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Audiology - Communication Research

On-line version ISSN 2317-6431

Audiol., Commun. Res. vol.18 no.2 São Paulo Apr./June 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S2317-64312013000200003 

ARTIGO ORIGINAL

 

Disfluências e velocidade de fala em produção espontânea e em leitura oral em indivíduos gagos e não gagos

 

 

Joana Cecilia Baptista Ramalho PintoI; Ana Maria SchieferII; Clara Regina Brandão de ÁvilaII

IPrograma de Pós-graduação (Mestrado) em Distúrbios da Comunicação Humana, Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP - São Paulo (SP), Brasil
IIDepartamento de Fonoaudiologia, Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP - São Paulo (SP), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Investigar e caracterizar a velocidade de fala e as rupturas da fala em situação espontânea e em leitura oral, em indivíduos gagos e não gagos e investigar a relação entre essas variáveis.
MÉTODOS: Trinta participantes com idades entre 17 e 59 anos e, no mínimo, oito anos de escolaridade, constituíram o Grupo Estudo, com 15 indivíduos gagos, e o Grupo Controle, com 15 indivíduos não gagos. Os indivíduos do Grupo Controle e do Grupo Estudo foram pareados por idade, gênero e nível de escolaridade. Após anamnese, foram realizadas as seguintes avaliações: neuropsicológica breve, específica da gagueira e específicas da leitura. As disfluências foram analisadas e calculou-se a velocidade da fala espontânea e na leitura oral.
RESULTADOS: Ocorreram mais disfluências na fala espontânea que na leitura oral de texto, em ambos os grupos. Em relação à velocidade, no Grupo Controle, a leitura de pseudopalavras e de texto correlacionaram-se positivamente e no Grupo Estudo, todas as variáveis correlacionaram-se positivamente.
CONCLUSÃO: A análise da velocidade e das rupturas de fala caracterizou ambos os grupos, tanto em situação de fala espontânea, quanto na leitura que evidencia perfis de desempenho diferenciados pela velocidade de fala, frequência e tipologia das rupturas. A investigação demonstra que indivíduos gagos apresentaram valores mais baixos de velocidade, assim como maior ocorrência de disfluências, tanto na fala espontânea quanto na leitura oral, em comparação com indivíduos não gagos.

Descritores: Gagueira; Fala; Leitura; Fonoaudiologia; Processos mentais


 

 

INTRODUÇÃO

A fala fluente pode associar-se à eloquência ao falar, à habilidade de falar extensamente, com poucas pausas, ao domínio dos recursos sintáticos e semânticos da língua, ou, ainda, à habilidade de demonstrar o uso criativo da linguagem. O termo fluência da fala tem sido usado para indicar a habilidade em manter o fluxo contínuo e suave de fala(1), que varia de indivíduo para indivíduo, dependendo do tipo de situação comunicativa, das emoções envolvidas no ato da fala e do conhecimento prévio do assunto(2).

Na avaliação clínica da fluência da fala, dois parâmetros são, geralmente, verificados: a velocidade da fala e a classificação das rupturas, bem como a identificação da frequência com que estas ocorrem.

A leitura oral de textos é um procedimento amplamente utilizado na avaliação clínica da gagueira e consta de protocolos consagrados de avaliação. A leitura em voz alta se processa pela percepção e oralização da escrita, ou seja, o texto escrito é reproduzido por meio da fala(3). A habilidade de ler textos em voz alta, com velocidade, precisão e prosódia adequadas, é uma característica importante do desenvolvimento da própria leitura e representa a relação direta com a habilidade de reconhecimento automático de palavras(4). A leitura eficiente mostra-se fluente e é alcançada por meio do bom desenvolvimento das representações fonológicas das palavras, além da capacidade de processá-las de forma rápida e automática, com o mínimo de recursos cognitivos na decodificação. Dessa forma, o leitor pode voltar sua atenção à compreensão(5).

Apesar da importância da leitura como procedimento de avaliação da fluência de fala, pouco se conhece sobre os parâmetros relevantes para essa avaliação, que privilegia a decodificação e o reconhecimento automático das palavras, em detrimento da compreensão. A escassez de informações nessa área é compreensível, uma vez que muitos fatores podem intervir na fluência da leitura, tais como o grau de escolarização do leitor, o tipo do texto apresentado e o seu portador, a motivação e a atenção voltadas ao texto, a capacidade de reconhecimento automático das palavras, o vocabulário utilizado, etc. Essas características interferem na fluência da leitura de qualquer indivíduo. Retomadas, correções, prolongamentos, repetições de sílabas e palavras são fenômenos frequentemente observados na leitura de indivíduos não gagos, despreparados para ler um texto inadequado, por exemplo, ao se grau de escolaridade. Sendo assim, faz-se necessária a obtenção de medidas, ainda que apenas normativas, que possam orientar o profissional que avalia a fluência da fala por meio da leitura oral.

A falta de informações sobre a leitura como procedimento de investigação da fluência de fala pode dificultar, por exemplo, a avaliação de um indivíduo sem fluência de leitura (baixa escolaridade) e que apresenta muitas rupturas na fala espontânea. Como proceder? Até onde se considera a dificuldade da leitura e como se deve começar a identificar as dificuldades de fala?

A identificação dos limites e das diferenças de fluência leitora entre um indivíduo gago e um não gago, pode fornecer importantes parâmetros de caracterização dessa competência. Entretanto, esse propósito implica avaliar e conhecer, a priori, os valores de velocidade de fala e a caracterização das rupturas em situação de fala espontânea, de forma a compreender como ambas as variáveis se comportam durante a leitura.

No que diz respeito à gagueira, alguns estudos referem a redução do número de rupturas na fala de indivíduos gagos durante a leitura de textos(6,7), modificando a velocidade com que a fala seria espontaneamente produzida.

Diferentemente, em indivíduos fluentes, pesquisas demonstraram mudanças nas velocidades de fala, observadas em situação espontânea e de leitura oral, que tendem a se estabilizar nos indivíduos adultos(8).

Não obstante todas essas considerações, as quebras de fluência podem ser observadas e, geralmente são, na leitura oral de qualquer leitor.

Apesar das modificações clinicamente observadas na velocidade de fala de gagos durante a leitura, poucos são os estudos que já caracterizaram essas modificações, ou antes, que determinaram padrões.

Com base nessa argumentação, foram examinados, neste estudo, a tipologia das rupturas e os parâmetros de velocidade de fala, em palavras por minuto e sílabas por minuto, em situação de fala espontânea e na leitura oral, de modo a caracterizar as variáveis; as possíveis diferenças que essas variáveis possam apresentar entre situação de fala espontânea e leitura oral; e as diferenças esperadas entre indivíduos gagos e não gagos, em ambas as situações de fala. Também foram investigadas as possíveis correlações entre as velocidades observadas em situação de fala espontânea e na leitura oral. Correlações existentes poderão indicar caminhos para a intervenção na gagueira.

Sendo assim, o presente trabalho teve como objetivo estudar e caracterizar velocidade e disfluências da fala em situação espontânea e em leitura oral, em indivíduos gagos e não gagos e investigar a relação entre essas variáveis.

 

MÉTODOS

Os procedimentos de seleção para este estudo foram iniciados após a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), protocolo nº. 0386/10. Todos os participantes foram informados sobre a pesquisa e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. A pesquisa foi realizada no Ambulatório de Avaliação e Diagnóstico Fonoaudiológico do Departamento de Fonoaudiologia UNIFESP, durante os anos de 2010 e 2011.

Foram selecionados, para o Grupo Estudo (GE), 15 adultos, com idades entre 17 e 48 anos, (média 27,33 anos) com, no mínimo, oito anos de escolaridade e diagnóstico de gagueira. Para o Grupo Controle (GC), foram selecionados, na comunidade, e participaram voluntariamente,15 adultos sem queixas de comunicação. Os indivíduos do Grupo Estudo e do Grupo Controle foram pareados por gênero, idade e escolaridade. Todos os participantes, de ambos os grupos, foram submetidos à anamnese e avaliação fonoaudiológica. A avaliação fonoaudiológica compreendeu: avaliação audiológica básica; avaliação específica da gagueira com aplicação do instrumento Stuttering severity instrument (SSI-3)(9); avaliação específica da leitura - leitura oral de texto adequado para 8ª série do Ensino Fundamental(10) - leitura oral de palavras e pseudopalavras, balanceadas quanto à extensão, frequência e regularidade ortográfica(11,12).

O mínimo de oito anos de escolaridade foi critério para inclusão na amostra e teve a finalidade de homogeneizar as capacidades leitoras. Foram excluídos indivíduos que apresentaram evidência de surdez, doenças neurológicas e/ou psiquiátricas e déficits de linguagem oral ou escrita. Para a observância desses critérios de exclusão também foi aplicado o Instrumento de Avaliação Neuropsicológica Breve (NEUPSILIN)(13), permitido para uso de fonoaudiólogos, à época. Foram aplicadas as seguintes provas: orientação têmporo-espacial, atenção, percepção, memória, habilidades aritméticas, linguagem oral e escrita e praxias. Os resultados permitiram excluir da amostra de ambos os grupos indivíduos com déficits de linguagem oral.

Para a avaliação específica da gagueira, gravou-se, por meio de uma filmadora, a fala espontânea (média de 200 sílabas fluentes). As gravações foram transcritas canonicamente e, em seguida, mapeadas as disfluências em típicas e atípicas. Adotou-se como critério para definição do grau de severidade, a presença de, no mínimo, 3% de disfluências atípicas para estabelecimento do diagnóstico e posterior preenchimento do protocolo específico da gagueira Stuttering Severity Instrument 3 (SSI-3)(9). Foram excluídos os indivíduos com pontuação abaixo de 17 pontos no instrumento SSI-3, que equivale a uma gagueira de grau muito leve.

Para a avaliação específica da leitura, foram realizadas as tarefas: leitura oral de itens isolados, composta por 38 palavras e 30 pseudopalavras, balanceadas quanto à extensão, frequência e ortografia(11,12); leitura oral de texto, e conforme o critério de incluir indivíduos com, no mínimo, oito anos de escolaridade, foi utilizado o texto "Os furacões"(10), adequado para a 8ª série do Ensino Fundamental.

As amostras de fala, tanto espontânea, quanto de leitura, foram transcritas canonicamente. Desse material, selecionou-se 200 sílabas fluentes da leitura oral, de um trecho escolhido, padronizado para análise em todos os indivíduos. Após a coleta, foi feito o mapeamento das disfluências em típicas e atípicas e análise de parâmetros específicos de fluência da leitura.

Os valores dos parâmetros de velocidade e fala constituíram variáveis com distribuição normal, segundo a estatística do teste Kolmogorov-Smirov. Essas variáveis foram, então, analisadas pelo teste t de Student, na comparação dos grupos Controle e Experimental. Os testes de hipóteses não paramétricos de Mann-Whitney e Teste de Wilcoxon foram utilizados na comparação dos grupos quanto à tipologia das disfluências na fala espontânea e leitura oral, que não apresentaram distribuição normal, dadas as diversidades decorrentes das características de cada grupo e da natureza das variáveis estudadas. O coeficiente de correlação linear de Pearson foi calculado para quantificar a relação linear entre leitura oral de texto e fala espontânea, leitura de palavra e pseudopalavra, palavra e texto, além de pseudopalavra e texto. Essas correlações foram estimadas para os aspectos relacionados à velocidade da fala espontânea e leitura oral. Fixou-se em 0,05 o nível de significância estatística.

 

RESULTADOS

Ao comparar os tipos de disfluências encontradas na fala espontânea e leitura oral no GE, por meio de testes não paramétricos, foram observados os valores descritivos do mapeamento das disfluências na fala espontânea e na leitura oral de texto e a comparação das médias e desvios padrão por tipologia de ruptura em cada uma das tarefas (Tabela 1).

Os resultados indicaram que, no GE, a ocorrência de interjeição, hesitação, revisão, repetição de frases, repetição de palavras, repetição de sons, bloqueio e prolongamento, foi maior na fala espontânea que na leitura oral de texto. O total de disfluências também se mostrou mais elevado na fala espontânea.

Quanto aos valores descritivos do mapeamento das disfluências na fala espontânea e na leitura oral de texto e a comparação das médias e desvios-padrão por tipologia de ruptura em cada uma das tarefas, no GC, os resultados indicaram que a ocorrência de interjeição, hesitação e prolongamento, na fala espontânea, foi maior que na leitura oral de texto. O total de disfluências também se mostrou mais elevado na fala espontânea (Tabela 2).

Quanto aos valores descritivos do mapeamento das disfluências na fala espontânea e na leitura oral de texto dos grupos estudados e a comparação das médias e desvio-padrão por tipologia de disfluência em cada uma das tarefas, a comparação intergrupos dos tipos de disfluências na fala espontânea mostrou maior frequência, no GE, dos tipos hesitação, repetição de palavras (até duas), repetição de palavras (acima de três), repetição de sílabas, repetição de sons, bloqueio e prolongamento, representando diferenças significativas entre os dois grupos (Tabela 3).

Na comparação da leitura oral de texto entre os grupos estudados, observou-se, no GE, maior ocorrência de disfluências do tipo repetição de sílabas, repetição de sons e bloqueio. O total de rupturas na leitura oral de texto também se mostrou maior no GE que no GC.

Na comparação das medidas de velocidade da fala espontânea e leitura oral, entre os grupos, por meio de testes paramétricos, os resultados inferenciais mostraram que, para todos os aspectos relacionados à velocidade da fala espontânea e da leitura oral, o GC apresentou valores numericamente maiores, quando comparado ao GE (Tabela 4).

Correlações positivas, de moderadas a fortes, foram observadas no GE, entre todas as variáveis investigadas. Assim, foi possível observar que, no GE, quanto maior o número de palavras e de sílabas por minuto na fala espontânea, maior essa mesma medida na leitura de texto. Quanto maior o número de palavras e de sílabas lidas por minuto na leitura de palavras isoladas, maior o número de pseudopalavras e de sílabas lidas por minuto nas pseudopalavras. Os mesmos tipos de correlações foram encontrados quando investigadas entre a leitura de palavras isoladas e de pseudopalavras e a leitura de texto (Tabela 5).

Por outro lado, a busca de associações entre as mesmas variáveis no GC, evidenciou correlação positiva moderada, apenas entre a leitura de pseudopalavras e leitura de texto, tanto no nível dos itens inteiros, quanto no cálculo de sílabas por minuto, ou seja, no GC, quanto mais rápida a leitura de pseudopalavras, mais rápida a leitura de texto.

 

DISCUSSÃO

Os dois grupos estudados foram constituídos, principalmente, pela observância das capacidades leitoras, estimadas pelo mínimo de escolarização dos participantes. Todos já haviam, portanto, finalizado, há mais ou há menos tempo, o Ciclo Fundamental. As análises mostraram, inicialmente, que o GE apresentou, com maior frequência, todos os tipos de disfluências na fala espontânea, quando comparados à fala observada durante a leitura oral de texto (Tabela 1). Na leitura, não foram observadas pausas nem palavras incompletas, nesse grupo. Assim, a análise do GE mostrou maior ocorrência de interjeições, hesitações, revisões, repetições de frases, de palavras e de sons, bloqueios e prolongamentos, em situação de fala espontânea, ou seja, ocorreram mais disfluências, tanto típicas quanto atípicas, na fala espontânea do que na leitura do texto dos indivíduos gagos. Esses resultados confirmaram os dados encontrados na literatura(14,15). Na realidade, isso pode ter ocorrido porque o fato de a fala espontânea exigir elaboração rápida, pode torná-la mais suscetível de apresentar disfluências(16).

Disfluências do tipo hesitação não são aleatórias e tendem a ocorrer antes de palavras de baixa frequência, palavras imprevisíveis, em situações em que o falante se encontra diante de múltiplas possibilidades semânticas ou sintáticas e demais situações de incerteza(17), o que explica porque, neste estudo, a frequência de rupturas desse tipo foi maior na fala espontânea, mesmo no GC. Hesitações, pausas ou falsos inícios na fala espontânea, podem ser vistos como fenômeno de produção periférica, que acompanha a fala e ocorre aleatoriamente. Exemplificam a dificuldade que falantes podem encontrar na verbalização linear do discurso e nos sistemas de regras subjacentes(18). Por isso, foram excluídos das amostras indivíduos com déficit de linguagem oral.

As marcações prosódicas do texto estabelecidas a priori, podem facilitar o planejamento motor e o ato de fala, o que talvez tenha colaborado para a redução das disfluências na tarefa de leitura de texto no GE(7).

Além do mais, em condições de fala e leitura oral em coro, isto é, quando duas ou mais pessoas leem um mesmo texto em voz alta, ao mesmo tempo, a redução da gagueira tende a ser imediata, pois essa é uma atividade colaboradora em que os falantes modificam o tempo da sua fala por igual, em leituras controladas(7,19).

Diferentemente, no GC, observou-se menor ocorrência do total e dos tipos de disfluências, quando comparado ao GE (Tabela 3). A literatura também refere a presença de disfluências em adultos fluentes, das quais interjeições, revisões e hesitações são mais frequentemente observadas na fala(20,21).

Neste estudo, assim como em outros, também foi possível observar maior ocorrência de interjeições, hesitações e prolongamentos na fala espontânea, não presentes na leitura. O tempo despendido entre a elaboração e a produção de fala envolve processos que exigem a atuação do processamento linguístico e o processamento motor(5,22-24). Assim, como as duas ações ocorrem, praticamente em concomitância, é possível concluir que seja necessário um tempo adicional para que a fala seja produzida, resultando na hesitação. Os resultados de ocorrências de hesitações na fala espontânea do GE concordaram com os achados da literatura(25).

Embora o GC tenha apresentado menor número de tipos de disfluências, quando comparado ao GE, o número médio de disfluências em ambos os grupos foi mais elevado na fala espontânea que na leitura oral(7,16).

Apesar da menor frequência de aparecimento de rupturas e de tipos de rupturas, no GC, pode-se dizer que ambos os grupos mostraram o mesmo comportamento de diminuição das rupturas no procedimento de leitura.

De uma forma geral, foi possível observar, em ambos os grupos, a diminuição de disfluências na leitura, comparada à fala espontânea. Observou-se, também, maior ocorrência de eventos de repetição no GE, tanto de disfluências típicas (até duas repetições de palavras), quanto de disfluências atípicas (acima de três repetições de palavras, de sílabas e sons) e disfluências atípicas do tipo bloqueios e prolongamentos, tanto na fala espontânea, quanto na leitura oral. Esses dados confirmam os encontrados na literatura(26,27).

As repetições podem ser provocadas por uma falha na temporalização dos processos envolvidos na fala e é possível que reflitam na seleção dos eixos paradigmáticos e sintagmáticos, provocando dificuldade na seleção do termo seguinte e impedindo a linearidade do processo(25). A maior ocorrência de prolongamentos e bloqueios na fala espontânea de indivíduos com gagueira pode ser justificada pela possibilidade de relação da gagueira com dificuldades no funcionamento do gânglio basal, o que se imagina influenciar negativamente no tempo necessário para a realização da produção da fala e linguagem. Assim, esses desajustes temporais poderiam contribuir para a produção de prolongamentos(28,29).

Porém, independentemente da explicação para esses resultados, é importante salientar que, na comparação dos grupos, a frequência e a diversidade de tipos de rupturas diminuíram, tanto na leitura de indivíduos gagos, quanto na de indivíduos não gagos. Os bloqueios não estiveram presentes na leitura dos não gagos e assinalaram grande diferença encontrada entre as leituras dos grupos.

Os resultados do estudo da velocidade, calculada pelo número de itens falados ou lidos por minuto, tanto quanto ao número de palavras e de sílabas por minuto, foram os esperados, uma vez que na fala de indivíduos não gagos (GC) houve menor quantidade e duração de disfluências do que na fala de indivíduos gagos (GE). De fato, o aumento das disfluências na fala levou à redução da velocidade (menor número de palavras e, consequentemente, de sílabas por minuto). Esses resultados estão de acordo com os achados da literatura(15). Chamam a atenção os valores mínimos de todas as variáveis relacionadas à velocidade da fala espontânea e da leitura oral dos indivíduos do GE, que se mostraram muito abaixo do esperado. É possível que o número e a duração das disfluências tenham influenciado esse resultado.

É importante ressaltar que, no GE, embora próximos os valores, as médias das velocidades (tanto a calculada em palavras por minuto, quanto a calculada em sílabas por minuto) de fala foram maiores na leitura oral de texto do que na fala espontânea. Como não havia, na amostra avaliada, indivíduos com queixa ou histórico de dificuldades ou fracasso acadêmico, a leitura se deu de forma rápida, sem dificuldades. A definição desse critério de inclusão na amostra pode ter concorrido para a velocidade mais alta, observada em relação à fala espontânea. Com a proficiência em tarefas de leitura oral, observa-se a diminuição da frequência e duração de pausas, promovendo aumento da taxa de leitura(3). Do mesmo modo, embora muito próximos os valores das médias das velocidades de fala, essas mostraram-se mais altas na fala espontânea que na leitura, no GE.

A indicação de que o número de rupturas na fala de indivíduos gagos deve diminuir durante a leitura de textos(6,7), sugere que a velocidade de fala seja, em decorrência, mais elevada nessa situação, o que não foi possível observar nesta amostra de adultos gagos. O tamanho amostral pode ter influenciado os resultados. desta pesquisa.

O resultado das correlações investigadas na leitura de palavras e de texto, evidenciou a correlação entre a decodificação, independentemente do apoio de contexto e da semântica, e o reconhecimento automático de palavras. Como o GC mostrou-se mais rápido em situação de leitura do que em situação de fala espontânea, apenas a leitura de pseudopalavras, naturalmente mais lenta, pode ter se relacionado com a velocidade de fala espontânea, pois é feita pela rota fonológica.

Diferentemente, a busca de correlações no GE evidenciou-as positivas, de moderadas a fortes, entre todas as variáveis estudadas (Tabela 5). Destaca-se que, quanto maior o número de palavras e de sílabas produzidas por minuto na fala espontânea, maior também foi na leitura oral de texto. Da mesma forma, correlacionaram-se positivamente as variáveis de leitura oral nesse grupo, ou seja, quanto maior o número de palavras e sílabas lidas por minuto na leitura de palavras isoladas, maior o número de itens inteiros e de sílabas lidas por minuto nas pseudopalavras. Os mesmos tipos de correlações foram encontrados entre a leitura de palavras isoladas e de pseudopalavras e a leitura de texto.

As tarefas de leitura de palavras isoladas e pseudopalavras permitiram analisar, de forma apropriada, a tarefa de leitura oral dos indivíduos, e, pelo fato de os indivíduos terem boa escolaridade, esses valores se correlacionaram com a leitura de texto, que se mostrou proficiente, mas com valores mais baixos, comparados aos do GC, (indivíduos gagos apresentaram mais rupturas na fala, o que reduziu a média da velocidade). Sendo assim, os resultados de leitura oral podem ter sido decorrentes da gagueira e não de uma dificuldade de leitura, propriamente dita.

A homogeneidade da escolaridade dos participantes de ambos os grupos, facilitou a interpretação dos resultados e possibilitou a comparação com a literatura. Entretanto, o tamanho da amostra não permitiu que considerações sobre o padrão de comportamento leitor do gago fosse estabelecido, representando uma limitação deste estudo. Além disso, para determinar essas considerações, outras faixas de escolaridade, de idade e de competências leitoras devem ser investigadas.

Contudo, os resultados puderam estabelecer o padrão de diminuição de frequência de rupturas, ou seja, as rupturas diminuíram na leitura de gagos e de não gagos, conforme esperado.

 

CONCLUSÃO

A análise da velocidade e das rupturas de fala caracterizou ambos os grupos, tanto em situação de fala espontânea, quanto na leitura que evidenciou perfis de desempenho diferenciados pela velocidade de fala, frequência e tipologia das rupturas. A investigação mostrou que indivíduos gagos apresentam valores mais baixos de velocidade, assim como maior ocorrência de disfluências, tanto na fala espontânea, quanto na leitura oral, em comparação aos indivíduos não gagos.

 

AGRADECIMENTOS

À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) pelo financiamento concedido para a realização desta pesquisa, processo número 2010/04874-7.

 

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 Endereço para correspondência:
Joana Cecilia Baptista Ramalho Pinto
R. Botucatu, 802, Vila Clementino
São Paulo (SP), Brasil, CEP: 04023-900
E-mail: joanacecilia.pinto@yahoo.com

Recebido em: 23/10/2012
Aceito em: 17/7/2013

 

 

Trabalho realizado no Programa de Pós-Graduação em Distúrbios da Comunicação Humana, Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP - São Paulo (SP), Brasil.
Conflitos de interesses: Não
Contribuição dos autores: JCBRP, pesquisador principal: elaboração da pesquisa, elaboração do cronograma, levantamento da literatura, coleta e análise dos dados, redação do artigo, submissão e trâmites do artigo; AMS, co-orientadora: elaboração da pesquisa, elaboração do cronograma, análise dos dados, correção da redação do artigo, aprovação da versão final; CRBA, orientadora: elaboração da pesquisa, elaboração do cronograma, análise dos dados, correção da redação do artigo, aprovação da versão final.

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