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Topoi (Rio de Janeiro)

Print version ISSN 1518-3319On-line version ISSN 2237-101X

Topoi (Rio J.) vol.3 no.5 Rio de Janeiro July/Dec. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/2237-101X0030050015 

Artigos

A Frente Única Antifascista (FUA) e o antifascismo no Brasil (1933-1934)

Ricardo Figueiredo de Castro

RESUMO

Em 1933 e 1934 as esquerdas brasileiras criaram organizações para impedir o crescimento do fascismo no Brasil, representado pela Ação Integralista Brasileira (AIB). O Partido Comunista e a "trotskista" Liga Comunista (LC) disputaram a hegemonia neste embate político. Nos últimos meses de 1934 o antifascismo de esquerda teve dois importantes momentos que criaram as condições para sua ampliação política e geográfica: a "Batalha da Praça da Sé" e a criação da Comissão Jurídica e Popular de Inquérito (CJPI) que aglutinou os diferentes grupos políticos antifascistas e progressistas e preparou as bases da formação de um mais amplo movimento político, a Aliança Nacional Libertadora (ANL).

ABSTRACT

In 1933 and 1934 the Brazilian left created organisations to deal with the increasing of fascism in Brazil represented by the Brazilian Integralist Action (Ação Integralista Brasileira). The Communist Party (Partido Comunista) and the "Trotskyte" Communist League (Liga Comunista - LC) disputed the hegemony in this political crusade. In the last months of 1934 the left antifascism had two important moments that created the conditions of its political and geographical enlargement: "The See Square Battle" ("Batalha da Praça da Sé) and the creation of Juridical and Popular Inquiry Commission (Comissão Jurídica e Popular de Inquérito - CJPI). The CJPI agglutinated the different antifascist and progressive political groups and prepared the basis to the formation of a wider political movement, the National Liberator Alliance (Aliança Nacional Libertadora

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Full text available only in PDF format.

1 Cf. Maffei, Eduardo. A Batalha da Praça da Sé. São Paulo: Brasiliense, 1984.

2 2 Cf. Hobsbawm, Eric. A era dos extremos. São Paulo: Companhia das Letras: 1995. p. 157.

3 A Internacional Comunista, ou Comintern (acrônimo de Kommunistische Internationale), foi criada em 1919 pelo Partido Bolchevique como o partido mundial da revolução, ou seja, os partidos comunistas eram considerados seções nacionais do Comintern.

4 4 A frente popular concebia uma ampla aliança entre todas as forças políticas progressistas, diferentemente da frente única que se restringia à esquerda.

5Na época o termo "trotskista" era a forma pejorativa dos militantes comunistas que apoiavam Stalin se referirem aos militantes comunistas que o criticavam, os autodenominados "bolcheviques-leninistas". Usamos o termo em parênteses para facilitar a narrativa.

6Knei-Paz, Baruch. The social and political thought of Leon Trotsky. Oxford: Clarendon Press: 1979, p. 351.

7 Idem., p. 352.

8 Idem, p. 353.

9O Partido Comunista da Alemanha (KPD) era o segundo maior partido de modelo bolchevique - o primeiro era o Partido Comunista da União Soviética - e o maior entre os que não estavam no poder.

10Em 30 de janeiro, Adolf Hitler foi convocado pelo presidente da República alemã, Hindenburgh, para chefiar um novo governo. Daí até 5 de março, quando realizaram-se eleições parlamentares, nas quais o partido Nacional-Socialista conquistou maioria no Parlamento (Reichstag), Hitler ampliou e consolidou seu poder.

11Marie, Jean-Jacques. O trotskismo. São Paulo: Perspectiva, 1990, p. 57.

12O Partido Socialista Brasileiro de São Paulo era a seção estadual mais forte do PSB fundado em 1933.

13Para maiores detalhes sobre as posições política de Frola ver nossa tese de doutorado(CastroRicardo Figueiredo de. Op. cit. p. 56et passim).

14Para maiores detalhes Cf. Castro, Ricardo Figueiredo de. Op. cit, cap. 2.

15O I Congresso Internacional de Amsterdam ("Contra a guerra e o fascismo") ocorreraentre 27 e 29 de agosto de 1932. Por intermédio de Willi Münzenberg, o Comintern desempenhou um papel central conseguindo atrair a intelectualidade européia, a francesa em particular, para a luta contra a guerra. (Cf. Furet, François. Le passé d' une illusion: essai sur l´idée communiste au Xxe siècle. Paris: Robert Laffont, 1995. p. 260.)

16Esta entrevista está transcrita em Carone, Edgard. A Segunda República (1930-1937). São Paulo: DIFEL, 1974. p. 392-394)

17Estavam presentes Mário Pedrosa, Lívio Xavier, Fúlvio Abramo, Manoel Medeiros eAnton Machek. (Cf. Abramo, Fúlvio. "7 de outubro de 1934 - 50 anos". Cadernos Cemap, São Paulo: ano I, n. 1, p. 3-65, out. 1984. p. 68.)

18 Idem.p. 14.

19O Grupo A era um agrupamento de jovens militantes paulistas que aderiu em bloco aLC, mantendo, contudo, sua identidade. Desse grupo faziam parte, além de Fúlvio Abramo, Lélia Abramo e Azis Simão, entre outros. (Idem, p. 17.)

20Confederação Geral do Trabalho, Federação Sindical Regional de São Paulo, União dos Empregados em Hotéis e Similares, União dos Empregados em Fábricas de Tecidos, União dos Trabalhadores da Light e União dos Profissionais do Volante. Estavam presentes também representantes da LC, como Aristides Lobo, Mário Pedrosa e João (da Costa) Pimenta que, ao se colocarem como membros da "oposição de esquerda" do PCB, foram identificados pelo agente policial como membros desse partido e não da LC. O agente os denomina "comunistas".

21É interessante notar como ao longo de 1933 a "frente única" vai se ampliando e se aproximando geograficamente do centro da cidade de São Paulo. As primeiras reuniões organizadoras do Comitê Antiguerreiro aconteceram no largo de São José do Belém, no Belemzinho, a cerca de 4 quilômetros do centro da cidade. A fundação da FUA e os seus eventos posteriores e os do Comitê Antiguerreiro acontecem no coração da cidade, na Rua do Carmo e no Largo de São Paulo, respectivas sedes da Associação das Classes Laboriosas e da Lega Lombarda; além de espaços públicos abertos como o Parque Dom Pedro II e a Praça da Sé.

22Nessa ocasião a Escola funcionava nas dependências do Museu Nacional de Belas-Ar-tes, no coração político e cultural da capital federal.

23Cf. Panfleto "Todos à grande conferência de FRENTE ÚNICA do Rio de Janeiro contra as guerras imperialistas" contido no dossiê do Comitê Antiguerreiro do Rio de Janeiro (no 8531), caixa 110 (Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro/Fundo DOPS).

24"(...) Estudantes pobres e intelectuais, pequenos negociantes e todos os que estão since-ramente dispostos a lutar contra as Guerras de Rapina, numa verdadeira FRENTE ÚNICA, sem distinção de crenças políticas ou religiosas", (Idem, Ibidem)

25"Já hipotecaram solidariedade os seguintes intelectuais: professor Antonio Piccarolo, Alberto Seabra, Maria Lacerda de Moura, pintores Tarsila do Amaral e Paulo Rossi, dr. Osório César (do Hospital de Juquery), os jornalistas Nabor Cayres Brito, Affonso Schimdt, Antonio Figueiredo, Galeão Coutinho, Britto Broca, Agnello Rodrigues, Jayme Adour da Camara, Philemon Assumpção, Oswaldo Costa, etc. No Rio, aderiram a essa cruzada o dr. Roquette Pinto, diretor do Museu Nacional, professor Pinheiro Guimarães, da Faculdade de Medicina; dr. Maurício de Medeiros e muitos outros nomes notáveis nas ciências e nas letras". A Platea, 2 de março de 1933, p. 1.

26Matteotti tornou-se um símbolo da luta antifascista na Itália e internacionalmente depois de ter sido sequestrado e morto por um grupo armado semanas após pronunciar discurso no parlamento italiano contra fraudes eleitorais perpretadas pelo governo de Mussolini. (Cf. Palla, Marco. A Itália fascista. São Paulo: Ática, 1996, p. 38-39.

27Essa informação confere com as informações contidas em seu prontuário policial. Segundo este, "constitui ele, dos elementos intelectuais atualmente em S. Paulo, o que maior atividade está desenvolvendo. Bateu-se fortemente pela constituição de um organismo de união das esquerdas revolucionárias, que ainda não pode tornar-se realidade por causa das rivalidades existentes entre os diversos grupos extremistas." Documento n. 59 do Prontuário de Aristides Lobo [n. 37, vol. 1] do APESP/DOPS.

28Cf. Abramo. Op. cit., 1984, p. 15. Quando na direção do jornal La Difesa Francesco Frola convidou Rosini, em 1929, para participar do jornal, apesar deste não ter deixado artigos assinados. (Cf. Bertonha, João Fábio.O antifascismo socialista italiano em São Paulo nos anos 20 e 30. Campinas: 1993. Dissertação (Mestrado em História) - Unicamp, p. 109) Ainda segundo Bertonha ele era um dos poucos comunistas da colônia italiana paulista (Idem, ibidem)

29Arquivo Público do Estado de São Paulo, Fundo DOPS. Documento no 1 do Prontuário no 1581 ("Comitê Antifascista").

30Francesco Frola conseguiu nesta época a cidadania brasileira, passando a assinar Francisco Frola. Para maiores detalhes da vida desse importante político de esquerda ver o ensaio biográfiico de Bertonha, João Fábio. Um antifascista controverso: Francesco Frola. Paper. 1997.

31Documento no 7 do prontuário no 1581 ("Comitê Antifascista") [Arquivo Público doEstado de São Paulo / Fundo DOPS. O documento está reproduzido em Castro, 1999. Op. cit., documento 1 do Anexo.

32Editado na edição de 17 de julho do O Homem Livre e na edição de 16 de julho da revista do PSB paulista O Socialista, p. 7.

33Cf. Abramo, 1984. Op. cit., p. 20-21.

34Del Roio, 1990. Op. cit., p. 239.

35Nascido em 1909, filiou-se ao PCB em 1932 e era, em 1934 com 25 anos, secretário de Agitação e Propaganda (Agit-Prop) do Comitê Regional paulista. (Del Roio, 1990, Op cit., p. 243). Faleceu em 1982. Seu acervo está depositado no Arquivo Edgard Leuenroth da Unicamp.

36Cf. Abramo, 1984. Op. cit. p. 22

37Cf. Karepovs, Dainis, Lowy, Michael, Marques Neto, José Castilho. Trotsky e o Brasil.In Morales, João Quartim de. História do marxismo no Brasil. vol. II: os influxos teóricos. Campinas: Ed. da Unicamp, 1995, p. 241.

38O nome LCI é publicamente divulgado durante o comício de 1o de maio de 1934 em

39São Paulo. (Cf. Del Roio, 1990, Op. cit., p. 226.) 39Del Roio, 1990. Op. cit. p. 228.

40Cf. Idem, p. 239.

41Cf. Abramo, 1994. Op. cit. p. 22-23. Temos relatos desse evento e de seus desdobramentos tanto feitos pelo jornal oficial da FUA O Homem Livre quanto por um agente policial. 42 O interessante é que existem dois relatórios policiais em seqüência (no 50 e 51) que demonstram uma confusão dos seus redatores. O relatório no 50 descreve apenas o comício da FUA ocorrido no Salão da Associação das Classes Laboriosas (Rua do Carmo, 25); já o de número 51 narra que o policial assistiu primeiro a um evento do Comitê Estudantil Antiguerreiro (CEAG) no mesmo endereço e logo depois saiu para prender manifestantes que saíam do evento da FUA na Lega Lombarda (sic). Como temos confirmação de que o evento da FUA aconteceu efetivamente na rua do Carmo, concluo que o primeiro relatório está correto e que o segundo confunde os endereços.

42Cf. Abramo, 1982. Op. cit. p.27.

43Cf. "Frente única de luta e frente única de tapeação" InVanguarda Estudantil, janeiro de 1934, no 2, p. 2.

44Cf. Vianna, Marly de Almeida Gomes. Revolucionários de 35: sonho e realidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, p. 242 e Canale, Dario. A Internacional Comunista e o Brasil: 1920-1935. InTavares, José Nilo (Org.) Novembro de 1935: meio século depois. Petrópolis: Vozes, 1985, p. 121.

45O Partido Socialista Proletário do Brasil (PSPB) foi fundado em 1934 e teve importante participação nas ações políticas das esquerdas em direção à frente única sindical e eleitoral.

46Cf. Del Roio, 1990. Op. cit., p.246.

47Cf. Vianna, 1992. Op. cit., p. 243.

48Cantareira era o nome da empresa privada que administrava a ligação, por barcas, entre Rio e Niterói.

49Cf. Lima, Heitor Ferreira. Caminhos percorridos. São Paulo: Brasiliense, 1982, p. 178-179.

50Martins [Honório de Freitas Guimarães] O Partido Comunista do Brasil define a suaposição perante a Frente Única Proletária. Jornal do Povo, 9 de outubro de 1934, p. 2.

51O jornal Diário da Noite pertencia a Assis Chateaubriand que criou em dezembro de 1930 o Diário da Tarde a ser publicado nas mesmas oficinas do primeiro. Portanto, eram jornais que não apenas pertenciam ao mesmo proprietário mas compartilhavam funcionários. O primeiro secretário de redação do Diário da Noite foi o jovem jornalista Geraldo Galvão Ferraz. (Ferraz, 1982, p. 93.) Este, por sua vez, era irmão da escritora e militante "trotskista" Patrícia Galvão, a Pagu.

52Cf. Abramo, 1984. Op. cit., p. 15.

53Cf. Ferraz, 1982, p. 105-106. José Pérez deixou suas funções no jornal a partir da 11ªedição (14 de agosto de 1933) e assinou pelo menos um artigo, "As explorações anti-semitas: sobre os protocolos dos Sábios de Sião". Pérez foi "esquecido" pela memorialística "trotskista" de Abramo. Isso não deve nos estranhar pois o trabalho de reconstrução da memória de uma época pressupõe também esquecimentos conscientes e/ou inconscientes.

54Em seu relato sobre a FUA Fúlvio Abramo não cita o nome de Pedrosa, mas afirma queera ele próprio que realizava as funções de secretário de O Homem Livre, isto é, conseguir anunciantes, providenciar a produção do jornal, contatar pontos de venda etc. (cf. Abramo, 1984. Op. cit. p.16).

55Foram editadas 22 edições, sendo a última a de 24 de fevereiro de 1934. As ediçõestinham entre 4, 6 e 8 páginas dependendo das precárias condições financeiras do jornal. Nessa mesma época existia um jornal homônimo no Distrito Federal, dirigido por Hamilton Barata e que foi editado até pelo menos 1935.

56O outro instrumento de ação política da FUA foram as suas poucas, mas conturbada se violentas, manifestações públicas, em espaços fechados ou abertos. Os antifascistas percebiam a importância da propaganda e da conquista do espaço público para a política fascista. Desse modo, procuraram sempre preparar uma manifestação para o mesmo local e hora daquelas previstas pelos integralistas. Estes faziam o mesmo. Os conflitos eram, pois, inevitáveis.

57Cf. Abramo, Fúlvio, Jarepovs, Dainis. (Org.) Na contracorrente da história: documentos da Liga Comunista Internacionalista (1930-1933). São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 64, nota 25.

58Cf. Del Roio. Op. cit., p. 240 e Abramo. Op. cit., p. 22-23.

59Relatório policial endereçado ao Delegado de Ordem Social (Ignacio da Costa Ferreira)e redigido por Joaquim A. Gentil, Documento no 57 do prontuário de Aristides Lobo (no 37), 15 de novembro de 1933, p. 1.

60Cf. Gomes, Ângela de Castro. A invenção do trabalhismo. São Paulo; Rio de Janeiro, Vértice; IUPERJ, 1988, p. 189.

61Cf. seus Diários publicados em 1996: Em "14 a 16/06" escreveu: "Com a Constituição que está para ser votada, talvez seja preferível que outro governe. Não tenho dúvidas sobre as dificuldades que vou enfrentar, e talvez seja mesmo preferível que tome outro rumo, pois já começo a acreditar que, com tal instrumento de governo, será perdido o esforço. (p. 302); E, em "27 e 28/07" anotou: "É preciso uma diretriz segura e flexível para a monstruosa Constituição que devemos cumprir." (p. 310) {grifos nossos}

62Os Diários de Getúlio nos permitem inferir que desde pelo menos julho de 1934 Vargas já demonstrava sua insatisfação com a Constituição recém-promulgada. O ataque contra ela não precisou esperar pelo Levante Comunista de novembro de 1935, e pelo golpe do Estado Novo, em novembro de 1937. Já em dezembro de 1934, com a interdição da Comissão Jurídica e Popular de Inquérito (A Pátria, 18 de dezembro de 1934, p. 1) e a instalação do Conselho Superior de Segurança Nacional na última semana do ano, funcionando às vistas de Getúlio, no Palácio do Catete (cf. Vargas. Op. cit. p. 347). Este Conselho iniciou os trabalhos para elaboração de projeto de lei "de defesa do Estado" que viria a se consubstanciar na Lei de Segurança Nacional, a "lei monstro", promulgada em 4 de abril de 1935.

63O início das votações do texto final da Constituição aconteceu no dia 7 de abril de 1934 (Beloch, Israel, Abreu, Alzira Alves de (Coords.). Dicionário histórico-biográfico brasileiro, 1930-1983. Rio de Janeiro: Forense-Universitária; FGV/CPDOC/FINEP, 1984. 4 vol., p. 914.

64Cf. Trindade, Hélgio. O integralismo. Rio de Janeiro: DIFEL, 1974. p. 303.

65Durante o ano de 1933 ocorreu apenas um desfile e mesmo assim apenas quarenta pessoas participaram de um desfile ocorrido em 3 de abril de abril na cidade de São Paulo (Cf. Trindade. Op. cit. p. 302). No segundo semestre desse ano, a AIB patrocinou apenas eventos em ambientes fechados na capital paulista, e mesmo assim alguns não aconteceram por pressão da FUA.

66Cf. Trindade. Op. cit., p. 303.

67Nessa data comemora-se a expulsão das tropas portuguesas quando da proclamação da independência do Brasil.

68Cf. Trindade. Op. cit., p. 303.

69O PSPB havia sido fundado dois dias antes e dele faziam parte, entre outros, Plínio Melo, militante carioca muito próximo dos "trotskistas". Esse partido terá um importante papel nas tentativas de formação de coligações eleitorais e sindicais neste segundo semestre de 1934.

70O PTB, organização política do qual não obtivemos maiores informações, foi registrado em cartório no dia 1o de abril de 1933 na capital federal e teve seus estatutos publicados no Diário Oficial da União de 31 de março de 1933 (Cartório do 3o Ofício de Títulos e Documentos, livro K-1, no 211, fl. 25, Arquivo Nacional).

71Cf. Del Roio. Op. cit., p. 246.

72Cf. Vianna. Op. cit., p. 243. O programa está transcrito em Carone. Op. cit., p. 408-412.

73Del Roio. Op. cit., 246.

74Segundo o relatório policial, "O Teatro João Caetano, apesar de vasto e comportar uma lotação superior a 2.000 pessoas, tornou-se pequeno para comportar a grande massa, que se estendeu pelas cadeiras, camarotes, balcões e galerias, ficando totalmente cheio com grande número de pé na platéia, corredores das frisas e camarotes, sendo que estes continham 10 a mais pessoas, em cada um."

75É interessante notar que Tobias Warshawsky foi um dos oradores no evento, falando em nome da Federação das Juventudes Comunistas (A Pátria, 15 de novembro de 1934).

76Vargas. Op. cit., p. 321.

77Localizava-se na Rua São Pedro, isto é, no centro comercial e político da cidade de Niterói; e perto da sede do poder legislativo do Estado do Rio de Janeiro.

78Relatório policial intitulado "Comitê de Luta Contra a Guerra Imperialista e o Fascismo", p. 16, folha 36, contido no dossiê "Relatório sobre atividades comunistas", no setor Comunismo, pasta 11 (DESPS/APERJ).

79Após a promulgação da Constituinte de 1934 em julho o Congresso constituinte foi transformado em ordinário e os mandatos dos deputados federais prorrogados até maio de 1935. Os deputados eleitos em outubro de 1934 tomariam posse, portanto, em maio de 1935.

80Possas, Lidia Maria Vianna. O trágico três de outubro: estudo histórico de um evento. Assis, 1992. Dissertação (Mestrado em História) - Unesp.

81 Idem, p. 40.

82 Idem, p. 68.

83As outras duas principais cerimônias da AIB eram A vigília da nação e As matinas de abril. (Trindade.Op. cit. p. 202.)

84Este manifesto, criador da AIB, foi lançado em 7 de outubro de 1932.

85Cf. Trindade. Op. cit., p. 203.

86No depoimento que nos concedeu em 1996, Miguel Costa Filho afirmou que o relato de Maffei baseava-se em informações que ele próprio havia lhe concedido durante conversas informais sobre o evento e que, inclusive, Maffei nem estaria presente ao confronto.

87O jovem Maffei não era filiado ao PCB, mas provavelmente apenas militante da Juventude Comunista. Como se sabe a filiação aos quadros do PCB era um processo complexo e lento.

88Vanguarda Socialista, no 7, 12 de outubro de 1945. Apud Abramo.Op. cit.

89Cf. Motta. Op. cit., p. 42.

90Mário Pedrosa, Manoel Medeiros, J. Neves, Fúlvio Abramo e Antunes pela LCI e João

910Cabanas, Francisco Giraldes, Zoroastro Gouvêia e Waldemar Godói pelo PSB. (Cf. Abramo. Op. cit., p. 44.) 91 Cf. Abramo. Op. cit., p. 44.

92Ver texto completo em Castro. Op. cit. documento 2 do Anexo. Os anarquistas, coerentes com sua doutrina, não participaram das deliberações da FUA mas não se furtaram a comparecer ao confronto.

93Publicado em Abramo. Op. cit., p. 82-83.

94 Idem. p. 42.

95Cf. Abramo, Lélia. "A arte, a coragem, a beleza, a revolução" por Alípio Freire e Eugê-nio Bucci In Teoria e Debate, n. 5, jan./fev./mar. 1989, p. 12-21; Dias, Eduardo. Um imigrante e a revolução: memórias de um militante operário (1934-1951). São Paulo; Campinas: Brasiliense; Arquivo de História Social Edgard Leuenroth, 1983; Reale, Miguel.Memórias: destinos cruzados. São Paulo: Saraiva, 1986. vol. 1; Sacchetta, Hermínio, Pedrosa, Mário, Abramo, Fúlvio. "Um dia de luta e união". Depoimentos a Paulo Sérgio Pinheiro. Revista Isto É. São Paulo, outubro de 1979; Entrevista concedida ao autor por Miguel Costa Filho em 27/01/96.

96Frola, Francisco. Recuerdos de un antifascista, 1925-1938. México: Editorial "Mexico Nuevo", 1939.

97Lima, Pedro Motta. El nazismo en el Brasil. Proceso del estado corporativo. Buenos Aires: Editorial Claridad, 1938. p. 48.

98A FUA foi uma organização de pouca visibilidade política, com a adesão precária dosgrupos políticos que a compunham e que existiu basicamente em função do trabalho de agitação da LC e do PSB paulista e de propaganda de O Homem Livre e dos poucos eventos públicos que realizou, a maioria dos quais, em resposta a passeatas ou eventos da AIB. Ademais, como era uma frente de pequenos grupos e partidos de esquerda que tinham pequeno grupo de militantes e pouquíssima visibilidade política e as articulações que fizeram para a preparação do contracomício de 7 de outubro de 1934 foram realizados pelas respectivas direções, os antifascistas que não participaram dessas conversações políticas ou não pertenciam a esses grupos não relacionam a FUA com a "Batalha da Praça da Sé". Assim, a memória histórica do evento não absorveu essa relação política. Existem ainda dois agravantes. Primeiro, o principal partido político de esquerda, o PC, era contrário a FUA e tinha a sua própria política de frente única, o Comitê Antiguerreiro, concorrente do PC. E, segundo, os partidos e grupos políticos que patrocinaram a FUA desapareceram politicamente na segunda metade da década. O movimento trotskista quase que desaparece, sendo substituído por uma nova geração sem relação com a aquela que liderou o movimento na primeira metade da década, organizada em torno de Mário Pedrosa, Lívio Xavier, Aristides Lobo e Rodolfo Coutinho. O PSB foi extinto pelo Estado Novo, assim como os outros partidos de esquerda e só foi "refundado" em meados da década seguinte, com novo perfil e lideranças. O único partido que, embora quase desaparecido durante o Estado Novo, manteve uma ligação com a memória histórica precedente foi certamente o PC. O processo que, na conjuntura estudada, mereceu o cultivo de sua memória foi a ANL e o Levante Comunista de 35, não o processo político anterior.

99Ele foi registrado em 9 de outubro de 1934, no livro J-8, no de ordem 12660 junto aoórgão público competente. Cf. Índice de Registro civil das pessoas jurídicas: matrícula de oficinas impressoras e de jornais e outros periódicos. Arquivo Nacional.

100Tobias Warshavsky era judeu, militante da Juventude Comunista e cartunista deA Pátria. É famosa a charge de sua autoria, publicada no jornal onde trabalhava, no qual Salomé carrega uma bandeja com a cabeça de São João com o corpo seguindo a forma da suástica nazista. Tobias foi assassinado em 17 ou 18 de outubro de 1934 e seu corpo encontrado nas matas da Floresta da Tijuca, na cidade do Rio de Janeiro. Sua identidade só foi estabelecida em 1o de novembro. (A Pátria, 1o de novembro de 1934.) O seu assassinato transformou-se num cavalo de batalha propagandístico das esquerdas, especialmente do PCB, que acusava a polícia política de Getúlio pelo crime, que por sua vez acusava o partido. Waack encontrou em Moscou informes do Comintern que confirmam que foram realmente militantes do PCB (Cabeção, Martins, o instrutor alemão Jan Jolles e o próprio Tampinha) os responsáveis pelo assassínio, confirmando o inquérito policial concluído apenas em 1941, embora não haja exata coincidência quanto aos indivíduos. O PCB julgava que ele teria colaborado com a polícia para a prisão do dirigente nacional do Comitê Antiguerreiro, Adelino Deícola dos Santos, o Tampinha. O inquérito policial encontra-se no Fundo DOPS/APERJ.

101O acordo demandou muita negociação e acomodações políticas e concluiu-se na pri-meira semana do mês. No dia 1o de outubro, o PSPB, PTB e LCI convocam o PCB etc. para uma reunião na União dos Foguistas na semana seguinte. (A Pátria, 4 de outubro de 1934, p. 6.) Dois dias depois o PCB, coerente com a política de "frente única pela base", rejeita a proposta afirmando que "a frente deveria ser feita no próprio terreno das lutas operárias em curso e não através de 'conclaves eleitorais'" (Vianna. Op. cit., p. 110). Apesar disso, no dia 4 aconteceu, como previsto, a "reunião preparatória da Conferência da Frente Única Proletária" com a presença do PCB (A Pátria, 5 de outubro de 1934. p. 10) e se convocou a referida Conferência para o dia 6, que aconteceu e se concluiu com um acordo no qual o PCB "conseguiu que PSPB e LCI aceitassem parte de suas propostas {...} Em função dessas decisões, sob o argumento de que violavam a constituição, o PTB e o PSB se retiraram das negociações" (Cf. Del Roio. Op. cit., p. 246). No dia 11 O Jornal do Povo publica o manifesto-programa da frente eleitoral acordada pelo PCB, LCI e PSPB que abandona a sigla FUP e adota a legenda que o PCB registrara há vários meses, União Operária e Camponesa do Brasil (UOCB).

102Comissão: "Grupo de pessoas com funções especiais, ou incumbidas de tratar de deter-minado assunto". (Hollanda, Sérgio B.de Novo Dicionário Aurélio. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, s.d. p. 351).

103Para maiores detalhes sobre a CJPI ver nossa tese (Castro. Op. cit.).

104No segundo semestre de 1934 e primeiro de 1935.

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