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Almanack

versão On-line ISSN 2236-4633

Almanack  no.22 Guarulhos maio/ago. 2019  Epub 16-Set-2019

http://dx.doi.org/10.1590/2236-463320192203 

Dossiê História das Doenças e das Práticas do Curar nos Oitocentos

“A IMPUGNAÇÃO ANALÍTICA”(...): UMA SEMIOLOGIA DAS DOENÇAS NERVOSAS, EM DEFESA DA MEDICINA DOUTA NO PERÍODO JOANINO1

THE ANALYTICAL IMPUGNATION: A SEMIOLOGY OF DISEASES NERVOSAS, IN DEFENSE OF LEARNED MEDICINE IN THE JOANINO PERIOD

Simone de Almeida Silva2  3
http://orcid.org/0000-0001-9156-7720

2 Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Vitória - Espírito Santo - Brasil.

Resumo

O artigo examina a documentação sobre uma beata, irmã Germana Maria da Purificação (1782-1853), que apresentava manifestações extáticas na Capela de Nossa Senhora da Piedade da Serra, em Caeté. Um diagnóstico sobre o caso, organizado por dois cirurgiões, Antônio Pedro de Sousa e Manuel Quintão da Silva, defendia que a beata era vítima de fenômenos sobrenaturais. Tal interpretação foi recusada por um médico mineiro diplomado na Europa, Antônio Gonçalves Gomide (1770-1835), em obra intitulada Impugnação Analítica (...), publicada pela Imprensa Régia no ano de 1814. Esse documento permite examinar o universo da medicina no início do século XIX no Brasil, evidenciando a rivalidade entre médicos e cirurgiões. O médico, guiando-se pelos princípios da ciência ilustrada e com base nos estudos da medicina douta, se apoiou nos trabalhos de Philippe Pinel (1745-1826) e de outros alienistas. Analisando as manifestações patológicas da beata como uma doença nervosa, Gomide produziu o que pode ser considerado uma das primeiras documentações sobre o alienismo no Brasil. O médico abriu caminho para o debate sobre essa especialidade médica moderna no país. Tal percepção propõe uma releitura da historiografia acerca dos estudos sobre as doenças nervosas, demonstrando que o conhecimento científico acerca da alienação já circulava no país pelo menos desde a década de 1810.

PALAVRAS-CHAVE: Médicos e cirurgiões; alienismo; século XIX; Minas Gerais; Brasil; Antônio Gomide (1770-1835)

ABSTRACT

The article examines a documentation about a Blessed, Sister Germana Maria da Purificação (1782-1853), who presente ecstatic manifestations in a chapel named Capela de Nossa Senhora da Piedade da Serra, in Caeté, Minas Gerais. A diagnosis for this case was accomplished by two surgeons, Antônio Pedro de Sousa and Manuel Quintão da Silva, which supported the idea that the woman was a victim of a supernatural phenomenon. This interpretation was rejected by the doctor Antônio Gonçalves Gomide (1770-1835), graduated in Europe, who published his analysis in Analytical Impugnation (...) (1814). This document allows us to examine the universe of medicine from the beginning of the 19th century in Brazil and it makes clear the rivalry among doctors and surgeons. The doctor, guided by the principles of illustrated science, and based on medicine studies, relied on Philippe Pinel’s work (1745-1826) and others alienists. Analyzing the pathological manifestations of the Blessed as a nervous disease, Gomide produced what can be considered the first document about alienism in Brazil. The doctor left space for the debate on this modern medical specialty in the country. This perception points at a re-reading of the historiography about mental illness, demonstrating that the scientific knowledge about alienation has been upgraded in Brazil since the 1810s.

Keywords: Physicians and surgeons; alienation; the 19th century; Minas Gerais; Brazil; Antônio Gomide (1770-1835)

Introdução e/ou Prolegômenos

O artigo trata de uma polêmica entre um médico e dois cirurgiões de Minas Gerais, no início do século XIX em torno das manifestações experimentadas por uma beata que vivia reclusa em torno de uma capela, no alto da Serra da Piedade, em Minas Gerais.

A controvérsia entre o médico e os cirurgiões ficou registrada num pequeno livro publicado em 1814. A obra é de autoria do médico Antônio Gonçalves Gomide (1770-1835), refuta a interpretação dos clínicos sobre as condições da beata e tem o seguinte título: Impugnação Analítica do exame feito pelos clínicos Antônio Pedro de Sousa e Manuel Quintão da Silva em huma rapariga que julgaram santa na Capela de Nossa Senhora da Piedade da Serra, próxima à Vila Nova da Rainha do Caeté. Comarca do Sabará, offerecida ao ilustríssimo Senhor Doutor Manoel Vieira da Silva Primeiro Médico da Comarca de Sua Alteza Real, e de seu Conselho, Fidalgo da Casa Real, Physico Mor do Reino, Estados e Domínios Ultramarinos, Comendador das Ordens de Christo e da Torre Espada e Provedor Mor da Saúde.3

O livreto foi publicado pela Imprensa Régia, órgão criado em 1808, para atender as demandas da Corte, como as publicações oficiais. Aos poucos a tipografia real passou a publicar mais do que despachos e alvarás, abrindo espaço para textos de literatura, economia e medicina.4 A Impugnação Analítica (...) foi um deles, situando-se entre os primeiros textos médicos publicados no Brasil e, como veremos, pioneiro na abordagem da temática da medicina, com ênfase nos saberes sobre as doenças nervosas no país.5

O texto elaborado pelo médico tinha por objetivo rechaçar o diagnóstico, organizado pelos cirurgiões Antônio Pedro de Sousa e Manuel Quintão da Silva, que reconhecia como milagrosos os sintomas manifestados pela beata, conhecida entre os fiéis como irmã Germana.

Segundo o parecer dos cirurgiões, reproduzido na obra do médico Antônio Gomide, a beata sofria de “ataques” que a deixavam rígida numa mesma posição por alguns dias da semana, sem comer ou falar. Segundo sugeriam os cirurgiões, os acontecimentos em torno da irmã teriam uma origem sobrenatural.

O médico, mineiro, diplomado na Europa, rechaçando as interpretações de misticismo em torno dos fenômenos, redigiu um parecer sobre o caso da beata, composto de um diagnóstico erudito, em defesa de uma medicina douta e ilustrada. Para ele, a beata era vítima de uma enfermidade, sofria de uma doença dos nervos, conforme expressão da época. Sua Impugnação Analítica (...) tinha por objetivo contrariar as conclusões do exame realizado pelos cirurgiões que proclamaram a beata como santa, demonstrando que “uma semiologia razoável nada mais acharia que doença”.6

A forma como o médico desenvolve o seu texto sugere que a celeuma entre o doutor Gomide e os cirurgiões ocorria “tête-à-tête” antes da publicação da obra. Doutor Gomide vivia na mesma região que a beata, em Vila Nova da Rainha, atual Caeté, Minas Gerais. Na região, próxima da Serra da Piedade, certamente ele defrontava-se com os cirurgiões que também ofereciam seus serviços entre as localidades de Caeté, Sabará e Santa Luzia. As controvérsias sobre a condição da beata, aliadas às manifestações da irmã Germana, extrapolavam o debate médico/cirurgiões, atingiam a população e atraíam centenas de pessoas na Serra, algumas levadas por curiosidade e outras por comoção e sentimentos de religiosidade.

Um naturalista francês, Auguste de Saint-Hilaire, que visitou a irmã na Serra da Piedade em 1818, publicou posteriormente as informações sobre ela em um de seus diários de viagens, em 1833.7 Segundo o naturalista, por volta de 1814, mais de mil pessoas venceram o difícil acesso à Serra da Piedade para verificar os fenômenos que Germana manifestava em seu corpo.8

A Impugnação Analítica (...) é um documento que permite examinar o universo da medicina no início do século XIX no Brasil, em especial os saberes sobre a psiquiatria. É um documento que expõe a rivalidade entre médicos e cirurgiões, e que coloca em evidência o esforço de Gomide na tarefa de demarcar a autoridade de uma medicina mais sapiente, pautada nos conhecimentos teóricos dos exclusivos detentores dos saberes sobre as enfermidades. Ou seja, o conhecimento dos médicos e não dos cirurgiões.

O médico Antônio Gonçalves Gomide, através de um diagnóstico sobre a irmã Germana, rejeitava o parecer dos cirurgiões e oferecia mais que uma opinião para o caso. Ele pretendia angariar aliados em defesa da legitimidade da medicina científica, ancorada numa maneira de fazer ciência pragmática e ilustrada. Um dos objetivos da pesquisa em torno da Impugnação Analítica (...) foi circunscrever o ambiente de tensão entre médicos, cirurgiões e boticários no início do século XIX no Brasil.

A querela entre médicos e cirurgiões foi marcante no Oitocentos e muitas vezes mantida pela necessidade de demarcação dos espaços entre as profissões de cura.9Apesar de alguns cirurgiões estarem cientes das limitações de sua ação junto aos doentes, os conflitos entre eles e os médicos foram inevitáveis.10 Os médicos, que no período em questão eram diplomados fora do Brasil, percebiam e faziam questão de ressaltar que o diploma era um diferencial em relação aos cirurgiões e representava a passagem pelo ensino teórico, pelos saberes científicos. As divergências demarcavam o estabelecimento da medicina enquanto ciência e dos médicos como exclusivos detentores dos saberes sobre as doenças, homens de letras, instruídos e preparados para realizar diagnósticos verdadeiros para as moléstias.11

Doutor Gomide, imbuído dessa concepção, desejava desacreditar os cirurgiões e assuas concepções mágico-religiosas, ao combater o exame realizado por eles. No intuito de contrariar os cirurgiões, Gomide apresentou em sua “semiologia razoável” sobre as manifestações da irmã, um estudo amplo acerca da alienação, especificamente sobre a catalepsia. Por meio de análises e sugestões de pesquisas sobre o tema, o médico mineiro acabou por abrir caminhos para os saberes sobre as doenças nervosas, que posteriormente se constituiria numa especialidade médica moderna - o alienismo no Brasil.12

Nesse sentido é interessante observar que a Impugnação Analítica (...) é uma rica fonte de pesquisas e apresenta-se como um texto de muitos desdobramentos. Ao acrescentar na sua obra os argumentos redigidos pelos cirurgiões que concebiam a beata como portadora de manifestações de cunho sobrenatural, o médico permitiu o acesso à narrativa dos cirurgiões, ampliando novas possibilidades de reflexão. As análises do médico evidenciaram os saberes médicos sobre a alienação, em especial uma de suas espécies, a catalepsia.

Além de apresentar o texto dos cirurgiões, doutor Gomide traz uma profusão de citações de nomes de autores e obras médicas antigas, como Hipócrates (460 a.C. e 370 a.C.) e Galeno (130 d.C. -210 d.C.), e contemporâneas a ele, como os trabalhos do médico francês Philippe Pinel (1745-1826), especialmente as obras; Nosografia Filosófica (...) e o Tratado médico-filosófico (...). Também citou a obra Zoonomia, de Erasmus Darwin (1731-1802), referencial importante aos estudos da época.

É possível verificar que as referências fornecidas pelo doutor Gomide de estudos médicos sobre as doenças nervosas e a catalepsia se constituem em fontes de pesquisa para os cirurgiões e, ao mesmo tempo, referência para outras pesquisas. A Impugnação Analítica (...) é uma fonte que se desdobra em fontes, daí a importância da reflexão dessa semiologia do médico, da análise de seu caráter polifônico, da sua descrição e contextualização. A fonte, em seu caráter mediador, reúne um conjunto de obras e se constitui num valioso material para o estudo dos saberes psi, nos anos iniciais do século XIX no Brasil.

Enfim a Impugnação Analítica (...) é um texto que dá muitas aberturas e oferece múltiplas possibilidades de análise. O esmiuçar do texto do doutor Gomide, percorrendo os argumentos do médico e mapeando as referências citadas por ele, permite que se encontrem informações para além dos conhecimentos em torno dos sintomas da beata. A Impugnação Analítica (...) permite circunscrever os estudos sobre a catalepsia e possibilita o acesso aos saberes em torno das doenças nervosas e à circulação desses saberes entre os homens de ciência no período joanino.

Para análise do material, toma-se como base a ideia de circulação de conhecimento e de apropriação das ciências, como ferramentas teórico-metológicas, levando em conta os interesses locais e sua importância para a recepção ativa de um determinado saber em um contexto nacional específico.13 Nessa perspectiva, é possível verificar que nos novos espaços científicos, em épocas até então pouco estudadas, circulavam as mais recentes ideias do além-mar, apropriadas de maneira particular por conta das necessidades que movimentavam os homens das ciências.14

Outro importante referencial de apoio são os estudos acerca das ciências no Brasil, que vêm apresentando uma perspectiva social e cultural em torno da entrada das ciências e dos princípios das atividades científicas brasileiras. É importante ressaltar que a concepção de ciência utilizada corresponde à noção apresentada por Maria A. Dantes, que afirma ser a ciência toda a atividade racional e experimental instituída na Idade Moderna, e como atividade de produção de conhecimento social e culturalmente instituída.15

Neste sentido, as referências de leituras indicadas por Gomide revelam, ao serem reunidas, mais do que uma semiologia, sinalizando os sintomas da catalepsia. Elas permitem perceber que o médico buscava se apresentar como um “homem de ciência”, que ele fazia questão de exibir seus saberes médicos-científicos e direcionava seus argumentos aos cirurgiões e demais agentes de cura.

A literatura disponível aos cirurgiões para que alcançassem o saber científico oferece subsídios para se ir além dos episódios na Serra da Piedade, lançando luzes sobre as doenças e as artes de curar entre os séculos XVIII e XIX e, sobretudo, mostrando-nos os caminhos de institucionalização da medicina douta e a interseção desta com a prática dos cirurgiões.

O contexto histórico dos saberes médicos conformadores da Impugnação Analítica (...) bem como a circulação das ideias que acomodavam os saberes dos cirurgiões, são ambientes propícios para se pensar a relação entre história das ciências e abordagens socioculturais. Seguindo esse caminho, recorremos às análises do historiador das ciências, Steven Shapin, para quem ciência e sociedade são indissociáveis. Shapin considera a ciência como uma construção social, uma prática produzida por atores humanos em situações históricas específicas.16 No caso da Impugnação Analítica (...) as referências teóricas apresentadas pelo doutor Gomide, sua postura e argumentação diante do tema, ligavam-se ao ambiente de sua formação ilustrada na Europa, especialmente em Edimburgo, vinculada às regras e aos valores morais de uma comunidade acadêmica, ligada a uma epistemologia característica do universo cientifico anglo-saxão.17

As considerações aqui expostas em torno dessa fonte de pesquisa, e de suas possibilidades de trabalho, revelam o objetivo deste artigo: trazer à luz as controvérsias levantadas pelo médico, que nos lançou uma boa mostra do estado da arte dos saberes em torno do alienismo no Brasil no início do século XIX. Cabe a partir de agora delinear um pouco mais o cenário abordado na Impugnação Analítica (...), que envolveu a história da beata, o universo dos cirurgiões e as práticas religiosas na Serra da Piedade em Minas Gerais.

As manifestações da irmã Germana e as romarias à Serra da Piedade: percepções de um naturalista francês

Germana Maria da Purificação (1782-1853) nasceu no pequeno arraial de Morro Vermelho, no município de Caeté, em Minas Gerais.18 Era uma mulher devota, dedicava-se a orações e penitências e desejava viver reclusa, junto a outras mulheres de vida religiosa. Por conta disso, a beata se fixou nas proximidades de uma capela, construída no alto da Serra da Piedade, vivendo sob a orientação do responsável pelo pequeno santuário, o padre José Gonçalves.19

A Serra da Piedade está localizada próxima às cidades de Caeté e Sabará, em uma região rica e importante no cenário político e econômico de Minas Gerais entre os séculos XVIII e XIX. A capela de Nossa Senhora da Piedade se encontra no pico de uma montanha, a 1800 metros de altitude, região de difícil acesso desde aqueles dias longínquos. Um interessante depoimento sobre a irmã Germana foi registrado por Auguste de Saint-Hilaire, que esteve na Serra da Piedade.20 O naturalista visitou a Irmã em 1818 e fez anotações sobre o episódio em seu diário Voyage dans le district des diamans et sur le litoral du Brésil.21

Saint-Hilaire narrou com detalhes os aspectos da região e episódios na Serra da Piedade, nos fornecendo informações valiosas sobre os acontecimentos no local.22 Após o encontro com a irmã Germana, o naturalista retratou os episódios por ele observados, oferecendo ao leitor, a partir do que viu e ouviu na serra, diferentes percepções dos que se pronunciaram sobre a irmã Germana, tais como médicos, cirurgiões, religiosos e populares. De acordo com Saint-Hilaire, quando esteve no local, a beata apresentava-se debilitada, não andava, comia pouco. Na ocasião, meditando sobre a paixão de Cristo, ela apresentou manifestações extáticas. Segundo as palavras do naturalista, a beata:

[...] entrou em uma espécie de êxtase; seus braços endureceram e estenderam-se em forma de cruz; seus pés cruzaram-se igualmente e ela se manteve nessa atitude durante 48 horas. À época de minha viagem havia quatro anos que esse fenômeno se dera pela primeira vez e daí por diante ele se repetira semanalmente. A irmã Germana tomava essa atitude extática na noite de quinta para sexta-feira, conservando-se assim até a noite de sábado para domingo, sem fazer um movimento, sem proferir uma palavra, sem tomar qualquer alimento. 23

Segundo o naturalista, os fenômenos vivenciados pela devota teriam se iniciado por volta de 1814, repetindo-se periodicamente. A previsibilidade dos fenômenos, aliada ao fato de ocorrerem nos dias da paixão de Cristo, contribuiu para que os êxtases se tornassem conhecidos dos moradores da região, não demorando muito para que fossem considerados milagrosos. O naturalista declarou que após a publicação de um exame pelos cirurgiões Antônio Pedro de Sousa e Manuel Quintão da Silva, atestando que os fenômenos da beata eram de origem sobrenatural, a beata tornou-se mais admirada, e multidões de pessoas visitaram a Serra da Piedade para verificar os episódios. Segundo o viajante:

Os rumores do fenômeno espalharam-se logo [...] milhares de pessoas, de todas as classes, testemunharam-no; acreditou-se no milagre; [...] [e] uma multidão de pessoas continuou a subir ao alto da serra, para admirar o prodígio de que ela era teatro.24

O naturalista destacou ainda que pouco antes de sua visita à Serra da Piedade, a beata teria manifestado outro fenômeno. Todas as terças-feiras, ela entrava em um estado de êxtase por algumas horas e permanecia neste intervalo com os braços cruzados atrás das costas. Saint-Hilaire afirmou que durante uma conversa com o padre José Gonçalves, confessor da irmã Germana, foi informado de que terça-feira era o dia da semana em que os devotos costumeiramente ofereciam sua meditação aos sofrimentos de Jesus crucificado.

É importante destacar que a devoção à Paixão de Cristo era muito frequente entre os religiosos, e um tema comum nos textos místicos que circulavam no universo das reclusas.25 O naturalista também declarou que durante os êxtases era comum a beata ficar com os braços rígidos, sendo impossível qualquer pessoa dobrá-los, com exceção do diretor espiritual, que através do mais simples toque na beata poderia deixá-la na posição desejada.26

Auguste de Saint-Hilaire conta que esteve com a beata por mais de uma vez, e que sua aparência era de uma moça frágil. Ele afirmou que na segunda visita à beata, numa sexta-feira,

[...] ela se achava sobre seu leito, deitada de costas. [...]. Seus braços estavam em cruz; um deles detido pela parede, não tivera a liberdade de estender-se completamente; o outro estendia-se para fora da cama e estava apoiado sobre um tamborete. A doente tinha as mãos extremamente frias; o polegar e o indicador estavam esticados, os outros dedos fechados, os joelhos dobrados e os pés colocados um sobre o outro.27

Ainda segundo Saint-Hilaire, Germana mantinha-se imóvel, seu pulso era quase imperceptível e sua respiração, ligeira. Ele declara que conversou com a irmã de Germana, que lhe dissera que durante os êxtases, a beata permanecia com os pés e braços imóveis, e que as convulsões aconteciam por volta das três horas. Segundo o naturalista a irmã da beata atribuía o horário das convulsões ao momento da morte de Jesus Cristo.28

Descrevendo a condição da beata, no início de seu texto, o naturalista afirmou que ela recebeu remédios “inteiramente contrários ao seu estado e o mal agravou-se”.29 Em seguida, Saint-Hilaire registrou as impressões dos cirurgiões que escreveram sobre o caso da beata e também a percepção do médico.

Quanto aos cirurgiões, o naturalista destacou que eles contribuíram para aumentar a admiração em torno da irmã Germana, ao declararem os episódios como manifestações de cunho sobrenatural. Quanto ao médico, afirmou que:

Entretanto, um médico muito culto, o Dr. Gomide, da Universidade de Edimburgo, achou-se no dever de refutar a declaração dos dois cirurgiões e, em 1814, fez imprimir no Rio de Janeiro, sem o nome do autor, uma pequena brochura, cheia de ciência de lógica, onde prova, com uma multidão de autoridades, que os êxtases de Germana não eram senão o resultado de uma catalepsia30.

A leitura das impressões de Saint-Hilaire não deixa dúvida quanto à predileção do naturalista pela visão médica acerca da condição da beata. Certamente, como cientista de sua época, observador de dada realidade e defensor da prática semiológica, o naturalista situava-se, ao lado doutor Gomide, condenando, ainda que nas entrelinhas do seu diário, as práticas dos cirurgiões.

Às controvérsias médicas, já delineadas no diário de viagem do naturalista, somaram-se as polêmicas entre fiéis e céticos a respeito das manifestações de êxtase da irmã Germana. Ela foi considerada uma santa pelos fiéis, e tornou-se modelo de vida a ser imitado por outras devotas.

Em 1817, através de um requerimento ao bispo de Mariana, D. Cipriano de São José, um grupo de mulheres solicitava licença para fundar um recolhimento na Serra da Piedade.31 Segundo as declarações de uma das beatas, Clara da Paixão de Jesus, elas desejavam viver enclausuradas, seguindo o modelo de vida religiosa da irmã Germana.

No entanto elas não obtiveram autorização para a fundação da casa religiosa na Serra da Piedade.32 O bispo, contrário às romarias típicas do catolicismo popular, além de proibir a criação do recolhimento feminino, impediu a realização de missas no local, limitando movimentação de fiéis na Serra da Piedade e inibindo as atribuições milagrosas aos fenômenos da beata. Além da interrupção das missas, o bispo determinou o afastamento do padre José Gonçalves e da irmã Germana da Serra da Piedade.33 Impedida de permanecer na Serra, a irmã Germana viveu na localidade de Roças Novas, próxima à Serra.

No entanto, enquanto Germana esteve afastada da Serra da Piedade, os devotos solicitaram ao poder régio autorização para a continuidade da celebração de missas na capela. Tal solicitação foi atendida, promovendo a volta da irmã Germana ao alto da Serra e o recomeço da peregrinação pelos devotos.34

Não sabemos exatamente os motivos das acusações contra a beata, mas verificamos que as opiniões divergentes sobre os episódios em torno da irmã Germana causaram muito celeuma. E certamente as opiniões dos cirurgiões e do médico emitidas sobre a beata alimentaram a devoção e acirraram a aura mística em torno de Germana. Vejamos com mais detalhes a atuação dos cirurgiões nesse cenário conflituoso.

Os cirurgiões e seu exame

Os cirurgiões que realizaram exame sobre a beata foram Antônio Pedro de Sousa e Manuel Quintão da Silva, sobre eles poucos registros foram encontrados, sabe-se apenas que ambos eram naturais de Minas Gerais, e atuavam na região em torno de Sabará e Caeté.35

No Brasil, os cirurgiões portugueses exerciam seu ofício mais livremente, e tinham a possibilidade de atuar como médicos na ausência destes. No caso de Minas Gerais, havia poucos médicos, de modo que era importante a presença de boticários, cirurgiões e outros práticos para atender as demandas dos doentes. Os cirurgiões não diplomados nas instituições estrangeiras atuavam, em grande parte, como “licenciados para curar de medicina prática”, ou seja, poderiam exercer o ofício de médico, desde que não houvesse um médico disponível. Esses cirurgiões adquiriam seus conhecimentos através da empiria e gabavam-se do fato de ter mais experiência que os médicos, condenando-os pelo pouco conhecimento prático e pelo excesso de conhecimento teórico. Conforme destaca Tânia Pimenta, era tarefa da fisicatura demarcar as práticas curativas e estabelecer limites e regras na ação de médicos e cirurgiões sangradores, parteiras e boticários no Brasil. No entanto, nem sempre este agente regulador das práticas curativas impedia as rivalidades crescentes entre os grupos.36

Os cirurgiões Antônio Pedro de Sousa e Manuel Quintão da Silva, como veremos, também criticavam os médicos pela insuficiente observação da moléstia e do doente, uma vez que estes últimos valorizavam mais a razão do que a observação. As palavras registradas no documento divulgado pelos cirurgiões nos mostraram a confluência de uma opinião comum entre os práticos. O famoso cirurgião português Luís Gomes Ferreira resume a questão ao declarar que “assim como sempre me pareceu justo obedecer à razão, me pareceu sempre temerário contradizer a experiência, (...) maior fé se deve dar à experiência que à razão”.37

Neste contexto, os cirurgiões examinaram a beata e, em seguida, redigiram um atestado relatando suas impressões. As declarações sobre a origem sobrenatural do estado da beata foram divulgadas amplamente pelos cirurgiões, e se constituíram na primeira narrativa sobre as experiências da beata.38

O acesso ao parecer dos cirurgiões, na íntegra, foi possível através da Impugnação Analítica (...), de Antônio Gomide, que inseriu o texto organizado por eles na sua obra publicada pela impressão régia em 1814.39 Retornando ao documento elaborado pelos cirurgiões vê-se que o diagnóstico para a irmã é que ela apresentava dismenorreia (irregularidades no ciclo menstrual) e irritação do canal alimentar, com movimentos “retrógrados”, ou seja, que partiam do abdômen em direção à garganta.40 Segundo os cirurgiões, em razão destes movimentos, a que denominaram “espasmódicos”, ela vomitava, além de apresentar anorexia e histeria. Conforme os examinadores, “estes movimentos espasmódicos continuam quase sempre, porém com circunstâncias tão singulares e tão extraordinárias que merecem a maior atenção”.41

Após essas explicações iniciais, os cirurgiões organizaram seu texto dividindo-o em duas partes. Na primeira, observando os períodos de permanência da beata num estado extático, afirmaram que ela permanecia em jejum quase absoluto e que, no entanto, apresentava uma fisionomia saudável. Concluíram que, segundo a ordem natural dos fenômenos, isso seria impossível. O esperado era que a beata, assim como ocorria com quaisquer pessoas em demorado jejum, se tornasse debilitada e morresse. Aos olhos dos cirurgiões, a baeta parecia gozar de perfeita saúde.42

Na segunda parte do texto os examinadores narram o modo como ocorriam os êxtases da beata, descrevendo o período de duração e a postura assumida pela irmã Germana naqueles momentos. Os cirurgiões afirmaram que ela permanecia com os pés cruzados, braços abertos e cabeça inclinada para o lado, e descreveram essa postura por meio do termo “crucificada”, fazendo uma alusão à crucificação de Cristo. Descreveram também o estado de rigidez muscular e as alterações na pulsação da irmã durante as manifestações. Em seguida, mencionaram os movimentos convulsivos do corpo e os gemidos.

Durante os êxtases a beata permanecia imóvel, conforme os cirurgiões, e sua “alma reconcentrada não toma parte alguma nos movimentos voluntários do corpo, tudo cessa, e continua a circulação de modo referido com os movimentos impetuosos do poder sensório”.43 Eles afirmaram então:

(...) parece que este fato, tão verdadeiro e de tão pública notoriedade, por si mesmo manifesta o que isto é, e que não nos fica mais lugar algum de passar avante (...).44

Em suma, para Antônio Pedro de Sousa e Manuel Quintão da Silva o fenômeno apresentado pela irmã Germana era bastante notável, sendo possível a qualquer observador verificar, com certeza, que aquela manifestação se tratava de um milagre.

Ao final do relato os examinadores foram taxativos ao declararem que as manifestações apresentadas pela beata são “fatos (...) que por si mesmo manifesta (sic) o que isto é”.45 As palavras dos cirurgiões nos fazem lembrar os termos de Luís Gomes Ferreira, acima citados, que dão ênfase à experiência além da razão, ou seja, ao conhecimento adquirido a partir da observação dos fatos; em suma, o conhecimento dos cirurgiões. Para os cirurgiões, os episódios eram de origem sobrenatural, sendo impossível analisar o caso sob o ponto de vista da medicina, compreendendo o fenômeno apenas de acordo com as concepções teóricas da ciência médica. Concluindo, eles afirmaram:

(...) julgamos terminada a questão: nós seríamos mentirosos e temerários se ousássemos submeter ao juízo médico um fato que só nos enche de admiração e de respeito para com o Ser Supremo, na consideração da bondade infinita de Jesus Cristo, nosso amabilíssimo redentor (...).46

De forma provocativa, os cirurgiões fizeram insinuações, convidando aqueles que afirmaram serem as manifestações da beata um caso de melancolia, de “erros de imaginação”, a observar de perto os episódios. Tais termos nos mostram que eles, indiretamente, se dirigiam ao médico que defendia o estado melancólico da beata, recusando o exame e as interpretações religiosas para os fenômenos.

Os cirurgiões realizaram uma narrativa do que foi observado durante o exame feito na beata, valorizando a experiência e o trabalho de observação e, em seguida, afirmaram as causas sobrenaturais para os episódios. Eles conceberam os êxtases como extraordinários, considerando um milagre que irmã Germana permanecesse saudável num estado de jejum absoluto, e declararam que os êxtases eram motivo de admiração e respeito a Deus.

A Impugnação Analítica (...): uma exposição da medicina dos doutores

Conforme o título da obra, elaborada pelo doutor Gomide, o objetivo era impugnar o exame realizado pelos cirurgiões, contrariando os argumentos apresentados através de um método de análise, dissecando cada parte da exposição apresentada no exame.47

A obra apresenta uma linguagem bastante formal, no estilo de escrita próprio do português que se escrevia na época, carregado de estrangeirismos e erudito. O texto de Antônio G. Gomide foi organizado em quatro partes, sendo a primeira introdutória, com dedicatória ao físico-mor do Reino, Manoel V. da Silva, reverenciando seus méritos e conhecimentos médicos.48 Acompanha nessa primeira parte do trabalho um pedido de anonimato para a autoria da publicação, pois o médico temia a reprovação daqueles que julgavam a “rapariga” santa.

Nas primeiras linhas de sua Impugnação Analítica (...), o médico fez duras críticas aos cirurgiões, se referindo a eles como “espíritos fracos”, pessoas de imaginação rica e de juízos obliterados, autores de “sofismas insidiosos (...) paralogismos ridículos e pueris”.49 Após uma estreia aguerrida, o médico apresentou sua primeira afirmação, como já vimos, de que os fenômenos são para ele consequências de um estado patológico.

Na segunda parte do texto, intitulada Advertência, o doutor Gomide apresentou rapidamente a beata, referindo-se a ela como uma histérica que vivia na Serra da Piedade, localidade em que foi realizado o exame pelos clínicos. Nessa parte, Gomide argumentou que seu objetivo era contrariar o exame dos clínicos que proclamaram a beata como santa, demonstrando que “huma semiologia rasoável nada mais acharia que doença”.50

Na terceira parte da Impugnação Analítica (...), o médico incluiu uma cópia integral do exame realizado pelos cirurgiões, conforme vimos acima, e, na quarta parte do texto, desenvolveu efetivamente a sua Impugnação Analítica (...), iniciando uma série de críticas ao exame, acompanhadas de adjetivos que desqualificam e satirizam o diagnóstico dado pelos clínicos. Nesta parte do parecer, Gomide também se esforçou para apresentar seus argumentos de maneira erudita, apoiados em um discurso de autoridade que enfileirava citações variadas de médicos e cientistas.

Como Gomide desejava demonstrar, os fenômenos da irmã Germana eram decorrentes de “diferentes anomalias da acção nervosa sobre a contração muscular”. Logo, seus argumentos confluem para os estudos sobre as doenças nervosas.51 Conforme ele declarava, o diagnóstico dessas doenças pode ser obtido a partir de criteriosa observação e de demorada leitura de tratados e periódicos médicos. Seguindo tal preceito, o médico tomou como base as modernas investigações realizadas no campo da ciência médica acerca da catalepsia, histeria e demais patologias nervosas produzidas nos centros de saberes da época, como a Universidade de Edimburgo ou a Academia de Ciências de Paris.

Seu texto, seguindo o estilo das narrativas médicas correntes no século XVIII, detalhou a realidade dos corpos doentes e sensíveis a fim de exibir o conhecimento sobre as enfermidades. A ideia era difundir um discurso da verdade em torno das doenças, com base nos saberes da ciência médica moderna e, desse modo, legitimar as práticas dessa medicina douta. Para isso era preciso, conforme destaca Thomas Laqueur, que o médico se concentrasse numa infinidade de detalhes, de acordo com a semiologia médica; descrevendo o sofrimento dos corpos, verificando os sintomas e permanecendo distante dos exageros da tradição médica popular e das histórias milagrosas como explicações para as doenças.52

Os argumentos de contraposição aos cirurgiões acerca das manifestações da beata foram apresentados ponto a ponto pelo doutor Gomide, em um diagnóstico bem fundamentado teoricamente, sobre a doença que afetava a beata e seus diferentes sintomas. No entanto, é satisfatório aos objetivos dessa exposição circunscrever apenas os argumentos do médico no que se refere à catalepsia, mostrando o predomínio de algumas concepções teóricas sobre a doença, advindas dos saberes médicos europeus, especialmente dos trabalhos de Philippe Pinel.

Para falar sobre os êxtases da beata, Gomide afirmou que aquelas manifestações, admiradas pelos cirurgiões eram decorrentes das contorções musculares, provocados por movimentos “irritativos e sensitivos”. Segundo o médico, esses movimentos eram anomalias dos nervos, que causavam as contrações musculares, em períodos cíclicos. Tais anomalias eram explicáveis conforme os estudos apresentados pelo médico inglês Erasmus Darwin (1731-1796) em sua obra “Zoonomia ou lês lois de l’avie organique” (1792).53

Dessa maneira, Gomide foi rebatendo os sintomas daquilo que para ele era uma patologia, refutando a visão dos cirurgiões e, sobretudo, enfileirando uma quantidade de estudos produzidos nas academias médicas estrangeiras.

Na sua análise semiológica, caminhando a argumentação para a questão da catalepsia, o médico avaliou os sintomas da beata, como a anorexia, considerada extraordinária para os cirurgiões. Gomide condenou essa visão, ligando a anorexia à vida sedentária da irmã Germana e reforçou seu ponto de vista com exemplos da literatura médica que discutiam sobre as mulheres “nervosas e delicadas” que não comiam por longo tempo e que eram catalépticas. Foi a partir daí que o médico entrou de fato no debate sobre a catalepsia.

O médico disparou uma longa frase em latim para descrever a doença, denotando erudição. Nos moldes de um naturalista, que analisa, nomeia e classifica suas espécies e divisões, forneceu o diagnóstico: a doença é uma catalepsia convulsiva.54 Gomide apresentou precisamente as classificações da catalepsia oferecidas pelo médico J. B. Sagar (1702-1778) em sua Nosologie méthodique, e deu ênfase ao trabalho de Alexander Crichton (1763-1856), intitulado A Synoptical Table of Diseases. Gomide utilizou essa obra para caracterizar a catalepsia como convulsiva, que, segundo a classificação de Alexander Crichton, situava-se no grupo das “neuroses ou doenças nervosas”.55

A catalepsia convulsiva era, segundo Gomide, uma enfermidade com características variadas que influenciava vários órgãos, podendo, simultaneamente, se manifestar por espasmos e comas. Para demonstrar os sinais da catalepsia ele utilizou também a obra Principia Medicinae (1775), de Francis Home (1719-1813). Para este médico, sócio da escola de medicina de Edimburgo, a catalepsia era uma enfermidade sem febre, causada por fluxo ou estagnação do fluído nervoso.56

Como visto, agindo como um naturalista, o médico mineiro apresentou a catalepsia segundo um quadro de classificação nosológica, trazendo a classe, a ordem e o gênero da doença, com base nas descrições de vários outros médicos. Gomide apoiava-se em estudos médicos variados, transitando entre nomes representantes da tradicional medicina grega, como Galeno (127 a 217 d.C.) a nomes mais contemporâneos, como o de Philippe Pinel (1797).57

Na exposição do seu diagnóstico sobre a catalepsia, a histeria e outras enfermidades, ele apresenta estudos que tratam das alterações dos nervos, dialogando com trabalhos médicos realizados nas escolas médicas de Paris e Montpellier, importantes centros de pesquisas no século XVIII.

Gomide incluiu no seu texto as referências das obras citadas a fim de instruir os clínicos e demais leitores de sua semiologia. Em função de sua apresentação metodológica, foi possível localizar as diversas considerações médicas sobre as enfermidades. A Impugnação Analítica (...) apresenta as indicações de estudo de médicos e naturalistas como Hermann Boerhaave (1668-1738), Georges-Louis Leclerc, conde de Buffon (1707-1788), Alexander Crichton (1763-1856), William Cullen (1710-1790), Robert Whytt (1714-1766). As trilhas deixadas por Gomide também viabilizaram outras fontes de época, como periódicos científicos e memórias que tratavam do tema da catalepsia e/ou da ciência médica moderna, como por exemplo o Journal des sçavans e Memories de l’Academie Royale des Sciences.

Os estudos médicos do século XVIII sobre as doenças nervosas, apontados por Gomide - em especial sobre a catalepsia e a histeria - podem ser melhor compreendidos com base nas análises realizadas por Michel Foucault em sua História da Loucura. O historiador analisa as doenças nervosas, como a histeria e o seu novo sentido, destacando que a doença se desvinculou lentamente das explicações uterinas, sendo associada às afecções do cérebro e dos nervos e se manifestando no corpo inteiro.58

Analisando o referencial teórico utilizado por Gomide percebe-se também a forte influência de Philippe Pinel no discurso do médico ao longo da Impugnação Analítica (...). O texto de Gomide foi publicado um ano depois da quinta edição francesa da Nosographie Philosophique, o que certamente colaborou para que a obra tenha ocupado destaque na moderna análise do médico mineiro.59

No ano de 1813 também foi marcante no universo das letras a publicação, no Dictionnaire Encyclopedie des Sciences Médicales, do verbete “delírio feito pelo aluno de Philippe Pinel, o francês Jean-Étienne Esquirol (1772-1840), que colaborou para sistematizar as ideias do mestre, conduzindo o alienismo à sua hegemonia como teoria e prática.60 Logo, não restam dúvidas da ligação do médico aos recentes estudos sobre as afeções nervosas, realizados por médicos, sobretudo por Philippe Pinel.

Philippe Pinel o alienista francês

Philippe Pinel (1745-1826) nasceu na França, em uma família de médicos modestos. Formou-se em matemática em Toulouse e, em seguida, em medicina em Montpellier. Em Paris, trabalhou como médico, tendo participado de algumas associações de medicina.61 De suas obras publicadas destacam-se a Nosografia Filosófica ou o método de análise aplicada à medicina (1798), o Tratado médico-filosófico sobre a alienação mental ou a mania (1800) e “A medicina tornada mais precisa e exata pela aplicação da análise” (1802).62

No período em que desenvolveu seu trabalho, na virada do XVIII para o XIX, não havia na Europa - ou mesmo na França - uma tradição médica mental consensual, e sim um misto de ideias e concepções, cada escola médica trabalhando dentro de seu enquadramento teórico particular.63 No que se refere às doenças nervosas, a situação não era diferente. Mas, apesar do risco de inserção de Philippe Pinel no interior de uma determinada tradição médica, pode-se vislumbrar após leitura de algumas de suas obras as apropriações teóricas realizadas por Pinel e sugerir os caminhos do médico francês, considerado o primeiro alienista.64 Os princípios do tratamento sobre a loucura foram desenvolvidos por Pinel quando ele foi nomeado médico no hospital de Bicêtre em 1793, momento em que pôde observar os pacientes insanos.

Uma importante obra de Pinel foi a Nosografia Filosófica (...) (1798), organizada em dois volumes, sendo o primeiro dedicado ao estudo das febres, inflamações e hemorragias e o segundo, às neuroses e às enfermidades do sistema linfático, além de uma última classe, indeterminada, dedicada aos estudos de outras enfermidades. Em sua obra, Pinel defendia o estudo da clínica médica baseada na observação e análise sistemática dos sinais perceptíveis da doença. A pulsação, o calor e a respiração reproduzidos frequentemente seriam os sinais que mostrariam ao médico o caminho do correto diagnóstico. Segundo Pinel, a verdadeira medicina consistiria mais no conhecimento das enfermidades que na administração dos remédios propriamente dita.65

Na Nosografia Filosófica (...) recomendava-se a mesma prática para o tema da loucura, indicando a observação dos enfermos acometidos pelas afecções. Nessa obra, Pinel ainda concebia a loucura como uma doença orgânica, um distúrbio das funções intelectuais, ou afecções das funções superiores do sistema nervosos.66

Quanto à catalepsia, Pinel destaca na sua Nosografia Filosófica (...) que a enfermidade era analisada por médicos proeminentes desde pelo menos o século XV. Segundo suas descrições nessa obra, a patologia poderia surgir de uma comoção exagerada capaz de se apoderar de todas as faculdades morais. Aqui, apesar da ênfase à observação e classificação das doenças, e da concepção de organicidade para a loucura, o médico francês já sinalizava suas considerações em torno dos aspectos morais da loucura e da interferência dos fatores externos para a conformação da moléstia.

E foi na sua obra seguinte, o Tratado médico-filosófico (...) (1801), que ele considerou que a medicina precisava direcionar suas análises para o entendimento das afecções morais, suas nuances, estilos e combinações.67 Nessa obra, Pinel dedicou maior atenção aos estudos da alienação mental, investigando a natureza da loucura, e apresentando-a como um desarranjo cerebral causado por fatores variados. A loucura para Pinel poderia emergir a partir de três aspectos: 1) lesões físicas causadas por um golpe na cabeça ou uma doença orgânica; 2) hereditariedade; 3) causas morais. As duas últimas estariam associadas ao comportamento, às paixões intensas, aos excessos nos costumes, hábitos de vida e à educação frouxa.68

No Tratado médico-filosófico (...), Pinel demostrou a partir de descrições cuidadosas que as faculdades afetivas saem da esfera do discurso filosófico para se tornarem fenômenos naturais, objeto de conhecimento médico-fisiológico. Segundo o médico, “a origem da alienação reduz-se quase sempre a afecções morais: sejam terrores, sejam desgostos”.69 A loucura estava relacionada a agentes externos, às paixões morais, aos excessos, a uma vida desregrada, que ocasionam a excitação e promovem efeitos diversos sobre a economia animal, a exemplo da catalepsia.70

Neste sentido, era necessário, segundo Pinel, regular esses fatores que deixavam o doente fora de si, distante da razão: alienado. Era preciso que a medicina mental buscasse a restauração do domínio racional por meios e regimes morais e físicos, de modo a curar os alienados, tornando-os novamente senhores de sua razão.71 Conforme pontua Gladys Swain, Pinel entendia que o tratamento das afecções de causas morais necessitava de uma intervenção para além dos meios físicos, recorrendo às faculdades intelectuais, aos sentimentos, as paixões.72

Logo, o tratamento da loucura, segundo Pinel, se dava pela recuperação da razão perdida, edificando, sobre os resíduos da razão, o tratamento moral. É assim que Pinel considera o isolamento no hospício, como instrumento terapêutico central para os internos, um espaço adequado à recuperação e, ao mesmo tempo, condição sine qua non para construção de um saber apoiado na observação do alienado. Ao afastar o doente do mundo externo, Pinel pensava intervir em seus conflitos interiores, apoiando as forças da saúde e a tendência natural da doença na direção da cura. Além disso, o isolamento evitava que os alienados perturbassem a ordem, ao mesmo tempo protegendo a “sensibilidade excessiva” dos internos, das “zombarias” e da “ignorância” frente à enfermidade.73

No Tratado médico-filosófico (...) não há uma seção explícita acerca do tema da catalepsia, mas a descrição da doença aparece entre os capítulos que se dedicaram à classificação dos tipos de loucuras. Pinel reuniu, a partir do recenseamento dos alienados no hospício de Bicêtre, os episódios de loucura.74

O tema central era a alienação - a busca pela natureza da loucura. O médico, declarando basear seu método na história natural, apresentou em sua nosografia os tipos de loucura. Ele reuniu todos os dados sobre os alienados, em uma análise de cada detalhe, observando os episódios de loucura, colhendo informações sobre o comportamento dos internos e registrando-os. Baseado no método da história natural, classificou os tipos de loucura e as espécies de alienação que tomam a mania como essência da alienação mental, situando-a em cinco tipos: a melancolia, a mania sem delírio, a mania com delírio, a demência e o idiotismo.

Na seção sobre a mania periódica ou intermitente, o médico francês delineou os sinais precursores dos acessos de mania e, nesse caso, situou a região epigástrica como sede da enfermidade.75 No momento em que Pinel descreve os sinais precursores dos acessos de mania, situando a origem abdominal dessas manifestações, é possível verificar os contornos da catalepsia, bem nos moldes descritos posteriormente pelo doutor Gomide.76

A moléstia era, de acordo com Pinel, uma dessas doenças que requisitava o afastamento do enfermo das agitações sociais. Segundo o alienista, a catalepsia poderia manifestar-se a partir de uma comoção exagerada, capaz de se apoderar de todas as faculdades morais, e por isso necessitava de distanciamento do social. O médico percebia que as mulheres catalépticas eram mulheres de expressão triste, que emitiam sons desarticulados e mantinham o pensamento ocupado com algum objeto. Elas viviam sem apetite, dormiam pouco, tinham visões, eram taciturnas e choravam lágrimas de ternura.77

Como adiantamos, no Tratado médico-filosófico (...) Pinel defende que as doenças nervosas são desordens cerebrais de causas físicas e morais, e que a terapêutica indicada deve ser baseada na reclusão do enfermo e no tratamento moral com vistas ao controle das paixões. No caso da catalepsia, somente o afastamento do convívio social é que poderia resgatar os enfermos, retirando-lhes os desregramentos, desviando-os das paixões e restabelecendo-os à razão.

A entrada nos estudos pinelianos foi necessária para oferecer esclarecimentos quanto à filiação das ideias de doutor Gomide que serviram de suporte para que o médico embasasse sua semiologia contra o exame dos cirurgiões. Certamente poderíamos avançar mais na concepção pineliana do alienismo, apresentando outros referenciais teóricos em torno dos estudos sobre a loucura, comuns ao alienista francês e ao doutor Gomide. No entanto, é preciso redirecionar a análise voltando à Impugnação Analítica (...)a fim de situar os pontos de confluência entre o alienista francês e o nosso médico quanto aos saberes sobre a alienação e a catalepsia.

Alguns aspectos de uma “semiologia razoável” acerca da catalepsia

Entre um dos argumentos da Impugnação Analítica (...), doutor Gomide recomendava aos cirurgiões: (...) “ide retificar os vossos juízos estudando, nas obras que puderdes da lista junta, a etiologia, semiótica e terapêutica da doença. (...) ”.78 O médico destacava a importância dos saberes científicos e, para o caso da catalepsia, afirmava a importância do conhecimento da etiologia, semiótica e a terapêutica da doença. O médico recomendou aos cirurgiões o estudo de outras obras da medicina douta, sugerindo que eles procurassem ler o máximo possível da bibliografia apresentada por ele. Encerrando seus argumentos, Gomide declarou que não era do seu interesse negar que houvesse pessoas devotas e santas, mas sim destacar o papel do conhecimento teórico das modernas bases científicas da medicina nascente. Era importante que os cirurgiões reconhecessem a autoridade da medicina douta sobre as outras artes de curar.

Na bibliografia apresentada pelo médico, constam as obras referentes aos estudos de catalepsia que, segundo ele, seriam esclarecedoras aos cirurgiões sobre a enfermidade. Ao dispor um “catálogo dos livros em que se encontram casos circunstanciados de catalepsia”, doutor Gomide demonstrava sua erudição e conhecimento das mais recentes discussões sobre a catalepsia entre os homens de ciência nos séculos XVIII e XIX. Sua intenção original era exibir seus conhecimentos. Contudo, tal exibição nos propiciou um mapeamento dos saberes acerca da alienação e demais saberes em torno das doenças nervosas no período analisado.

Como mencionado, o médico se apropriou dos estudos de Pinel para tratar da catalepsia, mas as indicações de leitura oferecidas pelo doutor Gomide permitiram acesso a outras orientações teóricas, também presentes nos estudos pinelianos.79 Apenas para ilustrar, apresento algumas das obras indicadas no seu catálogo de livros:

  • Journal des sçavans, Jan 1776. Ed. Amster [Amsterdam], p.232.

  • Histoire de L’Acad. des Scienc. de Paris [Histoire de l’Académie Royale des Sciences de Paris. Paris: J. Boudot. Sobre a catalepsia, p. 40-43] 1738; e Mem. [Mémoire de l’Academie Royale des Sciences de Paris (?)] 1742.

  • Encyclop. Franc. [Encyclopédie Française]. Art. [artigo] Assoupissement.[sonolência]

  • Duncan´s Med. Comment. [Duncan, Andrew. Medical commentaries for the year 1785. Exhibiting a concise view of the latest and most important discoveries in medicine and medical philosophy. Volume 10. London: J. Murray, 1786]. Tomo 10, p. 242.

  • Act. Hafn. [Acta medica et philosophica Hafniensa (?). Copenhague, organizada por Thomas Bartholin]. Vol. 3, p. 52.

  • Phylosoph. Transac. [Philosophical transactions of the Royal Society of London]. N. 437.

  • Targioni Raccolta prima di osservaz. Mediche [Targioni-Tozzetti, Giovanni. Prima raccolta di osservazioni mediche. Firenzi: Stamperia Imperiale, 1752], p. 97.

  • Fiorilli Avvísi sulla salute humana. P. 150, ano 1775; e p. 393, ano 1776.

  • The Philosophy of Medic.; or Med. Extrac. [Thornton, Robert J. The philosophy of medicine, or medical extracts on the nature of health and disease, etc. 4 ed. London: C.Whittingham, 1800]. Tomo III, p. 339.

  • Rondelet Meth. Curand [Rondelet, Guillaume. Methodus curandorum omnium morborum corporis humani, obra em 8 volumes, 1574]. Livro 1, cap. 20.

  • Van-Switen in Boerh. [Van-Swieten, Gerard. Commentaria in Hermanni Boerhaave Aphorismos de cognoscendis et curandis morbis]; Aph. 1036 et seq. [Aforismo 1036 e seguintes].

  • Hoffmanni Med. rat. System. [Hoffmann, Friedrich. Medicina rationalis systematica, etc.]. Tomo 4, p. [parte?] 1, seção 1, cap. 4, obs.1; 2.

  • Sauvag. Nosol. Method. [Boissier de Sauvages, François. Nosologie méthodique, etc.]. Tomo 2, p. 415, p. 417, p. 418, p. 420.

  • Tissot des nerfs, et de leurs malad. [Tissot, Samuel Auguste. Des nerfs et de leurs maladies], tomo 3, p. [parte ?] 2, cap. 21 de la Catalep.; Ecitas, etc.

Como é possível verificar, a lista contém as citações de livros e periódicos médicos, além de anais e atas de academias de ciência e também um artigo da Enciclopédia Francesa sobre o sono. Os textos foram selecionados pelo médico sem seguir uma ordem, e muitas das citações, ao serem abreviadas, permaneceram incompletas e com erros de grafia, dificultando a interpretação.

A leitura dos textos sobre catalepsia, recomendados pelo médico, mostra que Gomide acompanhava os estudos sobre as doenças nervosas, assinalando as mais adequadas para o conhecimento desse tipo de enfermidade.80 Ele se apropriou de muitas questões levantadas nestas obras sobre a doença, não se limitando a Pinel. Doutor Gomide buscou uma apreciação do tema em obras como Des nerfs et de leurs maladies (1776), escrito pelo médico Samuel Tissot, e em estudos como a mencionada obra Zoonomia or the laws of organic life (1794), de Erasmus Darwin.

Doutor Gomide aconselhou, além dos livros de Pinel e demais trabalhos franceses, também a leitura de estudos literários e filosóficos produzidos na Inglaterra, onde, segundo o médico, “a filosofia devia ter feito maior e muito antecipada evolução”.81 Ele afirmou que os cirurgiões, através do contato com a história inglesa, certamente teriam acesso aos famosos casos, como as devotas inglesas que sofriam de ataques nervosos, apresentavam êxtases e faziam profecias.82

Gomide, que estudou medicina de Edimburgo, buscou referência teórica em seus pares, mencionando os trabalhos sobre melancolia de Thomas Trotter, A view of the nervous temperamento (1807), em que o médico inglês discutiu sobre as dificuldades de se enumerar todos os níveis de alienação mental nas doenças nervosas e declarou que a melancolia era uma doença comum, que afetava o útero. Ainda sobre a melancolia, também fez referências à obra do médico escocês Alexander Crichton83, que analisou o tema das paixões e citou também o nome de Vicenzo Chiarugi (1759-1820), médico italiano dedicado ao estudo das desordens mentais. É importante destacar que esses médicos citados por Gomide eram nomes importantes também na obra de Pinel. Um exemplo é a menção à Alexander Crichton que, segundo a alienista francês, foi um dos médicos que desenvolveu uma corajosa análise das afecções mentais, abrindo novos caminhos para a doutrina da alienação mental.84

Na Impugnação Analítica (...), o médico afirma que a medicina verdadeiramente científica indicaria os passos para uma correta avaliação dos pacientes. Era preciso um olhar neutro do cientista, uma postura em torno do conhecimento baseada na observação segura da evidência e dos sentidos. Para Gomide, a observação sistemática resultaria em dados que, somados às generalizações e teorias, haveriam de cristalizar-se, permitindo o conhecimento sobre as enfermidades. O médico recomendava essa postura a ser adotada pelos homens de ciência, orientada pelo conhecimento teórico. Somente dessa forma se chegaria a um diagnóstico preciso para a beata, no caso, a diagnose da catalepsia.

Doutor Gomide fala, inclusive, que o diagnóstico de irmã Germana cabia aos médicos. Restava aos cirurgiões permanecerem nos limites de seu oficio: as artes de curar. Ele recomendava aos cirurgiões mais cautela, evitando declarações inúteis como o exame redigido por eles.85

A catalepsia convulsiva, segundo os conhecimentos teóricos do nosso médico, era fruto da irritação dos órgãos que, por influência simpática de uns sistemas sobre os outros, teria afetado diversas regiões do corpo. A doença tinha vários sintomas, como elucidado anteriormente: espasmos, comas, êxtases periódicos e rigidez dos membros que, durante o sono, se alterariam, promovendo convulsões.

No entanto, sem deixar a postura de naturalista de lado, ele classifica a catalepsia “em perfeita e imperfeita; em simples e composta; em legítima e espúria”.86 E para mostrar a profundidade de suas pesquisas oferece as classificações da catalepsia, fornecidas pelos médicos que estudaram a moléstia, apresentando as ordens e o gênero classificado por cada autor. Ele citou, por exemplo, François Boissier de Sauvages (1706-1767), na obra Nosologie méthodique (...) (1763), e deu ênfase novamente ao trabalho de Alexander Crichton, utilizando-o como referência para caracterizar a catalepsia como convulsiva.87Gomide também retomou as classificações de Pinel e outros teóricos. Com base no alienista francês, situou a enfermidade como pertencente à classe IV da Nosografia Filosófica, dedicada às neuroses, e na ordem II, referentes aos espasmos.88

O médico mineiro ressaltou que, no caso da irmã Germana, os jejuns realizados em maior intensidade, em determinados dias da semana e motivados por práticas devocionais, acabaram por contribuir para que a beata entrasse num estado de êxtase causado por sua moléstia.

Ele destacou ainda os riscos de uma epidemia de catalepsia entre as mulheres que circulavam na Serra da Piedade, pois “a visão repetida dos sintomas nervosos poderia gerar um espetáculo imitável aos nervos e músculos de cada uma”.89

O médico não prolongou uma discussão sobre as solicitações de outras beatas que desejavam fundar uma casa religiosa junto à irmã Germana, mas certamente estava ciente da centralidade do êxtase da irmã sobre as outras devotas. Ele destaca na sua Impugnação Analítica...que a vida contemplativa - e ociosa - somente poderia resultar nos excessos de imaginação, em desregramentos morais, que, por sua vez, promoveriam os desarranjos do sistema nervoso, disseminando catalépticas. Enfim, os fatores comportamentais e socioculturais influenciavam, na visão do médico, a erupção da enfermidade, confirmando a dimensão histórica da doença e reforçando as concepções de Pinel de que “a vida social e a imaginação ardente (...) dão lugar frequentemente a inversão da razão”.90

Doutor Gomide, após finalizar o diagnóstico de catalepsia, criticou os cirurgiões pelas declarações que não lhes cabiam, e destacou que Antônio Pedro de Sousa e Manoel Quintão tinham por obrigação organizar um plano de cura para a beata, pois, caso contrário, ela poderia “ficar louca, ou morrer apoplética em algum dos acessos”.91 Gomide ofereceu algumas possibilidades terapêuticas que poderiam ser adotadas para a cura da enfermidade da beata. Dessa forma, indicou a eletricidade, pelo método do galvanismo, ressaltando os bons resultados para estes casos.92

O médico também recomendou o ferro, o cobre, e o zinco, usados largamente na época, além de outras substâncias naturais, como o amoníaco e o éter, que inclusive foram admitidas na terapêutica da loucura. Em relação a essas substâncias, acreditava-se que elas entravam pelo corpo aderindo todo o interior do organismo e melhorando as alterações causadas pelos nervos.93 Gomide, sugeriu também a quina, a valeriana, a arnica e inclusive a transfusão de sangue, como possíveis tratamentos.

No entanto, a partir das indicações terapêuticas do médico, percebe-se que havia a intenção de Gomide de mostrar aos cirurgiões e demais leitores de sua obra o quanto ele era conhecedor dos meios disponíveis para a cura da enfermidade da beata. Enfim, ele queria demonstrar que era um médico inteirado sobreas discussões disseminadas entre os representantes dos saberes médicos da ciência moderna.94

Conclusão

A leitura da Impugnação Analítica (...), sobretudo nos trechos em que o doutor Gomide se dirige aos cirurgiões, em seus ataques virulentos, nos mostra que ele buscava despertar o interesse dos leitores. Buscava, inclusive, orientar seus pares para a importância da medicina científica. Sua obra era “um livro à procura de leitores”.95 O médico mineiro era um intelectual que gostava de se exibir em plano de igualdade com os europeus, como alguém inserido nas grandes questões da época. Era um daqueles intelectuais, conforme destaca Maria O. S. Dias, que desejava “a cada página lembrar e afirmar a sua participação na comunidade de sábios e ilustrados do seu tempo. (...) Crentes no poder da razão, (...) e na função pragmática da ciência”.96

Assim como os demais homens de ciência no Brasil, Gomide buscava se situar diante da ciência europeia e esperava, através de sua obra, legitimar as práticas médicas e capitanear apreciadores de sua obra. Como vimos anteriormente, na tentativa de construir alianças e mobilizar aliados entre os médicos diplomados, era comum a luta dos médicos contra os cirurgiões práticos. O historiador Licurgo dos Santos Filho, fazendo menção à obra de Gomide, declara que “contendas de elevado espírito científico, [e] controvérsias sobre assuntos médicos ou cirúrgicos foram frequentes”.97

Gomide tinha como alvo também os demais leitores da Corte: os médicos e cirurgiões, os oficiais e “administradores-políticos” da Fisicatura, que começavam a debater sobre medicina e charlatanismo. Não podemos esquecer que Gomide apresentou sua Impugnação...à Imprensa Régia, enviando seu texto ao físico-mor da Corte.98

A Impugnação Analítica...teve boa receptividade no período, a exemplo da declaração do redator do jornal Gazeta do Rio de Janeiro, na edição de 1814, afirmando que o discurso do doutor Gomide foi merecedor da atenção de ilustrados professores de Medicina.99

Certamente essa era uma meta do médico: inserir seu nome entre as opções teóricas para o estudo das afecções nervosas. No entanto, a maior novidade da obra de Gomide foi a construção teórica sobre a catalepsia, compreendendo o estado extático da beata como uma anomalia nervosa, como um “rudimento da epilepsia” no início do século XIX, no Brasil.

A Impugnação Analítica (...), apoiada nos estudos clássicos de médicos que participaram da constituição da medicina mental moderna do XIX, como Philippe Pinel, contribuiu para inserir a medicina brasileira do início do século XIX no âmbito das discussões acerca das doenças nervosas. Não há dúvidas de que a obra influenciou as futuras ações da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, que passou a defender a necessidade de construção de hospícios para os alienados, seguindo o modelo pineliano do tratamento moral.

A Impugnação Analítica...pode, ainda, ser vista como um dos primeiros estudos sobre o alienismo no Brasil. As análises sobre as doenças nervosas, empreendidas pelo médico, colaboraram para a sistematização dos saberes médicos luso-brasileiros sobre a alienação mental no Brasil.

Enfim, o conhecimento científico acerca da alienação já circulava no país pelo menos desde a década de 1810, o que abre a possibilidade de uma releitura da historiografia acerca do estabelecimento do alienismo no Brasil. Espera-se que as reflexões aqui apresentadas possam colaborar para o crescente debate sobre essa especialidade médica moderna no Brasil, entre fins do século XVIII e XIX.

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Fonte

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1mpugnação Analítica..., do exame feito pelos clínicos Antônio Pedro de Sousa e Manuel Quintão da Silva em huma rapariga que julgaram santa na Capela de Nossa Senhora da Piedade da Serra, próxima à Vila Nova da Rainha do Caeté. Comarca do Sabará, offerecida ao ilustríssimo Senhor Doutor Manoel Vieira da Silva Primeiro Médico da Comarca de Sua Alteza Real, e de seu Conselho, Fidalgo da Casa Real, Physico Mor do Reino, Estados e Domínios Ultramarinos, Comendador das Ordens de Christo e da Torre Espada e Provedor Mor da Saúde. Acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro - Brasil (BNRJ). Setor de obras raras. Loc. OR00063 [4]. A obra tem título extenso, portanto usarei a forma abreviada “Impugnação Analítica...”, para facilitar a leitura.

4Observa-se que o médico se refere aos cirurgiões como clínicos. Como um representante do espírito iluminista, é possível que o doutor Gomide compreendesse o significado da palavra clínico conforme o apresentado na Encyclopédie: aquele que observa o doente em seu leito. Sendo assim, pode-se pensar que o médico quisesse situar o termo ”clínico” como aquele que apenas observava o doente, sem nenhum conhecimento de semiologia ou outra ciência. Cf. D’ALEMBERT, Jean de Rond. Clinique. In:Encyclopedie ou dictionaire reisonné des sciences, des arts et des métiers, par une societé des gens de lettres, mis en ordre et publiê par M. Diderot et M. D’Alembert.35 volumes.Paris:Chez Briasson, 1751-1780. (Tradução nossa).

5Sobre as publicações da Imprensa Régia, cf. CAMARGO, Ana Maria de Almeida; MORAES, Rubens Borba. Bibliografia da Impressão Régia do Rio de Janeiro (1808-1822). São Paulo: Edusp; Kosmos, 1993.

6SILVA, Simone S. de Almeida. Iluminismo e ciência luso-brasileira: uma semiologia das doenças nervosas no período joanino. 2012.245f. Tese (Doutorado em História das Ciências e da Saúde). Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, Rio de Janeiro, 2012.

7GOMIDE, Antônio G. Impugnação Analítica (...). Op. cit., p. 1.

8A sua visita à Serra da Piedade e à irmã Germana ocorreu em 1818 e foi descrita em Voyage dans le district des diamants et sur le litoral du Brésil (Viagem pelo distrito dos diamantes e litoral do Brasil), cuja primeira edição francesa é de 1833, em dois volumes.

9SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem pelo Distrito dos Diamantes e Litoral do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, 1974. A presente transcrição foi retirada da tradução brasileira de 1974, idêntica à de 1941. Cf. SAINT-HILAIRE, Auguste. Viagens pelo distrito dos diamantes e litoral do Brasil. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1941, pp. 117-123.

10No século XIX, configuraram-se diferentes medicinas no Brasil. Uma, oficial, era representada pelos médicos, diplomados nas universidades europeias e outra pelos cirurgiões. Havia ainda outros praticantes de cura que não ocupavam lugar no rol das profissões, como os boticários e barbeiros. Mais populares, os últimos se dedicavam apenas as atividades manuais de cura. Cf. PIMENTA, Tânia S. Artes de curar: um estudo a partir dos documentos da Fisicatura-mor no Brasil do começo do século XIX. São Paulo: Editora Unicamp,1997.

11FERREIRA, L. Otávio. O Nascimento de uma instituição científica: o periódico médico brasileiro na primeira metade do século XIX. 1996. (Tese de Doutorado). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1996.p. 52.

12DANTES, Maria Amélia. Fases da Implantação da Ciência no Brasil. Quipu, vol. 5, n. 2, pp. 265-275, mai/ago.1988.

13O termo alienismo é aqui considerado no sentido que lhe era atribuído no início do século XIX, referindo-se àquele doente que era alienado dos outros e de si mesmo. O termo alienação mental foi utilizado em 1625 pelo médico suíço, Felix Plater. Esse conceito se tornou base da nosografia do século XIX e foi usado por Philippe Pinel para designar as doenças mentais daqueles internos nos hospícios.

14Sobre esta temática, ver: DOMINGUES, Ângela. Para um melhor conhecimento dos domínios coloniais: a constituição de redes de informação no império português em final dos setecentos. História, Ciências, Saúde-Manguinhos, Rio de Janeiro, vol. VIII (suplemento), pp. 823-838, 2001. E também PESTRE, Dominique. Por uma nova história social e cultural das ciências: novas definições, novos objetos, novas abordagens. Cadernos IG/Unicamp, vol.6, n. 1, 1996.

15DANTES, Maria Amélia (org.). Espaços da Ciência no Brasil.1800-1930. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2001.

16Idem. Fases da implantação da Ciência no Brasil. Quipu, v.5, n. 2, pp.265-275, 1988.

17SHAPIN, Steven. A Revolução Científica. Lisboa: Difel, Coleção Memória e Sociedade, 1999.

18Idem. A social history of truth. apud EDLER, Flávio. A História das ciências sociais e seus públicos. Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n.13, pp. 22-23, dez. 2015.

19O registro paroquial de nascimento da irmã Germana declara que: “aos dois de fevereiro de mil setecentos e oitenta e dois batizei e pus os santos óleos a Germana, filha legitima de Marco Gonçalves Correa e Maria de Nazareth: foram padrinhos o Alferes João Gonçalvez Correa e Francisca Goncalvez Re (sic), de que faz este assento”. O documento tem assinatura do Vigário Joaquim Ferreira Barros. Cf. Livros de registros de batismos: Caeté e Morro Vermelho (século XVIII e XIX). Registro de Nascimento. Paróquia de Caeté. Batizados 1759-1807. p. 82. CEDIC-BH. É importante destacar que as devotas tinham o hábito de alterar o nome após o ingresso na vida religiosa, o que explica o nome adotado pela beata, Germana Maria da Purificação.

20O padre José Gonçalves era um diretor espiritual da irmã Germana, uma espécie de orientador da vivência religiosa da irmã. Tinha muita consideração pela beata e sua devoção, e elegeu o nome de Germana para compor um catálogo que reunia os brasileiros considerados pessoas de honra para a pátria e modelo a ser seguido. SOUZA, Joaquim S. Sítios e personagens. São Paulo: Typographia Salesiana, 1897. p. 343.

21KURY, Lorelai B. Auguste de Saint-Hilaire: viajante exemplar. Revista Intellèctus, Rio de Janeiro, Universidade Estadual do Rio de Janeiro, ano 2, n.1, 2004a. Disponível em: <http://www.intellectus.uerj.br/Textos/Ano2n1/Texto%20de%20%20Lorelai%20Kury.pdf>. Acesso em: 20 jan. 2011. O naturalista que publicou sua viagem ao Brasil registrou sua visita a Minas Gerais entre os anos de 1816 e 1822.

22A primeira edição de Viagem pelo distrito dos diamantes e litoral do Brasil foi redigida em francês, de 1833, impressa em dois volumes. A obra foi publicada como a segunda parte de Voyages dans l’intérior du Brésil. Na edição de 1833 (Paris: Gide), o trecho sobre Germana se encontra no volume 1, p. 142-149.

23Em visita à Serra da Piedade em 2001, após a leitura do relato do naturalista, foi possível conferir a fidelidade e riqueza de detalhes da descrição realizada por Saint-Hilaire sobre o aspecto geológico da serra. A descrição das espécies botânicas oferecida pelo naturalista é muito similar à realidade encontrada naquela localidade.

24SAINT-HILAIRE, Auguste. Viagem pelo Distrito...Op. cit., p. 68.

25Ibidem, p. 69.

26 ALGRANTI, Leila M. Honradas e devotas: mulheres da colônia, condição feminina nos conventos e recolhimentos do sudeste do Brasil, 1750-1822. Rio de Janeiro: José Olympio; Brasília: UNB, 1993. p. 299.

27O diretor espiritual era o padre que acompanhava de perto a vida religiosa das devotas, administrando os sacramentos, ouvindo-as em confissão. SAINT-HILAIRE, Auguste. Viagem pelo Distrito...Op. cit., p.68.

28Ibidem, p. 70

29Ibidem, p.70.

30Ibidem, p. 68.

31Saint Hilaire acrescenta uma nota em seu texto apresentando o título e o local de publicação da obra de Gomide, e incluí detalhes das argumentações do médico em prol de um diagnóstico médico-científico para os episódios apresentados pela beata. Ibidem p.69.

32Pedido para a fundação de um recolhimento. Clara da Paixão de Jesus. Mesa do Desembargo do Paço, caixa 130, pacote 2, doc. 50, 7/07/1817. Arquivo Nacional do Rio de Janeiro. O bispo Dom Cipriano nasceu em Lisboa em 12 de novembro de 1743 e morreu em Mariana em 14 de agosto de 1817. Dom Cipriano trabalhou na diocese de Mariana e foi considerado um bispo rigoroso, disciplinador das manifestações de religiosidade popular.

33A fundação das casas religiosas no Brasil necessitava de estatutos reconhecidos e aprovados pelo bispo e pelo rei, afinal estas casas religiosas eram custeadas pelo reino. A participação do rei nos assuntos da Igreja dava-se em função do Padroado, que mantinha o controle de nomeação de párocos e construção de capelas e conventos.

34Não há informações precisas sobre o ano em que ocorreu a interdição do bispo no santuário. No entanto, é possível que esta tenha se dado entre 1814, data das primeiras manifestações de êxtases na serra, e 1817, ano final do bispado de frei Cipriano. SAINT-HILAIRE, Auguste. Viagem pelo Distrito...Op. cit., p. 69.

35Não foi possível encontrar documentos como requerimentos ou cartas pastorais, originadas do pedido encaminhado ao rei pela população interessada na continuidade das missas na Serra. Também não encontramos algo proveniente das determinações do bispo D. Cipriano acerca da realização das missas e da permanência do padre José e de Germana naquela localidade.

36Segundo Lúcio Sena, Antônio Pedro de Sousa era cirurgião que “residia e clinicava em Santa Luzia, região próxima a Serra da Piedade”. Sobre Manuel Quintão da Silva, ele afirma que o cirurgião nasceu nas últimas décadas do século XVIII, na região do Mato Dentro (próximo a Sabará e Caeté) e formou-se em Coimbra. Cf. SENNA, Lúcio. Médicos Mineiros no Brasil colônia, no império e na república. Belo Horizonte: Editora Agir, 1947. p. 47 e 93. Ainda sobre Antônio Pedro de Sousa, verificamos um registro de matrícula de Joaquim Fernandes de Souza na Academia Médico-cirúrgica do Rio de Janeiro, em que se lê “Joaquim Fernandes de Souza, filho de Antônio Pedro de Sousa, natural de Minas Gerais, matriculou-se no segundo ano dos estudos médico-cirúrgicos”. Cf. Transcrição do livro de registro de alunos da Academia médico-cirúrgica. Disponível em: <http://www.museuvirtual.medicina.ufrj.br/painel/arquivos_obras/15032006135626.pdf>. Acesso em: 30 de mar.2009.

37Para análise da fisicatura no Brasil, ver: PIMENTA, Tânia S. Artes de curar... Op. cit. p.22.

38O cirurgião português atuou na Bahia e Minas Gerais no século XVIII. Cf. FERREIRA, Luís Gomes. Erário Mineral. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, Centro de Estudos Históricos e Culturais; Rio de Janeiro, Fundação Oswaldo Cruz,2002. p. 225-26.

39As declarações, com data de 1814, foram, segundo Saint-Hilaire, redigidas, copiadas e distribuídas. SAINT-HILAIRE, Auguste. Viagem pelo Distrito...Op. cit., p. 69.

40GOMIDE, Antônio Gonçalves. Impugnação Analítica (...). Op. cit.

41No texto do doutor Gomide, o termo usado foi dismenorragia.

42Antônio Pedro de Sousa e Manuel Quintão da Silva. Cf. GOMIDE, Antônio G. Impugnação Analítica (...). Op. cit., p.7.

43Ibidem, p. 8.

44As palavras dos cirurgiões, conforme veremos, são idênticas às palavras apresentadas adiante pelo doutor Gomide. Antônio Pedro de Sousa e Manuel Quintão da Silva. Ibidem, p. 8.

45Ibidem, p. 8.

46Ibidem, p. 8.

47Ibidem p. 8.

48Impugnação, ato de impugnar, que por sua vez significa contrariar, refutar com razões alguém sem razão, doutrinas e etc. SILVA, Antonio Moraes. Diccionario da lingua portugueza - recompilado dos vocabularios impressos até agora, e nesta segunda edição novamente emendado e muito acrescentado, por ANTONIO DE MORAES SILVA. Lisboa: Typographia Lacerdina, 1813. p. 140. Analítico, em que se segue o método de análises, dividindo e tratando em detalhes cada um dos elementos, partes e membros de qualquer todo, físico, matemático, moral, histórico, simplificando as noções. SILVA, Antonio Moraes. Diccionario da lingua portugueza - recompilado dos vocabularios impressos até agora, e nesta segunda edição novamente emendado e muito acrescentado, por ANTONIO DE MORAES SILVA. Lisboa: Typographia Lacerdina, 1813. p.129. Disponível em: <http://dicionarios.bbm.usp.br/pt-br/dicionario/2/impugna%C3%A7%C3%A3o>. Acesso em set. de 2018.

49Manoel Ferreira da Silva foi o médico acompanhou a família real na viagem ao Brasil em 1808. Era físico-mor da saúde (um tipo de fiscal das práticas de cura) e se dedicava às questões de saúde pública e higiene.

50GOMIDE, Antônio G. Impugnação Analítica (...). Op. cit., p.8.

51Ibidem, p. 1.

52Antônio Pedro de Sousa e Manuel Quintão da Silva. GOMIDE, Antônio Gonçalves. Impugnação Analítica (...). Op. cit., p. 8.

53LAQUEUR, Thomas. Corpos, detalhes e narrativas humanitárias. In: HUNT, Lynn. A Nova História Cultural. São Paulo: Martins Fontes, 1992. p. 247. Sobre a medicina clínica, ver: FOUCAULT, Michel. O nascimento da clínica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1994.

54E. Darwin foi membro de algumas sociedades filosóficas, científicas e literárias, como a Lunar Society, importante sociedade do século XVII e centro irradiador do iluminismo inglês. Ele defendia a ideia de um mundo livre da superstição e da ignorância religiosa e escreveu, entre outras obras, The botanic Garden (1789-1791) e Zoonomia ou Lês lois de l’avie organique (1792-1794-1796). Cf. SOARES, Luiz Carlos. A Albion Revisitada: ciência, religião, ilustração e comercialização do lazer na Inglaterra do século XVIII. Rio de Janeiro: 7 Letras, Faperj, 2007. p. 120.

55GOMIDE, Antônio Gonçalves. Impugnação Analítica... Op. cit., p.17-22.

56Na obra Table of Diseases, de A. Crichton, a catalepsia situava-se na classe 4, ordem 5 e gênero 176. BRADELY, T.; BATTY, R.; NOEHDEN, A. The Medical and Physical Journal. A synoptical table of diseases, exhibiting their Arrangement in Classes, Orders, Genera and Species, designed for the Use of Students, by A. Crichton. Vol. XI, 1804. Londres: Richard Phillips. p. 381. Sobre os demais médicos citados, ver: HOSACK, David. A system of pratical nosology to which is prefixed a synopsis of the systems de Sauvages, Linneus, Vogel, Sagar, Macbridge, Cullen, Darwin, Crichton, Pinel Par, Swediaur, Young, and Good with references to the best authors on each diseases. Nova Iorque: Van Winkle, 1821.

57Na Impugnação Analítica (...), a parte citada da obra do doutor é seção 7: catalepsis. Cf. HOME, Francis Principia Medicinae, 1775. Amstelo Dami: Sumptibus Fratrum de Tournes, 4ªed. Disponível em: <http://books.google.com.br/books?id=SkkUAAAAQAAJ&printsec=frontcover&dq=principia+medicinae+francis+home&hl=pt-BR&ei=sy->. Acesso em: 24 maio 2011.

58HIPÓCRATES. Da Doença Sagrada. In: Cairus, Henrique F. Os limites do sagrado na nosologia hipocrática. Rio de Janeiro: UFRJ, Faculdade de Letras, 1999. 175fls. Tese de Doutorado em Língua e Literatura Grega p.63.p.42-3. PINEL, Philippe. Nosographie Philosophique ou la méthode de l’analyse appliquée à la medicine.Paris: Ches Maradan, 1797. Galeno contribuiu fortemente para a medicina hipocrática. Suas ideias médico-filosóficas ficaram definitivamente associadas à obra de Hipócrates (século IV a. C), autor de variadas obras que reunidas, conformaram a Coleção Hipocrática. Sobre a medicina grega consultar: MARTINS, L. Al-C. P.; SILVA, P.J.C. & MUTARELLI, S.R.K. A teoria dos temperamentos: do corpus hippocraticum ao século XIX. Memorandum, n.14, p. 09-24, 2008. Disponível em http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/a14/martisilmuta01.pdf>. Acessado em maio de 2011. Sobre Ph. Pinel consultar: PINEL, Philippe. Nosographie Philosophique ou la méthode de l’analyse appliquée à la medicine. Paris: Ches Maradan, 1797.

59As análises de Foucault foram baseadas a partir da reflexão dos trabalhos médicos que colaboraram para o desenvolvimento dos estudos em torno da histeria no período, tais como Tissot, Pressauvin, Raulin e Hunauld. Cf. FOUCAULT, Michel. História da Loucura. São Paulo: Perspectiva, 2007. p. 277.

60A primeira edição da Nosographie Philosophique data de 1798. Em 1810, a Nosographie Philosophique estava em sua quarta edição, sendo a quinta edição datada de 1815.

61BERRIOS, German E. Delirium e confusão mental no século XIX: uma história conceitual. Rev. Latinoam. Psicopat. Fund., São Paulo, v. 14, n. 1, p. 166-189, março 2011. p. 170.

62ODA, Ana M. G. R.; DALGALARRONDO, Paulo. Apresentação. In: PINEL, Philippe. Tratado médico filosófico sobre a alienação mental ou a mania. Porto Alegre: Editora UFRGS, 2007. p. 19.

63Sobre Philippe Pinel, ver POSTEL, J.Genèse de la psychiatrie: les premiers écrits de Philippe Pinel. Paris :Institut Synthélabo pour le progrès de la connaissance, 1998. POSTEL, J.; QUÉTEL, C. Historia de la psiquiatría. México: Fondo de Cultura Económica, 1993. BERCHERIE, Paul. Os fundamentos da clínica: história e estrutura do saber psiquiátrico. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 1989.

64Para ver sobre esse tema, consultar CONRAD, Lawrence et al. Histoire de la lutte contre la maladie. La tradition médicale occidentale de l’Antiquité à la fin du siècle des Lumières. Le Plessis-Robinson: Institut synthélabo pour le progrès de la connaissance, 1999.

65Alienista resulta do termo alienação que, para Pinel, era um “termo feliz para expressar em toda a sua extensão as diversas lesões do entendimento”. Cf. PINEL, Philippe. Tratado médico filosófico... Op. cit., p. 161.

66PINEL, Philippe. Nosografia filosófica ou o método de análise aplicada a medicina. Tradução Luis Guarnerio y Allavena. Madri: Imprensa Real. 1803. Disponível em: <http://books.google.com/books?id=IPWrX7xAuu8C&pg=PP5&dq=Nosografia+Filosofica&ei=_8jwTeKRHIndUMPDjPwI&hl=pt-BR&cd=5#v=onepage&q&f=false> Acesso em:10 maio 2010.

67BERCHERIE, Paul. Os fundamentos da clínica... Op. cit., p.34.

68PINEL, Philippe. Tratado médico filosófico... Op. cit., p. 59.

69Ibidem, p. 54.

70Ibidem, p. 238.

71Compreendemos o termo economia animal, usado pelo alienista, no sentido de equilíbrio da razão. Cf. Ibidem, p. 55.

72BIRMAN, J. A psiquiatria e o discurso da moralidade. Rio de Janeiro: Graal, 1978. p. 82.

73SWAIN, Glayds. Da ideia moral da loucura ao tratamento moral. Revista Análise Psicológica, Lisboa, vol. 3, n.1, 1981, p. 343.

74PINEL, Philippe. Tratado médico-filosófico...Op. cit., p.215-219 e 225-229.

75Philippe Pinel destacou a facilidade de realização deste trabalho quando pôde assumir a função de diretor do hospício de Bicêtre. Ibidem, p. 71-2.

76O termo mania era utilizado por Pinel para designar as loucuras gerais, manifestadas por excitação motora e comprometimento das funções do entendimento (intelectuais). Ibidem, p.30.

77Os contornos dessa enfermidade oferecidos por Pinel são bem observados na Nosografia Filosófica, quando a catalepsia aparece no capítulo sobre as neuroses, especificamente na seção dedicada às afecções comatosas. PINEL, Philippe. Nosografia filosófica ou o método de análise aplicada a medicina. Tomo II.1798. p.148.

78Ibidem, p.148.

79GOMIDE, Antônio Gonçalves. Impugnação Analítica...Op. cit., p. 29.

80Uma das preocupações foi depurar as indicações de Gomide, buscando identificar o que ele apresentava de leituras retiradas de Pinel e o que ele trazia de outras fontes de pesquisa.

81Para mais informações sobre a circulação dos saberes sobre doenças nervosas, consultar a pesquisa de Monique S. Gonçalves, que apresenta o papel do periodismo médico na segunda metade dos oitocentos como legitimador do conhecimento científico. Suas abordagens em torno da presença dos periódicos médicos no Brasil colaboram para elucidar as questões relativas aos textos estrangeiros e à conformação dos saberes sobre as doenças nervosas na medicina brasileira. Cf. GONÇALVES, Monique de Siqueira. Mente sã, corpo são: disputas, debates e discursos médicos na busca pela cura das “nevroses” e da loucura na Corte imperial (1850-1880). 2011. 244f. Tese (Doutorado em História das Ciências e da Saúde). Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, Rio de Janeiro, 2011.

82GOMIDE, Antônio Gonçalves. Impugnação Analítica (...). Op. cit., p.26.

83Profetizas inglesas Michelson e Izabel B. D’Alington. Cf. HUME, David. História da Inglaterra. Barcelona: 1842. Doutor Gomide se refere às mulheres como pitonisas, em alusão à mitologia grega da profetisa Pítia que, durante as profecias, se inspirava nos vapores vindos de uma fenda na pedra.

84Alexander Crichton publicou: “An Inquiry into the Nature and Origin of Mental Derangement: Comprehending a Concise System of the Physiology and Pathology of the Human Mind, and a History of the Passions and their Effects, 2 vols (London: T. Cadell, Junior, & W. Davies). Disponível em: <https://archive.org/details/b21914886/page/n5>. Acesso em 25 de mar. 2018. E Vincenzio Chiarugi, Della Pazzìa in Genere, e in Specie - Trattato Medico-Analitico, con una Centuria di Osservazioni (Firenze: Presso Luigi Carlieri 1794 Tomo I, 1794 Tomi II e III). Disponível em: < https://gallica.bnf.fr/services/engine/search/sru?operation=searchRetrieve&version=1.2&query=%28%28dc.creator%20all%20%22Chiarugi%2C%20Vincenzo%22%20or%20dc.contributor%20all%20%22Chiarugi%2C%20Vincenzo%22%29%29&keywords=Chiarugi,%20Vincenzo&suggest=2> Acesso em 5 nov 2018.

85PINEL. Philippe. Tratado médico-filosófico...Op. cit., p.61.

86GOMIDE, Antônio Gonçalves. Impugnação Analítica...Op. cit., p. 26.

87Ibidem, p.28.

88A. Crichton, na obra A Synoptical Table of Diseases, situou a catalepsia como “neuroses ou doenças nervosas”, inserida na classe 4, ordem 5 e gênero 176. BRADELY, T.; BATTY, R.; NOEHDEN, A. The Medical and Physical Journal. Op. cit., p. 381.

89Sagar (Classe 9, Ordem 5, Gênero 282); Sauvages (Classe 6, Ordem 5, Gênero 176); Lineu (Classe 7, Ordem I, Gênero129); Vogel (Classe 6, Gênero 230); Pinel (Classe 4, Ordem 4, Gênero 62); Darwin (Zoonomia, Classe 3, Ordem 2, Gênero I, Espécie 9); Swediaur (Classe 3, Ordem 4, Gênero147); A. Crichton (Table of Diseases, Classe 4, Ordem 3, Gênero 4). Cf. GOMIDE, Antônio Gonçalves. Impugnação Analítica...Op. cit., p.17-22.

90GOMIDE, Antônio Gonçalves. Impugnação Analítica...Op. cit., p.28.

91PINEL, Philippe. Tratado médico-filosófico...Op. cit., p.55.

92GOMIDE, Antônio Gonçalves. Impugnação Analítica...Op. cit., p. 24.

93O galvanismo foi desenvolvido pelo médico italiano Luigi Galvani (1737-1798). Sua teoria propunha o uso da eletricidade sobre nervos e músculos para a cura de enfermidades como a paralisia. Tal terapêutica também foi indicada para reanimar o corpo morto.Cf. PORTER, Roy. La dix-huitième siècle. In: CONRAD, Lawrence et al. Histoire de la lutte contre le maladie...Op. cit., p. 411

94Era usual o emprego, nas terapêuticas para os males dos nervos, de remédios provenientes do reino mineral, bem como de substâncias retiradas do organismo humano. Além destas substâncias minerais, os médicos tinham apreço também por algumas espécies vegetais, como a assa-fétida, ou aquelas extraídas dos vegetais, como o ópio. Cf. FOUCAULT, Michel. História da Loucura. Op. cit.,p.300-305.

95Doutor Gomide, como a maioria dos médicos, buscava se diferenciar dos cirurgiões através de um discurso civilizador e representativo do pensamento ilustrado. A formação acadêmica sempre surgia como argumento de distinção entre médicos e cirurgiões Cf. PIMENTA, Tânia S. Artes de curar...Op. cit., p. 66.

96Cristiana Facchinetti, em análise do Tratado médico-filosófico...de Pinel, diz que “o Tratado é um livro à procura de leitores”. Da mesma maneira que Facchinetti considera a proposição da obra pineliana, acredita-se que a obra de Gomide também se constituiu como um texto em busca de leitores e interlocutores, uma obra concebida como porta-voz do progresso, com a missão de legitimar o conhecimento científico sobre as doenças nervosas. Cf. FACCHINETTI, Cristiana. Philippe Pinel e os primórdios da Medicina Mental. Rev. Latinoamericana de psicopatologia fundamental.São Paulo, v.11, n.3, set. 2008. p.504. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rlpf/v11n3/14.pdf>. Acesso em set.2011.

97DIAS, Maria O. S. Aspectos da Ilustração no Brasil. Revista do IHGB, Rio de Janeiro, 1968, p.134. Segundo Maria O. S. Dias, boa parte do material produzido pela Imprensa Régia entre 1809 e 1814 voltava-se para a tradução de manuais de medicina, como os trabalhos de Bichat, Cabanis, Cullen, Duncan e outros. Ibidem, p.141.

98O historiador, no clássico História da Medicina no Brasil, faz essa citação mencionando a contenda iniciada pelo doutor Gomide, e apresenta a Impugnação Analítica..., destacando sua “grande erudição, com farta citação de autores antigos e modernos”. Cf. SANTOS FILHO, Licurgo. História Geral da Medicina Brasileira. vol. II. São Paulo: Edusp/Hucitec, 1991.p. 102.

99A Imprensa Régia, primeira tipografia do Brasil, foi criada em 13 de maio de 1808 com o objetivo de publicar os documentos oficiais do governo e também obras, como papéis diplomáticos, obras poéticas e de ficção e compêndios traduzidos de medicina e cirurgia. Cf. MORAES, Rubens Borba de. A impressão régia no Rio de Janeiro. In: CAMARGO, Ana M. A., MORAES, Rubens Borba de. Bibliografia da Impressão Régia do Rio de Janeiro (1808-1822). São Paulo: Edusp; Kosmos, 1993. p. xxii.

100GAZETA DO RIO DE JANEIRO. n. 106, 18 de dezembro de 1814. In: OLIVEIRA, José Carlos. A Cultura Científica e a Gazeta do Rio de Janeiro. Revista SBHC, n. 17, pp. 29-58, 1997.

Recebido: 19 de Junho de 2018; Aceito: 10 de Novembro de 2018

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Doutora em História das Ciências e da Saúde - Casa de Oswaldo Cruz/FIOCRUZ-RJ. (2012). Pós-doutorado no Programa de Pós-graduação em História na Universidade Federal do Espírito Santo/UFES, com bolsa Fapes/Capes. A autora tem pesquisas na história dos saberes médicos no Brasil com estudos sobre a difusão de ideias médico-científicas e em torno dos saberes psi entre os séculos XVIII e XIX. Atualmente desenvolve pesquisas em torno da história da lepra. Email: si33santos@yahoo.com.br.

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