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Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea

versão On-line ISSN 2316-4018

Estud. Lit. Bras. Contemp.  no.44 Brasília out./dez. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/2316-4018442 

LITERATURA E ESTUDOS CULTURAIS

 

Uma associação itinerante

 

An itinerant association

 

 

Jefferson Agostini Mello

Doutor em teoria literária e literatura comparada e professor da Universidade de São Paulo (USP). E-mail: jefferson@usp.br

 

 


RESUMO

Apesar do seu caráter disciplinar, foi nos congressos da Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC) ao longo dos anos 1990 que se deu um diálogo interessante dos estudos literários com os estudos culturais. Tal diálogo contou, também, com muitos adversários, críticos que prezavam, entre outros, os valores da chamada "civilização ocidental" e defendiam o cânone e a especificidade do texto literário. Analiso neste artigo um conjunto de discursos de agentes representativos desses polos em confronto. Meu objetivo é apreender avanços e retrocessos de uma relação profícua que, entretanto, foi sendo abandonada no processo de profissionalização e especialização da área.

Palavras-chave: estudos culturais, estudos literários, ABRALIC


ABSTRACT

Although its disciplinary aspect, it was in the seminars of the AssociaçãoBrasileira de LiteraturaComparada (ABRALIC), during the 1990's that an interesting dialogue between cultural and literary studies took place. Such dialogue had also many opponents, i.e., critics who appreciated, among others, Occidental Civilisation values, defended the literary cannon and the specificity of the literary text. I analyze in this article an ensemble of discourses from significant agents of these two trends in confrontation. My goal is to apprehend advances and regressions of a fruitful relationship that, however, was left behind in the process of professionalization and specialization of the field.

Keywords: cultural studies, literary studies, ABRALIC


 

 

Passagens à cultura

A Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC) é, provavelmente, a mais numerosa associação brasileira de estudiosos de literatura, e não apenas de literatura comparada.1 Apesar do seu caráter disciplinar, foi em seus congressos que se iniciou e prosperou um diálogo interessante dos estudos literários com os estudos culturais. Tal diálogo contou, também, com muitos oponentes. Alguns não viam com bons olhos a invasão da política propositiva dos estudos culturais, da interdisciplinariedade ou de outros objetos em uma área que, segundo eles, deveria prezar, por aspectos como os valores ocidentais, o cânone e a especificidade do texto literário.2 A minha proposta neste artigo é a de, por meio da análise de um conjunto de discursos de agentes representativos desses polos em tensão – todos publicados nos livros, revistas e nos anais dos congressos da ABRALIC –, apreender avanços e retrocessos de uma relação profícua que, entretanto, foi sendo abandonada com o acirramento da profissionalização e especialização da área. No conjunto, pretendo não apenas assinalar as tentativas de ruptura com essa lógica mas também a timidez com que essa ruptura era buscada, possivelmente porque limitada aos muros institucionais. O meu intuito é igualmente o de sugerir que a história da associação se articula à história recente da crítica literária no Brasil e aos impasses do presente.3

Tomo como ponto de partida um documento sobre a criação da ABRALIC, que está publicado no site da associação:

No verão europeu de 1985, Paris foi sede do XI Congresso da Associação Internacional de Literatura Comparada. As salas da antiga Sorbonne foram escassas para o número de participantes. Nelas circularam especialistas vindos de todos os lugares e era possível encontrar figuras chaves na história do comparatismo. Para os jovens estudiosos, principalmente aqueles oriundos de países como o Brasil, a participação no Congresso da AILC/ICLA significou integrarem-se em um universo de debates onde cruzavam-se línguas, culturas e diversas vertentes metodológicas. Naquele agosto de 1985, na Place de la Sorbonne, os brasileiros presentes decidiram criar a Associação Brasileira de Literatura Comparada. Assim, a ABRALIC surgiu em 1986, em Porto Alegre, no âmbito do I Seminário Latino-Americano de Literatura Comparada, realizado de 8 a 10 de setembro na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com a participação de comparatistas europeus e latino-americanos. A imagem reproduzida no cartaz, nos folders e, depois, nos Anais, era expressiva: o fragmento da cena canibalesca que emoldura a reedição fac-similada da Revista de Antropofagia em suas "dentições" de 1928 e 1929. A Antropofagia foi então o emblema, por sua radicalidade estética e enquanto proposta de reinterpretação cultural do país. Já no I Congresso da ABRALIC, Antonio Candido definiu de forma exemplar o sentido da Associação, ao caracterizá-la como uma "entidade que representa uma fase nova da disciplina em nosso meio. [...] Penso que a Associação Brasileira de Literatura Comparada, ABRALIC, encerra o período que começou pelas manifestações espontâneas, passou mais tarde à prática individualizada, antes de alcançar o reconhecimento institucional. [...] Mas faltava algo importante, e eu diria decisivo: a consciência profissional específica, que se adquire e fortalece sobretudo pelo intercâmbio, os periódicos especializados e a vida associativa, marcada por encontros, simpósios e congressos. Foi o que começou com a ABRALIC" (Carvalhal, 1996, s.p.).

Por meio desse texto memorialístico e de exaltação do momento histórico, escrito por Tânia Franco Carvalhal, podemos inferir que a ABRALIC nasce de uma fusão do comparatismo europeu e latino-americano com o espírito antropofágico, representado, em termos brasileiros, pelas experiências estéticas radicais do modernismo paulista. Ao mesmo tempo, as suas origens cosmopolitas, nos planos estético e crítico, coadunam com a marcha em direção ao profissionalismo reiterada pela fala de Antonio Candido e que seria, de modo geral, uma demanda dos literatos (escritores e críticos) já a partir da década de 1970.4 Contudo, ironicamente, se, por um lado, havia essa demanda profissional nos primórdios de uma associação que ganhava existência na Place de la Sorbonne, isto é, em um espaço que representa não só a tradição literária do Ocidente, mas também a história da literatura e a explicationdutexte, por outro lado, a crítica à especialização, à disciplina e ao cânone literário se tornaria, ao longo da sua primeira década de existência, um dos seus traços.5 O fato é que alguns membros da ABRALIC, pesquisadores da área de letras nucleados sobretudo em universidades dos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Santa Catarina buscaram aproximar à reflexão literária um conjunto de pressupostos dos estudos culturais, questionando métodos e objetos e vislumbrando outras possibilidades de articulação entre as duas áreas.

É, em certa medida, o que lemos já na introdução da coletânea Declínio da arte/Ascensão da cultura, resultado de um evento promovido pelo Núcleo de Estudos Literários e Culturais (NELIC) da Universidade Federal de Santa Catarina e pela gestão catarinense da ABRALIC de 1998, no biênio 1996-1998, ou seja, dez anos depois do primeiro congresso:

O Núcleo de Estudos Literários e Culturais da Universidade Federal de Santa Catarina reuniu, em março de 1997, um expressivo número de pesquisadores em torno do tema Declínio da Arte/Ascensão da Cultura. [...].
Quando pensamos em convocá-los, partimos do sentimento compartilhado de que o cânone moderno unifica e singulariza, porém, ao preço de separar enquanto agrupa e de hierarquizar enquanto une, postulando-se, assim, um princípio de incorrespondência entre práticas culturais (que disseminam processos de hibridação, tradução, transculturação) e políticas nacionais (que regram essas práticas na ordem do discurso) (Antelo et al., p. 7, 1998).6

Se, de um lado, mantém-se aqui o espírito aberto, cosmopolita, que norteou a fundação da ABRALIC, questionando-se as políticas nacionais, de outro, ao denominar as práticas de "culturais", e não de literárias ou artísticas, e de vê-las como disseminadoras de processos caros aos estudos culturais, tais como hibridação, tradução e transculturação, os organizadores põem em suspenso a especificidade disciplinar. E, de fato, a partir da ideia de uma dissonância entre práticas culturais e ordenação discursiva – que visa à canonização e à hierarquização da literatura e da arte –, um conjunto de artigos da coletânea propõe um maior diálogo dos estudos literários e da literatura comparada com os estudos culturais ou, pelo menos, o questionamento do cânone literário e dos seus princípios.Mais ainda, dois artigos em especial, publicados nesse volume, que reúne o esforço de um grupo influente de professores universitários da área de letras, naquele momento na liderança de uma associação bastante representativa, permitem ver, também, o que estava em jogo nas discussões internas à crítica literária brasileira acadêmica na última década do século XX.

No primeiro deles, intitulado "Os livros de cabeceira da crítica", Eneida Maria de Souza, figura importante nos debates ao longo dos anos 1990, evoca o 4º Encontro Nacional dos Professores de Literatura, que aconteceu na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) em 1977, quando "pode-se avaliar as múltiplas vertentes da crítica literária como fruto da atividade universitária, que no momento retomava com grande força as rédeas desse saber" (Souza, 1998b, p. 189), e no qual "um dos tópicos mais debatidos foi, obviamente, a qualidade do ensino nas universidades, ao lado da defesa de uma linguagem menos hermética, verificada sobretudo na apresentação de alguns resumos e teses" (Souza, 1998b, p. 189-190).

A autora refere-se, especificamente, a um artigo da "jornalista Norma Couri, publicado no Jornal do Brasil" que "apresentava, como abertura, o abismo entre escritor e crítica, motivado pela acusação de estar a produção universitária distanciando-se do público, pelo emprego de uma linguagem fechada e sofisticada" (Souza, 1998b, p. 190). Na leitura de Souza, esse estágio "internalista" fazia parte de um processo da construção científica do objeto e do fortalecimento da área dos estudos literários na universidade brasileira (que "retomava com grande força as rédeas do saber", segundo expressão da autora), o que também permitia a essa área conviver "de forma contraditória com a excelência de sua produção e a dificuldade de torná-la mais acessível à comunidade" (Souza, 1998b, p. 190). Percebemos aqui que, apesar de contraditória na sua essência, estaria no horizonte da crítica cultural a superação da fase científica e disciplinar.

Ainda, de acordo com o relato de Souza, um segundo dissenso no evento de 1977 aconteceu entre os professores titulares que defendiam a cátedra, como José Guilherme Merquior, "avessos à democratização do direito de titulação docente, e os que defendiam a criação dos cursos de pós-graduação como fator de melhoria do ensino e da pesquisa no país" (Souza, 1998b, p. 190), entre os quais se encontravam Affonso Romano de Sant'Anna e Silviano Santiago. Em contiguidade a essa discussão, Merquior aproveitou para atacar, também, a "moda estruturalista", isto é, o uso de teorias estrangeiras, retomando, segundo Souza, os argumentos do seu artigo de 27 de janeiro de 1974, intitulado "O estruturalismo dos pobres" e publicado no Jornal do Brasil. Assim, para Souza, Merquior partilhava do posicionamento dos estudiosos de literatura da Universidade de São Paulo, que buscavam tomar distância das teorias estrangeiras, ou melhor, de determinadas teorias estrangeiras. Em contraste, escrevendo a partir de sua posição de herdeira do estruturalismo,7 portanto autointeressada na discussão, Souza busca relativizar os problemas dessa perspectiva teórica, e defende que "a reflexão mais sistematizada, o rigor técnico e a necessidade de sofisticar o instrumental de trabalho, não representavam, como queriam alguns, alternativas reacionárias e em conivência com o regime militar. Os resultados do esforço despendido naquela época, bem como a resistência às acusações desse tipo, mostram-se hoje bastante enriquecedoras" (Souza, 1998b, p. 191-192).8

Ou seja, a autora lê o pós-estruturalismo, as perspectivas pós-modernas e os estudos culturais em solução de continuidade com o estruturalismo francês, e não em ruptura com ele. Da mesma forma, articula a abertura epistemológica à abertura institucional. Ambas visariam a uma maior democratização da universidade. Por exemplo, o conceito de texto, que substituía o de literariedade, seria mais aberto, mais atento às questões culturais: "Os discursos das ciências humanas, como da antropologia, ao descentrar o eixo dos valores etnocêntricos, propiciou ainda a quebra da hierarquia dos discursos, aguçando o interesse pela valorização de textos considerados marginais pela cultura oficial" (Souza, 1998b, p. 192). Assim, "a invasão da terminologia crítica – de origem basicamente francesa" era vista tanto pela vertente sociológica e marxista, preocupada, sobretudo, com as questões brasileiras, quanto pela estilística e a filologia, que saíam em defesa de uma maior especificidade do texto artístico – mas no sentido de elevá-lo à condição de monumento – como uma ameaça. Em outras palavras, para Souza, ao contrário do que pensavam os marxistas da Universidade de São Paulo – que,em sua visão, eram conservadores –, o que era inovador e revolucionário, e que os assustava por isso, eram as teorias francesas mais contemporâneas. Portanto, mesmo que os anos 1990, de acordo com ela, capitaneados pela vertente pós-estruturalista e as inclinações pós-modernas da crítica, sejam anos de clara revalorização da história e do exercício da prática interdisciplinar e cultural, eles não existiriam sem a fase anterior, isto é, o final dos anos 1970, indispensável, por seu aspecto menos elitista e textualista – apesar de paradoxalmente, e segundo ela própria, hermético e inacessível – para a relativização dos poderes da literatura. Em paralelo, haveria aí, também, uma retomada do diálogo entre a academia e a esfera pública:

A proliferação de outros meios de divulgação do saber, como as revistas culturais, os jornais e a televisão irá acarretar transformações no discurso crítico. Uma vez sensível aos temas gerais e munido de dicção mista, esse discurso terá condições de estabelecer a ponte entre a academia e a esfera pública, através dos inúmeros meios de comunicação de massa (Souza, 1998b, p. 193).

Trata-se, como se vê, de semear articulações, continuidades entre o trabalho fechado, do especialista, e o aberto, dos estudos culturais, entre o discurso acadêmico e o discurso crítico dirigido a um público mais amplo. Esse objetivo, que talvez seja mais bem compreendido se for contextualizado, isto é, trazido para o calor dos acontecimentos, é o de romper, de um lado, com a pureza do literário e com as análises especificamente literárias. Não menos importante no texto é o estabelecimento de uma ponte entre o estruturalismo e os estudos culturais ou a chamada crítica cultural –desfiliando-se a autora da aclimatação americana da desconstrução –, por meio dos quais penetram, nos estudos literários, as políticas de representação e a crítica do cânone ocidental. Por isso a hipótese de que

Os jovens mestres de 1977 e os não menos jovens orientadores dessa época participam, hoje, de forma ativa, deste outro debate, que, ao contrário do que se poderia pensar, não constitui motivo de espanto. O atual, com algumas diferenças, na realidade já começou há muito tempo, trazido pelo seu reflexo no "IV Encontro de Professores de Literatura", em que se discutiu a hegemonia de métodos analíticos e a postura elitista de muitos de nossos intelectuais (Souza, 1998b, p. 194).9

Porém, o desejo de ruptura, ao final do texto, acaba se atenuando. Ali, não a hegemonia, mas o lugar de destaque do literário será reivindicado. Isto é, mesmo após ter afirmado um parágrafo antes que "a prática interdisciplinar, iniciada de forma ainda incipiente naquela época, serviu de base para as futuras incursões feitas por estudiosos do discurso literário, na sua relação estreita com outros discursos" (Souza, 1998b p. 194), que, "à diferença da interdisciplinaridade praticada naquela época, quando o método hegemônico da linguística exercia um papel chave na articulação interdiscursiva, tem-se atualmente uma relação que não se pauta pela subordinação, mas pela coordenação e contaminação entre os discursos", a autora, concluindo o seu artigo, enaltecerá a "função articuladora e conceitual" do discurso literário, o que o manterá "numa posição de destaque – e não de hegemonia – diante dos demais discursos, considerando-se que o declínio do paradigma científico foi responsável pelas transformações operadas nos mais distintos discursos das Ciências Humanas" (Souza, 1998b, p. 194). O destaque do literário, que deveríamos entender menos como uma verdade a priori do que como uma produção de verdade, significa principalmente um lugar de fala já assegurado, de que é difícil abrir mão. Há, portanto, na argumentação de Souza, um risco calculado, que reitera uma divisão já bastante acentuada dos campos disciplinares. Como veremos, essa preferência da autora pelo literário voltará com mais ênfase alguns anos depois.

Mais radical que Eneida Maria de Souza, cujo coração ainda balança pela literatura e pelos antigos mestres, Silviano Santiago, um desses mestres de 1977, escreve o texto de abertura do volume Declínio da arte/Ascensão da cultura. Nele, busca opções para o lugar da literatura na cena cultural brasileira. Intitulado "Democratização no Brasil – 1979-1981: cultura versus arte", Santiago circunscreve "o momento histórico de transição do século XX para o seu 'fim' pelos anos 1979 a 1981". De acordo com o autor,

nesses três anos a que estaremos nos referindo, a luta das esquerdas contra a ditadura militar deixa de ser questão hegemônica no cenário cultural e artístico brasileiro, abrindo espaço para novos problemas e reflexões inspirados pela democratização no país (insisto: no país, e não do país). A transição deste século para o seu "fim" se define pelo luto dos que saem, apoiados pelos companheiros de luta e pela lembrança dos fatos políticos recentes, e, ao mesmo tempo, pela audácia da nova geração que entra, arrombando a porta como impotentes e desmemoriados radicais da atualidade (Santiago, 1998b, p. 12).

Entre as características dessa nova geração está a "ousadia metodológica", que Santiago vê no poema que "se desnuda dos seus valores intrínsecos para se tornar um mediador cultural, encorajando o leitor a negociar, durante o processo de interiorização do texto, a própria identidade com o autor" (Santiago, 1998b, p. 14). Então, e em uma perspectiva que não dista muito da contracultura dos anos 1960-1970,"dar significado a um poema, ainda que passageiramente, é torná-lo seu, indiciador de uma resposta cultural efêmera/definitiva sobre a identidade do indivíduo que o lê e do grupo que – pela mão a mão dos textos e do baseado, pelo boca a boca das conversas e pelo corpo a corpo das transas amorosas – passa assim a existir" (Santiago, 1998b, p. 14). Em outras palavras, o poema, nessa perspectiva, não é propriedade nem do poeta, nem do crítico profissional, assim como está longe de se constituir em uma obra fechada ou orgânica a ser fruída silenciosamente por um leitor solitário; ele aparece, antes, como um lugar de passagem cuja função é desfazer as certezas identitárias. É importante ter essa perspectiva em mente, pois, como veremos, ela será confrontada, cinco anos depois, com o seu oposto, no congresso mineiro da ABRALIC.

Ainda, ao revisitar entrevistas concedidas ao livro Patrulhas ideológicas, organizado por Heloísa Buarque de Hollanda (apud Santiago, 1998b, p. 15), Santiago destaca, entre outras, a da cientista social Lélia Gonzalez, "negra e carioca de adoção". Segundo ele, essa pesquisadora questiona "a assimilação do negro à política de esquerda hegemônica, herdada dos anos 1950 e consolidada nos anos de repressão" (Santiago, 1998b, p. 15), ao mesmo tempo que salienta "o papel primordial, e não mais secundário, que a cultura, no caso a negra, passa a ter nas lutas políticas setorizadas, nacionais e internacionais" (Santiago, 1998b, p. 16). No lugar do discurso universitário, dos negros politizados de São Paulo, Gonzalez reivindica a experiência prática de uma cultura relegada às margens da história, com seu vocabulário e entidades próprias. Se um dos alvos aqui é a produção intelectual de inspiração marxista, há também, no elogio, reiterando observações de Eneida Maria de Souza, um desejo de abertura das disciplinas, dos objetos (vide o termo "cultura"), das metodologias, além da reivindicação de mediadores vindos de baixo, isto é, dos estratos marginalizados da população brasileira.

Daí também a eleição ousada de um potencial aliado, o professor da Universidade de São Paulo e músico José Miguel Wisnik, que pertenceria ao campo do "inimigo". Por meio dele, Santiago evoca a música popular comercial, buscando introduzi-la como objeto de estudo legítimo, inclusive para a área de literatura. De acordo com Santiago,

as Faculdades de Letras – formadoras de "literatos natos", segundo a expressão brejeira de Heloisa [Buarque de Hollanda], e dedicadas tradicionalmente ao estudo da cultura duma minoria, no caso a letrada, que se manifesta e dialoga pelo livro – são despertadas para a cultura da maioria.

São despertadas pela avassaladora presença da música comercial-popular no cotidiano brasileiro. Por estar informada e formada pelo Estruturalismo francês e pelos teóricos da Escola de Frankfurt, o despertar da minoria letrada não foi pacífico. É surpreendente, por exemplo, que a primeira crítica severa à grande divisão ("theGreat Divide", segundo a expressão já clássica de Andreas Huyssen) entre o erudito e o popular com o consequente rebaixamento deste, tenha partido de um jovem intelectual com formação na Universidade de São Paulo, o professor de Letras e músico José Miguel Wisnik. Mais surpreendente, ainda, é que dele tenha partido a primeira leitura simpática e favorável do cantor Roberto Carlos, ainda que, para tal tarefa, o crítico tenha de se travestir pela fala da sua mulher, caindo literalmente numa "gendertrap" (Santiago, 1998b, p. 17).

Santiago se refere ao artigo de Wisnik "O minuto e o milênio ou Por favor, professor, uma década de cada vez", em que este, desafiando a má vontade de Theodor Adorno para com a música popular, percebe a riqueza e a complexidade da MPB. Ainda, com o foco no interesse de Caetano Veloso e outras figuras importantes por Roberto Carlos, o professor de literatura da USP busca entender o fenômeno e aí, de acordo com Santiago, cai na armadilha do gênero (gendertrap), já que Wisnik teria pedido ajuda a sua mulher, sentindo-se impossibilitado para decifrar o enigma: "Para falar um pouco mais de Caetano a partir de Roberto Carlos 'é preciso assumir a fala rebaixada da mulher'" (Santiago, 1998b, p. 20). Assim, do ponto de vista de Santiago, embora o crítico uspiano "avance" em perspectiva analítica e em valorização de um objeto antes rebaixado, encontra-se desatento às questões de gênero. A mulher, no caso, estaria para a cultura de massa como o homem está para a cultura erudita, lembra Santiago, em nota de rodapé, na qual se refere justamente ao capítulo "Cultura de massa como mulher: o outro do modernismo", do livro de Andreas Huyssen (apud Santiago, 1998b, p. 17) intitulado Afterthegreat divide – modernism, massculture, postmodernism.

Um último exemplo, para Santiago, de transformação no domínio da crítica cultural e do interesse desta pela música "popular comercial" (Santiago, 1998b, p. 20) é a dissertação de mestrado de Cláudia Matos, defendida na PUC-RJ, em 1981, sobre o samba de malandragem. A partir de uma resenha sumária desse trabalho, ele chama a atenção para o fato de o malandro surgir como um "ser de fronteira", elemento de mediação social, "ser capaz de manipular a linguagem, emprestando-lhe efeitos surpreendentes de polissemia", desafiar, pela paródia e pelo pastiche, a questão da autoria, tema caro tanto à teoria literária dominante à época, desafiar também a propriedade e a indústria da música que começava a se instalar no Brasil partir da ideia de parceria e de comunidade: "todos e cada um no morro são parceiros potenciais. A parceria é distribuída pela comunidade inteira" (Santiago, 1998b, p. 22).

Observemos que Santiago, tanto no caso de Gonzalez quanto no caso de Matos, elege práticas cariocas e vinculadas à cultura negra e à antropologia, às quais atribui valor positivo, em contraposição ao mundo intelectual paulista, sociológico e marxista. Por isso, segundo ele, Wisnik "avança", mas até por ali. Nesse sentido também a visão de Silviano Santiago da geração de críticos culturais de esquerda que iniciam seus trabalhos no final da década de 1970 se choca com o pessimismo da velha esquerda. Esta segue buscando acertar a conta com o passado recente e não se dá conta de que os tempos mudaram:

Para eles [da velha esquerda], a anistia no Brasil, concedida a todos e qualquer um por decreto-lei, não deixou que o país acertasse contas com o seu passado recente e negro. Desde então, sem planos para o futuro, estamos mancando da perna esquerda, porque o passado ainda não foi bem exorcizado. Nesse sentido e dentro do pessimismo inerente à velha geração marxista, a aposta na democratização, feita pelos artistas e universitários entre os anos de 1979 e 1981, abriu o sinal verde para o surgimento nas esquerdas de uma "cultura adversária" (Santiago, 1998b, p. 23).

Chama a atenção, na passagem, o uso do par "artistas e universitários", em vez de, por exemplo, artistas e intelectuais ou artistas e críticos. Isso indica que a mediação, mesmo com o surgimento de uma outra cultura, popular e urbana, e não mais folclórica, será feita a partir da instituição universitária, que é, aliás, o lugar de fala dos três críticos nomeados por Santiago – em nenhum dos textos comentados por esse autor, nem no seu texto, nem no de Eneida Maria de Souza, a instituição é questionada ou trazida à baila como um problema ou um limite para o pensamento e para a produção intelectual como um todo. Assim, a demanda do crítico é sobretudo em torno de uma transformação do pensamento – sublinhe-se – universitário e de esquerda, no sentido de ampliar os seus objetos, os seus métodos e, consequentemente, o seu contato com a cultura dos de baixo. Em outras palavras, ele pede que, de literária, a crítica se torne cultural e, diferentemente de Eneida M. de Souza, sem veleidades literárias.

O ápice dessa demanda, no que diz respeito aos estudiosos de literatura associados da ABRALIC, ocorreria no congresso de 1998, cujo tema foi, justamente, "Literatura comparada = estudos culturais?", e em cuja revista, resultante desse congresso, retornam as pautas do colóquio de 1997. No caso, os textos de Eneida Maria de Souza e Silviano Santiago abrem o número 4 da revista da Revista de Literatura Comparada, de 1998. Junto a um outro texto de Wander Melo Miranda, eles formam uma espécie de bloco.

A apresentação desse quarto número da revista da ABRALIC é de Raul Antelo. E, se Antelo, mais do que tomar partido, opta por explicitar os lados do debate, vendo com reticências o pluralismo dos estudos culturais, mas não deixando de se posicionar em prol de um "multiculturalismo específico", isto é, "latino-americano" (Antelo, 1998, p. 9), Wander Melo Miranda, no texto de abertura, retoma o debate proposto por Silviano Santiago no texto do colóquio Declínio da arte/Ascensão da cultura. Parafraseia, inclusive, um fragmento desse texto e conclui o seu artigo da seguinte maneira:

Como um antropólogo que não precisa deixar seu país, para lembrar aqui outra formulação de Silviano Santiago [em Vale quanto pesa], o crítico contemporâneo anula a face endógena do intercâmbio entre os textos e culturas, com um pé cá e outro lá: dentro e fora dos espaços geográficos e disciplinares. Essa postura lhe permite problematizar o local na sua relação com o global, mais interessado no hiato inerente a uma visão duplamente próxima e distanciada do objeto – literário, artístico, cultural – do que nas certezas a que levam as teorias da identidade (Miranda, 1998, p. 17).

Nesse trecho, Miranda elabora uma síntese bem acabada da posição brasileira mais sensível aos estudos culturais. Se, de um lado, ela não abdica do objeto literário, que segue nomeado, de outro, não adere completamente a ele; se não abdica do seu país, enxerga-o antes como um espaço privilegiado a partir de onde se reflete, do que sobre o qual necessariamente se reflete; e, por fim, se não abdica das políticas de identidade como forma de questionar uma suposta identidade homogênea, não adere por completo a elas, optando pelas práticas culturais. Assim, Miranda busca reabilitar o que Silviano Santiago já havia proposto sob o nome de "entre-lugar", que, para Miranda, representa um hiato a partir de onde se pensam os objetos, sem necessariamente incendiar a disciplina. Quer dizer, o edifício da literatura segue em pé, mas a crítica não se inibe, de um lado, em mostrar as suas rachaduras e, de outro, em privilegiar os por assim dizer insubmissos, até porque, no final, eles representariam a novidade.

O texto logo na sequência é de Eneida Maria de Souza, que se posiciona, outra vez e com vigor, contra agendas que julga conservadoras. Propõe a abertura da teoria e da crítica literárias, retomando o argumento do texto publicado no volume Declínio da arte/Ascensão da cultura, mas agora em debate franco com os que apostam em um controle maior dos pressupostos e dos objetos. O título do artigo, "A teoria em crise", não podia ser mais sugestivo. Afinal, trata-se também de uma resposta a uma fala, pronunciada por um ardente defensor da teoria, Luiz Costa Lima, nas sessões da ABRALIC, em 1996, no Rio de Janeiro. Em contraponto, Souza afirma que "a preocupação do crítico [Costa Lima] é pelo resgate da prática teórica como forma de controle do 'armazém de secos e molhados' em que se transformou a operação interdisciplinar" (Souza, 1998a, p. 25). Mais ainda:

Sem concordar com o que Costa Lima propõe, principalmente quanto ao clima do 'vale tudo' e da premência em delimitar o campo da teoria literária como saída para o caos, acredito na necessidade de serem consideradas posições teóricas que funcionem como articuladoras das proposições de análise e como elementos dignos de operar o distanciamento crítico. Nesse sentido, deverão ser respeitadas as pluralidades interpretativas, levando-se em conta o inumerável conjunto de novos objetos até pouco tempo desconsiderados pela crítica, como os estudos das minorias, dos textos paraliterários, da correspondência, do memorialismo, e assim por diante (Souza, 1998a, p. 25).

De fato, algo do que Souza vislumbra em seu texto parece ter se efetivado em algumas pós-graduações brasileiras em literatura: tornaram-se mais comuns dissertações, teses, ensaios e livros com certa abertura teórica e sobre objetos novos que, eventualmente, transcendem a linguagem literária, apesar da preferência por essa linguagem.10 No entanto, os críticos culturais da década de 1990, Souza entre eles, construíram sua legitimidade principalmente nos estudos literários ou a partir deles. Isso condiz, provavelmente, com o pouco reconhecimento que colheram fora de seu campo específico.

Na própria revista que estou analisando, no texto subsequente, Santiago demonstra como pôr em prática o conjunto de intenções de Souza, nesse caso, a partir de objetos literários e canônicos. Por meio de uma leitura de alguns contos e histórias de Borges, passando por José Lins do Rego e chegando a Stevenson, Santiago demonstra como a literatura pode se constituir em um antídoto contra as posições que querem conservá-la. O ensaio, cujo título é "A ameaça do lobisomem" (1998a), constrói uma arqueologia dessa figura híbrida, demoníaca, transnacional, tocada pela ideia de transformação e impureza e que é, no fundo, uma metáfora da própria literatura e da crítica tal como Santiago as concebe. O lobisomem já aparece em Borges, também é personagem importante em Fogo morto, de José Lins do Rego, na figura do mestre Amaro,mas é na obra de Stevenson, anterior ao modernismo, e apreciada por Borges, que ela ganha força. Nesse sentido, Santiago se opõe, também, ao modernismo (e, por extensão, ao mito em torno do modernismo paulista), que ele vê como um movimento de construção do cânone e anulação da transformação: "em lugar de dar força ao bem como modelo ficcional modernista, a violência stevensoniana dá forças ao mal que existe no ser humano móvel, passível de ser transformado em algum outro ser extraordinário" (Santiago, 1998a, p. 43). Referindo-se a The strange case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde, em tradução brasileira, O médico e o monstro, Santiago assinala: "O universo da transformação é o da impureza no mercado londrino. Do momento em que o médico utiliza apenas a pureza dos produtos que são comercializados no mercado, não é mais possível o jogo das transformações" (Santiago, 1998a, p. 44). A pureza, escreve, "coagula o monstro", é uma forma de puritanismo. E o modernismo, e as teorias da identidade e do universal que o acompanham, transformam o escritor e o escrito em estátua ou, ainda, por meio de estratégias de identificação, acabam assim com a sua potência.

 

Reposicionamentos

Com efeito, a década seguinte botaria o monstro à prova, pelo menos no âmbito da ABRALIC, mesmo que a sétima edição do evento, intitulada "Terras e gentes", indicasse uma suposta vitória dos estudos culturais, com as presenças internacionais, em Salvador, na Bahia, de Stuart Hall, Paul Gilroy e GayatriSpivak, e com a palestra de abertura de Silviano Santiago. Em artigo publicado no número 8 da Revista de Literatura Comparada e no dossiê comemorativo dos 20 anos da associação, intitulado "ABRALIC: o passado, o presente e o futuro", a presidenta da edição baiana do evento, Evelina Hoisel, interpretou o evento da seguinte forma:

Apesar das vozes discordantes, "Terras e gentes"adentrou-se em questões que afirmam o diálogo e o entrecruzamento entre estudos literários e estudos culturais, fazendo do espaço limiar e interdisciplinar, já anunciado desde o 1º Congresso, uma efetiva rede de trocas e de interlocuções que abalam e desconstroem a antiga perspectiva positivista, calcada em um desejo de fixar os saberes através de uma disciplinarização do conhecimento. A própria constituição da ABRALIC, sempre em trânsito espacial entre as diversas instituições e os territórios geográficos nos quais aporta a cada dois anos, expande-se através dos trânsitos epistêmicos e interdisciplinares, pondo em diálogo as mais diversas formas de saber, fazendo implodir os limites disciplinares.

A partir dessas pontuações, pode-se perceber que o 7º Congresso foi montado dentro de um campo de forças que caracterizou a Associação de estudiosos desde a sua criação, em 1986, mas cujos impasses foram sinteticamente explicitados doze anos depois, na pergunta do 6º Congresso: "Literatura Comparada = Estudos Culturais?"Ao formular a questão dessa maneira, percebe-se o desejo de equacionar o impasse, de afirmar o múltiplo e a dissolução das fronteiras entre os saberes (Hoisel, 2006, p. 92).

Em certa medida, Hoisel doura a pílula, em concordância, aliás, com o próprio gênero memorialístico de seu texto. Porque, embora seja perceptível a predominância de representantes dos estudos culturais em Salvador, é importante afirmar que tanto a multiplicidade quanto a dissolução de fronteiras a que o texto alude teriam sido obtidas por meio de disputas e da tentativa de silenciamento de vozes dissonantes da associação, que, entretanto, não se mantiveram apaziguadas e, mais ainda, esperaram o momento certo para a revanche. Um primeiro passo nesse sentido é o colóquio intermediário, que antecedeu o congresso de 2002 da ABRALIC e que, como esse, foi realizado em Belo Horizonte, um ano antes. O volume resultante do colóquio,11 intitulado Valores: arte, mercado, política, traz pesquisadores de outras áreas à discussão sobre arte e literatura, como a psicanalista Maria Rita Kehl, o sociólogo Sérgio Miceli e a economista Maria Regina Nabuco, além de críticos literários que visam à continuação do debate sobre o cânone iniciado no evento intermediário de 1997. É perceptível, contudo, no conjunto do material, uma certa tendência à revalorização da obra de arte, e não apenas da literatura. Talvez isso se dê porque outros elementos de reflexão comecem a entrar com mais força na pauta dos membros da associação, entre eles, o mercado e a globalização. Se já estavam de certo modo presentes, ainda não perturbavam os críticos literários mais próximos aos estudos culturais a ponto de fazê-los repensar as suas posições.

O texto de apresentação encarna bem essa ambiguidade entre a ruptura e a volta atrás. Logo no seu início, os organizadores do volume, Reinaldo Marques e Lúcia Helena Vilela, sinalizam que "não são mais pertinentes posições caóticas fundadas tanto num pensamento binário, com sua lógica opositiva e excludente, quanto em privilégios que asseguram a determinados discursos ou campos disciplinares a capacidade de transcendência e totalização" (Marques e Vilela, 2002, p. 7). Indicam ainda que

a retomada da questão clássica dos valores, na passagem do século 20 para o 21, não objetiva afirmar ou privilegiar valor algum, quer absoluto, quer relativo. Move-a, antes, o imperativo do próprio valor que [...] sustenta a vulnerabilidade de todo e qualquer valor à atribuição crítica. Isso quer dizer que devemos estar sempre atribuindo valor e avaliando os próprios valores, inclusive o valor mesmo, num exercício permanente de reflexividade, cientes de que a valorização constitui uma necessidade e de que ninguém fica de fora do jogo do valor. Na prática, estamos obrigados a lidar com "a autocontradição radical e o paradoxo invencível do valor", nas palavras de Connor, que parece sustentar a impossibilidade de reconciliação entre valores absolutos e valores relativos, a exemplo do ético e do estético. Mais importante do que a defesa intransigente de um desses polos, é a reflexão acurada sobre como tais valores interagem uns com os outros, alargando suas formas a partir do próprio antagonismo; é a necessidade de estarmos sempre pensando as condições e os processos de produção dos próprios valores (Marques e Vilela, 2002, p. 8).

Se esse é, em síntese, o objetivo geral dessa edição, isto é, pensar as instâncias de produção do valor, nessa mesma apresentação, ao se tratar do conteúdo de cada artigo, o leitor se depara não só com indicações de uma re-hierarquização dos discursos, como também com perspectivas que privilegiam o literário, destacadas pelos próprios organizadores na apresentação, o que sugere que, ao contrário das coletâneas e números anteriores da revista, há menos homegeneidade da produção crítica, em termos dos seus pressupostos teóricos.

Vale observar como o texto de Beatriz Sarlo – o segundo da coletânea – é apresentado pelos editores: "o seu argumento [de Sarlo] básico consiste na defesa do papel da literatura e da arte na esfera pública pós-moderna" (Marques e Vilela, 2002, p. 9). Ainda, "ao criticar a exigência de totalização feita à arte e às ciências humanas, ela [Sarlo] postula a literatura e a arte como discursos, indeterminados e indeterminantes, que remetem ao incompleto, à morte, ao irreconciliável, e cujo potencial crítico deve ser preservado frente às exigências do mercado" (Marques e Vilela, 2002, p. 9). De fato, o texto de Beatriz Sarlo, intitulado "A literatura na esfera pública" busca resgatar o papel crítico do texto artístico a partir das ideias de dificuldade e de complexidade, como forma simbólica que resiste à identificação. Propõe a passagem do texto à literariedade, para usar o binarismo empregado por Eneida Maria de Souza. De acordo com Sarlo, "os objetos de arte são artefatos complexos sob uma perspectiva ideológica, semântica e formal. E são esses objetos que se encontram hoje no meio do fogo cruzado das noções advindas dos estudos culturais e da indústria cultural" (Sarlo, 2002, p. 39). É como se, para Sarlo, a dificuldade da obra de arte, e não a identificação com algum grupo ou indivíduo, pudesse chamar a atenção do leitor para as questões complexas da realidade social. Assim, mesmo que se trate de conectar os indivíduos à esfera pública por meio da arte engajada antissentimental (de que o filme Shoah, de Claude Lanzmann, seria, para Sarlo, um exemplo) ou preservar o "seu potencial crítico, que envolve a capacidade de estabelecer um diálogo que ilumine conflitos morais, sociais, políticos e estéticos", e mesmo que ela reconheça que "sob uma perspectiva sociológica, a noção de arte e literatura corresponde a uma formação elitista na qual o leitor (ou o "visionador") foi duramente treinado em instituições especialmente dedicadas a isso" (Sarlo, 2002, p. 43), há, para Sarlo, a contraposição da arte a outras produções, que estariam comprometidas com as forças do mercado e, ao mesmo tempo, com os estudos culturais.

É preocupada com ele, o mercado, que escreve Eneida Maria de Souza em um dos textos mais intrigantes da coletânea, sobretudo porque nele a autora parece divergir de posições que vinha construindo sistematicamente dentro da ABRALIC. Enquanto Silviano Santiago mantém a coerência, no seu texto "Artelatina", assim como Raul Antelo, em "Valor e pós-crítica", evita o "grande texto", numa crítica aberta às posições "desinteressadas" de Leyla Perrone-Moisés, Eneida Maria de Souza, de sua parte, cujo texto fecha o volume, contraporá à indústria cultural o que entende como "poética dos caracóis", isto é, "a metáfora da criação artística como exercício de prazer e sem finalidade prática", que ela retira do conto "Os mínimos carapinas do nada", de Autran Dourado. Para ela,

é possível conceber [nesse conto] a supremacia do gosto sobre os vinténs, do conceito de arte desprovido de uma obrigação em servir a alguma causa além dela, o que ultrapassaria o seu fazer e ou sua integridade. Intransitiva e centrada no culto da sabedoria como resultado do exercício de paciência e de sofrimento, a poética dos caracóis poderia remeter à teoria da arte pela arte, defendida por Kant e por outros que o seguiram. Na poética barroca de Autran Dourado, com seus enrodilhados e caracóis, o que mais se valoriza é o fazer literário, o processo criativo como razão de ser de toda arte, ao considerar a experimentação como o desejo infinito de combate à paralisia e à morte (Souza, 2002, p. 188).

Nesse sentido, Souza parece abolir o "texto" em prol da "literariedade", tendo como justificativa explícita o ataque ao crescimento da indústria cultural em um mundo cada vez mais globalizado (subjacente a isso poderia estar a desconfiança dos culturalstudiese sua política em torno do fortalecimento das identidades das minorias). Volta atrás, no seu combate ao discurso privilegiado da literatura e, mais do que isso, atribui valor a ela, remontando assim ao desinteresse kantiano.

Por meio desses exemplos – há outros, no mesmo volume, como o do texto de abertura, de Andreas Huyssen –,12 podemos inferir que, pelo menos no âmbito da ABRALIC, os estudos literários em contato com os estudos culturais acabam cedendo à hierarquia, ao grande autor e, sobretudo, ao "específico do literário".

 

Volver ou o monstro coagulado

Outro sinal evidente dessa perda gradual de terreno, ou da retomada de terreno por parte dos críticos mais disciplinares, ou, ainda, do arrependimento dos "críticos cult", foi a escalaçãodo evento principal da ABRALIC de 2002, que se realizou também em Minas Gerais, aliás, terra de Silviano Santiago, Eneida Maria de Souza e Wander Melo Miranda. Mesmo que a palestra de abertura tenha sido feita por Michel Serres, filósofo francês vinculado à interdisciplinaridade, a grande conferência do segundo dia ficou a cargo de Davi Arrigucci Jr., professor da Universidade de São Paulo, que analisou, passo a passo, um poema de Carlos Drummond de Andrade, em uma espécie de lição de leitura de poesia. Não que a ABRALIC não tenha convivido sempre com a dissonância. Agora, porém, o close reading de Davi Arrigucci Jr., na segunda grande conferência do evento,13 como se o palestrante estivesse ensinando aos colegas, aos mestrandos e aos doutorandos presentes o verdadeiro métier do crítico literário, constituiu a meu ver uma novidade e, mais do que isso, uma espécie de vingança da análise literária, da grande obra e do grande autor.

O ensaio de Arrigucci Jr. publicado nos anais do evento, que parece reproduzir quase integralmente a sua palestra, intitula-se "A poesia reflexiva de Drummond: um estudo das mediações entre lírica e experiência histórica" (2002a)14 e seu ponto de partida é o poema "Áporo", do livro A rosa do povo. Por meio da análise detida, o crítico busca não apenas mostrar os diálogos do poeta com a tradição literária, brasileira e ocidental, mas lembrar à audiência como se constrói um poema, quais são os instrumentos mobilizados para tal tarefa, desde os sonoros até os semânticos, algo que, muitos diriam, tem sido esquecido nos últimos anos. Daí a ênfase do crítico em palavras-chave como enigma, dificuldade, trabalho, reflexão, organização. Ao adentrar os meandros do poema, Arrigucci Jr. evidencia que é tarefa da crítica encarar esse processo construtivo. Assim, ao mesmo tempo que o poema "Áporo", aliás, bem escolhido para a ocasião, versa sobre a dificuldade do áporo, isto é, do inseto, frente a um dilema, um labirinto, ele parece, por analogia, referir-se tanto à própria dificuldade do poeta, e da crítica, frente a um problema por assim estético, sem solução ou saída fácil, mas que é preciso enfrentar, quanto ao problema da crítica e da literatura em uma sociedade que não quer nada com elas. De certo modo, o inseto que não encontra saída é uma metáfora da situação agônica do estudioso da literatura em um universo acadêmico que se rende aos estudos culturais e ao mercado.

Não estamos tão longe da perspectiva de Sarlo, no sentido de que a obra artística põe o leitor e o crítico face a um desafio, que não obstante os atrai. Ainda, tal obra, também na visão de Arrigucci Jr., volta-se contra o status quo, transformando a dificuldade tanto temática quanto construtiva, em sua força vital, numa dialética negativa:

Entendido desse modo, o ato poético é também um ato político, pois faz pensar na mudança ou com ela sonhar mesmo em meio ao bloqueio mais terrível. O momento positivo da negatividade do poeta diante do mundo opressivo, que é o instante de desfazimento do labirinto e do surgimento da flor, é também o momento da metamorfose que vai contra o princípio da não contradição. Oposto à pura lógica matemática (antieuclidiana), é perfeitamente coerente, no entanto com uma lógica da imaginação, ragione poética, mediante a qual a força do mito se casa à da história frente à mesma dificuldade: e se faz do impasse, mudança (Arrigucci Jr., 2002a, s.p.).

A história, no caso, não é o elemento mais superficial, e, nesse sentido, Arrigucci Jr. está atacando, igualmente, a crítica que lê a literatura como reflexo da sociedade. Segundo o autor, "a obra poética [...] não se reduz ao documento histórico, embora também o seja; ela é, antes, como historiografia inconsciente, o registro atual do que se passou na interioridade de um homem durante seu tempo vivido e ganhou expressão correspondente. Conserva aquela substância viva que ficou do passado no presente intemporal da forma do poema" (Arrigucci Jr., 2002a, s.p.). Quer dizer que a história é sobretudo o acontecimento filtrado pela experiência, ou melhor, vivência, individual; é, ainda, o desafio que deve ser superado. E, se o poeta tem a missão de transcender a materialidade difícil das palavras (e da história) para ao fim transformar o poema em uma experiência subjetiva e antieuclidiana, o dever do crítico é vencer as aporias da interpretação e ir ao encontro seja das intenções do poeta, dos modos como ele trabalhou com o material da tradição e com a matéria poética, seja dos sentidos do grande poema, cujo acesso lhe é a priori vedado: "a forma como a história vira um problema estético é uma difícil questão para a crítica. E, por isso, o enigma do poeta é também o enigma do crítico, que, no limite, só pode dar com a razão de sua insolubilidade, refazendo por dentro o caminho sem saída da aporia" (Arrigucci Jr., 2002a, s.p.).

Em outras palavras, o externo é internalizado na forma literária. Mais ainda, ele é internalizado organizadamente. Aqui, o crítico se contrapõe à leitura de Décio Pignatari, focada no termo inicial "áporo", que, embora tenha feito "uma série de observações esclarecedoras sobre aspectos parciais, mas importantes da construção do texto" e chame a "atenção para a construção objetiva do texto", não permite ver como o poeta trabalha com os materiais, isto é, com as palavras do dicionário: "na verdade, ele [Drummond] transformou radicalmente os materiais pelo enlace que estabeleceu entre os significados divergentes de áporonum novo contexto, o da forma acabada do poema" (Arrigucci Jr., 2002a, s.p.). O poema é, assim, menos um texto, uma lógica significante, como gostaria Pignatari, e menos "mediação", como desejava Santiago na sua crítica contracultural de 1997. Ele é, antes, um fim em si, um objeto para a leitura do crítico especialista. Antes de vê-lo como uma forma de acessar, à maneira amadora, os sentidos da realidade e do próprio sujeito que lê, desestabilizando a identidade, em termos de um "consumo do leitor", o crítico, no caso, profissional deve fazer o caminho que vai do poema, enquanto forma acabada, ao poeta, revisitando o locuse o espaço da produção e, ainda, acessando o sentimento depositado, inconscientemente, na construção dessa experiência orgânica e interconectada, que é, ao mesmo tempo, particular e universal, subjetiva e social.

Mas a competência de especialista de Arrigucci Jr. contrasta com o fato de ele se negar à interpretação das questões sociais que o poema internaliza, que não são necessariamente nominadas, talvez porque isso não seja do encargo do crítico literário, mas do sociólogo ou do historiador. Assim, em um primeiro momento, o crítico minimiza o poder alegórico do poema de Drummond, aventado mas não desenvolvido por Pignatari:

A alegoria poderia se prestar então a uma tradução direta em fatos do momento histórico em que foi escrito o poema, quando não faltavam no cenário nacional e no internacional, fatores de opressão, como a ditadura militar de Vargas e a Segunda Guerra Mundial. É nessa direção que se encaminham as alusões registradas por Pignatari em sua descrição indicativa, desconfiada, aliás, do próprio rumo e da eficácia de uma leitura nesse sentido.
Para tentar interpretar, não é, entretanto, exatamente por aí que se deve buscar passagem. Mais uma vez, é preciso procurar a articulação com o todo, ou seja, com a totalidade da construção – o enredo completo que é o poema enquanto mito verbal –, no qual, pelo fio do trabalho poético, Drummond encerrou o segredo de seu labirinto (Arrigucci Jr., 2002a, s.p.).

Então, por onde se "deve" interpretar? Mais adiante, em sua análise, o crítico parece ter achado a resposta, ao ver no poema uma reflexão sobre a queda da aura da obra de arte, a partir da homologia do poeta com o inseto:

Certamente a consideração da situação social do trabalho poético, rebaixado desde o século XIX à irrelevância no interior das sociedades modernas voltadas exclusivamente para a produção para o mercado, se torna fundamental para a compreensão desse sentimento de degradação, agravado pelo quadro político sem horizontes do país bloqueado, referido no texto. Percebe-se esse pano de fundo histórico através da negatividade que penetra na alma do poeta, materializando-se na perspectiva com que encara sua própria atividade. Mas o decisivo é a forma concreta que assume no poema essa dimensão histórica do trabalho poético (Arrigucci Jr., 2002a, s.p.).

A interpretação, isto é, a ligação do poema com o mundo externo, não vai muito além disso. Na verdade, em passo seguinte, parece regredir, tanto ao ver na "forma concreta" o decisivo do poema quanto ao prezar "a internalização da história que de algum modo se espelha na consciência verídica do poeta, debruçada sobre a situação de seu próprio fazer" (Arrigucci Jr., 2002a, s.p.). Como já disse, há em Arrigucci Jr. o desejo de revisitação do ato poético "em si", enquanto experiência total ou mito, que por sua vez é "re-narrável" pelo crítico, que, ao menos aparentemente, gira em falso, sem sair do labirinto, talvez porque, como se fosse um poema, o texto crítico queira representar ele mesmo a "solução do enigma" e o sentimento do crítico se assemelhe ao do poeta. Aí estaríamos próximos, por sua própria limitação, autoimposta, do drama da crítica, que atravessaria a próxima década:

Esse sentir-se como inseto tem uma força tremenda como drama humano, mas só ganha sua verdadeira dimensão poética porque se objetiva na forma: ela mimetiza o conteúdo natural tomado como exemplo, mas simultaneamente o contrasta com o bloqueio desproporcional, reproduzindo mimeticamente na interioridade reflexiva que ela representa os efeitos internos de fatos históricos decisivos da experiência do poeta (Arrigucci Jr., 2002a, s.p).

Eis, portanto, o desenlace, isto é, interpretação de Arrigucci Jr. É como se, ao se ver em condição homóloga ao poeta, em um momento em que a literatura e a crítica literária estariam subsumidas às forças mercadológicas e às políticas de representação, nesse caso, por conta dos estudos culturais, Arrigucci Jr. propusesse que o texto crítico, da mesma forma que o poema, não deve se esquecer da história, do "externo", mas deve incorporá-lo à fatura do texto para que figure internamente como força propulsora, mas sem obnubilar o que de fato interessa, que é a "forma" do trabalho crítico, isto é, a análise interna, passo a passo, estrato a estrato, da literatura, que a sua fala tentou trazer para os até então obnubilados com os estudos culturais.

Para tentar escapar do enlace, ou do labirinto, isto é, para não vermos a palestra de Arrigucci Jr. como algo episódico e sem consequências para os estudos literários, talvez valha entendermos a sua escolha como um dos conferencistas da ABRALIC a partir da história mais recente da crítica literária brasileira. Nesse sentido, a opção dos organizadores do evento por sua competência analítica e, concomitantemente, por sua cautela em empregar o método literatura e sociedade, minimizando o segundo termo, não está desconectada das transformações, das disputas e das voltas atrás, no seio da própria Associação Brasileira de Literatura Comparada, microcosmo da crítica universitária no final do século XX e início do XXI, que por sua vez visa, em conexão com o que parece acontecer também em outras áreas e outros saberes, a uma restrição de objetos e abordagens. Restrição que é, também, no caso dos estudos literários, uma forma de garantir a existência de um espaço de produção do conhecimento, que, cada vez mais, se vê ameaçado pelas outras áreas e por um discurso em torno da "cultura". Essa é a ameaça com a qual terão de lidar as gerações mais novas, mas que já seria vislumbrado pelos mestres mais precavidos, Arrigucci Jr., entre eles. Porque, ao que tudo indica, começa a se firmar, a partir dos anos 2000, um cenário com dois fenômenos simultâneos, em oposição: de um lado, haveria o crescimento, a ampliação e a segmentação das formas da literatura e da cultura contemporâneas, com a chegada de novos agentes à cena literária; e, de outro, a restrição de métodos, de linguagem e de objeto, em uma lógica que poderíamos chamar de especialista, vinda tanto de criadores quanto de críticos literários consagrados, com o objetivo de conter a invasão bárbara e os "democratismos" propiciados não apenas pelos estudos culturais mas principalmente pelas novas mídias e pela indústria cultural, que tendem a desregulamentar o mercado editorial e as especificidades do campo literário. Mas isso é matéria para um outro artigo.

 

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Recebido em junho de 2014
Aprovado em novembro de 2014

 

 

1 Este texto é um dos resultados de uma pesquisa de pós-doutorado que recebeu auxílio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), a quem o autor agradece.
2 Uma das combatentes mais radicais do polo dos estudos literários é Leyla Perrone-Moisés. Neste artigo, não me ocuparei dos seus textos. Em todo caso, para se ter uma ideia dos seus posicionamentos, em um livro escrito ao longo dos anos 1980 e 1990, intitulado provocativamente de Altas literaturas, vale a leitura do seguinte trecho: “É normal que as culturas não hegemônicas, de regiões que n&atide;o completaram nem mesmo seu processo de modernização, se sintam ameaçadas e reajam à dominação desse Ocidente pós-moderno e globalizador. Mas quando seus simpatizantes assestam as baterias contra Dante, Shakespeare, Cervantes e tutti quanti, estão visando o inimigo errado. A opressão atual não decorre dos valores ocidentais que eles representam; dentro do próprio Ocidente, europeu e americano, os valores estético-literários são diária e progressivamente vencidos por uma cultura de massa embrutecedora, ou transformados em mercadoria de grife na indústria cultural. A alta cultura, a criação desinteressada, ou interessada em ampliar o conhecimento e a experiência humanos, em aguçar os meios de expressão, em despertar o senso crítico, em imaginar outra realidade, tudo isso está ameaçado de extinção” (Perrone-Moisés, 1998, p. 206).
3 Esta pesquisa sobre o arquivo da ABRALIC é uma das etapas de uma investigação mais ampla, que visa a refletir sobre a crítica literária e a literatura brasileira recentes, dos anos 1980 ao momento atual.
4 Segundo Marcelo Ridenti, estabeleciam-se “tardiamente – durante o período da ditadura, consolidando-se posteriormente com a redemocratização no Brasil – novas condições que fazem lembrar os comentários de [Russel] Jacoby sobre o declínio do intelectual atuante na vida pública da sociedade norte-americana já na década de 50: os intelectuais e artistas estariam ocupados e preocupados especialmente com as exigências das carreiras profissionais, como na Universidade; à medida que a vida profissional prospera, a cultura pública fica mais pobre e mais velha; haveria a substituição crescente de empresários, trabalhadores e profissionais independentes por empresas corporativas, processo indissociável da explosão da educação superior; desaparecimento do espaço urbano barato e agradável que podia nutrir uma intelligentsia boêmia, modelar de uma geração de intelectuais (diferente da boêmia massificada de hoje, comercializada e popularizada); eliminação das moradias baratas, restaurantes, cafés e livrarias modestos; comercialização acelerada da cultura, num cenário em que 'a literatura e a crítica se tornam carreiras, não vocações', com autores independentes dando lugar à profissionalização da vida cultural” (Ridenti, 2001, p. 17). 5 Como demonstra Iris Hoisel, em sua dissertação de mestrado sobre a ABRALIC, do 1º ao 6º congresso, há a entrada cada vez maior de temas e metodologias ligadas aos estudos culturais ou a áreas contíguas aos estudos literários. Segundo Hoisel, desde o 1º congresso, “já é possível identificar algumas comunicações que transbordam os limites disciplinares tradicionais dos estudos literários e se aproximam do campo hoje identificado como Estudos Culturais ou, mais frequentemente no Brasil, como Crítica Cultural” (Hoisel, 2003, p. 68). O ápice interdisciplinar, por assim dizer, se daria nos 6º e 7º congressos.
6 O prefácio é assinado pelos “Editores”, entendam-se, no caso, os também organizadores do evento, da coletânea, e membros da diretoria da ABRALIC (1996-1998): Raul Antelo, Maria Lúcia de Barros Camargo, Ana Luiza Andrade e Tereza Virgínia de Almeida, todos professores da área de Letras da Universidade Federal de Santa Catarina. A esses, somam-se, na diretoria da associação, Claudia Lima Costa e Susana Scramin, da mesma universidade.
7 Eneida Maria de Souza fez seu doutorado em Paris, com ninguém menos do que a semióloga Julia Kristeva, uma das teóricas da intertextualidade e um dos nomes mais importantes do estruturalismo francês. 8 Heloisa Buarque de Hollanda (2004) reagirá da mesma forma aos ataques aos concretistas, chamando atenção para o fato de que o trabalho técnico com a língua, que eles trouxeram, não deve ser visto como algo negativo.
9 Embora escape aos propósitos deste texto, seria importante, em outro momento, analisar diferenças de enfoque, de método, de pressupostos e de objetos entre os estudos de pesquisadores americanos e brasileiros em publicações nas revistas, coletâneas e anais da ABRALIC. Uma hipótese é que o traço político em prol das minorias (raciais, étnicas e de gênero) é muito mais evidente naqueles do que nestes.
10 Na verdade, se voltarmos no tempo, veremos que a análise cultural é constituinte de certa mobilidade das fronteiras disciplinares no Brasil, daí alguns críticos literários defenderem que os estudos culturais já seriam feitos no Brasil, muito antes da moda. Segundo Renato Ortiz, comentando a formação das ciências sociais na América Latina, “num contexto de institucionalização restringido, as fronteiras disciplinares nunca conseguiram se impor com a mesma força e rigidez que nos Estados Unidos. Não houve tempo nem condições materiais para que isso acontecesse. Sem dúvida elas existem nas universidades e nos centros de pesquisa, mas são mais porosas, fluidas, permitindo uma interação maior entre os praticantes das ciências sociais. As passagens da filosofia à sociologia, da ciência política à história, da antropologia à comunicação, da sociologia à literatura, não são casos de excepcionalidade, mas constituem quase que uma regra do campo universitário.Talvez por isso o ensaio, como forma de apreensão da realidade, sobretudo na tradição latino-americana hispânica, tenha sobrevivido ao processo de formalização disciplinar. Pois é de sua natureza desrespeitar a formalidade dos limites estabelecidos” (Ortiz, 2004, p. 123).
11Salvo engano, antes de 2005, os colóquios intermediários da associação não contavam com chamadas gerais. Eram convidados pesquisadores renomados, que iriam refletir sobre o tema proposto em uma espécie de preparatória do evento principal. Essa fórmula foi retomada a partir da direção paranaense da ABRALIC, que em 2010 realizou o evento preparatório e o congresso internacional em 2011. Desde então, tamb´m, os congressos passam a ser em anos ímpares, para não conflitar com o evento bienal da Associação Nacional de Pós-Graduação em Letras e Linguística (ANPOLL).
12Segundo Huyssen, no texto de abertura do volume, “a produção cultural hoje não apenas cruza as fronteiras entre erudito e popular como também se torna transnacional de novas e importantes maneiras, especialmente na indústria musical, mas também em certos setores de filme e televisão [...]. Hibridizações de todos os tipos acontecem agora, cada vez mais sob o signo do mercado. Mas mercados, mesmo mercados de nicho de elite, tendem a domesticar e igualar arestas brutas e inovadoras da produção cultural. Elas preferem a fórmula de sucesso em vez de encorajar o ainda desconhecido, a experimentação e modo incomuns de expressão est´tica. Talvez agora a maior parte da cultura erudita esteja tã.o sujeita às forças do mercado quanto os produtos da mídia de massa. Grandes fusões na indústria editorial encolhem o espaço para escritas ambiciosas. A própria literatura, como a conhecemos, torna-se ainda mais um empreendimento extemporâneo. Mas isso também pode ser a chance da literatura. Precisamos de um espaço para levantar questões de complexidade estética, experimentação formal, as vicissitudes de representação e conteúdo político radical. Precisamos perguntar se o mercado pode garantir novas tradições, novas formas de comunicações e conectividades transnacionais, e eu sinto que seria prematuro excluir de tais considerações a questão do valor estético, que é levantada fundamentalmente pelas tradições da cultura erudita e precisa ser resgatada para an´lises contemporâneas de toda cultura sob o feitiço da globalização” (Huyssen, 2002, p. 33).
13 Foram apenas três as grandes conferências do evento: a de Michel Serres, a de Davi Arrigucci Jr. e a de Josefina Ludmer.
14 A leitura do poema será publicada, depois, no livro Coração partido: uma análise da poesia reflexiva de Drummond (2002b), estudo de Arrigucci Jr. sobre a obra de Carlos Drummond de Andrade. Ao final do livro, nos agradecimentos, lê-se: “O pedido de um amigo, Silviano Santiago, para que o autor escrevesse um estudo geral sobre Drummond, destinado à edição crítica do poeta na coleção Archives da UNESCO, foi decisiva para a realização deste trabalho”; donde se deduz que tanto as batalhas críticas se limitam ao campo teórico, quanto Silviano Santiago, apesar das divergências de fundo, reconhece o valor da leitura cerrada.

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