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CoDAS

On-line version ISSN 2317-1782

CoDAS vol.29 no.4 São Paulo  2017  Epub Aug 10, 2017

https://doi.org/10.1590/2317-1782/201720160180 

Artigo Original

Validação de conteúdo: clareza/pertinência, fidedignidade e consistência interna de sinais enunciativos de aquisição da linguagem

Anelise Henrich Crestani1  * 

Anaelena Bragança de Moraes1 

Ana Paula Ramos de Souza1 

1Universidade Federal de Santa Maria – UFSM - Santa Maria (RS), Brasil.


RESUMO

Objetivo

Analisar os resultados da validação de construção de sinais enunciativos de aquisição da linguagem para crianças de 3 a 12 meses.

Método

Os sinais foram construídos a partir de mecanismos enunciativos e experiência clínica com distúrbios de linguagem e submetidos ao julgamento, quanto à clareza e à pertinência, por seis doutores com conhecimento em psicolinguística e clínica de linguagem. A validação de fidedignidade contou com dois juízes para aplicação dos instrumentos em vídeos de 20% da amostra total das díades mãe-bebê com o método entre avaliadores. O método Consistência Interna foi aplicado no total da amostra constituída de 94 díades mãe-bebê para os sinais da Fase 1 (3 a 6 meses) e de 61 díades mãe-bebê para os sinais da Fase 2 (7 a 12 meses). A coleta de dados ocorreu por meio da interação mãe-bebê feita com base em filmagens e aplicação dos sinais conforme a faixa etária da criança. Os dados foram organizados em planilha eletrônica e convertidos para aplicativos computacionais para análise estatística.

Resultados

Os julgamentos quanto à clareza/pertinência mantiveram os instrumentos sem modificações. O teste de fidedignidade apontou uma concordância entre os juízes quase perfeita (0,8 ≤ Kappa ≥ 1,0), apenas o item 2 da Fase 1 apresentou uma concordância substancial (0,6 ≤ Kappa ≥ 0,79). A consistência interna para a Fase 1 apresentou alpha = 0,84 e, para a Fase 2, alpha = 0,74, demonstrando confiabilidade nos instrumentos.

Conclusão

Os resultados sugerem adequação quanto à validação de conteúdo dos sinais criados para ambas as faixas etárias.

Descritores Fatores de Risco; Linguagem; Desenvolvimento Infantil; Validade dos Testes

ABSTRACT

Purpose

To analyze the results of the validation of building enunciative signs of language acquisition for children aged 3 to 12 months.

Methods

The signs were built based on mechanisms of language acquisition in an enunciative perspective and on clinical experience with language disorders. The signs were submitted to judgment of clarity and relevance by a sample of six experts, doctors in linguistic in with knowledge of psycholinguistics and language clinic. In the validation of reliability, two judges/evaluators helped to implement the instruments in videos of 20% of the total sample of mother-infant dyads using the inter-evaluator method. The method known as internal consistency was applied to the total sample, which consisted of 94 mother-infant dyads to the contents of the Phase 1 (3-6 months) and 61 mother-infant dyads to the contents of Phase 2 (7 to 12 months). The data were collected through the analysis of mother-infant interaction based on filming of dyads and application of the parameters to be validated according to the child's age. Data were organized in a spreadsheet and then converted to computer applications for statistical analysis.

Results

The judgments of clarity/relevance indicated no modifications to be made in the instruments. The reliability test showed an almost perfect agreement between judges (0.8 ≤ Kappa ≥ 1.0); only the item 2 of Phase 1 showed substantial agreement (0.6 ≤ Kappa ≥ 0.79). The internal consistency for Phase 1 had alpha = 0.84, and Phase 2, alpha = 0.74. This demonstrates the reliability of the instruments.

Conclusion

The results suggest adequacy as to content validity of the instruments created for both age groups, demonstrating the relevance of the content of enunciative signs of language acquisition.

Keywords Risk Factors; Language; Child Development; Validity of Tests

INTRODUÇÃO

Nas diversas áreas da saúde, pode-se perceber um número crescente de questionários e escalas disponíveis que buscam verificar e avaliar um fenômeno em estudo(1). Pesquisadores têm ressaltado a importância desses instrumentos apresentarem fidedignidade e validade na tentativa de minimizar a possibilidade de julgamentos subjetivos(2). A validação, portanto, é um fator determinante na escolha e/ou aplicação de um instrumento de medida e é mensurada pela extensão ou grau em que o dado representa o conceito que o instrumento se propõe a medir(3).

Um dos métodos mais mencionados para obtenção da validade de uma medida pelos psicometristas é a validade de conteúdo(4). Ela inicia o processo de associação entre conceitos abstratos com indicadores mensuráveis, bem como representa a extensão com que cada item da medida comprova o fenômeno de interesse e a dimensão de cada item dentro daquilo que se propõe investigar, bem como apresenta duas etapas: a primeira constitui o desenvolvimento do instrumento e a segunda envolve a análise e julgamento dos especialistas. A análise de juízes ou análise de conteúdo é baseada, necessariamente, no julgamento realizado por um grupo de juízes experientes na área, ao qual caberá analisar se o conteúdo está correto e adequado ao que se propõe(5).

Além disso, para o julgamento dos itens de um instrumento, existem doze critérios, relacionados com o referencial metodológico de Pasquali(4,6), que dão subsídio para a validação de conteúdo, porque avaliam propriedades psicométricas do instrumento e indicam se os itens são compreensíveis à população alvo. Entre eles estão os critérios clareza e pertinência(6).

O termo fidedignidade sugere confiabilidade. Segundo Urbina(7), fidedignidade se baseia na consistência e precisão dos resultados no processo de mensuração. Para ter certo grau de confiança, os testes exigem evidências de que os escores obtidos seriam consistentes se os testes fossem repetidos com os mesmos indivíduos ou grupos.

A consistência interna também é uma medida de confiabilidade que se refere ao grau com que os itens do questionário estão correlacionados entre si e com o resultado geral da pesquisa, o que representa uma mensuração da confiabilidade(8).

Diante dos critérios supracitados, fica evidente o reconhecimento da qualidade dos instrumentos como um aspeto fundamental para a legitimidade e credibilidade dos resultados de uma pesquisa, o que reforça a importância do processo de validação(9).

Considerando o fato de que a clínica dos distúrbios de linguagem encontra muitos instrumentos na literatura internacional para a avaliação de linguagem, mas poucos instrumentos na literatura nacional, sobretudo quanto à detecção precoce de risco para distúrbios de linguagem(10). Em relação ao risco de evolução para o quadro de distúrbio de linguagem, encontram-se muitos estudos de linguagem e desenvolvimento de prematuros, comparando-os a crianças nascidas a termo na literatura internacional(11-14).

Na literatura nacional, alguns estudos têm abordado a padronização de testes como o Denver II(15,16), outros instrumentos criados no Brasil(17-20). Há ainda estudos que refletem sobre os efeitos do risco psíquico na linguagem de bebês(21-23). Alguns poucos utilizam referências enunciativas na análise qualitativa de linguagem(22,23). Essas observações, somadas à pertinência e inovação advindas da proposta enunciativa de aquisição da linguagem de Silva(24), motivaram a criação do instrumento aqui relatada.

Este artigo, portanto, objetiva analisar o processo de validação de conteúdo quanto à clareza/pertinência, à fidedignidade e à consistência interna de sinais enunciativos de aquisição da linguagem para crianças de 3 a 12 meses de idade.

MÉTODO

Para a execução da pesquisa, foram utilizadas as normas éticas obrigatórias para pesquisas em seres humanos - (Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde - CNS), aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade na qual o estudo foi realizado, no protocolo de número 28586914.0.0000.5346. Todos os indivíduos envolvidos na pesquisa foram esclarecidos quanto aos objetivos e procedimentos e, após a leitura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, assinaram-no.

Trata-se de uma pesquisa de validação de conteúdo que teve seu foco no desenvolvimento, avaliação e aperfeiçoamento de um instrumento.

A construção inicial do instrumento levou em consideração os mecanismos e estratégias enunciativas propostos por Silva(24) e a experiência clínica das autoras no seguimento de bebês com risco ao desenvolvimento que desenvolveram risco à aquisição da linguagem(21-23,25). Depois de formulados, os itens foram submetidos a juízes experts para julgamento de sua clareza e pertinência.

A amostra de juízes experts foi selecionada a partir dos critérios de conhecimento da teoria da enunciação, do processo de aquisição da linguagem e de estudos em clínica de linguagem, incluindo o processo de avaliação. Considerando tais critérios, foram selecionados seis doutores em linguística, entre os quais, quatro fonoaudiólogos e dois psicolinguistas, com experiência superior a 15 anos na análise de linguagem.

Na etapa de validação de conteúdo – fidedignidade, contou-se com o auxílio de dois juízes-avaliadores para a aplicação dos instrumentos em vídeos de díades mãe-bebê em 20 da amostra total. Ambos os juízes eram fonoaudiólogos, com experiência clínica com bebês e com distúrbios de linguagem superior a cinco anos.

Para a realização da validação de conteúdo – consistência interna, a amostra examinada foi constituída de 94 mães e seus bebês, com idades entre 3 meses e 1 dia e seis meses e 29 dias e 61 mães e bebês, com idades entre 7 meses e 1 dia e 12 meses e 29 dias. As díades foram contatadas em unidades básicas de saúde no interior do Rio Grande do Sul. Foram excluídos da amostra total de díades os bebês com sinais evidentes de comprometimento neurológico, malformações e síndromes que atingiam a comunicação e crianças prematuras e com deficiência auditiva ou visual. Também foram excluídos os bebês cujas mães apresentassem suspeita de estrutura psíquica muito comprometida, por exemplo, psicose. No caso de dúvida em relação à situação psíquica da mãe, esta foi encaminhada para avaliação com profissionais psicólogos do grupo de pesquisa. Portanto, foram incluídos bebês nascidos a termo, sem diagnóstico de alteração biológica evidente e sem comprometimento familiar grave.

A validação de conteúdo clareza/pertinência foi realizada a partir da análise semântica que objetivou verificar se os sinais podiam ser compreendidos e se apresentavam validade aparente. O procedimento foi realizado a partir da escala de Likert de cinco pontos, para investigar a Pertinência e a Clareza de cada item incluído no SEAL, possibilitando a análise individual de conteúdo pelos juízes, partindo de 1 - não concordo totalmente; 2 - não concordo parcialmente; 3 - indiferente; 4 - concordo parcialmente; e 5 - concordo totalmente. A partir das respostas enviadas pelos juízes, foi calculado o percentual de juízes que concordaram totalmente e parcialmente com o item do instrumento. Este critério foi utilizado tanto para a clareza quanto para a pertinência do item. Percentuais de concordância inferiores ou iguais a 70% foram avaliados quanto a sua alteração ou exclusão pelas pesquisadoras(26).

Para a realização das duas outras fases da validação, a coleta de dados aconteceu com díades mãe-bebê e estruturou-se por meio de uma entrevista inicial, que durava em média 15 minutos, realizada pela equipe da pesquisa. Durante esta entrevista, caso a criança estivesse na idade adequada e se privilegiasse uma possível observação da interação mãe-bebê, os sinais enunciativos de aquisição da linguagem, atendendo à faixa etária da criança (fase 1 ou fase 2), eram aplicados.

Tendo em vista a dinâmica e facilitação da relação mãe-bebê, e também a possibilidade de se observar a mãe com seu filho sem a presença de terceiros, foi organizada uma situação de interação filmada, procurando fazê-la à distância, de modo a interferir o mínimo possível na relação da díade.

A mãe, nesse momento, era convidada a cantar, conversar e brincar com seu filho com brinquedos em miniatura levados pelo examinador, relacionados ao vocabulário infantil inicial (animais, alimentos, transportes, objetos da casa). O examinador propunha à mãe que agisse com seu filho como costumava fazer em casa.

A filmagem da díade durava em torno de 15 minutos, nos quais, em 9, a mãe atendia à solicitação de cantar, conversar ou brincar com os brinquedos, a depender do seu interesse e do bebê, com este sentado em um bebê conforto de frente para a sua mãe, nas faixas etárias de 3 e 6 meses. Nos outros 6 minutos, o examinador voltava à sala e buscava incentivar que o diálogo e brinquedo continuassem após posicionar o bebê deitado no tatame na faixa etária de 3 a 6 meses. Na faixa etária de 7 a 12 meses, o posicionamento do bebê dependia das suas condições psicomotoras e eles necessariamente não ficavam no bebê conforto, pois podiam circular pelo tatame colocado no chão e explorar mais livremente a caixa com os brinquedos.

Cabe explicitar que as salas utilizadas contavam com um ambiente silencioso com duas câmeras sustentadas por tripés em disposições estabelecidas; um tatame, um bebê-conforto para posicionar a criança e a mãe de forma confortável e um espelho para visualizar na filmagem tanto a criança quanto o rosto da mãe. Havia uma câmera colocada a dois metros do espelho em vista frontal do bebê e captando o rosto da mãe no espelho, e uma lateral a um metro captando a interação face a face mãe-bebê. As câmeras foram mantidas assim mesmo diante da ausência do bebê conforto.

A pesquisadora atribuía valor aos sinais durante a entrevista e sua entrada na sala. Em seguida, conferia tal atribuição por meio da filmagem. O instrumento da fase 1 foi aplicado nos bebês na filmagem de 3 meses e 6 meses e o instrumento da fase 2 na filmagem de 7 meses e de 9 meses. Esta aplicação ocorreu na integralidade da amostra.

A partir das filmagens das díades, buscou-se também verificar a fidedignidade. Utilizou-se o método entre avaliadores que contou com a análise de juízes-avaliadores, nesse momento dois fonoaudiólogos com experiência na clínica infantil e conhecedores da teoria enunciativa para aplicar os instrumentos em um grupo aleatório de díades participantes da pesquisa. Analisaram-se 20% da amostra total da pesquisa. Os dois fonoaudiólogos assistiram de forma individual os mesmos vídeos das díades mãe-bebê e aplicaram o SEAL conforme identificaram ou não os sinais. Nesta análise, verificou-se a concordância das respostas entre avaliadores calculando-se o coeficiente Kappa.

Depois da análise da concordância em relação aos itens dos dois instrumentos, aplicou-se o método denominado de Consistência Interna com a utilização do teste Kuder-Richardson (K-R) na amostra total, ou seja, Fase1 = 94 díades e Fase 2 = 61 díades, que analisa cada item individualmente. O teste foi selecionado devido ao fato de os instrumentos apresentarem questões corrigidas de maneira dicotômica (sim/não).

RESULTADOS

No Quadro 1, estão relatados os Sinais Enunciativos de Aquisição da Linguagem construídos pelas pesquisadoras.

Quadro 1 Sinais Enunciativos de Aquisição da Linguagem 

Itens 3 a 6 meses e 29 dias
1. A criança reage ao manhês, por meio de vocalizações, movimentos corporais ou olhar.
2. A criança preenche seu lugar na interlocução com sons verbais como vogais e/ou consoantes.
3. A criança preenche seu lugar na interlocução com sons não verbais de modo sintonizado ao contexto enunciativo (sorriso, grito, choro, tosse, resmungo).
4. A criança preenche seu lugar na interlocução silenciosamente apenas com movimentos corporais e olhares sintonizados ao contexto enunciativo.
5. A criança inicia a conversação ou protoconversação.
6. A criança e a mãe (ou sua substituta) trocam olhares durante a interação.
7. A mãe (ou sua substituta) atribui sentido às manifestações verbais e não verbais do bebê, e sustenta essa protoconversação ou conversação, quando o bebê a inicia.
8. A mãe (ou sua substituta) utiliza o manhês falando com a criança de modo sintonizado ao que está acontecendo no contexto e aguardando as respostas do bebê.
Itens 7 a 12 meses e 29 dias
9. A criança preenche seu lugar na interlocução (enunciado) com sons verbais (sílabas com vogais e consoantes variadas - ao menos dois pontos e dois modos articulatórios de consoantes).
10. A criança esboça a produção de protopalavras por espelhamento à fala da mãe (ou substituto).
11. A criança esboça a produção de protopalavras espontaneamente.
12. Quando a mãe (ou substituta) é convocada a enunciar pela criança, ela reproduz seu enunciado e aguarda a resposta da criança.

A seguir, apresentam-se os resultados da avaliação dos juízes em relação à clareza e pertinência dos instrumentos (Tabelas 1 e 2).

Tabela 1 Avaliação dos juízes quanto à clareza pela escala de Likert 

Item J1 J2 J3 J4 J5 J6 % C. Total % C.Par + Total
Faixa de 3 a 6 meses
1 5 5 5 5 5 5 100,0 100,0
2 5 5 5 5 5 5 100,0 100,0
3 5 5 5 1 5 5 83,3 83,3
4 1 5 5 5 5 5 83,3 83,3
5 5 5 5 4 4 5 66,7 100,0
6 5 5 5 5 5 5 100,0 100,0
7 5 5 5 4 5 5 83,3 100,0
8 5 5 4 5 5 5 83,3 100,0
Faixa de 7 a 12 meses
9 5 5 5 3 5 5 83,3 83,3
10 5 5 5 4 4 5 66,7 100,0
11 4 5 4 4 4 5 33,3 100,0
12 4 5 5 3 3 5 50,0 66,7

Legenda: J = Juiz; % C. Total = percentual de concordância na escala de Likert em concordo totalmente; % C.Par + Total = percentual de concordância na escala de Likert em concordo parcialmente ou concordo totalmente

Tabela 2 Avaliação dos Juízes quanto à pertinência pela escala de Likert 

Item J1 J2 J3 J4 J5 J6 % C. Total % C.Par + Total
Faixa de 3 a 6 meses
1 5 5 5 5 5 5 100,0 100,0
2 5 5 4 5 5 5 83,3 100,0
3 5 5 4 5 5 2 66,7 83,3
4 4 5 4 5 5 2 50,0 83,3
5 5 5 5 5 5 4 83,3 100,0
6 5 5 5 5 5 5 100,0 100,0
7 5 5 4 5 5 5 83,3 100,0
8 5 5 5 5 5 5 100,0 100,0
Faixa de 7 a 12 meses
9 4 5 4 5 5 5 66,7 100,0
10 5 5 5 5 5 5 100,0 100,0
11 5 5 5 5 5 5 100,0 100,0
12 4 5 4 5 5 5 66,7 100,0

Legenda: J = Juiz; % C. Total = percentual de concordância na escala de Likert em concordo totalmente; % C.Par + Total = percentual de concordância na escala de Likert em concordo parcialmente ou concordo totalmente

Observa-se na Tabela 1, que o primeiro instrumento foi considerado mais claro do que o segundo quando considerado o valor de concordância total. No entanto, quando considerada a concordância parcial, este percentual se eleva a níveis mais altos como se pode visualizar na última coluna. Uma dinâmica similar se observa para a análise de pertinência exposta na Tabela 2.

A análise da fidedignidade da Fase 1 (3 a 6 meses), na atribuição de sinais por dois juízes, apresentou os resultados expostos na Tabela 3.

Tabela 3 Concordância entre avaliadores no instrumento Fase 1 

Item SEAL % concordância Coeficiente Kappa p-valor
1 100,0 - -
2 93,8 0,636 0,006
3 100,0 - -
4 100,0 - -
5 87,5 - -
6 93,8 - -
7 100,0 1,000 <0,01*
8 100,0 1,000 <0,01*

*Significativo pela análise de Concordância Kappa com nível de significância de 5%

Legenda: SEAL; % = porcentagem

Para a Fase 2 (7 a 12 meses), os resultados de fidedignidade estão expostos na Tabela 4.

Tabela 4 Concordância entre avaliadores no instrumento Fase 2 

Item SEAL % concordância Coeficiente Kappa p-valor
9 100,0 1,000 <0,01*
10 100,0 1,000 <0,01*
11 100,0 1,000 <0,01*
12 100,0 - -

*Significativo pela análise de Concordância Kappa com nível de significância de 5%

Legenda: SEAL; % = porcentagem

Quanto à consistência interna dos instrumentos como resultado, para a Fase 1, obteve-se alpha = 0,84 e, para a Fase 2, encontrou-se alpha = 0,74.

DISCUSSÃO

Considerando os requisitos da literatura sobre os juízes serem peritos na área do construto(8) e a sugestão de um número de seis a 20 juízes(5) e de ao menos três em cada grupo profissional(27), acredita-se que a validação de conteúdo atingiu seus objetivos, visto que não havia na realidade brasileira um grande número de juízes com a formação exigida, em termos de homogeneidade da amostra. Os seis juízes selecionados atendiam a todos os critérios teórico-práticos buscados.

Existe uma variação entre 70% e 80% de concordância entre os juízes como mínimo para aceitação de um item como pertinente(5), já que valores inferiores a 70% seriam considerados para alteração ou exclusão pelas pesquisadoras. Considerando a soma entre os valores concordo totalmente e concordo parcialmente, foi possível perceber que a maior parte dos sinais atingiram percentuais acima de 80%, o que permitiu manter todos os itens para as próximas etapas da pesquisa. Além disso, ao analisar os resultados que constam nas Tabelas 1 e 2, tanto para clareza quanto para pertinência, é possível perceber que nenhum dos itens foi julgado com total discordância. A decisão de manter os itens considerou também a inerente subjetividade de juízes no processo de julgamento, como ressalvado na literatura(3), bem como a pertinência teórico-prática dos sinais, observada a partir da experiência clínica das pesquisadoras.

O teste de fidegnidade ou concordância entre avaliadores no que tange aos itens do instrumento é uma técnica que objetiva verificar o consenso na opinião de especialistas na aplicação do instrumento. Para analisar a fidedignidade dos sinais elaborados, verificou-se a concordância das respostas entre avaliadores calculando-se o coeficiente Kappa que pode variar de -1 a 1, indicando discordância ou concordância completa, e o valor 0 indica um valor de concordância igual ao acaso. Para uma interpretação dos valores Kappa, foram utilizadas as faixas de valores elaboradas por Landis e Koch(28). Esses autores sugerem que os valores acima de 0,75 representam concordância excelente, valores abaixo de 0,40, uma concordância pobre e os valores entre 0,40 e 0,75 representam uma concordância suficientemente boa.

A explicação para os casos em que o Kappa não foi calculado deve-se à não variabilidade na avaliação dos itens por pelo menos um dos juízes.

Considerando os resultados do coeficiente Kappa, pode-se considerar que a concordância entre os juízes foi quase perfeita (0,8 ≤ Kappa ≥ 1,0). Apenas o item 2 da fase 1 apresentou uma concordância substancial (0,6 ≤ Kappa ≥ 0,79)(28).

A análise dos dados, por meio de testes estatísticos, constituiu os procedimentos analíticos dos estudos. O Alfa de Cronbach foi escolhido em estudo(29) pela capacidade de refletir o grau de concordância dos itens entre si, sendo que, quanto mais próximo do valor um, mais próximo de 100% foi a correspondência dos itens. Já Yamada e Santos(30) adotaram o coeficiente Alfa de Cronbach menor que 0,70 para a exclusão dos itens do instrumento.

O coeficiente de Alfa de Cronbach estima a confiabilidade de consistência interna de questionários e também a estimativa da confiabilidade entre avaliadores. Dado que todos os itens de um questionário utilizam a mesma escala de medição, o coeficiente Alfa é calculado a partir da variância dos itens individuais e das covariâncias entre os itens(29).

As aplicações do coeficiente Alfa nas diversas áreas do conhecimento são amplas e abrangentes, porém ainda não existe um consenso entre os pesquisadores acerca da interpretação da confiabilidade de um questionário obtida a partir do valor deste coeficiente - em geral, considera-se satisfatório um instrumento de pesquisa que obtenha Alfa maior ou igual a 0,70. Em contrapartida, o valor máximo esperado é 0,90; acima deste valor, pode-se considerar que há redundância ou duplicação, ou seja, vários itens estão medindo exatamente o mesmo elemento de um constructo; portanto, os itens redundantes devem ser eliminados(29).

Portanto, os resultados obtidos pelo coeficiente na atual pesquisa apontam que os dois instrumentos avaliados demonstram confiabilidade.

CONCLUSÃO

Considerando o objetivo deste artigo analisar a validação de conteúdo de sinais enunciativos de aquisição da linguagem, tem-se, ao final de todo o processo, dois instrumentos específicos para duas faixas etárias, sendo o primeiro denominado Fase 1 (3 a 6 meses) com oito itens e o segundo denominado Fase 2 (7 a 12 meses) com quatro itens que apresentaram resultados compatíveis com a adequação de critérios científicos quanto à validação de conteúdo.

Trabalho realizado no Programa de Pós-graduação em Distúrbios da Comunicação Humana, Universidade Federal de Santa Maria – UFSM - Santa Maria (RS), Brasil.

Fonte de financiamento: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES.

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Recebido: 23 de Setembro de 2016; Aceito: 31 de Março de 2017

Conflito de interesses: nada a declarar.

*Endereço para correspondência: Anelise Henrich Crestani Universidade Federal de Santa Maria – UFSM R. Bento Gonçalves, 2942, Bairro São João, Uruguaiana (RS), Brasil, CEP: 97500-270. E-mail: any.h.c@hotmail.com

Contribuição dos autores AHC esteve presente em todos os processos da construção deste estudo, dedicando-se a coleta de dados, organização do banco de dados, realização das análises estatísticas, referencial teórico e escrita do artigo; ABM participou do processo de construção do banco de dados, análise estatística e escrita do artigo; APRS é responsável pelo projeto maior o qual faz parte o presente estudo, e dedicou-se a coleta de dados, construção do banco de dados, referencial teórico e escrita do artigo.

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