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CoDAS

versão On-line ISSN 2317-1782

CoDAS vol.31 no.2 São Paulo  2019  Epub 18-Mar-2019

http://dx.doi.org/10.1590/2317-1782/20182018063 

Artigo Original

O uso da voz em artistas de rua

Mayara Kerolyn de Souza1 
http://orcid.org/0000-0002-5385-5753

Cynthia Maria Barboza do Nascimento1 
http://orcid.org/0000-0001-9197-2136

Jonia Alves Lucena1 
http://orcid.org/0000-0001-5924-3451

Zulina Souza de Lira1 
http://orcid.org/0000-0002-8413-5513

Ana Nery Barbosa de  Araújo1 
http://orcid.org/0000-0001-7887-6246

1 Universidade Federal de Pernambuco, Recife, Pernambuco, Brasil.

RESUMO

Objetivo

Investigar o uso da voz em artistas de rua, a partir da autorreferência de queixas vocais, desvantagem vocal associada à profissão, percepção do ambiente e condições de uso da voz na atividade, e representação da voz para a atividade profissional.

Método

Participaram 24 artistas de rua, que preencheram os protocolos ESV (Escala de sintomas vocais), IDV-10 (Índice de Desvantagem Vocal), além de dois questionários, um composto por questões objetivas relacionadas ao ambiente e condições de trabalho e um segundo com perguntas abertas sobre representação da voz. Para análise quantitativa, foi realizada uma estatística simples verificando a média do ESV e IDV-10 e para o questionário de perguntas fechadas, a frequência e a porcentagem dos resultados. Na análise qualitativa, foi utilizado o método de análise do conteúdo.

Resultados

A média do resultado da ESV foi acima do ponto de corte da normalidade e do IDV-10 dentro da normalidade. Surge como fator de risco vocal o não uso do microfone, o ambiente de trabalho com poeira e fumaça e o local de trabalho ser ruidoso incomodativo. Sobre a representação da voz, foram identificadas três categorias: importância da voz para os artistas de rua, cuidados com a voz e o impacto da voz sobre as pessoas.

Conclusão

Existem queixas vocais, porém não há impacto na qualidade de vida. O ambiente e condições de trabalho trazem riscos a distúrbios da voz. A representação da voz para o grupo se relaciona à sua atividade profissional, relação com público, satisfação pessoal e profissional.

Descritores Voz; Qualidade da Voz; Distúrbios da Voz; Fonoaudiologia; Disfonia

INTRODUÇÃO

Artistas de rua apresentam-se em locais públicos para expressar sua arte e levar entretenimento para todas as pessoas. Esses profissionais estão presentes em todo o mundo fazendo da cidade palco e vitrine das suas performances artísticas(1-3).

Os espaços de trabalho dos artistas de rua geralmente são ambientes abertos (4), com presença de ruídos diversos, provenientes da rua, seja dos meios de transporte, do próprio trânsito ou de pessoas falando.

Em suas performances, os artistas de rua que utilizam a voz, normalmente não fazem o uso de sistemas de amplificação sonora como o microfone, o que pode levar a um maior esforço vocal durante suas apresentações. A ausência de uma acústica adequada do ambiente, com presença de ruído, bem como de um sistema de amplificação, são fatores que podem trazer impactos na voz desses artistas que a utilizam como meio primordial de expressar sua arte (5).

Cantores, instrutores de academias de ginástica, professores, vendedores, atendentes de telemarketing, recepcionistas e atores são descritos na literatura como profissionais que estão em maior risco de desenvolver distúrbios vocais. A alta prevalência de problemas vocais nesses profissionais é explicitada pelo uso intenso e prolongado da voz, também relacionados com o ruído no ambiente de trabalho e a falta de acústica (6-7).

Para o indivíduo que necessita de sua voz como requisito fundamental para exercício de sua profissão, os cuidados vocais tornam-se imprescindíveis. É importante, para esses profissionais, que tenham uma boa projeção vocal, com articulação precisa, coordenação pneumofonoarticulatória, boa sonoridade, ritmo e velocidade adequados, transmitindo clareza de ideias(8-9).

É indispensável, para esses profissionais, estabelecer relações entre os problemas na voz e o ambiente, pois estudos apontam que o desenvolvimento de alterações vocais também está relacionado ao ambiente de trabalho. As condições de trabalho desfavoráveis, como ambiente com poeira, fumaça, mudanças de temperatura, podem irritar a mucosa da prega vocal e influenciar negativamente a voz (7).

Sabe-se que a voz é muito importante para os profissionais que a utilizam, e que esta necessita de cuidados e atenção especial para que se conserve saudável e não interfira na saúde da comunicação, como também na vida financeira do profissional. Nessa perspectiva, uma investigação sobre problemas vocais, como entender a representação da voz na atividade profissional nos artistas de rua, pode ajudar em ações de promoção da saúde vocal e prevenção de distúrbios desta natureza.

O objetivo deste estudo foi investigar o uso da voz em artistas de rua a partir da autorreferência de queixas vocais, desvantagem vocal associada à profissão, percepção do ambiente e condições de uso da voz na atividade e representação da voz para a atividade profissional.

MÉTODO

Trata-se de um estudo exploratório com abordagem quantitativa descritiva e qualitativa, aprovado pelo Comitê de Ética sob o número 1.903.916, realizado com 24 artistas de rua que utilizavam a voz na sua performance profissional, com idades entre 18 e 54 anos, sendo excluídos deste estudo os que não quiseram participar da pesquisa. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Os participantes responderam aos protocolos ESV (Escala de Sintomas Vocais)(10) para verificar a existência de queixas vocais nessa população, IDV-10 (Índice de desvantagem vocal)(11) a fim de observar a qualidade de vida dos profissionais, e a um questionário composto por questões objetivas, relacionadas aos aspectos individuais, ambientais (físicos) e organizacionais e ao aspecto do uso da voz na atividade profissional.

Em um segundo momento, 12 participantes, dentre os 24 artistas, foram escolhidos por saturação de respostas, técnica utilizada na perspectiva da análise do conteúdo, quando as respostas se tornam redundantes. Esses responderam a um segundo questionário de perguntas abertas, para entender a representação da voz para o grupo, envolvendo dados sobre impressões da própria voz, conhecimento sobre saúde vocal e hábitos gerais de uso da voz.

Para a análise quantitativa do protocolo ESV foi utilizada estatística simples, somando a pontuação dos protocolos e fazendo uma média aritmética. Com isso, obteve-se um resultado que foi relacionado à presença de queixas vocais. Na análise do protocolo IDV-10, foi utilizada a mesma estatística do ESV, sendo relacionada à média com qualidade de vida no grupo estudado.

Na análise do questionário dos aspectos individuais, ambientais (físicos) e organizacionais relacionados ao uso da voz na atividade profissional, foi realizada uma análise estatística descritiva, verificando a frequência e a porcentagem de artistas que responderam às questões propostas, analisando a autorreferência sobre o ambiente e condições de uso da voz no trabalho.

Na análise das entrevistas abertas, sobre representação da voz, optou-se pelo método de análise do conteúdo, perspectiva de Bardin(12). Esse é um conjunto de técnicas de análise de comunicações, que busca investigar os significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes resultantes da ação humana objetiva, apreendidos através do cotidiano, da vivência e da explicação das pessoas que vivem em determinada situação(12). A análise foi iniciada por meio da leitura flutuante das transcrições das entrevistas, estabelecendo um primeiro contato com os textos para a apreensão dos sentidos que os sujeitos deixaram transparecer em suas falas. Em seguida foram analisadas as ideias, frases e parágrafos que identificassem as convergências e divergências dos participantes em relação ao conteúdo em estudo e isso possibilitou a identificação de categorias e subcategorias que se referem às representações da voz para os participantes.

Os resultados referem-se a três categorias, apresentados com trechos na transcrição das “falas” dos participantes. Os trechos são apresentados seguidos pela identificação numérica dos sujeitos (entre parênteses) exemplo: AR1 = sujeito 1.

RESULTADOS

Em relação à ESV, a média do escore máximo no grupo estudado é 21,41, tendo um valor mínimo de zero e um valor máximo de 51; desta, as médias das subescalas são: limitação 11,91, emocional 1,8 e físico 6,41.

A média do escore máximo do IDV-10 nesse grupo é 7,16, o valor mínimo é zero e o valor máximo, 23; desta, as médias das subescalas são: físico 3,66, orgânico 2,41 e emocional 1,1.

De acordo com os dados da Tabela 1 , cinco indivíduos (20%) da população estudada atuam na profissão entre 11 e 20 anos, 13 (63%) têm uma carga horária de uso da voz entre seis e oito horas, sendo que 20 (83%) fazem repouso vocal. Dezenove (79%) relatam que o ambiente de trabalho tem poeira e fumaça e 19 (79%) concordam que o local de trabalho é ruidoso incomodativo. Nenhum dos artistas referiu que o ambiente tem uma boa acústica ( Tabela 2 ). Dezessete (71%) fazem uso da voz em outro ambiente de trabalho, como shows, em bares, casamentos e festas populares ( Tabela 3 ).

Tabela 1 Aspectos organizacionais do trabalho 

Itens
N %
Tempo de atuação
• 1 mês a 5 anos 15 63
• 6 a 10 anos 4 17
• 11 a 20 anos 5 20
Carga horária de uso da voz
• Até 4 h por dia 3 12
• 4 a 6 h por dia 4 17
• 6 a 8 h por dia 13 54
• Mais de 8 h por dia 4 17
Tempo de intervalo
• ≤15 min 4 23
• 15 a 20 min 6 25
• 30 min 14 58
• Não há intervalo 0 0
Sim Não
n % n %
Faz repouso vocal 20 83 4 17
Está satisfeito com a atividade 22 92 2 6
Está satisfeito com a remuneração 15 63 9 37
Faz uso de microfone 9 37 15 63

Tabela 2 Aspectos do ambiente de trabalho 

Itens
Sim Não
N % n %
Silencioso 0 0 24 100
Poeira ou fumaça 19 79 5 21
Ruidoso (incomodativo) 19 79 5 21
Ruidoso (insuportável) 3 12 21 88
Arejado 0 0 24 100
Acústica satisfatória 0 0 24 100

Tabela 3 Aspectos individuais 

Itens
Sim Não
n % n %
Usa voz em outro espaço 17 71 6 29
Refluxo 7 29 17 71
Gastrite 6 25 18 75
Sinusite 6 25 18 75
Laringite 5 21 19 79
Tabagismo 13 54 11 46
Etilismo 14 58 10 42

Quanto à representação da voz, para o artista de rua, emergiram das respostas dos artistas três categorias: a importância da voz para os artistas de rua, cuidados com a voz e impacto da voz sobre as pessoas.

Quanto à importância da voz, as subcategorias identificadas baseadas nas respostas dos entrevistados foram: atividade profissional, transmissão de sentimentos e identidade.

Na subcategoria atividade profissional, a importância da voz é explicada pelo artista de rua como:

A minha voz é a base da minha profissão [...] (AR3).

Ela me faz ganhar o pão de cada dia (AR6).

Em transmissão de sentimentos, muitos expressam a alegria e a emoção que sua voz transmite:

Eu nasci para divulgar, levar alegria para as pessoas (AR1)

Ela passa tudo aquilo que a gente deseja de melhor para as pessoas, acho que ela expressa o bom [...] (AR6).

Entendendo que a voz é importante porque mostra sua identidade, foram identificados na subcategoria identidade: [...] Minha voz indica que eu sou uma pessoa bastante feliz naquilo que eu faço” (AR1), “Quando eu solto a minha voz, eu mostro quem eu sou e o que a música representa para mim” (AR8) ( Quadro 1 ).

Quadro 1 A importância da voz para o artista de rua” e “Cuidados com a voz”  

SUBCATEGORIAS RECORTE DA FALA DOS ARTISTAS DE RUA
• Atividade Profissional É muito importante porque a gente desenvolve nosso trabalho e deixa as pessoas cientes das melhores mercadorias da loja (AR1).
A minha voz é a base da minha profissão [...] (AR3).
A importância para mim é tudo, é meu trabalho é minha função (AR4).
Sem ela não existe a minha profissão [...] (AR4).
Porque ela me faz ganhar o pão de cada dia (AR6).
Ela é a base do meu trabalho como vocalista (AR7).
A voz é importante, pois com ela a gente pode fazer com excelência nosso trabalho (AR8).
Transmissão de sentimentos Eu nasci para divulgar, levar alegria para as pessoas (AR1).
Ela passa tudo aquilo que a gente deseja de melhor para as pessoas, acho que ela expressa o bom [...] (AR6).
Ela consegue decifrar os meus sentimentos tanto os sentimentos fixos que há em uma música quanto milhões de sentimentos aleatórios que a gente sente em algumas cenas da vida [...]. A voz é também uma forma de me expressar (AR3).
[...] Carisma, carinho, respeito, amor ao próximo, essas coisas [...] (AR5).
A minha voz é o veículo que transmite a minha luz, meu conhecimento, minha felicidade e tristeza, tudo que preciso expressar vai pela minha voz [...] (AR11).
• Identidade [...] Minha voz indica que eu sou uma pessoa bastante feliz naquilo que eu faço (AR1).
Quando eu solto a minha voz, eu mostro quem eu sou e o que a música representa para mim (AR8).
Minha voz fala que eu sou uma pessoa altamente ativa e extremamente comunicativa, por meio dela as pessoas percebem que sou bem agitado [...] (AR9).
Com a minha voz passo a realidade, interagindo com o público e posso atrair mais admiradores (AR9).
• Hábitos vocais saudáveis Cuido muito bem, bebo bastante água... Levo sempre uma garrafinha de água para molhar a garganta e também como maça (AR1).
Eu cuido da voz mantendo hábitos de alimentação saudável e temperatura em relação ao trato vocal, e sigo técnicas vocais de aquecimento e desaquecimento vocal (AR3).
Eu não tomo água gelada e faço aulas de voz (AR4).
Eu primeiramente parei de fumar, bebo bastante água, comprei um equipamento e hoje em dia canto com microfone [...]. Não gosto de forçar minha voz, se tiver forçando a minha voz, já não rola trabalhar [...] (AR7).
Faço uns aquecimentos quando canto [...] (AR10).
Bem, eu procuro não beber água gelada, aqueço e desaqueço a voz quando canto (AR11).
• Hábitos vocais nocivos Dentro do cotidiano eu não cuido como deveria (AR2).
Eu fico falando muito, muito, muito e acabo ficando rouco (AR6).
Quando eu canto no tom muito alto, preciso gritar, principalmente porque trabalho no metrô e quando grito eu fico rouca [...] (AR8).
Eu sou péssimo não faço nada a não ser piorar ela ainda mais com pastilhas e comidas e ainda fumo... (AR9).
• Orientação profissional Nunca busquei ajuda profissional (AR1).
Não houve ajuda profissional real, mas do outro lado da tela pela internet... Me sinto tão preparado e tão bom quanto qualquer outro profissional (AR3).
Eu já tive contato com um médico e ele me explicou como eu deveria cuidar dela [...] (AR4).
Brevemente fiz algumas disciplinas de técnica vocal, quando estudava comunicação social [...] (AR7).
Já tive aulas de canto no conservatório de música (AR10).
A orientação que tive foi bem esporádica, com meus amigos que já cantam e tal [...] (AR11).
• Incômodo com a voz Nada me incomoda na minha voz (AR1).
Eu não tenho nenhum lance na minha voz que me incomode (AR3).
Às vezes ela se cansa muito rápido, ela fica rouca muito rápido, aí eu forço e fico com uma dificuldade e ela vai embora rapidinho (AR5).
Às vezes me acho rouco, gago e falo rápido demais [...] (AR6).
Como eu sou um pouco rouco e para fazer alguns falsetes ou tons mais altos para mim fica difícil [...] (AR11).

Quanto aos cuidados com a voz, são identificadas quatro subcategorias baseadas nas respostas dos entrevistados, foram elas: hábitos vocais saudáveis, hábitos vocais nocivos, orientação profissional e incômodo com a voz.

Em hábitos vocais saudáveis, surgem elementos como beber água, comer maçã, evitar o tabagismo:

Cuido muito bem, bebo bastante água [...], Levo sempre uma garrafinha de água para molhar a garganta e também como maça (AR1).

Eu primeiramente parei de fumar, bebo bastante água, comprei um equipamento e hoje em dia canto com microfone [...], Não gosto de forçar minha voz, se tiver forçando a minha voz, já não consigo trabalhar [...] (AR7).

Na subcategoria hábitos vocais nocivos, alguns deles relatam que não cuidam da voz como deveriam, e que em alguns momentos precisam falar mais forte devido ao barulho da rua.

Em orientação profissional, alguns relataram seguir orientações e outros nunca buscaram. E tem aqueles curiosos que buscam sozinhos informações na internet:

Nunca busquei ajuda profissional. (AR1)

Não houve ajuda profissional real, mas do outro lado da tela pela internet..., Me sinto tão preparado e tão bom quanto qualquer outro profissional (AR3).

Em incômodo com a voz, a maioria relata não ter nada que o incomoda, sendo pontuais os casos que têm alguma reclamação sobre a voz ( Quadro 1 ).

No que diz respeito à categoria: o impacto da voz sobre as pessoas, as subcategorias identificadas baseadas nas respostas das entrevistadas foram: expressão de positividade e desconforto.

Na subcategoria: expressão de positividade, frases como “A minha voz traz muita coisa boa, tem gente que diz que ganhou o dia só porque me ouviu cantar, se sente melhor, estava estressado e aliviou o estresse” (AR5), são identificadas.

Na subcategoria desconforto, a maioria concorda que o barulho das apresentações pode trazer desconforto para as pessoas presentes: “As pessoas podem sentir-se incomodadas por causa do barulho, mas não deixam de admirar a voz e nem o meu trabalho ” (AR8) ( Quadro 2 ).

Quadro 2 O impacto da voz sobre as pessoas. Positivos/negativos 

SUBCATEGORIAS RECORTE DA FALA DOS ARTISTAS DE RUA
• Expressão de positividade A gente vê no sorriso das pessoas quando nos apresentamos, a alegria que é transmitida [...] (AR1).
A minha voz traz muita coisa boa, tem gente que diz que ganhou o dia só porque me ouviu cantar, se sente melhor, estava estressado e aliviou o estresse (AR5).
Eu sei que minha voz faz a diferença na vida de algumas pessoas, trazendo alegria e animação [...] (AR10).
• Desconforto Às vezes incomoda as pessoas por causa do barulho [...] (AR1).
A voz pode incomodar devido ao barulho que é feito no metrô [...] (AR7).
As pessoas podem sentir-se incomodadas por causa do barulho, mas não deixam de admirar a voz e nem o meu trabalho (AR8).

DISCUSSÃO

O valor obtido como escore médio da ESV, encontra-se acima do ponto de corte que é de 16 pontos(10), sendo 14 o número total de indivíduos que está acima desse valor. Nesse grupo, a subescala limitação se sobressai com os mais altos valores da ESV, indicando, portanto, que existem queixas vocais relevantes para os artistas de rua, que podem estar relacionadas às questões referentes à dificuldade em falar em lugares barulhentos, se sentir cansado para falar, mudança da voz durante o dia e perda da voz ao final do dia, questões mais pontuadas pelo grupo.

Para ratificar presença de queixas em profissionais da voz pelo estudo da ESV, em uma pesquisa recente, com um grupo de cantores de coral, foi verificado um maior índice de sintomas vocais como pigarro/secreção, rouquidão e tosse com secreção, garganta e boca secas, associados à gripe, uso intensivo da voz, alergia, infecção respiratória, o que, consequentemente, interferiu nas vozes desses sujeitos (13).

No protocolo IDV-10, a média do escore total foi dentro do esperado para pessoas que não têm queixas sobre a qualidade de vida da sua voz. Em estudo realizado com cantor popular, foram apresentados altos índices de desvantagem vocal(14). É necessária uma atenção especial para a forma como essa questão é abordada com o sujeito, que pode não saber as diferenças entre uma desvantagem vocal e um quadro otorrinolaringológico, como gripes, alergias ou afecções de outras naturezas, assim como uma dificuldade na realização das técnicas para o canto.

Sabe-se que o ambiente de trabalho em que os indivíduos estão inseridos pode ter relação com o desenvolvimento de sintomas e alterações vocais (15). No presente estudo, foram autorreferidas pelos artistas de rua queixas com relação ao ambiente e condição de trabalho que os expõem a situações de risco vocal, como ambiente de trabalho com poeira e fumaça, além de presença de ruído incomodativo e falta de acústica adequada.

Atualmente, os estudos que relacionam o ambiente de trabalho com distúrbios da voz são, em sua maioria, com grupos de professores, os quais destacam que o principal fator para o surgimento de um distúrbio da voz é o uso intensivo da voz relacionado a fatores ambientais prejudiciais, como a exposição ao ruído, à poeira e falta de acústica(16-18). Nessa perspectiva, são necessários mais estudos com essa população para entender melhor a relação do ambiente de trabalho com distúrbios vocais, tendo em vista que no ambiente de trabalho dessa população não se pode controlar os agentes físicos, como o ruído.

Sobre o uso do microfone, a maioria do grupo, não faz uso do aparelho de amplificação sonora. O uso do microfone tem se mostrado uma estratégia eficiente para o conforto e longevidade vocal do profissional da voz, além de ser um recurso alternativo para prevenção de alterações vocais (19-20).

Um contraponto a ser destacado é o grande número de artistas de rua que relatam fazer repouso vocal entre uma apresentação e outra. Para esses profissionais da voz, o repouso vocal é necessário após o uso prolongado da voz, diminuindo a demanda vocal e proporcionando o relaxamento da musculatura laríngea (21).

Os artistas de rua discorrem sobre a representação da sua voz profissional destacando algumas categorias. Quanto à importância de sua voz, relataram que ela é primordial para sua atividade, enfatizando que sua voz é a base para realização do seu trabalho. Por meio dela, podem expressar seus sentimentos, como alegria ou situações que perpassam seu cotidiano, além disso, destacam a relação de sua voz com sua personalidade, trazendo dado que os identificam e que pode mostrar ao seu público sua identidade. Em estudo atual com profissionais da voz, também foi autorreferido por eles que para a realização de sua profissão é importante que a comunicação com o público seja de forma natural e espontânea, levando atributos de sua personalidade para aproximar e atrair a atenção na comunicação com o interlocutor (22).

Quanto aos cuidados com a voz, são identificados elementos de conhecimento prévio, que podem ser adquiridos socialmente, veiculados pela mídia. Muitos artistas relatam que nunca buscaram orientação profissional para o cuidado com a voz e já outros destacam que sua busca por orientações foi por meio de mídias sociais.

Conhecendo o universo de trabalho desse grupo, é de grande importância à realização de orientações voltadas à saúde vocal desses profissionais com o intuito de amenizar os efeitos do trabalho sobre a sua voz. Tendo em vista que estes profissionais não dispõem de prévio treinamento vocal, bem como muitos destes estão inseridos em ambientes de trabalho desfavoráveis à saúde vocal e assim vulneráveis ao desenvolvimento de um problema na voz, faz-se necessário intensificar pesquisas e ações de caráter preventivo, de promoção e educação em saúde voltadas ao cuidado com a voz nessa população (23).

O impacto que a voz traz às pessoas, no olhar do artista de rua, mostra a energia de positividade que a arte provoca no ouvinte, que o envolve em uma esfera de pensamentos bons. Em contrapartida, são perspicazes ao perceber que, para outras pessoas, existe um incômodo com relação ao barulho das apresentações dos artistas, em ambientes que naturalmente já são barulhentos, como o metrô e as praças das ruas. Essa autopercepção mostra a satisfação do grupo com sua atividade profissional e o desejo de sempre agradar ao seu público, realizando uma psicodinâmica vocal para envolver o interlocutor (24).

CONCLUSÃO

O estudo apontou que existem queixas vocais na população de artistas de rua. As quais são destacadas situações que põem o artista em risco vocal, como presença de ruído, poeira, falta de acústica, além da falta de amplificação sonora. Porém mais pesquisas são necessárias para avaliar essa perspectiva. A qualidade de vida para esse grupo estar enquadrada em situação de normalidade.

A representação da voz para o grupo estudado está relacionada à sua atividade profissional e à relação com público, além de satisfação pessoal e profissional.

Trabalho realizado no Departamento de Fonoaudiologia, Universidade Federal de Pernambuco – UFPE – Recife (PE), Brasil.

Fonte de financiamento: nada a declarar.

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Recebido: 02 de Abril de 2018; Aceito: 14 de Agosto de 2018

Conflito de interesses: nada a declarar.

Endereço para correspondência:Mayara Kerolyn de Souza Av. Dom Carlos Coelho, 1302, Loteamento 92, Vila Rica, Jaboatão dos Guararapes (PE), Brasil, CEP: 54090-260. E-mail: maysouza94@gmail.com

MKS foi responsável pela redação do artigo, coleta e análise de dados. ANBA foi responsável pelas orientações de aperfeiçoamento, análise de dados e revisão do texto. JAL foi responsável pelas orientações de aperfeiçoamento, revisão do texto. ZSL foi responsável pelas orientações de aperfeiçoamento revisão do texto. CMBN foi responsável pela análise de dados, revisão do texto.

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