SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.18The Catholic reaction and teacher education in Brazil: the subjectmanuals Noções de sociologia and Educação (história da pedagogia). Problemas actuaes by Rev. Mothers Peeters and Cooman (1935-1971)Study mission in Uruguay: changes in the teaching system of Rio Grande do Sul (1913-1927) author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Revista Brasileira de História da Educação

Print version ISSN 1519-5902On-line version ISSN 2238-0094

Rev. Bras. Hist. Educ. vol.18  Maringá  2018  Epub Feb 11, 2019

http://dx.doi.org/10.4025/rbhe.v18.2018.e042 

ARTIGO ORIGINAL

Comenius e o poder instrutivo dos anjos

Comenius and the instructive power of angels

Comenius y el poder instructivo de los ángeles

Thiago Borges de Aguiar* 
http://orcid.org/0000-0002-7294-1200

Thiago Elias Vieira Pereira1 
http://orcid.org/0000-0001-5977-9889

1Universidade Metodista de Piracicaba, Piracicaba, SP, Brasil.

RESUMO

Resumo: Juan Amos Comenius, educador morávio do século XVII, produziu diversos textos que tratavam sobre educação, filosofia, teologia, ciência, entre outros. Na tradição dos estudos herméticos, cabalistas e rosacruzes, Comenius considerava os anjos não apenas guardiões, mas também professores, que, em alguns casos, ensinam diretamente às pessoas. Tendo como ponto de partida as questões levantadas pelos textos de Frances Yates e Maria Lúcia Spedo Hilsdorf a respeito desse caráter específico da ação angelical, analisamos os modos como os anjos são mencionados em seis diferentes obras do autor, a saber, O labirinto do mundo e o paraíso do coração, Didática magna, Orbis sensualium pictus, A escola da infância, Pampaedia e O único necessário.. Concluímos que, para esse educador, os anjos constituem um objeto de conhecimento, seres que estão presentes e que ensinam por meio de inspirações e sonhos, mas que, em situações extraordinárias (e necessárias) como aquela que eles viviam, poderiam fazer sua ação instrutiva de forma mais incisiva e presente. Apontamos, ainda, para a indissociabilidade (e continuidade) entre as questões dos âmbitos divino e mundano na visão comeniana de conhecimento e de educação.

Palavras-chave: Comenius; anjos; educação; instrução; hermetismo

ABSTRACT

Abstract: Juan Amos Comenius, a Moravian educator of the XVII century, produced several texts about education, philosophy, theology, science, among others. Following the tradition of hermetic, cabalistic and Rosicrucian studies, Comenius considered that the angels are not only guardians, but also teachers, who, in some cases, teach people directly. Starting with the questions raised by the texts of Frances Yates and Maria Lucia Spedo Hilsdorf about this specific angelic trait, we analyze the way that the angels are quoted in six different Comeniu’s books, namely, O labirinto do mundo e o paraíso do coração, Didática magna, Orbis sensualium pictus, A escola da infância, Pampaedia and O único necessário. We conclude that, for Comenius, the angels are an object of knowledge, beings who are present and teach through inspirations and dreams, but in extraordinary situations (and necessary) as the ones they lived, they could do their instructive action in a more incisive and present way. We also point to the inseparability (and continuity) between the questions of the divine and mundane realm in the Comenius’view of knowledge and education.

Keywords: Comenius; angels; education; instruction; hermetism

RESUMEN

Resumen: Juan Amos Comenius fue un educador moravio que vivió en el siglo XVII, produjo diversos textos sobre educación, filosofía, teología, ciencias, entre otros. En la tradición de los estudios herméticos, cabalistas y rosacruces, Comenius consideraba a los ángeles como no solo guardianes, sino también profesores, que en algunos casos enseñan directamente a las personas. Teniendo como punto de partida las cuestiones planteadas por los textos de Frances Yates y Maria Lúcia Hilsdorf acerca de ese carácter específico de la acción angelical, analizamos los modos como los ángeles se mencionan en seis diferentes obras del autor, a saber, O labirinto do mundo e o paraíso do coração, Didática magna, Orbis sensualium pictus, A escola da infância, Pampaedia y O único necessário. Concluimos que, para ese educador, los ángeles constituyen un objeto de conocimiento, seres que están presentes y que enseñan por medio de inspiraciones y sueños, pero que, en situaciones extraordinarias (y necesarias) como aquella que ellos vivían, podrían hacer su acción instructiva de forma más incisiva y presente. Apuntamos, aun, para la indisociabilidad (y continuidad) entre las cuestiones delos ámbitos divino y mundano en la visión comeniana de conocimiento y de educación.

Palabras clave: Comenius; ángeles; educación; instrucción; hermetismo

Introdução

Este artigo parte de uma nota presente no livro de uma pesquisadora brasileira da história da educação em seu comentário a respeito da escola científica do século XVII1. Hilsdorf (2012) compreende o aparecimento da escola moderna em três diferentes modelos: o do colégio de humanidades, o da escola científica e o da escola primária. De acordo com a autora, predomina na história da educação nos séculos XVI ao XVIII o primeiro modelo. O terceiro modelo, apesar de presente desde o Medievo, expande-se apenas a partir do século XIX, enquanto o segundo modelo pode ser apreendido a partir de uma leitura da compreensão da constituição da didática moderna.

Construindo seus argumentos a partir do historiador italiano Eugênio Garin e da historiadora inglesa Frances Yates, a autora segue o caminho da tradição cabalística e hermética, vinda dos tempos medievais e que ganha força durante o século XV. Ler o livro da natureza era o motto de muitos nomes da Modernidade que não estavam, necessariamente, preocupados apenas com a retórica e as artes do Trivium. Com a circulação dos textos do (Pseudo) Hermes Trimegisto, cientistas europeus da época realizaram estudos sobre esse conhecimento que, alegava-se, era 'mais antigo que o Cristianismo'.

No entanto, o processo indutivo de Bacon de conhecer as coisas de forma segura, a fundação da Royal Society em Londres, o iluminismo rosacruciano, entre outros desenvolvimentos culturais, políticos e econômicos, chegaram ao século XVII com um novo desafio para a educação: um novo tipo de escola. O educador morávio Jan Amos Comenius (1592-1670) une-se a asse movimento, reunindo a tradição hussita, o enciclopedismo e o misticismo rosacruciano para compreender e propor um modo de pensar o mundo e a educação.

No mesmo ano em que o primeiro manifesto Rosacruz (o 'Fama') é lançado, o estudioso de grego e do saber clássico, Isaac Casaubon (1559-1614), desafiava as bases da tradição neoplatônica, ao fixar as datas dos textos herméticos já na era cristã. Segundo Yates,

Uma prova pormenorizada de que a Hermética não pode ter a antiguidade a ela atribuída é apresentada, assinalando-se, por exemplo, Fídias e os jogos pítios; mencionam-se também muitos autores gregos recentes. Há finalmente a questão do estilo. Não são escritos no estilo grego primitivo, mas num estilo mais recente, com um vocabulário mais recente. Portanto, conclui Casaubon, após sua longa e minuciosa análise, é falso dizer que tais obras foram escritas por Hermes Trimegisto, um egípcio antigo, ou que foram traduzidas de seus escritos (Yates, 1964, p. 443).

Essa descoberta colocava em cheque a autoridade de Hermes Trimegisto e consequentemente a credibilidade da tradição hermético-cabalista e neoplatônica. Apesar de configurar um duro golpe à linha de pensamento neoplatônica, os efeitos dessa descoberta não são imediatos, o rosacrucianismo dará novo fôlego à tradição, com o trabalho dos filósofos e magos do século XVII.

Comenius, na esteira dessa tradição, entende o aprendizado como um processo de estabelecer analogias e seguir o caminho da natureza. No entanto, conforme Yates destaca em sua leitura sobre esse educador morávio, há outro modo de se aprender. Citamos, então, a nota que Hilsdorf faz aos modos de se aprender e que constitui o ponto de partida de nosso artigo:

Yates acrescenta, ainda, como um terceiro procedimento metodológico, a conversação com os anjos, que lhe veio de Dee, grande angeólogo, através dos rosa-cruzes. Ainda que não citadas pela bibliografia, referências ao 'poder instrutivo dos anjos' aparecem em vários textos de Comenius: nas páginas iniciais do Didática Magna ele fala nos 'anjos custódios' que guiam e protegem as crianças, sendo, portanto, também fonte de conhecimento natural! (Hilsdorf, 2012, p. 132, grifo do autor).

Em que consiste essa 'conversação com os anjos', essa instrução oriunda dos anjos, que são fonte de conhecimento para o homem? Quando lemos a análise de Yates (1972) a respeito de Comenius, encontramo-la preocupada em estabelecer ligações entre o educador tcheco e o movimento Rosacruz. A autora constrói sua argumentação a partir de duas obras desse educador: Lux in tenebris (Luz na escuridão) e O labirinto do mundo e o paraíso do coração. No primeiro, ela encontra seu autor apoiando um clérigo tcheco de nome Kotter, cujas profecias encontraram tanto admiradores, como Comenius, quanto inimigos. As visões de Kotter eram transmitidas por anjos, que se fizeram visíveis a ele, apresentaram-lhe sua mensagem e, então, desapareceram. Tudo isso ocorreu por volta de 1620 e Comenius ainda se afeiçoava às profecias de Kotter de tal modo que as publicou em 1657 no Lux in tenebris.

Na sequência, Yates usa muitas páginas para citar passagens do Labirinto nas quais Comenius se refere aos manifestos Rosacruzes e mostra, com essas citações, como o pensamento comeniano aproxima-se dos do teólogo alemão Valentim Andreae (1586-1654). O educador tcheco preocupava-se com os caminhos errados que os apoiadores dos manifestos estavam trilhando. Yates também afirma que a pansofia comeniana, produzida mais tarde em sua vida, poderia se ligar à filosofia platônico-hermética e macromicrocósmica do filósofo italiano Francesco Patrizzi (1529-1597), ligando Comenius definitivamente com o movimento Rosacruz.

No final do capítulo dedicado a Comenius, porém, encontramos a presença dos anjos no Labirinto, com uma “[...] incrível insistência na ‘intervenção dos anjos’”, como sustenta Yates (1972, p. 218, grifo do autor). Ela entende que Comenius está entre aqueles que, num movimento de inovação no conhecimento (leia-se Rosacruciano), compreende os anjos, e a comunicação com eles, como parte daquele conhecimento. Citamos a autora:

John Dee, ao associar suas visões angélicas com seu trabalho como cientista e matemático, estava agindo dentro de um panorama que enfatizava o poder instrutivo dos anjos, e para ele, a ciência angélica era simplesmente a divisão mais elevada de seus estudos científicos em geral. Dee só aparece como um excêntrico, quando se isola da tradição angelológica da renascença. O movimento rosa-cruciano estava impregnado da angelologia cristã hermético-cabalística. A Christianopolis, de Andreae, com a sua extraordinária insistência na ciência, tecnologia, filantropia, e na cidade ideal, está fundamentada num ministério de anjos, como sendo a sua estrutura básica. Comênio, no Labyrinth, deixa bem claro o aspecto instrutivo do ministério dos anjos (Yates, 1972, p. 218).

Sendo personagens importantes no movimento Rosacruz, John Dee e Valentim Andrea foram aqui utilizados para ligar definitivamente Comenius com esse movimento. Mas mais do que isso, nesse trecho, Yates enfatiza o quanto os anjos não são apenas parte de uma criação divina, mas uma parte ativa que é, para cientistas daquele período, uma fonte de conhecimento.

Em pesquisa feita em abril de 2018, nasplataformas de periódicos nacionais e na plataforma internacional JStor, com as palavras chave 'Comenius' e 'Anjos' (em português e em inglês), não encontramos nenhum artigo dedicado especificamente a essa relação, e algumas poucas questões marginalmente relacionadas estão citadas ao longo do texto.Temos, então, a partir do caminho traçado pelo argumento de Yates e da retomada deste caminho na análise da história da educação no século XVII por Hilsdorf, uma chave de leitura da obra comeniana que merece ser mais bem explorada.

Compreender o poder instrutivo dos anjos em Comenius é alargar nossa compreensão da obra deste autor que continua “[...] muito reverenciadomas pouco conhecido” (expressão utilizada por Kulesza, 1992, p. 81). Pesquisar, em diálogo com autores nacionais e estrangeiros, o modo como as ideias pedagógicas de Comeniusestão inseridas em determinado espaço-tempo históricopermite-nos não apenas continuar a pesquisar os diferentes sentidos do passado de nossa profissão, mas, especialmente, ampliarmos nosso conhecimento de história da educação mundial para além das sínteses dos manuais de ensino.

John Dee e os anjos da cabala

Para compreendermos melhor o que significa tratar os anjos como fonte de conhecimento, voltamos nosso olhar para a obra do matemático inglês John Dee (1527-1609). Yates (1964) nos conta que estepensador era profundamente interessado na aplicação da matemática e na obtenção de resultados nas ciências aplicadas. Dee esquematiza o estudo da matemática como ciência aplicada, baseado nas teses do filósofo renascentista Pico della Mirandola (1463-1494), que afirmava, em uma delas, que “[...] pelos números se encontra um meio para buscar e compreender todas as coisas possíveis de serem conhecidas” (Billingsley apud Yates, 1964, p. 172). Dee vai trabalhar seguindo a linha da denominada magia artificial, que, segundo o teólogo alemão Cornélio Agripa (1486-1535), produzia efeitos reais por meio da aplicação das matemáticas e das ciências mecânicas.

Entretanto, Dee também se interessará pela utilização dos números em conexão com os anjos e espíritos da cabala, sendo ele e seu sócio, Edward Kelley (1555-1597), leitores dos textos de filosofia oculta de Agripa. Na obra de Agripa se encontram inúmeras tabelas numéricas e alfabéticas para a convocação de anjos. Seu objetivo para com as invocações de anjos era pedagógico, como comenta Yates:

O que Dee desejava aprender dos anjos eram principalmente os segredos da natureza; este era um modo de praticar a ciência num alto nível. Tal como Pico della Mirandola, Dee era um cristão devoto, e a sua atitude para com os anjos visitantes assemelhava-se à de Pico, no seu discurso sobre a dignidade do homem, repleto de reverência e pasmo (Yates, 1964, p. 173).

Yates traz grande destaque para Dee em sua obra, visto ser ele um mago da Renascença que trabalhava em várias frentes da magia, tanto com a magia artificial, produzida pelo resultado natural dos números e da mecânica quanto a cabala prática, que consistia na evocação de anjos por meio da relação entre números e nomes em hebraico. Temos também a alquimia, caracterizada por Yates como a “[...] ciência hermética par excellence” (Yates, 1964, p. 174, do autor), sendo um dos principais interesses do matemático.

Os magos renascentistas afirmavam poder realizar uma magia celestial, ainda mais forte que a magia natural, de modo a estarem em contato com os anjos celestes. Ao contrário de uma magia perversa, da qual eles procuravam se esquivar e que atrairia a presença de anjos maus, sua prática poderia captar as 'forças superiores'. Comentando o modo como Pico de la Mirandola detalha a diferença entre essas duas magias, Yates afirma:

Essas escusas e renúncias indicam com clareza que os métodos da boa cabala prática eram semelhantes aos da perversa, mas utilizados de bom modo. Também na cabala prática se usariam os nomes hebraicos secretos de Deus e dos anjos, invocando-os esse poderoso idioma ou por arranjos mágicos com tal alfabeto sagrado. Os maus cabalistas suscitariam anjos maus de demônios desse modo; e os bons suscitariam anjos bons. Essa magia seria grandemente superior à natural, visto que se comunicaria com as forças do mundo supercelestial, além das estrelas (Yates, 1964, p. 113).

Se a obra Monas hieroglyphica, de John Dee, é um texto tão codificado que, para nós, beira o ininteligível, o mesmo não pode ser dito de seus diários espirituais. O texto hoje publicado desses diários é uma coletânea das anotações, feitas entre os anos de 1583 e 1608, das conversações entre John Dee e os anjos. Essas conversas seguem, de certo modo, um ritual no qual Dee e Edward Kelley estão sentados, rezando e aguardando a vinda de algum anjo. Objetos estão dispostos sobre uma mesa, como uma esfera de cristal, uma tábua com símbolos escritos na língua dos anjos (alfabeto enoquiano) e um disco com símbolos e linhas gravadas (principalmente círculos e estrelas). Segundo Yates, Dee e Kelley possuíam várias fontes para a cabala prática, porém o principal quadro de referências provém do De occulta philosophia Vol III, de Cornélio Agripa. Estes objetos estão conservados hoje no Museu Britânico.

Selecionamos, aqui, um pequeno recorte que traduzimos desses diários como forma de ilustrarmos a descrição que aqui fizemos:

  • Praga. Sexta-feira, 21 de setembro [de 1584], cerca de 10 horas da manhã.

  • Enquanto eu e E.K. estamos juntos em meu escritório, dedicadamente discutindo confissão Auricular, confissão pública e confissão sozinho a Deus, a autoridade da Igreja e o modo como essa autoridade usa para livrar ou manter os pecados, E. K. viu alguém andando na Mesa entre ele e eu: Imediatamente, posicionei-me para escrever e anotar o que seria mostrado ou dito. E. K. quis que eu posicionasse a shew-stone. Foi o que eu fiz e ele olhou.

  • E. K. Eu o vejo aqui com um Lenço sobre sua cabeça e rosto, até sua cintura, mas eu vejo seu cabelo loiro atrás, em sua cabeça etc.

  • (Faz uma prece em latim)

  • Uriel. [...] Eu sou Uriel o servo do mais sábio, poderoso e eterno Deus, a visitá-lo por dois motivos.

  • O primeiro, que eu possa abri-lo para a verdade e a luz perfeitas: tal como a escuridão, compreendeu não, infalível, e verdadeira carne, o poder e o espírito do Deus eterno.

  • O segundo, que eu possa aconselhá-lo contra o mundo e ensiná-lo a triunfar contra sua perversidade [...]

  • (Seguem algumas linhas com frases sobre a confiança em Deus e nas palavras do Cristo diante das ações do demônio. Conclui tratando dos pecados que envolvem ensinar falsa doutrina, ir contra a verdade ou defraudar seu irmão.)

  • Mas, digo, dê ouvidos às minhas palavras “Pois, eu irei peneirar a poeira e encontrar a Pérola que por um longo tempo esteve pisado sob os pés”. Eu voltarei novamente.

  • E. K. Ele se foi (Dee, 2011, p. 429).

Em linhas gerais, o diário registra as orações e os inúmeros momentos em que Kelley vê a chegada de um anjo e começa a servir de intermediário entre a fala deste e Dee, que estabelece um conjunto de questões para compreender quem é o anjo que se aproxima, sua posição na hierarquia angelical e a mensagem que deseja trazer. Por vezes, Dee reza agradecendo a Deus pela aparição e, normalmente, eles conversam longamente, discutindo assuntos diferentes. O matemático inglês toma nota de tudo, com grande detalhamento, desde as imagens vistas até sua análise do conteúdo daquela conversa. Metodicamente, ao longo desses anos de conversa com os anjos, Dee parece estar tentando compreender quem são os anjos, como eles se diferenciam (conforme a escala hierárquica da angeologia cristã) e quais são os conhecimentos que eles trazem e transmitem.

Os anjos do Labirinto

Voltemos, agora, nosso olhar para Comenius. Estamos longe de ter mapeado a totalidade da gigantesca obra do autor, mas não encontramos uma pesquisa angeológica como a de Dee nos escritos comenianos. Nem encontramos algum comentador apontando para este tipo de pesquisa. E, salvo melhor juízo, não devemos encontrá-lo, pois não é esse tipo de investigação científica prática que vemos na obra do educador tcheco.2

Nesse sentido, dado que o poder instrutivo dos anjos, como apontou Hilsdorf, não é bem discutido na bibliografia, buscamos mapear as menções que o autor faz aos anjos em seus livros e de que maneira ele compreende essa terceira fonte de conhecimento. Não estamos preocupados em encontrar uma conversa direta (ou, de certo modo intermediada, como a de Dee) entre Comenius e os anjos, mas se ele considera essa conversa possível, necessária, natural.

Seguindo os caminhos de Yates e Hilsdorf, encontramos menções aos anjos no Labirinto e na Didática magna. Mas também encontramos algumas referências bastante importantes em seu livro Unum necessarium, que foi escrito dois anos antes da morte do bispo morávio e é, de certo modo, seu testamento. Outros livros do autor também aparecerão nessa análise, mas estes três serão os principais: e há um motivo para isso.

O Labirinto é um dos primeiros livros de grande circulação que Comenius escreveu. Ele tinha por volta de 30 anos e publicou a primeira versão em 1623. Era o início da Guerra dos Trinta Anos e tanto ele quanto seu povo precisavam de consolação no exílio. Escreveu como um clérigo, mas também como um professor, tentando mostrar as vaidades do mundo e escapar de seus males por meio do Cristo no paraíso do coração. Cinco anos depois, ele começou a escrever a Didática tcheca, ainda pensando na melhoria das escolas tchecas. Ele terminou o livro em 1632, um ano após concluir a escrita da A escola da infância e do Janua linguarum reserata. No mesmo ano, ele se tornou bispo e começou a traduzir e ampliar a didática tcheca em sua famosa Didática magna. Esta versão foi concluída em 1638, quando estava com 46 anos de idade.

Alguns anos mais tarde, ele começou sua longa jornada pela Europa, passando pela Inglaterra, França, Holanda, Prússia, entre outros. Esse é o momento no qual ele está mais 'universal' em seus escritos e, em 1644, inicia o que pode ser considerado seu trabalho mais completo: De rerum humanarum emendatione consultation catholica. No ano de 1650, quando estava com 58 anos de idade, torna-se praeses (arcebispo) da União dos Irmãos e publica seu Orbis sensualium pictus, um manual (ou até mesmo uma cartilha) para ensinar latim para as crianças com a ajuda de imagens. Ele publica o livro acima mencionado, Lux in tenebris, em 1657, no mesmo anoem que termina sua coleção Opera didactica omnia. E, 11 anos mais tarde, em 1668, quando estava com 76 anos de idade, ele publica o Unum necessarium. Com este último livro podemos ver um Comenius idoso, olhando para trás, vendo sua vida e sua obra, resumindo-as na única coisa que é realmente necessária (unum necessarium). Ele morreu dois anos depois.

Este pequeno excorsobio-bibliográfico3serviu para mostrar a distância entre o Labirinto e a Didática magna e a publicação do Unum necessarium. Temos então duas obras dentre as primeiras publicadas pelo autor em confronto com a última, o que nos permite analisar se sua visão a respeito dos anjos continuou até o final de sua vida. O fato de ter publicado Lux in tenebris mais tardiamente já era um importante indício dessa continuidade de pensamento. Mas seus comentários a este livro, escritos no Unum necessarium, foram essenciais para estabelecer a continuidade de seu pensamento.

Traçado este caminho, seguiremos os anjos nos livros de Comenius. Iniciemos pelo Labirinto. Escrito como uma consolação para seus companheiros, cheio de partes autobiográficas, aqui o Peregrino é levado por dois guias, o Curioso e o Engano, a uma aventura de experimentar e compreender o mundo. Os guias tentam mostrar como o mundo é bonito e bem organizado enquanto o Peregrino percebe, no decorrer da história, que o mundo é um paraíso perdido e que não há nada de bom nele. Até mesmo Salomão, o homem mais sábio da Terra, rende-se às vaidades do Mundo. Entrando em desespero, o Peregrinogrita por ajuda e foge de seus guias e de tudo, como se estivesse entregando sua vida. Ele, então, ouve uma voz dentro de seu coração (Deus/Jesus) que o chama de volta ao ponto de partida. O Peregrino passa a ter um novo guia, uma nova direção e vê a bondade no mundo. Ele vê novas possiblidades entre os verdadeiros cristãos e delineia um novo mundo entre os verdadeiros crentes. É nesta parte, no Paraíso do Coração, que Comenius trata mais claramente dos anjos.

Aqui, o Peregrino vê o mundo com diferentes olhos e se pergunta se os crentes estão totalmente protegidos das maldades do mundo. Então, ele discute a segurança daqueles dedicados a Deus e traz os anjos que os protegem tanto coletiva quanto individualmente:

Ainda que nada pareça mais vulnerável e exposto a todas as formas de perigo do que a comunidade de crentes, a quem o diabo e o mundo ameaçam e surram, vi que apesar disso eles estão bem protegidos. Sua comunidade foi visivelmente circundada por uma parede ardente, que vi se mover quando me aproximei dela. E não era ninguém mais do que milhares e milhares de anjos que impossibilitavam até mesmo a aproximação do inimigo. Ainda, cada um destes Cristãos possuía um anjo designado por Deus como seu guardião, que tinha o dever de olhar por ele, defendê-lo e protegê-lo contra todos os tipos de perigos, armadilhas, embustes e esquemas (Comenius, 2010, p. 196).

E ele segue explicando que os anjos estão onde eles sentem 'o perfume da virtude'. Mas eles não são apenas guardiões:

Também observei (algo impróprio para ocultar) outro benefício desta sagrada e invisível companhia. Eles servem não somente como guardas, mas também como professores do eleito. Geralmente concedem-lhe o conhecimento secreto de todos os tipos de assuntos e ensinam-lhe sobre os mistérios mais profundos e ocultos de Deus. Porque olham constantemente para a face de Deus onisciente, nada daquilo que os religiosos desejam saber poderá lhes ser ocultado. Os anjos, então, com a permissão de Deus, revelam aos Cristãos o que eles mesmos sabem que está de acordo com as necessidades do protegido (Comenius, 2010, p. 156).

Então, eles são professores, trazem o conhecimento do que está oculto e, mais do que isso, fazem-no de acordo com as necessidades do protegido. Os anjos conhecem as coisas secretas que podem ser ditas aos humanos. Mas como eles o fazem? Continua o autor:

O coração do devoto geralmente sente o que acontece em outros lugares, experimenta o sofrimento nas circunstâncias e alegria nas ocasiões felizes. Por meio dos sonhos, visões ou inspirações secretas, os Cristãos vêem em suas mentes o que aconteceu no passado, o que está ocorrendo no presente, ou o que acontecerá no futuro. Desta fonte também surge um crescente número de outros dons de Deus dentro de nós, profundas e benéficas medicações e várias percepções maravilhosas pelas quais geralmente se supera as habilidades próprias sem se tomar conhecimento da origem desse poder (Comenius, 2010, p. 156-157).

Então, o Peregrino louva a Deus por oferecer tudo por meio dos anjos. Comenius mostra o caminho pelo qual os anjos atuam: por sonhos, visões e intuições. Podemos ver, aqui, como o autor coloca os anjos como uma fonte de saber. Eles são professores.

Essa menção aos anjos como professores que ensinam diretamente às pessoas, a despeito de ser explícito nesse assunto, pode estar sujeita à contradição. Sendo esse livro uma utopia e uma alegoria, ele pode estar tratando esse assunto de forma ficcional. Tendemos a discordar dessa hipótese, visto que a leitura do Labirinto em confronto com as outras obras do autor nos traz a compreensão de que há mais verdade naquelas alegorias do que nossos olhos do século XXI costumam ver. Comenius parece colocar naqueles personagens palavras que ele ouve e diz. Há uma intencionalidade pedagógica em sua obra. A leitura de que a presença e atuação dos anjos é apenas uma metáfora e uma ficção faria sentido se a menção ao poder instrutivo dos anjos não estivesse presente em outras de suas obras. Mas a reiteração dessa ideia ao longo de seus tratados é suficiente para compreendermos que sua alegoria expressa a verdade do mundo como ele o compreende. Vejamos como isso se dá.

Os anjos das obras didáticas

É marcante a presença dos anjos na Didática magna. E o paralelo com o Labirinto é possível se lembrarmos que a Didática tcheca começou a ser escrita poucos anos depois da narrativa de consolação. A primeira e mais importante referência aos anjos na Didática magna está na Dedicatória, logo no início, quando Comenius descreve a queda do Paraíso e como o mundo está perdido e a educação é extremamente necessária. Como ele escreve:

Educar os jovens com sabedoria significa, ademais, prover a que sua alma seja preservada da corrupção do mundo; favorecer - para que germinem com grande eficácia - as sementes de honestidade que neles se encontram, por meio de ensinamentos e exemplos castos e assíduos; enfim, infundir nas mentes o verdadeiro conhecimento de Deus, de si mesmo e das várias coisas, a fim de que se habituem a ver a luz na luz de Deus, e a amar e venerar o Pai de todas as luzes acima de todas as coisas (Comenius, 2011, p. 30).

Para promover esse programa educacional, e para que as crianças possam venerar a Deus, Este deu às crianças aqueles que podem ensinar aelas o que é certo. A frase seguinte segue como “Por isso, Deus deu às crianças os anjos da guarda e os pais, para que educassem os filhos dentro da disciplina e do temor do Senhor” (Comenius, 2016, p. 31). A versão em inglês, porém, tem uma tradução que traz um sentido diferente a essa passagem: “Por este motivo, Deus deu aos pequeninos anjos como guardiões (Mateus, XVIII, 10), colocou seus pais sobre eles para deles cuidarem e os convidarem para educá-los na disciplina e admoestação do Senhor” (Comenius, 1896, p. 168, tradução nossa)4. O texto nessa tradução em português é dúbio, mas a versão em inglês é mais clara. Comenius não nos parece estar afirmando que os anjos ensinam, aqui eles são guardiões, os pais são os agentes educadores. Mesmo assim eles têm papel fundamental na educação das crianças, dado que foram dados por Deus, junto de seus pais. A ideia de que esse trecho remete a um ensino dos anjos pode fazer sentido se levarmos em conta a proposição de Yates da proximidade entre as ideias de Comenius e as de Dee. Mas não precisamos 'esticar' esta citação para fazê-la caber em nossa categoria de análise. O que queremos traçar é um campo de conceitos que circundam a visão que Comenius tem dos anjos. Vejamos outras citações.

No segundo capítulo da Didática magna, enquanto Comenius explica a vida eterna como objetivo da vida humana baseada na criação divina, ele afirma que a vida intelectual (ou espiritual) é semelhante tanto nos homens como nos anjos. A única diferença é que os últimos não possuem um corpo:

Vivemos três espécies de vida: a vegetativa, a animal e a intelectual ou espiritual. A primeira nunca deixa o corpo, a segunda estende-se às coisas por meio das ações sensoriais e motoras e a terceira pode existir separadamente, como provam os anjos (Comenius, 2016, p. 43-44).

Aqui podemos observar a ideia de que os anjos possuem vida intelectual/espiritual, e esta pode existir sem o corpo, o que se assemelha à compreensão de Dee.

No terceiro capítulo, Comenius escreve que Deus criou os anjos todos ao mesmo tempo, enquanto os seres humanos foram criados como descrito no Gênesis, de um homem e de uma mulher. No quarto capítulo, ele insiste que o homem deveria se reconhecer como superior às outras criaturas e que somente Deus e os anjos estão acima dele. Para Comenius, os anjos são, junto com os homens, servos de Deus.

O sexto capítulo tem uma explicação de como os anjos aprendem:

De fato, considerando-se a ciência das coisas, é próprio de Deus conhecer tudo sem início, sem graduação, sem fim, mas num ato intuitivo único e simples; ao homem e ao anjo isso não pôde ser dado porque a infinidade e a eternidade, ou seja, a divindade, não puderam ser dadas. Para a excelência, é suficiente que os homens e os anjos tenham recebido a acuidade mental, com que podem indagar a obra de Deus e levar consigo o tesouro da inteligência. Por isso, mesmo os anjos aprendem através da contemplação (I Pr 1:12; Ef 3, 10; I Rs 22, 19; Jo 1,6) e por isso mesmo o conhecimento deles, assim como o nosso, é experimental (Comenius, 2011, p. 71).

Aqui está claro que Comenius compreende que os anjos não apenas aprendem (e possuem o intelecto como nós), mas o fazemdo mesmo modo como os humanos. Eles são um exemplo de como nós aprendemos, eles são semelhantes a nós e ambos recebemos as mesmas possibilidades de desenvolver a inteligência. Na comparação das citações, é possível compreender que os anjos são iguais aos homens, exceto pelo fato de que eles não têm corpo.

Trazemos como conjectura que a ideia de que os anjos podem aprender é muito próxima da ideia da possibilidade de eles ensinarem. Além de isso ser coerente com as diferentes citações presentes no Didática magna (bem como com a aproximação que podemos fazer ao Labirinto), podemos levantar a proximidade entre as palavras ensinar e aprender em tcheco (língua materna de Comenius). Não cabe neste texto entrar no mérito da discussão sobre as relações entre linguagem e pensamento, mas não deixa de ser pelo menos intrigante saber que em tcheco utiliza-se o mesmo verbo para ensinar e aprender, sendo a única diferença o uso do pronome reflexivo 'se'. É como se disséssemos 'ensinar' (učít) e 'ensinar-se' (učít se) ou como se compreendêssemos ensinar e aprender como a mesma ação, sendo uma ativa e outra, passiva.

Apenas para adicionar mais uma citação da Didática magna às acima apresentadas, no capítulo 20, Comenius apresenta-se preocupado com a presença de autores pagãos nas escolas cristãs e sugere, entre outras coisas, que as crianças aprendam o mais rápido possível a respeito da realidade celeste. Isso inclui, portanto, os anjos. Ele até mesmo finaliza o capítulo mencionando a expressão 'palavras angelicais', ou seja, a referência bíblia é tão instrutiva e importante que merece o uso do adjetivo 'angelical'.

Essa ênfase nos anjos, que vivem, aprendem, adquirem conhecimento e guardam as crianças, mostrando que eles são tão relevantes que sua existência deve ser ensinada a estas, mostra-nos um Comenius trabalhando para fazê-los presentes na educação. Eles são uma parte importante na educação das crianças de modo que estão presentes em seu tratado sobre a didática e o conhecimento. Estão presentes até mesmo na dedicatória. Essa relevância de se ensinar a respeito dos anjos pode ser sustentada pela sua presença em três outros livros também dedicados ao ensino.

Na Escola da infância, Comenius é claro quando afirma, logo no primeiro capítulo do livro: “[...] quem recebe uma criança, recebe também um anjo” (Comenius, 2011, p. 5). É o que vemos em seu sexto argumento sobre por que os pais devem amar os filhos mais do que ao ouro e prata:

Sexto, ainda que o ouro e a prata sejam dádivas de Deus, não são aquelas dádivas que Ele prometeu que os anjos do céu guardariam; outrossim, Satanás costuma se imiscuir entre eles e usá-los como rede ou armadilha para apanhar os incautos e arrastá-los para a ganância, a presunção e o desperdício. Aos anjos sempre foi designado o cuidado com as crianças, como testemunha o próprio Senhor (Mateus 18,10). Dessa forma, qualquer um que tenha crianças em casa pode estar certo da presença de anjos ali e ninguém duvide que quem toma uma criança nos braços recebe também um anjo. Quem repousa na escuridão da noite junto de uma criança pode ficar tranquilo porque estará protegido do espírito das trevas. E quanta tranquilidade! (Comenius, 2011, p. 5).

Anjos da guarda estão sempre com as crianças e aqueles que as educam. Anjos guardam do mal, como está afirmado nos evangelhos. Outro exemplo está presente em seu livro de ensino de latim com o auxílio de imagens, o Orbis sensualium pictus, em que há um capítulo dedicado às coisas divinas, intitulado 'Providência de Deus'. A gravura que o precede apresenta um céu com um olho divino no centro (bem no alto), ladeado por uma estrela à esquerda e uma mão segurando uma espada à direita. No centro da imagem (ocupando dois terços da imagem), encontra-seum homem (bem abaixo do olho divino). À sua direita, está um anjo (com asas e túnica) que, com sua mão direita, segura a mão direita do homem e aponta sua mão esquerda para o olho de Deus. À esquerda do homem está um demônio (com chifre, asas e rabo) que, com sua mão direita, posiciona um laço (uma corda) sobre a cabeça da criança (pronto para 'laçá-la'), olhando fixamente para o objeto de sua intenção. A criança está com o rosto voltado para o anjo e sua mão esquerda está direcionada para o demônio, afastando-o.

O anjo e o demônio estão disputando a atenção do homem que aceita a influência do anjo e rejeita a do demônio. Como escreve o autor na descrição da imagem: “Deus deu seus ministros e anjos, que acompanham o homem, desde seu nascimento, como guardiões contra os espíritos perversos do Demônio, que a cada momento espera por ele para tentá-lo e preocupá-lo” (Comenius, 1810, p. 211, tradução nossa)5.

Comenius, na Pampaedia, (a parta especificamente dedicada à educação dentro da obra De Rerum Humanarum...), não só reforça a ideia de que os anjos possuem vida intelectual como traz vários novos aspectos às características angelicais.

E se alguém deve retorquir: Deve, portanto, fazer-se conhecer a todos mesmo as coisas más, para que os tornemos sabedores em todas as coisas? Respondo: 1.O conhecimento teórico do mal, em si, não é mal (o que é evidente pelo exemplo de Deus e dos Santos Anjos, os quais conhecem também as coisas más, e nem por isso são maus. 2.Sobretudo para nós, é bom e útil um verdadeiro conhecimento do mal para nos desviar dos verdadeiros males (Comenius, 2014, p. 67).

Esse trecho foi retirado do capítulo III, 'Em todas as coisas', em que Comenius disserta sobre o que significa educar o homem em todas as coisas que aperfeiçoam sua própria natureza, por meio da linguagem, da razão e da ação. Quando indaga sobre o perigo do conhecimento das coisas más, dá o exemplo de Deus e dos anjos, que possuem tal conhecimento e nem por isso são corrompidos.

No mesmo capítulo, quando Comenius aborda as diretrizes (problemas) que ele julga essenciais para educar todos em todas as coisas, temos outra referência:

  • Décimo terceiro problema

  • 47. Incutir fortemente a piedade nas almas

  • [...]

  • I.Os exemplos: em primeiro lugar, os exemplos do próprio Deus que diz: 'Sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo', e de seu Filho, Jesus Cristo, que se fez homem para poder ensinar os homens com exemplos constantes (como deveriam portar-se em cada caso). Os exemplares secundários da piedade são, quer os Anjos (acerca dos quais, na verdade, foram reveladas tantas coisas sobre o modo como servem a Deus, para que aprendamos a imitá-los), quer todos os santos homens do Velho e do Novo Testamento que (depois do Sol da Justiça) são como pequenas estrelas no céu espiritual da Igreja que brilham com luz esplendorosa (Comenius, 2014, p. 78, grifo do autor).

Aqui temos um elemento novo, Comenius apresenta os anjos como um exemplo a ser seguido pelos homens a fim de alcançar a piedade e incuti-la nas almas dos seus filhos e coloca também os anjos no mesmo patamar dos santos. Em sequência, no capítulo IV, 'Totalmente', em que Comenius mostra o caminho para uma educação voltada para a verdade, útil para a vida presente e para a futura (pós-morte), deparamo-nos com a seguinte menção:

Numa palavra, quanto mais peças contém, cada uma das quais exige cuidados, tanto mais facilmente se erra na conservação do todo. Ora, o homem é precisamente uma criatura desse gênero, uma vez que contém em si a natureza dos elementos, dos minerais, dos vegetais, dos animais e dos anjos; e cada uma destas componentes consta de muitas partes e cada uma das partes compõe-se de partículas, cada uma das quais está sujeita, por natureza, a deixar entrar a corrupção por todos os lados e, uma vez permitido que ela entre, a transmiti-la às partes vizinhas (Comenius, 2014, p. 85).

Em nenhuma outra parte dos textos Comenius coloca os anjos, ou a natureza angélica, como parte componente do serhumano. Aqui, os anjos não têm apenas a função de mestres e guardiões, mas também existe uma ligação de “parentesco” com a humanidade. No capítulo IX, 'A escola da infância: o regaço materno', é mencionado: “I. Que se espevitem cedo as centelhas divinas, escondidas sob o peso do corpo;” (Comenius, 2014, p. 171). As centelhas divinas citadas teriam alguma relação com a natureza angélica do homem? No capítulo VII, 'Pandidascália', em que Comenius apresenta as qualidades que um professor pampédico deve possuir, temos outra possível referência a esse elemento:

Com efeito, existe em nós, mortais, uma força divina imortal, à qual nada é inacessível, nada é inatingível, a qual gosta de penetrar em todas as coisas em fadiga e sem aversão, desde que não falte um guia seguro. [...]. Invocar musas (coisa habitual entre os poetas) não é mais que excitar os dons divinos em nós colocados, despertar a memória, estimular o talento (Comenius, 2014, p. 145)

É possível também traçar um paralelo com as práticas cabalistas, 'invocar musas', 'excitar os dons divinos', 'despertar a memória', o que faz supor esses trechos remeteremà invocação de anjos das esferas superiores por meio da combinação de palavras, símbolos, letras e números.

No mesmo capítulo, Comenius retoma o conceito dos anjos que educam e aprendem e acrescenta informações sobre esse processo de aprendizado:

A terceira via é dificílima, mas, se for retamente empreendida, é muito vantajosa, muito agradável, muito certa: aqueles que por ela caminham são semelhantes àqueles que, cavando a terra, têm uma colheita duradoura de pão, de água, de vinho, de ouro e de todos os bens. Ora, tal é a ciência de Deus que desde toda a eternidade, vê e contempla tudo em tudo; mas, também em boa parte, é a ciência dos anjos que entendem as coisas sem grande discurso e raciocínio. Tal é a ciência dos profetas e dos mais altos sábios, os quais simbolizam continuamente as coisas e as apresentam, umas por meio das outras, à inteligência própria e à inteligência alheia (Comenius, 2014, p. 139).

Os anjos, então, aprendem, e aprendem rápido, diferente dos seres humanos que precisam de tempo e dedicação. Esse trecho aparece no contexto do problema de como 'Dar aos homens uma vasta cultura', e Comenius oferece três vias para alcançá-la: a primeira está ligada à leitura de livros, que tornam os homens doutos; a segunda, às experiências, que tornam os homens entendidos; e a terceira (da qual trata o trecho em questão), aoconhecimento de ideias, que tornam os homens sábios. Comenius descreve essa via como 'dificílima', porém muito frutuosa. É possível relacionar alguns dos elementos desse texto às práticas hermético-cabalistas, mais precisamente ao rosacrucianismo, pois os “[...] sábios que simbolizam as coisas e apresentam umas por meio das outras, à inteligência própria e a inteligência alheia [...]” (Comenius, 2014, p. 139) são muito similares aos membros da Irmandade Rosacruz, descritos nos manifestos, cujos símbolos poderiam ser interpretados apenas pelos iniciados nos mistérios.

Por fim, no capítulo X, 'A escola da puerícia', citando Viático de Chytraeus, Comenius traz novamente os anjos como modelos a serem seguidos:

Se fazes aquelas coisas que os anjos fazem (contemplas e louvas a Deus e o honras com humilde obediência), levas uma vida angélica. Se fazes aquelas coisas que fazem os diabos (voltando as coisas a Deus, fugindo dele e blasfemando contra ele), levas uma vida diabólica (Comenius, 2014, p. 208)

São visíveis nesse trecho tanto os anjos como modelo como a noção dual de claro e escuro, presente principalmente no Orbis sensualium pictus. A Pampaedia possui outras referências aos anjos, porém elas ou reforçam a figura pedagógica que Comenius apresenta deles ou estão dentro de um contexto pouco relevante.

Uma instrução direta vinda dos anjos esteve presente no Labirinto enquanto nos outros livros só há menções explícitas às características, à presença e à ação guardiã dos anjos. Não podemos ignorar a menção simultânea dos anjos e dois pais na Didática magna assim como na Pampaedia, que nos traz elementos novos, colocando os anjos no mesmo patamar dos homens santos, estabelecendo uma ligação natural entre as entidades celestes e os seres humanos e explicando sobre o que os anjos sabem e de que formas aprendem. No entanto, precisamos saber se Comenius manteve, ao longo de sua vida, a opinião de que era possível os anjos ensinarem às pessoas. Seu último livro, Unum necessarium, seria a melhor fonte para isso. Ele continuou a entender os anjos tanto como guardiões quanto como professores?

Os anjos nos escritos finais

Unum necessarium, que pode ser traduzido como “A única coisa necessária”, é um livro de dez capítulos, centrado em duas referências bíblicas. A primeira, mais óbvia, é um episódio do evangelho de Lucas (10, 38-42) no qual Jesus visita a casa de duas irmãs, Marta e Maria, e, enquanto Maria se senta e ouve as palavras de Jesus, Marta está preocupada com os afazeres domésticos e com a preparação da casa para bem receber o hóspede. Diante da reclamação de Marta com relação à irmã, o hóspede diz que ela se preocupa com coisas demais, enquanto apenas algumas, ou até mesmo uma única coisa, são necessárias. Esse é o leitmotiv do livro no qual Comenius mostra como distinguir entre necessidades e nãonecessidades na vida cotidiana, nas escolas (e na filosofia), na política e na religião. Ele conclui o livro com um relato autobiográfico, no qual busca observar a aplicação daquela regra durante a sua vida e em seu atual estágio.

A segunda referência bíblica não é tão explícita, mas há frequente uso do livro Eclesiastes para explicar seu mundo contemporâneo. Mais de uma vez, ele se refere à quantidade de vaidades do mundo, aquelas 'sob o sol', que tanto aparecem no texto bíblico. Esse é, para nós, um importante indício da ligação entre Unum necessarium e o Labirinto. Ambos são livros que, baseados no Eclesiastes, condenam os excessos do mundo, especialmente aqueles ligados às filosofias e às interpretações. Em ambos os livros, Comenius coloca a fé e o verdadeiro conhecimento de Deus e seu mundo como as chaves para salvação (neste e no mundo vindouro). Como o sacerdote (Coelet) diz no final do Eclesiastes: “Fazer livros é um trabalho sem fim, e muito estudo cansa o corpo” (Ec 12, 12). Para evitar o cansaço do corpo e, portanto, as coisas nãonecessárias, livros, leis e rituais devem ser reduzidos àqueles que são realmente importantes.

Autores como Pospíšil (2009) e Voldan (2009) trazem a ligação entre ambos os livros mostrando o labirinto como uma metáfora cara a Comenius, e a educação é o caminho para a saída o labirinto do mundo. No Unum necessarium, Comenius usa o mito de Dedalus como metáfora para sua análise do mundo. Não obstante, também usa dois outros mitos: o de Sísifo e o de Tântalo. Para o bispo morávio, o mundo é um grande labirinto, cheio de trabalhos de Sísifo e de desejos (e suplícios) como os de Tântalo.

Nesse livro, há algumas importantes menções aos anjos. No capítulo V, no qual Comenius explica como cada pessoa pode aplicar a regra da única coisa necessária em sua própria vida, ele insiste para que as pessoas encontrem alguém virtuoso que possam imitar, de modo a viverem uma vida honrável. Mas e se as pessoas não o encontrarem?

Quem não faz caso e pretende levar uma vida desenfreada teria de procurar um esconderijo onde não pudesse ser visto por Deus, nem por um anjo, nem criatura alguma. Porque se Deus o vir, julga-lo-á conforme o encontre. Se uma criatura o vir, acusa-lo-á, mesmo que seja um pássaro (Ec 10:20). Até a pedra clamará da parede, até a trave do madeiramento testemunhará (Hc 2: 11). Onde encontrar um cantinho assim tão escondido para pecar? Em parte alguma. Em consequência, refletindo que em nenhum lugar isso é possível, é melhor não pecar, mas sim trabalhar sempre para aperfeiçoar-se na virtude (Comenius, 2015, p. 80)

Anjos, assim como qualquer outra criatura divina, nos vê. Não há lugar onde possamos nos esconder. Mas eles não são apenas juízes e inspetores, pois, quando alguém morre, os anjos levam a alma para o céu (Comenius, 2015, p. 47). Assim como o homem, os anjos são criaturas racionais de Deus e receberam sua palavra na luz da mente. E “Uma mente sã, dotada de capacidade natural de entendimento, para ser iluminada pela razão” (Comenius, 2015, p. 88).

Quando discute o como e o quê aprender com o “livro das criaturas”, outro lugar onde a palavra de Deus pode ser encontrada, Comenius explica como aprender com esse livro e não se perder no labirinto:

Primeiro, deve-se observar a que reino da criação algo pertence. Em seguida, considerar as criaturas individualmente a começar pelas que simplesmente existem. Por exemplo, os quatro elementos, e os sólidos que deles surgiram, tais como os corpos celestes, os metais e as pedras. A seguir, as que possuem, além disso, a vida e por essa razão se reproduzem, vivem e morrem, como as árvores e as plantas. Em terceiro lugar, as que, além disso, sentem, percebem e podem se deslocar-se, como os animais de todas a espécies. Finalmente, homens e anjos, a quem foi outorgada a faculdade do conhecimento, para que se esforcem em tornar-se a imagem de Deus. Ou também poderíamos dividir as criaturas corpóreas em cinco grupos (de acordo com o número de sentidos): a visão, a audição, o olfato, o paladar e o tato, e analisa-las atentamente, uma a uma, e assim sucessivamente (Comenius, 2015, p. 94).

Aqui, os anjos são criaturas de entendimento, de razão e devem ser conhecidos. As pessoas devem aprender a respeito deles. Eles são um assunto a ser estudado, pois são criaturas de Deus, assim como as rochas, as plantas, os animais e o homem.

Todas essas referências estão em dois capítulos dedicados ao entendimento do que é necessário saber, tanto individualmente quanto nas escolas. Trazendo o que já escrevera na Didática magna, Comenius considera os anjos criaturas de conhecimento cuja existência e ações devem ser ensinadasàs crianças de modo que todas as pessoas tenham esse conhecimento.

Estamos, contudo, ainda no mesmo âmbito dos outros livros de Comenius. Porém, a última referência aos anjos no Unum necessarium traz algo de diferente. Este é o livro no qual Comenius olha para a história de sua vida e escreve a seus companheiros uma síntese de todo o seu trabalho: a ideia de que estamos perdidos em um labirinto, carregando pesadas rochas e desejando as coisas erradas porque estamos nos esquecendo do que é importante, do que é realmente necessário. Ao atingir o final de seu argumento, pouco antes da profissão final, ele volta aos 'gritos' de Deus, aqueles episódios em que Ele nos fala fortemente a respeito do que fazer:

O mundo, porém, tornou-se surdo à voz de Deus e de seus servos, dos profetas e apóstolos. A voz dos ministros da Igreja perdeu a força. Os próprios servidores chamados a exercer seus cargos tiram a força dos meios e caminhos extraordinários empregados por Deus, atribuindo a causas naturais os sinais e milagres. Se eles chamam pessoas extraordinariamente iluminadas de fanáticos idiotas, se atribuem as aparições de anjos a estados de êxtase e a voz de Deus que alguém ouve dizem ser Satanás, o que nos resta então? Os homens podem reagir de três maneiras: I. Silêncio e espanto (Am 5:13; Jr 2:12); II. Suspiros e gemidos. III. Esperar pelo juízo de Deus que chegará como o dilúvio, e talvez já esteja chegando. Quem reconhecer isso, e quiser ser instruído por Deus sobre as coisas que ocorrem e ocorrerão, leia o capítulo 24 de Isaías e os capítulos de 16 a 18 do apocalipse, e fuja, fuja o mais rápido possível! (Comenius, 2015, p. 138-9)

Meios extraordinários são usados por Deus para gritar a única coisa necessária para nós. E os clérigos não estão prestando atenção a esses meios, que incluem a aparição de anjos. É aqui que vemos para que fim Comenius dedicou todos os seus esforços. Além de nos guardar e proteger do mal, os anjos podem aparecer e conversar com as pessoas. Estes são meios extraordinários, mas necessários durante o 'inverno da Igreja', como era o tempo em que ele vivia.

Aqui nós voltamos para o Labirinto. Para Comenius, o mundo está perdido, caótico e deve ser renovado. E os anjos vêm à Terra em tempos como esses, como uma fonte de conhecimento, para ajudar as pessoas a aprenderem o que é importante, para ajudar a modificar o que está errado. Mesmo com a ajuda dos anjos, nós não estamos entendendo as coisas: essa é sua tristeza. Então, haverá silêncio, suspiros e gemidos, e o julgamento de Deus.

Talvez como uma ação direta dos anjos são meios extraordinários, portanto, não habituais, Comenius não dedicou muitos pensamentos a esse assunto. Mas ele certamente entende o ensino direto dos anjos como possível. E, novamente, voltado para Dee e para a sociedade na qual ambos faziam parte, eles são uma fonte de conhecimento e objeto de estudo. De certo modo, o que queremos apontar é que uma prática de conversação com os anjos como a de Dee parece não ser algo que causa(ria) estranhamento em Comenius. Ele apenas não se dedicou do mesmo modo que o matemático inglês a isso, mesmo inserido dentro da tradição neoplatônica6.

Considerações finais

Os magos do renascimento abriram espaço para uma ciência operativa:

Ao misturarem, porém, o conhecimento da influência dos astros, dos símbolos numéricos, das virtudes das plantas, das ervas e dos elementos da natureza, e se apresentarem como conhecedores das forças misteriosas que regulavam a vida do universo e capacitados para direcioná-las em benefício dos homens, esses humanistas-cientistas-ocultistas puseram também em destaque o caráter operatório do conhecimento que permitia a intervenção direta no mundo natural em nome de uma religião mais antiga do que o próprio cristianismo (Hilsdorf, 2012, p. 121-122).

Comenius, na esteira desse grupo, propõe uma escola que permita conhecimento ativo de todas as coisas, sendo Deus a fonte de todas elas. O conhecimento universal que todas as escolas devem oferecer é aquele que permite a todos “[...] conhecer os fundamentos, as razões, os fins de todas as coisas mais importantes, que existem ou existirão” (Comenius, 2016, p. 95).

O anjo, para Comenius, não é, necessariamente, um objeto de conversação direta e constante, como para Dee, mas é um objeto de conhecimento, de presença e que ensina por meio de inspirações e sonhos, mas que, em situações extraordinárias (e necessárias) como aquela que eles viviam, poderiam fazer sua ação instrutiva de forma mais incisiva e presente, fazendo ecoar os gritos de Deus para que o mundo saísse do labirinto em que vivia.

O que nos traz de volta ao sentido deste estudo sobre os anjos na obra comeniana. No século XVII, em um contexto no qual as escolas dedicam-se com mais afinco às humanidades, o desenvolvimento de métodos de pensamento, estudo e pesquisa encontrou seu caminho para dentro dessa instituição por meio de Comenius e seus seguidores. Porém, como podemos depreender da leitura do livro Unum necessarium, seu estudo didático é o trabalho de um homem religioso. É o que vemos no último capítulo do livro, sua profissão de fé, na qual afirma, entre outras coisas:

Meu trabalho didático foi motivado pelo desejo de libertar as escolas e a juventude de labirintos muito fatigantes, e realizado durante anos a fio. No entanto, houve quem o considerasse incompatível com o exercício da Teologia. E, no entanto, Cristo disse a seu amado Pedro: 'Apascenta minhas ovelhas' e 'apascenta meus cordeiros', ao encarrega-lo de ambas as coisas (Jo21:15 etc.). Por mim dou graças eternas a Cristo, meu amor eterno por inspirar à minha alma este amor por seus cordeiros e haver-me concedido levar a diante obra até o ponto a que chegou, como pode-se ver no Volume IV da Didática magna, especialmente no quinto, sétimo e oitavo tratados, cujos títulos são: V Saída dos labirintos da escola e dos métodos de ensino construídos mecanicamente, para não se deter sem necessidade no mesmo ponto, mas sim avançar. VII A imprensa viva; isto é, a arte de imprimir sabedoria de forma concisa, mas ao mesmo tempo rica e elegante, não no papel mas na inteligência. VIII O Paraíso restaurado da Igreja: isto é, o regime ótimo das escolas, planejado de acordo com a ideia originária da escola do Paraíso. E mesmo que tais propostas não tenham sido ouvidas até hoje e as escolas continuem perdidas em seus labirintos, creio e espero em Deus que acabarão por reconhecer sua utilidade quando o inverno da Igreja passar, as chuvas cessarem, as flores desabrocharem em nossos campos, e quando chegar o tempo da poda... (Ct 2:11-12). Deus dará a seu rebanho pastores segundo seu coração, que não apascentem apenas a si mesmos, como também o rebanho do senhor. E a inveja que sempre reina entre os vivos encontrará seu descanso após a morte (Comenius, 2015, p. 143, grifo do autor).

Aqui vemos Comenius defendendo-se da acusação de que seu trabalho didático é, de certa forma, um desvio de seus deveres religiosos. Talvez, para os olhos do século XX, com os da tradução francesa de Piobeta da Didática magna, na qual todas as partes religiosas foram omitidas (Kulesza, 1992), a preocupação comeniana parece desnecessária. Não há necessidade de justificar-se diante dessa irrelevante acusação. No entanto, com os olhos da sociedade na qual Comenius vivia, incluindo ele próprio, essas palavras são um reforço da visão desse educador de que seu trabalho didático é uma missão religiosa e deve ser vista desse modo.

Para nós, que vivemos num mundo posterior ao surgimento do positivismo, usamos palavras como religião, ciência e educação como se elas não tivessem ligação. Tratá-las desse modo na leitura dos textos comenianos é perder uma chave importante de compreensão de seu pensamento: elas são parte da mesma ação. Sua visão de mundo não separa as coisas divinas e mundanas com objetos de conhecimento. Eles estão vivendo no 'inverno da igreja' e as escolas devem estar melhores quando chegar a primavera.

Desse modo, dedicar nosso olhar para aspectos da visão religiosa e mística (palavra esta tão polissêmica!) que Comenius tinha das coisas, como aqui fizemoscom um foco para a presença dos anjos como professores, ajuda-nos a entender com maior precisão algumas de suas escolhas com relação ao ensino e à reforma do mundo. O mundo estava tão perdido e tão próximo do seu fim que uma intervenção direta dos anjos estava acontecendo.

Aspectos menores de seu trabalho, como esse, tendem a ser esquecidos/ignorados. A circulação de sua Didática magna ao longo dos séculos, bem como de seus livros didáticos no contexto europeu do século XVII, contrasta com o desconhecimento do quase restante de sua obra. Uma boa parte de seus escritos foram editados apenas em meados do século XX, e traduções para o inglês são ainda poucas. No contexto lusófono, essa lista é ainda menor e de circulação mais recente. A consideração de que a Didática magna é a obra mais importante de Comenius pelo simples fato de ela ter circulado mais faz com que diversos estudos sobre o pensamento do autor (ainda hoje) tendam a reduzir suas ideias às propostas escritas no meio de sua vida. Talvez o que consideremos central (em função da circulação) não fosse o que o autor considerasse. Nossas motivações podem ser diferentes das do autor (ou talvez não) e aspectos da obra de um autor tornam-se maiores, e outros, 'menores'. Porém, aspectos maiores tendem a ser cada vez mais pesquisados e aspectos menores, cada vez mais ignorados7.

Um estudo como este sobre a presença do poder instrutivo dos anjos em Comenius, não altera nossa macrovisão da obra do autor. Contudo, ele nos mostra que há uma infinidade de aspectos que ainda não conhecemos em sua produção. Novos aspectos sobre a educação europeia do século XVII estão ainda por serem descobertos.

Referências

Aguiar, T. B. (2015). ‘Minor’ educator before Comenius: Petr Chelčícký’s pacifism. Acta Scientiarum. Education, 37(1), 35-46. [ Links ]

Bíblia de Jerusalém. (2010). São Paulo, SP: Paulus. [ Links ]

Bollis, R. A. R. (2015). Comenius: um educador em três tempos (Dissertação de Mestrado). Universidade Metodista de Piracicaba, Piracicaba. [ Links ]

Comenius, J. A. (1896). The great didactic of John Amos Comenius. Londres, UK: Adam and Charles Black. [ Links ]

Comenius, J. A. (1810). Orbis sensualium pictus. New York, NY: T. & J. Swords. [ Links ]

Comenius, J. A. (2016). Didática magna. São Paulo, SP: WMF Martins Fontes. [ Links ]

Comenius, J. A. (2010). O labirinto do mundo e o paraíso do coração. São Paulo, SP: Editora Comenius. [ Links ]

Comenius, J. A. (2011). A escola da infância. São Paulo, SP: Editora Unesp. [ Links ]

Comenius, J. A. (2014). Pampaedia (Educação Universal). São Paulo, SP: Editora Comenius . [ Links ]

Comenius, J. A. (2015). O único necessário. Jarinu, SP: Pentagrama Publicações. [ Links ]

Dee, J. (2011). Dr John Dee’s spiritual diary (1583-1608). Singapore, SIN: Golden Hoard. [ Links ]

Gomes, J. F. (1996). Introdução. In J. A. Coménio. Didáctica magna. Lisboa, PT: Fundação Calouste Gulbenkian. [ Links ]

Gomes, J. F. (1971). A “Pampaedia” de Coménio. In J. A. Coménio. Pampaedia (educação universal). Coimbra, pT: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. [ Links ]

Hilsdorf, M. L. S. (2012). O aparecimento da escola moderna (2a ed.). Belo Horizonte, MG: Autêntica. [ Links ]

Kulesza, W. A. (1992). Comenius: a persistência da utopia em educação. Campinas, SP: Editora da Unicamp. [ Links ]

Pospíšil, J. (2009). Didatics as the way out of the labyrinth In S. Chocholová, M. Pánková & M. Steiner (Eds.), Jan Amos Komenský: odkaz kultuře vzdělávání. Praga, CZ: Academia. [ Links ]

Seville, I. (2006). The etymologies. New York, NY: Cambridge University Press. [ Links ]

Yates, F. A. (1964). Giordano Bruno e a tradição hermética. São Paulo, SP: Cultrix. [ Links ]

Yates, F. A. (1972). O iluminismo Rosa-cruz. São Paulo, SP: Pensamento. [ Links ]

Voldan, H. (2009). From the labyrinth to the one/ex labirinth ad unum. In S. Chocholová, M. Pánková & M. Steiner (Eds.), Jan Amos Komenský: odkaz kultuře vzdělávání . Praga, CZ: Academia . [ Links ]

1Dados para a elaboração deste artigo foram oriundos de pesquisas financiadas pelo CNPq e pela FAPESP.

2Pelos indícios que levantamos, é possível que Comenius trate dos anjos de forma mais direta na Pansophia, outra parte de seu De rerum humanarum..., em que descreve oito mundos diferentes, sendo que o terceiro é o Mundo Angélico. Apesar de todos os nossos esforços para acessar esse texto, ainda não o conseguimos.

3Especialmente a partir de Gomes (1996, 1971). Ver Bollis (2015) para uma leitura da obra de Comenius a partir da ideia de que seu pensamento se desenvolve em três etapas: o jovem, o exilado, o universal.

4“For this reason has God given the littleones angels as guardians (matthew, xviii. 10), has placed their parents over them to take care of them, and bidden to bring them up in the nurture and admonition of the Lord”.

5“God hath his Ministers and Angels, who accompany the Man, from his birth, as Guardians, against wicked Spirits or the Devil, who every minute layeth wait for him to tempt and vex him”.

6Uma questão paralela que este estudo nos levantou foi o modo como a concepção neoplatônica e hermética de anjos se aproxima ou se afasta das concepções medievais. Como foge ao escopo do artigo fazer esse levantamento, trouxemos apenas o trecho das Etimologias de Isidoro de Sevilha (século VII), visto sua grande circulação no âmbito medieval. A ideia que Comenius tem dos anjos destoa então da linha de pensamento seguida pelas mentalidades do período medieval? O trecho de Isidoro, na tradução inglesa segue nos seguintes termos: "Anjos (De angelis) 1. Anjos (angelus) [...]; eles são malachoth em Hebraico, mas traduzidos para o latim como 'mensageiros' (nuntius), porque eles anunciam (nuntiare) a vontade de Deus para as pessoas. 2. O termo para anjos é, portanto, o nome de sua função, não de sua natureza. De fato, eles são sempre espíritos, mas quando eles são comissionados eles são chamados de anjos". “Angels (De angelis) 1. Angels (angelus) [...]; they are malachoth in Hebrew, but translated in Latin as 'messengers' (nuntius), because they announce (nuntiare) the will of God to people. 2. The term for angels is thus the name of their function, not of their nature. Indeed they are always spirits, but when they are commissioned they are called angels”. (Seville, 2006, p. 160, grifo do autor, tradução nossa). Logo na sequência, Isidoro disserta sobre as nove ordens de anjos, seus membros e respectivas funções.Vemos, justamente, que a concepção isidoriana traz a ideia dos anjos como mensageiros, transmissores de um saber, ideia que traz os primeiros elementos do que futuramente se transformará em uma função instrutiva, como está em Comenius.

7Ver Aguiar (2015) para um debate sobre a questão destes aspectos maiores/menores num debate sobre os educadores que antecederam Comenius.

Recebido: 12 de Junho de 2018; Aceito: 24 de Agosto de 2018

*Autor para correspondência: tbaguiar@uol.com.br

Thiago Borges de Aguiar é licenciado em Pedagogia e em Matemática. Doutor em Educação (História da Educação) pela USP, onde realizou seu estágio de pós-doutorado. Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Metodista de Piracicaba E-mail: tbaguiar@uol.com.br

Thiago Elias Vieira Pereira é licenciado em História pela Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP). Realizou duas pesquisas de Iniciação Científica (respectivamente com bolsa CNPq e FAPESP) na área de História da Educação. E-mail: thiago.pereira2@a.unimep.br

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons