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Topoi (Rio de Janeiro)

versão impressa ISSN 1518-3319versão On-line ISSN 2237-101X

Topoi (Rio J.) vol.5 no.8 Rio de Janeiro jan./jun. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/2237-101X005008002 

Artigos

A cura do corpo e a conversão da alma - conhecimento da natureza e conquista da América, séculos XVI e XVII

Heloisa Meireles Gesteira


RESUMO

O artigo privilegiará a análise do manuscrito apócrifo Curiosidad un libro de medicina escrito por los jesuítas en las misiones del Paraguay, 1580, recentemente encontrado na Biblioteca Nacional. O objetivo deste trabalho é demonstrar como havia uma relação orgânica entre a produção de conhecimento sobre a natureza e o processo de conquista da América durante os séculos XVI e XVII. A "botânica médica" aparece como um campo de saber privilegiado, pois esse conhecimento era realizado de forma sistematizada e, no caso específico da América portuguesa, controlado sobretudo por agentes sociais interessados na edificação de uma sociedade no Novo Mundo, destacando-se os missionários da Companhia de Jesus. Num primeiro momento elucidaremos o papel da cura no projeto jesuítico de conquista da América. Finalmente, analisaremos as concepções médicas compartilhadas pelos jesuítas. O registro das informações sobre as virtudes das plantas e de algumas partes de animais para uso medicinal foi feito de maneira sistemática, o que levou os jesuítas a acumularem um saber importante para a manutenção da sociedade colonial.

Palavras-Chave: natureza; história social da ciência; colonização

ABSTRACT

This article is about a manuscript recentely found in the National Library of Rio de Janeiro, Curiosidad un libro de medicina escrito por los jesuítas en las misiones del Paraguay, 1580. The main subject of the paper is to show how the studies and observations of the Nature in the New World were related with the process of conquest of America during the 16th and 17th century. The studies of medical botany are a good example because this knowledge was made in an organized way and controlled by the Jesuits in the Portuguese colonies in America. This article concerns on the roll played by the healing in the Jesuitical project of conquest, and also the medical theories applied by them.

Key words: nature; social history of science; colonization

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Full text available only in PDF format.

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1CIPOLLA, Carlo. Faith, Reason and the Plague in Seventeenth Century Tuscany. Nova Iorque: W. W. Norton and Company, 1979.

2LENOBLE, Robert. História da Idéia de Natureza. Lisboa: Edições 70, 2002. p. 49.

3FUNKENSTEIN, Amos. Theology and the Scientific Imagination: From the Middle Ages to the Seventeenth Century. Princenton: Princeton University Press, 1986. CAMENIETZKY, Carlos Ziller. A cruz e a luneta. Ciência e religião na europa moderna. Rio de Janeiro: Access, 2000.

4BARRETO, Luis Filipe. Caminhos do saber no renascimento português: estudos de história e teoria da cultura. Porto: Imprensa Nacional Casa de Moeda, 1987. p. 111.

5BARRETO, Luis Filipe, op. cit.

6Cf. RUSSEL-WOOD. Um mundo em movimento: os portugueses na África, Ásia e América (1415 - 1808). Lisboa: Difel, 1998. Especialmente o capítulo "Difusão de Espécimes da Flora e da Fauna"; DEAN, Warren. A botânica e a política imperialista de Portugal. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 4, n. 8, pp. 216 - 228, 1991. DOMINGUES, Ângela. Para um melhor conhecimento dos domínios coloniais: a constituição de redes de informação no Império português em finais do setecentos. História, ciência, saúde: Manguinhos, Rio de Janeiro, v. VIII (suplemento), pp. 823-838, 2001.

7MATTOS, Ilmar Rohloff de Mattos. O tempo Saquarema. São Paulo: HUCITEC, 1987. Para o conceito de cidade colonial desenvolvido pelo autor conferir especialmente o primeiro capítulo.

8Cf. RAMA, Angel. A cidade das letras. São Paulo: Brasiliense, 1982.

9GUERREIRO, Fernão. Relação anual das coisas que fizeram os padres da Companhia de Jesus nas suas missões do Japão, China, Cataio... e Brasil nos anos de 1600 - 1603. Évora, 1930, p. 375.

10Livro de Tombos das escrituras das cousas que pertencem ao Collégio de São Sebastião da Companhia de Jesus no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Anais da Biblioteca Nacional, v. 82, 1962, pp. 27-28.

11As relações entre a coroa e os agentes coloniais podem ser aprofundadas em BICALHO,FRAGOSO & GOUVÊA, (Orgs.). O antigo regime nos trópicos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

12ANCHIETA, José. Quadrimestre de maio a setembro de 1954, de Piratininga. In: Cartas: informações, fragmentos históricos e sermões. Belo Horizonte: Itatiaia, São Paulo: EDUSP, 1988, p. 52.

13EISENBERG, José. As missões jesuíticas e o pensamento político moderno. Belo Horizonte: UFMG, 2000. p. 61.

14 Idem, p. 80.

15Os compostos eram medicamentos elaborados a partir de várias substâncias reunidas numa só receita. Estes se diferenciavam dos símplices, receitas feitas com uma substância que poderia ser preparada com água, licor, vinho, aguardente ou azeite.

16VASCONCELOS, Simão de. Crônica da Companhia de Jesus. Petrópolis: Vozes, 1977, 2 volumes, p. 107.

17LEITE, Serafim. História da Companhia de Jesus no Brasil. Tomo II (século XVI - A Obra). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1938. p. 285.

18Cf. LEITE, Serafim. Serviços de saúde da Companhia de Jesus no Brasil. Brotéria, separata do v. IV, Lisboa, fasc. 4, abril de 1952. Ver ainda artigo de AMARO, Ana Maria. Influência da farmacopéia chinesa no receituário das boticas da Companhia de Jesus. Revista de Cultura. Macau, v. 30, 1997, pp. 53-68.

19Carta do P. Manuel da Nóbrega ao P. Francisco Henriques. In: LEITE, Serarifim. Cartas dos primeiros Jesuítas do Brasil. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo, v. 3, pp. 350-351.

20GESTEIRA, Heloisa. O Teatro das coisas naturais; conheciemento e dominação neerlandesa no Brasil. Tese de Doutorado. Niterói: Departamento de História, Universidade Federal Fluminense, 2001. p. 38.

21CARDIM, Fernão. Tratados da terra e do clima do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, São Paulo: EDUSP, 1980. p. 42.

22ATRAN, Scot. Cognitive Foundations of Natural History. Toward an Anthropology of Science. Cambridge: University Press, 1990.

23LENOBLE, Robert, op. cit.

24Livro de receita e despesa do Engenho de Ceregipe, de 21 de junho de 1622 a 21 de maio de 1633. Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Mss II, 33, 14, 39 (cópia), p. 143.

25LEITE, Serafim. História da Companhia de Jesus no Brasil. Tomo II (século XVI - A Obra). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1938. p. 575.

26ANCHIETA, José. Cartas: informações, fragmentos históricos e sermões. Belo Horizonte: Itatiaia, São Paulo, EDUSP, 1988. p. 137.

27Hipócrates. Les Airs, les eaux e les lieux.Traduzido do grego e comentado por Émile Littré, Paris, Arléa. 1995. Trecho retirado da obra de Guilherme Piso, Indiae Utriusque re naturalis et medica. Amstelodamis, apud Ludovicum et Danielem Elzevirios, 1658. (tradução de Mario Lobo Leal, Piso, História Natural e Médica da Índia Ocidental. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, Instituto Nacional do Livro, 1957).

28Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Sessão de Manuscritos, Curiosidad un libro de medicina escrito por los jesuítas en las missiones del Paraguay, 1580. Acredito ser este documento inédito pois até agora não encontrei referência ao mesmo em trabalhos sobre história da medicina e nem tampouco nas obras especializadas na documentação jesuítica tais como os de Sommervogel e Serafim Leite.

29Anônimo, Um libro de medicina escrito... BNRJ, Mss I-15-02-26.

30Não me deterei no processo de ocupação da área nem tampouco nas tensões entre os missionários jesuítas - espanhóis e portugueses -, os colonos de origem espanhola e lusa, a as autoridades locais que disputavam a ocupação da região e o controle sobre a mão de obra indígena. Vale lembrar ainda que o período de ocupação dessa área coincidiu com a época da União Ibérica, 1580/1640. Cf. GADELHA, Regina Maria F. As missões jesuíticas do Itatim: estrutura sócio-econômica do Paraguai colonial - séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980; MONTEIRO, John Manuel. Os negros da terra. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

31GADELHA, Regina, op. cit.

32RUSSEL-WOOD. Um mundo em movimento. Lisboa: Difel, pp. 235-238.

33Anônimo, p. 10.

34HOLANDA, Sérgio Buarque de. Visão do paraíso. São Paulo: Brasiliense, 1992.

35Anônimo, p. 15.

36GADELHA, Regina Maria F, op. cit., p. 219.

37Jesuítas e bandeirantes no Guairá, 1594/1640. Manuscritos da Coleção de Angelis. Introdução, notas e glossário de Jaime Cortesão. Rio de Janeiro: Anais da Biblioteca Nacional, 1951.

38Guilherme Piso: médico neerlandês que acompanhou Maurício de Nassau durante odomínio holandês no Brasil. É autor de História Natural do Brasil (1648), junto com Jorge Marcgrave, e de História Natural e Médica das Índias Ocidentais (1658). A referência aos trabalhos de Piso é mais um dado que aponta para o fato de que o manuscrito que analisamos não data de 1580.

39GALENO. Selected Works. Oxford: University Press, 1997. Tradução, introdução e notas por P. N. Singer.

40ABREU, Eduardo. A Physicatura-mor o Cirurgião mor dos Exércitos no Reino de Portugal e Estado do Brasil. Rio de Janeiro: RIHGB, v. 63, 1900, pp. 154-306.

41Plínio citado por Robert Lenoble. História da idéia de natureza. Lisboa: Edições 70, p. 163.

42Auto de inventário e avaliação dos livros achados no Colégio do Rio de Janeiro e Seqüestrados em 1775. Rio de Janeiro: RIHGB, v. 301, out/dez, 1973, p. 240.

43MARAVALL, José Antonio. A cultura do barroco. São Paulo: EDUSP, 1997. p. 130.

44Este artigo é fruto dos primeiros resultados alcançados durante a pesquisa Medicina Brasiliensi - conhecimento e colonização da América nos séculos XVI e XVII. O trabalho conta com o apoio do CNPq através de uma Bolsa Recém Doutor e está sendo desenvolvido junto ao Departamento de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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