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Audiology - Communication Research

versão On-line ISSN 2317-6431

Audiol., Commun. Res. vol.20 no.4 São Paulo out./dez. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/2317-6431-2015-1586 

Artigos Originais

Inquérito domiciliar de distúrbios fonoaudiológicos autodeclarados: desenho e protocolo de pesquisa

Bárbara Niegia Garcia de Goulart1 

Vanessa de Oliveira Martins-Reis2 

Brasília Maria Chiari3 

1Departamento de Comunicação Humana e Saúde, Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS – Porto Alegre (RS), Brazil.

2Departamento de Fonoaudiologia, Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG – Belo Horizonte (MG), Brazil.

3Departamento de Fonoaudiologia, Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP – São Paulo (SP), Brazil.

RESUMO

Objetivo:

Apresentar as ferramentas metodológicas e de investigação de um inquérito domiciliar de distúrbios fonoaudiológicos autodeclarados, implementado no sul do Brasil.

Métodos:

Para a condução do estudo foi realizada uma longa etapa de planejamento e de atividades piloto, que incluíram seleção e treinamento de equipe de campo, elaboração, teste e reteste de instrumento de aferição de distúrbios fonoaudiológicos autodeclarados. Técnicas de abordagem e preenchimento dos questionários também foram testadas e aplicadas, em razão da dimensão do estudo.

Resultados:

O tempo médio de entrevista variou de 15 a 35 minutos, dependendo da experiência dos entrevistadores e diminuiu para ambos os grupos, depois de algum tempo de trabalho de campo. A ocorrência de “não sabe ou não respondeu” variou de 0,2% (IC 95% 0,0;1,6) a 6,1% (IC 95% 2,8;11,3), foi menor para as questões relativas à história de rouquidão e zumbido respondida por substitutos e maior para a questão relacionada à percepção de alteração na emissão vocal associada ao envelhecimento.

Conclusão:

Inquérito domiciliar é um método viável e relevante para verificar a carga dos distúrbios fonoaudiológicos na população em geral, embora seja necessário contar com amplo conhecimento dos aspectos relacionados a essa metodologia de estudo, bem como de elementos importantes para a seleção e formação contínua dos entrevistadores, a fim de aumentar a participação da população investigada.

Descritores: Epidemiologia; Inquéritos epidemiológicos; Fonoaudiologia; Voz; Fala; Audição

INTRODUÇÃO

Inquéritos sobre distúrbios da comunicação e fatores associados, tais como fatores sociodemográficos, ou coocorrência com doenças cardiovasculares, neurológicas ou traumatismo cranioencefálico são relativamente raros(14), embora alguns estudos de escolares(57) e de outros segmentos específicos da população tenham sido publicados nas últimas décadas(8).

Por essas razões, a estimativa da população de ocorrência desses tipos de problemas e seu impacto sobre a vida dos indivíduos, suas famílias e, até mesmo, a estimativa sobre a demanda por serviços de saúde, especialmente em relação à reabilitação, ainda são desconhecidas(4).

Os inquéritos epidemiológicos cumprem papel fundamental no conhecimento da distribuição da morbidade referida, na aferição de medidas, na avaliação de acesso e no grau de satisfação com a assistência recebida, além de contribuir para o levantamento de dados para avaliação do acesso, da utilização e da capacidade de resolução dos serviços de saúde e da atualização periódica e comparações sequenciadas no tempo e entre áreas geográficas(911).

A autoavaliação ou autodeclaração baseia-se na percepção de saúde do indivíduo e caracteriza-se como uma medida subjetiva. Quando essa informação é fornecida por um informante substituto (proxy), vale considerar que a subjetividade também está sujeita à percepção do indivíduo sobre a saúde do outro.

Este artigo apresenta ferramentas metodológicas e de pesquisa de um inquérito domiciliar autodeclarado de alterações da fala, linguagem, deglutição e audição (chamados estudo DCH-POP), implementado no Brasil.

MÉTODOS

Este estudo foi analisado e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Feevale, sob o protocolo no 4.07.01.07.635. A metodologia utilizada para inquéritos populacionais foi detalhadamente estudada e adaptações dos métodos para a realização do censo no Brasil foram incorporadas(2,10,12).

O desenho do estudo incluiu dados de levantamentos regionais, dados metodológicos de pesquisas nacionais e internacionais, relacionados a distúrbios da comunicação humana(38) e estudos específicos relativos a algumas das questões presentes neste projeto(1,2,915).

O estudo contou com amostragem probabilística, estratificada por múltiplos estágios(10,13), inicialmente determinada a partir da análise da distribuição etária e de escolaridade, na cidade de Porto Alegre (sul do Brasil), com representatividade nos bairros da cidade, em conformidade com o Censo de 2000.

Para obter estimativas para subpopulações definidas por sexo e idade, foram considerados os seguintes grupos: população com menos de 1 ano de idade; população de 1 a 11 anos; homens de 12 a 19 anos; mulheres de 12 a 19 anos; homens de 20 a 59 anos; mulheres de 20 a 59 anos; homens de 60 anos ou mais; mulheres de 60 anos ou mais.

A amostragem de pessoas e domicílios baseou-se nas premissas descritas para o inquérito domiciliar da saúde do adulto(16).

Como a maior parte dos estudos descreve indivíduos com determinada característica, o tamanho da amostra foi determinado pela utilização da expressão algébrica: No= P.(1-P)/(d/z)².deff, em que P é a proporção de indivíduos a ser estimada; z é o valor na curva normal reduzida, correspondente ao nível de confiança utilizado na determinação do intervalo de confiança; d é o erro de amostragem admitido e deff é o efeito do delineamento. Considerou-se:

    –. coeficiente de confiança de 95% na determinação dos intervalos de confiança (z=1,96);

    –. erro de amostragem de 10%, indicando que a distância entre a estimativa da amostra e o parâmetro populacional não deveria exceder esse valor (d=0,10);

    –. que a proporção a ser estimada nos subgrupos populacionais seria de 20% (P=0,20).

A composição da amostra (aproximadamente 2500 sujeitos), de forma que se pudesse obter a estimativa da prevalência de distúrbios fonoaudiológicos segundo faixa etária, sexo e comorbidades, está apresentada na Tabela 1.

Tabela 1 População residente na área urbana, por sexo e idade 

Grupo Sexo/idade Distribuição por faixa etária
Cidade de Porto Alegre DCH-POP Amostra domiciliar n por estrato da amostra *
<1 42,5 1,70% 17
1 a 11 487,5 19,50% 195
M/ 12 a 19 202,5 8,10% 81
F/ 12 a 19 202,5 8,10% 81
M/ 20 a 59 657,5 26,30% 263
F/ 20 a 59 700 28,00% 280
M/ 60 e + 85,0 3,40% 34
F/ 60 e + 112,5 4,50% 45
Subtotal 2493
Ignorado 6,0 0,25% 4
Total 2499 100% 1200*

Legenda: M = masculino; F = feminino; DCH-POP = Inquérito populacional de distúrbios fonoaudiológicosA divisão por sexo no grupo de 12 a 19 anos foi feita considerando-se 50% por sexo, devido a não disponibilidade de tal informação na base de dados do IBGE.

*Adição de 20% para prevenção de perdas

Esse tamanho de amostra provavelmente produziu estimativas generalizáveis para populações não institucionalizadas, por sexo e faixa etária, para cada um dos cinco grupos de idade, em distúrbios que têm prevalência de 3% ou mais, com um coeficiente de variação da estimativa de 20%(4,13).

Em uma segunda etapa, um bairro de Porto Alegre que representa o conjunto de moradores do município em relação à distribuição etária e socioeconômica (avaliada a partir da escolaridade média) foi escolhido. Após a seleção do bairro para o desenvolvimento do estudo, os mapas dos setores censitários da região foram destacados e uma amostragem aleatória foi novamente conduzida.

Pessoas consideradas elegíveis deveriam morar em um domicílio do bairro selecionado. Em edificações residenciais com várias unidades, as pessoas foram listadas do andar mais baixo para o mais alto. Unidades não residenciais foram excluídas.

Todos os residentes nos domicílios selecionados eram elegíveis para o estudo, sendo fator de exclusão a recusa em participar, ou a ocorrência de três visitas ao domicílio em horários alternados, sem sucesso para contato com os moradores.

Foi escolhido um respondente por domicílio, selecionado conforme sua disponibilidade em informar os dados de todos os outros moradores (respondente esse, também denominado proxy ou substituto)(1,14,15).

Diante da indisponibilidade de um instrumento para cumprir com o objetivo do estudo, foi decidido criar uma ferramenta para auxiliar na identificação dos distúrbios da fala, independentemente da formação do entrevistador em fonoaudiologia. Portanto, os autores do estudo criaram uma versão inicial da ferramenta e discutiram as questões em relação ao público alvo e propósito do estudo. Mais tarde, as questões do instrumento foram apresentadas ao grupo de pesquisa para graduados em fonoaudiologia e aplicadas em um pequeno grupo piloto (que não iria participar do estudo).

Os distúrbios fonoaudiológicos na população foram definidos como qualquer alteração perceptível e por qualquer causa orgânica e/ou funcional, para a comunicação oral e/ou escrita, audição e/ou equilíbrio. Esses distúrbios foram levantados em estudo piloto anterior conduzido por este gupo de pesquisa para fins de identificação destes dados para o estudo DCH-POP. Foram utilizados dois questionários padronizados e pré-codificados: Questionário de Distúrbios da Comunicação Humana em Crianças (DCH-POP-C), para bebês e crianças até 24 meses de idade, e Questionário de Distúrbios da Comunicação Humana (DCH-POP), para crianças a partir dos 25 meses e adultos (Anexos 1 e 2).

Ambos os questionários contam com um bloco geral de questões de identificação do domicílio, localização, número de moradores, idade e sexo de todos os residentes, bem como o histórico de atendimento fonoaudiológico.

O questionário DCH-POP buscou:

  1. Dados de identificação e de nascimento, idade na data da entrevista, sexo e escolaridade;

  2. Histórico de doenças e/ou agravos potencialmente relacionados a DF;

  3. Linguagem oral (compreensão e emissão);

  4. Linguagem escrita e aprendizagem escolar;

  5. Dados gerais de voz e histórico de alterações vocais (disfonia). Somente para as mulheres foram verificadas questões sobre alterações perceptíveis da voz durante o ciclo menstrual. Para os adultos com 60 anos ou mais foram incluídas questões sobre mudanças perceptíveis de pitch e loudness, ao longo da vida;

  6. Fala, fluência e histórico familiar de gagueira;

  7. Motricidade orofacial, ausência parcial ou total de dentes, uso de prótese e/ou aparelho ortodôntico, dor, estalo ou dificuldades de mastigação e/ou deglutição e preferências por consistências específicas de alimentos;

  8. Audição, zumbido e equilíbrio.

O questionário DCH-POP-C procurou determinar:

  1. Histórico de doenças crônicas, infectocontagiosas e refluxo gastroesofágico;

  2. Histórico de gestação e parto;

  3. Desenvolvimento neuropsicomotor;

  4. Sucção, amamentação, mastigação, deglutição, uso de chupeta, mamadeira e intervenção fonoaudiológica;

  5. Aspectos otológicos, de audição e de equilíbrio.

As questões referentes aos distúrbios fonoaudiológicos e outras comorbidades tinham como possibilidade de resposta: “não”; “sim”; “às vezes” e “não sabe informar”, este último aplicável quando o respondente não tinha certeza ou conhecimento sobre o agravo perguntado.

Os entrevistadores, graduandos da área da saúde, foram apresentados à versão inicial dos protocolos de entrevista para identificação das questões pesquisadas e possibilidades de respostas, recebendo treinamento para a aplicação dos questionários, com reciclagem sistemática.

O treinamento consistiu em, pelo menos, seis horas de capacitação com o pesquisador principal, para conhecimento dos objetivos gerais e metodologia do estudo, bem como manuseio dos documentos e protocolos utilizados nas atividades de campo (visitas domiciliares e entrevistas). Todas as questões dos instrumentos de levantamento das informações foram identificadas e repassadas com cada um dos entrevistadores. Em linhas gerais, o treinamento dos entrevistadores enfatizou a importância de anotar com precisão o referido pelos entrevistados.

O treinamento contou com abordagens diversas, objetivando desenvolver habilidades para que se pudesse obter o máximo de colaboração possível para responder às questões, reduzindo, ao máximo, as taxas de recusa(1,12,14), que poderiam comprometer a validade dos achados do estudo.

Foram trabalhados, também, os diversos cenários possíveis sobre a abordagem inicial do responsável pelo domicílio selecionado, para obtenção do consentimento para participação(12,14). Acesso e apropriação de cada uma das perguntas constantes nos protocolos de entrevista, bem como possíveis dificuldades no acesso aos domicílios (em edifícios, casas isoladas e condomínios), também foram assuntos abordados. Todos esses aspectos buscavam ampliar o conhecimento dos entrevistadores sobre os fundamentos teóricos e metodológicos do inquérito populacional, bem como as expectativas de contribuição do estudo para o avanço do conhecimento na área(12,14).

A reciclagem sistemática dos entrevistadores consistiu em reuniões presenciais a cada três semanas, com a equipe de entrevistadores e gerente de campo, a fim de retomar a metodologia de todas as etapas do estudo, além de reuniões virtuais semanais, nas quais foram retomados tópicos específicos de cada uma das etapas da coleta de dados (ex: abordagem do porteiro e/ou síndico de edifícios, assinatura de termos de consentimento, anotações de todas as informações nos protocolos etc). Isso foi feito para assegurar a metodologia de todas as fases do estudo.

Os objetivos da pesquisa e o tipo de informação solicitada foram apresentados aos indivíduos selecionados aleatoriamente, sendo solicitado o consentimento de participação no estudo. A confidencialidade das informações levantadas foi assegurada com a análise e divulgação apenas de dados consolidados, sem possibilidade de identificação dos indivíduos pesquisados.

Os dados do estudo piloto foram codificados diretamente nos questionários e digitados em planilha Excel. A análise foi realizada utilizando o Statistical Package for the Social Sciences (SPSS). A população entrevistada foi dividida em faixas etárias, buscando contemplar as etapas do ciclo vital, com subpopulações definidas por sexo e idade.

Os trabalhos de pesquisa para início do estudo iniciaram-se em 2008, com a busca de elementos teóricos que subsidiassem o planejamento e a seleção amostral, a busca por instrumento validado que contemplasse os objetivos do estudo (verificar a ocorrência de distúrbios fonoaudiológicos autodeclarados), bem como os relatos de inquéritos populacionais e as formas de transpor os desafios inerentes à condução de estudos complexos, como os inquéritos populacionais.

Após pesquisa na literatura, foi realizada busca no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), National Institutes of Health (NIH), Canadian Institutes of Health Research (CIHR) e National Health Services (NHS).

Visto que não foram encontrados inquéritos populacionais de distúrbios fonoaudiológicos, foram pesquisados dados relativos à metodologia empregada em inquéritos populacionais de outros transtornos(10,16,17).

RESULTADOS

Após ajustes preliminares do instrumento para crianças até 24 meses e para adultos, uma equipe com quatro graduandos foi a campo para executar o estudo piloto (t1), após o treinamento inicial, totalizando 40 domicílios visitados. Após a análise das dificuldades e possíveis empecilhos à execução do estudo, foram implementadas modificações metodológicas (t2). Os dados são apresentados na Tabela 2.

Tabela 2 Dados do primeiro estágio do estudo piloto (t1) e após implementação de modificações na metodologia (t2) 

Parâmetros usados para avaliar estudo piloto 1ª fase do estudo piloto (t1) 2 ª fase do estudo piloto (t2) Variação
Número de entrevistadores graduandos (dupla) 2 2
Número de entrevistadores doutores 0 2
Taxa de resposta 5% 95%
Número médio de entrevistas por turno 5 25

O tempo médio de entrevista para a equipe de graduandos foi de 35 minutos e, dentre os pesquisadores mais experientes, foi de 15 minutos. Para ambos os grupos, após algum tempo de trabalho de campo, o tempo médio despendido para as entrevistas diminuiu.

O número de recusas para a equipe de graduandos foi superior ao dos pesquisadores mais experientes. O principal motivo de recusa esteve relacionado ao momento em que os sujeitos foram abordados (horário, atividades desenvolvidas) e às baixas condições de saúde não associadas aos distúrbios fonoaudiológicos.

Na primeira tentativa de entrevista, 18% dos domicílios estavam fechados e em caso de domicílio aberto, 65% dos moradores diretamente entrevistados tinham mais de 60 anos.

Após as modificações metodológicas (t2) o questionário foi aplicado em 40 novos sujeitos (aproximadamente 10 domicílios), a fim de se verificar os itens do instrumento.

A ocorrência de resposta do tipo “não sabe informar” variou entre 0,2% (IC95%0,0;1,6) e 6,1% (IC95%2,8;11,3), sendo menor para as questões referentes ao histórico de rouquidão e de zumbido (F5 e I7), com ocorrência somente quando da entrevista com proxy. A maior ocorrência foi para a questão relacionada à percepção de mudança na emissão vocal associada ao envelhecimento (F9). Esta última questão somente foi feita para sujeitos acima dos 60 anos e a maioria referiu que não identificava modificação, até serem perguntados sobre esta questão.

Poucas entrevistas foram efetivadas em feriados e períodos de férias, visto que muitos domicílios elegíveis estavam fechados, necessitando retorno em nova data, o que ocasionou a ampliação do período inicialmente previsto para a coleta de dados. A relação entre período do ano e ocorrência de domicílios fechados na primeira tentativa de entrevista foi quatro vezes maior em janeiro (verão no Brasil), quando comparada ao mesmo período (horário de visitas) no mês de abril.

A questão “número de cômodos no domicílio” apresentou grande variabilidade de interpretação, pois algumas áreas nem sempre são percebidas como cômodos. Desta forma, optou-se por excluir essa informação do estudo.

Parte da produção dos entrevistadores foi submetida à entrevista de controle, sendo que o grau de concordância entre as respostas foi acima de 95%.

DISCUSSÃO

A complexidade metodológica dos inquéritos domiciliares requer avaliação prévia do modelo mais adequado a ser aplicado em situações específicas, bem como planejamento e flexibilidade para se adaptar às demandas que surgem durante as várias fases de implementação. Assim, um planejamento cuidadoso é essencial para a coleta dados que não puderam ser obtidos de outra forma e que são complementares aos elementos normalmente coletados por diversos sistemas de informação(11).

A comparação dos dois momentos do estudo piloto (t1 e t2) demonstrou redução na taxa de recusa, possivelmente relacionada à presença de um profissional com maior experiência e abordagem que promoveu maior adesão do sujeito sorteado para participar do estudo. Dentre os aspectos relevantes destaca-se que mulheres entrevistadoras obtiveram maior taxa de resposta, ainda que a experiência neste tipo de atividade seja o aspecto mais relevante para maior adesão e participação nos estudos do tipo inquérito(12,14).

Outro desafio que demandou revisão da logística das entrevistas foi a proporção de domicílios fechados em uma primeira abordagem, na etapa inicial do estudo (18%), o que pode estar relacionado ao horário da visita (durante o dia)(14,17,18). Desta forma, a escala de entrevistas buscou contemplar os diversos turnos/horários do dia e dias da semana, variando os horários e dias de retorno aos endereços. Além disso, a partir da segunda visita em um mesmo domicílio sem êxito em encontrar algum morador, os entrevistadores deixaram um cartão de contato com um número de telefone, informando os participantes sobre a opção de responder à entrevista por telefone, ou concordar com uma nova data de retorno.

Durante o estudo piloto, 65% dos moradores diretamente entrevistados tinham mais de 60 anos (dado divergente da distribuição da população brasileira), indicando a necessidade de adaptação dos horários e turnos de entrevistas (visitas) para contemplar a distribuição da população, em relação à faixa etária(1), especialmente em relação à população economicamente ativa.

Um dos principais desafios para a implementação deste tipo de estudo é evitar a recusa da entrevista, para não haver perdas que comprometam a confiabilidade dos achados(7) e a representatividade da amostra, em relação à população para a qual pretende-se generalizar os achados.

Mais comum do que a mera negativa em participar do estudo, é a relutância em responder à pesquisa, quando da abordagem inicial pela equipe de entrevistadores. A maior parte dos sujeitos inicialmente abordados em seus lares refere estar ocupado e não disponível para atender o entrevistador, naquele momento. Este aspecto é referido na literatura como inerente a este tipo de estudo(14,1721). A forma de abordagem dos sujeitos parece relacionar-se ao aceite em participar da pesquisa. Neste estudo, a atuação direta em campo de pesquisador com experiência em pesquisa com seres humanos foi produtiva, visto que a média de entrevistas, em um turno de trabalho, subiu de cinco para 25.

Nas etapas seguintes do estudo, um dos pesquisadores doutores participou em, pelo menos, 50% das entrevistas realizadas. Com essas modificações, o número médio de visitas necessárias, por domicílio, baixou de 2,5 para 1,2 e as entrevistas foram concluídas, em sua maioria, com uma única visita.

Somando-se a inclusão de pesquisador mais experiente na equipe de entrevistadores, a abordagem passou a ser mais ágil e direta(12,14) em relação ao objetivo e objeto de estudo, bem como a potencial contribuição do participante para a saúde coletiva.

Ainda que, inicialmente, estivessem previstos um em cada dez domicílios de cada setor, a proporção de domicílios elegíveis passou para um em cada três, de forma que mais domicílios em cada conglomerado (setor censitário) foram elegíveis para o estudo, proporcionando maior agilidade na condução das entrevistas(1,10,21).

Os questionários foram respondidos por um dos moradores do domicílio sorteado, priorizando, inicialmente, o próprio sujeito, ou um respondente substituto (proxy), definido como a matriarca ou outro responsável pelo domicílio.

O uso de respondente único (proxy) para todos os moradores do domicílio, ainda que pudesse acarretar perda de dados ou menor precisão das informações(2224), não mostrou-se como fato limitador, visto que não esteve associado à perda de informações ou aumento significativo de não respostas, quando comparadas as respostas de proxy com o próprio sujeito. A ocorrência de resposta do tipo “não sabe informar” foi mais baixa para as questões referentes ao histórico de rouquidão e de zumbido (F5 e I7) e observada somente quando da entrevista com proxy. A maior ocorrência foi para a questão relacionada à percepção de mudança na emissão vocal associada ao envelhecimento (F9). Esses itens foram mantidos e a taxa de não resposta foi considerada, quando da análise dos dados, para fins de prevalência dos distúrbios fonoaudiológicos verificáveis(1720).

Apesar da possibilidade de viés em relação às respostas de proxy, a precisão das informações adquiridas poderia ser corrigida no momento da análise dos dados(15,25,26). Ainda assim, buscou-se em cada domicílio, contar com um respondente que tivesse mais dados dos demais moradores, especialmente a esposa e/ou mãe, responsável por dados mais precisos, conforme estudos anteriores sobre o tema(23,24), além do fato de que as variáveis pesquisadas eram categóricas, menos suscetíveis a distorções atribuíveis ao informante secundário(27). Na realização de entrevistas com crianças e adolescentes, as perguntas foram dirigidas tanto aos indivíduos sorteados, quanto aos responsáveis, para minimizar os efeitos de informante secundário(16,26).

Assim, este tipo de estudo requer planejamento complexo, gestão e monitoramento do trabalho, havendo necessidade de recursos físicos e humanos, estes com domínio de epidemiologia, bem como conhecimento abrangente sobre os distúrbios fonoaudiológicos.

Dificuldades na estimativa de resultado são suscetíveis de ocorrer em qualquer estudo. Os mecanismos de busca, implementação e avaliação que possam reduzir essas questões são relevantes para garantir a maior validade interna possível e a validade externa. O conhecimento e o desenvolvimento de ferramentas para analisar e corrigir possíveis limitações dos estudos podem contribuir para a maturação das atividades de investigação e, além disso, a partilha de informações fornece subsídios que podem contribuir para o conhecimento em ciências da comunicação humana.

A fragilidade preponderante, identificada quando da abordagem dos sujeitos elegíveis para o estudo, foi semelhante àquela referida em outros inquéritos populacionais(12,14,18), especialmente em relação à alta taxa de não resposta (por ausência ou impossibilidade de atender o entrevistador na primeira visita).

Para contornar a possibilidade de viés decorrente da proporção elevada de negativas em participar do estudo, a primeira abordagem dos entrevistadores consistiu, prioritariamente, em demonstrar flexibilidade, propondo novo agendamento para a realização da entrevista. Além disso, os entrevistadores foram incentivados a manter a atenção do entrevistado por tempo suficiente para finalizar o levantamento de dados em cada um dos domicílios selecionados.

Nas próximas etapas do estudo, o pagamento por produção (questionário completo preenchido, entrevista realizada) está sendo considerado, na tentativa de ampliar a produtividade e agilizar a etapa de coleta de dados.

É essencial, também, que nas próximas etapas sejam disponibilizados dados mais detalhados sobre a metodologia utilizada para estimar a distribuição dos distúrbios fonoaudiológicos na população, em relação a sexo, idade e escolaridade, além de coocorrência com outros problemas de saúde(28), considerando o peso e a estimativa da variância na análise(13,17,25).

O conhecimento dos distúrbios fonoaudiológicos autodeclarados, ainda que não estejam relacionados aos aspectos subjetivos de percepção do sujeito sobre sua saúde, poderá contribuir para a gestão de demandas de populações específicas, algo inédito no campo da fonoaudiologia, já que não existem, ainda, dados sobre a prevalência dos distúrbios fonoaudiológicos na população em geral.

CONCLUSÃO

A realização de um inquérito domiciliar é viável e relevante para verificar a carga dos distúrbios fonoaudiológicos na população em geral, embora exija uma importante gama de conhecimento das questões de desenvolvimento e de validação. Estas questões devem levar em conta o objeto do estudo, seleção e formação dos entrevistadores, técnicas de abordagem dos sujeitos a serem entrevistados, visando reduzir a chance de perdas, e logística para análise e classificação das informações coletadas.

Embora não se saiba se os estudos sobre distúrbios da comunicação autorreferidos subestimem a sua ocorrência na população, o valor desse tipo de investigação, a sua contribuição potencial, que atende à sensibilidade e especificidade para estimar a prevalência dessas condições, em relação a sua prevalência na população, em geral, e em grupos específicos por sexo e idade, em objetivos de médio e longo prazo, é a obtenção de indicadores para estimar, com maior precisão, a demanda por serviços e equipes de saúde fonoaudiológica com relação à ocorrência de distúrbios fonoaudiológicos e sua distribuição na população.

Pesquisa desenvolvida na Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS – Porto Alegre (RS), Brasil; Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG – Belo Horizonte (MG), Brasil e Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP – São Paulo (SP), Brasil.

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Anexo 1

Distúrbios fonoaudiológicos autodeclarados - Pesquisa populacional

Anexo 2

Distúrbios da comunicação autodeclarados - pesquisa populacional Questionário para bebês

Recebido: 09 de Junho de 2015; Aceito: 09 de Novembro de 2015

Endereço para correspondência: Bárbara Niegia Garcia de Goulart. R. Ramiro Barcelos, 2600, sala 211, CEP: 90035-003, Porto Alegre (RS), Brasil. E-mail: bngoulart@gmail.com

Conflito de interesses: Não

Contribuição de cada autor:

BNGG e VOMR participaram do desenho do estudo e elaboração dos protocolos, coordenação da coleta dos dados, elaboração do manuscrito e revisão da versão final; BMC acompanhou todos os passos do estudo e revisou a versão final do manuscrito.

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