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Cadernos Nietzsche

On-line version ISSN 2316-8242

Cad. Nietzsche vol.36 no.1 São Paulo Jan./June 2015

http://dx.doi.org/10.1590/2316-82422015v3601js 

Dossiê "Recepção: Nietzsche no Brasil: núcleo histórico, parte II"

Nietzsche, o filósofo da Alemanha nazista*

Nietzsche, the philosopher of Nazi Germany

João Scapino

Resumo:

Texto publicado no jornal carioca Diário de Notícias, em 1945. Nele, o autor julga Nietzsche o filósofo da Alemanha nazista. Destaca a teoria da Vontade do Poder como um fluxo vital e fonte de inspiração de Hitler e Mussolini, sugerindo a crueldade, a agressividade e a política de expansão da Alemanha nazista.

Palavras-chaves: Nietzsche; nazismo; Hitler; vontade de poder

Abstract:

Text published in the newspaper Diário de Notícias, in 1945, in Rio de Janeiro. In it, the author considers Nietzsche the philosopher of Nazi Germany. Highlights the theory of will Power as a vital flow and source of inspiration of Hitler and Mussolini, suggesting cruelty, aggression and expansion policy of Nazi Germany.

Keywords: Nietzsche; nazism; Hitler; will Power

Antes que a história do nazismo saia do cartaz dos acontecimentos mundiais é interessante olharmos a figura de Nietzsche, o filósofo que na Alemanha nazista teve grande atualidade, muito mais do que na época em que vivera, principalmente porque a idiotice do seu gênio de louco harmonizou-se com a loucura de um gênio idiota, formando a religião sagrada da Alemanha, cujo livro sagrado era a "Mein Kampf", e cujo lema se poderia traduzir assim: "Hitler é o seu deus, e Nietzsche é o seu profeta".

Discípulo de Schopenhauer, seguiu no mestre o lado das atitudes incompreensíveis, nisto encontrando a afirmação de sua genialidade, entendendo-o assim bastaria ter ideias esquisitas e estapafúrdias, porém, ideias assombrosas, diferentes, que contrariassem a ordem das coisas, o desenrolar natural da vida, e estaria aberto para ele o caminho da glória e da imortalidade, podendo repousar sobre o trono dos filósofos.

Não precisou muitos anos após ter sua mãe dado à luz a treva da sua inteligência, para revelar-se. Criança ainda, embora, porém único varão numa casa de mulheres, Nietzsche era um ídolo, e suas adoradoras a mãe, as tias e irmãs. E talvez por esta educação, acostumou-se ele a considerar-se como ídolo pelo resta da vida.

Deste contato com as mulheres, único que com elas teve, talvez, em sua vida, julgou-se um dominador delas, deixando o conceito seguinte: "Se tens de tratar com as mulheres, não esqueças o chicote".

Quando criança atesta o seu tipo pacato de escravo alemão o seguinte ocorrido, citado por sua irmã Förster: "Chovia torrencialmente, certo dia, à saída da escola; nem por isso o pequeno Fritz se apressa para chegar à casa. Arguido sobre isto, ele responde: 'Ora, mamãe, o regulamente da escola diz expressamente: é proibido pular ou correr na rua. Recomenda-se aos meninos que sigam para casa com muito juízo e com todo o cuidado'". Evidentemente, com isto, que se procura invocar como exemplo de seu temperamento genialmente original, demonstra-se apenas uma grande fraqueza de improvisação e até mesmo um atraso de inteligência.

Nietzsche foi desde criança um sifilítico. Sua irmã o nega. Prefere afirmar que sua doença provinha de paixões precoces e bebidas. Tentou por vezes apontar seu irmão como um exemplo da raça: não discutamos...

Este homem foi sempre retirado nas suas meditações. Gostava ou sentia necessidade do isolamento. Sempre desprezou a turba, o "rebanho", como dizia; mas, coisa interessante, - nunca menosprezou seu aplauso.

Este homem, que fez brotar na filosofia uma de suas flores mais feias, graças a uma apreciável cultura literária, foi um monstro. Monstro, sim, embora haja quem o considere como uma bondade de santo, incompreendido como os mártires antigos, que enchem de romance doloroso a história. Há quem diga que "Nietzsche compara-se aos grandes heróis da religião e da moral, que entendiam o bem no sentido estoico; tanto como eles, ele desejava o bem da humanidade. Como, porém, os homens de seu tempo, no mundo ocidental, eram perversos, Nietzsche, perdendo com eles a paciência, prorrompe em imprecações proféticas".

E para afirmar ainda mais esta simplicidade de coração do "mestre", citam este fato: "Estando ele ainda em Turim, já francamente louco, viu pela janela um carroceiro surrando uma mísera égua, velha e cansada. Correu então à rua, e abraçou chorando o pescoço do pobre animal". Ora, dizem os nietzscheistas, um homem assim tão compassivo e sensível, não podia absolutamente ser um militarista feroz. Não vamos opinar sobre o fato, apenas queremos notar o seguinte: o espírito de bondade é o que faz o homem descer de sua posição mais elevada para irmanar-se aos mais humildes, não é o fato de o homem tendo saído de seu verdadeiro meio, no caso a estupidez, se sentir de volta atraído para ele. Pode ter acontecido o caso de a doença de Nietzsche ter feito a liberação dos estados psíquicos fundamentais do espírito do filósofo, como ensina o grande médico-psicólogo Hughlings Jackson, e observação que se pode fazer em Freud, no caso em que a "censura" deixa de funcionar devido a uma qualquer perturbação funcional do indivíduo.

Nietzsche por um instinto qualquer sempre procurou medicar-se por si, fugindo aos médicos, o que concorreu para que estes se atrasassem no diagnóstico de sua doença: só mandaram-no para o hospício nos últimos dez anos de sua vida de cinquenta e poucos, quando Nietzsche foi louco toda a vida. Considerava-se um gênio insuperável. Daí ter declarado: "O destino decretou que eu fosse o primeiro ente humano decente... Quem primeiro descobriu a verdade fui eu!". E então ele explica em seus livros a grandeza do seu espírito, em capítulos como esses: "Porque sou tão inteligente", "Porque escrevo livros tão notáveis", e se classifica assim: "Não sou homem, sou dinamite".

E assim pensava Nietzsche: "O mundo vai girando às tontas, estupidamente, inexoravelmente". Mas o mundo tem o direito de pensar que ele não se afastou desde determinismo: ele girou na vida estupidamente, inexoravelmente, às tontas.

Segundo Nietzsche, a arte, que é tudo o que interessa na vida, tem dois polos: o dionisíaco e o apolíneo. Tudo quanto é dionisíaco é bom: a força divina da natureza, a lascívia e o desejo insaciáveis e turbulentos, que impelem o homem às conquistas, à embriaguez, ao êxtase místico, aos amores trágicos. O apolínio é o mau: o mal consiste no esforço do homem por conter o indomável espírito guerreiro, na aspiração à paz, à harmonia, ao equilíbrio, no esforço para reprimir a besta-fera, que ele sente bramir dentro de si.

Parece-me inconcebível que haja um povo que aceite uma teoria assim, que sem-cerimoniosamente nos afirme: "Vedes ser uma besta-fera!".

Ele dizia: "A auto-observação é traiçoeira. Conhece-te: agindo, não refletindo. A observação confina e delimita a energia: é uma dissolução, uma desintegração. O instinto é preferível. As nossas ações devem ser ditadas pelo inconsciente". E assim foi a Alemanha nazista: as ações do povo ditadas por um inconsciente.

Que achado para Hitler, uma filosofia que diz assim: "Todos os deuses morreram: possa agora viver o super-homem!". E é por isso que Hitler se confessou publicamente discípulo de Nietzsche, tendo visitado várias vezes o Nietzsche-Archiv. E também Mussolini o era, como se pode verificar por esse trecho de carta de Isabel, irmã de Nietzsche, felicitando o Duce em seu aniversário: "Ao mais nobre discípulo de Zaratustra, a quem realizou o sonho de Nietzsche, ao homem inspirado, que ressuscitou os valores aristocráticos preconizados por Nietzsche, apresenta o Nietzsche-Archiv, respeitosamente, os seus melhores votos".

Há os que defendem Nietzsche haver inspirado a Alemanha nazista. O dr. Hess considera Nietzsche um inocente inspirador de um código aplicável a uma sociedade estratificada de Super-Homens. Quem sabe se ele não quer comparar, ou mesmo igualar Nietzsche a Platão, com a "República"? Quem sabe?

Tenha sido ou não esta a finalidade de Nietzsche, a culpa desta vitória deste louco, é de quem o segue, naturalmente; e estes procuram adaptar as ideias de Nietzsche às suas, uma vez que não podem exterminar certas ideias deste homem, que são contra o regime.

Mas estão em Nietzsche coisas "inocentes" assim: "O futuro da cultura germânica dependerá dos filhos de oficiais prussianos.... A paz e o respeito pela tranquilidade alheia: política que eu absolutamente não admito. O predomínio da Alemanha é contribuir para que os alemães acreditem na vitória - eis o que interessa, nada mais... O soldado e o erudito, para serem eficientes, tem de sujeitar-se à mesma disciplina, ou por outra, não há erudito de verdade que não tenha nas veias o instinto de um verdadeiro soldado... Amai a paz que conduz a novas guerras - a paz, quanto mais curta melhor... A guerra e a coragem valem muito mais que a caridade. A nossa bravura, não a vossa simpatia, é que há de salvar, daqui por diante, as vítimas...".

Era indiferente, dizem aos judeus. E ele proclama: "Não deixem entrar mais judeus! Fechem-lhes as portas!". E noutra parte, declara: "Devemos cuidar de estreitar as relações entre a raça alemã e a raça eslava, a fim de nos apoderarmos do mundo"; aponta uma série de determinações a cumprir, e entre elas: "Exigiremos o concurso dos financistas judeus!".

Prega a cegueira ao povo: "Ensino vos o Super-Homem. O homem deve ser superado... Assim como o macaco é ridículo para o homem, o homem o será para o Super-Homem. O homem é deveras um rio poluído. Só o mar pode receber um rio poluído sem tornar-se impuro. Ouvi: eu vos ensino o Super-Homem: é ele o mar que o vosso imenso desprezo ficará submergido!".

E de tudo, na obra de Nietzsche, se aproveitaram os alemães. Assim Oehler aproveitando palavras de Nietzsche, afirma: "Assim é que poderíamos transformar uma das mais ásperas passagens do 'Anticristo' numa profissão de fé nacional-socialista: 'A cruz é o símbolo contrário à saúde, à beleza, ao bom senso, à bravura, à grandeza da alma, - contrário à própria vida'". Acrescenta Oehler: "A suástica é o símbolo da saúde, da beleza, do bom senso, da bravura, da inteligência, da grandeza de alma, - da própria vida".

Entre as teorias de Nietzsche, convém acentuar estas duas: "a Vontade do Poder" e o "Eterno Retorno".

A teoria do "Eterno Retorno" lhe valeu ser comparado à Herbert Spencer, Darwin, e ser considerado um evolucionista.

A "Vontade do Poder" parecia tratar de um fluxo vital, do qual tudo o mais deriva. No entanto, esta "Vontade do Poder", capítulo que Hitler e Mussolini estudaram muito bem, sugere a crueldade, a agressividade, a política de expansão, tão característica na Alemanha nazista.

Ficou, porém, aos aliados a tarefa de ensinar-lhes o outro capítulo da filosofia de Nietzsche: "O Eterno Retorno".

E se cumpriram as palavras bíblicas, da mesma bíblia que Nietzsche tanto escarnecia. Lá está em Ezequiel: "Tu és pó, e em pó te tornarás".

*Publicado no Diário de Notícias. Rio de Janeiro, 07 de Outubro de 1945, p. 01-05.

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