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Topoi (Rio de Janeiro)

On-line version ISSN 2237-101X

Topoi (Rio J.) vol.14 no.27 Rio de Janeiro July/Dec. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/2237-101X014027011 

Artigos

Corpus shakespeariano e reformas religiosas inglesas: um estudo de caso - O mercador de Veneza

Alexander Martins Vianna**

RESUMO

Os estudos pós-revisionistas sobre reformas religiosas inglesas têm focado as novas possibilidades de interpretação dos loci sociais, culturais e políticos de negociação da matéria religiosa na literatura e história da Inglaterra Reformada, evitando abordagens polarizadas whiggistas e revisionistas a respeito da história literária das reformas inglesas. Nesse sentido, este artigo aborda a materialidade textual do in-quarto de 1600 (Q1) de O mercador de Veneza como um evento que localiza negociações e expectativas culturais e políticas a respeito da conformação à religião oficial na Inglaterra elisabetana. Este artigo analisa especificamente a presença dos recursos retóricos no Q1 que figuram as ameaças 'puritanas' e 'papistas' à realeza sagrada, incluindo o estudo do uso dos temas da iconoclastia do mérito, da melancolia, da amiticia e da caritas na caracterização dos personagens principais.

Palavras-Chave: Inglaterra; religião; drama; antipuritanismo; anticatolicismo.

ABSTRACT

Post-revisionist English Reformation studies have focused on new interpretation possibilities of social, political and cultural loci to religious negotiations in post-Reformation English History and Literature, avoiding Whiggist and revisionist polarized approaches to the Literary History of English Reformations. This article deals with the textual materiality of The Merchant of Venice (Q1, 1600) as an event that locates cultural and political negotiations, and expectations, regarding religion conformity in Elizabethan England. It especially intends to analyze the rhetorical motives used in Q1 to represent menaces to sacred kingship, and to figure its adversaries (namely 'Puritans' and 'Papists'), also including a study of propositions about iconoclasm of merits, melancholy, amiticia and caritas on the ways of fashioning the main characters' manners.

Key words: England; religion; drama; anti-Puritanism; anti-Catholicism.

Texto completo disponível apenas em PDF.

Full text available only in PDF format.

* Este artigo é um dos produtos do projeto de pesquisa "Reforming Shakespeare": materialidade textual, ordem pública e idolatria (2010-2013), financiado: pela Faperj, na forma de APQ1 (2010-2011) e bolsas de I.C. (2010-2012); pelo CNPq, na forma de bolsa de I.C. (2010-2011); e pela Capes, na forma de bolsa (2012-2013) do Programa Jovens Talentos Científicos (PJTC/Capes).

1 1 POOLE, Kristen. Radical religion from Shakespeare to Milton: figures of nonconformity in Early Modern England. Cambridge: Cambridge University Press, 2006. p. 1-73.

2 2 BATES, Lucy. The limits of possibility in England's Long Reformation. The Historical Journal, v. 53, n. 4, p. 1049-1070, 2010; FLETCHER, Anthony; ROBERTS, Peter (Ed.). Religion, culture and society in Early Modern Britain. Cambridge: Cambridge University Press, 1994; HUTTON, Ronald. The English Reformation and the evidence of folklore. Past & Present, n. 148, p. 89-116, 1995; LAKE, Peter; QUESTIER, Michael. Agency, appropriation and rhetoric under the Gallows: puritans, romanist and the State in Early Modern England. Past & Present, n. 153, p. 64-107, 1996; TODD, Margo et al. Reformation to Revolution: politics and religion in Early Modern England. Londres: Routledge, 1995; WALSHAM, Alexandra. 'Le théâtre des jugements de Dieu': le providentialisme et la réforme protestante dans l'Angleterre des XVIe et XVIIe siècles. Histoire, Économie & Société, Paris, v. 22, n. 3, p. 325-348, 2003.

3 3 O paradigma historiográfico whiggista centrava-se numa visão triunfalista e insular da Reforma Religiosa Inglesa (no singular) como a via media entre o calvinismo de Genebra e o catolicismo continental. Por esse viés, a via media definiria a singularidade inglesa e seria o fundamento de sua modernidade cultural, social, política e econômica. A via média como tópos de modernidade inglesa foi recorrentemente colocada em contraste tipológico com o 'sectarismo puritano' e o 'atraso cultural' ou 'corrupção' católico. Até 1972, quando então houve a virada crítica revisionista da historiografia sobre as reformas religiosas inglesas (agora no plural), a história social e a história das ideias na Inglaterra associavam recorrentemente aos temas políticos e religiosos do paradigma whiggista os temas sociológicos (weberianos e marxistas) da secularização, desencantamento do mundo, revolução científica e revolução industrial para explicar o triunfo cultural, político e econômico da Inglaterra, ou seja, enfatizava-se o vínculo teleológico causal entre Reforma, iluminismo e revolução industrial, reforçando-se, ao adicionar premissas sociológicas e econômicas, os marcos paradigmáticos políticos e religiosos whiggistas de teleologia histórica de modernidade. No entanto, é importante lembrar que, antes da virada revisionista da década de 1970, as produções historiográficas de Christopher Hill das décadas de 1950 e 1960 formaram contribuições importantes na positivação histórica do "sectarismo puritano" na Inglaterra, ao pensá-lo também como formador da modernidade, devido à sua tradição crítica de ideias e valores niveladores antiaristocráticos.

4 4 AMOS, N. Scott. Martin Bucer and the revision of the Book of Common Prayer. Reformation & Renaissance Review, v. 1, n. 2, p. 107-126, 1999; MACCULLOCH, Diarmaid; LAVEN, Mary; DUFFY, Eamon. Recent trends in the study of christianity in sixteenth-century Europe. Renaissance Quarterly, v. 59, n. 3, p. 697-731, 2006; MILTON, Anthony. Catholic and Reformed: the Roman and Protestant Churches in English protestant thought, 1600-1640. Cambridge: Cambridge University Press, 2002; SCOTT, Jonathan. England's troubles: seventeenth-century English political instability in European context. Cambridge: Cambridge University Press, 2000.

5 5 MILTON, Anthony. Catholic and Reformed, op. cit.; PUJOL, Xavier Gil. Crónica y cuestiones de veinticinco años de debate. Pedralbes, v. 17, p. 241-288, 1997.

6 6 CROCKETT, Bryan. The play of paradox: stage and sermon in renaissance England. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1995; BATES, Lucy. The limits of possibility in England's Long Reformation. The Historical Journal, v. 53, n. 4, p. 1049-1070, 2010; WALSHAM, Alexandra. 'Le théâtre des jugements de Dieu': Le providentialisme et la Réforme protestante dans l'Angleterre des XVIe et XVIIe siècles. Histoire, Économie & Société, Paris, v. 22, n. 3, p. 325-348, 2003; PUJOL, Xavier Gil. Crónica y cuestiones de veinticinco años de debate, op. cit.

7 7 Exemplos importantes dessa tradição crítica no pós-Segunda Guerra Mundial são: MORGAN, ­Edmund. Visible saints: the history of a puritan idea. Londres: Cornell University Press, 1965; NEW, John F. H. Anglican and Puritan: The basis of their opposition, 1558-1640. Stanford: Stanford University Press, 1964.

8 8 BATES, Lucy. The limits of possibility in England's Long Reformation, op. cit.; MILTON, Anthony. Catholic and Reformed, op. cit.; PUJOL, Xavier Gil. Crónica y cuestiones de veinticinco años de debate, op. cit.; WALSHAM, Alexandra. 'Le théâtre des jugements de Dieu', op. cit.; MACCULLOCH, Diarmaid; LAVEN, Mary; DUFFY, Eamon. Recent trends in the study of christianity in sixteenth-century Europe, op. cit.; BREMER, Francis J. (Ed.). Puritanism: transatlantic perspectives on a seventeenth--century Anglo-American faith. Boston: Massachusetts Historical Society, 1993; BERGAMASCO, Lucia. Hagiographie et sainteté en Angleterre aux XVIe-XVIIe siècles. Annales ESC, v. 48, n. 4, p. 1053-1085, 1993; TODD, Margo et al. Reformation to Revolution, op. cit.; COFFEY, John et al. The Cambridge companion to Puritanism. Cambridge: Cambridge University Press, 2008; JACKSON, Ken; MAROTTI, Arthur F. The turn to religion in Early Modern English studies. Criticism, v. 46, n. 1, p. 167-190, 2004; COLLINSON, Patrick. The religion of protestants: the Church in English society, 1559-1625 - the Oxford lectures, 1979. Oxford: Oxford University Press, 2003; LAKE, Peter. Popular form, puritan content? Two puritan appropriations of the murder pamphlet from mid-seventeenth-century London. In: FLETCHER, Anthony; ROBERTS, Peter (Ed.). Religion, culture and society in Early Modern Britain, op. cit.; LAKE, Peter. Moderate puritans and Elizabethan Church. Cambridge: Cambridge University Press, 2004; CROCKETT, Bryan. The play of paradox, op. cit.

9 9 VIANNA, Alexander Martins. 'Shakespeare': um nome para textos. Topoi, v. 9, n. 16, p. 191-232, 2008.

10 10 KLAUSE, John. Catholic and protestant, jesuit and Jew: historical religion in The merchant of Venice. Religion and the Arts, v. 7, n. 1-2, p. 65-102, 2003.

11 11 YARDENI, Myryam. French Calvinism and Judaism. Reformation & Renaissance Review, v. 6, n. 3, p. 294-312, 2004.

12 12 CROCKETT, Bryan. The play of paradox, op. cit.; DIEHL, Huston. 'Infinite space': representation and reformation in Measure for measure. Shakespeare Quarterly, v. 49, n. 4, p. 393-410, 1998.

13 13 Ver: VIANNA, Alexander Martins. As figurações de rei e a caracterização de 'puritano' e 'papista' em Basilikon Doron. Topoi, v. 12, n. 22, p. 5-6, 2011.

14 14 Ibid., p. 7-8.

15 15 DIEHL, Huston. 'Infinite space', op. cit.; HAWKES, David. Idolatry and commodity fetishism in the antitheatrical controversy. Studies in English Literature 1500-1900, v. 39, n. 2, p. 255-273, 1999; CROCKETT, Bryan. The play of paradox, op. cit.

16 16 WHITE, Paul Whitfield. Playing companies and the drama of the 1580s: a new direction for Elizabethan theatre history? Shakespeare Studies, n. 28, p. 265-284, 2000.

17 17 DIEHL, Huston. Staging reform, reforming the stage: protestantism and popular theater in Early Modern England. Ithaca, NY: Cornell University Press, 1997. p. 67-93; CROCKETT, Bryan. The play of paradox, op. cit.

18 18 VIANNA, Alexander Martins. As figurações de rei e a caracterização de 'puritano' e 'papista' em Basilikon Doron, op. cit.

19 19 HEYES, Thomas (Ed.). The most excellent historie of the merchant of Venice. Londres: Greene Dragon, 1600. p. 25.

20 20 VIANNA, Alexander Martins. As figurações de rei e a caracterização de 'puritano' e 'papista' em Basilikon Doron, op. cit.; WHITE, Paul Whitfield. Playing companies and the drama of the 1580s, op. cit.; WALSHAM, Alexandra. 'Le théâtre des jugements de Dieu', op. cit.

21 21 KLAUSE, John. Catholic and protestant, jesuit and Jew, op. cit.

22 22 Nos séculos XVI e XVII, há uma grande quantidade de tratados que enfatizam a diferença entre jura casual e jura formal, assim como elucidam a desonra contida no uso casual do juramento ou promessa. Ver: TERRY, Reta A. 'Vows to the Blakest Devil': Hamlet and the evolving code of honor in Early Modern England. Renaissance Quarterly, v. 52, n. 4, p. 1076, 1999.

23 23 HEYES, Thomas (Ed.). The most excellent historie of the merchant of Venice, op. cit. p. 65.

24 24 Ibid., p. 46-47.

25 25 Ibid., p. 60-61.

26 26 Ibid., p. 69.

27 27 Ibid., p. 73-74.

28 28 HEYES, Thomas (Ed.). The most excellent historie of the merchant of Venice, op. cit. p. 60.

29 29 Ibid., p. 73.

30 30 Apud KLAUSE, John. Catholic and protestant, jesuit and Jew, op. cit.

31 31 Recomenda-me à vossa nobre esposa./ Conta-lhe como Antônio vivera./ Diga o quanto eu vos amo; e fale bem de mim quando minha vida findar./ E quando a lenda for contada, peça-lhe para julgar/ se Bassanio nunca teve antes um amor.

32 32 Ninguém tem amor maior do que este: sacrificar sua vida por seus amigos.

33 33 KLAUSE, John. Catholic and protestant, jesuit and Jew, op. cit.

34 34 Apud KLAUSE, John. Catholic and protestant, jesuit and Jew, op. cit.

35 35 Bass. (...) Eu vivo sob tormentos./ Por. Sim, mas temo que você fale sob tortura, /quando homens são forçados a dizer qualquer coisa.

36 36 Quantas insuportáveis agonias temos sofrido sob tortura... (Alguém tão torturado) torna-se apto a dizer qualquer coisa para aliviar a agudeza e severidade da dor. (Mesmo um) laico ignorante preferiria arriscar a sua vida falando demais do que a sua consciência por não dizer o bastante.

37 37 Apud KLAUSE, John. Catholic and protestant, jesuit and Jew, op. cit.

38 38 Apud Ibid.

39 39 YARDENI, Myryam. French Calvinism and Judaism, op. cit.

40 40 HEYES, Thomas (Ed.). The most excellent historie of the merchant of Venice, op. cit. p. 44.

41 41 Ibid., p. 73-75.

42 42 Ibid., p. 36.

43 43 Ibid., p. 12.

44 44 Ibid., p. 25.

45 45 Ibid., p. 25-28.

46 46 Ibid., p. 24-25.

47 47 Sobre este tipo de figuração negativa de 'puritano hipócrita', ver: BERGAMASCO, Lucia. Hagiographie et sainteté en Angleterre aux XVIe-XVIIe siècles, op. cit.

48 48 HEYES, Thomas (Ed.). The most excellent historie of the merchant of Venice, op. cit. p. 53-64.

49 49 A linguagem do paradoxo é geralmente acionada para atrair a atenção/desejo para determinados aspectos do mundo das experiências que serão, logo em seguida, desestabilizados por meio da exposição de dilemas insolúveis, da inconsistência de seus pressupostos ou da inconstância moral daqueles que os apregoam ou encarnam. No texto dramático shakespeariano, o uso desse recurso possibilita expor deliberadamente a artificialidade dos signos e das convenções teatrais e sociais, mas com a finalidade moral de provocar na consciência do leitor/audiência um despertar iconoclasta conformista, ou seja, a figuração de paradoxos possibilita ensinar a infinita distância do mérito humano em relação à perfeição e graça divinas e, assim, enfatiza a necessidade do uso justo das instituições e das leis civis, que seriam dádivas divinas para manterem unidos, na ordem civil, seres adversos, até o Juízo Final, quando caberia a Deus separar o 'joio' do 'trigo'. Ver: PLATT, Peter. Shakespeare and the culture of paradox, op. cit.

50 50 Ver: DELUMEAU, Jean. História do medo no Ocidente, 1300-1800. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 414-461.

51 51 HEYES, Thomas (Ed.). The most excellent historie of the merchant of Venice, op. cit. p. 53-55.

52 52 Ibid., p. 58.

53 53 BERGAMASCO, Lucia. Hagiographie et sainteté en Angleterre aux XVIe-XVIIe siècles, op. cit.

54 54 LAKE, Peter. Moderate puritans and Elizabethan Church, op. cit. BERGAMASCO, Lucia. Hagiographie et sainteté en Angleterre aux XVIe-XVIIe siècles, op. cit.

55 55 BERGAMASCO, Lucia. Hagiographie et sainteté en Angleterre aux XVIe-XVIIe siècles, op. cit.

56 56 HEYES, Thomas (Ed.). The most excellent historie of the merchant of Venice, op. cit. p. 53-63.

57 57 VIGNAUX, Michèle. Gloriana: Elizabeth I d'Angleterre ou la gloire incarnée. HES, v. 20, n. 2, p. 151-161, 2001.

58 58 CURRAN JR., John E. Jacob and Esau and the iconoclasm of merit. SEL, v. 49, n. 2, p. 285-309, 2009; VIANNA, Alexander Martins. As figurações de rei e a caracterização de 'puritano' e 'papista' em Basilikon Doron, op. cit.

59 59 HEYES, Thomas (Ed.). The most excellent historie of the merchant of Venice, op. cit. p. 3-8.

60 60 Ibid., p. 6.

61 61 Ibid., p. 4-5.

62 62 Ibid., p. 6.

63 63 DIEHL, Huston. Staging reform, reforming the stage, op. cit.; CROCKETT, Bryan. The play of paradox, op. cit.

64 64 GRIFFIN, Benjamin. The birth of the history play: saint, sacrifice, and reformation. SEL, v. 39, n. 2, p. 217-237, 1999; KNAPP, Jeffrey. Preachers and players in Shakespeare's England. Representations, n. 44, p. 29-59, 1993; MILTON, Anthony. Catholic and Reformed, op. cit.; DIEHL, Huston. Staging reform, reforming the stage, op. cit.; CROCKETT, Bryan. The play of paradox, op. cit.

65 65 HEYES, Thomas (Ed.). The most excellent historie of the merchant of Venice, op. cit. p. 61-63.

Received: May 05, 2013; Accepted: June 03, 2013

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Doutor em história social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor adjunto II de história moderna do Departamento de História da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, RJ, Brasil. E-mail: alexvianna1974@hotmail.com.

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