português na comunicação com os membros de outras comunidades existentes na cidade.

7 Para o jornal Stella d'Italia a igreja era a "piaga delle colonie". Anotado no jornal Il colono italiano em 11/02/1911 (cfe. Azevedo, 1994 p. 259). Paradoxalmente, encontramos que Adelchi Colnaghi foi um dos diretores do jornal Il Corriere Cattolico, editado de 1891 a 1895 em Porto Alegre, cuja atividade nesse jornal foi caçada (Suliani, 2001, p. 285)

8Correio Riograndense foi um jornal católico fundado em 1909 e que até 1941 foi publicado em italiano. Tinha edição semanal e pautava-se pela defesa do catolicismo.

9 Krumeri é um jargão usado entre os tipógrafos italianos para designar trabalhadores não qualificados que substituíam outros trabalhadores em greve, também chamados de fura-greves. É uma expressão de desprezo e sugere inaptidão. Outra acepção a que podemos referir é a idéia de selvagem e incapaz por antonomásia, em alusão a um grupo étnico da Tunísia que não tinha habilidade de gerenciar suas empresas.

10 Mesmo durante o período das guerras mundiais essa sociedade sobreviveu, enquanto tantas outras desapareceram. Em 1951 a sociedade retirou as palavras italiana e principessa do nome e fica, agora em português, Sociedade de Beneficência e Instrução Elena de Montenegro. Em 1961 passou a denominarse Centro Ítalo Brasileiro, mais conhecido por CIB, trazendo este nome até 1990 quando, em razão da necessidade de alteração dos estatutos e da ampliação de seu quadro social, adotou o nome atual - Sociedade Italiana do Rio Grande do Sul. Ao longo dos anos teve suas funções ampliadas sendo responsável por cursos de língua italiana, atividades culturais, gastronômicas e folclóricas.

11 À direita, sobre a escadaria, vê-se um grupo de crianças. Possivelmente estudantes da escola com a professora Camila Roncoroni.

12 Enrico Ernesto Ciapelli nasceu na Itália em 9 de março de 1859 e faleceu em 27 de fevereiro de 1932 na França. Na obra Cinquantenario (1925, p. 405), identificamos que Ciapelli esteve como cônsul no Rio Grande do Sul de 4 de maio de 1898 até 7 de junho de 1904. Já na obra de Iotti (2001, p. 107) lemos que "Ciapelli assumiu a regência do consulado italiano no Rio Grande do Sul em 5 de dezembro de 1897, permanecendo no posto até 29 de janeiro de 1905". A referência do Cinquantenario coincide com a descrição do jornal Stella de 12 de junho de 1904. Sobre os cônsules e agentes consulares no Rio Grande do Sul ver IOTTI, Luiza Horn. O olhar do poder. Caxias do Sul: UCS, 2001.

13 O jornal exibia, frequentemente, a relação dos locais e dos nomes dos agentes correspondentes e comerciais da várias localidades e cidades. Na edição de 15 de junho de 1902 vemos as cidades e localidades relacionadas as quais possuíam agentes correspondentes: Caxias do Sul, Pelotas, Rio Grande, Guaporé, Convento Vermelho, Alfredo Chaves, Bento Gonçalves, Garibaldi, San Vicente, Tristeza, São João de Montenegro, Encantado, Nova Padova, Cachoeira. Na mesma edição citam-se as sociedades que tinham integrantes que escreviam para o jornal: A Società Vitorio Emanuelle II, Società Principessa Elena di Montenegro, Palestra Umberto I, Circolo Giovine Italia, Circolo Filarmonico Italiano, Società Ausonia, Società Giuseppe Mazzini.

14 Segundo Iotti (2001), Ciapelli escreveu quatro relatórios sobre o Rio Grande do Sul. O primeiro em 1899, o segundo em 1900, o terceiro em 1903 e o último em 1905.

Recebido: 31 de Maio de 2014; Aceito: 10 de Outubro de 2014

Creative Commons License This is an Open Access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution Non-Commercial License, which permits unrestricted non-commercial use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original work is properly cited.