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Revista Brasileira de História da Educação

Print version ISSN 1519-5902On-line version ISSN 2238-0094

Rev. Bras. Hist. Educ. vol.18  Maringá  2018  Epub Feb 11, 2019

http://dx.doi.org/10.4025/rbhe.v18.2018.e038 

ARTIGO ORIGINAL

Nuances de elementos biográficos nos estudos em história e história da educação: uma síntese a partir do estado do conhecimento

Nuances of biographical elements in studies in history and history of education: a synthesis from the state of knowledge

Matices de elementos biográficos en los estudios en historia e historia de la educación:una síntesis a partir del estado del conocimiento

Ariane dos Reis Duarte* 
http://orcid.org/0000-0001-6599-5393

Luciane Sgarbi Santos Grazziotin1 
http://orcid.org/0000-0001-5648-3855

1Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo, RS, Brasil.

RESUMO

Resumo: O artigo discute o 'estado do conhecimento' realizado para um estudo relacionado ao personagem Felipe Tiago Gomes e problematiza estudos que têm a biografia como mote. Analisa uma síntese da produção, que compreende investigações divulgadas entre os anos de 1999 e 2016, com enfoque teórico e metodológico centrado nas diferentes formas que o termo biografia assume em pesquisas em história ehistória da educação. Priorizaram-se publicações de três periódicos de cada uma das áreas e estudosapresentados em eventos da ANPUH. O texto aponta tensionamentos teóricos e problematizações relacionadas a esse gênero, bem como algumas possibilidades para a ampliação de tais pesquisas no âmbito da história da educação.

Palavras-chave: biografia; Felipe Tiago Gomes; gênero biográfico

ABSTRACT

Abstract: This paper discusses what is usually called 'state of the art' and problematizes academic studies focusing on biographies. It analyzes a synthesis of this production, which covers investigations published between the years of 1999 and 2016, with different forms of theoretical and methodological approaches concerning the term biography in academic research in the areas of History and History of Education. Publications from three of each one of the research areas presented in ANPUH events were prioritized. The study points theoretical tensions and problems related to the biographical genre, as well as some possibilities concerning the expansion of such research works in the scope of History of Education.

Keywords: biography; history of education; biographical genre

RESUMEN

Resumen: El artículo discute el 'Estado del conocimiento' realizado para un estudio relacionado al personaje Felipe Tiago Gomes y problematiza estudios académicos que tienen la biografía como principio. Analiza una síntesis de la producción, que comprende investigaciones divulgadas entre los años 1999 y 2016, con enfoque teórico y metodológico centrado en las diferentes formas que el término biografía asume en investigaciones en historia e historia de la educación. Se priorizaron publicaciones de tres periodos de cada una de las áreas y estudios presentados en eventos de la ANPUH. El texto apunta tensiones teóricas y problematizaciones relacionadas a ese género, así como algunas posibilidades para la ampliación de tales investigaciones en el ámbito de la historia de la educación.

Palabras clave: biografia; Felipe Tiago Gomes; género biográfico

Introdução

A humanização das ciências do homem, a era da testemunha, a busca de uma unidade entre o pensar e o existir, o requestionamento dos esquemas holistas, assim como a perda da capacidade estruturante dos grandes paradigmas, todos esses elementos contribuem para o entusiasmo atual pelo biográfico (Dosse, 2015, p. 406).

Por muito tempo, o gênero biográfico ficou à margem da história, de modo que a adesão à escrita biográfica gerava desconforto entre autores. A partir da década de 1980, há uma reviravolta nesse cenário, e o gênero biográfico volta a ser legitimado no âmbito científico, de modo que as ciências humanas iniciam um processo de investimento nesse campo. Isso faz com que trabalhos que se debruçam sobre uma vida proliferem e ganhem cada vez mais espaço. No entanto, a abordagem feita sobre essas vidas varia de acordo com o enfoque dado pelo autor, pois “[...] não há outra forma para narrar uma vida a não ser selecionando o que nos parecer significativo” (Borges, 2015, p. 220). Há estudos que se debruçam sobre determinado indivíduo, no entanto sua vida não é o objeto em si, mas sim o meio pelo qual se escolheu abordar determinada época e/ou determinado contexto. Também há estudos cuja abordagem reflexiva está centrada na trajetória de vida e na formação desses sujeitos. Já na perspectiva da história dos intelectuais, há ainda aqueles trabalhos cujos elementos que compõem seu itinerário de vida para construir uma reflexão são abordados de maneira a complementar o entendimento sobre a produção intelectual do indivíduo em questão e/ou sua atuação nos diferentes aspectos da educação. De todo modo, trata-se de estudos que utilizam o substantivo biografia e/ou o nome próprio de um indivíduo como forma de designar um contexto, uma ação política, uma produção intelectual, uma reflexão sobre uma obra pedagógica. Em comum, todos possuem 'elementos biográficos', ou seja, elementos que se relacionam à vida de um sujeito.

Embora, em sua maioria, sejam estudos qualificados e importantes sob a perspectiva da educação, não se trata, no entanto, de pesquisas que têm uma abordagem teórica e metodológica centrada no gênero biográfico como escopo da investigação. É importante esclarecer que entendemos o gênero biográfico, ou a também denominada biografia histórica, como aquela forma de produzir história decorrente da crise dos grandes paradigmas explicativos, “[...] a qual motivou o repensar da problemática relação entre liberdade e necessidade, e a valorização dos sujeitos individuais e coletivos e de suas possibilidades de invenção e intervenção em processos Históricos mais amplos” (Schmidt, 2017, p. 20). Para Dosse (2012, p. 140), “[...] a biografia retornou como objeto da história erudita, refletindo sobre a ação humana dotada de sentido, a intencionalidade, a justificação dos atores, os rastros memoriais”.

Pensar a lógica individual em detrimento da lógica estrutural fez o campo biográfico ganhar amplo espaço junto aos historiadores, pois, nessa perspectiva, o indivíduo é entendido como

Constituído de subjetividades e examinado como um microcosmo, ponto de intersecção de múltiplos, e por vezes, contraditórios condicionamentos: materiais e mentais, sociais e psíquicos, racionais e irracionais, político-ideológicos e religiosos. Assim, o indivíduo deve ser entendido como fragmento representativo da multiplicidade social [...] (Bastos, 2002, p. 31).

Nesse sentido, não se trata mais de entender a vida do biografado como “[...] uma totalidade postulada, mas, ao contrário, questionada em suas tensões, contradições e diversas cidades de pertenças” (Dosse, 2012, p. 142). Desse modo, em concordância com o autor, nossa proposta, ao desenvolver esse estado do conhecimento, foi perceber os diferentes usos de elementos biográficos em estudos nas áreas da história da educação e da história, tendo como mote o projeto para a construção da biografia de Felipe Tiago Gomes1. O texto está organizado de maneira a apresentar distintas pesquisas que têm como foco a 'biografia', como escolhemos nomear o 'gênero biográfico', ou estudos que remetem a elementos que circunscrevem a vida de determinados personagens da história. São trabalhos selecionados em periódicos das duas áreas já mencionadas, atinentes a resultados de pesquisas, dissertações ou teses defendidas em programas de pós-graduação em História ou em Educação de todo o país.

A história da educação, conforme Vidal e Faria Filho (2003), não se desenvolveu exatamente como uma área da história, mas, sobretudo, como disciplina vinculada aos Cursos Normais e aos Cursos de Pedagogia. No entanto, como apontam Galvão e Lopes (2010), a história da educação, a partir, sobretudo, da década de 1990, tem acompanhado os movimentos de transformação e abertura historiográfica, contemplando fontes e abordagens distintas. Para Boto (2002, p. 14), “[...] a própria matéria de estudo só existe pelo traçado da interlocução: história e educação”. Nesse sentido, as pesquisas desenvolvidas em história da educação têm apresentado estudos de cunho historiográfico, utilizando fontes documentais escritas, iconográficas e orais. Nesse processo, os estudos biográficos, embora de modo ainda acanhado, vêm tomando espaço. O corpus empírico de tais estudos tem se sustentado em referenciais teóricos de áreas como educação, história, sociologia e antropologia, entre outras ciências que auxiliam os estudos dessa natureza.

A biografia, foco deste estudo, é um gênero que cresce no âmbito da história, mas que ainda se encontra menos presente nos estudos da história da educação. Sendo assim, os objetivos deste artigo são apresentar e analisar a produção teórica relacionada às pesquisas nos campos da história e da história da educação, cujo enfoque teórico e metodológico centra-se no gênero da biografia histórica.

Para tanto, foram pesquisados os seguintes bancos de dados:

  1. acervo digital da Revista História da Educação/ASPHE2;

  2. acervo digital da Revista Brasileira de História da Educação/RBHE3;

  3. trabalhos selecionados na Revista Brasileira de História4;

  4. trabalhos publicados nos Anais da ANPUH5.

A escolha desses acervos se deu em virtude da sua relevância para a área na qual o estudo está inserido. Todo o processo de busca considerou trabalhos publicados a partir do ano 2000, uma vez que, até então, o tema 'biografia' não era recorrente no campo da história da educação, desse modo, o recorte temporal escolhido nos permitiu estabelecer um panorama atual acerca do tema. Para os repositórios da ASPHE, CAPES e RBHE, foram utilizados os seguintes descritores: 'biografia', 'biografia histórica', 'pensador', 'intelectual' e 'fundador'. Entendemos que tais descritores remetem à ideia de percurso de vida, e outros ainda poderiam ser selecionados, no entanto optamos por esses em virtude de sua recorrência. Diante da quantia ínfima de trabalhos biográficos, optamos por ampliar a dimensão dos descritores e incluir termos que remetessem a estudos que se debruçaram sobre um indivíduo, mas que não estivessem, necessariamente, inseridos na perspectiva biográfica. Com essa opção, foi possível detectar os usos de dados biográficos por esses trabalhos, assim como observar aproximações e afastamentos entre eles. Para o levantamento feito nas bases de dados da ANPUH, analisamos as revistas publicadas no recorte temporal estabelecido e fizemos o rastreamento a partir dos anais, por meio dos descritores mencionados anteriormente.

Uma síntese necessária

Na busca feita no repositório da revista História da Educação/ASPHE, selecionamos os trabalhos apresentados no quadro abaixo. A partir dos resultados, foram escolhidos os textos para compor esta seção.

Fonte: As autoras.

Quadro 1:  Trabalhos selecionados na revista História da Educação 

Conforme pode ser observado no Quadro 1, foram escolhidos oito textos publicados na revista História da Educação. Pelas datas das publicações, é possível constatar que não são recorrentes os artigos com enfoque biográfico. Como foi dito anteriormente, o processo de busca dos trabalhos foi realizado por meio dos descritores e da análise dos títulos. Essa etapa nos permitiu observar que, em determinados casos, apesar de o estudo parecer ser biográfico, o enfoque não está centrado no sujeito anunciado no título, nem nos elementos da sua história de vida, uma vez que, para Le Goff (1990), uma biografia histórica requer uma narração de vida articulada a certos acontecimentos individuais e coletivos. É o caso do primeiro trabalho citado no quadro, que, em um primeiro momento, pode dar a impressão de tratar-se da vida de madame Hippeau - no entanto a investigação se debruça sobre um manual de economia doméstica para mulheres. Ressaltamos que não se trata de uma crítica ao trabalho, mas sim de uma observação a respeito do processo de busca de dados. Essa discussão nos parece relevante, uma vez que a busca de estudos cuja temática possa dialogar com aquilo que se está produzindo é um aspecto fundamental na produção de uma tese e/ou dissertação, que resulta em um trabalho árduo, por diferentes motivos. É possível supor também que, pela data da publicação, ou seja, o ano de 1999, textos com enfoque biográfico fossem incomuns, visto que esse campo da história vinha aos poucos se (re)consolidando.

O segundo texto versa sobre as noções de 'intelectual'. Ao longo do trabalho, o autor apresenta intelectuais do século XIX e debate as dimensões e transformações desse conceito. O enfoque do estudo é a França. O texto toma o 'caso Dreyfus'6 como referência e o trata como um 'divisor de águas' no que diz respeito à constituição de um intelectual. Para isso, estabelece duas categorias de intelectuais, a partir do posicionamento desses sujeitos em relação ao caso. Com isso, analisa os espaços sociais e ideológicos em que se situam os intelectuais. Faz menção a Pierre Bourdieu e ao conceito 'campo intelectual' para tecer uma análise mais global e menos individual dessa categoria.

O terceiro texto apresentado no Quadro 1 reflete sobre um intelectual em específico e sobre a rede de relações na qual ele estava inserido. O trabalho é um recorte da tese de doutorado da autora e ampara-se na perspectiva da história dos intelectuais, a partir do enfoque teórico de Sirinelli. A perspectiva do estudo é verificar a atuação de Lysimaco Ferreira no que diz respeito aos rumos da educação no país. Já o estudo de Carla Simone Chamon também recorre ao conceito de intelectual de Sirinelli e se debruça sobre a trajetória profissional da educadora Maria Guilhermina Loureiro de Andrade. Importante destacar que a autora justifica o uso do termo 'trajetória', entendendo-o como um 'vir-a-ser' e não como algo dado de antemão. Esses dois trabalhos se atêm a itinerários de sujeitos que estabeleceram redes de relações e, a partir delas, contribuíram para o cenário educacional. Nesse sentido, a abordagem adotada tem por enfoque o meio social e não a vida dos personagens em questão.

O artigo 'Biografia de uma professora extraordinária' é uma resenha da obra Justa Freire o lapasión de educar: biografia de una maestra atrapada en la historia de España (1896-1965). A referida obra aborda a vida da educadora espanhola desde sua infância, passando por sua atuação profissional e política, considerando que um contexto está diretamente ligado ao outro. Segundo os autores da resenha, a partir do ensaio biográfico, é possível ver a história da Espanha no século XX. Embora se dedique a falar sobre aspectos da vida da personagem, os autores ambicionam enxergar o contexto na qual ela está inserida. Na perspectiva em que trabalhamos, indivíduo e meio social estão imbricados, ou seja, não são elementos realmente isoláveis.

Outros dois textos apresentados no quadro são da autoria de Jaime Caiceo Escudero e têm enfoque em educadores chilenos, com atuações em diferentes segmentos. Ambos abordam a biografia dos sujeitos/objetos, trazendo sua história de forma cronológica. Mencionam dados de nascimento e elencam, a partir disso, outras informações da trajetória dos personagens. Ao longo dessas publicações, são destacadas as ações dos sujeitos e as redes de relações em que circularam. Os estudos não entram em pormenores teóricos, anunciam apenas questões metodológicas, citando fontes classificadas como primárias e secundárias.

A última produção apresentada no quadro não tem um enfoque na vida em si do educador italiano anunciado no título, mas sim no conteúdo de seus textos destinados à escola e ao público infanto-juvenil durante a Primeira Guerra Mundial. Para isso, os autores recorrem a um breve ensaio biográfico sobre o escritor, de modo a situá-lo no contexto sócio-histórico abordado. Nesse sentido a vida aparece como um complemento do que se quer visibilizar da sua produção intelectual.

A pesquisa no acervo digital da Revista Brasileira de História da Educação/SBHE resultou nos trabalhos elencados no Quadro 2.

Fonte: As autoras

Quadro 2:  Trabalhos selecionados na Revista Brasileira de História da Educação (RBHE). 

Os estudos selecionados a partir das publicações da Revista Brasileira de História da Educação perfazem um total de 18 textos, publicados entre os anos de 2002 a 2016. Os dois primeiros têm como foco indivíduos caracterizados como intelectuais e se debruçam sobre um aspecto específico de sua vida. No entanto, nenhum deles faz menção à biografia como campo de estudo - fazem ressalva ao pensamento do intelectual abordado e sua contribuição no campo em que estavam inseridos. Para isso, recorrem a diferentes caminhos. No caso do primeiro texto, a trajetória - termo da autora -, de Célestin Hippeau, vai sendo articulada ao conteúdo dos seus escritos. No segundo texto, são analisadas, entre outros documentos, as correspondências entre Lourenço Filho e Anísio Teixeira. A partir disso, a autora traça as redes de sociabilidade/intelectualidade construídas por Lourenço Filho.

A produção 'Entre biografias e autobiografias pedagógicas: os diários de infância' discute e analisa a potencialidade desses documentos para a história da educação. Ao longo do texto, problematiza-se o caráter autobiográfico dos escritos. No entanto, esse não é o foco do estudo, que integra uma obra sobre arquivos de infância. Já o texto intitulado 'Bernardo Guimarães, pensador social' tem como objeto não a vida do referido pensador, mas sim sua obra literária e as representações de diversos segmentos nela contida. Para isso, são feitas algumas considerações sobre a trajetória do escritor, porém somente para auxiliar no entendimento de sua obra.

O artigo 'Intelligentsia e intelectuais - sentidos, conceitos e possibilidades para a história intelectual' difere dos demais ao fazer uma reflexão sobre a polissemia do vocábulo 'intelectual', procurando detectar as teorias usadas para investigar os intelectuais que se tornam objeto de estudo. Debruça-se sobre as noções de intelectual nas obras de Karl Manheim, de Antonio Gramsci e de Pierre Bourdieu. De maneira geral, o artigo discute as aproximações, as potencialidades e os limites dos conceitos desenvolvidos pelos autores citados, contribuindo para uma reflexão sobre as concepções de intelectual e as possibilidades de uso do conceito para a pesquisa em história da educação.

O artigo sobre o intelectual Delfim Moreira e a reforma do ensino em Minas Gerais tem como referencial teórico o campo da história dos intelectuais, situando-se entre a história política e a história cultural. Já o texto sobre o inspetor de ensino Estevão de Oliveira se debruça sobre um relatório produzido por ele em viagem para São Paulo e Rio de Janeiro, a fim de delinear um plano de reforma para o ensino público mineiro. Para a análise, o texto traz a biografia do inspetor como uma espécie de complemento para entender suas ações e as ideias contidas no relatório.

Os demais textos variam em sua estrutura e abordagem, mas, de maneira geral, é possível dizer que tratam de determinados sujeitos - intelectuais - e de sua contribuição para o cenário educacional em diferentes épocas e em diferentes segmentos. Todos eles recorrem à Análise Documental Histórica, de forma que o objeto analisado não é uma vida, mas um elemento específico do percurso de vida.

Diana Gonçalves Vidal, diferentemente dos autores dos demais textos analisados nesse periódico, traz o vocábulo 'personagem' para referir-se ao intelectual abordado no texto. Entendemos que esse aspecto remete a um estudo de cunho biográfico, uma vez que historiadores biógrafos, como Schmidt (2017), referem-se aos seus biografados dessa forma. Além disso, entendemos que o uso do termo caracteriza o hibridismo do gênero biográfico, que “[...] manifesta assim as tensões e as conivências entre a literatura e as ciências humanas” (Dosse, 2015, p.8). Desse modo, utilizando-se de um texto publicado por Santa-Anna Nery na Revue Pedagogique, Vidal traça uma breve biografia do personagem articulada à problematização por ela proposta, que consiste em discutir o esquecimento de algumas temáticas dentro da produção histórica brasileira, apontando para a recorrência de determinados temas em detrimento de outros que foram deixados em segundo plano. É assim que ela caracteriza seu personagem, apontando para possíveis causas de seu esquecimento no campo da história da educação.

O estudo de Névio Campos sobre Wilson Martins analisa a presença do filósofo espanhol José Ortega y Gasset no pensamento do intelectual. O texto discorre sobre a contribuição do pensador - vocábulo utilizado pelo autor - para o ensino superior no Estado do Paraná. Para isso, analisa um discurso proferido na aula inaugural da Faculdade de Filosofia da Universidade do Paraná, bem como outros escritos e publicações do intelectual. O estudo insere-se no campo da história dos intelectuais e recorre ao conceito de habitus, de Pierre Bourdieu. Por sua vez, o artigo sobre João Roberto Moreira possui abordagem semelhante ao texto sobre Wilson Martins. Nesse trabalho, a autora procura analisar o aporte das discussões promovidas por João Roberto Moreira.

Libânia Xavier analisa as contribuições políticas e intelectuais dos professores portugueses Rui Grácio e Rogério Fernandes. Para isso, estabelece duas seções: uma sobre as ideias e ações acerca da qualificação de professores e outra sobre as concepções a respeito do lugar da história da educação na historiografia portuguesa. O estudo é um recorte de um trabalho mais amplo e situa-se, segundo a autora, entre a história cultural e a história dos intelectuais. Para construir o texto, a autora traz elementos da vida de cada um dos professores, procurando enfatizar a relação estabelecida pelos dois em suas trajetórias profissionais e acadêmicas. Argumenta que, ao contrário de promover uma fragmentação, a análise de trajetórias individuais possibilita perceber com mais clareza como se deram as relações entre os diferentes movimentos e associações pelas quais esses indivíduos transitaram.

O estudo sobre Luiz Gonzaga Fleury é o único dessa lista que usa o termo biografia. O objetivo do texto, segundo a autora, é apresentar parte da biografia e da bibliografia do professor. Nesse sentido, ela analisa as concepções acerca do ensino da leitura presentes na obra do professor por meio de escritos publicados em diferentes periódicos. Em um primeiro momento, a autora traça uma narrativa biográfica sobre a trajetória do professor para, na sequência, analisar os escritos selecionados em sua bibliografia. Embora faça menção à biografia, o texto não traz uma discussão teórica sobre o gênero.

A investigação sobre a sociologia cristã e o pensamento de Alceu Amoroso Lima foi elaborada a partir de uma pesquisa com maior amplitude. Ao desenvolver os procedimentos metodológicos para esse estudo, a autora chegou ao referido intelectual e escolheu alguns de seus escritos para análise. Assim, o texto problematiza a relação dos intelectuais com a educação no Brasil, no início do século XX - discussão extremamente pertinente para pensar o cenário da pesquisa que tratada biografia de Felipe Tiago, uma vez que sua atuação em prol da educação inicia-se na década de 1940. Sobre Alceu Amoroso Lima, o intelectual em questão, a autora traz apenas dados básicos para entender seus escritos. Ao longo do texto, discute a sociologia cristã, perspectiva na qual o intelectual estava inserido, e aponta para os embates entre educadores católicos e não católicos.

As pesquisas sobre os intelectuais Erasmo Pilotto e Tavares Bastos se referem às concepções desses indivíduos no âmbito da educação. O artigo de Rossano Silva sobre Erasmo Pilotto problematiza o uso de 'trajetória', a partir das colocações de Pierre Bourdieu. Já o trabalho de Jean Carlo Costa sobre Tavares Bastos traz um conceito inédito em relação aos demais trabalhos: 'microclima'. O autor debate a relação entre as produções dentro história da educação e situa a história dos intelectuais como um terceiro espaço, entre a história cultural e a da educação, mas não dissociado dessas áreas, e que tem crescido consideravelmente nos últimos tempos. Ao fazer isso, aponta para a ideia de microclima7, que seria caracterizado pelos tipos de inserção que possibilitaram a ascensão e/ou queda das ideias produzidas por esses intelectuais.

Entendemos que as investigações de Diogo da Silva Roiz e Carlota Boto se diferenciam dos demais trabalhos. O primeiro não se debruça sobre nenhum intelectual, no entanto problematiza os discursos pronunciados no momento da criação da Universidade de São Paulo, apontando para as suas intencionalidades de produzir uma tradição e uma memória coletiva. Encontramos, nas produções de Felipe Tiago, um viés bastante semelhante a essa perspectiva. Nesse sentido, o texto ajuda a pensar as problematizações que podem ser suscitadas a partir do corpus empírico construído. Por sua vez, o texto de Carlota Boto trata-se de uma resenha a partir da tese de doutorado de Bruno Bontempi sobre Laerte Ramos de Carvalho. Para construir a trajetória do intelectual, Bontempi recorre, entre outros procedimentos, à história oral, metodologia que está praticamente ausente nos demais trabalhos sobre intelectuais.

Com o intuito de tentar expandir a visão sobre o gênero biográfico e de, ao mesmo tempo, ter um uma dimensão do seu uso no campo da história, optou-se por incluir, nesse levantamento, as produções vinculadas à Associação Nacional de História, por meio da sua revista e dos anais dos simpósios nacionais.

Fonte: As autoras

Quadro 3:  Trabalhos selecionados na Revista Brasileira de História. 

O artigo sobre Manoel Bonfim recorre à produção escrita do autor para, por meio dela, problematizar suas ideias. Nesse sentido, a vida do indivíduo é apresentada de maneira a suprir as informações necessárias para o entendimento de suas contribuições teóricas. Já o texto que se debruça sobre José Vasconcelos e Alfons Reyes tem por objetivo analisar as ações de ambos, no que diz respeito às relações políticas e culturais entre Brasil e México. A autora utiliza o vocábulo 'personagem' e refere-se aos indivíduos abordados no texto como intelectuais. Embora não faça menção explícita ao termo, o texto remete à abordagem biográfica.

A pesquisa sobre Floriano de Lemos, médico carioca, caracteriza-o como um 'intelectual viajante'. Pontua que ele possui uma trajetória emblemática em relação àqueles que desenvolveram pesquisas sobre o interior do país. Já o texto sobre Capistrano de Abreu objetiva compreender como este propôs a formação do Brasil. O artigo narra a trajetória de vida de Capistrano e, paralelamente, analisa sua obra. Observamos que a análise é da obra de Capistrano, e não de sua vida em si. Por sua vez, o artigo sobre D. Antônio, Prior de Crato, deixa clara a intenção de mapear algumas questões da vida política e cultural no contexto ibérico entre os séculos XVI e XVII. Ao longo do texto, é possível perceber que a vida de D. Antônio é o mote para pensar o contexto de sua época. Nesse ínterim, a autora apresenta e discute os documentos consultados para construir o que ela denomina de esboço da trajetória de D. Antônio na Corte portuguesa.

O artigo sobre João Cândido discute a edificação do marinheiro como herói nacional e as formas de apropriação e recuperação da Revolta da Chibata, movimento protagonizado por ele. A discussão do texto não é a vida de João Cândido em si, mas sim as construções memorialísticas em torno desse indivíduo e do episódio ocorrido no início do século XX. Já o texto sobre Manoel Ferreira de Araújo analisa a trajetória desse indivíduo junto à Academia Real Militar do Rio de Janeiro. A pesquisa se concentra não na vida de Manoel Ferreira, mas sim no contexto que o levou a produzir um manual de astronomia e no conteúdo do texto.

O texto sobre Gustavo Corçao analisa as suas crônicas em jornais da década de 1960. O objeto de estudo abrange o conteúdo das crônicas em si e o apoio ao endurecimento do regime militar. Já o artigo sobre Agripino Nazareth tematiza um período de sua trajetória, a partir de publicações de jornais impressos. O objeto da investigação é a própria vida de Agripino, em determinado momento de sua história - o que, se comparado a outros, insere-o de forma mais articulada ao gênero biográfico, como ele tem sido concebido desde o seu retorno ao campo da historiografia.

O artigo sobre Luciano Augusto, como o próprio título já anuncia, faz um estudo de caso em que o indivíduo é usado como o exemplo de uma construção estrutural, que ultrapassa sua individualidade e particularidade. Ou seja, sua vida não é o objeto de estudo, é tratada como um exemplo, uma espécie de retrato da época. Já no que se refere à investigação sobre Antônio Vieira de Melo, a análise prioriza três dimensões da vida desse indivíduo, que foi um capitão de terras no sertão pernambucano no século XVIII. Ao longo do texto, a autora explora essas dimensões, articulando-as a conceitos que sustentam teoricamente sua argumentação, colocando a vida do indivíduo como elemento central da narrativa.

O tema do último trabalho listado no Quadro 3é a trajetória intelectual e política de Antônio Maciel Bonfim. Dos trabalhos selecionados, é o único que faz uma menção contundente à biografia, considerando o estudo um esboço biográfico. O texto apresenta uma narrativa linear e cronológica sobre a vida de Antônio Bonfim. O autor finaliza o estudo fazendo uma reflexão sobre biografia e escrita da história, frisando que é impossível, para o gênero biográfico, dar conta de explorar todas as dimensões de uma vida.

Percebemos, com esse esforço de levantamento e de análise dos estudos já produzidos, a importância de cada investigação, no sentido de permitir compreender e dimensionar os processos por meio dos quais estão sendo desenvolvidas as pesquisas que têm um sujeito na centralidade da análise.

Esses estudos, em sua maioria, não se caracterizam como 'biográficos', no sentido por nós entendido. Podem ser situados, em contrapartida, como pesquisas que recorrem a elementos biográficos, os quais são utilizados de forma a complementar os estudos sobre determinados temas e sobre os indivíduos neles envolvidos. De qualquer forma, a análise dos distintos trabalhos transversalizados ou focados, especificamente, nessa característica propiciou reflexões, no sentido de elucidar dúvidas e aprofundar o debate sobre a sua potencialidade nas pesquisas acadêmicas.

Observamos, portanto, que, de modo geral, as publicações da Revista Brasileira de História não fazem menção direta ao gênero biográfico, tampouco trazem uma reflexão teórica sobre o tema - o que seria esperado, uma vez que é na área da história que o gênero biográfico tem sido mais utilizado. Trata-se de textos sobre diferentes indivíduos e suas ações em determinado espaço/tempo.

Importa ressaltar que levantamentos relativos a essas pesquisas permitem a identificação de usos e abordagens que estão sendo empregados nas investigações que envolvem aspectos particulares da vida de um indivíduo - isso porque, como aponta Avelar (2012), apesar da renovação historiográfica e do ressurgimento da biografia, muitos estudos seguem os moldes tradicionais das pesquisas biográficas. Tal questão aponta para a necessidade de uma análise mais atenta sobre os usos da biografia e, sobretudo, de reflexões teóricas acerca do gênero.

A análise a seguir foi realizada com base em trabalhos apresentados nos encontros da ANPUH. Os textos foram pesquisados a partir do descritor 'biografia', e, assim, foram selecionados os estudos elencados no quadro a seguir.

Fonte: As autoras

Quadro 4 Trabalhos publicados nos Anais da ANPUH 

O estudo 'Goulart no exílio: memória e história' não traz uma discussão sobre biografia, mas debruça-se sobre um momento específico da trajetória de João Goulart - sua atuação política no exílio. Ao longo do texto, os autores apresentam os documentos consultados e constroem uma narrativa sobre o período, problematizando as memórias construídas em torno do ex-presidente. Já no texto sobre Alceu Amoroso Lima, o autor classifica biografia como o produto mais tradicional do historiador, descreve os documentos utilizados para a construção do texto e menciona a impossibilidade de dar conta de toda a vida do personagem abordado. Problematiza, ainda, o fato de que o biografado não é um objeto pronto. Ao longo do artigo, o autor também explica e justifica suas escolhas ao construir a narrativa biográfica.

O trabalho sobre Duque de Caxias é um recorte de uma tese de doutorado. Segundo a autora, o principal objetivo da tese foi' devolver Duque de Caxias ao século XIX', pois a imagem de Caxias foi construída pelos republicanos nacionalistas no século XX e não condiz com o militar -a autora afirma que essa construção exemplar não converge com a dos militares do século XIX. Ao longo do texto, chama atenção para a monumentalização da memória em torno desse personagem e também para os anacronismos. Destaca, ainda, que, ao se fazer uma biografia de um indivíduo, como Duque de Caxias, é preciso ter a dimensão de que esse personagem, com titulações e honrarias, é o ponto de chegada de uma trajetória, e que isso não corresponde a todo o seu percurso de vida.

O texto 'A biografia profissional enquanto tema na cultura urbanística: relato de uma experiência ‘se inicia com a apresentação de Jorge Macedo de Vieira. No desenrolar do estudo, a autora narra a trajetória profissional desse personagem e a articula às ideias de urbanização e desenvolvimento por ele defendidas. Ao término do texto, apresenta uma breve discussão sobre biografia e intelectuais.

O artigo sobre Gilda Marinho é um recorte de uma pesquisa mais ampla sobre a biografada. O texto analisa um conjunto de memórias sobre Gilda, registradas por escrito e em fotografias, bem como em entrevistas. O objetivo é verificar como se deu o enquadramento dessas lembranças, bem como de seus esquecimentos e silenciamentos. O texto é composto pela narrativa biográfica da personagem, a qual vai sendo costurada com a problematização das memórias em torno de Gilda.

Em 'A vida póstuma de um historiador nacional...', a autora inicia o texto discutindo a condição da biografia na historiografia. Problematiza também os usos da biografia em diferentes tipos de textos. O artigo examina o processo que transformou Capistrano de Abreu em um personagem público, por meio da construção de consensos sobre seu nome. A autora apresenta os documentos utilizados para a construção do estudo e explica como, a partir deles, estabeleceram-se os eixos que nortearam a construção biográfica de Capistrano de Abreu.

O estudo de Luis Reznikse inicia com uma discussão sobre comunidade e identidade. Em seguida, anuncia que a intenção do estudo é investigar a localidade de São Gonçalo, entre os anos de 1920 e 1950, por meio da biografia de Luiz Palmier, homem ligado à área da saúde, que assumiu cargos políticos e circulou entre diferentes circuitos sociais. O autor encerra o texto afirmando que, “[...] com a sua decisiva participação, instituições médicas, educacionais e assistencialistas foram criadas [...]” (Reznik, 2005, p. 7). Com isso, observamos o enaltecimento de algumas passagens da vida do indivíduo biografado.

No artigo sobre Cunha Mattos, a autora inicia o texto com uma discussão sobre a biografia na história. Após breves colocações nesse sentido, apresenta uma narrativa a partir de alguns aspectos da trajetória de Raymundo José da Cunha Mattos. Já o artigo de Marcelo Steffens analisa uma entre as várias biografias de Getúlio Vargas. A obra publicada em 1955 foi o objeto desse estudo, tendo-se como objetivo verificar as permanências e transformações na biografia de Vargas. O estudo ainda procurou analisar a concepção do autor da obra analisada em relação ao gênero biográfico.

O texto de Karla Carloni tem o objetivo de analisar biografias sobre o marechal Henrique Teixeira Lott, a fim de perceber quais foram as memórias construídas em torno desse personagem. A partir das obras analisadas, a autora divide a abordagem em três eixos, tratando de diferentes períodos da vida do marechal. Já o trabalho de Ana Maria Ribas, por sua vez, inicia-se com uma discussão da relação entre história e memória e as (im)possibilidades encontradas ao se realizar uma pesquisa de cunho biográfico. Ela faz uso dos termos 'recontar' e 'reconstituir' para se referir à construção da biografia - são vocábulos pouco utilizados em pesquisas historiográficas. O texto não apresenta uma narrativa sobre a biografia de Juscelino Kubitscheck, faz sim uma discussão sobre o gênero biográfico e aborda, de maneira breve, como as memórias em torno do ex-presidente foram construídas ao longo dos anos.

Na pesquisa sobre Luis Câmara Cascudo, o autor ressalva que o texto é um capítulo biográfico sobre a vida do escritor norte-rio-grandense, evidenciando, assim, a impossibilidade de dar conta de toda uma vida em um texto biográfico. Ao longo do texto, são anunciados os documentos consultados para a construção da narrativa biográfica.

O estudo de Carlos Gilberto Pereira Dias se debruça sobre a vida das duas professoras anunciadas no título do artigo. O trabalho situa-se no campo biográfico e recorre a diários pessoais e a outros documentos para construir a narrativa sobre as professoras no século XIX. O texto problematiza também questões sobre a mulher e o feminino. Talvez, esse seja o estudo que mais se assemelhe com campo da história da educação, tanto pelo objeto de estudo quanto pelas fontes consultadas. Em relação a esse aspecto, o autor situa seu estudo no campo da micro-história e recorre a autores como Giovani Levi para discutir a questão da biografia.

O artigo sobre Rui Barbosa integra um projeto mais amplo, que não está diretamente ligado a estudos biográficos. O texto procura discutir quais são as construções em torno da figura de Rui Barbosa, a partir de obras que fizeram referência e/ou mencionaram o político. Já no artigo de José Otávio Aguiar, o autor faz uma espécie de relato de sua experiência ao desenvolver uma tese de doutorado de cunho biográfico. O texto faz uma breve discussão sobre esse gênero e, a partir disso, narra os caminhos percorridos e justifica as escolhas feitas no processo de pesquisa.

O estudo de José Henrique de Paula Borralho analisa a publicação intitulada Pantheon Maranhense. O texto se inicia com a apresentação do sujeito que criou tal publicação, Antonio Henriques Leal. A partir disso, o autor discute as personalidades biografadas no Pantheone o modo como elas são apresentadas pelo autor da publicação. É constatado um processo de monumentalização das personalidades que ali aparecem - geralmente figuras que pertenciam a um circuito social mais privilegiado.

Leandro Augusto Martins Junior discute o uso de biografias na qualidade de discurso fundador e difusor da memória e da identidade nacional. Para isso, analisa a Galeria dos Brasileiros Ilustres (1859-1861), produzida pelo francês Sebastião Augusto Sisson. Ao longo do texto, discute a noção de biografia e os usos feitos do termo ao longo do século XIX.

A pesquisa intitulada 'Por múltiplos ângulos: o estudo biográfico e a (re)construção do sujeito' discute as construções e (re)construções em torno de Marcos de Araújo Costa, padre que viveu no sul do Piauí, na primeira metade do século XIX. O autor aborda a memória construída em torno do personagem, que o caracteriza como 'benemérito educador'. Já no artigo de Raimundo Nonato Pereira, são analisadas as publicações de Euclides da Cunha, enquanto correspondente do jornal Estado de São Paulo durante a Guerra de Canudos. No decorrer do artigo, o autor discute algumas questões sobre o gênero biográfico e articula a discussão à denominada 'escrita de si'. Para Foucault (1992), a escrita de si tem aspecto de confissão e se constitui como uma espécie prova que traz à luz os movimentos do pensamento.

O texto 'Getúlio Vargas por ele mesmo' possui um recorte temporal bastante curto (1939-1942). Os autores discutem o conteúdo dos diários do ex-presidente. O trabalho não apresenta uma discussão sobre biografia, mas traz uma narrativa dos acontecimentos políticos do período demarcado e os intercala com os registros de Getúlio Vargas em seus diários. Ao término do texto, os autores analisam, de maneira breve, a noção de autobiografia e as suas potencialidades.

O artigo 'A dama da academia...' se inicia com uma narrativa sobre a vida de Lêonia. Em um segundo momento, os autores fazem uma breve teorização sobre biografias. A partir dessas colocações, traçam uma discussão sobre metabiografia, pois, segundo eles, sua pesquisa é sobre a temática, visto que a personagem é viva e colaborou com o estudo por meio de entrevistas. Mesmo se utilizando de entrevistas, não indicam aspectos teóricos e metodológicos sobre história oral.

No que concerne ao texto de Rita Lagers Rodrigues, o indivíduo biografado, Luiz Olivieri, foi um arquiteto (re)conhecido em Belo Horizonte por suas obras e atuações. A autora diz que a biografia daquele foi construída na perspectiva da micro-história, a partir dos pressupostos de Giovani Levi sobre biografias. Após breve discussão sobre o gênero, o texto tangencia alguns aspectos da vida do biografado.

O artigo de Marcel Hornos Steffes analisa uma biografia de Getúlio Vargas escrita pelo austríaco Paul Frischauer, publicada no ano de 1943. Sendo assim, o texto discute as construções da figura do ex-presidente na escrita de Frischauer. Para isso, problematiza as formas como as biografias eram vistas e construídas nesse período de produção.

Por fim, no estudo de Júlio Claúdio da Silva, recorre-se às entrevistas de Ruth de Souza, atriz, as quais são tratadas como narrativas autobiográficas. Segundo o autor, o objetivo é recuperar aspectos dos primeiros anos de atuação de Ruth, com o objetivo de verificar os processos de construção de suas memórias. Para isso, há uma breve discussão sobre o conceito de história. O texto apresenta uma narrativa de parte da trajetória de Ruth, mas não aborda questões sobre autobiografia, aspectos metodológicos e suas implicações.

Considerações finais

O que percebemos com esse investimento de análise da produção intelectual, cuja temática dá indícios de que se refere à vida de indivíduos, pois, em um primeiro momento, todos remetem à ideia de que se trata de estudos biográficos, no sentido de que o objeto de análise é determinado personagem e seu percurso de vida. No entanto, com a continuidade da leitura observamos que a centralidade da análise recai em outros aspectos concernentes à vida do indivíduo pesquisado, e não a ele próprio, perspectiva dos teóricos Dosse (2015) e Loriga (1998). Sendo assim, elementos como obra intelectual, vida profissional, redes de relações, entre outras, foram dimensões foco dos estudos analisados as quais nos permitiram problematizar o gênero biográfico como abordagem teórica.

Esse levantamento permitiu perceber que a discussão do gênero biográfico está presente de forma sistematizada nas produções vinculadas ao campo da história, uma vez que os estudos apresentados no encontro da ANPUH estão relacionados, em sua maioria, a programas de Pós-Graduação em História. Percebemos também que há certa diferença entre os trabalhos apresentados no evento e aqueles publicados na revista da Associação. No periódico, foi possível identificar um número reduzido de trabalhos cujo embasamento se concentra em reflexões teóricas consistentes no que diz respeito ao gênero biográfico, embora apresentem outras análises ao tratar da vida de um sujeito.

Nos trabalhos apresentados em encontros e publicados nos anais dos eventos da associação ANPUH, no entanto, é possível identificar um aprofundamento nas discussões relativas aos aspectos teóricos. Sendo assim, esta investigação evidencia que a produção e a discussão em torno da temática que envolve o gênero biográfico apresentam maior aprofundamento teórico e clareza metodológica no campo da história, em comparação à área da história da educação. Exceção a essa característica é o estudo Pro Patria Laboremus: Joaquim José Menezes Vieira (1848-1897), de Bastos (2002). Essa é uma pesquisa no campo da história da educação que trabalha na perspectiva do gênero biográfico, conforme passa a ser entendido após a virada conceitual da década de 1980.

Ao longo de toda a revisão, percebemos que a produção de trabalhos que se debruçam sobre determinado indivíduo é recorrente. Eles variam na sua abordagem, mas, em geral, enfocam algum aspecto da vida do personagem pesquisado. De modo geral, a faceta escolhida para abordar a vida do indivíduo é trabalhada de forma linear e cronológica, caracterizando aquilo que Bourdieu (2006) denomina de 'ilusão biográfica', tratando a vida do indivíduo como um conjunto coerente e ordenado. Nesse caso, o estudo biográfico seleciona acontecimentos que se supõe serem significativos e lhes atribui uma conexão, estabelecendo suas causas e finalidades - fator que está na contramão da concepção historiográfica contemporânea, que entende o sujeito como “[...] algo em constante devir, constituído e modificado por múltiplas práticas discursivas e não discursivas, articuladas em variadas relações de poder [...]” (Schmidt, 2017, p. 20).

A partir deste estudo, pudemos ter uma visão geral sobre as abordagens teóricas e metodológicas recorrentes em pesquisas que têm as trajetórias de determinados indivíduos como foco. Foi possível perceber que o interesse pelo indivíduo é recorrente, tanto no campo da história como no da história da educação. Os referenciais empregados nas pesquisas, no entanto, são distintos, e o gênero biográfico, tal como o entendemos neste estudo, é encontrado em menor número nas investigações relacionadas ao campo da história da educação. Não queremos dizer, com essa afirmação, que tais características das pesquisas as desqualifiquem, no entanto isso poderá ocorrer se não estiverem claros os pressupostos que as sustentam academicamente. Há, por conseguinte, uma metodologia a ser ampliada e potencializada pelos historiadores da educação, de forma específica, que se refere à utilização da biografia e de elementos biográficos nessas pesquisas.

Uma abordagem recorrente, que tem produzido inúmeras contribuições nas investigações no campo da história da educação, concerne àquelas inseridas na perspectiva da história intelectual8(Sirinelli, 2003).Essas investigações se valem de dados biográficos, de modo a integrar as explicações em torno das redes de sociabilidades construídas pelo personagem trabalhado, de forma que sua vida em si se constitua como o complemento de algo, mas não como o objeto per se.

Nesse processo de garimpo que constitui o artigo, o qual se mostrou uma tarefa difícil, a intenção foi distinguir as nuances que o estudo da vida de um indivíduo pode assumir em um trabalho acadêmico e verificar quais implicações teóricas e metodológicas, ou a falta delas, poderiam ser elencadas. Dessa forma, o objetivo desse levantamento foi discutir, sobretudo, a produção acadêmica em história da educação- campo em que nos inserimos -, trazendo determinadas problematizações teóricas e metodológicas acerca das pesquisas que têm, em sua centralidade, a 'vida de um personagem'.

Além disso, reiteramos que as pesquisas biográficas estão inseridas, em sua maior parte, no campo da história - o que não é uma surpresa, uma vez que é nessa área que se iniciam os processos de discussão dessa metodologia de cunho essencialmente historiográfico. Já no campo da história da educação9, as abordagens recorrem à história dos intelectuais ou a estudos que produzem uma narrativa de vida de caráter ainda linear e factual, procurando atribuir coerência e estabilidade na vida narrada - em sentido oposto ao da biografia, podem se constituir em uma metodologia com potencial de ampliação, trazendo outros argumentos e perspectivas a esse campo.

Referências

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1 Felipe Tiago Gomes (1921-1996) foi o fundador e superintendente da Campanha Nacional de Escolas da Comunidade (CNEC), mantenedora educacional que iniciou suas atividades em Recife/PE no ano de 1943. Junto a um grupo de estudantes universitários, Felipe Tiago iniciou um movimento de alfabetização de crianças carentes que não tinham acesso ao ensino ginasial. A partir de então, dedicou sua carreira e vida pessoal à expansão da campanha.

2A revista História da Educação é mantida pela Associação Sul-Rio-Grandense de Pesquisadores em História da Educação - Asphe/RS. Seu acervo está disponível em http://seer.ufrgs.br/index.php/asphe/index, e as publicações são quadrimestrais.

3Publicação da Sociedade Brasileira de História da Educação (SBHE). A revista é publicada trimestralmente e seu acervo está disponível em: http://rbhe.sbhe.org.br/index.php/rbhe.

4A Revista Brasileira de História é uma publicação semestral da ANPUH. Acervo disponível em: <http://www.anpuh.org/revistabrasileira/public>.

5Associação Nacional de História. Dados disponíveis em: http://anais.anpuh.org/.

6O 'caso Dreyfus' trata-se de um escândalo político ocorrido na França em fins do século XIX. Alfred Dreyfus, um oficial do exército francês de origem judaica, foi condenado à prisão perpétua por alta traição. Tempos depois, descobriu-se que o processo baseou-se em documentos falsos e que Dreyfus era, na verdade, inocente. A partir de então, a opinião pública dividiu-se entre aqueles que defendiam a inocência de Dreyfus e os que eram contra ele. Monarquistas e membros do clero alinharam-se contra Dreyfus. Estas são as duas categorias de intelectuais a que Charle faz referência no texto.

7Para Sirinelli (2003, p. 253), 'microclima' “[...] caracteriza um microcosmo intelectual particular”.

8Para Sirinelli (2003, p. 232), a história intelectual é “[...] campo histórico autônomo que, longe de se fechar sobre si mesmo, é um campo aberto, situado no cruzamento das histórias política, social e cultural”.

9Em função de suas origens, ligada a cursos Normais e de Pedagogia (Vidal & Faria Filho, 2003), a História da Educação nem sempre é vista como um campo da História. Galvão e Lopes (2010) apontam que, no campo da História, pouco se pesquisa sobre educação, embora haja evidências de um crescimento de pesquisas nesse segmento. As autoras dizem ainda que a História da Educação tem acompanhado os movimentos de transformação e abertura historiográfica, contemplando, em suas pesquisas, fontes e abordagens distintas. Pode-se considerar, então, que exista um movimento convergente entre ambas.

Recebido: 06 de Julho de 2018; Aceito: 30 de Setembro de 2018

*Autor para correspondência: ariane.reisd@gmail.com

Ariane dos Reis Duarte Correio é Doutoranda em Educação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) com bolsa Capes/PROEX. Membro do grupo de pesquisa Educação no Brasil: memória, instituições e cultura escolar (EBRAMIC).E-mail: ariane.reisd@gmail.com

Luciane Sgarbi Santos Grazziotin possui Doutorado em Educação, ênfase em História da Educação pela PUCRS (2008). Doutorado sanduíche na Universidade Clássica de Lisboa (2007) e pós-doutorado na UNED em Madri (bolsa CAPES, 2017). Membro da SBHE e da ASPHE, Vice- presidente dessa associação gestão (2011- 2013). Pertence a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação/ANPED. Líder do Grupo de pesquisa EBRAMIC- Educação no Brasil: memória, instituições e cultura escolar (CNPq) e participa do grupo de pesquisa Memórias e Histórias da escola do Rio Grande do Sul: Do Deutscher Hilfsverein ao Colégio Farroupilha (1858-2008), (CNPq). É membro do corpo editorial da Revista Licencia & acturas - ISEI, é Co-editora da Revista Espacio Tiempo y Educación (Universidade de Valladolid/ES). Atualmente é professora e pesquisadora na graduação e no Programa de Pós-Graduação em Educação da Escola de Humanidades da Universidade do Vale do Rio dos Sinos/UNISINOS.E-mail:lusgarbi@terra.com.br

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