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Topoi (Rio de Janeiro)

On-line version ISSN 2237-101X

Topoi (Rio J.) vol.14 no.26 Rio de Janeiro Jan./June 2013

https://doi.org/10.1590/2237-101x0140260009 

Artigos

O aniquilamento de Cartago e Numância*

Breno Battistin Sebastiani**


RESUMO

A tradição historiográfica, iniciada com Políbio, a respeito da trajetória política de Cipião Emiliano (185-129 a.C.), descreveu-a como marcada pela criação de precedentes institucionais por meio de sucessivos atos de concentração de poder e violência militar. Até hoje a maioria dos historiadores tem interpretado essa tradição como favorável à imagem do comandante romano, a despeito das ressalvas de A. Momigliano. Partindo dessas ressalvas, alguns momentos-chave dessa tradição (a obtenção de dois consulados e o aniquilamento das cidades de Cartago e Numância por Cipião) mostram também um viés crítico, sobretudo devido ao contraste entre as imagens tópicas do intelectual aberto ao helenismo e do comandante competente embora truculento.

Palavras-Chave: Cipião Emiliano; Cartago; Numância; helenismo; violência.

ABSTRACT

The historiographical tradition originated with Polybius about the political career of Scipio Aemilianus (185-129 B.C.) presented it as marked by the creation of institutional precedents through successive acts of concentration of power and of military violence. Until today, most historians have interpreted this tradition as being favorable to the image of the Roman commander, despite A. Momigliano's reservations. Considering these reservations, some key moments in that tradition (Scipio's reaching of two consulships and the annihilation of Carthage and Numantia) present also a critical bias, particularly because of the contrast between the topic images both of the learned man open to Hellenism and of the competent but truculent commander.

Key words: Scipio Aemilianus; Carthage; Numantia; Hellenism; violence.

Texto completo disponível apenas em PDF.

Full text available only in PDF format.

11 Filelenismo de Cipião: Plb.31.23-30; destruição de Cartago: Plb.38.19a-22; destruição de Numância: monografia sobre a Guerra Numantina mencionada por Cícero (AdFam.5.12.2) e atualmente perdida.

22 Diodoro: livros 31-32; Plutarco: Apotegmas de reis e comandantes, Vida de Emílio Paulo, Vida de Tibério Graco; Apiano: Guerras Púnicas, Guerras na Ibéria.

33 Plb.31.24.8.

44 BARONOWSKI, Donald Walter. Polybius and Roman imperialism. Londres: Bristol Classical Press, 2011. p. 4; WALBANK, Frank William. Selected papers. Studies in Greek and Roman history and historiography. Cambridge: Cambridge University Press, 1985. p. 325-330.

55 Plb.36.9.

66 MOMIGLIANO, Arnaldo. Sesto contributo alla storia degli studi classici e del mondo antico t. I. Roma: Storia e Letteratura, 1980. p. 85. A resenha "The historian's skin" foi originalmente publicada em 1974.

77 Rutílio Rufo (t. 1 Peter), legado de Cipião em Numância, também teria escrito uma monografia a respeito.

88 Plb.36.11.2.

99 O exemplo mais recente é BARONOWSKI, Donald Walter. Polybius and Roman imperialism, op. cit. p. 153-154.

1010 Ibidem, p. 174.

1111 GRUEN, Erich. Culture and national identity in Republican Rome. Ithaca, Nova York: Cornell University Press, 1992. p. 252-258.

1212 Plb.31.24.6-7.

1313 MARINCOLA, John. Intertextuality and exempla. Histos Working Papers, s.n., p. 5, 2011. Disponível em: <http://research.ncl.ac.uk/histos/Histos_WorkingPapers_APA_7Jan11.html> Acesso em: 29 jan. 2013.

1414 HARRIS, William Vernon. The late Republic. In: SCHEIDEL, Walter; MORRIS, Ian; SALLER, Richard (Ed.). The Cambridge economic history of the Greco-Roman World. Cambridge: Cambridge University Press, 2007. p. 504 e 509: além do crescente afluxo de escravos, técnicos e artistas para Roma, entre 188 a.C. e 163 a.C. o número de cidadãos romanos adultos subiu de 258.000 para 337.000.

1515 O filho do Africano: Cic.Brut.77, Sen.35 e Off.1.121; o patrimônio do Africano: Plb.31.26; a adoção de Cipião Emiliano: Plut.Aem.5, Vell.1.10; árvores genealógicas dos Cornelii e dos Aemilii em WALBANK, Frank William. A historical commentary on Polybius III. Oxford: Oxford University Press, 1979. p. 504.

1616 Plut.Aem.22 antecipa na sequência os dois feitos que notabilizarão o jovem; Liv.44.44.

1717 Emiliano, Políbio e o apreço pela caça: Plb.31.29; Cipião Emiliano patrono da Macedônia: Plb.35.4.8; Emílio Paulo impõe leis à Macedônia: Liv.45.32; aterroriza o Epiro: Plb.30.15; Liv.45.43; Plut.Aem.29. Segundo Tito Lívio, a distribuição não agradou aos soldados, que não tiveram parte no butim de Perseu; Plutarco registra a apreensão generalizada causada pelas meras onze dracmas que coube a cada um ("um povo inteiro reduzido a trocados").

1818 Respectivamente Plb.9.16-20 e 31.23-9.

1919 HARRIS, William Vernon. The late Republic, op. cit. p. 506.

2020 É incerto se Políbio o acompanhou: Plb.3.48.12 e WALBANK, Frank William. A historical commentary on Polybius I, op. cit. ad locum; e se Emiliano partiu como legado ou como tribuno militar: Plb.35.4.9. O pai e o tio do Africano foram mortos em combate na Ibéria em 211 a.C. e rendidos pelo jovem priuatus cum imperio: Plb.10.6-7 e Liv.25.36; em 205 a.C. o Africano fundou Italica: App.Hisp.38; Emílio Paulo exercera a pretura na Ibéria em 191 a.C.: Plut.Aem.4; Tibério Graco, pai do tribuno e sogro de Emiliano, legislou e pacificou a Ibéria, que assim permaneceu por quase vinte anos (179- 153 a.C.): App.Hisp.43.

2121 App.Pun.71-2. As tropas de Massinissa serão peças-chave para a tomada de Cartago; seu ressentimento contra os cônsules de 149 a.C., Márcio Censorino e Mânio Manílio, explica parte de suas dificuldades: App.Pun.94.

2222 Diod. 32.2 e 4. Procedência dos fragmentos e discussão de interpretações recentes cf. BARONOWSKI, Donald Walter. Polybius and Roman imperialism, op. cit. p. 106-113. Os passos derivariam de um discurso reportado por Políbio e que exporia a visão de observadores gregos; a menção à destruição de Numância (133 a.C.), cuja proveniência é incerta - se de Políbio ou de Diodoro -, não invalida a derivação polibiana nem a cronologia dos demais argumentos.

2323 Plb.36.7, Liv.Per.49 e App.Pun.74ss.

2424 Plb.36.9.3-17; discussão e interpretações recentes em BARONOWSKI, Donald Walter. Polybius and Roman imperialism, op. cit. p. 101-106; MOMIGLIANO, Arnaldo. Sesto contributo alla storia degli studi classici e del mondo antico t. I, op. cit. p. 84; e CHAMPION, Craige Brian. Cultural politics in Polybius's Histories. Berkeley; Los Angeles; Londres: University of California Press, 2004. p. 196 deixam de lado as tentativas infrutíferas de identificação da opinião de Políbio e se concentram nos significados da apresentação - índice da enormidade do conflito e da necessária indeterminação cultural do historiador, respectivamente. 2

255 Plb.36.2.

2626 Plut.Cat.Mai.26-7 e App.Pun.69. A embaixada de Catão à África para dirimir desentendimentos entre Massinissa e Cartago é de 157 a.C. Problemas de cronologia e veracidade do episódio cf. HARRIS, William Vernon. Roman expansion in the west. In: ASTIN, Alan; WALBANK, Frank William et al. (Ed.). The Cambridge ancient history v. VIII: Rome and the Mediterranean to 133 B.C. Cambridge: Cambridge University Press, 1989. p. 149-151; Cipião Nasica na Macedônia: Zon.9.28.

2727 Pilhagem da estátua de Apolo de mil talentos de ouro: App.Pun.127; dias de pilhagem da cidade e divisão do butim: App.Pun.133; HARRIS, William Vernon. Roman expansion in the west, op. cit. p. 152-157.

2828 Provavelmente fosse Políbio a principal fonte parafraseada por Apiano: ASTIN, Alan. Scipio Aemilianus. Oxford: Clarendon Press, 1967. p. 4. Cônsules em 149 a.C.: Márcio Censorino e Mânio Manílio; em 148 a.C.: Postúmio Albino e Calpúrnio Pisão. Arrogância de Censorino: App.Pun.80-6, 97 e de Mancino (legado sob ordens de Pisão): App.Pun.113; inatividade de Censorino, Manílio e Pisão: App.Pun.94, 108, 112; incúria e imprudência de Censorino, Manílio e Mancino: App.Pun.99-102, 114.

2929 App.Pun.105-9.

3030 App.Pun.112.

3131 Eleição de Cipião cf. ASTIN, Alan. Scipio Aemilianus, op. cit. p. 61 e ss; Cartago foi arrasada no "início da primavera" de 146 a.C. (App.Pun.127).

3232 App.Pun.115-31.

3333 A insistência de Apiano em descrever o que havia de ilegalidade nos dois consulados de Cipião (App.Pun.112; Hisp.84; B.C.19) reforça a meticulosidade com que foi articulada a operação. Plb.38.8.7 amplia a dramaticidade do holocausto cartaginês, comparando Asdrúbal explicitamente a um boi de sacrifício.

3434 Plb.9.12.1. A análise de Políbio está em Plb.9.12-20; implicações éticas: ECKSTEIN, Arthur. Moral vision in the Histories of Polybius. Berkeley; Los Angeles; Londres: University of California Press, 1995. p. 25-26 e 248.

3535 SANCTIS, Gaetano de. Storia dei romani IV.3. Dalla battaglia di Pidna alla caduta di Numanzia. Florença: La Nuova Italia, 1964. p. 74.

3636 App.Pun.134-5.

3737 Cic.Rep.1.34.

3838 Plb.38.21.

3939 Cf. App.Hisp.45-7: 10 mil romanos mortos em 153 a.C.; §51-3: Lúculo massacra traiçoeiramente a população de Cauca em 151 a.C.; §59-61: o mesmo Lúculo atraiçoa também os lusitanos em 151 a.C., e Galba dá continuidade à perfídia em 150 a.C.; §66: timidez e inexperiência de Aulo Pompeu em 143 a.C.; §70-4: perfídia de Cepião e assassinato de Viriato em 140 a.C.; §76-9: incúria e inatividade de Pompeu, batido pelos numantinos em 140 a.C.; §80-3: o foedus Mancinus de 137 a.C., desânimo no Senado devido a tantos desastres, fuga vergonhosa de Emílio Lépido de Palantia, que lhe acarreta a privação do consulado em 136 a.C., inatividade de Calpúrnio Pisão em 135 a.C.

4040 Os grandes líderes políticos mortos foram Tibério Graco, Emílio Lépido (em 152 a.C.), Catão (em 149 a.C.) e Cláudio Marcelo (em 148 a.C.): ASTIN, Alan. Scipio Aemilianus, op. cit. p. 97; resistências políticas a Cipião Emiliano: Ibidem, p. 80s; censura e fontes: Ibidem, p. 112s; Cipião apoiado pela plebe quando eleito censor: Plut.Aem.38.

4141 Discussão em ASTIN, Alan. Scipio Aemilianus, op. cit. p. 129-134.

4242 App. Hisp.84.

4343 Apiano erra ao afirmar que Emiliano não tinha a idade requerida. O problema é outro: Liv.Per.56: Cipião infringira uma lei de consulato non iterando, provavelmente de 151 a.C.; MARTINO, Francesco de. Storia della costituzione romana t. II. Nápoles: Eugenio Jovene, 1973. p. 422. Novamente o povo o elege cônsul, e novamente o Senado abroga uma lei. Cipião celebrará também um segundo triunfo, embora bem mais modesto do que o primeiro: Plin.33.50.

4444 Apiano menciona apenas Rutílio Rufo (Hisp.88), aliado político e legado de Cipião na guerra numantina, como sua fonte, mas pode ter também utilizado a monografia de Políbio mencionada por Cícero (Fam.5.12.2).

4545 App.Hisp.90-8.

4646 App.Hisp.98.

4747 Plb.3.63.4.

4848 A guerra para os romanos: MARTINO, Francesco de. Storia della costituzione romana t. II, op. cit. p. 53; Ilúrgia: Plb.11.24.10, Liv.28.20 e App.Hisp.32.

4949 Plb.31.29.1. MAUERSBERGER, Arno et al. Polybios-Lexikon I.1. Berlin: Akademie, 2000. p. 113 s.v. ἀνδρεία (Mannhaftigkeit); McDONNELL, Myles. Roman manliness. Virtus and the Roman republic. Nova York: Cambridge University Press, 2006. p. 238 sobre o paralelo entre uirtus e ἀνδρεία. O juízo de Políbio provém de sua apreciação sobre os anos de formação de Emiliano; em 152 a.C., ao oferecer-se voluntariamente para ir à Ibéria, Cipião o fazia "almejando reputação de varonia": Plb.35.4.8.

5050 Cf. os episódios envolvendo a cidade de Mantineia e o tirano de Argos Aristômaco em Plb.2.56-61, especialmente os juízos de §58.11: "[os mantineus] mereciam punição maior e absoluta" e §60.7: "[Aristômaco] deveria ter sido arrastado pelo Peloponeso e morrido servindo de punição exemplar". Eventuais motivações políticas de Políbio: WALBANK, Frank William. A historical commentary on Polybius I, op. cit. ad locos.

5151 Plb.15.17.3-18.8.

5252 Plb.29.20.

5353 Plb.38.20.1-3.

5454 Νοῦς - lucidez - é a faculdade suprema de um comandante para Políbio: 9.12.1; resulta do concerto entre πρόνοια (presciência), λογισμός (cálculo) e ἀγχίνοια (acume): 10.5.8; PÉDECH, Paul. La méthode historique de Polybe. Paris: Les Belles Lettres, 1964. p. 210-211.

5555 ASTIN, Alan. Scipio Aemilianus, op. cit. p. 231.

5656 Plut.Reg.Imp.Apoph.201f.

5757 Plb.31.25.8; 31.28.10; 31.29.9.

5858 Cleômenes: Plb.2.61.4; Perseu: Plb.27.8.4.

5959 MARINCOLA, John. Intertextuality and exempla. Histos Working Papers, s.n., p. 3, 2011. Disponível em: <http://research.ncl.ac.uk/histos/Histos_WorkingPapers_APA_7Jan11.html> Acesso em: 29 jan. 2013.

6060 No epílogo das Histórias Políbio redige uma pequena prece que, embora tópica, é indício de sua situação: "pedimos a todos os deuses que aquilo que nos resta ainda para viver possa continuar nas mesmas condições; vemos quanto o acaso aprecia invejar os homens e como é mais incisivo no momento em que alguém mais se crê feliz e bem-sucedido na vida" (Plb.39.9.2).

6161 BARONOWSKI, Donald Walter. Polybius and Roman imperialism, op. cit. p. 174: "the present study, which builds on the foundations of earlier scholarship, may be taken as a protest against this unjust verdict".

6262 Plb.39.8.2.

63 63 CHAMPION, Craige Brian. Cultural politics in Polybius's Histories, op. cit. p. 196-197.

6464 Dito explicitamente em Plb.31.24.11.

Recebido: 18 de Janeiro de 2013; Aceito: 18 de Fevereiro de 2013

*

Agradeço todas as sugestões dos pareceristas. As traduções são de minha responsabilidade.

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Doutor em história social pela Universidade de São Paulo, professor na Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. E-mail: sebastiani@usp.br.

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