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Topoi (Rio de Janeiro)

Print version ISSN 1518-3319On-line version ISSN 2237-101X

Topoi (Rio J.) vol.6 no.10 Rio de Janeiro Jan./June 2005

https://doi.org/10.1590/2237-101X006010001 

Artigos

In vino veritas: vinho e aguardente no cotidiano dos sodomitas lusobrasileiros à época da Inquisição

In vino veritas: wine and sugarcane spirit in the everyday life of the Luso-Brazilian sodomites uring the Inquisition times

Luiz Mott


RESUMO

Com base nos processos e sumários inquisitoriais da Torre do Tombo, relativos ao nefando pecado de sodomia, interpretamos as informações relativas aos diferentes aspectos dos padrões de consumo de vinho e aguardente pelos sodomitas e fanchonos do mundo luso-brasileiro: ocasiões e situações em que se dava o consumo de bebidas alcoólicas; quantidade, medidas e utensílios ligados ao produto consumido; a utilização destas bebidas como ingrediente visando a socialização, sedução ou dirimente da culpa criminal dos amantes do mesmo sexo.

Palavras-Chave: Sodomia; Escravidão; Vinho.

ABSTRACT

Sur la base des procès et sommaires de l´Inquisition Portugaise, conservés dans les archives Torre do Tombo de Lisbonne, relatifs à l'abominable péché de sodomie, nous analysons les informations concernant les différents aspects des normes de la consommation du vin et de l'eau-de-vie par les sodomites et "fanchonos" du monde luso-brésilien: les occasions et situations où ils s'adonnaient à la consommation de boissons alcooliques; la quantité, les mesures et les ustensiles rattachés au produit consommé; l'utilisation de ces boissons comme ingrédients visant la socialisation, la séduction ou l'empêchement de la culpabilité criminelle des amants du même sexe.

Key words: Sodomy; slavery; wine.

Texto completo disponível apenas em PDF.

Full text available only in PDF format.

1Comunicação apresentada no Simpósio Drogas e Álcool na História do Brasil, séculos XVI-XIX, Universidade Federal de Ouro Preto, Mariana, 25/27-6-2003.

2Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Inquisição de Lisboa, Inquisição Lisboa, Processo1467. [Doravante, abreviado ANTT, IL, Proc.]

3Mott, Luiz. "Pagode português: a subcultura gay em Portugal nos tempos inquisitoriais"Ciência e Cultura, vol.40, fevereiro 1980:120-139.

4Mott, Luiz. "Justitia et misericórdia: A Inquisição Portuguesa e a repressão ao abominávelpecado de sodomia", in Novinsky, A. & Tucci, M.L. (Eds) Inquisição: Ensaios sobre Mentalidade, Heresias e Arte. S. Paulo, EDUSP, 1992:703-739.

5O problema do alcoolismo foi largamente reconhecido na sociedade ocidental desde o séculoXVIII, quando a disponibilidade de bebidas destiladas baratas tornou-as acessíveis a um largo número de pobres e outras pessoas excluídas que passaram a sufocar suas mágoas no licor. O papel que o álcool pode gozar no relaxamento das inibições sexuais também foi reconhecido desde a antiguidade, associando o deus Dionísio e Baco às celebrações orgásticas. Cf. Forest, Gary G. Alcoholism and Human Sexuality.Springfield, IL, Charles Thomas Editor, 1983; Hirschfeld, Magnus. Der Einfluss des Alkohols auf das Geschlechtsleben. Berlin, Michaelis, 1906; Israelstam, S. & Silvia Lambert. "Homosexuality as a cause of alcoholism: a historical review", International Journal of the Addictions, 18 (1983), p.1085-1107; O'Farrell, T. , Carolyn Weyland, Diane Logan. Alchool and Sexuality: An Annotated Bibliography on Alcoholism, and Sexual Behavior. Phoenix, Oryx Press, 1983.

6Belini, Ligia. A Coisa Obscura: Mulher, sodomia e Inquisição no Brasil Colonial. São Paulo, Editora Brasiliense, 1987.

7 Aguardente, segundo o Dicionário Moraes, é "álcool extraído do vinho, dos cereais, da cana, das frutas doces e quaisquer outros produtos sujeitos a fermentação e destilação." Canada, segundo o mesmo dicionarista, é "antiga medida portuguesa de líquidos que continha quatro quartilhos ou a 12a parte de almude ou 2,662 litros".

8ANTT, IL, Caderno do Promotor, n. 130. Segundo o dicionarista Moraes, pinga é sinônimo de vinho bom, licor ou rapé de boa qualidade. "Estar com a pinga" era usado no mesmo sentido de estar embriagado. Nenhuma associação direta a aguardente de cana. Cachaça, por sua vez, já no século XVIII referia-se a aguardente ordinária extraída do mel ou borras de melaço e das limpaduras da cana de açúcar. Já era usado no sentido de "gozo em fazer alguma coisa por paixão ou hábito".

9ANTT, IL, Proc. 2557.

10ANTT, IL, Proc. 1600.

11 Quartilho: segundo Moraes, "equivale a quarta parte de uma canada, ou 35 centilitros. No Brasil, correspondia à canada de Portugal". Quartinho: "moeda equivalente a quarta parte da moeda de 4$800 ou 1$200 réis". Segundo o Dicionário Aurélio, quartilho era "antiga unidade de medida de capacidade para litros, equivalente à quarta parte de uma canada, i. e., 0,6655 litro".

12ANTT, Inquisição de Coimbra, Proc. 3094.

13ANTT, IL, Proc. 10093.

14ANTT, IL, Proc. 1619.

15ANTT, IL, 13º Caderno do Nefando, 143-6-38, fl. 34.

16ANTT, IL, 6º Caderno do Nefando, 143-6-33, fl. 136.

17ANTT, IL, 20º Caderno do Nefando, 149-7-698, fl. 192.

18ANTT, IL, Proc. 1467. Peroleira, segundo Moraes, é "botija de barro grossa e comprida, afunilada para baixo, em que se guardam azeitonas". Botija, por sua vez, é "o vaso de barro de forma cilíndrica, como a da garrafa, gargalo curto e pequena asa ou sem ela, para vinagres, azeites, etc." Segundo o Aurélio, botija é "vaso cilíndrico, de grés, de boca estreita, gargalo curto e uma pequena asa".

19ANTT, IL, Proc. 9467.

20ANTT, IL,1º Caderno do Nefando Évora, 145-5-23, fl. 26.

21ANTT, IL, 14º Caderno do Nefando, 143-6-39, fl. 62. Pipa, segundo Moraes, continha 25 almudes, variando contudo seu volume de região para região. Um almude equivalia a 12 canadas, ou seja, 31,94 litros.

22ANTT, IL, 19º Caderno do Nefando, 143-7-43, fl. 411.

23ANTT, IL, Proc. 12894.

24ANTT, IL, 15º Caderno do Nefando, 143-6-40, fl. 227.

25 Denunciações e confissões de Pernambuco, 1593-1595, p.280.

26Segunda Visitação do Santo Ofício às partes do Brasil, 1618, p.383.

27Eis a definição que o Moraes dá para bêbedo(mais usado do que bêbado): "aquele que tem o juízo perturbado pelo excesso de vinho ou de qualquer outra bebida alcoólica ou por excessivo uso do ópio, do tabaco, etc. Pessoa dada a bebedice, a embriaguês; nome que se dá a um homem desprezível, diz-se: 'é um patife, um canalha, um bêbedo', também a mulher descarada, sem pejo".

28 Denunciações e confissões de Pernambuco, 1593-1595, p.355.

29ANTT, Inquisição Évora, Proc. 5013.

30ANTT, IL, Caderno do Nefando, nº 821.

31ANTT, IL, Proc. 1312.

32ANTT, IL, Proc. 1967.

33ANTT, IL, Proc. 6789.

34ANTT, IL, Proc. 1717.

35Mott, Luiz. "A maconha na história do Brasil", in A . Hennan (Ed), Diamba sarambamba: Textos sobre a maconha no Brasil. São Paulo, Editora Ground, 1986:117-135.

36ANTT, IL, 20º Caderno do Nefando, 149-7-698, fl. 89.

37ANTT, IL, 20º Caderno do Nefando, 149-7-698, fl. 362 .

38ANTT, IL, 20º Caderno do Nefando, 149-7-698, fl. 254.

39ANTT, IL, Proc. 2033.

40ANTT, Inquisição de Coimbra, Proc. 5437.

41ANTT, IL, Proc. 5882.

42ANTT, IL, 20º Caderno do Nefando, 149-7-698, fl. 138.

43ANTT, IL, 12º Caderno do Nefando, 143-6-37, fl. 158.

44ANTT, IL, 20º Caderno do Nefando, 149-7-698, fl. 121.

Recebido: Maio de 2004; Aceito: Outubro de 2004

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