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Audiology - Communication Research

versão On-line ISSN 2317-6431

Audiol., Commun. Res. vol.18 no.2 São Paulo abr./jun. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S2317-64312013000200006 

ARTIGO ORIGINAL

 

Oficinas educativas como estratégia de promoção da saúde auditiva do adolescente: estudo exploratório

 

 

Adriana Bender Moreira de LacerdaI; Vânia Muniz Néquer SoaresI; Cláudia Giglio de Oliveira GoncalvesI; Flávia Conceição LopesII; Ricardo TestoniII

IPrograma de Pós-Graduação em Distúrbios da Comunicação, Universidade Tuiuti do Paraná - UTP - Tuiuti (PR), Brasil
IIPrograma de Pós-Graduação (Mestrado) em Distúrbios da Comunicação, Universidade Tuiuti do Paraná - UTP - Tuiuti (PR), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Desenvolver e avaliar oficinas educativas sobre saúde auditiva e exposição a ruídos de adolescentes escolares da rede pública de ensino médio.
MÉTODOS: Estudo de intervenção, com a participação de 91 adolescentes. Foi realizada ação educativa, tendo como base a pedagogia problematizadora e, como recurso metodológico, o trabalho em grupo na forma de oficinas, nas quais os jovens foram convidados a refletir sobre a saúde auditiva e exposição a ruídos nas atividades culturais (lazer), escolares e ambientais. Foram utilizadas diferentes estratégias lúdicas e dialógicas, como teatro, música, roda de conversa, confecção de mural. Para avaliação das oficinas foram aplicados dois questionários: um questionário antes e outro depois das oficinas, visando identificar a mudança na compreensão dos jovens frente ao ruído, e outro sobre a dinâmica das oficinas.
RESULTADOS: Após as oficinas, foram observadas mudanças na compreensão dos jovens, que passaram a considerar o ruído como algo ruim e danoso à saúde. Diferença significativa foi observada com relação aos cuidados necessários com a audição nas atividades culturais. A percepção dos alunos relacionada à dinâmica utilizada nas oficinas foi muito boa ou boa em mais de 80% das avaliações.
CONCLUSÃO: As oficinas educativas demonstraram-se apropriadas para educação em saúde auditiva de escolares. Foram observadas mudanças na compreensão dos jovens, sobretudo quanto ao efeito do ruído nas atividades culturais. As estratégias lúdicas e dialógicas propostas nas oficinas foram aceitas e apreciadas pelos adolescentes.

Descritores: Educação em saúde; Audição; Perda auditiva provocada por ruído; Serviços de saúde para estudantes; Adolescente


 

 

INTRODUÇÃO

A formação do estilo de vida do adolescente é crucial, não somente para ele, mas também para as gerações futuras. O Brasil vivencia o chamado bônus demográfico, momento em que a estrutura etária da população atua no sentido de facilitar o crescimento econômico, ou seja, há um grande contingente de população jovem e um menor número de idosos e crianças. O país contava, em 2009, com 34,5 milhões de adolescentes, 92% deles frequentando escolas(1). Assim, a escola se constitui em um espaço privilegiado para a implementação das políticas públicas, especialmente de educação em saúde, possibilitando, dentre outras ações de saúde, a promoção da saúde auditiva e prevenção da perda auditiva nos adolescentes.

Dentre as ações programáticas direcionadas à promoção da saúde auditiva e à proteção específica de escolares, estão os programas de promoção de saúde auditiva sustentados por três grandes eixos: a análise situacional dos determinantes da saúde auditiva, a análise do perfil audiológico e a intervenção fonoaudiológica voltada para a educação em saúde auditiva(2). Nesse contexto, destaca-se a importância das ações educativas baseadas no comportamento relacionado às atitudes e aos hábitos auditivos de crianças e adolescentes(3). Assim, pode-se atuar mais objetivamente na reflexão sobre a prevenção dos prejuízos decorrentes da exposição ao ruído ambiental e atividades de lazer, visando prevenir, em escolares, a perda auditiva induzida por níveis de pressão sonora elevados (NPSE).

Partindo do pressuposto que um dos componentes mais significativos do desenvolvimento na adolescência compreende a tendência grupal, numa busca de identidade fora do âmbito familiar, onde o jovem tende a sentir-se protegido, seguro, encorajado e compreendido(4), as atividades grupais como método de Educação em Saúde devem ter primazia na faixa etária dos adolescentes(5).

O trabalho em grupo, na forma de oficinas ou outros, possibilita a quebra da tradicional relação vertical que existe entre o profissional da saúde e o sujeito da sua ação, sendo uma estratégia facilitadora da expressão individual e coletiva das necessidades, expectativas e circunstâncias de vida que influenciam a saúde. O espaço grupal mediado pelo diálogo entre profissionais da saúde e os sujeitos ou a comunidade, permite a construção da consciência coletiva e o encontro da reflexão com a ação. O diálogo se impõe como caminho pelo qual os homens ganham significação, enquanto sujeitos, e conquistam o mundo para sua libertação, autonomia e transformação, sendo estas as bases do modelo pedagógico problematizador(5-7).

Esse modelo pedagógico, que teve origem no método educativo de Paulo Freire, tem se destacado como metodologia de ensino e aprendizagem para diferentes grupos populacionais. Seus pressupostos são: o diálogo, a valorização do saber e a realidade de vida do educando, com a oferta de informações significativas que objetivam o empoderamento individual e das comunidades, bem como a participação ativa do educando na busca de soluções para os problemas de saúde(6,7).

Os processos educativos grupais, no modelo problematizador, podem contribuir para o desenvolvimento da autonomia dos adolescentes, na relação e ação com o próprio corpo, além de favorecer a sua autoestima e motivação para ações mais amplas na escola e na comunidade, dentre outras(5-7).

Entretanto, na fonoaudiologia, a pedagogia problematizadora é ainda pouco adotada no processo educativo em Educação em Saúde Auditiva de adolescentes. Nesse contexto, o objetivo do presente estudo foi desenvolver e avaliar oficinas educativas sobre saúde auditiva e exposição a ruídos de adolescentes escolares da rede pública de ensino médio.

 

MÉTODOS

Trata-se de um estudo de intervenção, realizado com 91 adolescentes que cursavam o ensino médio em uma escola pública na cidade de Curitiba (PR). Desse total, 41% eram do gênero feminino e 59% do gênero masculino, sendo 11% menores de 15 anos e 89% com idades entre 15 e 19 anos. Foram incluídos na amostra, os alunos de três turmas do segundo e terceiro anos do ensino médio do período da manhã, que foram convidados e aceitaram participar da oficina educativa sobre saúde auditiva. Os alunos foram subdivididos em dois grupos, devido ao grande número, tendo sido realizadas duas oficinas com o mesmo conteúdo e metodologia.

As oficinas tiveram como objetivo a reflexão em grupo sobre os cuidados com a saúde auditiva e a exposição a ruídos nas atividades de lazer, escolares e ambientais. Cada uma teve duas horas de duração e basearam-se nos pressupostos da pedagogia problematizadora. Foram moderadas por duas docentes fonoaudiólogas e duas docentes enfermeiras, com as seguintes estratégias:

1. Apresentação dos jovens e dos moderadores das oficinas (docentes da graduação em fonoaudiologia e enfermagem da Universidade) e da proposta das oficinas, solicitando a participação ativa dos jovens nas atividades.

2. Dramatização da peça de teatro, elaborada por alunos do Curso de Graduação em Enfermagem, intitulada "No Balanço do Busão", que versa sobre a conversa de dois jovens que estão em um ônibus indo para a escola e que escutam música alta com fone de ouvido (Anexo1).

3. Organização de uma roda de conversa, utilizando a dinâmica da batata quente para motivar um diálogo sobre o tema (cinco tiras com questões colocadas em um saco de pano opaco, que circulava de mão em mão entre os jovens, enquanto uma música tocava. Quando a música era interrompida, o adolescente que estivesse com o saco de pano (batata quente), retirava uma pergunta e tentava responder. Os demais jovens debatiam sobre o tema com o auxílio dos moderadores). As questões geradoras foram as seguintes: Quais as fontes de ruído? Quais os efeitos do ruído no ser humano? A perda auditiva induzida por ruído (PAIR) é reversível? Como a perda auditiva induzida por ruído (PAIR) pode afetar a sua vida? O que fazer para evitar e se proteger dos efeitos do ruído?

4. Criação de um mural, na própria escola, sobre saúde auditiva e os riscos do ruído, visando alertar outros escolares que não participaram das oficinas. Para essa atividade, os jovens foram distribuídos em quatro grupos, usando a dinâmica das balas (foram colocadas numa sacola, diferentes tipos de bala, de acordo com o número dos participantes e dos grupos que se pretendia formar. Cada adolescente selecionou uma bala e, em seguida, foi solicitado que se agrupassem conforme o tipo de bala escolhido). Cada grupo elaborou e apresentou um cartaz sobre o tema e, no final da apresentação, os cartazes foram fixados no mural da escola, onde permaneceram até o fim do bimestre.

5. Encerramento: os alunos foram estimulados a cantar o "Funk do Ruído", após distribuição da letra da música, elaborada por adolescentes de uma escola do Estado de Santa Catarina (Anexo 2).

Para avaliação da efetividade dessa intervenção, foram aplicados dois questionários: um questionário denominado "Atitudes dos Jovens Frente ao Ruído", que foi respondido antes e depois das oficinas (foram obtidos 87 questionários válidos para análise; quatro questionários foram excluídos devido a à rasuras ou preenchimento incompleto), e outro questionário denominado "Avaliação das Atividades Educativas Desenvolvidas" (respondido por 91 adolescentes).

O questionário "Atitudes do Jovem Frente ao Ruído" foi adaptado para o português/brasileiro(8) a partir do questionário em inglês, Youth Attitude to Noise Scale (YANS) que, originalmente, foi desenvolvido por pesquisadores internacionais(9). A finalidade desse instrumento é explorar as atitudes do adolescente com relação ao ruído, numa escala que trata dos tipos diferentes de sons comuns no seu ambiente. As questões são medidas seguindo a escala de Likert com cinco graus: 1 - "discordo totalmente"; 2 - "discordo parcialmente"; 3 - "concordo"; 4 - "concordo parcialmente" e 5 - "concordo totalmente". Conta com 19 questões, sendo que as questões 1, 3, 4, 7, 12, 13, 15, 18 e 19 são classificadas com a escala de valores descendente (5-1 concordo totalmente a discordo totalmente) e as demais, em escala ascendente (1-5 discordo totalmente a concordo totalmente).

Posteriormente, conforme proposto na referida metodologia(9), as questões foram distribuídas de acordo com quatro fatores: cultura (F1), ruídos diários (F2), ambientes ruidosos (F3) e ambiente sonoro (F4). As questões do fator "cultura" são aquelas que caracterizam as atitudes dos jovens para o ruído, associadas aos elementos culturais, como por exemplo, frequentar discotecas (questões F1: 1, 4, 9, 10, 12, 15 e 18). As questões do fator "ruídos diários" são aquelas que caracterizam as atitudes dos jovens com relação aos ruídos diários, como por exemplo, o ruído de tráfego (questões F2: 8, 11, 14, 16, 17 e 19). As questões do fator "ambientes ruidosos" são aquelas que caracterizam a habilidade de se concentrar em ambientes ruidosos, como por exemplo, ouvir música enquanto faz tarefas escolares (questões F3: 2, 5 e 13). As questões do fator "ambiente sonoro" são aquelas que caracterizam as atitudes capazes de influenciar o ambiente sonoro, como por exemplo, tornar o ambiente sonoro mais confortável (questões F4: 3, 6 e 7).

Para análise dos resultados, foram calculadas as médias dos escores da escala de Likert, nas respostas antes e após a oficina e para a análise estatística foi utilizado o teste t de Student, com nível de significância de 0,05%.

As respostas às perguntas abertas do segundo questionário, "Avaliação das Atividades Desenvolvidas na Oficina", foram categorizadas, apresentado-se, nos resultados, algumas expressões dos jovens para exemplificar as categorias, ou seja, suas percepções sobre a atividade educativa.

Este estudo obteve aprovação do Comitê de Ética do Hospital do Trabalhador, de Curitiba (PR), sob o número 384/2011 e todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

 

RESULTADOS

Nas questões sobre as atitudes dos adolescentes frente ao ruído, observou-se que, após as oficinas, houve melhora na compreensão sobre os efeitos do ruído em 13 questões (questões: 1, 2, 3, 4, 8, 9, 10, 12, 13, 14, 15, 18 e 19). Uma questão permaneceu inalterada (questão 5) e, em 10 questões, o número de indefinidos foi reduzido (questões 1 a 8, 12 e 18) (Tabela 1).

Para a análise dos escores das questões sobre as atitudes dos jovens frente ao ruído, antes e após as oficinas, os escores médios mais próximos de cinco (escores mais altos) representaram atitudes mais positivas para a promoção da saúde auditiva. Os resultados após as oficinas demonstraram que, em 13 questões, ocorreram mudanças positivas na compreensão dos jovens, que passaram a considerar o ruído como algo ruim e danoso à saúde. Foi observada diferença (p<0,05) nas questões relacionadas aos fatores "cultura" (questão 12) e "ruídos diários" (questões 11, 14 e 19) (Tabela 2).

Nos escores das questões, antes e após a oficina educativa, de acordo com os fatores (cultura, ruídos diários, habilidade de se concentrar em ambientes ruidosos e atitudes que influenciam o ambiente sonoro), foi observada diferença entre as médias do fator "cultura" (p=0,0247), que caracterizam mudanças nas atitudes dos jovens em relação ao ruído, associadas aos elementos culturais, sobretudo nas atividades de lazer com música (Tabela 3).

Os resultados sobre a percepção dos adolescentes com relação à atividade educativa em que se utilizou como recurso metodológico uma oficina e como modelo pedagógico a pedagogia problematizadora, apontaram que os alunos consideraram a atividade muito boa ou boa, em mais de 80% das avaliações, afirmando que a atividade educativa contribuiu para ampliação dos conhecimentos sobre o tema. Os jovens relataram ter apreciado as atividades propostas, destacando o que mais gostaram na oficina (Tabela 4).

 

 

Para exemplificar as respostas sobre a satisfação dos adolescentes em relação à atividade educativa realizada, categorizadas e apresentadas na Tabela 4, destacamos algumas de suas expressões, como parte dos resultados:

"Ajudou a esclarecer as dúvidas sobre o assunto"

"Informou sobre a prevenção/riscos do ruído"

"Gostei de saber sobre os ruídos em geral e que causam problemas à saúde"

"Eu entendi mais sobre a poluição sonora"

"Gostei da descontração e participação de todos sobre algo que é muito importante"

"Ter abordado esse tema pouco discutido"

"Gostei da iniciativa dos professores da Universidade de vir até a nossa escola"

"Parabéns pelas dinâmicas, por mim conquistaram seus objetivos"

"Aprendi muito, pois gostava de ouvir música alta e com fone de ouvido no último volume"

"Trabalho muito bom que contribuirá para mudança de atitude"

"Gostei bastante, aumentou meus conhecimentos e também a preocupação com a minha saúde, e minhas futuras gerações"

"Podiam vir mais vezes e trazer assuntos diferentes"

 

DISCUSSÃO

Estudos demonstram que a perda auditiva entre os adolescentes pode ser ocasionada por fatores condicionantes, como os hábitos e atitudes/comportamentos desenvolvidos por essa população, sendo necessárias ações que propiciem esclarecimentos sobre essa temática. A perda auditiva induzida pelo ruído (PAIR) pode determinar transtornos na vida dos jovens quanto ao aproveitamento escolar, ao convívio social e, futuramente, na vida profissional(8-12).

Nesse contexto, promover a saúde auditiva significa possibilitar melhor qualidade de vida e bem estar às populações atendidas no âmbito da Fonoaudiologia(13-16).

Os resultados deste estudo demonstraram que os adolescentes tinham hábitos e atitudes/comportamentos inadequados, podendo ser nocivos e causar danos à saúde (Tabela 1). Em um comparativo com estudo nacional(8), hábitos e atitudes/comportamentos dos adolescentes avaliados pelos autores apresentaram-se semelhantes aos dos adolescentes do presente estudo.

Segundo autores, o hábito mais comum entre os participantes é ouvir música com dispositivos de escuta pessoal (MP3, MP4 e iPod®), sendo que as meninas têm atitudes mais negativas para o ruído que os meninos(8). Autores(8,12,17-19) relatam que os conceitos de adolescência e de música alta estão normalmente associados. Escutar música em intensidade elevada é um hábito comum entre os jovens. Os resultados de estudo(12) relacionado às atitudes dos adolescentes frente ao ruído presente em diferentes locais, sugerem que a cultura atual da juventude não parece preocupar-se com os efeitos nocivos dos sons intensos.

No entanto, como na atividade educativa desenvolvida foram observadas mudanças na compreensão dos jovens (Tabelas 1 e 2), que passaram a considerar o ruído como algo ruim e danoso à saúde, pode-se inferir que a falta de informação e de atividades educativas interessantes para os jovens contribua para atitudes inadequadas com relação à saúde auditiva e aos efeitos do ruído.

Diferenças significativas nas respostas, antes e após as oficinas, foram observadas nos fatores "cultural" e "ruídos diários" (Tabela 2) e nos escores das questões relacionadas ao fator "cultural" (Tabela 3). Esses resultados podem ter ocorrido pela própria dinâmica das oficinas, onde houve maior interesse dos jovens sobre esclarecimentos relacionados às atividades de lazer com música (intensidade sonora das discotecas, shows, dispositivos de escuta pessoal, etc) e aos ruídos diários (incômodos com vizinhos, trânsito, etc).

A percepção dos adolescentes demonstrou que a avaliação das oficinas foi positiva, sendo o método considerado muito bom e bom (Tabela 4). Nesse pressuposto, a proposta da ação educativa com a participação grupal foi baseada nas recomendações do Ministério da Saúde(5), fundamentando que o grupo é um espaço privilegiado para a promoção da saúde e prevenção de agravos. Essa estratégia se coaduna melhor às necessidades da faixa etária dos adolescentes, tais como fazer parte de um grupo, ser ouvido e respeitado. É nesse espaço de atenção, também, que se pode construir uma rede de proteção social que garanta os direitos dessa população(5).

Já a pedagogia problematizadora como método de educação em saúde auditiva foi escolhida por ser um método ativo/reflexivo. Ativo, porque dá oportunidade à expressão do pensamento e das experiências pessoais do grupo; reflexivo, porque para falar de uma realidade, resolver um problema ou defender uma ideia, o grupo precisa analisar, julgar, propor soluções e usar suas capacidades mentais para cuidar da própria saúde(6,7).

Assim, a pedagogia problematizadora tenta superar as limitações do método tradicional ou de transmissão vertical de conhecimento, através de palestras e orientações padronizadas, bem como superar as limitações do método condicionador que dita fórmulas/normas de comportamento(6,7,20-23), sendo os dois últimos, tradicionalmente muito usados na intervenção fonoaudiológica.

A equipe interdisciplinar, mediadora das oficinas, contribuiu de forma importante para o sucesso das ações. A contribuição na área da enfermagem com relação ao método problematizador e a contribuição sobre saúde auditiva na área da fonoaudiologia foram fundamentais para o êxito das oficinas educativas.

Além disso, a participação de alunos do curso de enfermagem no teatro despertou nos adolescentes o interesse pelo tema, influenciando-os na reflexão sobre hábitos mais saudáveis. Os fundamentos da teoria cognitiva social(24) reforçam que comportamentos são aprendidos e adaptados entre as relações interpessoais com os outros e com o ambiente, em um modelo recíproco, em que os sujeitos podem compreender e antecipar resultados de um comportamento prescrito. Nessa perspectiva, são recomendadas ações voltadas à promoção e prevenção protagonizadas por jovens saudáveis e com um estilo de vida adequado, capaz de influenciar outros jovens(25).

A fala dos adolescentes entrevistados sobre a percepção da dinâmica das oficinas demonstrou aprovação e apreciação das atividades propostas. Para autores(26-29), a educação em saúde no trabalho com adolescentes deve compreender o desenvolvimento de ações que democratizem o acesso às informações. Tal acesso é necessário à efetivação do alcance à saúde e demais direitos sociais são ações que devem contribuir para a formação de consciência crítica e incentivar o exercício do controle social, o desenvolvimento da solidariedade e da justiça, aspectos convergentes entre saúde e educação.

Embora esta ação educativa tenha sido realizada em duas oficinas, sendo portanto, um possível fator limitador do estudo, os resultados obtidos apontaram que houve transformação, pois os escolares assumiram um posicionamento que não tinham antes e reelaboraram seus conhecimentos usando formas diferentes de falar. Demonstraram atitudes de apoio e afeto uns com os outros, e afirmaram que adquiriram novos conhecimentos sobre os efeitos do ruído. Recomenda-se que esse modelo de intervenção seja reproduzido em outras escolas e revalidado em outros estudos.

Ressalta-se que o programa de promoção de saúde e prevenção da perda auditiva continuou durante todo o ano letivo na escola, com a análise situacional dos determinantes de saúde e análise do perfil audiológico dos escolares. Outra etapa desenvolvida na escola foi a do protagonismo juvenil em saúde(30), estimulando e formando os jovens agentes de saúde auditiva a dar continuidade às ações educativas na escola.

Nesse contexto, encorajamos os fonoaudiólogos e outros profissionais a desenvolver programas que objetivem a promoção e proteção da saúde nas escolas e a usar como estratégia a pedagogia problematizadora nas oficinas educativas. Sugerimos que a saúde auditiva e a qualidade de vida estejam no foco da promoção da saúde dos adolescentes.

O setor educacional, por sua capilaridade e abrangência, é um aliado importante para a concretização de ações de promoção da saúde voltadas ao fortalecimento das capacidades dos indivíduos, a tomada de decisões favoráveis à sua saúde e à saúde da comunidade. Permite a criação de ambientes saudáveis e a consolidação de uma política intersetorial voltada à qualidade de vida, pautada no respeito ao indivíduo e tendo como foco a construção de uma nova cultura da saúde.

Para uma atuação mais eficiente, existe a necessidade de se formar profissionais com a visão da promoção da saúde e da pedagogia problematizadora, para que possam contribuir de forma mais efetiva para a melhoria da qualidade de vida dos adolescentes e na sua formação como cidadãos.

 

CONCLUSÃO

Foram observadas mudanças na compreensão dos jovens, sobretudo quanto aos efeitos do ruído nas atividades culturais. As estratégias lúdicas e dialógicas propostas nas oficinas foram aceitas e apreciadas pelos adolescentes. As oficinas educativas propostas são apropriadas para educação em saúde auditiva de escolares.

 

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 Endereço para correspondência:
Adriana Bendes Moreira de Lacerda
R. Sydnei Antonio Rangel Santos, 238, Santo Inácio
Curitiba (PR), Brasil, CEP: 82010-330
E-mail: adriana.lacerda@utp.br

Recebido em: 6/11/2012
Aceito em: 23/7/2013

 

 

Trabalho realizado no Programa de Pós-Graduação em Distúrbios da Comunicação, Universidade Tuiuti do Paraná - UTP - Curitiba (PR), Brasil.
Conflito de interesses: Não
Contribuição dos autores: ABML pesquisador principal, elaboração da pesquisa, elaboração do cronograma, levantamento da literatura, coleta e análise dos dados, redação do artigo, submissão e trâmites do artigo; VMNS coautora, elaboração da pesquisa, elaboração do cronograma, levantamento da literatura, coleta e análise dos dados, redação do artigo; CGOG, FCL e RT coautores, coleta de dados, aprovação da versão final.

 

 

Anexo

 


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