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Revista Brasileira de História da Educação

Print version ISSN 1519-5902On-line version ISSN 2238-0094

Rev. Bras. Hist. Educ. vol.18  Maringá  2018  Epub Jan 14, 2019

http://dx.doi.org/10.4025/rbhe.v18.2018.e028 

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos como artefatos etno-históricos

School exercise books as ethno-historical artifacts

Cuadernos como artefactos etnohistóricos

Ademir Valdir dos Santos1  * 
http://orcid.org/0000-0002-5958-689X

1Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil

RESUMO

Resumo: A pesquisa está embasada em perspectivas metodológicas etnográficas, das quais deriva a caracterização dos cadernos como componentes de uma etno-história de individualidades e coletivos. São analisados elementos gráficos, produzidos num arco cronológico que abrange da década de 1920 até a contemporaneidade. O corpus documental é constituído por cadernos que mesclam usos escolares e extraescolares: dois cadernos de lembranças, um caderno de questionário, o caderno de uma criveira e dois cadernos de receitas e culinária. Mostra-se que cada caderno é elemento cultural, constituinte de modos de expressão e de elaboração de significados. Os resultados indicam que os cadernos são fontes onde elementos etno-históricos eclodem, sendo artefatos que compõem e registram histórias.

Palavras-chave: cultura material; escola; etnografia

ABSTRACT

Abstract: The research is based on ethnographic methodological perspectives, from which derive the characterization of school exercise books as components of an ethno-history. Graphic elements produced in a chronological arc from the 1920s to the present day are analyzed. The documentary corpus consists of school exercise books that combine school and non-school uses: two school exercise books of memories, a questionnaire school exercise book, a school exercise book built by an artisan criveira and two school exercise books of recipes. It is shown that each school exercise book is a cultural element, constituent of modes of expression and elaboration of meanings. Results indicate that school exercise books are sources where ethnohistorical elements outbreak, being artifacts that compose stories.

Keywords: material culture; school; ethnography

RESUMEN

Resumen: La investigación está fundamentada en perspectivas metodológicas etnográficas, de las cuales derivan la caracterización de los cuadernos como componentes de una etnohistoria de individualidades y colectivos. Se analizan elementos gráficos producidos en un arco cronológico que abarca desde la década de 1920 hasta la contemporaneidad. El corpus documental está constituido por cuadernos que mezclan usos escolares y extraescolares: dos cuadernos de recuerdos, un cuaderno de cuestionario, el cuaderno de una criveira y dos cuadernos de recetas y gastronomía. Se señala que cada cuaderno es elemento cultural, constituyente de modos de elaboración de significados. Los resultados indican que los cuadernos son fuentes donde elementos etnohistóricos se producen, siendo artefactos que componen y registran historias.

Palabras clave: cultura material; escuela; etnografía

Introdução

A cada dia ficam mais evidentes a extrapolação ou mesmo o rompimento de fronteiras teórico-metodológicas na pesquisa científica. Nessa direção, este estudo evidencia o diálogo entre conhecimentos, na medida em que objetiva alinhar algumas características da etnografia à história da educação, e se orienta por uma ampliação analítica centrada nos usos de um particular tipo de fonte: os cadernos. Desse modo, fundamentos etnográficos e histórico-educacionais são simultaneamente aplicados à análise desses elementos da cultura material. Parte-se da premissa de que interrogar o conteúdo de cadernos ajuda a decifrar e a compreender, gerando interpretações que resultam numa frutífera historiografia.

Isso é proposto conjugando-se teorias e metodologias para se discutir fenômenos educacionais e formativos. Há peculiaridades a se considerar, que permitem agregar às análises, considerando-se diferentes lugares geográficos, contextos e temporalidades associados à construção do caderno enquanto documento histórico. E é nesse âmbito que o seu teor se apresenta enquanto um substrato humano identitário, uma vez que se trata de um elemento da cultura gráfica, ou seja, compõe as formas desenvolvidas pelo homem para representação de sua linguagem, aliadas de expressões visuais que podem gerar novos entendimentos.

Um primeiro aspecto a se ponderar está vinculado ao fato de que a maior parte dos cadernos é utilizada, via de regra, nas salas de aula. Sua presença no ambiente educativo formal leva à compreensão predominante de que a escola é o local - por excelência - de seu uso. Considerada tal associação, o caderno é componente da elaboração e registro cotidiano de atividades didático-pedagógicas. Mas também por isso, auxilia na construção de uma etnografia “[...] entendida como perspectiva teórico-metodológica que permite ‘documentar o não documentado’, pelo que resulta pertinente para a análise de alguns processos cotidianos da organização escolar” (Flores, 1997, p. 10, grifo do autor, tradução nossa)1. Sob esse prisma, já estão sedimentadas algumas percepções sobre este tipo de caderno - o escolar: é definido como elemento material e simbólico, um documento que vem sendo valorado como fonte complexa para os estudos de história da educação, de instituições educativas e de culturas infanto-juvenis (Viñao, 2008)2. Acrescenta-se que essa ótica está visceralmente relacionada ao fato de que o caderno é um objeto em que a escrita ocupa lugar central, embora não se ignore a presença de outros elementos visuais como desenhos e adesivos.

Tendo-se por base essas concepções, revigora-se a importância de se analisar os cadernos como artefatos etno-históricos, uma vez que eles, mais do que qualquer outro produto material da atividade escolar, podem contar sobre ações discentes e docentes, desvelando aspectos da cotidianidade, dos movimentos e significados elaborados nas salas de aula. Todavia, mesmo que consideradas tais possibilidades, não se despreza que, apesar do potencial de geração historiográfico, os cadernos são fontes que não refletem tudo o que ocorre na escola. Como recorda Viñao (2008, p. 25), embora apresentem vantagens em comparação com documentos oficiais, livros e programas, levando-nos a uma aproximação do currículo real, não devemos acreditar que eles possam refletir quase toda a atividade que tem lugar nas classes, ou, mais ainda, que “[...] a reflita de um modo fiel e exato”. Explica-se, ainda:

Some-se a isso que os cadernos também não refletem toda a produção escrita dos alunos na sala de aula. Nem tudo está nos cadernos. Eles silenciam, não dizem nada sobre as intervenções orais ou gestuais do professor e dos alunos, sobre seu peso e o modo como ocorrem e se manifestam, sobre o ambiente ou clima da sala de aula, sobre as atividades que não deixam pistas escritas ou de outro tipo, como os exercícios de leitura (a leitura em voz alta, por exemplo) e todo o mundo do oral (Viñao, 2008, p. 25).

Mesmo que não possa registrar tudo o que acontece na classe, já que há ações e falas docentes e discentes que escapam ao controle, o caderno é uma via essencial para se documentar os fenômenos históricos de modo próximo das suas situações geradoras. Ele se encontra no entrecruzamento da ação de dois sujeitos fundamentais - professores e alunos -, dando a conhecer como se desenvolvem diferentes estratégias de ensino e aprendizagem no trabalho com certos conteúdos, assim como mostrando como esses atores chegam a estabelecer diversas zonas de sentido. Como documento, o caderno permite acessar elaborações conceituais e precisar a relação entre conceitos gerais e fenômenos observáveis. Então, numa primeira possibilidade teórico-metodológica, depreende-se que analisar um caderno, sob perspectiva etnográfica, implica buscar acessar aos significados que atribuíram aqueles que o construíram, às formas, aos conteúdos e aos processos que foram se articulando em situações concretas na sala de aula e que nele foram registrados e representados. Assim, este artefato contém formas particulares de ação simbólica, que dão sentido à vida dos membros de uma sociedade específica e nas quais residem significados compartilhados.

Nesse âmbito, Hernández Díaz (2002) apresenta reflexões quanto à história material da escola sob perspectiva etnográfica. Segundo seus argumentos, que vêm ao encontro de premissas deste estudo, os objetos e utensílios materiais presentes na sala de aula - entre os quais se aninham os cadernos escolares - são elementos de intermediação cultural e social:

Os objetos e espaços da escola ajudam a construir relacionamentos, palpáveis ou invisíveis, a criar um certo clima, que poderá ser recriado e interpretado com orientações, metodologias e critérios etnográficos. [...] O objeto na escola coloca o pesquisador em posição e explica muito mais do que à simples vista diz, porque é um material que resulta indispensável para favorecer os rituais de comunicação de todos os dias, para possibilitar a transmissão de determinados modelos culturais (HERNÁNDEZ DÍAZ, 2002, p. 226, tradução nossa)3.

Em decorrência, o autor citado defende a etnografia como uma forma de trabalho polissêmica, aplicável à história da educação, que compreende métodos e técnicas resultantes de uma reflexão antropológica e de uma prática aplicadas ao estudo da instituição escolar, capazes de gerar uma etnografia da escola. Deriva Mostra uma íntima conexão embasada na aceitação de que existe uma cultura que envolve complexas relações entre pessoas, objetos e processos de comunicação, podendo ser vista sob uma dimensão analítica total ou holística: a cultura escolar.

A etnografia escolar surge simplesmente como consequência de ter selecionado um tipo particular de campo, mas não existe uma metodologia específica da etnografia escolar. E quando a aplicamos ao âmbito da história da educação, caminharia mais na linha da denominada etno-história, onde se combinam outros elementos documentais, materiais, icônicos, juntamente à possível oralidade, e sempre pretendendo encontrar aquela pretensão holística insaciável do problema e da cultura objeto de estudo. (HERNÁNDEZ DÍAZ, 2002, p. 229, tradução nossa)4.

Mas é possível se ir além, configurando-se um segundo aspecto. Ainda sob a perspectiva etnográfica, o caderno auxilia a se descrever a lógica da vida real (Geertz, 1987), que vai sendo construída cotidianamente em outros espaços sociais e culturais, não somente dentro das salas de aula. Lógica essa produzida com certos conteúdos, com determinadas atividades e com atores concretos que significam sua ação de forma diversa. Esta outra abordagem chama a atenção para a possibilidade de se ampliar os modos de se ver esse documento, também se identificando e interpretando-se sua condição como substrato para o registro da atividade humana extraescolar, na medida em que tais ações simbólicas dão sentido à vida para além dos muros da escola.

Aqui se vislumbra o caderno para além de um elemento de grafia e imagem, gerado e utilizado por sujeitos enquanto convivem e se relacionam nas instituições escolares. Avança-se no argumento de que, em várias circunstâncias, a presença e uso de cadernos extrapolam as aplicações originalmente previstas num formato didático-pedagógico, pois não é excepcional que venham a extravasar finalidades escolares estimadas a priori, as quais acabam conduzindo o pesquisador a certa circunscrição analítica. Diante disso, busca-se ampliar a historiografia a respeito, não se adjetivando o caderno como unicamente escolar, mas como vinculado à família, aos grupos infantis e juvenis e a associações recreativas, corporativas, comerciais e industriais. Por conseguinte, dialoga-se com uma ampliação da perspectiva etnográfica, que, de acordo com a análise de Pontones (2001, p. 16-17, tradução nossa)5, admite para o pesquisador uma condição, segundo a qual

[...] se observa e interpreta paralelamente, se seleciona o significado do contexto em relação com a elaboração teórica que se realiza ao mesmo tempo, se geram hipóteses, se realizam múltiplas análises, se reinterpretam, se formulam novas hipóteses e assim, se constrói o conteúdo a partir dos conceitos iniciais, não pressupondo-os de antemão.

Neste trabalho apresentam-se elementos gráficos existentes em cadernos produzidos num arco cronológico que abrange da década de 1920 até a contemporaneidade e que constituem um acervo pessoal que reúne diversos artefatos relacionados à cultura material da escola6. Selecionaram-se cadernos cuja tipologia ou classificação leva em conta a natureza do conteúdo e as finalidades de seu uso, compondo um conjunto documental que, pelas peculiaridades e ocorrência no ambiente escolar brasileiro, em larga medida o distingue das denominações históricas de origem espanhola e francesa, apresentadas por Viñao (2008)7. Adotam-se as perspectivas metodológicas etnográficas, anteriormente delineadas, das quais derivam a identificação e caracterização dos cadernos como componentes de uma etno-história de individualidades e coletivos. O caminho sugere que cada caderno é elemento cultural, constituinte de modos de expressão e de elaboração de significados, possibilitando contar, analisar e (re)interpretar processos de humanização e hominização.

Dados tais pressupostos, esta pesquisa analisa um corpus documental constituído por cadernos que mesclam usos escolares e extraescolares. Inicialmente, adicionam-se alguns elementos que auxiliam a se parametrizar as análises: primeiramente, questionamentos sobre a localização e o uso dos cadernos, seguidos por uma caracterização tipológica. Depois são apresentadas e analisadas fontes singulares, compreendidas como artefatos etnográficos: dois cadernos de lembranças, um caderno de questionário, o caderno de uma criveira e dois cadernos de receitas e culinária.

Ab ovo: onde estão e como se usam os cadernos?

Para se tentar localizar cadernos, seja em trabalho investigativo no campo da história da educação, ou numa conversa cotidiana fora da escola, pode-se principiar com uma simples pergunta: Onde eles estão? As respostas que se obtiveram indicam que a maioria dos que foram utilizados ao longo das trajetórias de escolarização e de vida já não existe mais, tendo sido descartada. Raros são os casos de sua preservação. Segundo Viñao (2008, p. 24), dentre os cadernos conservados, predominam certos tipos:

[...] como ressaltaram vários pesquisadores, são os seguintes: os dos melhores alunos; os encadernados para serem expostos; os de alunos excepcionais por sua precocidade ou status social (crianças-prodígio ou príncipes, por exemplo); os de capas mais duras e de maiores dimensões (os frágeis, de menor qualidade do papel e/ou com menos páginas, tendem a danificar-se pelo simples uso); os de capas esteticamente mais bonitas e os passado a limpo (não os de rascunho e, menos ainda, os de anotações pessoais do aluno).

Pesquisas sobre cadernos no Brasil conduzem a concordar com o que afirma o investigador espanhol referenciado. É fato que os cadernos existentes estão, em boa parte, em museus, arquivos ou coleções particulares, sendo oriundos de exposições, de doações de estudantes e professores ou de compras, sendo raras séries completas ou a maioria dos cadernos de um mesmo estudante, de uma mesma escola durante um longo período, ou de um mesmo nível, curso ou grau de ensino, também por tempo prolongado (cf. Viñao, 2008). Assim, na ‘leitura’ que elabora sobre o Museu da Escola de Minas Gerais, inicialmente a pesquisadora Ana Maria Casasanta Peixoto descreve o modo como compreende esse “[...] espaço voltado para a preservação do passado da escola mineira. Ler um museu é uma forma de ler a vida, portanto, cada um realiza essa leitura com as condições de que dispõe” (Peixoto, 2004, p. 267). Depois, dedica-se à descrição da Coleção de Cadernos do Museu da Escola, entremeada por 12 fotografias de capas: a mais antiga é do Caderno Linguagem, de 1909; outras retratam exemplares da década de 1930, como o Caderno Brasil e o Caderno Normalista, apresentam, ainda, o emblemático Caderno Avante Brasil, o Nossa Terra e o Gato Preto, três tipos da década de 1940; e, por fim, remetem a um Caderno Espiral, datado de 1960, ao Caderno Fename (Fundação Nacional de Material Escolar) da década de 1970, finalizando com um exemplar dos anos 1990, cuja capa é ilustrada com referências infanto-juvenis contemporâneas, em que uma calça jeans, uma guitarra elétrica e uma inscrição em inglês - teen way - são aplicadas sobre uma composição que tem ao fundo um rosto estilizado e demarcado por uma desestruturação imagética cubista (Peixoto, 2004). A variedade de capas dos cadernos ou as alterações que a elas são aplicadas permitem o diálogo com as ponderações de Peixoto (2004, p. 275), segundo as quais, a capa torna possível “[...] uma visão dos valores sociais que a escola desejava incutir nos alunos. [...] Ao longo do tempo, os cadernos variam quanto ao tamanho, forma de encadernação, conteúdo. Os do início do século se pautam, geralmente, pela sobriedade”.

Nesse cenário de lacunas, hão que se gerar condições de conservação dos cadernos, para sua posterior recuperação e utilização em pesquisas. Podem ser analisados desde sua capa, passando-se por todo o conteúdo interno, dando-se atenção à diversidade que seu teor apresenta: páginas preenchidas ou em branco, escritos, desenhos, recortes, rasgos, rabiscos, marcas de uso, entre outras expressões do agir humano. Defende-se que aquele que salva cadernos das lixeiras e fogueiras pode melhor compreender a si mesmo e ao ambiente cultural em que foi formado, por exemplo, vindo a revisitar caminhos pelos quais foi alfabetizado, disciplinarizado ou ainda descortinando as origens da instalação de hábitos e costumes, ou respondendo: Como foram aprendidos elementos da escrita, dos signos e representações diversas, das ciências que são transpostas para o currículo das instituições escolares, tudo isso amalgamado a traços que envolvem atitudes e emoções? Indo além: Como os cadernos registram outros eventos e histórias que foram vivenciados, mas não restritos à escolarização?

Quer-se dizer: até que alguém chame a atenção para a complexidade do caderno escolar e para o que ele é capaz de preservar, dele sequer se lembra. Mas é justamente neste locus que se aloja parte de seu caráter etno-histórico, capaz de revigorar e reviver emoções, de transportar a episódios da infância e juventude, trazendo memórias pessoais, mas também de outras pessoas que escreveram, desenharam, rabiscaram, deixaram mensagens. Um caderno é capaz de nos fazer voltar no tempo, trazendo à tona episódios de nossa formação. Revisitar um caderno de autoria própria pode até mesmo gerar lágrimas e risos, assim como reencontros e recuperações do que se estimava perdido.

Sob a perspectiva de uma tipologia, pode-se partir do caderno escolar compreendido como um artefato tradicional. É habitual a realização de pesquisas utilizando-o como fonte documental que conta sobre a vivência nas instituições educativas, permitindo se discorrer não apenas sobre o multiforme engendramento da cultura escrita, mas, em sentido amplo, elucidando sobre a educação formal. Assim, os cadernos possibilitam ao pesquisador adentrar as classes, uma vez que “[...] o caderno é um produto da cultura escolar, de uma forma determinada de organizar o trabalho em sala de aula, de ensinar e aprender, de introduzir os alunos no mundo dos saberes acadêmicos e dos ritmos, regras e pautas escolares” (Viñao, 2008, p. 22). Sob este viés, é um artefato escolar único, produto do fazer autoral discente, o que lhe confere uma identidade pois, mesmo que haja intervenções docentes no processo de sua construção, em alguma medida o caderno escolar conserva níveis de autonomia e criatividade do próprio estudante que dele fez uso. Nessa perspectiva, Gvirtz & Larrondo (2008), ao tratar o caderno de classe como dispositivo, argumentam que ele não é apenas um mero transmissor ou auxiliar na função de distribuir e fazer circular os saberes gerados fora da instituição escolar. Ponderam que, sob a perspectiva dos estudos históricos da cultura escrita, ele pode registrar a criação e a disseminação de saberes, protagonizadas pela escola, configuradas nos processos de produção, distribuição e apropriação dos textos. Segundo essas autoras, as escritas são “[...] fenômenos culturais que surgem de e em sujeitos anônimos e cotidianos”, assim como que o conhecimento de cunho histórico sobre a cultura escrita “[...] mostra-nos que o estudo das práticas de escrita escolar é um campo privilegiado onde se podem observar processos de construção de fenômenos culturais ‘distintivos’ [...]” (Gvirtz & Larrondo, 2008, p. 41, grifo do autor).

Ressalta-se ainda: os registros da realização de cursos, palestras, conferências, textos, exposições e mostras museológicas que atribuem centralidade e relevância historiográfica ao caderno escolar indicam que investigadores e professores têm realizado o valor desse documento. Nesse sentido, destaca-se a conferência internacional intitulada School exercise books: a complex source for a history of the approach to schooling and education in the 19 th and 20 th centuries, ocorrida na Itália em setembro de 2007, que reuniu pesquisadores de vários países cujo interesse central era tratar dos cadernos escolares. Desse evento resultou a publicação, em dois volumes, de expressiva produção científica, que foi agrupada em diferentes seções, cujos títulos evidenciam variedade metodológica e teórica: Metodologia; Coleções públicas de cadernos escolares; Propaganda sutil: o caderno escolar como uma ferramenta de comunicação de massa; Ferramentas de educação de massa: o caderno escolar como uma fonte para a história da indústria e mercado escolar; Suando e estudando muito: o caderno escolar como uma fonte para a história da docência e educação; Discurso e linguagem: o caderno escolar como uma fonte para a história da linguagem; e Escrita infantil (Meda, Montino & Sani, 2010)8.

E talvez essa valorização esteja ocorrendo com mais ênfase entre aqueles mestres que atuam na escola primária e nos processos de alfabetização, já que, pelo estágio de introdução na escrita e leitura, o caderno pode ser entendido como uma espécie de microarquivo de práticas sociais e culturais, situadas num tempo e espaço. Tem-se aqui o exemplo do caderno tradicional, essencialmente vinculado ao que se produz nas salas de aula. Em maior ou menor grau, é um documento que fica restrito àquilo que cada instituição escolar solicita registrar quanto ao ensino e à aprendizagem, e que, quando interrogado com maior profundidade, explica elementos de base concreta, materiais e simbólicos, como que fossilizando o que ali foi criado. Em relação ao conteúdo de um caderno tradicional, é possível identificar aspectos como as estratégias de ensino ou questões metodológicas, bem como colher indicadores sobre as práticas docentes e discentes em determinado contexto histórico. Dada uma perspectiva de temporalidade, o caderno tradicional seria aquele tipo para o qual o ‘antes’, o ‘durante’ e o ‘depois’ da utilização levam em consideração exclusiva ou principalmente aquelas finalidades escolares relacionadas a ações curriculares.

Um adendo. Em tempos de impacto sobre a materialidade e lógica das relações humanas pelo desenvolvimento científico-tecnológico, cabe dizer que, mesmo na era digital, os cadernos tradicionais ainda ocupam espaço no planejamento e concretização do fazer pedagógico. Mostra disso é a atual presença, em vários países e culturas, dos cadernos de caligrafia, embora seja verdade que, cada dia que passa, se utilizam mais os teclados, assim como existe tendência crescente à adoção da digitação e da digitalização, tanto na formação para a escrita como para a leitura. Só que, ao lado disso, há uma contínua produção de cadernos de papel, cada vez mais originais, atrativos e que acabam encontrando acolhida, sendo avidamente consumidos. Basta lembrar aqueles produzidos em função de um mundial de futebol, por exemplo. Ou então deitar os olhos nas vitrines e prateleiras onde se encontram centenas de modelos, em cujas capas figuram personagens do mundo do entretenimento, do esporte e dos brinquedos infantis e juvenis: atores e atrizes, cantores, atletas, princesas, fadas e monstros veiculados pelas diversas mídias que alvejam esse público consumidor específico e o atingem por meio dos vários canais da internet, da televisão aberta e da fechada, do cinema e dos jogos eletrônicos (videogames). Ou seja, em certos formatos e circunstâncias históricas, o caderno subsiste também porque cria e fideliza consumidores, mantendo o segmento gráfico caderneiro aquecido.

Na sequência passa-se a apresentar cadernos de natureza particular, discorrendo-se sobre seu teor e características, o que suporta sua compreensão como artefatos etnográficos.

Cadernos de lembranças: vozes de outros tempos

Que lembranças um caderno pode evocar? Quais memórias de outros tempos suas páginas são capazes de preservar? Na busca por respostas, adentra-se num antigo e atrativo caderno, datado de 1929 e recolhido no interior do Estado de Santa Catarina, que pode ser encarado como um relicário de manuscritos. Foi encadernado em espesso papel preto, sobre o qual estão colados um recorte de cartolina com flores coloridas e a palavra Poesia. São 83 folhas internas. No seu interior estão perfilados, página por página, vários textos em língua alemã, manuscritos a bico de pena ou tinteiro, na maioria ilustradas com adesivos. Constam três lembranças datadas de 1929, 24 registradas em 1930, apenas uma é do ano de 1931, outras quatro são de datas em 1932 e uma última é de 1933.

A primeira escrita foi feita em 23 de dezembro de 1929, na página inicial, ao lado do nome da proprietária do caderno, Hertha. As mensagens apresentam vários formatos, como quadrinhas com rimas ou sequências de frases que falam de amizade, de Deus e de valores que unem as pessoas. Em cada recordação está identificado o lugar em que viviam os signatários. Neste caso, são localidades historicamente relacionadas à presença de imigrantes alemães como Blumenau, Jaraguá, Massaranduba e Hansa, este o nome de uma colônia instituída no século XIX. O caráter etnolinguístico fica evidente quanto a vários aspectos. Assim, há a identificação do Bruder (irmão) Berthold Gumz - único sujeito do sexo masculino que se registrou no caderno, sendo as outras assinaturas de personagens femininas, entre elas, da Schwester (irmã) Lina Gumz, da Grossmutter (avó) Bertha Schwartz, da Tante (tia) Amalie Schwartz, da Frau (senhora) Zahler e de várias amigas.

Sob perspectiva etnográfica, essa fonte significa mais do que um agrupamento de textos poéticos de autores diversos e endereçados a uma mesma pessoa. É um exemplo da cultura material infanto-juvenil de certo período. O documento foi tido por cada um de seus autores como um depósito de lembranças da vida a guardar, de onde suas vozes continuariam a ecoar ao longo do tempo. Justifica isso a presença da expressão em alemão Zur Erinnerung em diversas das escritas, que numa tradução livre significa para lembrar, guardar na memória.

Trata-se de um caderno único, não somente pela antiguidade, mas pelo estado de conservação e qualidade do teor. Cabe notar que naquela época o papel era material caro, que pouco circulava. Verificou-se ainda significativa quantidade de belos adesivos e de outros artefatos recortados e colados no seu interior, o que lhe atribui um colorido muito atrativo, fazendo com que salte aos olhos o resultado de sua composição coletiva, principalmente se comparado com a simplicidade constitutiva de outros cadernos utilizados no mesmo período e a que se teve acesso. Além disso, a fonte evidencia que a família de Hertha tinha boa condição econômica: localizaram-se dados informando que ela prosperara por investimentos exitosos no setor de fabricação de laticínios.

Vozes juvenis reverberam de outro caderno de lembranças que se utiliza na composição desta etnografia. Pertencia à Maria Aparecida, hoje tratada por Dona Cida. Mas, na sua juventude, quando morava em Andradina, município do interior do Estado de São Paulo, era chamada carinhosamente de Cidinha. A datação está centralizada no ano de 1948, registrada em 22 das lembranças presentes; outras oito lembranças são do ano de 1947, apenas uma é de 1949 e há 12 não datadas. Também fica evidente a utilização no contexto geográfico de residência da jovem Maria Aparecida, uma vez que apenas uma das assinaturas é acompanhada de referência à outra cidade do interior paulista, Bauru.

Em ótimo estado, é encadernado com um revestimento almofadado, pintado difusamente com manchas verdes sobre um fundo amarelado. As dimensões são de 21,5cm de altura por 15,5cm de largura. Na capa frontal se destaca a gravação de duas hastes que ostentam delicadas flores, as quais dividem o espaço com a palavra Lembranças, posta em sentido transversal e em letras capitais. O miolo tem 39 folhas, que abrigam as linhas com textos subscritos em maior parte por amigas da jovem paulista. Porém é interessante notar que, embora esse tipo de material circulasse mais entre moças, há dez textos subscritos por rapazes.

Quanto ao teor das escritas, percebe-se a busca coletiva por um tom literário, algo poético, sendo as composições e transcrições de estruturas diversas, como alguns pequenos poemas que parecem ser de autoria de quem subscrevia a recordação. As páginas emanam lirismo, como sinalizam alguns dos títulos: Duas almas, Arrependimento, Ciúme, O julgamento do coração, Ouvir estrelas, Ilusões da Vida, Saudade há de vir e Por que sofres?, mas figura também um ‘Soneto Célebre’, que seria de António Guimarães. Todas as lembranças estão em língua portuguesa, embora em duas delas constem, na parte final, frases redigidas em inglês. Depois de se entrevistar a dona do caderno, levantaram-se algumas hipóteses sobre tais questões: seriam indícios de que Cidinha já havia manifestado para o círculo amistoso o seu interesse na língua e literatura portuguesas e também em idiomas estrangeiros? Fato é que ela cursou Letras. Mais tarde, atuou como professora e administradora escolar, funções em que é aposentada.

Numa perspectiva analítica que vai para além das relações do caderno de Lembranças com uma eventual frequência à escola, o que há de indicativos nas conversas recentes com Dona Cida é que o conteúdo do caderno estabelece fortes vinculações com o seu atual modo de vida. Viúva, reside no município paulista de Itararé, sempre próxima de duas gerações de descendentes, com quem costuma dialogar e busca inspirar, propagando sua paixão pela literatura. Talvez em função disso, uma de suas netas também cursou Letras e é leitora compulsiva. Seria possível dizer, ainda, que aquela inspiração lírica e a busca por erudição que a escrita no caderno de lembranças transparece estão relacionadas com sua atual situação: na maturidade se tornou poetisa, contista e cronista. Acumula premiações atribuídas aos seus escritos, disseminados em livros de autoria própria e em coletâneas. No momento, dedica a maior parte de seu tempo ao deleite com as literaturas regional, nacional e universal, o que possivelmente também a nutre na produção de seus textos. Eis um exercício de vivência sensível e intensa. E ainda é interrogada: O que mais se poderia questionar quanto às relações entre o que está entranhado naquele caderno de lembranças e o que hoje habita o cotidiano e a produção da existência de Dona Cida, sempre envolta por seus livros, navegando por inspiradoras escritas?

Revelações do eu: o caderno de questionário, de confidências ou de testemunho

Esse caderno, reconhecido por uma das designações acima, é fruto do registro de escritas, feito na década de 1980 pela adolescente Lourdes, na região de Florianópolis. Conforme levantamentos feitos com base no colecionismo dessa espécie de documento, a terminologia empregada na sua identificação varia conforme as diferentes regiões em que foram idealizados. A denominação caderno de testemunho, por exemplo, foi recolhida com uma estudante de Pedagogia, oriunda do Ceará. Segundo esta, tal ocorrência linguística era comum na região Nordeste.

E o que é um caderno desse tipo? Identificou-se a sua circulação de norte a sul do Brasil, entre grupos juvenis das décadas de 1960 a 1980, majoritariamente femininos. Quem elaborava um caderno de questionário geralmente redigia um conjunto de perguntas e as inseria, uma a uma, alternando entre as folhas do caderno. O pitoresco é que as perguntas podiam assumir um tom de intimidade, permitido pela proximidade amistosa. Após cada uma das questões, era colocada, à mão, uma numeração sequencial crescente, com o objetivo de organizar o conjunto de respostas.

Depois de confeccionado, o caderno era entregue, em regime de rotação, dentro do círculo amistoso ou mesmo de parentela. Sendo assim, podia circular entre um grupo que frequentava a mesma escola, mas também fora de seus muros. Cada pessoa, na sua vez, escolhia um dos números ainda não preenchido e passava a responder às interrogações. Em seguida devolvia o caderno à dona ou então o repassava a outra amizade em comum. Nesse movimento, ao novo respondente cabia escolher um número ainda não preenchido e registrar sua escrita quanto ao que era perguntado. Desse modo, incrustava-se um testemunho a ser compartilhado no presente. E, uma vez guardado o caderno, este no futuro auxiliaria na reconstrução de trajetórias memoriais individuais e coletivas.

Apresentam-se alguns elementos do caderno de Lourdes. Na primeira página ela deixou um recado: ‘Peço que quem assinar este questionário, que assine com sinceridade’. O rol de perguntas foi apresentado a meninas com idades que variavam entre 12 e 17 anos. Segundo o que consta, a maioria estudava da mesma escola e morava próximo de sua residência. De modo geral, levando-se em conta o teor tanto desse caderno como de outros que a pesquisadora tem arquivados, as perguntas são variadas, mas configuram um núcleo próprio das culturas juvenis. Para começar, geralmente se pedia o nome completo, data e local de nascimento e idade. Algumas questões versavam sobre aspectos da vida escolar: série, disciplinas e professores favoritos, livros já lidos. Ocorriam interrogações próprias da fase de vida por que passavam, quando desejos, preferências, aspirações e vivências tendiam a ser partilhados, confidenciados: melhores amigos, ídolos, músicas e filmes, por exemplo. Desse modo, a análise permite identificar hábitos da juventude daquela década, como o lazer relacionado à frequência às discotecas para dançar ‘solto’ as músicas mais agitadas ou então, aos pares, as chamadas lentas. Algumas das amigas de Lourdes escreveram que apreciavam ir à praia ou passear na praça.

Avançando no interior do caderno, certos questionamentos podiam inaugurar o espaço para perguntas mais intimistas. Aliás, esse momento podia conter alguma indiscrição, por vezes precedido da questão: - Vamos (Posso) mudar de assunto? Depois seguia um conjunto de perguntas cujos temas eram vinculados ao desenvolvimento afetivo-emocional, aos contextos relacionais próprios da adolescência e juventude: Tem namorado? Qual o nome dele? Quem você levaria para uma ilha deserta? Onde passaria a lua de mel?

No caderno de Lourdes há uma pergunta que fala dos meninos e se as amigas teriam coragem de lhes falar diretamente. Para esta última questão, estas unanimemente respondem que não se dirigiriam àqueles, fosse por timidez, fosse porque esse comportamento não era desejável para uma menina-moça. Os indicativos são da permanência de padrões rígidos de comportamento social, no que diz respeito a um tradicional aspecto do mundo feminino, que seria o de se resguardar e mostrar-se recatada. Isso embora fossem os anos 1980, pelo menos duas décadas após o registro de vários movimentos de liberação comportamental juvenil. Ou seja, vê-se que, embora se pudesse invocar um discurso justificando que naquele período já se respiravam ares de abertura atitudinal, os relatos daquele caderno indicam que se vivia ainda sobre um regime de controle orientado por posturas de obediência à família e a estatutos sociais patriarcais. As atividades da escola ou mesmo aquelas de lazer eram supervisionadas sob regras e costumes aceitos e convencionados, componentes do panorama cultural. Tais indicativos ficam ratificados quando se escrevia sobre religião. Praticamente todo o conjunto de respondentes converge em um mesmo conteúdo, concordando quanto à grandeza de Deus e que a ele se devem os benefícios trazidos para as suas vidas. Fica evidente uma impregnação cultural religiosa fundante da sociedade brasileira, vinculada ao catolicismo.

O caderno da “criveira”: traço da cultura artesanal

O crivo é um bordado artesanal, por meio do qual se inscrevem tramas de fios sobre quadradinhos milimetricamente calculados e feitos sobre tecido de linho, cambraia ou algodão. São bordados toalhas de mesa, panos de copa, toalhas para lavabo, tapetes, entre outras peças artesanais. Nas regiões de colonização luso-açoriana do litoral catarinense tal prática permanece como herança cultural por meio de sucessivas gerações de mulheres. Criveiras são encontradas na cidade de Governador Celso Ramos, município catarinense litorâneo em que sobrevive também a pesca artesanal e comercial.

Nesse cenário registra-se a existência de um caderno de amostra de crivos que pertence à Dona Marta, ou Martinha, como é conhecida em sua comunidade. Avó de uma estudante de Pedagogia da Universidade Federal de Santa Catarina, a criveira conserva um caderno que estima termais de 20 anos. Esta fonte serve para documentar mecanismos culturais e estéticos que perpetuam a prática do crivo, passada de mãe para filha.

Conforme seu depoimento, Marta pondera que, embora tivesse o sonho de ser professora, como integrava uma família conservadora, não poderia estudar mais do que quatro ou cinco anos. Olhando aquela configuração societária sob a perspectiva de gênero, podemos entender como o aprendizado e a prática do crivo se enquadravam, pelo fato de que algumas mulheres encontravam nesse fazer uma fonte de renda. Enquanto seus companheiros se lançavam ao mar e permaneciam por até quatro meses fora de casa, a elas restava ficar em casa cuidando dos filhos e netos. E, para gerar um dinheiro extra, aprendiam a fazer crivo para vender. Dona Marta conta que, mesmo quando seu marido era vivo, sua atuação como criveira sempre ajudou a família na compra de suprimentos alimentares e utensílios domésticos, mas lamenta que atualmente essa prática artesanal seja pouco valorizada.

Segundo uma abordagem antropológica da narrativa, a idosa descreveu que o processo começa na escolha do tecido onde se deseja ‘crivar’, conforme quem encomenda uma peça. A partir deste ponto o caderno de amostras de crivo entra em cena, servindo para registrar e expor a diversidade de desenhos e tramas conhecidas. Na confecção do bordado propriamente dita, primeiro se toma um bastidor, que é uma estrutura de madeira que serve para suporte e deixar a peça de tecido esticada e mais fácil de ser manuseada, então se tem o processo do desfiado, em que são feitos alguns pequenos buracos no pano, para depois se começar a criar formas. Após isso, vem o processo denominado ‘tapar’, em que começam a surgir as primeiras formas, sendo que são preenchidos alguns dos buracos feitos na etapa anterior. Num terceiro momento há que ‘ordir’: começa-se a preencher os demais buracos antes feitos e tapados. No final, há o ‘casear’, que é o tapar dos últimos buracos ainda presentes no tecido e que se encontram nas bordas.

O caderno dessa criveira não possui capa pelo uso ao longo dos anos. Provavelmente tinha 48 folhas. As páginas são quadriculadas. No seu interior, várias são as amostras de crivo: compõem flores e outros desenhos, bem como letras avulsas e pequenas frases. Aqui e acolá constam algumas anotações de telefones e endereços, possivelmente de clientes de Dona Martinha.

Este caderno se diferencia dos escolares pelo fato de não possuir uma organização e escrita próprias das finalidades curriculares previstas numa instituição educativa formal. Contudo, pela permanência de representações sobre os usos escolares dos cadernos, a autora evidencia que se preocupa com os eventuais erros ortográficos e com uma estética de distribuição dos registros gráficos nas páginas.

O caderno de moldes de crivo leva a estabelecer ligação com a sobrevivência de uma forma de artesania típica, transplantada para Florianópolis e região com a chegada dos imigrantes portugueses no século XVIII. O sentido etnográfico do caderno de Dona Martinha está em percebê-lo como substrato que contém suas aprendizagens e tentativas de registros do aprendido, algo que viria a ser futuramente executado. Agrega testemunhos de elementos de memória individual e coletiva, suportando uma cultura material remanescente.

Da escola para a cozinha: cadernos de receitas e de culinária

Um exemplar desse tipo a que se debruça é o caderno elaborado por um estudante da então denominada Escola Básica Professor Heleodoro Borges, situada em Jaraguá do Sul, Santa Catarina. Era o ano de 1978 e no currículo do 7º. ano do primeiro grau constava a disciplina de Iniciação para o Trabalho (IPT), sob responsabilidade da professora Cleidy. Cabe lembrar que vigia a lei 5692/1971, peça da legislação educacional que tinha objetivos de formação técnica e profissionalizante. Nesse sentido, este caderno pode ser entendido como um produto da escola que atendia ao currículo oficial preconizado para a época: “Art. 1º O ensino de 1º e 2º graus tem por objetivo geral proporcionar ao educando a formação necessária ao desenvolvimento de suas potencialidades como elemento de auto-realização, qualificação para o trabalho [...]” (Brasil, 1971).

Fabricado pela editora Melhoramentos, é encadernado com espiral de arame e mede 21,5cm de altura por 16cm de largura. O trabalho discente se nota desde a primeira capa dura, sobre a qual foi colada uma gravura recortada de uma revista identificando ‘Quadradinhos de mandioca’. Internamente, foi paginado de 1 a 134, após um sumário que ocupa quatro páginas iniciais. Boa parte do caderno é manuscrita à caneta, mas é entremeada por colagens com textos e ilustrações dos pratos culinários. Quanto à nota atribuída pela professora ao trabalho: Excelente.

Tal caderno, como fonte para estudos de base etnográfica, também permite interrogações sobre as datas comemorativas dos calendários civil, religioso e escolar, que em algumas épocas foram denominadas de efemérides. Desvela ainda uma questão de gênero, uma vez que foi elaborado por um estudante do sexo masculino, porém se imiscuindo num campo tradicionalmente visto como de feminilidades. Que perversão a construção de tal caderno indicaria no contexto da sala de aula da época, já que o cozinhar é tido na cultura patriarcal brasileira como atividade feminina, destinada a futuras mulheres-esposas para que se integrem num tradicional arranjo familiar? Teria sido a composição do caderno de receitas solicitada a todos os demais alunos, fossem meninos ou meninas?

A estrutura do caderno é subdividida em seções, sendo que no início de cada uma consta ilustração denominada pelo estudante como ‘decoração’. A primeira abre uma parte que foi denominada de ‘Bebidas, Sanduíches, Saladas, etc...’, constante entre as páginas 1 a 24. Inclui receitas como Batida de Quatro Frutas, Milkshake de Banana, Ponche de Festa, Sanduíche Americano, Sanduíche Bauru, Salada Americana, Taça de Natal. Na página 5, ocupando lugar de destaque, há um recorte de dois refrigerantes envasados em vidro, lado a lado, que, embora estejam impressos pela metade, têm 21cm de altura: Coca-Cola e Fanta. Referências ao american way of life agindo na cultura infanto-juvenil, evidenciando a penetração de propaganda para a formação de consumidores que foi transferida para o artefato escolar.

Abre-se nova seção na página 29, que perfila receitas de salgados como Arroz com molho de camarões, Torta de Palmito e o Chuchu Recheado. Sobre esta última a pesquisadora se detém em análise de inspiração antropológica, discutindo zonas de sentido e a produção de significados que emana. Para tanto, primeiro se rememora que na cultura gastronômica brasileira o chuchu é um ingrediente simples e de baixo custo. Inclusive nas regiões rurais do sul do país, mesmo que sendo aproveitado na cozinha, ele é servido como alimento para animais de criação como galinhas, porcos e vacas. Do ponto de vista de seu cultivo, é necessário lembrar que esta hortaliça-fruto ou legume é nativa de regiões tropicais das Américas, sendo uma trepadeira que cresce com facilidade em meio a encostas, até mesmo misturada à vegetação nativa. Ou seja, há quem cultive o chuchu na própria horta, mas também é possível colhê-lo em meio à mata, onde cresce livremente.

Atentando a uma base etnolinguística, é conhecido como machucho, caxixe, maxixe, nachuchu, caiota e pimpinela. Agora se buscando outras perspectivas históricas e antropológicas sobre a presença do chuchu em diferentes culturas e sociedades, traz-se uma ampliação da análise. O ponto de partida é uma revista do aeroporto de Paris que apresentou a matéria intitulada A horta do rei - jardim secreto (tradução nossa)9. O texto apresenta e resgata elementos da história do jardim de Luís XIV, em Versalhes, que está ativo. Trata-se do jardim real, idealizado e fundado em 1678 pelo jardineiro Jean-Batiste de la Quintinie, que o fez por ordenação de sua majestade. Ali, hoje se cultivam cenouras, aspargos, ruibarbo, ervas aromáticas e flores. E, inclusive, espécies de chuchu. Então, pela inspiração do nobre jardim e ao que ali se voltou a cultivar, pôs-se em destaque, por meio de uma foto, uma parte da planta de um chuchuzeiro, dependurado um belo christophine ou chayote (denominações na língua francesa para o chuchu). Fato é que a pesquisadora, ao conversar com uma visitante assídua de Paris, esta lhe disse que, de fato, o chuchu estava de volta aos mercados parisienses, inclusive naqueles considerados elegantes! Note-se, ainda, a semelhança entre o termo chayote e a ocorrência terminológica caiota, constante da língua portuguesa. Destaca-se também a perspectiva histórica que se vislumbra no teor da grafia dos dois documentos - tanto no caderno de receitas como na revista do aeroporto europeu. Nesta, que é editada em francês e inglês, consta: “Nosso trabalho é não somente preservar este legado, mas transmiti-lo” (Le Potager Du Roi, 2016, p. 22, tradução nossa)10. Portanto, presente desde hortas populares ao jardim real, o chuchu é ingrediente de uma antropologia da alimentação, pondo em evidência as relações entre hábitos alimentares e classes sociais.

Já a decoração da página 48 abre uma seção de bolos com nomes curiosos: Bolo Abolicionista, Bolo gelado de Bolacha Champagne, entre outros. A pesquisadora preferiu se deter no ‘Bolo Batido no Liquidificador’, que permite discutir, no contexto do propalado desenvolvimentismo econômico brasileiro dos anos 1970, a circulação dos eletrodomésticos. Ao incluir tal receita, o caderno indiretamente informa estatística sobre uma economia do lar, indicando variáveis associadas à presença e distribuição de bens de consumo nos estratos da sociedade. À época, as teorias econômicas aplicadas à sociologia de massas apontavam a presença e o uso de eletrodomésticos nos lares como indicadores de qualidade de vida da população.

Depois das divisões bem cuidadas, após a decoração situada na página 82, inicia-se uma seção que foi denominada de Pratos Diversos. Pergunta-se: Haveria o estudante cansado? Ou teria encontrado e selecionado novas e variadas receitas, que não permitiram seguir as classificações anteriores? Analisando-se o teor presente, efetivamente há uma variedade dali em diante, que mescla salgados, doces e bebidas. Citam-se algumas delas: bolo do papai, beijo de caboclo, pudim de mamão, torta de frango, bolo de Natal, quindão de maracujá, sorvete de festa bicolor, peixe recheado, strogonoff, orelhas de gato, massa para doces natalinos e ponche.

Esse documento espelha um tom autobiográfico porque evidencia um pertencimento e uma partilha de significados culturais socialmente edificados. Nota-se ainda que seu uso foi extrapolando as finalidades iniciais curriculares ao longo do tempo. Numa temporalidade posterior à adolescência de quem o elaborou, o conteúdo desse receituário teve a inclusão de alguns elementos que o enriqueceram depois da fase escolar. Hoje o caderno está entremeado por diversas receitas avulsas, recortes de impressos e escritas que foram selecionados e incorporados. Chamam a atenção as transcrições e cópias, não mais somente com a letra de menino, mas acrescentando receitas manuscritas por familiares como a mãe, a irmã e tias do autor do caderno, até mesmo por vizinhos ou doceiras conhecidas da comunidade e já falecidas. E, juntamente desses registros gráficos, encontram-se várias receitas impressas que foram recortadas do verso de embalagens de ingredientes culinários utilizados no decurso desses anos: no creme de leite, em pudins e gelatinas, na maionese industrializada, em potes de iogurtes, nos pacotes de condimentos, temperos, sopas e cereais, até mesmo nos encartes acrescentados aos invólucros de aves natalinas e, ainda, em folhetos de cursos de cozinha experimental, ofertados em supermercados. Há até mesmo um panfleto - o Receituário Dako de Fôrno e Fogão - que, conforme informou o autor do caderno, acompanhava o fogão que foi comprado por seu pai, em 1984, para compor o essencial da mobília de apartamento de estudante universitário na capital Florianópolis, para onde se deslocou aos 17 anos de idade.

Esta fonte permite interrogar apropriações de leitura, escrita, redação, cópia, bem como outras estéticas associadas à grafia. Empregando uma terminologia técnica, indica possibilidades de ampliação do domínio vocabular. Sob a perspectiva antropológica, possibilita tanto ao seu construtor como aos que a acessam dialogar com regionalismos vinculados à gastronomia do período, àquilo que se tinha como habitual em termos alimentares. Integra uma tipologia que permite vislumbrar a transposição de fronteiras disciplinares ao oportunizar diálogos com a história econômica, com a sociologia e as antropologias humana e cultural. Não se trata apenas de um caderno onde constam receitas, mas serve também como um mostruário de ritos em torno da mesa, de celebrações, de pratos típicos de certos grupos ou classes, possíveis de preparar e usufruir conforme representações e status sociais associados. Neste caso, revelando a natureza de um arranjo gráfico como expressão cultural idealizada e arquitetada por um aluno de escola pública, oriundo de família operária. Ou seja, o conjunto de receitas analisado congrega uma série de componentes gráficos e visuais, os quais compuseram ao longo do tempo uma coletânea encadernada, verdadeira miscelânea de escritas e impressos que informa sobre temas antropológicos como os simbolismos e transformações da alimentação.

Faz-se agora referência à composição historiográfica compartilhada com uma estudante de Pedagogia que trabalhou com a pesquisadora nas pesquisas sobre cadernos. É referente a um caderno de receitas vinculado ao currículo de uma instituição de educação infantil. Pertencia a uma menina que estudava na Escola Básica Municipal Vila Santana, localizada no bairro Vila Santana - Sertão, no município de Santo Amaro da Imperatriz, em Santa Catarina. A pergunta que mobilizou a escolher esta variedade de caderno foi: Qual a função de um caderno de culinária para crianças?

No exemplar analisado, a capa original foi escondida sob enfeites que trazem uma criança com roupas de cozinheira, feitas em papel tipo EVA, que dão a entender que é um caderno de culinária. Conta com 60 folhas, no formato de 14cm de largura por 20,2cm de altura.

Observa-se a presença de escrita infantil no seu interior, sendo possível perceber as dificuldades de registro de uma menina que tinha então cinco anos. Palavras em letra de forma, grandes e desalinhadas, se mesclam a desenhos. Em alguns momentos, quando seria necessário escrever ‘uma xícara de leite’, a criança realizava o desenho de uma xícara. O caderno ainda inclui fotografias coladas em algumas das páginas, provavelmente feitas por professores ou outros adultos que presenciaram as práticas de culinária realizadas. Numa delas é possível ver um grupo de crianças colocando ingredientes num liquidificador. Noutra, são flagradas colocando a ‘mão na massa’, sentindo a textura dos alimentos. Ao se percorrer o rol das receitas, é possível perceber um critério adotado para dar nome aos pratos, que são relacionados às próprias crianças ou suas famílias: o ‘Pão de orégano da Katia’ e o ‘bolo da mãe do Vítor’. Esse dado autoral amplia a significação cultural do objeto e documenta uma etnologia específica, instruindo sobre certos aspectos constituintes da sociedade contemporânea em suas relações com a alimentação.

Tanto sob a perspectiva curricular como sob o critério antropológico, as aulas de culinária implicam objetivos interessantes. Por meio das receitas e de seu preparo as crianças podem explorar uma comida típica de sua cidade ou região ou até mesmo preparar pratos oriundos de outros Estados ou países. Tangenciam o que é denominado de simbolismo da alimentação. Outrossim, o uso do caderno pode também ser visto como estratégia para criar e estimular hábitos de higiene, pautada nas interações entre hábitos alimentares e modus vivendi, pois há possibilidade de destacar uma alimentação mais apropriada e saudável, que conte com bons nutrientes e estimule a fuga do consumo de industrializados.

E, como associado a uma aula de culinária, esse tipo de caderno compreende noções preliminares de matemática e de química. Concomitantemente, a introdução de registros gráficos como a escrita e o desenho possibilita aprendizagens sobre medidas e quantidades; documenta representações sobre como se transformam os ingredientes, transitando por componentes pedagógicas como a caracterização dos estados físicos da matéria, ou descrevendo o cheiro da comida e outros aspectos sensoriais, mas, sobretudo, trabalha o desenvolvimento da leitura e da escrita, pois há necessidade de representar as receitas, de tentar escrever e ainda de buscar ler os rótulos.

Considerações finais

Resultam perspectivas analítico-interpretativas sobre cadernos que registram marcas de estudantes e professores, mas também de diversos outros sujeitos sociais que puderam intervir na composição dos conteúdos. Embora geralmente construídos e utilizados em espaços escolares, vinculados a diversas disciplinas, há cadernos que são utilizados com outras finalidades, compondo acréscimos culturais quanto a aspectos antropológicos, manifestos nos trajetos de vida. Como pondera Hernández Díaz (2002, p. 231),

Sabemos que todo objeto, qualquer objeto escolar e educativo deixa de ser neutro porque seu desenho e uso não o são, porque oferece ao hermenêutico uma ampla diversidade e ambiguidade de significados que nos convida a sua fragmentação, a desmontá-lo, a analisá-lo mais criticamente em sua individualidade e em seu contexto social de produção e uso.

Por conseguinte, delinearam-se proposições analíticas quanto a cadernos cuja finalidade extrapolou os usos tradicionais na escolarização, tais como o questionário, os cadernos de lembranças e recordações, próprios de culturas juvenis, o caderno de receitas, assim como o caderno utilizado pela criveira no trabalho artesanal. Desse modo, uma vez que podem ser relacionados, em maior ou menor grau, a uma cultura material escolar, tal como indica a discussão metodológica estabelecida por Abreu Júnior (2005), os cadernos estudados explicitam sua complexidade mediante uma abordagem multidisciplinar, considerando dimensões como a materialidade, a tecnologia e a intencionalidade. Eles se constituem no amálgama que mistura à história da educação perspectivas antropológicas, sociológicas e pedagógicas, nutrientes essenciais que geram, na atividade investigativa, a compreensão e a interpretação como posturas epistemológicas que auxiliam a ver os cadernos como artefatos etno-históricos.

O material reunido indica pluralidade de usos e uma tipologia diversificada que resultaram em substratos materiais e simbologias, carregados de historicidade, vinculados a perspectivas étnico-culturais em que instituições sociais variadas interagem. Nesta amostra tipológica, os diversos elementos de grafia e imagéticos analisados ampliam a compreensão de questões culturais e de organização societária, oportunizando interpretações de matiz ideológico, de gênero e de religiosidade, entre outras. Ratifica-se que as diferenças entre as capas dos cadernos estudados, assim como a sua ausência no caderno da criveira, sinalizam concordância com Peixoto (2004), notadamente quanto à variação, ao longo do tempo, do tamanho, de conteúdo e do tipo de encadernação. Da espessa capa preta do caderno de Hertha, sobre a qual foi aplicado um recorte de flores coloridas, decorre uma específica leitura etno-histórica, que o distingue, por exemplo, do caderno de receitas, na medida em que se considera a relação com a classe social de pertencimento do produtor de cada um dos artefatos e que é, posteriormente, confirmada com as interpretações advindas de seu teor.

Apresenta-se uma etno-história de individualidades e coletivos, que tem suas fronteiras atravessadas e ultrapassadas quando pessoas que guardaram seus cadernos são levadas a reconhecer a si e ao outro em traços de vida, de hábitos, de personalidade e de identidade graficamente registrados. Teores que jazem e podem ser despertos a qualquer momento em um caderno que foi conservado e que se permite folhear repetidamente. Como ferramenta histórica que preserva dados de subjetividade, o resgate de cadernos pode ainda gerar catarses, comoções coletivas, saudosismos. Para aqueles que não os conservaram, fica a sensação de terem jogado fora um registro de história pessoal.

Os cadernos de todos os tipos são, sem dúvida, fontes onde elementos etnográficos eclodem. Por isso, merecem ser ainda mais investigados: eles são uma construção cultural que comporta dados de grafia, de imagens, de cópias, de transcrições, de ditados, de escritas espontâneas ou selvagens. Enfim, um artefato que compõe e registra histórias.

Referências

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1 “[...] entendida como perspectiva teórico-metodológica que permite ‘documentar lo no documentado’, por lo que resulta pertinente para el análisis de algunos procesos cotidianos de la organización escolar”.

2Motivada pela compreensão desse artefato como um produto da cultura escolar que funciona como espaço gráfico e suporte da escrita, Peres (2012) analisa 119 cadernos de crianças em fase de alfabetização, datados no arco cronológico entre 1940 e final da década de 2000, recolhidos em escolas e famílias do Rio Grande do Sul. Resultam dessa pesquisa promissoras indicações quanto às possibilidades e limites dos usos dessa ‘fonte-objeto’ para a problematização e análise da história da alfabetização, tendo como base a escrita infantil registrada.

3“Los objetos y espacios de la escuela ayudan a construir relaciones, palpables o invisibles, a crear un determinado clima, que podrá ser recreado e interpretado con pautas, metodologías y criterios etnográficos. [...] El objeto en la escuela pone al investigador en situación y explica mucho más de lo que a simple vista dice, porque es un material que resulta indispensable para favorecer rituales comunicativos cada día, para posibilitar la transmisión de determinados modelos culturales”.

4“La etnografía escolar surge simplemente como consecuencia de haber seleccionado un tipo particular de campo, pero no existe una metodología específica de la etnografía escolar. Y cuando lo aplicamos al ámbito de la historia de la educación caminaría más en la línea de la denominada etnohistoria, donde se combinan otros elementos documentales, materiales, icónicos, junto a la posible oralidad, y siempre pretendiendo encontrar aquella insaciable pretensión holística del problema y de la cultura objeto de estúdio”.

5“[...] se observa e interpreta paralelamente, se selecciona el significado del contexto en relación con la elaboración teórica que se realiza al mismo tiempo, se generan hipótesis, se realizan múltiples análisis, se reinterpretan, se formulan nuevas hipótesis y así, se construye el contenido a partir de los conceptos iniciales, no presuponiendo de antemano”.

6Parte dos cadernos que integram esse arquivo particular foi apresentada na exposição intitulada Cadernos escolares: por uma etno-história da educação, realizada no Museu da Escola Catarinense, em Florianópolis, durante o período de 26 a 29 de outubro de 2014. Apresentando uma tipologia diversa, composta por cadernos produzidos no interstício dos últimos 100 anos, a mostra integrou a programação da X ANPED Sul (Exposições..., 2018).

7Viñao se refere aos estudos de María del Mar del Pozo Andrés e Sara Ramos Zamora sobre cadernos da escola primária espanhola do período após a Guerra Civil, que distinguem cinco tipos. E, abrangendo um arco cronológico que principia no século XIX, apresenta ainda um rol de 13 diferentes tipos de cadernos cujas denominações têm origem francesa e ocorrem em escritos de pesquisadores como Chervel, Buisson, Hébrard, Ballester e Chartier, entre outros.

8Traduzo o título do evento, que também foi utilizado nos livros a que deu origem: Cadernos escolares. Uma fonte complexa para uma história da escolarização e educação nos séculos XIX e XX. Cabe ressaltar que os textos foram publicados conforme os idiomas originais em que foram propostos: inglês, francês, italiano e espanhol. Assim, considero que o título em italiano amplia a compreensão sobre a plural natureza epistêmica do evento: Convegno internazionale quaderni di scuola: una fonte complessa per la storia delle culture scolastiche e dei costumi educativi tra ottocento e novecento. Em tradução livre: Congresso internacional cadernos escolares: uma fonte complexa para a história das culturas escolares e dos costumes educativos entre o oitocentos (século XIX) e o novecentos (século XX). Em paralelo ao congresso, foi realizada uma exposição de cadernos do colecionador italiano Paolo Ricca (2007), também documentada por meio de um vídeo denominado Tra banchi e quaderni: il documentario (Entre bancos e cadernos: o documentário).

9“Le potager du roi - jardin secret”.

10“Notre travail, c’est de conserver le patrimoine mais aussi de le transmettre”; “Our job is not only to preserve this legacy, but to pass it on”.

Recebido: 01 de Novembro de 2017; Aceito: 07 de Agosto de 2018

*Autor para correspondência: E-mail: ademir.santos@ufsc.br

Ademir Valdir dos Santos é doutor em Educação. Docente e pesquisador do Departamento de Estudos Especializados em Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação, Centro de Ciências da Educação, UFSC. Líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em História da Educação e Instituições Escolares de Santa Catarina.

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