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Trends in Psychiatry and Psychotherapy

Print version ISSN 2237-6089On-line version ISSN 2238-0019

Trends Psychiatry Psychother. vol.33 no.3 Porto Alegre  2011

http://dx.doi.org/10.1590/S2237-60892011000300003 

ARTIGO ORIGINAL

 

Normas brasileiras para o Affective Norms for English Words

 

Brazilian norms for the Affective Norms for English Words

 

 

Christian Haag KristensenI; Carlos Falcão de Azevedo GomesII; Alice Reuwsaat JustoIII; Karin VieiraIV

IDoutor. Professor adjunto, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Porto Alegre, RS
IIAcadêmico de Psicologia, PUCRS. Bolsista de Iniciação Científica, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)
IIIAcadêmico de Psicologia, PUCRS. Bolsista de Iniciação Científica, PUCRS
IVPsicóloga. Trainee em Neuropsicologia, Hospital São Lucas, PUCRS

Correspondência

 

 


RESUMO

INTRODUÇÃO: O presente estudo realizou a tradução e adaptação do Affective Norms for English Words (ANEW) para o português brasileiro (ANEW-Br) e obteve medidas de emocionalidade para um conjunto de 1.046 palavras em português.
MÉTODO: Uma amostra de 755 universitários de ambos os sexos utilizou as escalas de valência e alerta do Self-Assessment Manikin para julgar a emocionalidade de 1.046 palavras em português.
RESULTADOS: Os valores de valência ficaram no intervalo de 1,16 a 8,80, enquanto que os valores de alerta ficaram no intervalo de 2,22 a 7,67. Análises adicionais indicaram que as medidas de valência e alerta se mostraram fidedignas, além de sugerir adequação do método utilizado para coleta das medidas de emocionalidade.
CONCLUSÃO: A disponibilização das normas brasileiras para o ANEW representa um avanço metodológico para pesquisadores brasileiros no desenvolvimento de futuros estudos sobre os efeitos da emoção na cognição humana.

Descritores: Emoções, alerta, cognição.


ABSTRACT

INTRODUCTION: The present study translated and adapted the Affective Norms for English Words (ANEW) to Brazilian Portuguese (ANEW-Br) and collected emotionality measures for a set of 1,046 words in Brazilian Portuguese.
METHOD: A sample of 755 male and female undergraduate students used the valence and arousal scales of the Self-Assessment Manikin to judge the emotionality of 1,046 words in Brazilian Portuguese.
RESULTS: Valence values ranged from 1.16 to 8.80, while arousal values ranged from 2.22 to 7.67. Further analyses indicated that both valence and arousal measures were reliable and suggested that the method used was appropriate for the collection of emotionality measures.
CONCLUSION: The availability of Brazilian norms for the ANEW represents a methodological advancement for Brazilian investigators in the development of future studies about the effects of emotion on human cognition.

Keywords: Emotions, arousal, cognition.


 

 

Introdução

O estudo científico das emoções pode ser datado na segunda metade do século XIX, com os trabalhos seminais de G. B. Duchenne de Boulogne e Charles Darwin, seguidos pelas contribuições de William James e Walter B. Cannon. Embora diversificadas, as abordagens desses autores possuíam, em comum, o emprego da experimentação e da observação sistemática na busca de definições conceituais das emoções, bem como sua funcionalidade e estrutura1,2. No entanto, ao longo da maior parte do século XX, o estudo das emoções foi relegado ao segundo plano. Em parte, tal situação foi gerada por uma falta de consenso sobre a natureza e a estrutura das emoções, bem como sobre os procedimentos metodológicos para acessá-las e mensurá-las3.

Há pelo menos duas décadas, a emergência e a consolidação de disciplinas como a neurociência cognitiva4, com derivações teóricas, como a neurociência afetiva5,6, reposicionaram o estudo das emoções no centro da investigação científica7,8. Crucial para isso foi o desenvolvimento de estímulos padronizados para o estudo do processamento emocional. Em particular, os pesquisadores do Center for the Study of Emotion and Attention (CSEA), do National Institute of Mental Health (NIMH), na University of Florida, destacam-se pela produção de um conjunto de estímulos emocionais padronizados: International Affective Picture System (IAPS)9,10, International Affective Digital Sounds (IADS)11, Affective Norms for English Text (ANET)12 e Affective Norms for English Words (ANEW)13.

A teoria conceitual subjacente aos estímulos propostos por esse grupo sugere que a emoção evoluiu a partir de uma reação reflexa para responder a dois tipos básicos de estímulos: apetitivos ou aversivos14. Esses dois sistemas motivacionais podem variar em termos de alerta (arousal,em inglês), que representaria a intensidade metabólica ou neural da ativação tanto do sistema apetitivo quanto do sistema aversivo – ou mesmo a ativação conjunta desses dois sistemas. Em termos conceituais, a emoção pode ser definida como uma reação temporal breve de prontidão para ação, sendo composta por ao menos duas dimensões ortogonais, uma de valência (do desagradável ao agradável) e outra de alerta (do relaxado ao estimulado), em uma concepção definida como a teoria dimensional da emoção3,15,16. Dessa forma, é possível caracterizar um estímulo (por exemplo, a palavra "podre") no que diz respeito ao quão desagradável ou agradável o percebemos (isto é, a valência do estímulo) e ao quão relaxado ou estimulado ficamos perante ele (isto é, o alerta do estímulo). Por exemplo, estímulos que evocam uma emoção discreta de raiva podem ser classificados como de valência desagradável e alerta alto; estímulos que evocam uma emoção discreta de tristeza podem ser classificados como de valência desagradável e alerta baixo; estímulos que evocam uma emoção discreta de felicidade podem ser classificados como de valência agradável e alerta alto.

O conjunto de estímulos desenvolvidos pelo CSEA – fundamentado na teoria dimensional das emoções – tem sido amplamente empregado em múltiplas linhas de investigação, envolvendo pesquisa básica17,18 e aplicada19,20 sobre emoções, bem como sobre o esforço de translação entre as mesmas21. Nessa perspectiva translacional, podem ser elencados diferentes tópicos relacionados ao estudo das emoções, incluindo mecanismos de regulação das emoções22,23. O estudo da regulação normal das emoções pode ser contrastado com a crescente ênfase sobre os efeitos que os distúrbios no processamento das emoções apresentam para o desenvolvimento e manutenção de psicopatologias1,24. Gradualmente, proliferam modelos que conceitualizam transtornos ansiosos e depressivos como resultados de problemas na regulação das emoções25,26. O avanço desses modelos depende, ao menos em parte, de paradigmas experimentais válidos e confiáveis. Logo, torna-se premente a disponibilização de estímulos padronizados para a investigação empírica da emoção.

Apesar da ampla utilização dos estímulos emocionais desenvolvidos no CSEA, identificamos, no Brasil, apenas a adaptação e normatização do IAPS27-29. No entanto, diversas tarefas experimentais necessitam da utilização de estímulos não pictóricos, como palavras (por exemplo, tarefas de aprendizagem de estímulos verbais, compreensão semântica e decisão lexical). Em língua inglesa, o ANEW13 encontra-se entre os conjuntos de palavras emocionais mais utilizados para investigação dos efeitos da emoção na cognição30-32. O ANEW consiste em um conjunto de 1.034 palavras com medidas para três dimensões emocionais. A primeira dimensão, chamada de valência (valence, em inglês), consiste na avaliação do quão agradável ou desagradável um estímulo é percebido. A segunda dimensão, chamada de alerta, consiste na avaliação do quão estimulado ou relaxado um estímulo nos deixa. A terceira dimensão, chamada de dominância (dominance, em inglês), consiste na avaliação do quão em controle de um estímulo ou dominado por ele nós nos percebemos.

O ANEW tem se mostrado uma ferramenta relevante na pesquisa sobre emoção, inspirando sua adaptação completa ou parcial em países como França33,34, Alemanha35,36, Espanha37, Finlândia e Inglaterra38. Em uma perspectiva translacional, palavras emocionais têm sido usadas, por exemplo, em estudos de memória episódica com amostras clínicas, como pacientes com doença de Alzheimer39 ou esquizofrenia40, e amostras não clínicas41. Considerando sua utilidade e relevância, o presente trabalho traduziu, adaptou e normatizou uma versão em português do ANEW para a população brasileira, adotando método equivalente ao estudo original realizado por Bradley & Lang13. Especificamente, o objetivo do presente estudo foi obter medidas de valência e alerta para um conjunto de 1.046 palavras em português, caracterizando um estudo de tradução, adaptação e normatização do ANEW. Assim sendo, a publicação destas normas vem ao encontro dos trabalhos de normatização com palavras associadas42,43 e figuras emocionais27-29 recentemente publicados, ao fornecer uma fonte a partir da qual pesquisadores brasileiros possam selecionar estímulos com características emocionais específicas e investigar os efeitos da emoção na cognição.

 

Método

Amostra

Participaram deste estudo 755 universitários de cursos de ciências humanas e exatas de universidades públicas e privadas localizadas na região metropolitana de Porto Alegre (RS). A idade média dos participantes foi de 22 anos (desvio padrão, DP = 3 anos), sendo que 73% eram do sexo feminino. Apenas participaram do estudo os estudantes cuja língua materna era o português brasileiro. O processo de amostragem foi feito por conveniência.

Instrumentos

Para avaliação da emocionalidade do conjunto final de 1.046 palavras em português, foi utilizada a escala Self-Assessment Manikin (SAM). Essa escala é composta por 9 pontos, sendo que 5 desses pontos são ancorados por figuras de bonecos que indicam graus de reações emocionais (Figura 1). Dessa forma, cada dimensão emocional possui uma escala própria, em que figuras de bonecos ilustram variações na definição para aquela dimensão. Por exemplo, o SAM que representa valência (Figura 1A) varia de uma figura sorridente (agradável) a uma figura com face descontente (desagradável); o SAM que representa alerta (Figura 1B) varia de uma figura ativada (estimulado) a uma figura inerte (relaxado).

 

 

A opção de utilizar o SAM como escala de avaliação emocional foi baseada em suas propriedades psicométricas e na tentativa de manter o método equivalente ao do estudo original7. Estudos de correlatos psicofisiológicos indicam que a) julgamentos de alerta estão associados a variações na condutância elétrica da pele, ao passo que b) julgamentos de valência estão associados a variações na contração de músculos faciais (notadamente os músculos zigomático maior e corrugador), medida através de eletromiografia facial44,45. Além disso, estudos de neuroimagem por ressonância magnética funcional sugerem que o processamento do alerta de um estímulo está associado à ativação da amígdala, enquanto o processamento da valência de um estímulo está associado à ativação de sub-regiões do córtex orbitofrontal46. Em conjunto, esses resultados indicam que o SAM possui boas características psicométricas e apontam para a adequação da teoria dimensional da emoção.

Procedimentos

O estudo foi dividido em duas grandes etapas: a) uma etapa de tradução e adaptação das palavras do ANEW13 para o português brasileiro; e b) uma etapa de julgamento de valência e alerta para as palavras resultantes (ANEW-Br). Na primeira etapa, um linguista traduziu as 1.034 palavras do ANEW para o português brasileiro (tradução direta). Cada uma das palavras foi então novamente traduzida para o inglês (tradução reversa) por pelo menos dois pesquisadores com fluência na língua, obtendo-se duas listas de 1.034 palavras: uma em português por tradução direta e outra em inglês por tradução reversa. Posteriormente, um grupo de juízes independentes verificou a adequação das palavras traduzidas para o português brasileiro, utilizando como critério a equivalência semântica entre as duas traduções. Essa tarefa gerou concordância entre os juízes para 94,4% das traduções. Após esse processo, foram removidas todas as traduções que resultaram em palavras compostas, e novas palavras emocionais foram adicionadas, de forma que a lista final totalizou 1.046 palavras no idioma português brasileiro.

Na segunda etapa, a de julgamento da emocionalidade das 1.046 palavras, foram organizados 12 conjuntos de palavras: 10 contendo 96 palavras e dois contendo 43 palavras. Essa divisão das 1.046 palavras foi adotada de forma que a tarefa dos participantes não fosse desgastante a ponto de influenciar os julgamentos de emocionalidade. Além disso, para evitar algum efeito da ordem de apresentação das palavras no julgamento de emocionalidade, cada conjunto teve duas ordens diferentes de apresentação (ordem A e ordem B). Assim, cada grupo de participantes avaliou no mínimo 43 e no máximo 96 palavras.

As sessões para o julgamento de emocionalidade foram realizadas em grupos. Antes do início de cada sessão, os participantes foram informados sobre o caráter de participação anônima e voluntária, sendo que apenas participaram aqueles que assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido. Para aqueles que concordaram em participar da pesquisa, o pesquisador distribuiu um bloco com aproximadamente cinco folhas, sendo que cada folha continha 20 vocábulos e duas escalas SAM para cada vocábulo (uma para o julgamento de valência e a outra para o julgamento de alerta). Para o julgamento de valência, o pesquisador instruiu os participantes a marcarem com um "X" o setor da escala de 9 pontos que correspondesse ao quão agradável (mais próximo ao boneco feliz; valor 9) ou desagradável (mais próximo ao boneco infeliz; valor 1) eles percebiam a palavra que foi apresentada. Para o julgamento de alerta, o pesquisador instruiu os participantes a marcarem com um "X" o setor da escala de 9 pontos que correspondesse ao quão relaxado (mais próximo ao boneco calmo; valor 1) ou estimulado (mais próximo ao boneco ativado; valor 9) eles se sentiam perante a palavra que foi apresentada. Para ambas as escalas, o pesquisador enfatizou que os participantes poderiam marcar tanto os intervalos entre cada boneco quanto o ponto intermediário da escala (valor 5) caso a palavra fosse neutra na definição em questão (por exemplo, xícara é uma palavra que pode ser percebida como sendo nem agradável nem desagradável, isto é, neutra; nesse caso, o participante deveria marcar o ponto intermediário da escala de valência). Além disso, antes do início da tarefa, o pesquisador forneceu diversos exemplos para ilustrar como os julgamentos de emocionalidade deveriam ser feitos.

Após o esclarecimento de todas as dúvidas dos participantes, o pesquisador solicitou que eles começassem a tarefa de julgamento de emocionalidade. Ao término de todo o procedimento, o pesquisador agradeceu a participação de todos.

Tratamento dos dados

Para cada uma das 1.046 palavras, a análise descritiva envolveu computar médias e desvios padrão dos julgamentos de valência e alerta com base em uma amostra de no mínimo 38 e no máximo 80 participantes. Foram empregadas análises correlacionais para verificar possível efeito da ordem de apresentação das palavras nos índices de emocionalidade coletados. Finalmente, foram calculadas equações lineares e quadráticas para verificar o ajuste da distribuição das palavras do ANEW-Br em um espaço afetivo. Para todos os testes estatísticos, foi adotado α = 0,05 como critério de significância.

 

Resultados

O número de caracteres de cada uma das 1.046 palavras que fizeram parte do ANEW-Br ficou no intervalo de 2 (por exemplo, ar, pé) até 14 caracteres (por exemplo, desinteressado, tranquilamente), com média de 7 caracteres (DP = 2,05 caracteres). No que se refere à valência emocional, os valores observados ficaram no intervalo de 1,16 (assassino) até 8,80 (liberdade), com média de 5,16 (DP = 2,20). No que se refere ao alerta emocional, os valores observados ficaram no intervalo de 2,22 (tranquilo) até 7,67 (assalto), com média de 4,57 (DP = 1,04). O Anexo 1 apresenta as médias e DP obtidos para as dimensões de valência e alerta em todas as palavras do ANEW-Br.

Foram calculadas correlações de Pearson entre as ordens de apresentação A e B dos conjuntos de palavras com o objetivo de verificar a influência da ordem de apresentação nos julgamentos de valência e alerta. Especificamente, esperava-se que, quanto menor a influência da ordem de apresentação e maior a fidedignidade das medidas de valência e alerta, maior seria a correlação direta entre as ordens A e B. Essa análise mostrou correlações diretas entre ordem A e ordem B tanto para valência (r = 0,963; p < 0,001) quanto para alerta (r = 0,685; p < 0,001). Portanto, as correlações sugerem duas conclusões sobre o ANEW-Br: primeiro, que a ordem de apresentação não parece ter influenciado os julgamentos de emocionalidade; segundo, que as medidas de valência e alerta se mostraram fidedignas.

A representação gráfica da percepção emocional para o ANEW-Br pode ser feita através da construção de um espaço afetivo16, no qual a valência ocupa o eixo das ordenadas e o alerta ocupa o eixo das abscissas. Na Figura 2 são apresentados os espaços afetivos referentes ao ANEW-Br e ao ANEW original (ANEW-USA). Como se pode observar, o espaço afetivo do ANEW-Br parece apresentar a mesma forma característica de "bumerangue" que o ANEW-USA. Para investigar essa observação, foram ajustadas a) uma equação linear e b) uma equação quadrática sob o espaço afetivo invertido da Figura 2, no qual a valência é representada por x e o alerta por y. Se o espaço afetivo do ANEW-Br segue um formato de bumerangue, então se espera que uma equação quadrática se ajuste melhor a esse conjunto de dados do que uma equação linear. De fato, uma equação quadrática explica 48% das variações no espaço afetivo do ANEW-Br (y = 0,09x² - 1,2x + 7,78; r = 0,69; p < 0,001), enquanto que uma equação linear explica 35% dessas variações (y = 6,01 - 0,28x; r = 0,59; p < 0,001).

 

 

O espaço afetivo na Figura 2 também indica que nem todos os quadrantes são ocupados pelo mesmo número de palavras. Por exemplo, palavras desagradáveis (valência < 4), como assassino, miséria e tortura, tendem a se concentrar no quadrante de alerta alto (alerta > 5). Palavras agradáveis (valência > 6), como abraço, mãe e amigo, tendem a se concentrar no quadrante de alerta baixo (alerta < 5). Palavras neutras (4 < valência < 6), como reunião, passagem e martelo, tendem a se concentrar nos quadrantes de alerta baixo.

 

Discussão

O objetivo principal do presente estudo foi obter medidas de emocionalidade para um conjunto de 1.046 palavras no idioma português brasileiro e disponibilizá-las à comunidade científica. Para atingir esse objetivo, foram coletadas, descritas e disponibilizadas as medidas de emocionalidade que compõem o ANEW-Br. A semelhança entre o espaço afetivo obtido com o ANEW-Br e aquele observado no ANEW americano sugere a adequação do método utilizado no presente estudo. Para somar a esse argumento, um formato similar da distribuição dos valores de valência e alerta observado no ANEW-Br também foi observado nas adaptações feitas em língua alemã36 e espanhola37.

A disponibilização das normas brasileiras para o ANEW representa um ganho metodológico no desenvolvimento de futuras pesquisas sobre os efeitos da emoção na cognição humana realizadas em solo nacional. Em países de língua inglesa, o ANEW, bem como outros materiais desenvolvidos pelo CSEA, tem sido utilizado na investigação básica17,18 e aplicada19,20 sobre a influência das emoções na cognição. Por exemplo, em amostras não clínicas, o desempenho da memória para palavras emocionais (agradáveis ou desagradáveis) é melhor do que para palavras neutras47,48. No entanto, pacientes com doença de Alzheimer usualmente não mostram melhor desempenho da memória para palavras emocionais do que para neutras39, sugerindo que regiões neurais associadas com memória para informações emocionais (por exemplo, amígdala49) são afetadas pela doença.

Por fim, é importante ressaltar diferenças entre as normas brasileiras e as americanas, bem como uma limitação das normas brasileiras. Primeiro, o ANEW-Br não constitui apenas a tradução e normatização do ANEW. O ANEW-Br também é uma adaptação das normas americanas do ANEW. Devido à inadequação de traduções do inglês para o português e do português para o inglês (traduções ambíguas ou que resultaram em palavras compostas), diversas palavras que constam no ANEW não foram incluídas no conjunto de 1.046 palavras do ANEW-Br, e vice-versa. Segundo, assim como as normas americanas do ANEW13, as normas brasileiras foram obtidas através de avaliações de universitários e, portanto, devem ser utilizadas com essa ressalva. No entanto, diferentemente das normas americanas do ANEW, as normas brasileiras foram obtidas com universitários de cursos variados das áreas de exatas e humanas, e não apenas de cursos introdutórios de psicologia.

 

Agradecimentos

Os autores gostariam de agradecer a Adriane Nogueira, Emília Saatkamp, Larissa Weber, Marília Silveira, Renata Kochhann, Maria Alice de Mattos Pimenta Parente e Rosa Maria Martins de Almeida pela inestimável contribuição na coleta de dados e tradução das palavras.

Os autores também agradecem à Universidade do Vale do Rio dos Sinos, que apoiou financeiramente o projeto de pesquisa relacionado ao desenvolvimento do ANEW-Br.

 

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Correspondência
Christian Haag Kristensen
Av. Ipiranga, 6681, prédio 11, sala 933, Partenon
CEP 90619-900, Porto Alegre, RS, Brasil
Tel.: (51) 33203500
E-mail: christian.kristensen@pucrs.br

Recebido em 25/03/2011
Aceito em 02/04/2011

 

 

Apoio financeiro: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS), Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS; protocolo nº 02.00.008/03-0) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq; protocolo nº 104185/2010-4).
Não foram declarados conflitos de interesse associados à publicação deste artigo.

 

 


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