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Cadernos Nietzsche

Print version ISSN 1413-7755On-line version ISSN 2316-8242

Cad. Nietzsche vol.39 no.3 São Paulo Sept./Dec. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/2316-82422018v3903gd 

Artigos

A longa história do encontro entre Nietzsche e D. Pedro II

Geraldo Dias* 

* Doutorando da Universidade Federal de São Paulo, UNIFESP, Brasil.

Resumo

A história do encontro entre Nietzsche e Dom Pedro II, outrora anedoticamente difundida por Elisabeth Förster-Nietzsche, tem sido, ao longo de mais de um século, alimentada pela nossa historiografia (por historiadores como Oliveira Lima e José Murilo de Carvalho), pela crítica literária (seja pelo modernista Alceu Amoroso Lima e o simbolista Tristão da Cunha) e a imprensa diária e periódica, nacional e estrangeira. Nesse sentido, este artigo visa a discutir as causas e as consequências políticas dessa longa história para a recepção brasileira do pensamento de Nietzsche.

Palavras-chave Nietzsche; Brasil; recepção; D. Pedro II

Abstract

The history of the meeting between Nietzsche and Dom Pedro II, once anecdotally disseminated by Elisabeth Förster-Nietzsche, has been, for more than a century, provide by our historiography (by historians such as Oliveira Lima and José Murilo de Carvalho), by critics (by the modernist Alceu Amoroso Lima and the symbolist Tristão da Cunha) and the daily and periodical press, national and foreign. In this sense, this paper aims to discuss the motivations and political consequences of this long history for the Brazilian reception of Nietzsche’s thought.

Keywords Nietzsche; Brazil; reception; D. Pedro II

Introdução

Uma anedota, eis aí o estatuto ou registro em que se pode situar a história do encontro entre Nietzsche e o Imperador D. Pedro II. Por detrás da anedota, aparentemente inofensiva, despretensiosa, escondem-se, não obstante, interesses ideológicos e políticos bem precisos, e somente por isso ela foi e continua a ser explorada, aumentada e fiada.

Domenico Fazio, pesquisador italiano da fortuna crítica de Nietzsche, num “pequeno ensaio”1, analisou detidamente três versões da história. Com esse ensaio, fez avançar a pesquisa histórico-filosófica da fortuna crítica brasileira de Nietzsche, ao apresentar, no sentido histórico e documental, “a verdadeira história” do encontro entre Nietzsche e Dom Pedro II. Para tanto, confrontou os dados das três versões da história com a obra do filósofo, sua fortuna crítica, testemunhos e os Diários do Imperador brasileiro.

Se, por um lado, fez avançar a pesquisa histórico-filosófica da fortuna crítica brasileira de Nietzsche, por outro lado, porém, Domenico Fazio não distinguiu as motivações e as consequências ideológico-políticas dessa longa história para a recepção brasileira do pensamento de Nietzsche. Por consequente, materiais importantes não foram analisados, como textos/documentos significativos a respeito da história, produzidos por autores como Maurice Prozor, Alceu Amoroso Lima, Tristão da Cunha, dentre muitos outros, aqui recuperados na fonte original, transcritos na íntegra e analisados na sequência.

Com o objetivo de fazer avançar os estudos sobre a recepção brasileira da filosofia de Nietzsche, examino a seguir os textos encontrados acerca da história do encontro e conversa de Nietsche com D. Pedro II que circulam no Brasil e alhures, do mais remoto ao mais recente. Assim, de início, transcrevo e examino os textos produzidos; em seguida, confronto os dados (informações como data, local, circunstâncias) de suas versões com os dados fornecidos pela obra e pela correspondência de Nietzsche; por fim, perscruto os motivos e as consequências dessa longa história, procurando demonstrar que, além de contribuir para a má compreensão da biografia e da filosofia de Nietzsche, tem se sustentado e se prolongado na justa medida em que é manejada segundo motivações políticas comprometidas com o imaginário conservador pró-monarquista.

Textos e versões da história do encontro entre Nietzsche e D. Pedro II

Os textos e as diferentes versões originárias da história foram inicialmente difundidos por Elisabeth Förster-Nietzsche. A primeira versão foi transmitida oralmente, ao diplomata russo Maurice Prozor; a segunda, diferente da primeira, foi publicada na pseudobiografia intitulada Der einsame Nietzsche, de 1914. Ao longo do século XX, mais precisamente a partir de 1912, até ao início do XXI (2018), a história tem repercutido e, surpreendentemente, se multiplicado em nossa historiografia, na crítica literária e na imprensa. Sem se preocuparem em comprovar qualquer das diferentes versões da história, continuou-se e continua-se a reproduzir e, mais ainda, a acrescentar-se variações às narrativas originárias.

Cronologicamente, a primeira versão publicada da história aparece numa revista austríaca (Neues Wiener Journal), datada de 17 de junho de 1912, publicada por autor anônimo, no texto intitulado Nietzsche und der letzte Kaiser von Brasilien, no qual lemos:

Um dia o poeta do Zarathustra atravessara os Alpes tiroleses. Em uma estação de embarque, encontrou um homem robusto e de ombros largos que, pelos hábitos e pelo sotaque, parecia pertencer a um país exótico. O estrangeiro puxou conversa com Nietzsche. Aquele homem reservado, graças ao fascínio da interessante personalidade do brasileiro, abriu-se e, ele que sempre foi dos desconhecidos, tomou confidência com o estrangeiro, do qual não conhecia o status. O imperador ofereceu ao filósofo um lugar no seu vagão, os dois empreenderam viagem sobre as montanhas e Nietzsche considerou aquelas horas [...] entre as mais interessantes de sua vida. Na estação sucessiva, Nietzsche desembarcou, enquanto o seu companheiro prosseguiu viagem. Ele pediu informações a um funcionário sobre o nome daquele senhor que, a julgar pela reverência que todos lhe demonstravam, havia de ser um dignitário espanhol de alto nível. E não ficou menos surpreso ao saber que havia conhecido o imperador do Brasil2.

O estranho aqui é tratar-se de um texto anônimo. Estranho porque, conforme a versão escrita por M. Prozor (datada também do ano de 1912), a história do encontro entre Nietzsche e D. Pedro fora transmitida a ele pela irmã do filósofo. Quem poderia ser o autor do texto anônimo? Como teria tomado conhecimento da história? Em que pese o anonimato, de certa forma, esta versão poderia ter partido de Elisabeth. Ela guarda semelhanças com os dados da versão publicada na revista francesa Revue Hebdomadaire, edição de julho de 1912, assinada pelo diplomata e escritor Maurice Prozor.

No longo ensaio dedicado a Joaquim Nabuco e a cultura brasileira, M. Prozor destaca a atuação de Nabuco pela causa abolicionista e afirma que o ideal que convinha ao seu generoso coração não era o mesmo que seduzia a sua alma de artista, subjugada pela figura prestigiosa do sábio coroado que reinava o Brasil. Nesse sentido, descreve o curioso episódio:

Observe-se Dom Pedro, o mais pronto voluntário a ouvir os ensinamentos de Nietzsche, sobre a raça dos mestres e a formação do Surhomme. Um dia, atravessando o Tyrol, o autor de Zaratustra encontra, em uma estação, um viajante de barba branca, de traços marcantes, de falar exótico. E ele que fugia dos desconhecidos se sente logo fascinado pelo grande velho de porte comunicativo, às vezes autoritários e benevolentes. O artista, em Nietzsche, foi de início seduzido, em seguida o filósofo, na medida em que a conversa se tona mais acentuada. Assim, prontamente o interlocutor lhe oferece, para continuar, um lugar em sua cabine, e a recalcitrância usual de Nietzsche se dissipa e ele se deixa tomar pelo charme do sábio do além-mar que não se lhe revela e que, de sua parte, parecia encontrar prazer especial neste encontro. Eles se separam na parada seguinte e Nietzsche, que desce na localidade, enquanto seu companheiro prosseguiu seu caminho, pergunta o nome do estrangeiro, que ele considerou ser uma personagem de caráter e expressão respeitável.

- Então o senhor não sabe que este é o imperador do Brasil, responde particularmente espantado o guarda do posto, ao vê-lo seguir o imperador, sem saber com quem havia viajado. Cito um curioso episódio que me contou a Sr. Förster-Nietzsche pelo valor simbólico deste encontro, sob os alpes, de dois seres de elite que encarnam o ideal que carregam em mente; porém, ainda há uma segunda tendência na personalidade de Dom Pedro II. Da mesma forma, com efeito, que Nietzsche, tão refratário que ele foi, subjugado, sem nele ver outra coisa senão um homem de alta cultura, de humor irresoluto e porte nobre, ninguém que gravitou em torno do imperador percebeu a ascendência, sem dúvida, por assim dizer, da personalidade com quem estavam lidando. De bom grado se deu a interação3.

Esta versão do encontro entre Nietzsche e D. Pedro II narrada pelo Conde Prozor, como era conhecido, a ele transmitida por Elisabeth Förster, assemelha-se muito com a versão anônima, mas diverge daquela que Elisabeth Förster irá expôs na pseudo-biografia dedicada ao irmão.

No Brasil, repercute primeiro a versão de M. Prozor. Ainda no mesmo ano de 1912, mais precisamente a 12 de outubro, numa revista semanal carioca bastante conhecida à época, a Fon-Fon, encontra-se, de forma livre e indireta, a transcrição traduzida de trechos do texto de M. Prozor; o recorte transcrito omite a origem da história.

No ano seguinte, no dia 05 de maio, agora no diário carioca O Imparcial, num artigo intitulado Joaquim Nabuco julgado pelo Conde de Prozor, assinado com as iniciais L.L., mais uma vez é reproduzida a versão contada pelo diplomata. Informa tratar-se de “um caso inédito que o Conde Prozor ouviu à própria irmã e guarda vigilante e fiel da glória de Nietzsche” (Consultar material disponível em fac-símile no Portal da Hemeroteca-Digital).

Já a versão escrita de Elisabeth Förster, publicada no livro Der einsame Nietzsche, de 1914, é precedida pela transcrição de um trecho de uma carta que Nietzsche enviara a Erwin Rohde, de Rosenlauibad, na Suíça, datada de 28 de agosto de 1877:

Quando há alguns dias, entoei no meu íntimo o meu Hino à Solidão tive de súbito a impressão de que não gostavas da minha música e pedias energicamente, uma Canção à Solidão a Dois. Na mesma noite toquei uma, do melhor modo que pude e de tal maneira que todos os anjos teriam podido escutar com prazer, particularmente os anjos humanos. Mas isto se passou numa sala escura e ninguém escutou.

Elisabeth interfere exatamente neste trecho da carta para acrescentar:

A observação de meu irmão de que suas fantasias ao piano não teriam sido escutadas, baseava-se num erro. Soube-se mais tarde que ouvinte muito curioso se achava à porta aberta de manso. Era D. Pedro, imperador do Brasil, que teria ficado profundamente comovido com a miraculosa execução. No dia seguinte, ambos se encontraram numa ascensão comum, sem que meu irmão tivesse a menor ideia de quem se tratava. O desconhecido exprimiu a meu irmão seu agradecimento pela esplêndida execução e a isto se seguiu longa e interessante palestra. Só depois de se terem ambos separado foi que meu irmão soube quem era o desconhecido, tratado por todos, como observara, com tanto respeito4.

Esta versão repercutiu na historiografia, na crítica literária e na imprensa brasileiras, além de produzir efeitos também na imprensa estrangeira. Observemos que na primeira biografia que Elisabeth escrevera, Das Leben Friedrich Nietzsche’s, ela transcreve a carta integralmente e não menciona nada a respeito da história do encontro de seu irmão com D. Pedro II5.

Após o texto de Elisabeth, iremos encontrar outra menção ao encontro num periódico italiano, do ano de 1923, referência feita pelo então embaixador brasileiro Carlos Magalhães de Azeredo. Seu relato deriva e, ao mesmo tempo, mescla a versão de M. Prozor com a de Elisabeth:

Certa feita, aconteceu de Nietzsche viajar por algumas horas sobre uma ferrovia, ou em diligência, com o imperador e de puxar conversa com ele, que não revelou quem era. O filósofo poeta ficou muito contente com a conversação e, quando o seu interlocutor se distanciou, observando que lhe prestavam homenagens como a um príncipe, perguntou: ‘Mas quem é aquele homem extraordinário?’ E somente então soube que tinha conversado com o imperador do Brasil6.

Dois anos depois, no mês de dezembro de 1925, por ocasião do centenário de nascimento de D. Pedro II, entre artigos e estudos a seu respeito publicados em diários e periódicos nacionais, constam diferentes referências à história do seu encontro e conversa com Nietzsche, quase todas assinadas por intelectuais conversadores e intransigentes defensores da causa monárquica. Eis o caso dos textos publicados no tomo 98 da Revista do Instituto Histórico e Geográfico, de 1925, que traz nada menos do que quatro textos nos quais aparecem a história (todos já anteriormente publicados em outros diários e periódicos nacionais). Seus autores são, na ordem de exposição da Revista: o crítico simbolista Tristão da Cunha; o historiador e diplomata Oliveira Lima; o biógrafo, ensaísta e historiador Afonso Taunay e; por fim, o historiador, jornalista, escritor e então secretário do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), Max Fleuiss.

De início, a Revista reedita o texto que apareceu no diário carioca O Jornal, numa pequena crônica intitulada D. Pedro e o nosso bovarismo, assinada por Tristão da Cunha, defensor saudosista do regime monárquico. Ele inicia seu texto descrevendo precisamente a história: “Um dia, andando pelas montanhas do Tirol, Pedro II encontrou Nietzsche, e conversaram juntos. Tal foi a impressão deixada pelo Imperador no espírito deste, que longos anos mais tarde sua irmã, Mme. Förster-Nietzsche, relatava ao Conde Prozor, em seus detalhes significativos, o caso desta entrevista”7.

Em seguida, no artigo O imperador e os sábios, ao traçar o perfil intelectual de nosso imperador e as anedotas daí surgidas, Oliveira Lima afirma que “Nietzsche, porém, encontrou-o numa montanha da Suíça, ambos viajaram na mesma diligência e sem se conhecerem. Caminharam juntos, conversaram e o filósofo alemão ficou impressionado com o seu colega brasileiro”8.

A menção de Afonso de Taunay aparece no artigo A formação intelectual de Pedro II, no qual descreve o relato para com ele fazer denotar “a ilustração d. Pedro II”.

[...]. Recordarei, aqui, apenas a título de curiosidade, pouco conhecido depoimento sobre a impressão imediata causada pela cultura do imperador, depoimento da mais sabida importância por partir de um dos mais justamente célebres dos nossos contemporâneos: Frederico Nietzsche.

Estava o famoso criador do super-homem numa pequena estação da Áustria, quando passou o trem em que devia embarcar, para fazer pequeno percurso. Enganando-se, foi ter a certo vagão de luxo. Verificando o erro e notando que o carro estava ocupado por alta personalidade, acompanhada de grande séquito, quis retirar-se o pensador, mas teve logo o mais amável convite do ilustre viajante a que se sentasse. Não tardou que este o interpelasse e, dentro em pouco, estivessem os dois em cerrada conversa. Uma hora mais tarde, descia Nietzsche na estação do seu destino e, absolutamente entusiasmado, indagava da identidade do interlocutor. Soube, então, surpreso que se tratava do imperador do Brasil. Muito e muito falou acerca do imprevisto encontro, literalmente fascinado pelo espírito do soberano, impressionado, ao último ponto, com o que dele ouvira.

Longos anos após a morte de d. Pedro II, trouxe este fato a público o conde de Prozor, o conhecido e entusiasta propagandista da obra de Ibsen. Ouvira da viúva de Nietzsche a narrativa curiosa9.

Além de confundir “irmã” com “viúva”, Afonso de Taunay encontra nessa anedota o mote que precisa para rever o projeto nacionalista do imperador e exaltar as suas qualidades de erudito.

Já Max Fleiuss, no artigo O imperador julgado pelos intelectuais, expõe o conceito que segundo ele formaram os intelectuais do velho e do novo mundo sobre D. Pedro II: “pró-homem de Estado”10. O termo “pró-homem” remete, então, ao conceito Übermensch, essa era uma tradução corrente entre o final do séc. XIX e início do XX, no Brasil; pode-se atribuí-la a João Ribeiro, também era utilizada por José Veríssimo; estava atrelada a uma significação aristocrática, no sentido elitista e mesmo racista: “pró-homem” pretendia denominar um tipo superior de homem. Fleiuss, ao descrever os encontros e os elogios de intelectuais e cientistas consagrados a respeito de nosso “Rei-Sábio”, não deixa de lembrar que “Nietzsche, o bizarro filósofo que com ele viajou em caminho de ferro e discorreu algumas horas sobre os mais variados assuntos, sem conhecê-lo, interrogava após: “Quem será este homem extraordinário?”. E só mais tarde veio a saber que esse excursionista simples e encantador com quem estivera palestrando, era d. Pedro II”11.

Já aqui, podemos conjecturar que a história de que D. Pedro II “viajou e discorreu sobre os mais variados assuntos” com Nietzsche estava, à época, a alimentar o imaginário do pensamento conservador pró-monarquista, comum entre os autores e intelectuais defensores da monarquia parlamentarista, acima mencionados.

Além dos autores pró-monarquistas, também George Raeders, escritor francês e biógrafo de D. Pedro II, teve participação fundamental para manter viva a história do encontro entre Nietzsche e D. Pedro II, tanto no Brasil quanto no estrangeiro. No livro Le comte de Gobineau au Brésil, de 1934, Raeders argumenta que foi por ocasião de um casual encontro entre Nietzsche e D. Pedro II que o nosso Imperador teve a oportunidade de apresentar ao pensador alemão a obra de Gobineau:

Se não é possível afirmar que Nietzsche tenha conhecido pessoalmente Gobineau, em todo caso é certo, segundo conhecido testemunho de sua irmã, a Senhora Förster, que ele lhe estudou as obras, e, particularmente, Inégalité des Races Humaines. Mais ainda: foi D. Pedro, quando viajava incógnito pelo Tyrol, que fez partilhar ao filósofo alemão o seu entusiasmo pelas obras do escritor francês, por ocasião de um encontro casual, no decorrer de uma excursão12.

Outro registro da história aparece em 1943, agora reproduzido por autor atuante na área da pedagogia. Fernando Azevedo, no livro A Cultura Brasileira, refaz, de forma livre e indireta, a versão contada por Oliveira Lima. Ao tratar das dificuldades de D. Pedro II em implementar as ciências no Brasil, puxa uma nota e acrescenta: “e, do interesse que era capaz de despertar, sem o prestígio da realeza, nos dá a medida a impressão que causou a Frederico Nietzsche, quando se encontraram, numa montanha da Suíça e, viajando juntos numa diligência, sem se conhecerem, entraram a palestrar o imperador brasileiro e o filósofo alemão”13.

Em 1944, no livro Dom Pedro II e os sábios franceses, Raeders, novamente, defende que “Nietzsche conheceu o imperador do Brasil durante uma excursão que este fazia incógnito na Suíça”. Alceu Amoroso Lima, que escreve o prefácio do livro, confia no relato de Raeders e, ao discorrer acerca dos intelectuais com os quais D. Pedro II encontrava-se, assevera que “Outro dos luminares do século cujo gênio sacudiu todo o pensamento dos tempos modernos, de cujos venenos foi o mais genial dos distribuidores, Friedrich Nietzsche, esteve em contato com Pedro II e deu o seu testemunho sobre a grande figura do nosso Imperador”. Já Raeders situa, inclusive, o alcance do imperador do Brasil sobre as leituras e reflexões de Nietzsche: “É graças a D. Pedro que o filósofo alemão teve, nessa ocasião, conhecimento da pessoa e obra de Gobineau, em que muito se inspirou desde então, mas de quem jamais citou o nome”14.

Malgrado autores como Sérgio Buarque de Holanda, já em 1935, ter chamado a atenção para as falsificações de Elisabeth15; apesar do debate entre aqueles que unificavam o pensamento de Nietzsche com os totalitarismos e aqueles que procuravam desfazer tal associação já tivesse se encerrado, ainda assim, em 1976, o Conselho Estadual de São Paulo, através da Secretaria de Cultura, pública uma vez mais o registro de George Raeders, ao traduzir o livro O Conde de Gobineau no Brasil: documentação inédita. Logo de início, o escritor defende que “Nietzsche deve” a Gobineau “a sua teoria do ‘super-homem’”16. No último capítulo, ao tratar dos pontos de contato entre o pensamento de Nietzsche e o de Gobineau, repete-se a mesma passagem do livro de 193417.

No dia 2 de março de 1948, na coluna assinada por “Spectador”, no Diário de Notícias, RJ, aparece um breve texto intitulado Nietzsche e Pedro II. O autor examina “as fontes em que se louva essa história”. Não identifica a “revista destes dias” na qual indica ter aparecido uma “referência ao encontro de D. Pedro II com Friedrich Nietzsche”. Eis, finalmente, o primeiro texto a questionar seriamente a história: “Seria verdade ou lenda essa entrevista do soberano com o filósofo ‘que filosofava com o martelo’?”. Embora questione os textos de Oliveira Lima, Max Fleiuss e Georges Raeders, considera “autêntica” a “versão” de Elisabeth Förster. Esta coluna, tudo indica, pode ser atribuída ao jurista e jornalista Ernesto Feder.

Tanto que, dois anos depois, ele retoma a história no artigo D. Pedro II e Nietzsche, publicado na revista Ilustração Brasileira. Feder analisa as diferentes versões do encontro: a de Oliveira Lima, a de Max Fleiuss e a da irmã do filósofo. É o primeiro a colocar em dúvida a história: “É de estranhar que nenhuma dessas fontes alegue testemunhos ou outras provas do encontro”. Adverte que “Oliveira Lima serve-se de expressões como ‘fala-se’ e ‘ao que relatam’. É curioso também que uns falem de encontro na Suíça, outros no Tirol, uns numa estrada de ferro, outros numa execução alpestre”. Por fim, todavia, acaba por aceitar a versão de Elisabeth Förster: “Não obstante, não posso duvidar da autenticidade do encontro. Parece-me mais provável a versão da irmã de Nietzsche que, provavelmente a recebeu do próprio irmão”18.

Ernesto Feder era judeu natural da Alemanha; após ser perseguido pelo regime instalado pelo Nacional-Socialismo, refugiou-se no Brasil, a partir de 1941, permanecendo até 1958. Embora acredite ser autêntica a versão de Elisabeth sobre a história do encontro entre Nietzsche e D. Pedro II, não deixa de combater os abusos e falsificações do pensamento nietzschiano pelo Nacional-socialismo.

Em 1951, publica outro texto sobre a história, agora com pequena inflexão no título: Nietzsche e D. Pedro II, que aparece na revista mineira Acaiaca, num número especial, dedicado a Nietzsche. Retoma, novamente, as versões de Oliveira Lima, Max Fluiss e Raeders e, mais detidamente, a de Elisabeth, apresentando, desta vez, uma transcrição completa de sua versão19. Esse seu texto é a fonte mais completa até então publicada. Ela mostra o quanto as versões são contraditórias e indica em que medida as demais são devedoras da versão de Elisabeth-Förster. Mais uma vez, não contesta a versão da irmã do filósofo, mesmo estando em franca contradição com as demais.

Mas a história do encontro de Nietzsche e D. Pedro II não acaba aqui, segue agora com o historiador Pedro Calmon, fomentador indireto do movimento de restauração da monarquia no Brasil. No livro História de Dom Pedro II, de 1975, o historiador retoma e discute as versões até então surgidas. Especula a respeito do conteúdo da conversa e defende, de forma categórica, que a carta de Nietzsche “a Peter Gast fixa a data do encontro com o imperador. Viajaram ambos a “2 de abril de 1888”. Obtendo informação de datas e locais em fontes imprecisas, divaga em uma exposição pouco documentada para um texto historiográfico. Sugere, assim, que D. Pedro II

[...]. Deixou a riviera a 2 de abril, fugindo à onda de amizades recentes, que aparecem, a abraçá-lo na estação; quantos aristocratas lá veraneavam (disse D. Francisca) (...).

Na parada seguinte, Nice, tomou o mesmo vagão, sentou-se a seu lado, entrou de conversa com ele um alemão de farto bigode gaulês, que conhecia Gobineau e Wagner!

Ao longo do litoral ligúrio, por onde coleia o caminho de ferro, entre patamares ajardinados e o mar de anil, cavaquearam à vontade. Como dois turistas que o acaso da viagem juntou na cabina de Nice; ambos loquazes.

No seu diário, deixou D. Pedro de apontar essa entrevista fortuita com Frederico Nietzsche.

Este só veio a saber que praticara com o Imperador do Brasil depois que se separaram em Gênova, e perguntou a um funcionário da estação, quem era o personagem venerado de quem tanta gente se acercava com respeito.

NIETZSCHE

O autor de Assim Falava Zaratustra passara realmente em Nice uns dias balsâmicos.

Declinava (como Maupassant) a grande noite; quando só fossem cinzas as chispas do pensamento; sujeito a delírios em fevereiro de 1888, na riviera, onde escrevera O Viajante e sua Sombra (Der Wanderer und sein Schatten), Morgenrote, a Gaia Ciência. A 31 de março comunicou a Peter Gast (que lhe reconstituirá Der Wille zur Macht) que seguiria dois dias depois para Turim.

A carta a Peter Gast fixa a data do encontro com o imperador.

Viajaram ambos a 2 de abril.

(...) A despeito das questões que entre eles se interpuseram: o dionisíaco da música, o apolíneo da fantasia; a moral cristã e a rebelião do homem, ou o super-homem, Uebermensch do primeiro ato do Fauto. Não cremos que acalorassem o diálogo (a paisagem a desfilar pelo vidro da janela) com esta metafísica. A “longa barba e o olhar safírico” do imperador (de que falou Laet) conteriam a agreste exuberância do escritor. Lembrar-lhe-ia um rei escandinavo (das sagas) disfarçado no capote vulgar. Que de outro modo não se teriam tolerado, cada um entrincheirado nos seus princípios, isto é, no seu mundo - o que passava e o que viria; conciliado pelas instituições ou subvertido pelo “humano, demasiadamente humano” (Menschliches, Alluzumenschliches); seja o do conformado viver ou do viver perigosamente, Gefäring Leben; passado e utopia; Umvertung aller Werte!20

Os documentos que Calmon utiliza para tentar comprovar o encontro são as “Lettres à Peter Gast, trad. de Louise Sericen”. Mas reconhece a insuficiência de suas fontes; já por isso, acrescenta em nota explicações e esclarecimentos embaraçosos. Primeiro, “Refere-se à partida do imperador (2 de abril) a Princesa de Joinville, carta do dia 13, ms. A.G.P. No Diário do Imperador não há alusão ao encontro com o escritor de Also sprach Zarathustra”. Depois, completa argumentando que “O que se publicou é da irmã de Nietzsche, Elisabeth Förster-Nietzsche, mas como adiante (em forma de retificação) se dirá”. A retificação é feita na forma de uma nota, na qual explica que

O encontro, contado por Mme Förster-Nietzsche, foi pela primeira vez comentado no Brasil pelo Conde de Prozor, em conferência sobre Nabuco. Essa sessão da Academia Brasileira (31 de maio de 1913, Atas, ms, arq. da Academia) (...). Segundo Max Fleiuss (Ibero-Amerikanische Archiv, t. XIII, fasc. 3) o encontro se teria dado no Tirol. A irmã de Nietzsche acrescenta à versão (que se nos afigura inverossímil) que, “soube-se mais tarde, ouvindo, muito curioso, entrara de mansinho, e muito se comovera com a milagrosa conclusão” de uma das fantasias musicais de Nietzsche o Imperador do Brasil. No dia seguinte viram-se numa escalada de montanha, quando Nietzsche verificou que falava ao soberano... Para Ernesto Feder, Revista Brasileira de Filosofia, fasc. 44, p. 512, 1961, esta notícia é mais aceitável, por ser de irmã. Sim, até a publicação da carta a Peter Gast, de 31 de março de 1888, em que comunicou que viajaria de Nice para a Itália em 2 de abr. Em 2 de abr. o imperador viajaria de Cannes para a Itália em 2 de abr. Em 2 de abr. o imperador viajou de Cannes para a Itália. Portanto, no mesmo comboio. A menos que se encontrasse pela segunda vez, e neste caso não haveria a surpresa... - Carta de Nietzsche, de Turim, Correnpondência, trad. de E. Ongeny, p. 368, Madri21.

Pedro Calmon comete enganos vários. Por exemplo, ainda que o Conde de Prozor tenha relatado o episódio em seu discurso na Academia Brasileira, em maio de 1913, no ano anterior, a revista Fon-Fon já havia publicado uma versão da história, temos ainda o texto do diário O Imparcial. As suas fontes não se sustentam sem contradição, pois as datas e locais a que se refere não coincidem exatamente como gostaria.

Depois de Pedro Calmon, em 1991, Leopoldo Bibiano Xavier, no livro Revivendo o Brasil-Império, irá novamente reproduzir a versão difundida por Afonso Taunay, segundo à qual “Frederico Nietzsche estava numa pequena estação da Áustria, quando passou o trem em que devia embarcar, para fazer pequeno percurso. Enganou-se e foi ter a certo vagão” em nele estava D. Pedro II22. Em 1992, aparece outro registro, agora no livro do conservador pró-monarquista Alexandre Miranda Delgado, O imperador magnânimo, no qual se propõe a estudar os aspectos da figura de D. Pedro II através de seus escritos e depoimentos. Sua fonte principal também é o texto de Afonso Taunay23.

Em 2007, José Murilo de Carvalho publicou o livro Dom Pedro II: Ser ou não ser, cujo parágrafo final do capítulo “Nasci para as letras e as ciências” retoma a longa história do encontro de Nietzsche e o imperador do Brasil. Conclui o parágrafo reafirmando o quanto “Pode-se imaginar a surpresa de intelectuais europeus, como Nietzsche, com quem se encontrou casualmente na Áustria, ao descobrirem que vinha do Brasil um dos soberanos mais ilustrados do século”24. Infelizmente, o historiador reproduziu uma anedota cujos motivos e consequências ele mesmo não procurou conhecer.

No Dicionário do Brasil Imperial, organizado por Ronaldo Vainfas, de 2002, lê-se que D. Pedro II surpreendeu “notáveis interlocutores, a exemplo do filósofo alemão Nietzsche, seu companheiro de prosa numa viagem pela Suíça que, muito impressionado com a erudição do desconhecido, procurou saber de quem se tratava”25. Nem José Murilo de Carvalho e nem Ronaldo Vainfas se deram ao trabalho de indicar a fonte à qual eles teriam tomado contato e/ou se informado a respeito da história, permanecendo no âmbito da mera anedota. O que eles talvez não soubessem é que assim contribuíam para alimentar e validar o imaginário do pensamento conservador pró-monarquista, que se vale da história para enaltecer o ideal de uma monarquia parlamentarista no Brasil26.

Atualmente, a anedota sobre a longa história do encontro continua alimentando a imaginação de jornalistas. Maurício Torres Assumpção, no livro A história do Brasil nas ruas de Paris, realça que “nos Alpes austríacos” de “Bad Gastein”, “D. Pedro recebeu a visita (...) de Friedrich Nietzsche”. As fontes de Assumpção, citadas na bibliografia, são Georges Raeders e José Murilo de Carvalho. Seu objetivo de realçar “as estórias relegadas às notas de pé de página na literatura acadêmica” foi alcançado. O problema, porém, é que até então ninguém havia falado sobre “visita”. Confusamente, com o propósito de “ressaltar o círculo intelectual frequentado por D. Pedro”, defende que “vale a pena acrescentar que ele e Nietzsche voltariam a se encontrar em Bayreuth, na Alemanha (...), na inauguração do teatro de Richard Wagner”27.

Por fim, já na pesquisa especializada, Stefano Busellato, no livro Nietzsche dal Brasile: Contributi alla ricerca contemporanea, logo no prefácio, en passant, comenta que “Nietzsche incrociò almeno due volte Pedro II”28; não foca nem desenvolve esse dado, por não ser esse o objetivo do livro. Afiança que o motivo e a qualidade da pesquisa contemporânea brasileira de Nietzsche não se devem, justamente, às suas poucas, improvisadas e extemporâneas menções ao Brasil, afinal, nunca desenvolveu um interesse profundo de caráter extracontinental.

Referências de Nietzsche ao Brasil e a D. Pedro II

Supreendentemente, de fato, no epistolário de Nietzsche, entre os anos de 1877 e 1888, encontram-se nada menos do que cinco cartas nas quais faz alusão passageira ao Brasil. Em quatro delas, discorre especificamente a respeito de D. Pedro II29. Faz ainda uma menção ligeira ao Brasil, no livro Aurora.

Numa carta datada de 1886, endereçada a Peter Gast, na qual descreve um de seus passeios pela baía de Rapallo, nas cercanias de Gênova, Nietzsche alude a uma “porção de floresta virgem, tropical, que nos carrega para longe da Europa, algo de brasileiro (...)”30. Se nas cartas Nietzsche nos remete a D. Pedro II e à paisagem tropical brasileira, à qual a associa a algo de longínquo, isolado e helênico, no livro Aurora, diferentemente, nos remete a um Brasil primitivo, extemporâneo. No § 14 do livro, na qual trata do significado da loucura para a eticidade do costume e para a moralidade cristã primitiva e moderna, ao listar as receitas necessárias para se tornar um líder espiritual reconhecido, como o feiticeiro entre os indianos, o santo medieval entre os cristãos, o angekok da Groenlândia, chama de “Paje” (ein Paje) ao líder espiritual das tribos indígenas localizadas em terras brasileiras (M/A, § 14, KSA 3.26-28).

Especificamente sobre D. Pedro II, a primeira carta em que faz referência a ele fora escrita a 7 de agosto de 1877, de Rosenlauibad, na Suíça, onde estava de férias. Enviada a sua irmã, nela relata: “Aqui no hotel estavam também o imperador e a imperatriz do Brasil”31. Três dias depois, com mais detalhes, Nietzsche escreve outra carta, agora endereçada à mãe, na qual afirma: “Além disso, aqui no hotel estava o imperador do Brasil acompanhado por 17 pessoas”32. No dia 10 de agosto de 1877, torna a escrever outra carta à irmã, nela assevera: “O imperador e a imperatriz do Brasil estiveram aqui no hotel”33. A quarta e última referência a D. Pedro II data de 6 de janeiro de 1888, presente na carta enviada de Nice a Peter Gast. Nela conta ao amigo que na “quinta-feira passada fiz a minha primeira visita a Montecarlo para assistir a um concert classique (no qual também estava presente o imperador do Brasil)”34.

Assim, portanto, nem a obra nem o epistolário de Nietzsche oferecem provas de que tenha efetivamente se encontrado e conversado com D. Pedro II. As cartas poderiam assentir que sua vida e a dele, de passagem e à distância, se cruzaram três vezes. Primeiro em Bayreuth, no ano de 187635; depois, no verão de 1877, em Rosenlauibad, na Suíça, em que pese o emprego do verbo no passado (“estava”) para se referir a presença de D. Pedro II e a dificuldade de aproximação para um encontro e diálogo estando o imperador acompanhado por 17 pessoas; por fim, estiveram num mesmo concerto de música, no dia 5 de janeiro de 1888, no teatro de Montecarlo, na Itália.

Motivos e consequências da falsificação

Se considerarmos os dados das inúmeras e contraditórias versões do encontro entre Nietzsche e D. Pedro II que circularam no Brasil e alhures e cruzarmos com os dados das cartas do filósofo e com os Diários de D. Pedro II36, somos impelidos a avaliar que um encontro e conversa entre eles nunca ocorreu. Também somos instigados a conjecturar que essa longa história não teria iniciado e se difundido somente em virtude de uma simples e ingênua anedota, proliferada seja para enaltecer o filósofo ou o imperador. Trata-se, inicialmente, de uma fraude, de uma falsificação, criada pela irmã de Nietzsche: Elisabeth-Förster e, secundariamente, de uma fraude acolhida e manipulada conforme motivações ideológicas e políticas.

À luz do que historicamente se atesta, conclui-se que um encontro e conversa entre Nietzsche e Dom Pedro II não aconteceu em 1871, num vagão de trem na Áustria, nem em Bayreuth, em 1876, “nem em Rosenlauibad, em 1877, nem sobre os Alpes tiroleses, em 1880, nem no trem entre Nice e Gênova, em 1888”37, nem no concerto de música do teatro de Montecarlo, em 1888.

A problemática principal, portanto, não é tanto a de provar que a história é falsa, mas de mostrar que ela é portadora de interesses ideológicos e políticos, e que somente por isso ela se manteve ativa por mais de um século. Como vimos, tudo não passa de uma falsificação de Elisabeth-Förster que foi acolhida e manipulada pelos defensores da causa monárquica. Trata-se de uma história que se sustentou e se prolongou na medida em que foi manejada conforme as motivações políticas do imaginário conservador pró-monarquista brasileiro.

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1 Intitulado “A verdadeira história de Nietzsche e Dom Pedro II de Alcantâra, último imperador do Brasil”. Circunstancial, sua motivação para escrever o ensaio foi a seguinte: “Durante um seminário do qual participei como palestrante juntamente com os eminentes colegas e queridos amigos Maria Lúcia Cacciola e Oswaldo Giacoia Jr., em 17 de novembro de 2011, na Universidade de São Paulo (USP), uma das discussões recaiu sobre Dom Pedro II de Alcântara e seu encontro com Nietzsche. Mesmo tendo tido oportunidade de me ocupar exaustivamente de Nietzsche, tive de confessar que nada sabia sobre o assunto. Nasceu, assim, a exigência de aprofundar a questão e surgiu o projeto deste pequeno ensaio, que pretende ser uma homenagem aos participantes daquela discussão e, em geral, à pesquisa histórico-filosófica no Brasil, da qual Maria Lúcia Cacciola é um dos expoentes mais influentes e respeitáveis (...)”. Cf. Domenico M. Fazio, 2015 , p. 49.

2Esta versão foi reeditada numa recente e renomada biografia, intitulada Friedrich Nietzsche: Chonik in Bildern und Texten. In: Aufraf der Stiftung Weimarer Klassik zusammengestellt von Raymond Benders u. S. Oettermann. München/Wien: Dtv, 2000, p. 410-411; Apud D.M. Fazio, 2015, p. 55-6.

3 M. Prozor, 1912 , p. 337-8. Tradução livre do francês da época. Material fac-símile disponível no Portal da Gallica - Bibliothèque nationale de France: http://gallica.bnf.fr/.

4 E. Förster-Nietzsche, 1914 , p. 32. Trad. Ernesto Feder, 1951.

6 C. M. de Azevedo, 1923, p. 207. Apud D. M. Fazio, 2015, p. 53.

9 A. Taunay, 1925 , p. 892.

10 M. Fleiuss, 1925 p. 958.

11 M. Fleiuss, 1925 , p. 961.

12 G. Raeders, 1944 , p. 118-119.

14 G. Raedees, 1944, p. 7 e 17. A fonte de Raeders é “Magalhães de Azevedo: Revista do Inst. Hist. E Geogr. Brasileiro, tomo especial, 1925, (Biografia de D. Pedro II, parte 1ª, p. 980)”. No entanto, não consta no periódico este texto.

16 G. Raeders, 1934, p. 6.

17A edição de O Conde de Gobineau no Brasil, trad. Rosa Freire D’Aguiar, pela Paz e Terra, 1996, não inclui o trecho. As fontes de Raeders são as versões difundidas por Elisabeth, pelo diplomata Magalhães de Azevedo e pela Revista do Inst. Hist. Geogr. Brasileiro.

18 E. Feder, 1950 , p. 15.

19 E. Feder, 1951, p. 91-92.

20 Pedro Calmon, 1975, v. 4 p. 1391.

21 Pedro Calmon, 1975, v. 4, p. 1391.

23 Alexandre M. Delgado, 1992 p. 30, 151-2.

25 R. Vainfas, 2002 p. 200.

26Daí adiante, outros pesquisadores da historiografia perpetuaram a história do encontro. Em 2008, a historiadora Regina Dantas publicou artigo no qual defende que D. Pedro II trocou correspondência com Nietzsche, cf.Regina Dantas, 2008. Outra versão do encontro aparece na revista Nossa História, edição 22. Circulam em sites, blogs e em postagens do Facebook contrastantes versões do encontro.

27 M. T. Assumpção, 2014 , p. 11, 131-132.

28“Nietzsche cruzou pelo menos duas vezes com Dom Pedro II”. S. Busellato, 2014, p. 11.

29Cf. KSB: Sämtliche Briefe. Kritische Studienausgabe, edição em 08 volumes das cartas de Nietzsche, estabelecidas por Colli e Montinari. Berlin: Walter de Gruyter & Co., 1975/1984. Cf. também a KGWB: Digitale Kritische Gesamtausgabe Werke und Briefe, disponível em http://www.nietzschesource.org/.

30Em 1950, no Correio da Manhã, RJ, Victor Wittkowski examina o conteúdo dessa carta (em conexão com o § 1 do capítulo de Ecce Homo dedicado ao livro a Assim falou Zaratustra); procura enfatizar que o filósofo “chegou certa vez a pensar ligeiramente no Brasil”. É possível que Victor Wittkowski tenha tomado conhecimento das cartas de Nietzsche por meio de André Gide, com quem manteve correspondência e editou seu epistolário; tanto que ele encorajou André Gide a “publicar as cartas da mãe de Nietzsche, das quais possuía cópia” (Victor Wittkowski, 1950). No artigo em que examina a carta, o escritor, editor e crítico literário, já no título, se mostra afirmativo e pretencioso: “Nietzsche, intérprete do Brasil”. Defende, com algum acerto, que na carta, “Ao conceito de “Brasil” Nietzsche associa qualquer coisa de “longínquo”, de “isolado”, como uma ilha, algo de “grandioso” e, ao mesmo tempo, de “primitivo”” e “helênico”. E prossegue procurando “fixar com a máxima precisão possível, uma impressão fugitiva”, isto é, a “visão imaginária que Nietzsche teve do Brasil” (Victor Wittkowski, 1950).

31„Dann war Kaiser und Kaiserin von Brasilien hier im Hause“. Carta a E. Förster-Nietzsche de 7 de agosto de 1877, KSB 5.270.

32„Dann war der Kaiser von Brasilien mit 17 Mann Gefolge hier im Hause“. Carta a Franziska Nietzsche de 10 de agosto de 1877, KSB 5.270.

33„Kaiser und Kaiserin von Brasilien waren hier im Hause“. Carta a E. Förster-Nietzsche de 10 de agosto de 1877, KSB 5.271.

34„welchem auch der Kaiser von Brasilien beiwohnte“. Carta a Peter Gast de 6 de janeiro de 188. KSB 8.227.

35“Nietzsche e sua irmã Elisabeth avistaram efetivamente o último imperador do Brasil no teatro de Bayreuth, por ocasião da primeira edição do Ouro do Reno, em 13 de agosto de 1876”, Cf. FAZIO, op. cit., p. 269. As fontes do pesquisador italiano são as cartas de Nietzsche que confirmam sua presença nesta mesma data, os Diários de D. Pedro II e o testemunho de Cosima Wagner, deixado em seu diário: “visita surpresa do Imperador do Brasil”, Cf. WAGNER, Cosima. Die Tagebücher. Ed. por M. Gregor-Dellin e D. Mack. Munique: Piper, 1976, vol. I, p. 998.

36Cf. SCHWARCZ, Lilia Moritz e BEDIAHGA Begonha. Diário do Imperador D. Pedro II: 1840-1891. Petrópolis: Museu Imperial, 1999. Não há referência nos arquivos do Museu Imperial, que disponibiliza, entre outros materiais, o Diário da Viagem de d. Pedro II aos Estados Unidos, 1876 (http://www.museuimperial.gov.br/).

37 D. M. Fazio, 2015, p. 62.

Recebido: 06 de Junho de 2018; Aceito: 18 de Setembro de 2018

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