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Sociologia & Antropologia

Print version ISSN 2236-7527On-line version ISSN 2238-3875

Sociol. Antropol. vol.8 no.3 Rio de Janeiro Sept./Dec. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/2238-38752018v8310 

ARTIGOS

VOCIFERANDO CONTRA O ILUMINISMO: A IDEOLOGIA DE STEVE BANNON

RAGING AGAINST THE ENLIGHTMENT: THE IDEOLOGY OF STEVE BANNON

Jeffrey C. AlexanderI 

IYale University, Sociology Department, New Haven, CT, Estados Unidos. jeffrey.alexander@yale.edu

Resumo

A partir das categorias da sociologia cultural, o texto pretende analisar como Steve Bannon, considerado o principal ideólogo do governo de Donald Trump, vem construindo poderosas narrativas a partir de simplificações binárias do conflito político, purificando os grupos que encarnariam a “verdadeira América” - nacionalistas, brancos e cristãos - e legitimando a exclusão dos demais. Uma vez que o conflito político não se refere somente ao controle de recursos materiais, mas envolve de modo constitutivo disputas pelo significado cultural, procura-se mostrar como a ideologia codificada por Bannon, amplificada de modo poderoso nas performances políticas de Trump, tem sido capaz de produzir efeitos perversos na ordem democrática contemporânea.

Palavras-chave: Steve Bannon; Donald Trump; sociologia cultural; ideologia; conflito político

Abstract

Based on the categories of cultural sociology, the text analyses how Steve Bannon, considered the principal ideologist of the Donald Trump government, has constructed powerful narratives based on binary simplifications of political conflict, purifying the groups that supposedly embody ‘real America’ - nationalist, white and Christian - and legitimizing the exclusion of all others. Since the political conflict does not refer solely to the control of material resources, but involves disputes over the constitution of cultural meaning, the article seeks to demonstrate how the ideology codified by Bannon, powerfully amplified in Trump’s political performances, has been able to produce perverse effects on the contemporary democratic order.

Keywords: Steve Bannon; Donald Trump; cultural sociology; ideology; political conflict

Em fevereiro de 2017, o semblante de Stephen K. Bannon adornava a capa da revista Time e a matéria que se seguia o identificava como “o cérebro de Trump”. David Duke, ex-Grande Mago da Ku Klux Klan, declara que Bannon é o “indivíduo que basicamente está criando o aspecto ideológico do rumo que vamos tomar”, e explica: “a ideologia é, no fim das contas, o aspecto mais importante de qualquer governo”.1 Bannon tornou-se conselheiro informal de Donald Trump em 2011. Cinco anos depois, no pior momento da corrida presidencial de Trump, com indícios de uma derrota esmagadora, Bannon assumiu o cargo de diretor de campanha, transformando uma campanha naufragante em performance vitoriosa. Bannon passou a integrar o governo Trump em janeiro de 2017 como estrategista chefe, mas o deixou em agosto do mesmo ano, em meio a uma nuvem de poeira, servindo de bode expiatório para uma das inúmeras minicrises que perigosamente abalaram o primeiro ano daquela administração.

Semanas após retornar ao Breitbart News2 como presidente executivo, Bannon foi sumariamente demitido, por insistência de sua principal fundadora, Rebeka Mercer. Sob a liderança de Bannon, o Breibart se tornara o mais influente megafone a incitar a direita alternativa [alt-right] norte-americana. Os defensores da democracia americana suspiraram, aliviados. Bannon já era!

Teria ele de fato abandonado a cena performática? Acredite-se ou não que Bannon continue a sussurrar regularmente no ouvido de Trump, sua longa e íntima associação com o candidato Trump, a influência formal que exerceu durante o período de formação de seu governo e a astuta e extensa gestão que desenvolveu no Breitbart nos indicam que seria sensato ficar bem atentos às ideias que motivaram a carreira política de Bannon.

Há mais, entretanto. O que se evidenciou nos seis meses de sua vida política pós-Trump é que Bannon se tornou um herói da cultura pop, a primeira celebridade intelectual da direita alternativa. Desenvolvendo suas posições anteriores e sua fama, bem como seu talento performático, ele conquistou um poder simbólico que a muitos causava perplexidade. As ideias de Bannon sobre a cena política e social, e suas idas e vindas são agora amplamente cobertas pelo mainstream. Bannon concede entrevistas exclusivas ao programa 60 Minutes, e os principais meios de comunicação correm atrás de suas sempre citáveis opiniões. Primeiro americano de extrema-direita desde 1930 cujas ideias têm importância no centro político, o poder simbólico de Bannon não é meramente ideacional, mas material, seus gostos chiques desalinhados [shabby-chic] em moda, seu programa de exercícios e sua dieta, a forma de seu rosto e o seu modo de andar são todos noticiados com excitação. “Ele vestiu uma camisa social azul e branca listrada por cima de uma camisa polo”, noticiava em 9 de março de 2018 o New York Times abaixo da manchete “Steve Bannon terminou de demolir o establishment americano. Agora quer destruir o europeu”. O repórter político estava claramente intrigado e fez Bannon parecer intrigante por consequência: “Em Roma a polo era laranja. Em Milão era azul. Ele tomou água com gás e relatou uma grande versão para o futuro populista global”.3

E há ainda mais. O que Bannon estava de fato fazendo em Roma? “Bannon está na Itália participando de uma turnê europeia para ajudar a construir um movimento populista mais amplo na Europa”,4 o Times havia noticiado uma semana antes. Mesmo confessando “trabalhar em um projeto de criação de um think tank para instrumentalizar como arma ideias econômicas e sociais populistas” nos Estados Unidos, Bannon se dedicava a atualizar e modernizar o aumento súbito da direita alternativa na Europa. “Tudo que estou tentando ser”, disse ao entrevistador, “é a infraestrutura, em nível global, do movimento populista global”. Ele chamou de “herói” o perigosamente antidemocrático primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban. Descreveu como “fascinante” seu encontro com os líderes do partido neofascista Alternativa para a Alemanha. Enquanto se preparava para fazer um discurso na reunião anual da Frente Nacional em Lille, França - onde seria apresentado pela líder do partido e sua amiga, Marine Le Pen -, Bannon confidenciou ser esse o objetivo de sua visita. Contou ao Times que “a mensagem comum que recebeu dos populistas na Europa” foi “o desejo de estabelecer um canal de divulgação midiático para seus pontos de vista”. Bannon declarou: “Eles percebiam o que o Breitbart fizera e queriam algo semelhante em sua própria língua”. Bannon está na Europa “para treinar na linguagem e nas ferramentas das mídias sociais a infantaria de um exército populista”, reportava o Times. E está imaginando “um veículo de caráter sensacionalista e voraz… que engoliria os tradicionais e apáticos jornais europeus”.5

Precisamos olhar além das frases de efeito de Bannon e de suas fotos usando jaqueta Barbour desabotoada e calças cotelê amassadas. Precisamos olhar além de suas aparências e para dentro de sua mente. Qual é realmente a ideologia de Steve Bannon?

Bannon está engajado numa luta feroz contra as ideias e o espírito da democracia. Quando faz menção a grandes pensadores - seus simpatizantes o reputam um intelectual brilhante e leitor voraz -, Bannon acena com admiração para fascistas, fanáticos, ditadores e teocratas reacionários. Para Charles Maurras, por exemplo, o intelectual e político católico francês, fanático antissemita, fã de Mussolini e Franco, líder dos “antidreyfusards” - que perseguiram o capitão judeu do exército falsamente acusado de traição -, ferrenho agitador contrário à Terceira República democrática e secular, sentenciado à prisão perpétua após a Segunda Guerra Mundial por colaboração com a ocupação nazista. Ou para Julius Evola, professor italiano na esquisita, mas apropriadamente nomeada, “Escola de Misticismo Fascista”, ferozmente antissemita; conselheiro intelectual e espiritual de Mussolini; íntimo da SS nazista, padrinho das Leis Raciais que enviaram para a morte milhares de judeus italianos no final dos anos 1930, figura-chave intelectual em torno de quem o movimento neofascista italiano se reconstruiu no pós-guerra. Ao lado de alusões reverentes a tais abomináveis intelectuais reacionários, não há registro ou notícia de referência, única que seja, entre as tantas palavras de Bannon, a ícones da democracia americana, como Washington, Jefferson, Lincoln, Theodore ou Teddy Roosevelt, John Dewey, ou mesmo Ayn Rand.

Bannon se vê como um outsider, equivalente aos heróis políticos que ele transpôs para as telas, como Reagan, Palin e Trump. Semelhante, também, a todos os míticos “homens banidos” a quem o candidato e depois presidente Trump, dirigido por Bannon, se empenhou ostensivamente ele próprio em ressuscitar. Bannon se vê como um certo tipo de católico irlandês. Crescendo como operário, matriculou-se na Virginia Tech, serviu durante vários anos na Marinha, pensando em seguir carreira, e durante outros tantos trabalhou no Goldman Sachs, mas nunca se tornou sócio. Depois disso, Bannon fez a corte a Hollywood durante muitos anos sem, entretanto, chegar a conquistá-la. Em 2004, começou a escrever, dirigir e produzir seus grosseiramente bombásticos pseudodocumentários de direita. Embora se tenham mostrado irresistíveis para a base, mal se fizeram notar no mundo dos independentes ou do pop.

O sentimento de ter sido desconsiderado, ou humilhado e excluído pelo establishment, foi o combustível não só do ressentimento de Bannon, mas de seu poderoso ódio, o tipo de agressão vitalícia e hiperalimentada que cria extremistas, sociopatas, às vezes até assassinos. Seu irmão mais jovem conta que, ainda menino, Bannon (como Trump) não perdia oportunidade de sair na mão. O Bannon adulto foi descrito como alguém que argumenta no grito e para quem “tudo se transforma em luta”. “Ele ama a ideia da guerra”, relata seu colaborador de muito tempo em Hollywood. O próprio Bannon conta ao público: “É preciso ter o espírito de um guerreiro!” E assim ele descreveu o éthos do Breitbart: “Nossa grande crença, um de nossos princípios organizadores centrais na página, é: estamos em guerra... É guerra. É guerra. Dia a dia, propagamos: a América está em guerra, a América está em guerra. Estamos em guerra”.6

Essa furiosa mentalidade de lutar na retaguarda certamente qualifica Bannon como um líder ideológico da direita americana contemporânea. Desde os tempos de reformadores progressistas como Theodore ou Franklin Roosevelt, e mais fervorosa e freneticamente desde os anos 1960, os conservadores, frustrados, vêm criticando de modo contundente o que eles percebem como a expansão aparentemente inexorável do liberalismo - social, cultural, sexual, ambiental, religioso e, sim, até político. Os conservadores alcançaram as posições mais elevadas do poder político, das casas dos governadores [state house] até a Casa Branca, do Congresso até a Suprema Corte, de Nixon até Reagan, Bushes I e II e Donald Trump. Até mesmo a força total do poder de Estado dos conservadores, porém, falhou terminantemente em frear o liberalismo cultural, a firme marcha da incorporação social dos trabalhadores industriais nos anos 1930, dos judeus nos anos 1950 e de negros, hispânicos, asiáticos, mulheres, imigrantes e sexualidades não conformistas no longo meio século que vai dos 1960 até hoje. “Os progressistas venceram na maioria das questões sociais”, reconhece David Brooks, o moderado conservador colunista do New York Times que nos anos 1980 estagiou no veículo da antiga direita National Review e bebeu da fonte de seu fundador William F. Buckley. “O grande prêmio” não tem a ver com “leis [mas] com ganhar a guerra cultural”.7

É impossível subestimar como esse fracasso, tão extraordinário quanto raramente reconhecido, enfureceu a direita cultural e política americana. Tornou-a ensandecida pelo ódio. E essa ira ferveu até transbordar plenamente com o declínio continuado do poder global americano; a ascensão da China; os impasses dos empreendimentos militares; uma economia globalizada, pós-industrial que recompensa a educação e pune a mão de obra não qualificada; e os oito anos do destacado, imperturbável, profundamente polarizado, mas também relativamente efetivo reinado do primeiro presidente afro-americano da América (para que não esqueçamos o insidioso movimento “Birther” que lançou a própria tentativa de Trump pelo poder nacional) (ver Alexander, 2010 e 2014).8

Lá pela metade do primeiro mandato de Obama, a direita americana estava fora de si de frustração. Steve Bannon, Donald Trump e a “alt-right” - a direita alternativa, a nova direita - foram o resultado.

A ideologia de Bannon é construída em torno de códigos binários e narrativas temporais, os primeiros profundamente excludentes, as últimas perigosa e raivosamente apocalípticas.

No cerne da ideologia Bannon há uma série de contrastes extraordinariamente simplificadores entre bom e mau, sagrado e profano. Essa série semiótica cria perigosos outros, cuja existência contínua ameaça a boa gente que constitui o que Bannon descreve como a “verdadeira América” (Alexander, 2003, 2011 e 2017).9

Bannon despreza imigrantes não brancos - hispânicos, leste-asiáticos, sul-asiáticos - e purifica as pessoas que descreve como “americanos nativos”. Essa categoria fantasiosa certamente não se refere aos reais nativos da nação americana, os povos indígenas da América, é claro, e muito menos aos grupos étnicos e raciais mais culturalmente “americanos” de todos, os afro-americanos.

Quais são algumas das outras categorias binárias simplificadoras que animam a ideologia Bannon?

  • - Nacionalistas são sacralizados, globalistas, desprezados.

  • - A propriedade é louvada, a pobreza evidencia desqualificação.

  • - A religião é sempre abençoada, e o secularismo injuriosamente incriminado.

  • - O cristianismo é equacionado com piedade e civilização. Ainda que Bannon às vezes, recuperando suas boas maneiras, acrescente o adjetivo “judaico” à civilização, como em civilização “judaico-cristã”, os judeus como povo ou o judaísmo como religião não fazem parte de sua visão do mainstream nacional (embora Israel faça). Quanto às religiões mundiais não ocidentais, principalmente o islamismo, esqueçam. Bannon as descarta como inimigos ímpios, bárbaros da civilização ocidental.

  • - E não vamos esquecer as “elites”. Bannon vilipendia as elites contemporâneas da América e do Ocidente como desarraigadas, cosmopolitas, egocêntricas e só interessadas no próprio enriquecimento, contrastando- as com “O Povo”, essa entidade vaga, misteriosa, pia que ele e outros populistas evocam de forma tão reverente.

Se se deve resistir a argumentos ad hominem, no que diz respeito a esse último par, sinto-me compelido a uma breve pausa para considerar a flagrante hipocrisia de Bannon. Ao sair da Virginia Tech, cursou mestrado em Georgetown e MBA na Harvard Business School. Possui fortuna pessoal estimada entre 12 e 50 milhões de dólares, derivada em alguma medida de seu trabalho como negociante no superelitizado Goldman Sachs e em grande medida dos direitos parciais de reexibição de Seinfeld com a venda da Castle Rock Productions, que ele ajudou a intermediar em 1993. Que liberais são mais desarraigados, cosmopolitas, ociosos e voltados para o próprio umbigo do que Jerry Seinfeld e seu clã judaico? A riqueza pessoal de Bannon, a independência econômica que lhe permite ser o ideólogo desimpedido que vem sendo há uma década, está profundamente implicada na elite cosmopolita, cultural e econômica de que ele desdenha, e a cuja destruição ele conclama seus seguidores, o “povo” obscurecido composto pelos sujeitos míticos do populismo.

Desviei-me do assunto principal. Voltemos às categorias binárias.

Estados Unidos (puro) Eles (profano)
Povo Elites
Verdadeiros americanos Imigrantes (não brancos)
Nacionalistas Globalistas
Propriedade Pobreza
Religioso Secular
Cristão Não cristão
Ocidente O Resto
Civilização Barbárie

Entre pessoas e instituições agrupadas de um lado e de outro, podem ser imaginadas relações de diferentes tipos. Talvez elas se vejam como oponentes agressivos, mas não necessariamente inimigos. Numa ordem social democrática, o conflito entre oponentes partidários é agonístico, não antagonístico. Bannon vê de outra forma. Não há espaço para a cortesia em seu universo, assim como não há lugar para governança supranacional, não há lugar para árbitros constitucionalmente autorizados a mediar conflitos na cena doméstica em nome da solidariedade mais ampla de uma esfera civil.

Se os lados opostos não são “animigos” [frenemies], mas inimigos, não pode haver regras do jogo mutuamente vinculativas. Encontramo-nos na terra de Nixon, um mundo de encanadores, espiões e mentirosos, de confrontações violentas, extraconstitucionais com o Congresso, a imprensa e a justiça. Bannon inverte a observação de Clausewitz sobre a guerra ser a política por outros meios. Para ele, a política é a guerra por outros meios. Não surpreende que ele tenha prometido que “todo dia, todo dia, será uma batalha”.10

Bannon tece essas categorias binárias tensamente opostas numa narrativa apocalíptica que faz o bem lutar contra o mal em funesta e sangrenta batalha até a morte. Narrativas são histórias com começo, meio e fim. Essas histórias transubstanciam abstratas categorias morais em personagens de carne e osso, protagonistas e antagonistas. As histórias tramam a luta entre heróis e vilões que termina em triunfo glorioso ou em morte aterradora (Alexander, 2012 e 2013).11

Em seu documentário de 2004 sobre Ronald Reagan, In the face of evil, Bannon condensa sua longa lista de perigosos Outros em um meta-antagonista que, recorrendo ao Livro de Daniel do Antigo Testamento, ele identifica como “a Besta”. Contra sombria mescla de imagens e música marciais, o narrador do filme lembra com entonação dramática o banho de sangue e o desespero da Primeira Guerra Mundial, e declara: “Deste pântano febril nasce a Besta”. Referindo-se ominosamente ao “lado sombrio”, a voz que narra cita “bolchevismo, fascismo, comunismo, nazismo, Lenin, Mussolini, Hitler, Tojo [e] Stalin”. É evidente que a Besta de Bannon tem menos a ver com a história do que com o presente. Aqueles que ocuparam o lado sombrio são bestiais, explica o narrador, porque buscaram “o controle do Estado” não em prol de valores, mas do “poder como um fim em si mesmo”. Eles eram os secularistas e cosmopolitas do seu tempo, cuja nietzschiana “vontade de poder” criaria o que Bannon posteriormente denominaria “o Estado Administrativo”. A Besta é a “face do mal” de Bannon, e ela é voraz. No decurso do século XX, a Besta se tornou cada vez mais forte; banqueteou-se não só com a verdadeira América, mas com gerações de liberais frouxos, covardes, patéticos, materialistas e hedonistas demais para enfrentar o monstro numa luta justa.

Só Ronald Reagan sabia “como confrontar a Besta”. Um “radical com visões extremas”, Reagan foi “o único verdadeiro outsider eleito no século”. Antes de Reagan, os liberais “tiveram a esperança de o perigo ter passado”, entoa o narrador, mas Reagan não se deixava enganar. A Besta pode ter ficado quieta, mas continuava lá, do lado de fora, à espreita. Contra essa presença monstruosa, Reagan lançou uma vasta escalada militar, uma política externa belicosa, e uma agenda doméstica colhida da extrema direita. Fiel cristão interiorano, anticomunista, bravo paladino de Deus e da Pátria, Ronald Reagan venceu a Guerra Fria e salvou a pátria - e bem a tempo, pois o Apocalipse era iminente.

Hoje, três décadas depois de ser salva por Reagan, a América de Bannon está mais uma vez em sérios apuros. Em Generation Zero, seu documentário de 2010 que transpõe para o cinema a pseudociência da convulsão geracional proposta por William Strauss e Neil Howe, o narrador de Bannon alerta acintosamente: “a história é sazonal, o inverno se aproxima”. Primeiro veio “A Desintegração” [“The Unravelling”], de 1982 até 2004, quando a cultura do dinheiro reinava, a ética do trabalho se dissolveu e o “eu era realmente Deus”. Agora encaramos a “Crise”, o momento do ajuste de contas final. O que fazemos agora determina se o experimento América falhará ou poderá ser edificado. Se a direita prevalecer, levará, nas palavras de Howe, a “um novo momento fundador na história da América”. Se a esquerda ganhar, será o fim da América. De acordo com um crítico, Generation Zero apresenta uma “infernal e desolada visão de passado, presente e futuro, guiada pela crença mágica no determinismo histórico”.

Tempos violentos exigem táticas violentas. Discurso após discurso, entrevista após entrevista, filme após filme, Bannon conecta sua profecia da “radical sublevação” que se aproxima com a agressiva, muitas vezes violenta, confrontação apocalíptica. “Eu quero fazer tudo desmoronar, destruindo todo o establishment que está aí hoje”, declara, ameaçando não apenas a esquerda, mas forças moderadas à direita. Bannon se caracteriza como leninista e já acenou para o Weathermen, grupo de militantes maoistas que tentaram fomentar a destruição violenta do capitalismo no crepúsculo dos anos 1960.

Bannon não é um conservador, mas um revolucionário. Conservadores filosóficos, como Edmund Burke e Michael Oakeshott, desprezam o pensamento radical e apocalíptico, defendendo o senso comum e a mudança incremental. Muitos iluministas, porém, pensavam o mesmo. Kant alertava: “de madeira tão retorcida quanto aquela da qual o homem é feito, não se pode fazer nada reto”. Nenhum plano diretor, mas em vez disso pequenos passos para o “homem” que somariam um grande passo para a humanidade. Bannon não aceita nada disso. Ao proclamar que “a escuridão é boa”, ele se compara a figuras aniquiladoras como Darth Vader, Dick Cheney e ao próprio Satanás.

Um antigo colaborador do Breitbart sugere: “Bannon não tem nenhuma filosofia política rigorosa, só uma teoria apocalíptica”. Dizer isso, entretanto, é enfatizar a forma narrativa à custa das categorias binárias substantivas sobre as quais ela se constrói. Para Bannon, a vitória na luta climática vai pavimentar o caminho para crenças e políticas reacionárias sobre propriedade, classe, imigração, raça, religião, nacionalismo, gênero e sexualidade. A vitória levaria de volta ao tempo da boa e velha América, quando os americanos eram realmente o Povo Escolhido de Deus.

Em 1973, o francês Jean Raspail publicou um romance intitulado O campo dos santos. O livro narra uma história fantasmagórica sobre imigrantes pardos e negros destruindo a civilização ocidental - literalmente. Um demagogo indiano chamado de “comedor-de-bosta” lidera uma “armada” de 800.000 depauperados indianos de pele escura do subcontinente rumo às costas meridionais da Europa. Causando alvoroço pelo interior, essas “hordas escuras” prosseguem para o norte, multiplicando-se como coelhos, estuprando mulheres brancas e matando homens brancos. Assumem, afinal, o controle de grandes cidades, Paris, Londres e finalmente Nova York. Em 1975, Scribner publicou uma tradução inglesa do livro, que estampava na capa, em letras capitais acima do título: “UM ROMANCE HORRIPILANTE SOBRE O FIM DO MUNDO BRANCO”. A publicação inglesa gerou resenhas mordazes, como expressa esta observação de Kirkus: “Os editores estão apresentando O campo dos santos como um grande evento, e ele provavelmente é, no mesmo sentido que Mein Kampf foi um grande evento”.12 O romance, que saiu de catálogo discretamente, é flagrantemente racista, como seu autor, que agora vive com conforto no 17º arrondissement de Paris. “Este mundo ocidental... lamento dizer, é branco”, declarou recentemente um Jean Raspail de 91 anos a um entrevistador; “não há nenhum outro mundo ocidental senão o branco. É assim, e ponto”.

Por que resgatar um livro obscuro 40 anos após seu fracasso editorial? Porque em 1983 O campo dos santos voltou ao prelo, graças a robustas subvenções de doadores da direita, e, com mais duas reedições desde então, ganhou culto de seguidores em meio à direita alternativa online. É nesse ponto que entra Bannon. Repetidamente, o ideólogo da direita alternativa empregou O campo dos santos como metáfora para incriminar a imigração no presente. “Foi quase uma invasão tipo campo dos santos na Europa central e depois ocidental e do Norte”, sugeriu Bannon em outubro de 2015. “Não é migração. É uma invasão. Eu chamo isso de campo dos santos”, explicou em janeiro de 2016. “Quer dizer, isso é o campo dos santos, não é?”,13 ele perguntou retoricamente a um entrevistador em abril de 2016, prosseguindo com a sugestão de que a crise de refugiados “não calhou de acontecer por acaso. Eles não são refugiados de guerra. É algo muito mais pérfido acontecendo”.14 Uma conspiração, um demagogo de pele escura, uma Armada, uma invasão?

Intitular este ensaio “Vociferando contra o Iluminismo” certamente pode parecer elevar Bannon um pouco demais. Ele leu Locke, Voltaire, Rousseau e Diderot, consultou a Enciclopédia ou frequentou Kant e Tocqueville - os grandes pensadores que defendem a ciência e a humanidade, a liberdade e a igualdade, e os direitos universais do homem? Duvidoso. Ele terá lido Burke, Herder ou De Maistre, Hegel, Nietzsche ou Oakeshott - os grandes pensadores a quem Isaiah Berlin atribuiu a célebre alcunha de contrailuministas? Embora isso, também, pareça bastante improvável, é vital perceber que a ideologia Bannon está profundamente incrustada justamente nessa contranarrativa, na linha do pensamento conservador que desafiou o humanismo emancipatório, no qual se baseiam a política democrática e uma visão esperançosa da modernidade. Bannon é o herdeiro ideológico da reação intelectual contra a modernidade em curso desde a contrarreforma até os dias que correm. Ele é o inimigo de ideias, instituições e movimentos que idealizam o universal e marcham com bandeiras utópicas proclamando verdade, liberdade e igualdade.

Por que a figura que se tornou presidente da mais estável, efetiva e longeva democracia constitucional escolheu um personagem como Steve Bannon como seu Virgílio, seu Sancho Pança, seu acólito, seu “estrategista-chefe”? Como certamente demonstrou a série de embaraçosas asneiras e de fracassos inequívocos que marcaram os seis primeiros meses da administração Trump, não se deve procurar uma explicação para as habilidades políticas de Bannon no nível tático, mas no nível ideológico e estratégico. A luva de veludo de Bannon encaixa confortavelmente no punho de ferro de Trump. A ideologia Bannon são as águas em que Trump nada, nas quais sempre nadou, sem ter consciência de estar no mar. Bannon cristalizou os incipientes mas ferozes sentimentos de outsider de Trump, completou suas ideias truncadas, alçou a nível universitário sua sintaxe de quinto ano.

Entender a ideologia Bannon nos permite compreender não a pessoa Trump, mas o ator político. Para jornalistas e políticos, as performances de Trump pareceram impulsivas, pragmáticas e banais. Se as interpretarmos, porém, levando em conta o roteiro ideológico de Bannon, elas parecem coerentes; elas têm um sentido empolgante, à maneira radical da direita alternativa. Vemos Trump atuando e se pronunciando, mas, muito frequentemente, são as palavras de Bannon que escutamos; foi ele quem escreveu o roteiro da ação e montou a cena. “Quanto à realidade política”, observou um crítico do Washington Post nas semanas que sucederam a eleição de Trump, “é o filme de Bannon, nós estamos nele, e os créditos de abertura acabam de começar a rolar”.15

Bannon funciona como uma droga para melhora de desempenho. O segredo de seu poder sobre Trump, e sobre um amplo segmento do povo americano, tem sido suas habilidades mitopoéticas, escrever o roteiro, preparar o palco, encontrar os atores e dirigir a encenação de forma tão eficaz, que as ideias antidemocráticas cheguem a parecer, para muitos americanos, sensíveis e inspiradoras, ao passo que as ideias democráticas parecem irracionais e profanas. Bannon certa vez chamou Trump de vaso imperfeito, mas nesse empenhado, superaquecido receptáculo humano ele verteu uma poção mágica, uma temível solução.

Bannon é um mitólogo. Roteirizou e produziu um novo e pernicioso filme político, cujas continuações gostaria de realizar. Na primeira performance social, Donald Trump ficou com o papel de protagonista heroico, e Hillary Clinton, Barack Obama, os democratas e as ideias iluministas representaram o Fera Negro16 que o populista loiro oxigenado, aos berros, entrou na arena para matar. Numa ocasião Bannon confidenciou à revista Variety ter “um estilo cinético de edição que busca sobrecarregar e dominar o público”.17 Nos meses que antecederam a eleição de Trump, uma grande minoria dos cidadãos americanos foi de fato dominada, aclamando de pé a produção de Bannon. Nos meses seguintes à eleição, alguns dos espectadores começaram a se contorcer em seus assentos, muitos levantando-se para ir embora. Ativistas e ideólogos na esquerda, enquanto isso, estão criando contraperformances, escrevendo novos enredos e procurando novos heróis.

A democracia é sustentada por um discurso que celebra a autonomia, a racionalidade e a igualdade moral, e por instituições independentes que encorajam o ceticismo, a participação e a livre expressão. Trump, como instruído e projetado por Bannon, quer nos convencer de que o discurso universalista é antiquado e as instituições independentes são disfuncionais. Ele declama as categorias binárias excludentes de Bannon e ataca instituições democráticas centrais: o jornalismo é falso, as pesquisas de opinião pública são fraudulentas, a justiça é tendenciosa, o voto não é conclusivo e o cargo não é vinculativo. Quando reconstruímos a ideologia Bannon, a verdade emerge: Trump e Bannon participam de um processo político que a democracia construiu, mas seu objetivo é destruí-la.

Ninguém, entretanto, pode prever o sucesso performativo. Mesmo os espetáculos com bom financiamento e atores consagrados fracassam na noite de estreia. Peças desconhecidas, exibidas em locais obscuros com atores inexperientes, se tornam azarões de sucesso.

“Eu sou Thomas Cromwell na corte dos Tudor”,18 Bannon uma vez observou. Cromwell era um político astuto e clarividente. Apesar disso, acabou morto, deixado à própria sorte e à morte pelo mesmo rei que ele furtiva e violentamente serviu. Há apenas alguns meses, pensava-se que esse seria o destino de Bannon. “Os últimos passos de um estrategista” foi como a ele se referiu o colunista de opinião do New York Times, Frank Bruni, em uma coluna intitulada “Steve Bannon foi condenado”.19 Mas o anúncio da morte de Bannon foi muito exagerado. A equipe “cosmopolita” liderada pelo genro metrossexual de Trump, Jared Kushner, passa por momentos difíceis, vista em retrospecto como cúmplice na produção russa de “Topa um acordo?”. Trump retirou o país do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas, persistiu na proibição à entrada de muçulmanos, fez um discurso sobre o “declínio da civilização ocidental” na Polônia, defendeu a Supremacia Branca em Charlottesville, implementou a mais regressiva legislação fiscal em mais de um século e, no momento, se encaminha para deflagrar uma guerra comercial global. Esses esforços promovem o particularismo em detrimento do universalismo, sob o disfarce da proteção da soberania nacional, e trazem as digitais de Bannon neles espalhadas. Bannon deixou a Casa Branca, mas continua a caminho de se tornar o primeiro intelectual-ideólogo público quase fascista influente na história americana.

Conseguirá Bannon criar continuações para sua primeira grande produção social? Estará apto a criar a arquitetura da produção simbólica que permitirá o sucesso da performance anticivil europeia? Pode Trump ganhar um segundo mandato sem seu cérebro?

1Von Drehle, David. “Is Steve Bannon the second most powerful man in the world?”. Time, 2 fev. 2017.

2Site de notícias, opiniões e comentários de extrema-direita estadunidense fundado em 2007 por Andrew Breitbart.

3Horowitz, Jason. “Steve Bannon is done wrecking the American establishment. Now he wants to destroy Europe’s”. The New York Times, 9 mar. 2018.

4Horowitz, Jason. “Why Italy’s insular election is more important than it looks”. The New York Times, 2 mar. 2018.

5Horowitz, Jason. “Steve Bannon is done wrecking the American establishment. Now he wants to destroy Europe’s”. The New York Times, 9 mar. 2018.

6Reilly, Steve & Heath, Brad. “Steve Bannon’s own words show sharp break on security issues”, USA Today, 31 jan. 2017.

7Brooks, David. “How progressives win the culture war”. New York Times, 2 mar. 2018, p. A23.

8O autor analisou as eleições e os governos Obama, à luz de sua sociologia cultural, em Alexander (2010 e 2014). [N.E.]

9Para o quadro teórico dessas formulações, cf. Alexander (2003, 2011 e 2017). [N.E.]

10“At annual CPAC, new energy reflects new Trump administration”. PBS News Hour, 23 fev. 2017. Disponível em <https://www.pbs.org/newshour/show/annual-cpac-new-energy-reflects-new-trump-administration>. Acesso em 7 ago. 2018.

11Para o quadro teórico dessas formulações, cf. Alexander (2012 e 2013). [N.E.]

13Mathis-Lilley, Ben. “Bannon, adviser behind travel ban, is fan of novel about feces-eating, dark-skinned immigrants destroying white society”. The Slatest, 6 mar. 2017.

15Hornaday, Ann. “You can learn a lot about Steve Bannon by watching the films he made”. The Washington Post, 2 fev. 2017.

16Trata-se de supervilão fictício que aparece nos quadrinhos americanos publicados pela Marvel Comics. O personagem é descrito como uma versão maligna do X-Man Fera.

17Johnson, Ted. “Docmakers get right to the point: new pics mine political divide”. Variety, 18 jun. 2011.

18Egan, Timothy. “The bombs of Steve Bannon”. The New York Times, 10 mar. 2017.

19Bruni, Frank. “Steve Bannon was doomed”. The New York Times, 15 abr. 2017.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Alexander, Jeffrey C. (2017). The drama of social life. Cambridge, UK: Polity. [ Links ]

Alexander, Jeffrey C. (2013). The dark side of modernity. Cambridge, UK: Polity. [ Links ]

Alexander, Jeffrey C. (2012). Trauma: a social theory. Cambridge, UK: Polity. [ Links ]

Alexander, Jeffrey C. (2011). Performance and power. Cambridge, UK: Polity. [ Links ]

Alexander, Jeffrey C. (2010). The performance of politics: Obama’s victory and the democratic struggle for power. Nova York: Oxford University Press. [ Links ]

Alexander, Jeffrey C. (2003). The meanings of social life: a cultural sociology. Nova York: Oxford University Press. [ Links ]

Alexander, Jeffrey C. & Jaworsky, Bernardette. (2014). Obama Power. Cambridge, UK: Polity . [ Links ]

Recebido: 14 de Junho de 2018; Aceito: 25 de Agosto de 2018

Tradução de Maurício Hoelz

Jeffrey C. Alexander é Professor Lillian Chavenson Saden de Sociologia na Yale University. Com Ron Eyerman, Philip Smith e Frederick Wherry, é codiretor do Center for Cultural Sociology (CCS). Expoente do “programa forte” na sociologia cultural, ele pesquisou os códigos e narrativas culturais que informam diversas áreas da vida social. Entre seus livros mais recentes estão The drama of social life (2017), Obama Power (com Bernadette Jaworsky) (2014) e The dark side of modernity (2013).

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