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CoDAS

On-line version ISSN 2317-1782

CoDAS vol.25 no.2 São Paulo  2013

http://dx.doi.org/10.1590/S2317-17822013000200013 

ARTIGO ORIGINAL ORIGINAL ARTICLE

 

Resultados da reabilitação auditiva em idosos usuários de próteses auditivas avaliados com teste dicótico

 

 

Alexandre Hundertmarck LessaI; Tais Regina HennigII; Maristela Julio CostaIII; Angela Garcia RossiIII

IPrograma de Pós-gradução em Distúrbios da Comunicação Humana, Universidade Federal de Santa Maria – UFSM – Santa Maria (RS), Brasil
IIUniversidade Federal de Santa Maria – UFSM – Santa Maria (RS), Brasil
IIIDepartamento de Fonoaudiologia, Universidade Federal de Santa Maria – UFSM – Santa Maria (RS), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Verificar os efeitos da reabilitação auditiva, por meio da análise dos aspectos quantitativos e qualitativos do Teste Dicótico de Dissílabos Alternados (SSW), em idosos novos usuários de próteses auditivas.
MÉTODOS: O estudo foi realizado com 17 idosos, novos usuários de próteses auditivas, com idades entre 60 e 84 anos, distribuídos em G1, que somente fez uso das próteses auditivas, e G2, que foi submetido a um programa de reabilitação auditiva, que abrangeu o aconselhamento e treinamento auditivos. Todos os indivíduos foram submetidos ao teste SSW em momentos distintos de avaliação, inicial e final do estudo. Os dados foram analisados estatisticamente.
RESULTADOS: Para os aspectos quantitativos, os sujeitos do G1 apresentaram melhora entre as avaliações, porém não signiticativa, enquanto os sujeitos do G2 apresentaram melhora significativa quanto aos aspectos direita competitiva, esquerda não-competitiva e total de acertos. Quando comparado o desempenho final de ambos os grupos, houve diferença significativa entre quase todas as variáveis, com vantagem para o G2. No que diz respeito aos aspectos qualitativos, os idosos de ambos os grupos apresentaram déficits em ambas as avaliações, com diferentes mudanças entre elas.
CONCLUSÃO: Os escores alcançados pelos indivíduos do grupo submetido à reabilitação auditiva nas variáveis direita competitiva e esquerda não-competitiva demonstram, principalmente, a melhora no que diz respeito ao funcionamento do hemisfério esquerdo proporcionada pelo treinamento. Para a evidência de diferença entre os resultados dos aspectos qualitativos, possivelmente fosse necessária reavaliação após um período mais longo de tempo, para que realmente houvesse alteração das percepções auditivas associadas a outras funções sensoriais.

Descritores: Aconselhamento; Audição, Auxiliares de audição; Idoso; Percepção auditiva; Perda auditiva; Reabilitação de deficientes auditivos


 

 

INTRODUÇÃO

As diversas mudanças orgânicas e fisiológicas que ocorrem no sistema auditivo dos idosos, tanto na porção periférica quanto central, possivelmente interferem na habilidade desta população de processar eficientemente os estímulos de fala que recebe, gerando com frequência dificuldade na compreensão de fala, que pode ser agravada na presença de perda auditiva(1).

A presbiacusia se caracteriza por ser uma perda auditiva progressiva da sensibilidade auditiva em função da idade, que pode começar a qualquer momento, mas é mais esperada que ocorra a partir dos 60 anos de idade. Tradicionalmente, é caracterizada como uma perda auditiva bilateral e mais acentuada nas frequências altas; os resultados do Índice de Reconhecimento de Fala (IRF) variam muito, dependendo do local da lesão; o recrutamento pode ou não estar presente; os reflexos acústicos estão ausentes, ou presentes quando ocorre recrutamento(2).

A prótese auditiva pode ser utilizada para reabilitar o idoso portador de perda auditiva, mas apesar de amplificar e modificar os estímulos acústicos de acordo com as necessidades de cada sujeito, e resgatar a percepção dos sons do ambiente e da fala, não modifica diretamente o cérebro ou o comportamento do usuário(3).

Assim, embora a audibilidade de um sinal de fala possa ser restaurada imediatamente, após a adaptação de próteses auditivas, o usuário necessita de um tempo para aprender a interpretar as informações acústicas introduzidas recentemente. Logo, a realização de um treinamento com o indivíduo pode ser necessário para otimizar os benefícios das próteses auditivas, aprimorando as habilidades de reconhecimento de fala(4).

Um estudo(5) sugeriu que acompanhar o paciente apenas até o momento da aquisição das próteses não é suficiente e referiu a importância de o paciente sentir-se amparado e ter uma boa interação com o fonoaudiólogo. Além disso, como foi percebido em outra pesquisa(6), por meio de sessões de aconselhamento pode ser verificada a segurança e a confiança dos indivíduos para desempenharem uma boa comunicação, assim como para manusear e cuidar das próteses auditivas.

O treinamento auditivo formal para idosos é possível, porém as tarefas que envolvem condições de escuta difícil podem causar frustração, desânimo e desistência do treinamento, com consequente abandono do uso da prótese auditiva. Assim, procurou-se desenvolver um programa de treinamento auditivo que pudesse ser mais interessante, lúdico e prazeroso para idosos usuários de próteses auditivas, o Treinamento Auditivo Musical (TAM)(7). Neste treinamento, a autora buscou oferecer estímulos desafiadores em tarefas motivadoras e que se repetem, a fim de favorecer o desenvolvimento da plasticidade neural.

Para a avaliação das mudanças advindas da estimulação auditiva no desempenho comunicativo dos sujeitos, o pesquisador pode-se valer de diferentes avaliações. No presente estudo, utilizou-se o teste conhecido como SSW (Staggered Spondaic Word Test)(8) ou Teste Dicótico de Dissílabos Alternados, em português brasileiro adaptado(9), que avalia diferentes habilidades por meio da tarefa de audição dicótica.

Sendo assim, este estudo teve como objetivo verificar os efeitos da reabilitação auditiva, por meio da análise dos aspectos quantitativos e qualitativos do teste SSW, em idosos novos usuários de próteses auditivas.

 

MÉTODOS

O estudo teve caráter descritivo, longitudinal, quantitativo e experimental foi realizado no Núcleo de Seleção e Adaptação de Próteses Auditivas (NUSEAPA) do Serviço de Atendimento Fonoaudiológico da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). A coleta de dados foi realizada no período de março a dezembro de 2010, sendo vinculado ao projeto de pesquisa intitulado "Pesquisa e Base de Dados em Saúde Auditiva", registrado no Gabinete de Projetos do Centro de Ciências da Saúde sob o nº 019731 e aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa da UFSM, sob o nº 0138.0.243.000-06, em 05/12/2006.

Para a seleção dos participantes da pesquisa foram analisados os prontuários dos pacientes que aguardavam a concessão de próteses auditivas no NUSEAPA, por intermédio do Programa de Concessão de Próteses Auditivas de fluxo contínuo da Secretaria de Assistência à Saúde do Ministério da Saúde.

Aqueles que se adequaram aos critérios pré-estabelecidos, receberam esclarecimentos sobre o estudo, tais como: objetivos, procedimentos, riscos e benefícios previstos, e sigilo quanto à identificação. Destes, os que aceitaram participar voluntariamente da pesquisa, assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Fizeram parte do estudo os indivíduos que se adequaram aos seguintes critérios de inclusão pré-estabelecidos:

  • Ter idade superior a 60 anos, idade a partir da qual considera-se o sujeito idoso para países em desenvolvimento, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS);
  • Ter perda auditiva neurossensorial bilateral simétrica, com grau variando de leve a moderadamente severo(10);
  • Ter adquirido a perda auditiva no período pós-lingual;
  • Apresentar Índice Percentual de Reconhecimento de Fala (IPRF) igual ou superior a 72%;
  • Ser, obrigatoriamente, novo usuário de prótese auditiva, sem experiências anteriores e com indicação de adaptação bilateral de prótese auditiva;
  • Não apresentar alterações e deficiências que comprometam a execução dos procedimentos (distúrbios neurológicos, psicológicos, mentais ou cognitivos) e/ou alterações de fala perceptíveis;
  • Ter adquirido as próteses auditivas no NUSEAPA, por intermédio do Programa de Concessão de Próteses Auditivas de fluxo contínuo da Secretaria de Assistência à Saúde do Ministério da Saúde;
  • Exclusivamente para os sujeitos submetidos ao programa de reabilitação auditiva, ter concordado em realizar as sete sessões de acompanhamento, com prazo máximo de dez semanas para completar o processo.

Como critério de exclusão foi adotado:

  • Ter apresentado resultados com nota inferior a 27(11) no Mini-Exame do Estado Mental (MEEM)(12). Este exame é aplicado como uma triagem, a fim de identificar possíveis alterações de funções cognitivas específicas, tais como: orientação, memória, atenção, linguagem e capacidade construtiva visual, amplamente utilizado em hospitais e clínicas.

Ressalta-se que os idosos usuários de próteses auditivas eram provenientes do Programa de Concessão de Próteses Auditivas, que contempla a 4ª Coordenaria de Saúde do Estado e atende os municípios de Santa Maria e da Região Centro-Oeste do Estado do Rio Grande do Sul.

Assim, por uma questão de viabilidade de execução da pesquisa, considerando principalmente a necessidade de os sujeitos comparecerem ao Serviço durante, no mínimo, nove semanas consecutivas, os pacientes de outros municípios foram destinados a compor o grupo não-submetido à reabilitação auditiva (G1), enquanto os que residiam no município de Santa Maria foram enquadrados, preferencialmente, no grupo submetido à reabilitação auditiva (G2). Entretanto, a reabilitação auditiva também foi disponibilizada para os sujeitos do G1, mas deveria ser realizada após a avaliação final.

Assim, o estudo contou com a participação de dois grupos distintos, o G1 e o G2. Ambos os grupos iniciaram os procedimentos da pesquisa após a alta parcial do Programa de Concessão de Próteses Auditivas, que acontece quando, após a adaptação, o paciente já retornou a, no mínimo, uma consulta e não apresenta mais dúvidas ou queixas. Salienta-se que na consulta destinada à adaptação das próteses auditivas, são prestadas todas as orientações necessárias quanto ao uso, aos cuidados e ao manuseio das mesmas.

O G1, composto por oito sujeitos (três do gênero feminino e cinco do gênero masculino), com idades entre 66 e 81 anos de idade, apenas fez uso das próteses auditivas durante sete semanas. Já o G2, composto por nove sujeitos (três do gênero feminino e seis do gênero masculino), com idades entre 60 e 84 anos, foi submetido a um programa de reabilitação auditiva estruturada em sete sessões, cada uma com duração de uma hora e 15 minutos, realizadas uma vez por semana, com a presença e supervisão do pesquisador responsável.

Todos os indivíduos foram submetidos ao Teste de Dissílabos Alternados e Sobrepostos (SSW), em dois momentos distintos de avaliação, inicial e final do estudo, sendo que o G2 foi avaliado antes e depois da reabilitação auditiva e o G1, foi avaliado, também, com o mesmo intervalo entre as avaliações. O SSW(8) adaptado para o português brasileiro(9) consiste na apresentação, de modo dicótico, de 40 itens contendo dois pares de palavras dissílabas paroxítonas.

Na aplicação do teste, é apresentada uma palavra a uma orelha sem competição, depois duas palavras simultaneamente e, por fim, uma palavra na outra orelha sem competição. Metade dos itens inicia na orelha direita (OD) e a outra metade na orelha esquerda (OE), sempre alternadamente. Considera-se erro, a omissão, substituição ou distorção de uma palavra, não sendo considerado erro, a adição ou omissão de um fonema, bem como resposta lenta (embora esta deva ser observada qualitativamente).

Em nosso estudo foram considerados os aspectos quantitativos: direita não competitiva (DNC), direita competitiva (DC), esquerda competitiva (EC), esquerda não competitiva (ENC) e total de acertos; além dos qualitativos: efeito de ordem (EO), efeito auditivo (EA), inversões e Tipo A. Os erros para os aspectos qualitativos servem para categorizar possíveis déficits. De acordo com a alteração nos efeitos de ordem e auditivo pode-se sugerir déficit na decodificação fonêmica (DF) ou indicar perda gradual de memória (PGM). A presença de uma ou mais inversões, indica déficit na organização (Org) e a presença de padrão Tipo A, na integração (Int)(13).

Para a aplicação do SSW, inicialmente foi realizada a calibração adequada do equipamento por meio do tom puro disponível na primeira faixa do compact disc (CD) utilizado, sendo o VU meter ajustado na posição zero. Em seguida, os estímulos foram apresentados, em média, a 30 dB NS, considerando-se o conforto acústico para o sujeito em cada avaliação. Ressalta-se que a intensidade utilizada na avaliação final foi mantida igual à intensidade utilizada na avaliação inicial.

As medidas foram obtidas em cabina tratada acusticamente, utilizando-se um audiômetro digital de dois canais, marca Fonix®, modelo FA-12, tipo I e fones auriculares tipo TDH- 39 P, da marca Telephonics®. Os estímulos foram apresentados por meio do CD inserido em um CD Player Digital Toshiba®, modelo 4149, acoplado ao audiômetro.

O programa de reabilitação auditiva contemplou o aconselhamento auditivo aos sujeitos participantes e o treinamento auditivo propriamente dito, conforme cronograma especificado abaixo.

No que diz respeito ao aconselhamento auditivo, foram abordados a cada sessão os objetivos das tarefas trabalhadas e a aplicação das mesmas nas situações diárias de comunicação. Foram fornecidas estratégias de comunicação, e reforçados os aspectos práticos do uso das próteses auditivas considerados neste estudo.

Para realizar o treinamento auditivo propriamente dito foi utilizado o Treinamento Auditivo Musical (TAM)(7), constituído por sete DVDs, que contemplam as habilidades auditivas de processamento temporal (resolução e ordenação temporal) e atenção seletiva, por meio de exercícios de treinamento auditivo dos aspectos figura-fundo de sons instrumentais, de frequência e duração dos sons, escuta direcionada, ritmo e fechamento auditivo. Além das habilidades auditivas destacadas, em cada exercício há o envolvimento da atenção e da memória de trabalho.

Além disso, os indivíduos foram encorajados a relatar semanalmente as diferenças, dificuldades e facilidades percebidas durante o treinamento com o uso das próteses auditivas. Por outro lado, pretendeu-se reforçar os pontos positivos do desempenho do paciente, desafiando-o a superar suas dificuldades na próxima sessão, visando otimizar a compreensão de fala, manter a qualidade do diálogo e desenvolver a confiança do usuário ao interagir na sociedade, e a manusear e cuidar suas próteses auditivas.

A apresentação do material referido acima foi realizada por meio de um computador com leitor de DVD, no qual foram acopladas duas caixas de som com Mini Subwoofer 2.1, marca Clone®, modelo 11128 e potência 5 w (RMS), posicionadas em uma sala silenciosa a um metro de distância do paciente, sendo dispostas uma à direita e outra à esquerda do computador, resultando em uma posição 45º azimute em relação ao sujeito.

Antes de iniciar as sessões de treinamento auditivo as próteses auditivas foram verificadas quanto ao funcionamento, garantindo assim a audibilidade dos sons, e foram utilizadas pilhas novas em todas as sessões.

Dessa forma, a coleta de dados teve duração de nove semanas para cada sujeito participante, descontando faltas e feriados, sendo que a primeira e a última foram destinadas às avaliações, inicial e final, respectivamente, e as demais, às sessões de reabilitação auditiva. O programa de reabilitação auditiva foi estruturado da seguinte forma:

  • Sessão 1: Avaliação inicial;

  • Sessão 2: Verificação e orientação quanto aos aspectos de colocação e remoção das próteses auditivas da orelha (incluindo molde auricular ou tubo fino e oliva, em casos de adaptação aberta) de uso dos estojos, e aplicação do DVD Figura-fundo para sons instrumentais;

  • Sessão 3: Verificação e orientação quanto aos aspectos relacionados ao controle de volume e/ou botão de programa e aplicação do DVD Figura-fundo para sons sequenciais;

  • Sessão 4: Verificação e orientação quanto aos aspectos relacionados à pilha na prótese auditiva e aplicação do DVD Duração dos Sons;

  • Sessão 5: Verificação e orientação quanto aos aspectos relacionados à limpeza dos moldes auriculares ou tubo fino e oliva, e aplicação do DVD Frequência dos Sons;

  • Sessão 6: Verificação e orientação quanto aos aspectos relacionados ao uso do telefone com as próteses auditivas (explorando regulagens e recursos disponíveis para essa finalidade) e aplicação do DVD Ritmo Estruturação Temporal;

  • Sessão 7: Verificação e orientação quanto aos aspectos relacionados uso do desumidificador e aplicação do DVD Fechamento Auditivo;

  • Sessão 8: Aplicação do DVD Escuta Direcionada, e quanto aos aspectos práticos, foi disponibilizada a sessão para dúvidas, aspecto sugerido por cada sujeito ou questão em que se observou necessidade de reorientação;

  • Sessão 9: Avaliação final.

A análise estatística dos dados foi realizada com a utilização do programa Statistica versão 9.0.

Para analisar o comportamento das variáveis quantitativas foi aplicado o teste de Liliefors. Dessa forma, para as variáveis que seguiram distribuição aproximadamente normal foram utilizados testes paramétricos, teste t de Student para duas amostras dependentes quando analisado o desempenho de cada grupo na avaliação inicial e final, e o teste t de Student para duas amostras independentes para analisar o desempenho de ambos os grupos em cada momento de avaliação, inicial e final.

Já para aquelas que não seguiram distribuição aproximadamente normal, foram utilizados testes não paramétricos, teste de Wilcoxon e o teste U de Mann Whitney, respectivamente. Para analisar a composição dos grupos quanto ao gênero foi utilizado o teste Exato de Fisher. Foi considerado resultado significante quando p<0,05, considerando-se um nível de significância de 5%(14).

 

RESULTADOS

Não foram constatadas diferenças quanto ao gênero dos sujeitos de ambos os grupos (p=1,0), nem com relação à idade dos mesmos (p=0,827).

Na Tabela 1 são expostas as medidas descritivas dos aspectos quantitativos do teste SSW do G1 e G2 na avaliação inicial e final e a análise dos resultados. Na Tabela 2 aparecem as medidas descritivas dos aspectos quantitativos e a análise dos resultados obtidos para ambos os grupos na avaliação final.

 

 

Observa-se que apenas o grupo submetido ao treinamento auditivo apresentou diferença entre os resultados das avaliações iniciais e finais (Tabela 1).

A Tabela 2 evidencia que, na avaliação final, os sujeitos do G2 apresentaram resultados melhores, quando comparados aos do G1.

Na Tabela 3 são apresentadas as categorizações dos déficits de todos os sujeitos de ambos os grupos, nas avaliações inicial e final, conforme as medidas dos aspectos qualitativos do teste SSW.

 

 

A Tabela 4 demonstra a porcentagem da presença dos déficits nas avaliações inicial e final em cada grupo.

 

 

DISCUSSÃO

Conforme os objetivos anteriormente descritos, este estudo analisou os aspectos quantitativos e qualitativos do teste SSW em dois grupos de idosos, novos usuários de próteses auditivas, tendo sido um destes submetido a um programa de reabilitação auditiva (G2), e o outro, que neste período não passou pelo mesmo programa, tendo apenas feito uso das próteses auditivas (G1).

Realizou-se uma análise estatística dos resultados encontrados para os aspectos quantitativos, a fim de verificar diferenças entre as avaliações inicial e final para cada grupo estudado (Tabela 1). Embora não tenha sido constatada diferença entre os resultados das avaliações do G1, ambos os grupos apresentaram melhora em todos os aspectos quantitativos considerados nesse estudo. Estes dados evidenciam a importância da adaptação de próteses auditivas nos idosos portadores de deficiência auditiva, mas demonstram o quanto o desempenho desses sujeitos pode ser ainda melhor, quando, associado à protetização, for realizada a reabilitação auditiva.

Apenas os sujeitos do G2 apresentaram melhora significativa entre as avaliações, considerando as variáveis DC, ENC e para o total de acertos. As condições de avaliação DC e ENC apresentam a característica em comum de avaliar o hemisfério esquerdo (HE). Assim sendo, a melhora significativa entre os resultados iniciais e finais obtidos para o G2, demonstra o efeito satisfatório do treinamento auditivo, considerando que o HE é envolvido no que diz respeito a ritmos, identificação semântica de melodias, senso de familiaridade, processamento temporal e sequencial dos sons(15). Todos esses aspectos foram estimulados no programa de treinamento auditivo executado no presente estudo, por meio do TAM(7).

Nesse contexto ainda, considerando que o HE concentra as estruturas envolvidas na percepção de pistas acústicas da fala, como frequência, intensidade e duração(16), pode-se dizer que os sujeitos submetidos ao treinamento auditivo beneficiaram-se da intervenção, já que apresentaram resultados mais satisfatórios na avaliação final para as variáveis que avaliam esse hemisfério.

O fato de ter sido constatada melhora significativa no desempenho dos sujeitos do G2 somente para as variáveis DC e ENC e não para as DNC e EC concorda com outro estudo, que relata que a informação acústica recebida pela orelha direita em tarefa dicótica e processada no HE é frequentemente melhor analisada e organizada do que a informação recebida pela orelha esquerda que chega para análise inicialmente no hemisfério direito (HD), e depois é transmitida ao HE para análise e interpretação(16). Essa assimetria pode ser justificada pela deterioração progressiva do corpo caloso em função do envelhecimento, o que gera um declínio na eficiência da transferência inter-hemisférica(17).

Quando comparados os valores obtidos para os aspectos quantitativos na avaliação final para ambos os grupos, observa-se que os sujeitos do G2 apresentaram desempenho mais satisfatório em relação ao G1 para as variáveis DNC, EC, ENC e total de acertos (Tabela 2), confirmando a importância da realização do treinamento auditivo, já que ambos os grupos fizeram adaptação e uso das próteses auditivas durante o mesmo intervalo de tempo, sendo a intervenção o aspecto diferencial entre os sujeitos de cada grupo.

Um estudo que avaliou crianças por meio de potenciais auditivos evocados demonstra a importância das atividades com música para o aprimoramento do funcionamento do hemisfério esquerdo(18). Os autores encontraram marcantes mudanças no HE das crianças que tiveram apenas um ano de prática de violino, comparadas àquelas sem nenhuma.

O treinamento auditivo pode ser considerado um agente facilitador para o reconhecimento de fala pelo fato de representar experiências auditivas específicas que exercitam e procuram aprimorar as habilidades auditivas. Além disso, sabe-se que este pode melhorar a percepção de estímulos acústicos complexos, como a fala, e que um de seus fundamentos é a plasticidade do sistema nervoso auditivo central(19).

Nesse contexto, pesquisas(20,21) que objetivaram verificar a eficácia do treinamento auditivo em idosos, usuários de próteses auditivas, concluíram que o treinamento, associado ao uso de próteses, melhora o desempenho das habilidades de reconhecimento de fala e reduz a restrição de participação desta população.

Quanto aos aspectos qualitativos do teste SSW, em ambos os grupos, constatou-se idosos que mantiveram seu desempenho, outros que melhoraram e alguns que até pioraram (Tabelas 3 e 4). Essa variabilidade e inconsistência de respostas concorda com outro estudo(22), no qual os autores afirmam grande variabilidade dos resultados encontrados em pesquisas que avaliam idosos.

De modo geral, foi grande a quantidade de alterações encontradas no presente estudo, o que talvez possa ter tornado tão marcante estes números, seja a reduzida amostra do estudo. Porém, outra pesquisa(1) também encontrou muitas alterações na avaliação de idosos por meio do teste SSW e sugeriu que, independente da presença de perda auditiva, o fator idade tem importante papel no desempenho insatisfatório.

 

CONCLUSÃO

Ambos os grupos estudados apresentaram melhora para todos os aspectos quantitativos do teste SSW, o que evidencia a importância da adaptação de próteses auditivas em idosos deficientes auditivos.

Os escores alcançados pelos indivíduos do grupo submetido à reabilitação auditiva nas variáveis direita competitiva, esquerda não competitiva e total de acertos demonstram, principalmente, a melhora proporcionada pelo treinamento auditivo no que diz respeito ao funcionamento do hemisfério esquerdo.

Há grande variabilidade dos resultados por meio das avaliações quanto aos aspectos qualitativos de idosos. Para a evidência de diferença entre estes resultados, possivelmente fosse necessária a reavaliação após um período mais longo de tempo para que realmente haja alteração das percepções auditivas associadas a outras funções sensoriais.

 

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Endereço para correspondência:
Alexandre Hundertmarck Lessa
R. Conde de Porto Alegre, 961/801, Centro
Santa Maria (RS), Brasil, CEP: 97015-110
E-mail: alexandrehl@gmail.com

Recebido em: 13/6/2011
Aceito em:1/2/2012

 

 

Trabalho realizado na Universidade Federal de Santa Maria – UFSM – Santa Maria (RS), Brasil.
Conflito de interesse: nada a declarar.
* AHL e TRH foram responsáveis pela pesquisa; MJC e AGR foram responsáveis pela orientação.

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