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Hoehnea

On-line version ISSN 2236-8906

Hoehnea vol.36 no.4 São Paulo  2009

https://doi.org/10.1590/S2236-89062009000400010 

Anatomia comparada do lenho de Piptadenia gonoacantha (Mart.) J.F.Macbr. em dois tipos de vegetação

 

Comparative wood anatomy of Piptadenia gonoacantha (Mart.) J.F.Macbr. in two vegetation types

 

 

Eduardo Luiz LonguiI,*; Alaor BufoloII; Osny Tadeu de AguiarI; Israel Luiz de LimaI; Sandra Monteiro Borges FlorsheimI

IInstituto Florestal, Caixa Postal 1322, 02377-000 São Paulo, SP, Brasil
IIFaculdades Oswaldo Cruz, R. Brigadeiro Galvão 540, 01151-000 São Paulo, SP, Brasil

 

 


RESUMO

A anatomia ecológica tem como objetivo correlacionar as estruturas morfológicas e anatômicas das plantas com dados climáticos, geográficos e do solo. Nesse contexto, avaliaram-se as diferenças qualitativas e quantitativas no lenho de árvores de pau-jacaré -Piptadenia gonoacantha procedentes do Parque Estadual Cantareira (PEC) e da Estação Ecológica de Caetetus (EEC), áreas respectivamente de Floresta ombrófila densa e Floresta estacional semidecidual. Os parâmetros anatômicos foram analisados seguindo técnicas usuais em anatomia de madeira e os dados avaliados por meio de análise de variância (ANOVA) e teste de comparações múltiplas. Os resultados revelaram diferenças estatisticamente significativas, sendo que indivíduos do PEC apresentaram maior frequência de vasos, raios mais baixos, largos e mais frequentes, além de fibras com maior diâmetro. Os indivíduos da EEC mostraram maior índice de vulnerabilidade e vasos com pontoações menores. As diferenças encontradas no lenho dos espécimes dos dois locais podem ser decorrentes de variações de temperatura, pluviosidade, altitude, latitude e longitude, embora um número maior de indivíduos deva ser analisado para se estabelecer possíveis tendências ecológicas.

Palavras-chave: Piptadenia gonoacantha, anatomia da madeira, pau-jacaré


ABSTRACT

Ecological anatomy aims to correlate the morphological and anatomical structures of plants with climatic, geographic and soil data. This study evaluated the qualitative and quantitative differences in the "pau-jacaré" wood -Piptadenia gonoacanthatrees from Cantareira State Park (PEC) and Caetetus Ecological Station (EEC), respectively areas of Dense Ombrophylous Forest (Atlantic Forest) and Semi-deciduous Seasonal Forest. The anatomical parameters were analyzed according to usual techniques of wood anatomy and the data evaluated by analysis of variance (ANOVA) and multiple comparison tests. The results revealed statistically significant differences: trees from PEC had higher vessels frequency, lower, wider and more frequent rays, and fibers with larger diameters. In turn, trees from EEC showed higher vulnerability index and smaller pith vessels. The differences found in the wood specimens of the two sites could be due to variations in temperature, rainfall, altitude, latitude and longitude, although a larger number of individuals should be studied to determine possible ecological trends.

Key words: Piptadenia gonoacantha, wood anatomy, pau-jacaré


 

 

Introdução

A anatomia ecológica tem como objetivo correlacionar as estruturas morfológicas e anatômicas das plantas com dados climáticos, geográficos e do solo e, apesar das folhas terem sido o principal foco de investigação da anatomia ecológica ao longo dos anos, há algumas décadas têm-se desenvolvido muitos trabalhos que avaliam a estrutura da madeira (Dickison 2000).

Podem ser citados alguns trabalhos que relacionaram a anatomia do lenho com diferentes condições latitudinais e tipos de vegetação, tais como os de: Van der Graaff & Baas (1974), Carlquist (1975), Baas et al. (1983), Baas & Carlquist (1985), Barajas-Morales (1985), Carlquist & Hoekman (1985), Ceccantini (1996), Alves & Angyalossy-Alfonso (2000, 2002), Marcati et al. (2001) e Cosmo (2008).

De acordo com Metcalfe & Chalk (1950) e Baas (1973), o ambiente interfere na morfologia e anatomia das plantas, uma vez que o crescimento e desenvolvimento são influenciados por fatores como: disponibilidade hídrica, temperatura, características do solo e fatores geográficos; associados a estes há a genética e a fisiologia dos indivíduos, assim, fatores externos e internos somam-se originando a estrutura morfológica e anatômica da árvore (Fisher et al. 2007).

De maneira geral, os trabalhos que investigam a variação no lenho em ambientes distintos mostram que as alterações quantitativas implicam em variações nas dimensões e frequência das células. Segundo Aguilar-Rodríguez et al. (2006) e Cosmo (2008), muitos autores têm buscado identificar tendências gerais para determinadas floras, por meio da comparação entre plantas de ambientes xéricos e mésicos ou distribuídas em gradientes de latitude e/ou altitude. No entanto, são menos frequentes os estudos que investigam variações intraespecíficas do lenho, em resposta às variações ambientais, especialmente nas floras tropicais e subtropicais.

No Brasil, são exemplos os trabalhos de Alves & Angyalossy-Alfonso (2000, 2002) que estudaram cerca de 490 espécies brasileiras e observaram variações anatômicas influenciadas pelas coordenadas geográficas. As autoras mencionaram que a latitude influenciou mais claramente a anatomia do lenho, especialmente as camadas de crescimento, características dos vasos e parênquima axial. Ceccantini (1996) em Casearia sylvestris do cerrado e Marcati et al. (2001) em Copaifera langsdorffiido cerradão encontraram vasos de maior diâmetro nesses ambientes em relação a espécimes encontrados em mata e floresta. Denardi & Marchiori (2005), estudando Blepharocalyx salicifolius em dois locais diferentes quanto à pluviosidade, encontraram elementos de vaso mais longos, com maior diâmetro e menos frequentes em local com maior pluviosidade.

Devido à grande diversidade de espécies nas regiões tropicais, são necessários estudos para um melhor entendimento da influência das características ambientais na estrutura do lenho já que a mesma espécie ocorrendo em ambientes diferentes pode responder de forma distinta.

No estado de São Paulo há diversos tipos de vegetação, entre eles, a Floresta ombrófila densa e a Floresta estacional semidecidual, cada uma com características próprias, o que permite estudos comparativos com espécies que ocorrem naturalmente nessas duas formações florestais, como o pau-jacaré - Piptadenia gonoacantha (Mart.) J.F.Macbr. Fabaceae (Leguminosae).

Além do estado de São Paulo, essa espécie ocorre naturalmente na Bahia, sul do Espírito Santo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, leste e norte do Rio de Janeiro, Paraná e leste de Santa Catarina. P. gonoacantha é semicaducifólia podendo atingir quando adulta até 30 m de altura e 90 cm de DAP(diâmetro à altura do peito, 1,30 m do solo), seu tronco pode ser reto ou tortuoso com cristas aculeadas em toda a extensão. Possui cristas transversais e longitudinais na casca que lembram o couro de jacaré, daí seu nome popular. Quanto ao grupo sucessional, é uma espécie pioneira a secundária inicial, que cresce em vários tipos de solo. Embora a madeira não seja considerada de uso industrial é empregada para os mais diversos fins, como: brinquedos, embalagens, construção civil e acabamentos internos (Carvalho 2003).

O objetivo desse estudo foi identificar se há diferenças qualitativas e quantitativas no lenho de indivíduos de P. gonoacantha ocorrentes em dois tipos de vegetação: Floresta ombrófila densa e Floresta estacional semidecidual.

 

Material e métodos

Descrição das áreas experimentais - O estudo foi realizado em amostras do lenho de indivíduos ocorrentes em duas regiões diferentes do estado de São Paulo (figura 1). Parque Estadual Cantareira (PEC), área remanescente de Floresta ombrófila densa situada na zona norte da cidade de São Paulo, e municípios de Mairiporã, Caieiras e Guarulhos (Negreiros et al. 1974); e Estação Ecológica de Caetetus (EEC) localizada nos munícipios de Gália e Alvinlândia, área de Floresta estacional semidecidual (Tabanez et al. 2005, Ramos et al. 2008).

Alguns dados ambientais das áreas de estudo encontram-se na tabela 1.

Obtenção do material e análise anatômica - Por meio de método destrutivo foram retiradas amostras do lenho na altura do DAP (diâmetro a altura do peito - 1,30 cm do solo) de três árvores de P. gonoacantha no Parque Estadual Cantareira (PEC), sendo considerada para este estudo apenas a porção do lenho próxima à casca. Amostras também no DAP de outras três árvores da mesma espécie foram obtidas por método não destrutivo, com auxílio de serrote, martelo e formão na Estação Ecológica de Caetetus (EEC). Todas as árvores foram identificadas no campo e as coordenadas geográficas obtidas por GPS, amostras das mesmas foram registradas e depositadas na Xiloteca do Instituto Florestal de São Paulo (SPSFw). Como não foi possível estabelecer a idade dos indivíduos analisados, buscou-se padronizar as coletas pelo diâmetro do DAP (tabela 2).

 

 

De cada amostra obtiveram-se corpos-de-prova com cerca de 2 cm3 e destes foram retirados pequenos fragmentos que foram macerados e posteriormente corados com safranina alcoólica a 1% (Berlyn & Miksche 1976). Os corpos-de-prova foram amolecidos e seccionados em micrótomo de deslize Zeiss Hyrax S50, com espessura entre 12 e 25 µm. Secções de cada amostra foram clarificadas com hipoclorito de sódio a 60% e coradas com safranina e azul de astra 1% (9:1) (Sass 1951). Prepararamse lâminas provisórias para a análise e mensuração das seguintes características anatômicas: diâmetro e frequência de vasos e comprimento dos elementos de vaso, diâmetro das pontoações intervasculares e raiovasculares; altura, largura e frequência dos raios; comprimento, diâmetro, lume e espessura da parede das fibras, de acordo com as recomendações do IAWA Committee (1989), sendo para cada característica adotado n = 25, com exceção das pontoações, para as quais se adotou n = 10. Também foi calculado o índice de vulnerabilidade (IV) de acordo com Carquist (1977).

Todas as mensurações foram realizadas em microscópios marca Olympus modelo BX 50 e CX 31, ambos equipados com software de análise de imagens Image - Pro Express versão 6.3.

Análise estatística - A análise estatística dos resultados foi realizada com auxílio do programa SigmaStat 3.5 (SPSS Incorporation). Realizou-se análise estatística descritiva e a comparação entre as médias e desvios-padrão para testar as diferenças entre os grupos. Com estes resultados, empregou-se o "t-test sample size" que confirmou ser suficiente o número de mensurações para atingir o poder desejado para o teste, de acordo com Eckblad (1991). Em seguida, realizou-se teste T para determinar quais características anatômicas, apresentaram variação significativa entre as amostras dos dois locais (tabela 2).

 

Resultados

Em todas as amostras, independente do local de coleta, observou-se a presença de camadas de crescimento demarcadas por fibras de parede mais espessa (figuras 2-5). Houve predomínio de vasos solitários, mais frequentes nas amostras da EEC (71%) do que no PEC (62%), sendo que a porcentagem de geminados e múltiplos de três e quatro foi respectivamente 19% e 9% na EEC e 23% e - 15% no PEC.

Nas amostras dos dois ambientes foram encontrados elementos de vaso com placa de perfuração simples, com apêndices em uma ou nas duas extremidades (figura 9), pontoações intervasculares alternas, arredondadas e guarnecidas (figura 8), pontoações raiovasculares semelhantes às intervasculares. Nas amostras do PEC observou-se conteúdo alaranjado nos vasos (figura 2).

Nas amostras dos dois ambientes constatou-se o predomínio de parênquima axial paratraqueal aliforme com cristais prismáticos (figura 10); raios homogêneos, multisseriados formados por células procumbentes (figuras 6, 7, 11); ausência de estratificação; fibras libriformes, algumas visivelmente septadas, com pontoações simples. Máculas foram observadas nas amostras do PEC (Figura 12).

Para as características quantitativas observaramse diferenças estatisticamente significativas na frequência de vasos, altura, largura e frequência dos raios, diâmetro das fibras e índice de vulnerabilidade (tabela 3).

 

Discussão

Como se viu nos resultados, amostras coletadas no PEC e na EEC apresentaram camadas de crescimento demarcadas por fibras de parede mais espessa. Segundo Fahn (1982) e Worbes (1989), a atividade cambial é fortemente influenciada por variações ambientais, como a temperatura e a disponibilidade de água, bem como por reguladores da própria planta. Lima et al. (2009) em estudo com E. contortisiliquum mencionam a presença de camadas de crescimento em plantas de floresta estacional semidecidual e caatinga, que possuem baixa disponibilidade de água durante certo período do ano. Reforçando essa idéia, Lisi et al. (2008) descrevem que o contraste de condições ambientais que ocorre no estado de São Paulo, com chuvas que ultrapassam 230 mm no verão e menos de 30 mm no inverno, influenciam na atividade cambial e, portanto, na resposta da planta ao ambiente.

Além das variações ambientais que ocorrem em um mesmo local ao longo do ano, devem ser consideradas as diferenças entre locais. No presente estudo, amostras de P. gonoacantha do PEC com menores médias anuais de pluviosidade e temperatura, apresentaram maior frequência de vasos, comprovada estatisticamente, com tendência a menor diâmetro e elementos mais curtos. O que está de acordo com Baas (1982) e Carlquist (1988), que descreveram a presença de vasos com menor diâmetro em ambientes mais secos ou frios, Denardi & Marchiori (2005) estudando Blepharocalyx salicifolius em dois locais com disponibilidade hídrica diferentes, reportaram elementos de vaso mais curtos, com menor diâmetro e mais frequentes em local com menor pluviosidade; Wheeler et al. (2007) relacionam menor frequência de vasos com maior diâmetro a ambientes úmidos e menores latitudes, enquanto que vasos de menor diâmetro estão associados a maiores latitudes e ambientes com prolongados períodos de baixa disponibilidade hídrica.

A ocorrência de vasos solitários e múltiplos é comum na flora brasileira (Alves & Angyalossy-Alfonso 2000), mas as proporções podem variar de acordo com o ambiente. No presente estudo observouse menor proporção de vasos solitários e maior proporção de vasos geminados e múltiplos de três e quatro nas amostras do PEC, o que está de acordo com Carlquist & Hoekman (1985) e Fahn et al. (1986) que relatam uma tendência a um maior agrupamento de vasos em ambientes com menor disponibilidade hídrica.

De acordo com Carlquist (1977), o índice de vulnerabilidade (razão entre o diâmetro e a frequência dos vasos) avalia a relação entre as características dos vasos e o ambiente, especificamente o risco da planta desenvolver interrupção da coluna de água por embolia, sendo que quanto menor o índice de vulnerabilidade significativamente menor, o que pode expressar um ajuste às condições locais. O mesmo resultado foi obtido por Denardi & Marchiori (2005) que encontraram menor índice de vulnerabilidade em local com menor disponibilidade hídrica.

Neste estudo, constatou-se menores pontoações intervasculares e raiovasculares nas amostras da EEC, local com maior pluviosidade média, resultado contrário do observado por Marcati et al. (2001) em Copaifera langsdorffii que encontraram pontoaçõesintervasculares maiores em indivíduos de Floresta com relação àqueles de Cerradão; e Luchi (2004) em Croton urucurana em solos com diferentes níveis de umidade, que encontrou pontoações de maior diâmetro em espécimes de área alagada. Zimmermann (1982), Baas et al. (1983), Barajas-Morales (1985) e Lindorf (1994), descrevem que pontoações intervasculares pequenas consistem em uma estratégia para aumentar a segurança no lenho, segundo Wheeler et al. (2007), pontoações de maiores dimensões, possuem maiores aberturas que aumentam os riscos de embolia.

As correlações entre o ambiente e características dos vasos são esperadas, pois estas são as células que conduzem a água, um fator determinante para as variações no lenho. No entanto, há poucos estudos que correlacionaram as características dos raios com o ambiente. Em P. gonoacantha observou-se raios significativamente mais baixos, largos e mais frequentes nas amostras do PEC, local com maior altitude e latitude, menor precipitação e menor temperatura média em relação às amostras da EEC. Lima et al. (2009) também observaram raios mais largos em indivíduos de local mais seco. Em solos com diferentes níveis de umidade, Luchi (2004) observou raios mais largos em Croton urucurana coletado em solo mais seco. Luchi et al. (2005) mencionam que há indícios de que espécies com raios mais largos estão sujeitas a um ambiente hidricamente desfavorável. Segundo Alves & Angyalossy-Alfonso (2002) raios mais largos em espécies que vivem em clima sazonal pode melhorar o transporte de metabólitos do floema para o xilema e suprir o câmbio no início da estação mais favorável ao crescimento.

Da mesma forma que os raios, as fibras também são pouco exploradas em trabalhos de anatomia ecológica. Neste estudo, foi observada variação significativa apenas no diâmetro das fibras, maior nas amostras do PEC, embora se tenha observado uma tendência de fibras mais curtas nas amostras do PEC. Resultados semelhantes foram encontrados por Noshiro & Baas (2000) e Denardi & Marchiori (2005) que mencionaram a ocorrência de fibras mais curtas em ambiente com menor precipitação. Já Ribeiro e Barros (2006) em Pseudopiptadenia contorta observaram fibras mais longas em local com maior altitude, além de menor precipitação e temperatura; Liu & Noshiro (2003) encontraram correlação positiva entre o comprimento da fibra e a altitude em Dodonaea viscosa. Como as variações nas fibras não conferem uma vantagem ecológica evidente, uma vez que a sua função fundamental é a sustentação e não o transporte de água (Alves & Angyalossy-Alfonso 2002) é difícil estabelecer tendências ecológicas nessas células, principalmente porque há muita variação em suas dimensões nas direções radial e axial (Lima et al. 2009).

Quando se pretende avaliar variações no lenho decorrentes do ambiente, devem ser considerados, além da precipitação, outros fatores ambientais como características do solo, sua permeabilidade e capacidade de retenção de água, entre outros. Vários autores correlacionaram alterações no lenho com as variações geográficas; Liu & Noshiro (2003), avaliando espécimes de Dodonaea viscosa em diferentes altitudes na China e Japão, encontraram fibras e elementos de vaso mais longos, além de maior frequência de vasos em maiores altitudes. Noshiro & Baas (2000) para Cornus spp. e Fisher et al. (2007) em Metrosideros polymorpha observaram vasos de menor diâmetro em maiores altitudes, Van der Graaff & Baas (1974) mencionam que entre outras características do lenho, o diâmetro dos vasos e o comprimento dos elementos de vaso tendem a diminuir com o aumento da latitude. Marcati et al. (2001) para Copaifera langsdorffii também encontraram vasos de maior diâmetro em maior latitude.

Quando se analisa os dados geográficos dos locais de estudo, verifica-se que o PEC apresenta maior altitude e latitude; nas amostras coletadas nesse local há variações significativas, com maior frequência de vasos e fibras de maior diâmetro.

Conclui-se que nas amostras de P. gonoacantha estudadas, características dos vasos como o diâmetro e comprimento, explorados em outros trabalhos de anatomia ecológica, não mostraram variações conclusivas. Já a frequência dessas células apresentou diferenças significativas, o que pode estar relacionado com as condições ambientais, especialmente a pluviosidade. Para os raios foram encontradas diferenças estatisticamente significativas em todas as características avaliadas - altura, largura e frequência - diferenças que podem estar ligadas à sazonalidade. Embora as fibras tenham mostrado variação significativa em seus diâmetros, esses resultados não mostram uma relação clara com as variações ambientais. Considerando o número de indivíduos analisados, não é possível propor tendências ecológicas para P. gonoacantha, no entanto, quando se avaliam comparativamente o lenho dos espécimes dos dois locais, observam-se diferenças que podem estar ligadas às variações de temperatura, pluviosidade, altitude e latitude.

 

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Recebido: 16.04.2009; aceito: 09.12.2009

 

 

* Autor para correspondência: elongui@if.sp.gov.br

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