SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.19 número1Avaliação das ações da Fonoaudiologia no NASF da cidade do RecifeInfluência da escuta contextualizada na percepção da intensidade do desvio vocal índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Audiology - Communication Research

versão On-line ISSN 2317-6431

Audiol., Commun. Res. vol.19 no.1 São Paulo jan./mar. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S2317-64312014000100011 

ARTIGOS ORIGINAIS

Caracterização das inovações do telejornalismo e a expressividade dos apresentadores

Eliane Caires da Silva 1  

Regina Zanella Penteado 1  

(1)Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP, Piracicaba (SP), Brasil.

RESUMO

Objetivo

: Caracterizar as inovações nos telejornais brasileiros e analisar os impactos na expressividade dos apresentadores, com ênfase nos recursos não verbais.

Métodos

: O corpus da pesquisa foi constituído por cinco telejornais nacionais brasileiros: Primeiro Jornal (Rede Bandeirantes), Bom Dia Brasil (Rede Globo), Jornal da EPTV (Rede Globo), GloboNews, Edição das 18h (Globo News), Leitura Dinâmica (Rede TV). Os telejornais foram gravados durante cinco semanas, entre os meses de outubro e novembro de 2011. Foi realizada decupagem e edição do material e as cenas selecionadas foram congeladas e transformadas em imagens (formato .jpg ). A análise foi feita pela pesquisadora e por uma fonoaudióloga com experiência e especialização em voz e buscou identificar aspectos das condições de trabalho (cenários, mobiliário, materiais, recursos e/ou equipamentos) e da expressividade dos apresentadores (postura, deslocamentos e comportamento não verbal: expressões corporais, faciais e gestos).

Resultados

: Foram observados, no contexto das condições de trabalho: cenários com ambientes integrados; ausência da bancada e mobiliário diversificado; novos recursos, tecnologias e equipamentos, como monitores, telas e telões interativos, cenários virtuais, controle remoto de teleprompter pelo apresentador , notebooks, tablets e serviço de acesso à internet. Observou-se uma nova dinâmica de apresentação do telejornal, envolvendo processos interativos diretos, mediados e/ou virtuais. Tais situações, não previstas no modelo tradicional de telejornal, nem na literatura fonoaudiológica em jornalismo, levam o apresentador a realizar diferentes formas de acomodação, posturas, posições, movimentos e deslocamentos, simultaneamente ao emprego dos recursos verbais, vocais e não verbais. Nessa nova dinâmica, o corpo inteiro do jornalista/apresentador mantém-se sob demanda expressiva.

Conclusão

: Os elementos inovadores no âmbito do telejornalismo interferem na expressividade e precisam ser considerados pela Fonoaudiologia.

Palavras-Chave: Fonoaudiologia; Jornalismo; Saúde do Trabalhador; Mídia Audiovisual; Televisão

INTRODUÇÃO

Os jornalistas são usuários de voz profissional e a assessoria fonoaudiológica se faz necessária a essa categoria, com foco na promoção da saúde e bem estar vocal e no desenvolvimento da expressividade vocal e corporal, considerada essencial na formação do jornalista ( 1 - 5 ) .

O conceito de coexpressividade é atualmente aplicado no telejornalismo, quando se trata de transmitir credibilidade, o que significa que vozes, falas, gestos e posturas corporais devem transmitir coerência de ideias e de sentidos, e estar em sincronismo temporal na transmissão da notícia ( 4 ) .

A expressividade engloba recursos verbais, vocais e não verbais, que precisam se apresentar de maneira harmônica, coerente e complementar ( 1 - 5 ) , além de serem empregados, também, como recursos de ênfases.

Os recursos verbais são as palavras, o texto. Os recursos vocais são a qualidade vocal e os tipos de voz, os parâmetros vocais ( pitch, loudness , ressonância, articulação, modulação, coordenação pneumofônica, velocidade de fala, respiração) e as pausas ( 1 - 5 ) . Os recursos não verbais englobam o corpo como canal de expressão: a postura corporal (posição neutra; movimentos e mudanças de postura do corpo todo e/ou partes específicas, como cabeça, tronco, braços e mãos); o uso de gestos (condizentes com os significados das palavras, da notícia e com as ênfases); as expressões faciais (olhos, sobrancelhas, boca); a aparência física e a indumentária ( 1 - 6 ) .

No que diz respeito aos recursos não verbais, a Fonoaudiologia brasileira conta, especialmente, com algumas obras para referenciar as ações na interface com o Jornalismo e orientar a prática fonoaudiológica com telejornalistas ( 1 , 3 - 6 ) .

Ocorre que tais obras foram elaboradas com base nos modelos tradicionais de cenário e de apresentação de telejornais, que pressupõem o(s) apresentador(es) em um cenário fixo e único, composto por uma bancada com capacidade para acomodar um ou dois apresentadores sentados, do início ao fim do programa, com o tronco e cabeça voltados à frente, com o olhar direcionado para a câmera e/ou aparelho de teleprompter, tendo como recursos a lauda impressa ou uma caneta, nas mãos. Os enquadramentos de câmera e planos, nesses modelos tradicionais de telejornal, mostram o corpo do apresentador apenas da metade do tórax à cabeça e/ou dos ombros à cabeça.

Sob esses moldes, o trabalho fonoaudiológico com a expressividade corporal fica focalizado na postura ereta de tronco e cabeça, no direcionamento do olhar do apresentador para a câmera e no emprego de gestos faciais e manuais ( 1 , 3 , 5 , 6 ) .

As transformações do ambiente de trabalho dos jornalistas não vêm sendo contempladas nos estudos fonoaudiológicos. Não são previstas, consideradas, nem mencionadas na literatura fonoaudiológica, as possibilidades de outros cenários, materiais, recursos, tecnologias e dinâmicas para o apresentador de telejornal. Além disso, as obras disponíveis contam com fotos que representam modelos ilustrativos, que não se encontram em situações reais de trabalho ( 1 , 3 , 5 , 6 ) .

Assim, apesar da riqueza e relevância inquestionável dessas obras para a Fonoaudiologia, elas não contemplam, na atualidade, todas as demandas e necessidades expressivas dos apresentadores, especialmente daqueles que atuam em telejornais que abandonaram o formato tradicional e que oferecem novas condições de trabalho para os jornalistas.

Nos últimos anos, com as inovações e o desenvolvimento tecnológico da televisão, o universo de trabalho dos jornalistas mudou. Houve introdução de novas tecnologias e o processamento da notícia em múltiplas plataformas ( 7 - 9 ) , levando o jornalista a necessidades de polivalência tecnológica, midiática e temática, de domínio de variados meios e linguagens e de habilidades comunicativas e expressivas para atuar em redes sociais e ambientes de digitalização de conteúdos ( 7 - 9 ) . Assim, o jornalista é desafiado a aprender novas tarefas e a desempenhar atividades e funções antes realizadas por outros profissionais, em um cenário de extinção de fronteiras entre as funções de editor, produtor, coordenador, chefe, supervisor, redator, repórter e apresentador ( 7 - 9 ) .

Se, nos primeiros telejornais, o apresentador realizava o papel de um locutor que apenas lia as notícias, agora ele pode apresentar notícias, fazer a abertura do programa, a escalada e a chamada das notícias a serem apresentadas, entrevistar pessoas, chamar repórteres em externas, comentar as notícias e expressar suas ideias ao vivo e a qualquer momento ( 4 ) . Atualmente, os repórteres e apresentadores de telejornais precisam de agilidade e abertura ao improviso com precisão, desenvoltura e credibilidade ( 4 ) .

Assim, há necessidades de novos estudos, pela Fonoaudiologia, que incorporem as mudanças dos telejornais, a fim de melhor subsidiar a prática de formação e assessoria fonoaudiológica aos telejornalistas, na atualidade.

As mudanças do trabalho do jornalista precisam ser identificadas, conhecidas, compreendidas e analisadas, sendo que, para a Fonoaudiologia, interessa, especialmente, a questão dos impactos das mudanças e fatores ambientais e de organização do trabalho na saúde, no bem estar vocal e geral dos profissionais, na expressividade e no uso da voz profissional ( 8 ) .

As possibilidades de se buscar integrar as inovações e mudanças aos estudos fonoaudiológicos se encontram nas pesquisas cuja metodologia envolva a observação das reais condições sob as quais o trabalho do jornalista se desenvolve ( 10 ) e não somente das situações simuladas.

Com o objetivo de identificar os novos recursos tecnológicos presentes em telejornais e a relação desses com a postura dos apresentadores, um estudo ( 11 ) analisou telejornais da atualidade e concluiu que os programas apresentam mudanças e inovações tecnológicas que impactam na acomodação, nas posturas, nos posicionamentos e nos movimentos dos apresentadores de telejornais.

Visando analisar os recursos não verbais utilizados por apresentadores de telejornal em duas épocas da carreira, outro estudo ( 12 ) examinou imagens do mesmo apresentador em programas veiculados em diferentes décadas e concluiu que houve mudança significativa na utilização dos recursos não verbais. Isso se deve ao fato de que, nos telejornais antigos, os apresentadores mantinham a mesma postura, sentados na bancada, e os gestos eram contidos, ou quase ausentes. Já nos telejornais atuais, demonstram maior liberdade e naturalidade no uso dos recursos não verbais.

Cabe comentar que há poucas obras acerca da atuação fonoaudiológica junto aos profissionais da mídia e comunicação social e que as revistas científicas não têm sido o canal de eleição para sua publicação. Além disso, quando se observa as publicações fonoaudiológicas em periódicos científicos nacionais e internacionais, percebe-se maior concentração da atenção em locutores/apresentadores da mídia rádio ( 13 - 22 ) . Quando o foco se volta aos profissionais da mídia televisão, a atenção recai, prioritariamente, nos repórteres ( 23 - 29 ) . É importante destacar que poucos são os estudos que se voltam aos apresentadores de telejornais ou de programas jornalísticos de televisão ( 11 , 12 , 28 , 29 ) .

Assim, o presente artigo se destaca na literatura fonoaudiológica por diversas razões, tais como: voltar-se para a mídia televisão (que conta com menor número de publicações); destinar-se, especificamente, aos apresentadores de telejornais (que recebem menor atenção nas pesquisas, em geral centradas nos repórteres); valer-se de programas jornalísticos veiculados publicamente (que dizem respeito a situações reais e não simuladas); propor-se à análise de programas jornalísticos da atualidade e priorizar aspectos dos contextos, ambientes e situações de trabalho desses profissionais da mídia que, até o momento, não foram contemplados nos estudos fonoaudiológicos.

As principais contribuições deste estudo para a Fonoaudiologia se fixaram em poder dar visibilidade às mudanças e em incorporar as novas tendências do telejornalismo ao saber fonoaudiológico, de forma a oferecer subsídios para o necessário redirecionamento do foco de atenção e de ação das práticas fonoaudiológicas voltadas para a formação e assessoria a jornalistas, especialmente aquelas centradas na expressividade.

Assim, o objetivo desta pesquisa foi caracterizar as inovações nos atuais telejornais brasileiros e analisar os impactos na expressividade dos apresentadores, com ênfase nos recursos não verbais.

MÉTODOS

Estudo de caráter qualitativo e descritivo

O corpus da pesquisa foi composto por cinco telejornais brasileiros, veiculados nos principais canais abertos e por assinatura, de diferentes emissoras, nos períodos matutino, vespertino e noturno.

A seleção dos telejornais foi norteada por critério pré-estabelecido intencionalmente, como ter que se diferenciar do modelo tradicional de telejornal (ainda existente), que pressupõe que o apresentador permanece assentado a uma bancada, do início ao fim do programa, com o tronco e cabeça voltados à frente, com o olhar direcionado para a câmera e/ou aparelho de teleprompter, tendo como recursos a lauda impressa ou uma caneta, nas mãos, sob enquadramentos de câmera e planos que mostram seu corpo apenas da metade do tórax à cabeça e/ou dos ombros à cabeça.

Cabe, ainda, ressaltar que, como o foco do estudo recai sobre o sujeito apresentador, foram também descartadas as cenas de reportagens externas dos telejornais, bem como os trechos de desenvolvimento da matéria noticiada.

Assim, integraram o corpus da pesquisa os seguintes telejornais: Primeiro Jornal (Rede Bandeirantes/manhã); Bom dia Brasil (Rede Globo/manhã); Jornal da EPTV (Rede Globo/tarde); GloboNews Edição 18h (Globo News/noite); Leitura Dinâmica 2ª Edição (RedeTV/noite).

Os telejornais foram gravados na íntegra e em tempo real, tendo sido realizadas cinco gravações de cada, uma em cada dia da semana, em sistema de rodízio na agenda semanal de gravação, durante cinco semanas, entre os meses de outubro e novembro de 2011. Esse cuidado visou minimizar os efeitos e vícios das tendências de programação e quadros fixos dos programas. Os programas foram gravados em fitas VHS, por meio de aparelho de videocassete, marca LG®, por ser o recurso de que se dispunha no momento. Posteriormente, as gravações em VHS foram transferidas para discos de DVD, valendo-se dos materiais do Laboratório de Comunicação do Curso de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da Universidade Metodista de Piracicaba.

Foi realizado, então, o trabalho de assistir aos programas e de seleção inicial das cenas e dos trechos de interesse para a análise.

Em seguida, foi realizada a edição do material, por meio do programa Adobe Première Pro-CS4 , com apoio do Laboratório de Comunicação do Curso de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP). No trabalho de edição, foi inserido o time code , que é um código de oito dígitos que permite a localização precisa de pontos de áudio e vídeo, durante a edição (por exemplo, 02:54:48:17 significa: 2 horas, 54 minutos, 48 segundos e 17 quadros ou frames . Os números que se referem a horas vão de 00 a 23; os minutos e segundos vão de 00 a 59 e os quadros de vídeo vão de 00 a 29 (30 quadros equivalem a 1 segundo). O recurso do time code possibilitou a marcação exata do início e término das cenas e imagens selecionadas como relevantes e pertinentes ao foco da pesquisa. As cenas selecionadas para análise foram congeladas e transformadas em imagens (formato .jpg ).

A análise das imagens, feita pela pesquisadora e por uma fonoaudióloga com experiência e especialização em voz, buscou identificar aspectos referentes às condições de trabalho e à relação dos apresentadores com tais condições, com foco na expressividade. Não foram empregados protocolos e a análise foi orientada pelos seguintes aspectos: a) quanto às condições de trabalho, se a imagem registrou o tipo de cenário, mobiliário, materiais, recursos e/ou equipamentos utilizados e os processos interativos; b) quanto à expressividade dos apresentadores, se registrou a postura e as suas mudanças (do corpo todo e/ou partes específicas como cabeça, tronco, braços e mãos), os movimentos (do corpo todo e/ou partes específicas como cabeça, tronco, pernas, braços e mãos), os deslocamentos (locomoção, mudanças de cenários no ambiente do estúdio), o direcionamento do olhar, a manipulação de objetos e o comportamento não verbal, em especial o emprego de recursos não verbais – expressões corporais, faciais e gestos.

Devido ao caráter qualitativo da pesquisa o estudo não exigiu o tratamento estatístico dos dados.

O projeto foi aprovado pelo Conselho da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP), com pareceres favoráveis também dos Conselhos dos Cursos de Jornalismo e Fonoaudiologia. Posteriormente, após tramitar pelos Comitês Científicos interno, da instituição e externo, composto por pareceristas do CNPq (Conselho Nacional de Pesquisa), o projeto foi aprovado, também, pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão da UNIMEP (Processo Consepe 110/11). Além disso, a pesquisa teve o acompanhamento da Comissão de Pesquisa do Consepe e CNPq e obteve apoio institucional e financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq/PIBIC). Por não envolver seres humanos e sim programas jornalísticos de veiculação pública em rede nacional, dispensou aprovação de Comitê de Ética em Pesquisa.

RESULTADOS

Condições de trabalho

Destacaram-se novos aspectos referentes aos cenários, mobiliários de apoio, recursos, equipamentos e/ou tecnologias, enquadramentos e processos interativos (Quadro 1).

Quadro 1 Ocorrência das características dos telejornais analisados 

Observou-se que, atualmente, os cenários envolvem vários ambientes integrados por onde os apresentadores circulam e podem, inclusive, contar com diferentes níveis entre esses ambientes, sendo que os acessos se dão por meio de degraus (Figuras 1, 2, 3 e 4).

Figura 1 Bom dia Brasil (Rede Globo) 

Figura 2 Primeiro Jornal (Rede Bandeirantes) 

Figura 3 GloboNews 18h (Globo News) 

Figura 4 Jornal da EPTV (afiliada à Rede Globo) 

Quanto ao mobiliário, notou-se que, muitas vezes, a bancada é abolida do cenário (Figuras 2 e 5) e que, em outras, ela permanece, porém, não mais como um elemento central do cenário do telejornal, mas como um dos espaços possíveis dentre os vários ambientes do cenário (Figuras 1, 3 e 4) e com variações como a bancada alta, que dispensa o uso de cadeira (Figura 4). Constatou-se, também, que outros móveis são incorporados ao cenário, como bancos, mesas (Figura 3) e poltronas (Figuras 3 e 4). Em vários programas, a postura dos apresentadores varia entre em pé e sentada (Figuras 1, 3 e 4) e, em alguns casos, o apresentador permanece em pé o programa todo (Figuras 2 e 5).

Figura 5 Leitura Dinâmica (Rede TV) 

Os enquadramentos de câmera, hoje em dia, se dão por meio de planos que variam entre o médio, mostrando o apresentador da cintura para cima (Figura 5) e o geral, mostrando toda a figura humana e incluindo os cenários (Figuras 1, 3 e 4).

Quanto aos recursos, materiais e equipamentos, observou-se a presença de papéis de lauda e caneta (Figura 1); monitores (Figura 4); telas e telões interativos (Figuras 1, 2, 3 e 5); notebooks (Figura 3); tablets (Figura 4); serviço de acesso à internet (Figura 3) ; cenários virtuais (Figura 5); telas e painéis virtuais (Figuras 2 e 5) e aparelho para o controle remoto do teleprompter e comando de entradas e de saídas das telas virtuais, pelo próprio apresentador (Figura 5).

Constatamos que os processos interativos ocorrem de maneiras direta e mediada. A direta se concretiza na relação face a face entre os apresentadores no estúdio (Figuras 3 e 4). Os processos interativos de maneira mediada acontecem de várias formas: entre os apresentadores e as imagens; entre os apresentadores e os repórteres e os demais sujeitos envolvidos com o fato noticiado, por meio dos telões (Figuras 1, 2, 3) e também entre apresentadores e o público, por meio de serviço de acesso à internet , com imagens e mensagens eletrônicas visualizadas nas telas de tablets, notebooks e/ou netbooks ou telões (Figuras 3 e 4).

Expressividade dos apresentadores

Evidenciaram-se aspectos atuais, relacionados a diferentes posturas, posições e movimentos, deslocamentos, direcionamento do olhar, manipulação de objetos e comportamento não verbal (Quadro 1).

Na presença dos recursos telão e telão virtual interativo, foi observado que a postura dos apresentadores é a de permanecer em pé, sendo que a posição da cabeça e o olhar não mais se limitam a ficar de frente e se voltar para a câmera. Ao invés disso, a posição da cabeça pode estar de frente e/ou de lado, em perfil (Figuras 1, 2, 3 e 4). Quanto ao olhar, alterna-se entre se voltar para a câmera (Figura 5), para os equipamentos eletrônicos, que exibem o conteúdo das reportagens e/ou mensagens on-line dos telespectadores (Figura 3), para os colegas apresentadores no estúdio (Figuras 3 e 4) e para as telas que exibem as imagens das reportagens, do fato noticiado, dos entrevistados e da equipe de jornalismo - repórteres, comentaristas (Figuras 1, 2, 3 e 4).

Os apresentadores realizam deslocamentos pelo estúdio, indo de um ambiente do cenário a outro (Figuras 1, 3, 4 e 5) e a maioria desses deslocamentos ocorre sem que haja interrupção da locução/apresentação. Cabe destacar que, conforme observado, os deslocamentos envolvem habilidades simultâneas de andar, subir e descer os degraus dos diferentes níveis do estúdio (por vezes usando sapatos de salto), levantar e sentar, transportar e controlar equipamentos e apresentar o programa, tudo ocorrendo ao mesmo tempo, em cena e ao vivo.

Quanto ao comportamento não verbal, observou-se presença de expressões corporais, faciais, meneios de cabeça e gestos ilustradores e reguladores, dando ênfase e complementaridade ao texto noticiado. Notou-se que as mãos dos apresentadores, em poucas situações se encontram livres (Figura 2). Na maioria das vezes, seguram objetos, como caneta, papéis de lauda (Figura 1) e equipamentos eletrônicos (Figuras 4 e 5) e, no caso desses últimos, manipulando-os e controlando-os. Observou-se que os gestos manuais ficam restritos à mão esquerda, sempre que o apresentador, sendo destro, emprega a mão direita para segurar, manusear e controle equipamentos (Figuras 4 e 5).

DISCUSSÃO

Atualmente, os apresentadores contam com novos cenários, mobiliários de apoio e de acomodação, recursos, equipamentos e tecnologias e vivenciam processos interativos não previstos no modelo tradicional de telejornal, nem na literatura fonoaudiológica que aborda o telejornalismo ( 1 , 3 , 5 , 6 , 12 ) .

Com a retirada da tradicional bancada fixa e a criação de cenários com vários ambientes integrados, os apresentadores são levados realizar posturas variadas, a permanecer em pé em grande parte do tempo, a alternar posturas entre em pé e sentado, além de realizar deslocamentos para mudança de ambiente. Para andar e se sentar nas poltronas o apresentador precisa estar preparado para realizar os movimentos com leveza, graça e harmonia, sem tirar o foco da atenção do público da notícia, que deve ser o centro das atenções no programa.

Com as mudanças dos enquadramentos e planos, o corpo inteiro do apresentador passa a ser visível, apresentando potencial expressivo. Agora, o apresentador precisa, também, se preocupar com movimentos e posturas das pernas e pés. Se, por um lado, isso representa um aspecto positivo para a qualidade da comunicação, por outro, intensificam-se as responsabilidades do fonoaudiólogo junto aos telejornalistas, com novos focos de ação, até então não contemplados nem previstos na literatura fonoaudiológica em telejornalismo ( 1 , 3 , 5 , 6 , 28 , 29 ) .

No que diz respeito à realização dos gestos manuais, observou-se que o comportamento não verbal dos apresentadores apresenta-se de maneira a contribuir para enfatizar e complementar o texto noticiado ( 1 , 4 , 5 , 12 ) . No entanto, são deflagradas novas necessidades e demandas de uso das mãos, que vêm se agregar às já previstas: as funções de segurar, manipular, controlar e transportar equipamentos em cena, que impactam na expressividade, restringindo, limitando e até comprometendo a gestualidade das mãos, sendo que, em algumas vezes, a necessidade de manipulação dos equipamentos se sobressai, em detrimento do uso dos gestos manuais. O fonoaudiólogo precisa levar em conta essa nova realidade e estar atento a essas demandas e necessidades, com abertura para incorporar o uso desses elementos e equipamentos nos contextos de formação, acompanhamento e assessoria a telejornalistas, para que a expressividade seja trabalhada de maneira integrada e adaptada à realidade dos profissionais.

Os processos interativos também sinalizam mudanças, considerando-se que, na situação de um telejornal tradicional, a relação do apresentador se restringia, basicamente, ao fato noticiado e ao texto (projetado no teleprompter , na câmera) ( 1 , 3 , 5 , 6 ) . No entanto, o que se observou neste estudo foi que os processos interativos instaurados na atualidade são diversos e podem ser diretos, mediados e/ou virtuais, com propensão à comunicação interativa e informal ( 12 ) . Esses novos processos interativos absorvem a atenção dos apresentadores, que passam a ter necessidades de maior dinâmica de movimentos e de posições, como voltar a cabeça e olhar em diferentes direções, contemplando e atendendo às demandas advindas das relações com os novos parceiros e sujeitos dos processos interativos instaurados (repórteres, entrevistados, comentaristas no estúdio ou imagens em telas e telões) e das ações realizadas junto aos recursos, equipamentos e elementos de cena (concretos e/ou virtuais).

A expressividade, agora, há de ser pensada à luz da interatividade, considerando-se a complexa dinâmica dos novos processos interativos, que integram contextos comunicativos mais ágeis, dinâmicos, naturais e espontâneos, muito mais propensos às ocorrências de imprevistos e ao improviso. Assim, a ação fonoaudiológica precisa favorecer as alternâncias de posturas e a diversidade de movimentos corporais no ato expressivo.

A implementação das novas tecnologias transformou o universo de trabalho do jornalista e modificou a dinâmica dos apresentadores, gerando um novo campo para pesquisas orientadas pela perspectiva da busca da compreensão das relações entre saúde, trabalho e qualidade de vida do jornalista ( 7 - 11 , 28 ) .

Assim, o trabalho da Fonoaudiologia com a expressividade de apresentadores de telejornais precisa ser ampliado. Entende-se que está instaurada uma necessidade de atuação da Fonoaudiologia com a expressividade do corpo inteiro do jornalista/apresentador, sob uma dinâmica que engloba, simultaneamente, a fala, os gestos, os meneios de cabeça, as alternâncias de posturas e de posições, de movimentos, de deslocamentos, bem como os modos de andar e/ou de se levantar/sentar e os atos de segurar, transportar e manusear equipamentos.

A Fonoaudiologia precisa avançar nas reflexões acerca da sua atuação na formação, no acompanhamento, no aprimoramento e na assessoria a apresentadores de programas jornalísticos.

Novos desafios são apresentados e outros estudos se fazem necessários, a fim de subsidiar os avanços necessários nas interfaces entre Fonoaudiologia e Jornalismo.

CONCLUSÃO

A atuação fonoaudiológica com telejornalistas, com foco na promoção da saúde e na expressividade, deve se voltar para o corpo inteiro do jornalista/apresentador e se articular às dinâmicas e características atuais das condições de trabalho e dos contextos e processos interativos e comunicativos desse profissional.

Novos desafios são postos e outros estudos se fazem necessários a fim de melhor subsidiar os avanços necessários nas interfaces entre Fonoaudiologia e Jornalismo.

Os elementos inovadores no âmbito do telejornalismo interferem na expressividade e precisam ser considerados pela Fonoaudiologia. Este estudo possibilita aos fonoaudiólogos um olhar diferenciado para a questão da expressividade dos apresentadores de telejornais e mostra a necessidade de mais pesquisas nesta área, articuladas às novas tendências do jornalismo.

AGRADECIMENTOS

Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ) que, por meio do programa PIBIC, financiou a pesquisa de Iniciação Científica “Mudanças no telejornalismo e as demandas de expressividade dos apresentadores” (Processo Consepe/UNIMEP 11011), da qual derivou este artigo.

REFERÊNCIAS

Kyrillos L, Cotes C, Feijó D. Voz e corpo na TV: a fonoaudiologia a serviço da comunicação. São Paulo: Globo; 2003. [ Links ]

Peter GS, Camargo ZA, Pinho SMR. Atuação fonoaudiológica no telejornalismo. In: Pinho SMR. Temas em voz profissional. Rio de Janeiro: Revinter; 2007. p. 33-56. [ Links ]

Kyrillos LCR. Voz na televisão e no rádio. In: Fernandes FDM, Mendes BCA, Navas, ALPGP, organizadores. Tratado de fonoaudiologia. 2. ed. São Paulo: Roca; 2010. p.754-65. [ Links ]

4.  Cotes C, Kyrillos LR. Expressividade no telejornalismo: novas perspectivas. In : Oliveira IB, Almeida AAF, Raize T, Behlau M, organizadores. Atuação fonoaudiológica em voz profissional. São Paulo: GEN/Roca; 2011. p. 75-97. [ Links ]

Cotes C. Articulando voz e gesto no telejornalismo. In: Ferreira LP, Silva MMA, organizadores. Saúde vocal: práticas fonoaudiológicas. São Paulo: Roca; 2002. p. 265-88. [ Links ]

Cotes C. Avaliando o corpo. In:Kyrillos LR, organizador. Fonoaudiologia e telejornalismo: relatos de experiências na Rede Globo de Televisão. Rio de Janeiro: Revinter; 2003. p. 89-110. [ Links ]

Heloani JR. O trabalho do jornalista: estresse e qualidade de vida. Interações. 2006;12(22):171-98. [ Links ]

Tourinho CAM. Telejornalismo: em busca de um novo paradigma. Rev Estud Jornal Mídia. 2010;6(1):19-29. [ Links ]

Figaro R. A abordagem ergológica e o mundo do trabalho dos comunicadores. Trab Educ Saúde. 2011;9 supl.1:285-97. [ Links ]

Penteado RZ, Trevisan MAF, Gonçalves RB. Laboratório de voz: um relato de experiência do processo de ensino na formação de jornalistas. Anais da 8ª Mostra Acadêmica da UNIMEP e 8º Simpósio de Ensino de Graduação; 2010 [acesso em: 2 dez 2011]; Piracicaba, Brasil. Disponível em: http://www.unimep.br/phpg/mostraacademica/anais/8mostra/4/154.pdfLinks ]

Silva EC, Penteado RZ. Novas tecnologias em telejornalismo e a postura dos apresentadores. Rev Soc Bras Fonoaudiol. 2012 [acesso em: 8 dez 2012];17 supl.:1880. [Resumo apresentado no 20° Congresso Brasileiro de Fonoaudiologia; 2012]. Disponível em: http://www.sbfa.org.br/portal/anais2012/trabalhos_select.php?id_artigo=1880&tt=SESSAO DE POSTERSLinks ]

Sóstenes G, Nascimento RR. Recursos não verbais utilizados por apresentadores de telejornal. Rev Soc Bras Fonoaudiol. 2012 [acesso em: 26 maio 2013];17 supl:2771. [Resumo apresentado no 20° Congresso Brasileiro de Fonoaudiologia;2012]. Disponível em: http://www.sbfa.org.br/portal/anais2012/trabalhos_select.php?tt=Busca&id_artigo=2771Links ]

Decoster W, Debruyne F. Longitudinal voice changes: facts and interpretation. J Voice. 2000;14(2):184-93. [ Links ]

Timmermans B, De Bodt MS, Wuyts FL, Van de Heyning PH. Training outcome in future professional voice users after 18 months of voice training. Folia Phoniatr Logop. 2004;56(2):120-9. [ Links ]

Timmermans B, De Bodt MS, Wuyts FL, Van de Heyning PH. Analysis and evaluation of a voice-training program in future professional voice users. J Voice. 2005;19(2):202-10. [ Links ]

Souza Cl, Thomé CR. Queixas vocais em locutores de rádio da cidade de Salvador - Bahia. Rev Baiana Saúde Pública. 2006;30(2):272-83. [ Links ]

Borrego MC, Gasparini G, Behlau M. The effects of a specific speech and language training program on students of a radio announcing course. J Voice. 2007;21(4):426-32. [ Links ]

Farghaly SM, Andrade CRF. Programa de treinamento vocal para locutores de rádio. Rev Soc Bras Fonoaudiol. 2008;13(4):316-24. [ Links ]

Ueda KH, Santos LZ, Oliveira IB. 25 anos de cuidados com a voz profissional: avaliando ações. Rev CEFAC. 2008;10(4):557-65. [ Links ]

Viola IC, Ghirardi ACAM, Ferreira LP. Expressividade no rádio: a prática fonoaudiológica em questão. Rev Soc Bras Fonoaudiol. 2011;16(1):64-72. [ Links ]

Borrego MCM, Behlau M. Recursos de ênfase utilizados por indivíduos com e sem treinamento de voz e fala. Rev Soc Bras Fonoaudiol. 2012;17(2):216-24. [ Links ]

Warhurst S, McCabe P, Madill C. What makes a good voice for radio: perceptions of radio employers and educators. J Voice. 2013;27(2):217-224. [ Links ]

Cotes CSG, Ferreira LP. Voz e gesto em telejornalismo. Rev Soc Bras Fonoaudiol. 2001;1(6):29-38. [ Links ]

Cassol M. Atuação fonoaudiológica na voz de repórter de TV. Fonoaudiologia Brasil. 2002;2(1):19-25. [ Links ]

Torres MLGM, Behlau M, Oliveira CA. Estudo da intenção comunicativa do repórter de TV na transmissão de textos noticiosos com dois conteúdos diferentes. Fono Atual. 2004;7(27):65-77. [ Links ]

Cotes C. O uso das pausas nos estilos de televisão. Rev CEFAC. 2007;9(2):228-37. [ Links ]

Pennini C, Padovani M, Vieira VP. Características comunicativas na expressividade do telejornalismo. Rev Soc Bras Fonoaudiol. 2011 [acesso em: 26 maio 2013];16 supl:1464. [Resumo aprovado no 19° Congresso Brasileiro e 8° Internacional de Fonoaudiologia; 2011]. Disponível em: http://www.sbfa.org.br/portal/anais2011/trabalhos_select.php?tt=Busca&id_artigo=1464Links ]

Caldeira CRP, Vieira VP, Behlau M. Análise das modificações vocais de repórteres na situação de ruído. Rev Soc Bras Fonoaudiol. 2012;17(3):321-6. [ Links ]

Chun RYS, Servilha EAM, Santos LMA, Sanches MH. Promoção da saúde: o conhecimento do aluno de jornalismo sobre sua voz. Distúrb Comun. 2007;19(1):73-80. [ Links ]

Trabalho realizado no Curso de Fonoaudiologia, Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP, Piracicaba (SP), Brasil, com bolsa concedida pelo PIBIC/CNPQ.

Recebido: 24 de Abril de 2013; Aceito: 13 de Janeiro de 2014

Endereço para correspondência : Regina Zanella Penteado. Av. 41, 209/62, Cidade Jardim, Rio Claro (SP), Brasil, CEP: 13501-190. E-mail: rzpenteado@unimep.br

Conflito de interesses: Não

Contribuição dos autores: ECS pesquisadora principal, levantamento da literatura, coleta e análise dos dados, redação do artigo; RZP orientadora e pesquisadora, elaboração da pesquisa, elaboração do cronograma, análise dos dados, correção da redação do artigo, submissão e trâmites do artigo, aprovação da versão final.

Creative Commons License This is an Open Access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution Non-Commercial License, which permits unrestricted non-commercial use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original work is properly cited.