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Sociologia & Antropologia

versão impressa ISSN 2236-7527versão On-line ISSN 2238-3875

Sociol. Antropol. vol.8 no.2 Rio de Janeiro maio/ago. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/2238-38752017v825 

ARTIGOS

ALEGORIAS E DESLOCAMENTOS DO "SUBÚRBIO CARIOCA" NOS ESTUDOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS (1970-2010)1

ALLEGORIES AND DISPLACEMENTS OF THE "CARIOCA SUBURB" IN THE SOCIAL SCIENCES (1970-2010)

Roberta Sampaio GuimarãesI 

Frank Andrew DaviesII 

IUniversidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Rio de Janeiro, RJ, Brasil guimaraes_45@yahoo.com.br

IIUniversidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Rio de Janeiro, RJ, Brasil daviesfr@gmail.com


Resumo

O "subúrbio carioca" possui delimitação territorial bastante consensual na produção acadêmica, que faz referência a um conjunto de bairros atravessados pelas linhas de trem, simbolicamente distante do que seria o "centro" da cidade e indexado à pobreza, subalternidade e classes populares. No campo das representações, entretanto, os pesquisadores mobilizam uma multiplicidade de olhares e afetos em torno da categoria, fazendo com que os conteúdos e formas de suas textualizações se apresentem variados. Este artigo discute os usos e deslocamentos da noção de subúrbio carioca nas ciências sociais, com foco especial na produção etnográfica. Sua análise ressalta a elaboração de escritas alegóricas sobre esse espaço do Rio de Janeiro, que permitem tanto descrever eventos como realizar afirmações culturais ou mesmo ideológicas, constituindo narrativas que buscam desestabilizar as fronteiras físicas e simbólicas da cidade.

Palavras-chave Ciências sociais; etnografia; textualidade; subúrbio; Rio de Janeiro

Abstract

The "carioca suburb" has consensual territorial delimitations in academic works, referring to a set of neighbourhoods crossed by train lines, symbolically distant from what would be the "centre" of the city and related to poverty, subalternity and working classes. But in what pertains to representations of the suburb, researchers have advanced a multiplicity of views and affects, with the result that the content and form of its textualizations is varied. This article discusses the uses and displacements of the notion of the "carioca suburb" in the social sciences, with special focus on ethnographic studies. This analysis highlights the elaboration of allegorical writings about this space in Rio de Janeiro, which enable both the description of cultural practices and senses and give voice to political, ethical and pedagogical messages of cultural diversity, thereby constituting powerful narratives that seek to destabilize the physical and symbolic boundaries of the city.

Keywords Social sciences; ethnography; textuality; suburb; Rio de Janeiro

Este artigo se propõe ao desafio de discutir os usos, sentidos e significações2 atribuídos à noção de "subúrbio carioca" nos estudos das ciências sociais. A dificuldade é posta pela existência de poucas revisões sobre o tema,3 não havendo um texto mais sistemático que servisse de baliza ou contraponto a esta análise. Isso porque a própria noção de subúrbio não chega a conformar uma linha de pesquisa ou um campo de estudos consolidado entre sociólogos, antropólogos e cientistas políticos, como acontece com outras noções espaciais, "favela" e "periferia" entre elas.

A ideia de subúrbio carioca, entretanto, costuma ser utilizada nos produtos acadêmicos para delimitar um território bastante consensual, que faz referência ao conjunto de bairros da cidade do Rio de Janeiro atravessados pelas linhas de trem e simbolicamente distantes do que seria o "centro", sendo recorrentemente indexados à pobreza, à subalternidade e às classes populares. É, portanto, no campo das representações de uma "alteridade próxima", para usar a expressão de Peirano (2000), que pesquisadores do urbano têm mobilizado em torno do uso da categoria uma multiplicidade de olhares e afetos, fazendo com que seus conteúdos e formas de textualização se apresentem tão variados.

A movimentação da ideia de subúrbio carioca pelo senso comum também é complexa, porque abarca um amplo e difuso imaginário social mediado por jornais diários, filmes, programas televisivos, livros etc.4 Em uma rápida mirada na recente produção cultural é possível perceber a contínua operação de uma geografia moral sobre o subúrbio e a caracterização de seus habitantes, como no filme Um suburbano sortudo (Roberto Santucci, 2016), na peça teatral Os suburbanos (Rodrigo Sant'Anna, 2005) e nos programas televisivos como A grande família (Rede Globo, 2001-2014) e Zorra total (Rede Globo, 1999 até os dias atuais). Em um polo negativo, o subúrbio opera nesses produtos como categoria de acusação, espaço associado ao cafona e à carência. Já a partir de um polo positivo, o subúrbio figura como berço do futebol, tradição do samba, do catolicismo popular e dos carnavais de rua, local em que se encontraria uma sociabilidade menos corrompida pelos modos de vida impessoais e que daria suporte à memória afetiva e aos laços sociais da população pobre da cidade.

Percebemos assim que os sentidos mais recorrentes do termo oscilam entre polaridades que se complementam, confirmando concepções sobre "modernidade" e "tradição" que aparecem reificadas no espaço social a partir da distribuição no espaço físico de diferentes bens e serviços, e também de agentes e grupos dotados de oportunidade de apropriação desses bens e serviços (Bourdieu, 2001). O subúrbio é então estruturado no plano social como contrastante ao estilo de vida cosmopolita da Zona Sul, centro de referência simbólica da cidade, e no plano espacial como local carente de equipamentos culturais, pontos turísticos e recursos urbanísticos. No senso comum o subúrbio carioca se mostra, portanto, como uma daquelas nominações em que espaços sociais e ordens morais se justapõem e se interpenetram.

Para fins deste artigo, em vez de traçar uma análise da movimentação da noção de subúrbio carioca pelos produtos culturais, optamos por focalizar o deslocamento de sentidos e significações da categoria nas produções acadêmicas dos cientistas sociais.5 Em um primeiro momento pesquisamos estudos citados pela Revista Brasileira de Informações Bibliográficas em Ciências Sociais - BIB6 ou catalogados pela Plataforma Capes de Teses e Dissertações, englobando produções realizadas no período entre 1970 e 2010.7 Nesse levantamento identificamos mais de 30 trabalhos que faziam referência explícita à noção de subúrbio carioca, entre teses, dissertações, livros e artigos.

Mesmo que muitos pesquisadores não tenham problematizado explicitamente a categoria subúrbio, as realidades multifacetadas e fluidas dos espaços e habitantes a ela associados foram uma potente fonte de imaginação sociológica. No curso das ressignificações do subúrbio carioca, as investigações tenderam a privilegiar o trabalho de campo e a escrita etnográfica como forma de construir um contraponto às imagens estereotipadas ou depreciativas sobre essa alteridade próxima ao cotidiano dos pesquisadores. Houve assim uma inclinação a produzir narrativas que matizassem a experiência da população "suburbana" propondo seu reconhecimento a partir de comparações ou abstrações com o "centro" simbólico da cidade.

Inspirados nas observações de James Clifford (2011: 61) sobre o caráter performático da etnografia, esse material de pesquisa nos levou a pensar o subúrbio em termos textuais como uma alegoria, uma ficção narrativa que opera simultaneamente como descrição de eventos e meio de realizar afirmações culturais, ou mesmo ideológicas. O caráter alegórico dessa escrita etnográfica seria construído tanto a partir de seu conteúdo propriamente dito quanto das formas poéticas e estéticas de textualização.

Organizamos então quatro eixos temáticos que nos ajudam a aglutinar um número expressivo de estudos acerca dos sentidos "alegóricos" da categoria subúrbio. Dentro desses eixos, consideramos que alguns trabalhos em especial introduziam clivagens e reformulações na produção das significações sobre o termo, dedicando-lhes maior atenção analítica.8 Na década de 1970, a busca da representação do cotidiano do proletariado suburbano foi então por nós interpretada como uma alegoria de resistência política à ditadura civil-militar e do poder de mobilização do proletariado. Já na década de 1980, os estudos desenvolvidos sobre as relações de vizinhança, amizade e parentesco das camadas médias suburbanas e as cenas artísticas de seus grupos jovens mobilizaram alegorias da autenticidade e diversidade cultural, formuladas em contraponto tanto a dinâmicas urbanas estigmatizantes quanto a uma tendência cultural homogeneizante das diferentes manifestações urbanas. A partir da década de 1990 a ênfase das análises recai sobre as mediações empreendidas por múltiplos agentes e suas estratégias discursivas no acionamento da categoria, movimentando principalmente uma alegoria sobre o protagonismo dos "suburbanos" na busca pela restituição do seu poder agentivo que estava ausente nas representações produzidas por estudos anteriores.9

Cientes de que não alcançamos senão um ensaio exploratório, sugerimos que a noção de subúrbio carioca tem sido sistematicamente ressignificada por estudos dos cientistas sociais − como efeito das dinâmicas sociais, políticas e econômicas do país e da cidade, como desdobramento das linhas de pensamento que se difundem, consolidam e se dissolvem nos centros de pesquisa acadêmica, ou ainda pelas opções éticas e ideológicas dos próprios pesquisadores, cujas estratégias de escrita podem conferir significados transcendentes aos eventos observados.

Mediante a análise dos usos políticos e estéticos da escrita sobre o subúrbio carioca, nossa intenção é destacar o papel dos estudos acadêmicos na construção de imaginários sobre populações e territórios. Nos chamou atenção a potencialidade dessa produção textual em confirmar, negar ou subverter fronteiras físicas e simbólicas da cidade, ressaltando que os pesquisadores também buscam atuar politicamente ao nominar e classificar coisas. Dessa forma, além da reflexão sobre outros agenciamentos urbanos e relações de poder extratextuais que produzem socialmente os espaços urbanos, indicamos a necessidade de indagar, como investigadores, sobre as representações que também são produzidas pelos centros de pesquisa.

O SUBÚRBIO CARIOCA COMO ESPAÇO GEOGRÁFICO E SIMBÓLICO DO OPERARIADO

Ainda que nosso recorte da análise comece nos anos 1970, nosso percurso se alonga aos anos 1950 para situar os estudos pioneiros da geografia realizados por Maria Therezinha de Segadas Soares na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Distrito Federal, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O contexto dessa produção era a transferência do Distrito Federal para Brasília e a formação do estado da Guanabara, quando forte corrente migratória se deslocou para a cidade e consolidou a ocupação do tecido metropolitano (Ferreira, 2012), em momento ideológico e urbanístico posterior ao das reformas do prefeito Pereira Passos.10 A partir de dados secundários e pesquisa bibliográfica, Soares delimitou o subúrbio carioca em uma primeira correspondência do termo às classes populares e proletárias, à expansão dos transportes de massa e à precariedade de infraestrutura urbana dos bairros das porções Norte e Oeste da cidade do Rio de Janeiro (Fernandes, 2011). Seus estudos conformaram, assim, uma espécie de ponto de partida imaginativo para os demais pesquisadores da cidade.

No artigo "Divisões principais e limites externos do Grande Rio de Janeiro", Therezinha Soares (1990) sinalizou que, somente após a década de 1930 o uso carioca da noção de subúrbio passou a nominar áreas rurais incorporadas à trama urbana e especialmente impactadas pelas linhas de bonde e de trem.11 De acordo com sua análise, a representação do subúrbio só teve seu sentido "carioca" enquanto efeito das políticas implementadas pelo Estado Novo (1937-1945), como a eletrificação dos trens, a construção de conjuntos habitacionais, a abertura da avenida Brasil e as amplas obras de saneamento e urbanização. Uma forma de apropriação particular do termo passou então a operar por meio da associação de três definições básicas: "o trem como meio de transporte, o predomínio da população menos favorecida de meios de fortuna, e dependência e relações íntimas e frequentes com o Centro da cidade" (Soares, 1990: 141). Nessa apropriação carioca do termo, Soares destacou ainda o uso da categoria em referência à falta de "um certo aspecto de ordem e limpeza" devido à escassa ou nenhuma oferta de serviços básicos como água, iluminação ou pavimentação.

No final dos anos 1970, momento de desfecho gradual da ditadura política instalada desde 1964, muitos pesquisadores se envolveram em movimentos sociais favoráveis à redemocratização do país. Nesse contexto, estudos tenderam a tecer críticas ao modelo desenvolvimentista dos anos anteriores, como o livro A evolução urbana do Rio de Janeiro, do geógrafo Maurício de Abreu (1987). Ao analisar o processo histórico de formação da região metropolitana do Rio de Janeiro a partir da distribuição espacial da população de baixa renda, Abreu uniu análises até então predominantemente descritivas da morfologia urbana desenvolvidas na UFRJ às teorias de pesquisadores marxistas como Milton Santos, David Harvey e Manuel Castells, elaborando uma abordagem da estratificação social da cidade que atribuía especial agência às políticas governamentais (Gomes, 2014). Para ele, o subúrbio carioca seria um fenômeno atrelado ao aquecimento das atividades fabris na cidade, concomitante ao privilégio econômico do centro urbano e à ocupação da faixa litorânea para residência dos estratos privilegiados. Embora seus dados de pesquisa fossem também secundários, sua escrita não se detinha no relato descritivo, adotando uma retórica remetida explicitamente à luta de classes.

Nessas análises geográficas, portanto, a mobilização da expressão subúrbio carioca privilegiou como conteúdo as dinâmicas territoriais e econômicas da cidade. Já por meio de suas opções teóricas construiu uma caracterização desse espaço como lugar de produção e reprodução das classes trabalhadoras. A contribuição desses estudos foi indicar que, após a reforma de Pereira Passos e especialmente durante o Estado Novo, tanto a população pobre como a noção de subúrbio foram deslocadas de modo gradual para territórios específicos da cidade. A própria expansão da cidade teria atrelado, nesse momento, imagens estigmatizantes à noção de subúrbio, associando seu sentido às práticas industriais "sujas e degradantes" e à moradia do operariado. Imaginário diferente da paisagem rural do passado, associada à ocupação pelas elites econômicas e camadas médias.

Ao final da década de 1970 o termo subúrbio passou a ser operado também por cientistas sociais. Havia nessa época um crescente interesse pela pesquisa de campo e pelos estudos de caso, respondendo a uma insatisfação quanto às grandes explicações estruturais até então dominantes no campo disciplinar (Cardoso, 1986). A proposta de alguns investigadores foi interpretar o subúrbio a partir de elementos simbólicos e das práticas sociais que lhes seriam próprias. Nessa busca da compreensão do cotidiano do "subúrbio" e dos valores sociais dos "suburbanos", a variação nas formas de construção textual e a movimentação de significados transcendentes aos casos estudados começaram a ficar mais evidentes, revelando nuanças e complexidades que até então não haviam sido observadas pelos estudos pioneiros de geógrafos.

O período era ainda de resistência política à ditadura militar, e muitos pesquisadores se inclinaram a produzir, a partir de múltiplas perspectivas, análises sobre os mecanismos de mudança social e as visões de mundo da população. Os investigadores consideraram tanto as formas de pensar e agir da classe trabalhadora (que pelas teorias marxistas poderia ser organizada politicamente e conduzida a frear o projeto capitalista e o Estado autoritário) quanto a formação das identidades e dos valores das camadas médias, associadas às práticas mais "tradicionais" e "conservadoras".

Entre os estudos que abordaram o cotidiano do proletariado suburbano elegendo a luta de classes como retórica privilegiada de análise podemos citar, por exemplo, o artigo "A revolta dos suburbanos ou 'Patrão, o trem atrasou'" (Moises & Martinez-Alier, 1977), escrito pelo cientista político e docente da Universidade de São Paulo (USP) José Álvaro Moises e pela antropóloga e docente da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Verena Martinez-Alier (a partir da década de 1980, Verena Stolcke). Eles pesquisaram naquele período as formas difusas de atuação política das "massas suburbanas" nas ondas de depredações de trens e ônibus contra os deficientes serviços de transportes de São Paulo e Rio de Janeiro. Segundo comentário de Jacobi (1980: 231), uma reflexão inovadora sobre os movimentos sociais urbanos ao retratar as dinâmicas de revolta daqueles que não dispunham de canais de reivindicação coletiva frente ao Estado e um potencial de solidariedade e sentimento de identidade das classes populares. Uma textualização, portanto, que enfatizava o ideal da época de tomada de consciência dos trabalhadores e de resistência política.

Outro estudo de sociologia da USP que nesse período uniu análise simbólica às questões da teoria marxista foi a tese de Vera Pereira (1979), O coração da fábrica. A pesquisa focalizava a formação identitária do operariado da Fábrica Bangu priorizando as relações do trabalho e as percepções que os operários possuíam de suas experiências individuais no âmbito da produção fabril. Calcada em trabalho de campo, sua intenção manifesta era ressaltar as narrativas sobre a realidade cotidiana e conflitiva da vida do operariado que não estavam sendo abarcadas pelos estudos sobre movimento sindical. Como observado por Melatti (1984: 229), um dos significados produzidos pela autora foi rebater a ideia de que o operário seria um mero apêndice das máquinas, indivíduo passivo a exercer funções automatizadas e inteiramente dominado pelo processo de produção. Do ponto de vista textual, Pereira teria assim retratado a atividade do operariado como altamente técnica e criativa, possibilitando o reconhecimento dessa classe social a partir de um plano abstrato de similaridade com aspectos valorizados das atividades produtivas burguesas.

Vimos assim que esse período da produção acadêmica sobre o subúrbio carioca foi fortemente marcado pelas teses marxistas, nas quais os pesquisadores enxergavam no proletariado a força capaz de transformar as dinâmicas de desigualdade social. Para exercer esse papel, as camadas populares precisariam de uma direção política acertada e, para auxiliar nesse objetivo, o entendimento e o reconhecimento dos valores sociais e das formas de sociabilidade foram privilegiados como objetos de pesquisa e análise.

"SUBÚRBIO" OU "PERIFERIA": OS DIFERENTES CONTORNOS DO DEBATE NAS CIÊNCIAS SOCIAIS

Os estudos da sociologia, no entanto, substituíram gradualmente o termo subúrbio por "periferia". Como apontou Martins (2008: 51), a mudança foi uma tentativa de dar inteligibilidade ao surgimento de espaços precários de condições habitacionais e sociais por meio de uma noção que significaria uma espécie de antítese da cidade e seu ideal de bem-estar. O autor problematizou essa opção teórica e retórica propondo que os dois termos portariam ideias opostas. Para ele, subúrbio seria "o espaço da ascensão social, diferente da periferia, que é o espaço dos confinamentos nos estreitos laços da falta de alternativas de vida".

Em sua análise, a substituição somente reforçou a percepção niveladora de que todo local distante do centro seria proletário, levando a sociologia a pouco considerar a formação histórica do subúrbio enquanto espaço liminar entre o rural e o urbano, configurado por habitações dispostas em grandes lotes e também ocupado pelas camadas médias em ascensão social. A proposta de Martins em distinguir os termos subúrbio e periferia evocava, portanto, a alegorias antagônicas sobre essa alteridade próxima, uma que positivava as experiências habitacionais distantes do "centro urbano" e outra que negativava.

Exatamente esses significados ambivalentes foram explorados de modo analítico pelos estudos antropológicos dedicados ao "subúrbio carioca": um lugar ora marcado pela solidariedade e proximidade social, ora por relações conflitivas e violentas. A partir também da década de 1970, a disciplina começou a produzir bases para o desenvolvimento da área de antropologia urbana. Fosse via o estruturalismo, como em Roberto DaMatta,12 fosse pelo diálogo com a Escola Sociológica de Chicago, como em Gilberto Velho, tais estudos se apresentaram em composições múltiplas e combinadas às perspectivas sociológicas, dando mais ênfase epistemológica e política aos aspectos da "diferença cultural" do que às dimensões da "desigualdade social". Nesse contexto, tiveram ressonância pesquisas que articulavam a ideia de que haveria uma cultura e uma forma de sociabilidade próprias aos bairros do subúrbio da cidade.

No recém-fundado Programa de Pós-Graduação do Museu Nacional/UFRJ, o subúrbio foi abordado por Anthony Leeds (2015), no artigo "Tipos de moradia, arranjos de vida, proletarização e a estrutura social da cidade". Buscando compreender a formação urbana do Rio de Janeiro por meio da moradia da população pobre da cidade, o autor explorou a hipótese de que cada tipo de moradia popular (não só o subúrbio, mas cabeças de porco, parques proletários, conjuntos habitacionais, pensões, áreas ocupadas ilegalmente, entre outras) repercutia uma condição econômica e um arranjo de vida específicos da unidade familiar.

Sua textualidade ressaltava as experiências particulares dessa população e seus significados quando observados os pontos em comum frente a outras experiências habitacionais, como as do meio rural, oposição já então consagrada da noção de "urbano". Leeds retratou o subúrbio carioca como um tipo de moradia que conciliava casas humildes, precariamente servidas por pavimentação, saneamento e iluminação, circunscritas aos limites jurídicos da cidade. A despeito de o acesso à propriedade da casa ser garantido na maior parte dos casos, a conexão ao trabalho se revelaria um percalço pela distância das áreas de economia mais aquecida e pela falta de melhores condições de serviços públicos como transporte e, também, saúde e educação. As semelhanças com o interior não urbanizado do país foram evocadas por meio da comparação retórica com a forma de imaginar a casa que, segundo sua narrativa, "geralmente, tem seu quintal ou jardim com espaço para árvores frutíferas, vegetais, galinhas, porcos, e assim por diante, possibilitado pelo loteamento mais ou menos oficializado" (Leeds, 2015: 203).

Além da contribuição de Leeds ao desenvolvimento da antropologia urbana e aos estudos sobre a cidade carioca, a tradução e o lançamento por editoras brasileiras dos livros de Erving Goffman (1974, 1975a, 1975b) e de Howard Becker (1963, 1977) também tiveram relevância no enquadramento conceitual das análises do subúrbio carioca como alteridade próxima. Diversos estudos desenvolvidos pela antropologia urbana se voltaram para a perspectiva do interacionismo simbólico da Escola Sociológica de Chicago, privilegiando o tema das relações entre indivíduo e sociedade. Dois tipos de abordagem sobre o subúrbio carioca foram então diretamente influenciados por essa perspectiva: o das relações de vizinhança, amizade e parentesco das camadas médias da população; e o dos grupos de jovens populares e suas cenas artísticas.

TRADICIONAL OU MODERNO: ANÁLISES SOBRE O ÉTHOS SUBURBANO DAS CAMADAS MÉDIAS

Diferentemente dos estudos sobre o proletariado, os estudos antropológicos sobre as camadas médias do subúrbio dedicaram atenção a um segmento da população cuja posição de classe não era bem delimitada. Seu recorte empírico tendeu a privilegiar dinâmicas de grupos que se articulavam em bairros, analisando os valores morais referentes à cidade e a seus modos de vida. A dissertação de Gilberto Velho, A utopia urbana: um estudo de antropologia social (1989), foi considerada um marco na abordagem dessas relações ao focalizar a ascensão social da classe média por meio da mobilidade habitacional do "subúrbio" em direção à Zona Sul da cidade, mais especificamente a Copacabana.

Em sua pesquisa, o autor apontou que as categorias subúrbio e suburbano eram mobilizadas pelos moradores do bairro como representações antagônicas aos ideais de vida, hábitos e formas de sociabilidade atrelados à riqueza e sofisticação daquela localidade. Velho se interessou, portanto, por compreender como a trajetória habitacional e os projetos de vida configuravam uma geografia da cidade, cujas categorias espaciais estavam carregadas de valores morais. Ao se dedicar às diferenças, alternativas e projetos individuais e sociais de um grupo de moradores do bairro, sua intenção foi ampliar o conhecimento sobre a sociedade brasileira e particularmente sobre suas camadas médias, que naquele período de ditadura política apoiavam majoritariamente o novo regime. Para tanto, Velho (2011) avaliou que o trabalho de campo e a observação participante eram cruciais para aprofundar a compreensão da dimensão cognitiva e o éthos desses grupos.

Como observou O'Donnell (2013), tal empreitada era um posicionamento epistemológico e político, já que na época a antropologia brasileira ainda não tinha tradição de estudos da alteridade próxima e, logo no início do estudo, Velho expunha ser ele próprio morador do edifício pesquisado em Copacabana. Ao menos dois registros textuais tinham sido trabalhados pelo autor: um buscando dar conta dos sentidos envolvidos nos deslocamentos populacionais atrelados à ascensão social; e outro autorreferenciado nos debates disciplinares, mediante abordagem metodológica que expandia a significação da alteridade ao limite do universo do próprio pesquisador.

Ao longo dos anos 1980, outros estudos sobre estilos de vida e visões de mundo dos moradores do subúrbio foram desenvolvidos no Museu Nacional/UFRJ, instituição em que Velho, como professor, orientou diversos investigadores. Algumas dessas pesquisas se interessaram pelos valores morais articulados às redes de relação de vizinhança, amizade e parentesco da classe média suburbana. A dissertação de Sandra Carneiro (1982), Balão no céu, alegria na terra: estudo sobre as representações e a organização social dos baloeiros, por exemplo, abordou a prática baloeira dos homens residentes nos bairros de Madureira e Olaria observando como a emoção coletiva do grupo era organizada em nível simbólico e dramatizava a subserviência às regras do trabalho e o compromisso com as relações primárias.

Segundo as significações elaboradas por Carneiro, os integrantes dessa turma e seus familiares possuíam um éthos social específico, afeito a encontros sociais, celebrações e relações de amizade, o que acarretaria um sentido de mais "intimidade e aproximação" em contraposição ao individualismo corrente das sociedades modernas. Em vez da impessoalidade e do isolamento, o subúrbio seria "tradicional" ainda que dentro do "moderno". Essa análise parecia redimir a percepção de que os "suburbanos" das camadas médias estavam unicamente interessados no deslocamento habitacional atrelado à ascensão social, movimentando uma retórica de autenticidade que reconectava o espaço do "subúrbio" às práticas de atores que se consideravam próprios do lugar. Uma forma textual, portanto, que portava a ideia de que haveria aspectos culturais particulares se articulando ao desenvolvimento das sociedades e das cidades modernas.13

Uma mediação entre as visões ambivalentes traçadas por Velho e Carneiro foi proposta por Maria Luiza Heilborn (1984) na dissertação Conversa de portão: juventude e sociabilidade em um subúrbio carioca. Sua investigação sobre as práticas culturais e os comportamentos de jovens de camadas médias residentes no bairro de Ricardo de Albuquerque levou a autora a concluir que esses jovens não estavam distantes do cotidiano da "metrópole", fosse pela exposição contínua aos meios de comunicação de massa ou pela consciência e mesmo a valorização de que possuiriam um modo de vida distinto dos de outros grupos da cidade.

Segundo comentário de Salem (1986: 31), Heilborn repensou a polaridade tradicional/moderno uma vez que não identificou nenhuma ruptura significativa dos jovens com relação às aspirações, aos valores e projetos de vida das gerações mais velhas. Ou seja, embora seu estudo continuasse a temática e as opções metodológicas pelas redes de relações de um bairro do subúrbio, sua textualização construiu uma visão que não polarizava tanto suas moralidades frente aos valores dos moradores do "centro". A investigação das tramas cotidianas foi então um importante motor na articulação do subúrbio às dinâmicas mais amplas da cidade, conduzindo mesmo à desconfiança a respeito de uma alteridade dos suburbanos.

Nesse conjunto de análises, a alteridade próxima articulada ao uso da categoria subúrbio interpela as possibilidades de diferenças de éthos, pertencimento e identidade entre os moradores da cidade. Nesse sentido, os modos de vida e os valores expressos por esses grupos foram observados em relação às formas de classificar o espaço urbano e seus moradores, substanciando o termo "subúrbio" por meio desses elementos. Divergindo quanto às considerações, essas reflexões identificaram uma variedade de percepções e experiências associadas ao entendimento dessa categoria, prenunciando, de certo modo, as múltiplas potencialidades discursivas articuladas ao "subúrbio carioca" - também um foco de estudos das ciências sociais sobre a cidade carioca que abordaremos em breve. Antes, porém, comentamos as leituras feitas a partir da perspectiva do acirramento dos conflitos urbanos, com maior suspeição sobre os jovens e os pobres da cidade.

DINÂMICAS DE CONFLITOS: GRUPOS JOVENS E CENAS ARTÍSTICAS DO SUBÚRBIO CARIOCA

Com a progressiva redemocratização do país a partir da década de 1980, os movimentos sociais se expressaram por meio de múltiplas bandeiras, como o feminismo, as ações para melhorias nos bairros, a ecologia, as iniciativas em prol da igualdade racial, a tolerância religiosa etc. No Rio de Janeiro esse panorama político esteve também associado ao aumento da ocorrência de certos crimes, fenômeno considerado expressão de uma articulação mais territorial e violenta da atividade de venda de drogas ilegais na cidade, que produziu efeitos relevantes na ordem pública e sobretudo nas rotinas dos espaços socialmente indexados como moradia dos pobres, em especial as favelas.

Acompanhando essas dinâmicas, cientistas sociais dedicaram seus estudos às formas de expressão dos conflitos urbanos e às configurações da criminalidade. Em sua tese apresentada à USP e em 1985 publicada como livro, A máquina e a revolta. As organizações populares e o significado da pobreza, a antropóloga Alba Zaluar (1985: 51) fez importante estudo sobre organizações sociais da Cidade de Deus, Zona Oeste da cidade, em que abordava as "diversas formas de organização, tanto as voltadas para o lazer quanto as reivindicatórias, juntamente com os efeitos da presença das quadrilhas de traficantes na vida social local".

Repercutindo as novas dinâmicas urbanas, as relações sociais situadas no subúrbio carioca passaram também a ser analisadas por perspectiva mais conflitiva, mediante enfoques que associavam seus espaços e habitantes à criminalidade e à ilegalidade. Na maior parte das vezes, os pesquisadores se preocuparam em produzir narrativas mais nuançadas sobre as manifestações da violência do que as proferidas pelo senso comum, buscando um contraponto discursivo às falas que estigmatizavam os jovens das classes populares.

Nos estudos antropológicos, especial atenção foi dada às "tribos", "gangues" e "galeras" organizadas em torno de gostos musicais, festividades e manifestações artísticas coletivas, com análises de suas atitudes e visões de mundo, bem como das formas estéticas, éticas e rituais de suas cenas artísticas. O foco era então o reconhecimento desses grupos e condutas como partes positivas da diversidade cultural da cidade, justapondo tal registro textual à produção sobre os conflitos e o agravamento dos casos de violência.

Novamente foram considerados relevantes os estudos do interacionismo simbólico, principalmente os escritos de Becker, na produção de um contradiscurso às visões correntes sobre "desvio", "delinquência" e "marginalidade". Precursora desses estudos, a dissertação defendida no Museu Nacional por Janice Caiafa (1985), Movimento punk na cidade. A invasão dos bandos sub, abordou essa manifestação que emergiu na cidade a partir da década de 1980, identificada por seu perfil de jovens pobres do subúrbio. A autora considerou que seus integrantes eram "índios metropolitanos", cujas características nômades davam formas a "circuitos" compostos por ruas do Centro e Lapa, e também por espaços fechados como a boate Dancy Méier, configurando um mapa urbano próprio.

Como em diversos contextos eram malvistos e até mesmo hostilizados pela polícia, a autora se aproximou da perspectiva sociológica sobre "gangues" e "guetos", relacionando os resultados da pesquisa ao tema da delinquência juvenil. Sua intenção foi produzir uma narrativa que combatesse tanto a visão corrente na imprensa da época de que os punks seriam "uma resposta à crise econômica, um resultado de impasses a nível de governos, mero produto de uma precariedade que outros provocaram" (Caiafa, 1985: 19) quanto uma leitura das ciências psicossociais de que esses grupos se situavam na transição entre a adolescência e sua "integração" na sociedade como adultos. Outro estudo da época sobre os jovens pobres suburbanos, a dissertação de Hermano Vianna (1988) também realizada no Museu Nacional e publicada no livro O mundo funk carioca, debruça-se sobre a forma ritual dos bailes funk, sua organização e os valores morais expressos pelas músicas, músicos e dançarinos, também buscando como mensagem a afirmação da diversidade cultural e superação da visão estigmatizante sobre os jovens e pobres e suas formas de sociabilidade.

A partir dos anos 1990, o imaginário social que postulava uma divisão entre "favela e asfalto" passou a ser amplamente difundido em matérias jornalísticas e também por produtos de mediação cultural como o livro-reportagem Cidade partida, de Zuenir Ventura (1994), o romance Cidade de Deus, de Paulo Lins (1997) e o filme Notícias de uma guerra particular, de Katia Lund e João Moreira Salles (1999). Diversos estudos então se detiveram nas formas cotidianas de vivenciar e perceber a criminalidade e a violência urbana, ampliando o interesse acadêmico sobre o tema (Zaluar, 1994; Machado da Silva, 2010; Soares, 1996; Misse, 1997; Leite, 2000).

Entre os textos que focalizaram as formas de estigmatização dos grupos do subúrbio no período pode ser citado o artigo "Os jovens suburbanos e a mídia: conceitos e preconceitos", das antropólogas do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS/UFRJ), Rosilene Alvim e Eugênia Paim (2000). Nele, as pesquisadoras abordam o fenômeno dos "arrastões" ocorridos nas praias da Zona Sul da cidade, confrontando os discursos veiculados pela imprensa a narrativas que buscariam contemplar as experiências subjetivas dos jovens. Proposta semelhante de textualização foi desenvolvida por Ana Paula Alves Ribeiro (2003) ao pesquisar diferentes eventos relacionados à música de Madureira, na dissertação em ciências sociais defendida na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Samba são pés que passam fecundando o chão... Madureira: sociabilidade e conflito em um subúrbio carioca. E também por Luciane Silva (2009) ao retomar o estudo dos bailes funk na tese defendida no IFCS/UFRJ, Funk para além da festa: um estudo sobre disputas simbólicas e práticas culturais na cidade do Rio de Janeiro. Esses estudos buscaram contrapor os diferentes discursos sobre a violência urbana às experiências culturais e estéticas dos frequentadores desses eventos e seus mapas cognitivos de circulação por bairros do subúrbio, favelas e outros espaços da cidade.

Em comum esse conjunto de estudos se empenhou em destituir as representações que estavam sendo atribuídas aos grupos de jovens do subúrbio e suas práticas culturais de uma substância que os definiria, a princípio, como "desviantes" ou "delinquentes". Para tanto, se dedicaram a retratar suas manifestações estéticas e expressões coletivas, com a preocupação de afirmar suas presenças na cidade a partir de identidades outras que não apenas a suburbana, pobre e, na maioria das vezes, negra. Por meio dessas construções narrativas, tais estudos enfatizaram o que seriam manifestações de diferença e singularidade cultural, contrastando os sentidos atribuídos pelos próprios grupos a suas dinâmicas conflitivas e os discursos que inseriam tais grupos no espectro da violência e da criminalidade urbanas.

MÚLTIPLOS AGENTES MEDIADORES: O "SUBÚRBIO CARIOCA" COMO ESTRATÉGIA DISCURSIVA

A partir da década de 1990, a tendência internacional de implantação de grandes projetos urbanos foi posta em movimento por sucessivas gestões da municipalidade carioca, propondo medidas como "o combate à desordem urbana; o controle do espaço público; a inserção do Rio de Janeiro no cenário de competição internacional entre as grandes metrópoles; a realização de parcerias entre setores públicos e privados" (Barandier, 2006: 147). A noção de desordem então difundida atrelou a configuração espacial da cidade a uma ordem moral que opunha "civilizados versus marginalizados", autorizando a implantação de políticas promotoras de uma suposta integração urbana. Ganharam então destaque no cenário político local os profissionais que, mediante discurso retoricamente baseado na capacidade técnica, se colocavam como mediadores de diversas modalidades de gestão dos territórios da cidade.

Mais um tema se sobrepôs e estabeleceu diálogo com as significações anteriores sobre o que seria o subúrbio carioca, por meio de estudos que privilegiaram as formas de acionar a categoria "subúrbio" tanto por esses agentes de mediação como pelos próprios "suburbanos" nas apresentações de si. A ênfase dos textos produzidos sob essa perspectiva foi a do encontro não mais entre alteridades, mas entre esses múltiplos agentes mediadores e as estratégias retóricas utilizadas para reconhecimento social, visando à superação de estigmas e à obtenção de recursos econômicos, políticos e sociais. Os pesquisadores se interessaram por processos e dinâmicas em que o subúrbio carioca existia a partir das disputas de sentidos entre planejadores urbanos, agentes financeiros, mercado imobiliário, agitadores culturais, fomentadores de projetos sociais, moradores, movimentos políticos etc. Ou seja, o termo foi destacado em sua dimensão política, produzindo um registro que deu ênfase aos aspectos da mediação social.

Nessa perspectiva, algumas pesquisas elaboraram novas abordagens sobre o passado, como a dissertação defendida no IFCS/UFRJ por Annelise Fernandez (1995), Assim é meu subúrbio: o projeto de dignificação dos subúrbios entre as camadas médias suburbanas de 1948 a 1957, que buscou demonstrar como determinados valores e práticas voltados para o progresso social e urbano do bairro de Madureira foram veiculados pela imprensa de bairro no período. A autora ressaltou que os discursos mobilizados pela imprensa local fizeram parte de um projeto consciente das camadas médias, que construíram representações sobre si por meio da elaboração de narrativas que dignificavam os subúrbios, especialmente associando seus bairros aos valores entendidos como tradicionais pela sociedade da época.

A maior parte das pesquisas, no entanto, manteve o enfoque nas dinâmicas sociais no tempo presente dos habitantes do "subúrbio". A tese defendida junto ao Museu Nacional por Karina Kuschnir (1998), Política e sociabilidade: um estudo de antropologia social, privilegiou o papel de seus mediadores abordando a atuação cotidiana de uma família na política eleitoral, com base nas redondezas da fictícia Roseiral. Em sua etnografia, a autora percebeu que a categoria era mobilizada pelos integrantes dessa família durante as campanhas à câmara municipal e assembleia estadual e, conforme os contextos, podia estar revestida de valores positivos ou negativos.

Já a dissertação de João Paulo Castro (1999), Não tem doutores da favela, mas na favela tem doutores. Padrões de interação em uma favela do subúrbio carioca nos anos 90, focalizou uma "favela" de Madureira a partir da constituição histórica de sua vida social e das primeiras intervenções do programa de urbanização denominado Favela Bairro. Castro observou as disputas internas de grupos ligados às "famílias do samba" sobre o controle social e moral da favela, perpassando noções de ilegalidade e informalidade. Como conclusão, indicou que os valores atrelados à "tradição do samba" conformavam discursos poderosos de legitimidade e autoridade entre os próprios moradores da favela, sendo capazes de interferir em suas relações de vizinhança, na elaboração de seu mapa social e moral e no pleito e distribuição dos investimentos governamentais.

Interessado mais especificamente nas dinâmicas que conformam as relações das escolas de samba, Ronald Ericeira (2009), em sua tese de doutorado A reconstrução do passado da Portela na rede mundial de computadores e nas rodas de samba, elaborou uma análise dos discursos sobre o passado da Portela articulado por mediadores diversos. Escola de samba de Oswaldo Cruz, naquele momento a Portela estava há décadas afastada de sua última vitória no campeonato das agremiações, e alguns integrantes elaboraram uma "memória cultural" da agremiação e do subúrbio por meio da exaltação de um passado de glórias, deixando de lado situações vivenciadas como conflitivas. Ericeira focalizou os marcos dessa renovada tradição analisando desde as estratégias de representação na web e nos sambas até a participação específica de alguns mediadores, considerados centrais na busca de valorização da escola. Ao organizar eventos na sede, apresentações da Velha Guarda Show e um show por ano nos vagões do trem (evento conhecido como "trem no samba", realizado no Dia do Samba, 2 de dezembro), esses agentes mobilizaram e atualizaram os sentidos "tradicionais" atrelados à "cultura do subúrbio".

Em todas essas pesquisas, houve destacada preocupação em mostrar a atuação de diversos tipos de agentes mediadores junto aos "suburbanos", produzindo análises que davam destaque às possibilidades de deslocamento do termo e ofereciam novos olhares sobre as noções de moderno/tradicional atreladas a esse território e a sua população. A análise combinada de níveis distintos de escala de atuação de atores sociais fragmentados (empresários, governantes, comerciantes, moradores, indústria cultural, movimentos sociais etc.) e suas lógicas de aliança e conflito ampliaram a complexidade da noção geográfica e identitária do subúrbio, focalizando as dinâmicas constantes de produção de fronteiras e afetos. Por meio de ênfase textual no papel da mediação, tais estudos buscaram demonstrar que conexões simbólicas de diferentes ordens podem ser criadas sem vínculos estreitos com contiguidades espaciais, e diferentes estratégias políticas permearam as usuais representações sobre o "subúrbio" e os "suburbanos".

ENTRE O FACTUAL E O ALEGÓRICO: OS DESLIZAMENTOS DE USO DO SUBÚRBIO CARIOCA

Partindo do levantamento dessa bibliografia, nosso objetivo foi elaborar uma caracterização dos tipos de uso da categoria subúrbio entre os estudos das ciências sociais dedicados à cidade carioca. Nossa intenção não foi esgotar as formas possíveis de acionamento desse termo, mas aventar uma classificação sobre seus modos de entendimento e suas replicações e seus rebatimentos na produção de nossas pesquisas. O que buscamos, portanto, foi refletir sobre o modo como os pesquisadores do urbano têm imaginado e narrado os espaços da cidade e seus habitantes, provocando possíveis leituras e deslizamentos entre os usos do termo. No conjunto de investigações que selecionamos, percebemos como o trabalho de campo e a escrita etnográfica orientaram os modos de fazer pesquisa e se valeram de diferentes alegorias para suscitar nos leitores outras imagens e significados associados aos relatos culturais.

Nesse campo de interpretações e performances textuais, pudemos observar a persistência e a plasticidade da ideia de subúrbio carioca frente aos variados contextos discursivos e às diversas perspectivas teóricas e estratégias retóricas, e mensagens culturais e ideológicas mobilizadas pelos pesquisadores. Essa variedade de olhares tem-se moldado ao longo dos anos, permitindo tanto oferecer inteligibilidade aos fenômenos urbanos como produzir críticas culturais baseadas no desejo de mudança social ou, ao menos, de alguma tolerância frente à diversidade cultural.

Como proporia James Clifford (2011), esse reconhecimento sistemático das alegorias acionadas nas etnografias pode ser útil porque permite revelar diferentes e sobrepostas dimensões políticas e éticas contidas nos textos. Ao explicitar as percepções que orientam as escolhas de nossas narrativas, que consigamos então esclarecer como construímos relatos sobre os outros, sobre nós mesmos e sobre os nossos desejos por intermédio dos outros. O subúrbio carioca é, assim, um dos tantos encontros possíveis entre o factual e o alegórico nas escritas etnográficas, um espaço tanto real quanto imaginado, narrado como forma de crítica social e guiado pelos desejos de transformação social.

NOTAS

1O interesse pelos usos da noção de subúrbio carioca entre os estudos urbanos surgiu durante a realização da pesquisa "Rio dos megaeventos: políticas públicas e efeitos sociais", financiada pelo Edital de Apoio a Grupos de Pesquisa Emergentes no Estado do Rio de Janeiro/Faperj (2014-2016), e se estruturou em diálogos travados no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais e do Cidades - Núcleo de Pesquisas Urbanas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Na realização do presente artigo foram ainda importantes os debates travados durante a apresentação de uma versão preliminar, ocorrida no GT Pensar a cidade no Brasil: limitações, potencialidades e perspectivas, do 40º Encontro Anual da Anpocs (2016); a leitura atenta dos pareceristas anônimos da revista; e as sugestões de João Paulo Castro.

2Adotamos aqui a sugestão de Roberto Cardoso de Oliveira (2006), que propõe uma distinção relevante para o nosso debate entre "sentido" e "significação". Utilizaremos assim ao longo do artigo o primeiro termo para referir o horizonte semântico do "nativo" enquanto o segundo termo será utilizado para designar o horizonte semântico dos pesquisadores do urbano, ou seja, os referenciais teóricos e conceituais constituídos por seus campos disciplinares.

3O estudo de Nelson Fernandes (2011) traz contribuição relevante sobre o processo de construção da noção de "subúrbio carioca", ainda que focalizando especificamente os estudos da geografia. José de Souza Martins (2008), por sua vez, detém-se de maneira instigante sobre os deslocamentos entre as categorias subúrbio e periferia, propondo formas de pensar a noção por meio da experiência histórica e política paulista. Uma abordagem histórica e urbanística do termo subúrbio no Brasil pode ser vista ainda no verbete de Margareth Pereira (2014).

4Notamos também a movimentação desse senso comum em nossas pesquisas individuais, realizadas em contextos urbanos absolutamente distintos. Habitantes do Morro da Conceição, na Zona Portuária, proferiam o temor de que seus locais de moradia perdessem o "ar de subúrbio" e se tornassem "impessoais como na Zona Sul" ao ser confrontados com um processo de intensa transformação urbanística da região (Guimarães, 2014). Da mesma forma, moradores de Deodoro, na Zona Oeste, aludiam por meio da categoria à tranquilidade e à intimidade de vizinhança, que poderiam ser afetadas pelas obras de infraestrutura urbana, segurança e mobilidade relacionadas aos jogos olímpicos (Davies, 2014).

5Não nos escapou, no entanto, o fato de que a noção de subúrbio carioca é mobilizada por outros campos disciplinares de forma igualmente relevante, como pelos estudos de história, geografia, planejamento urbano, arquitetura e urbanismo, letras e comunicação social. Neste momento, porém, operamos com a escolha de analisar os discursos mobilizados por cientistas sociais.

6BIB é publicação composta por revisões bibliográficas encomendadas pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa nas Ciências Sociais (Anpocs) a pesquisadores considerados de notório saber nos campos da antropologia, ciência política, relações internacionais e sociologia. A publicação cobre o amplo período de 1977 (ano de fundação da associação) a 2016 (continua em operação), contando até o momento com 79 números disponibilizados na página eletrônica da associação. O critério de consulta foi a utilização do termo subúrbio nas revisões bibliográficas.

7O critério utilizado para a consulta da Plataforma Capes foi a mobilização do termo subúrbio no título, resumo ou palavras-chave do estudo, bem como seu foco na cidade do Rio de Janeiro.

8Advertimos, no entanto, que não pretendemos produzir a sensação de que essas temáticas tenham sido linearmente construídas e progressivamente ultrapassadas, como paradigmas científicos a superar. Como mostramos ao longo do artigo, tais temáticas se foram superpondo, assim como as linhas de pesquisa acadêmica se foram imbricando umas às outras, muitas vezes em um trabalho de "complexificação" das análises. Tampouco foi nosso objetivo reduzir os autores e as obras a nossas indexações temáticas. Certamente a produção aqui citada é perpassada por questões conceituais, metodológicas e narrativas variadas, que este artigo não teria como contemplar plenamente.

9Em função dos limites de espaço de um artigo, não nos aprofundamos em alguns eixos temáticos relevantes na construção da ideia de subúrbio carioca, como os que tratam mais detidamente de questões de gênero, sexualidade e/ou relações raciais (como, por exemplo, nos trabalhos de Nascimento, 2006; Silva, 2008; Santos, 2010 e Cecchetto, Monteiro & Vargas, 2012).

10O ideal de modernização da cidade promovido pela gestão de Pereira Passos, o movimento eugenista de "limpeza" do Centro e as políticas governamentais de zoneamento (que determinaram a criação de três zonas: urbana, suburbana e rural) produziram a urbanização das áreas margeadas pelo mar localizadas ao sul, ao mesmo tempo em que demoliram inúmeros imóveis de bairros centrais e portuários, causando o deslocamento dessas populações para a Cidade Nova, as áreas periféricas e as favelas (Carvalho, 2001; Chalhoub, 1996; Benchimol, 1992). O imaginário carioca, entretanto, permaneceu mais duas décadas entendendo o subúrbio como toda e qualquer área de aspecto rural afastada do Centro. Uma das obras que confirmam tal leitura é o livro didático de Delgado de Carvalho (1990: 115), de 1926, que, mesmo após a reforma de Passos, representou a cidade pela oposição rural e urbano, justificando essa dicotomia por meio do senso comum que dividia o então Distrito Federal em "cidade velha, cidade nova, bairros da parte urbana e subúrbios". Nesse caso, a categoria subúrbio seria reservada para "a parte rural: Inhaúma, Jacarepaguá, Campo Grande, Santa Cruz e Guaratiba" e manteria uma conexão simbólica com as elites rurais e suas chácaras. Essa forma de representar o subúrbio como área pouco adensada e de construções esparsas acenava para as tensões prementes da década de 1920, como as transformações sociais e políticas pela perda da hegemonia da sociedade agroexportadora, o fim da escravidão, a chegada de migrantes, a ascensão da burguesia e o incremento nos transportes, comunicações e indústria - fatores, entre outros, que levaram o Rio de Janeiro, então Distrito Federal, a ter sua população urbana triplicada em 30 anos (1890-1920). Nesse contexto, o autor concebeu o livro para uso em escolas públicas primárias com a preocupação de incutir nas crianças um sentimento de solidariedade com o passado nacional, o que, para ele, seria a maneira mais eficaz de construir um forte laço de patriotismo (Delgado de Carvalho, 1990: 21).

11As linhas de bonde haviam ampliado a ocupação da cidade ainda na segunda metade do século XIX e teriam permitido o adensamento da população para além da área central. Como apontado por Lysia Bernardes (1990), geógrafa da mesma geração de Soares, essa dilatação da cidade teria sido ainda mais estimulada na passagem para o século XX, com a criação das linhas de trem.

12A perspectiva estruturalista de DaMatta orientou um dos trabalhos da época situado no "subúrbio": a dissertação de Simone Lahud Guedes (1977), que analisou os jogos de futebol a partir de três tipos de discurso: o da narração de uma partida, o discurso da imprensa e o discurso de um grupo de operários da fábrica têxtil de Bangu, a mesma estudada por Vera Pereira. Seu trabalho abordou dois temas centrais da antropologia da época − a identidade do proletariado e a formação de instituições culturais nacionais − e considerou que, "ao lado do carnaval e da umbanda, o futebol compõe esta 'imagem totalizadora da realidade'" (Guedes, 1977: 1).

13Em artigo mais atual, Sandra Carneiro (2009) propôs uma reflexão sobre os usos do termo subúrbio a partir da revisita a seus escritos. A autora identificou três enquadramentos persistentes: a alternância das categorias Zona Norte e subúrbio, numa tentativa de despojar o conceito de subúrbio de seu significado histórico e conteúdo sociológico; o uso da categoria para designar espaços de privação ou carentes de infraestrutura urbana; e o estabelecimento de contrastes entre o subúrbio/suburbano e o conjunto de valores e costumes da dita sociedade mais ampla, reforçando a visão de que os moradores dos bairros do subúrbio não seriam modernos, sofisticados etc. Na análise de seus escritos, Carneiro passou a expressar desconfiança sobre esses enquadramentos, sugerindo que o subúrbio seria mais bem entendido como uma representação (Carneiro, 2009: 214).

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Recebido: 11 de Novembro de 2016; Revisado: 14 de Junho de 2017; Aceito: 03 de Novembro de 2017

Roberta Sampaio Guimarães é professora do Departamento de Antropologia e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e pesquisadora do Cidades - Núcleo de Pesquisa Urbana, da Uerj, e do Laares - Laboratório de Antropologia da Arquitetura e Espaços, da UFRJ. É autora do livro A utopia da Pequena África. Projetos urbanísticos, patrimônios e conflitos na Zona Portuária carioca (2014) e co-organizadora da coletânea A alma das coisas. Patrimônios, materialidade e ressonância (2013).

Frank Andrew Davies é doutor em Ciências Sociais pela Uerj e atualmente é professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), além de pesquisador do Cidades - Núcleo de Pesquisa Urbana e do Cevis - Coletivo de Estudos sobre Violência e Sociabilidade, do Iesp/Uerj. Desenvolve pesquisas sobre cidades, formas de governo, conflitos urbanos e gestão militarizada dos espaços.

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