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Audiology - Communication Research

versão On-line ISSN 2317-6431

Audiol., Commun. Res. vol.22  São Paulo  2017  Epub 27-Mar-2017

http://dx.doi.org/10.1590/2317-6431-2016-1690 

Artigo Original

Potencial Evocado Auditivo de Longa Latência – P3 em crianças com e sem queixas de dificuldade de aprendizagem

Juliana Souza1 

Vanessa Onzi Rocha1 

Amanda Zanatta Berticelli2 

Dayane Domeneghini Didoné2 

Pricila Sleifer3 

(1) Curso de Fonoaudiologia, Universidade Federal do Rio Grande Do Sul – UFRGS – Porto Alegre (RS), Brasil.

(2) Programa de Pós-graduação em Saúde da Criança e do Adolescente, Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS – Porto Alegre (RS), Brasil.

(3) Departamento de Saúde e Comunicação Humana, Universidade Federal do Rio Grande Do Sul – UFRGS – Porto Alegre (RS), Brasil.

RESUMO

Introdução

Crianças com queixas de dificuldades de aprendizagem podem apresentar alterações no funcionamento do sistema auditivo central. O Potencial Evocado Auditivo de Longa Latência - P3 é útil na avaliação funcional das estruturas auditivas centrais, podendo ser utilizado como método auxiliar na identificação precoce das dificuldades de aprendizagem.

Objetivo

Analisar e comparar latências e amplitudes obtidas no P3 de crianças com e sem queixa de dificuldades de aprendizagem, com limiares auditivos normais.

Métodos

A amostra foi composta por 30 crianças com queixa de dificuldades de aprendizagem (grupo estudo) e 14 crianças sem queixa (grupo controle), com idades entre 9 anos e 12 anos e 11 meses. Todas as crianças realizaram avaliação audiológica periférica e a pesquisa do P3.

Resultados

Verificou-se que a média da latência do P3 do grupo estudo mostrou-se significativamente mais elevada que no grupo controle. Quando comparados os valores de amplitude do P3, não houve diferença, embora a média do grupo estudo tenha se mostrado menor, quando comparada ao grupo controle. Observou-se que, entre idade e latência do P3, não foi detectada correlação significativa. Situação semelhante foi evidenciada na relação entre a idade e a amplitude, que, mesmo tendo sido negativa, não foi significante.

Conclusão

O grupo de crianças com queixas de dificuldades de aprendizagem apresentou valores de latência do P3 maiores que as crianças do grupo sem queixas. Não foi evidenciada correlação nos valores de amplitude das ondas do P3 entre os grupos.

Palavras-Chave: Audiologia; Potenciais evocados auditivos; Potencial evocado P300; Eletrofisiologia; Crianças; Aprendizagem

INTRODUÇÃO

O comportamento auditivo inclui todas as reações a sons, manifestadas primordialmente por reações motoras, dependendo tanto de estruturas centrais e periféricas, quanto da integridade biológica e psicológica da criança. O funcionamento adequado da via auditiva até o córtex é fundamental para que a informação acústica seja transmitida e processada em nível central1,2,3,4.

Frequentemente, crianças com queixas de dificuldades de aprendizagem são encaminhadas para avaliação da função auditiva, porém, a bateria de testes realizada na maioria dos serviços de audiologia é constituída de exames que avaliam apenas a porção periférica do sistema auditivo3,4. Estudos atuais têm relacionado as dificuldades de aprendizagem com as alterações de processamento auditivo3,4,5,6, demonstrando que essas alterações ocorrem em nível central, sendo necessária a avaliação dessas estruturas auditivas.

As habilidades de processamento auditivo podem ser avaliadas por meio de procedimentos eletrofisiológicos e testes comportamentais7,8,9. Os Potenciais Evocados Auditivos (PEA) são medidas eletrofisiológicas e refletem, de maneira objetiva, o funcionamento do sistema nervoso auditivo central10, facilitando a avaliação e o monitoramento de crianças.

O P3 é o potencial evocado auditivo endógeno mais conhecido. É classificado como endógeno, pois é gerado de forma ativa, durante a realização de uma tarefa cognitiva, diferente do complexo exógeno P1-N1-P2, que aparece de forma passiva e reflexa. O P3 consiste em uma onda positiva, gerada a partir da discriminação de um estímulo raro, entre outros estímulos frequentes. Este potencial é gerado em torno de 300 ms e reflete a atividade de áreas cerebrais relacionadas com a cognição, memória e atenção auditiva7,11,12.

A fim de verificar o funcionamento auditivo central em crianças com histórico de repetência escolar, pesquisadores3 avaliaram o P3 de crianças sem e com histórico de repetência escolar. Os autores concluíram que a latência do P3 foi maior para o grupo de crianças que haviam repetido o nível escolar.

Em outro estudo13, o P3 também demonstrou ser uma avaliação fidedigna na identificação de alterações do sistema auditivo central. Os autores avaliaram o P3 de dois grupos, o primeiro composto por crianças sem epilepsia, em que 32 apresentavam bom rendimento escolar e 32, mau rendimento escolar. O segundo foi constituído por crianças com epilepsia, em que 21 apresentavam bom rendimento escolar e 15, mau rendimento escolar. Ao final do estudo, os autores concluíram que não foi encontrada associação da epilepsia com o P3. No entanto, quando comparadas quanto ao desempenho escolar, as crianças com bom desempenho tiveram valores de latência do P3 menores, com relação àquelas com mau desempenho escolar, demonstrando melhor funcionamento das estruturas auditivas centrais.

Outros estudos4,6,14 fizeram comparações entre os achados obtidos na avaliação do P3 e o desempenho em testes comportamentais de processamento auditivo central, em crianças com algum tipo de dificuldade de aprendizagem. Alguns autores11,15evidenciaram a importância de se utilizar os valores de latência do P3 como ferramenta de monitoramento terapêutico, comparando o desempenho dos indivíduos antes e depois da intervenção fonoaudiológica.

Apesar de a avaliação das habilidades de processamento auditivo ser sugerida na literatura científica nos casos de dificuldades escolares, sabe-se que a inserção da bateria de testes comportamentais e eletrofisiológicos na prática clínica é gradual. Assim, acredita-se que a avaliação do P3 possa contribuir para melhor entendimento da funcionalidade das estruturas centrais de crianças com queixas de dificuldades escolares, reforçando a importância dessa avaliação.

Este estudo teve como objetivo analisar e comparar as respostas obtidas no P3 de crianças com e sem queixas de dificuldades de aprendizagem, com limiares auditivos normais.

MÉTODOS

Trata-se de um estudo contemporâneo, transversal e comparativo, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos (Resolução nº 466/12) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), sob o protocolo número 25491. Os pais ou responsáveis pelas crianças foram esclarecidos sobre os objetivos, riscos e benefícios da pesquisa e aqueles que concordaram na participação assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Foram incluídas neste estudo crianças de ambos os gêneros, com idades entre 9 anos e 12 anos e 11 meses, matriculadas em escola regular, com limiares auditivos inferiores ou iguais a 15 dBNA, em todas as frequências testadas na audiometria tonal liminar (ATL), curvas timpanométricas tipo A16, reflexos acústicos ipsilaterais e contralaterais presentes em ambas as orelhas. Foram excluídas as crianças que apresentavam desordens neurológicas e/ou transtorno do deficit de atenção e hiperatividade (TDAH), confirmados por neurologista.

A casuística foi composta de 44 crianças, divididas em dois grupos: grupo estudo, 30 crianças (68,2%) com queixa de dificuldades de aprendizagem e grupo controle, 14 crianças (31,8%) sem queixa de dificuldades de aprendizagem.

Antes dos procedimentos, todas as crianças foram submetidas à avaliação otorrinolaringológica.

A anamnese foi realizada abordando dados sobre o desenvolvimento neuropsicomotor, estado de saúde atual, doenças adquiridas, audição e desempenho escolar. Para análise, foram consideradas apenas as queixas de dificuldades de aprendizagem relatadas na aplicação de um questionário com os pais/responsáveis, desenvolvido para o presente estudo e que abordava questões referentes a reprovações, queixas dos professores em relação à aprendizagem do aluno, dificuldades de aprendizagem em comparação aos demais colegas, dificuldades sobre disciplinas curriculares específicas, entre outros dados.

Para a pesquisa do P3, as crianças foram posicionadas em uma cadeira confortável. Foi realizada a limpeza da pele com pasta abrasiva, álcool e gaze e colocados eletrodos de prata com pasta eletrolítica e fita adesiva, nas seguintes posições: próximo ao couro cabeludo, o eletrodo ativo (Fz); na fronte, o eletrodo terra (Fpz) e nas mastoides esquerda (M1) e direita (M2). Foram utilizados os fones de inserção eartone 3A e equipamento Masbe ATC Plus, da marca Contronic®. A avaliação só era iniciada quando a impedância dos eletrodos estivesse menor ou igual a 5 kΩ (quilohms) e a diferença de impedância entre os três eletrodos, menor que 2 kΩ.

Antes de iniciar a pesquisa do P3, foi realizada a varredura do eletroencefalograma (EEG), para captar a atividade elétrica cerebral espontânea, a fim de verificar artefatos que pudessem interferir no exame.

Para pesquisa do P3, os indivíduos foram orientados e condicionados com a tarefa de contar mentalmente, a informar o número de estímulos raros detectados na sequência total de estímulos. Antes da realização do P3, as crianças foram submetidas a um treinamento, que objetivou verificar a detecção e correta discriminação dos estímulos acústicos apresentados. Além disso, as crianças foram monitoradas durante o exame, para que mantivessem atenção aos estímulos raros, permitindo confiabilidade e fidedignidade dos resultados. Ao final do exame, foram questionadas sobre quantos estímulos raros haviam escutado e a resposta foi comparada ao número de estímulos raros registrados pelo equipamento.

Os estímulos foram apresentados na forma de paradigma oddball, sendo 2000 Hz o estímulo raro e 1000 Hz o estímulo frequente, com 80% de apresentação para os estímulos frequentes e 20% para os estímulos raros. A apresentação foi realizada de forma binaural, com platô dos estímulos de 20 ms, rise-fall de 5 ms, polaridade alternada, intervalo interestímulo de 1 ms, filtro de 0,5 a 20 Hz, janela de 750 ms e intensidade de 80 dBNa, bilateralmente.

Para a marcação da onda, considerou-se o maior pico de polaridade positiva após o complexo N1-P2-N2, visualizado na soma do traçado do estímulo raro ao traçado do estímulo frequente, conforme literatura consultada17. A marcação dos resultados foi realizada por dois juízes com experiência em eletrofisiologia e os resultados considerados válidos somente na concordância entre as marcações.

Os dados foram digitalizados em planilhas do programa Microsoft Excel®. A apresentação dos resultados ocorreu pela estatística descritiva - distribuição absoluta e relativa (n - %), bem como pelas medidas de tendência central (média e mediana) e de variabilidade (desvio padrão), sendo que o estudo da distribuição de dados da idade ocorreu pelo teste de Kolmogorov Smirnov. Para a análise bivariada entre variáveis contínuas, comparadas entre dois grupos independentes, foram aplicados os testes de t-Student e de Mann Whitney. Os dados foram analisados no programa Statistical Package for Social Science (SPSS) 18.0 para Windows. Para critérios de decisão estatística adotou-se o nível de significância de 5%.

RESULTADOS

A média de idade dos participantes foi de 10,57 ± 1,34 para o grupo controle e 10,30 ± 1,26 para o grupo estudo, sendo os grupos semelhantes (p>0,05). Em relação ao gênero, houve predomínio do gênero masculino em ambos os grupos, sendo de 53,3% (n=16) no grupo estudo, e 78,6% (n=11) no grupo controle (Tabela 1).

Tabela 1 Caracterização da amostra 

Variáveis Grupo Valor de p

Estudo (n=30) Controle (n=14)

n % n %
Gênero
Feminino 14 46,7 3 21,4 0,204*
Masculino 16 53,3 11 78,6
Idade
Média ± desvio padrão 10,30 ± 1,26 10,57 ± 1,34 0,519£
Mediana (Amplitude) 10,00 (9 - 12) 11,00 (9 - 12)

* = Teste Qui-quadrado de Pearson com correção de continuidade; £ = Teste t-Student para grupos independentes; p≤0,05

Quanto aos achados da avaliação do P3 entre os grupos, a onda P3 esteve ausente em 36,6% (n=11) das crianças do grupo estudo. Na análise da latência do P3, verificou-se que a média do grupo estudo (417,24 ms ± 80,91) foi significativamente mais elevada, em relação ao grupo controle (310,58 ms ± 53,71), ou seja, a diferença de 106,65 ms se mostrou relevante para esta amostra. Não houve diferença entre os grupos, na comparação dos valores de amplitude do P3 (Tabela 2).

Tabela 2 Resultados obtidos na avaliação do P3, para latência e amplitude 

Variáveis Grupo Valor de p

Estudo (n=19) Controle (n=14)


Média Desvio padrão Mediana Média Desvio padrão Mediana
Latência P3 417,24 80,91 399,45 310,59 53,71 331,33 <0,0001
Amplitude P3 11,16 5,66 9,70 13,52 4,58 12,74 0,210

Teste t-Student para amostras independentes (p≤0,05)

Não houve diferença entre os gêneros, quando comparadas as latências (p=0,097) e amplitudes (p=0,123) das ondas do P3 no grupo controle. Entretanto, no grupo estudo, houve diferença significativa na comparação do gênero com latência do P3 (p=0,046), com maiores valores de latência para o gênero masculino. Na comparação dos valores de amplitude, a diferença não foi significativa (p=0,061).

Quanto à relação de linearidade da idade com a latência e a amplitude do P3, não foi detectada correlação entre idade e latência (r=0,026; valor de p>0,05) (Figura 1) e entre idade e amplitude (r=-0,088; valor de p>0,05) (Figura 2).

Legenda: LatP300 = latência de P3

r=0,026; p>0,05

Figura 1 Correlação entre idade e latência obtida na avaliação do P3 

Legenda: AmpP300 = amplitude de P3

p=0,-088; p>0,05

Figura 2 Comparação entre idade e latência obtida na avaliação do P3 

DISCUSSÃO

As queixas de dificuldades de aprendizagem em crianças em idade escolar são frequentes na prática clínica fonoaudiológica. No presente estudo, constatou-se que a avaliação do P3 é útil e apresenta resultados importantes em crianças com queixas de dificuldades escolares, permitindo maior entendimento sobre a funcionalidade das estruturas auditivas centrais nessa população.

Na prática clínica, observa-se que os pacientes com dificuldade de aprendizagem são, em sua grande maioria, do gênero masculino. Tal constatação também foi verificada na presente pesquisa, com predomínio do gênero masculino em ambos os grupos. Esses resultados concordam com a literatura científica3,5,13, que relata predominância do gênero masculino, principalmente nas crianças com mau rendimento escolar. Pesquisadores18,19 descreveram diferenças no processamento do estímulo acústico em nível periférico e central entre os gêneros, sendo mais lento no gênero masculino, o que compromete o desenvolvimento de habilidades cognitivas de linguagem, refletindo em prejuízos na aprendizagem escolar. Tal fato justifica o maior número de crianças do gênero masculino, principalmente em relação ao grupo com queixas de dificuldades escolares.

Quanto aos valores de latência da onda P3 nas crianças com queixa de dificuldade escolar, obteve-se média 417,24 ms ± 80,91. Estes resultados concordam com a literatura consultada, em que foram encontrados estudos que relatam alteração da morfologia e aumento da latência da onda P3 em crianças com mau rendimento escolar. Um estudo3 realizado com 43 crianças de 8 a 13 anos, encontrou média de P3 de 413,23 ms ± 82,08. Em outra pesquisa20, os autores avaliaram 18 crianças, de 9 a 11 anos e obtiveram valores de 429 ms ± 108,70. Outros autores21 avaliaram 10 crianças de 9 a 11 anos de idade, encontrando média de latência 438 ms ± 124,90 para o componente P3.

Para o grupo controle, a média da latência do P3 foi de 310,59 ms ± 53,71, resultados que confirmam outros estudos em crianças com bom rendimento escolar, nos quais as médias da latência do P3 foram de 332,25 ms ± 34,57 ms3, 336 ms ± 53 ms13, 315 ms ± 35,7ms20, 320 ms ± 32,80 ms21, 316 ms ± 32,2 ms22, 305,71 ms ± 4,76 ms23.

Na comparação dos valores de latência da onda P3 entre os grupos, constatou-se que a média do grupo estudo (417,24 ms) foi significativamente mais elevada em relação ao grupo controle (310,58 ms). Este dado concorda com outros estudos3,5,13 com objetivos e metodologias semelhantes aos da presente pesquisa, demonstrando valores de latências maiores nas crianças com mau rendimento escolar, em comparação com as crianças com bom desempenho acadêmico. De acordo com a literatura5, há relação direta entre o tempo de processamento e a latência de alguns componentes dos potenciais corticais, de forma que, quanto maior o tempo de percepção das características do estímulo acústico pelo indivíduo, maior a latência das ondas, o que justifica as maiores latências do componente P3 no grupo de crianças com queixa de dificuldade de aprendizagem, nesta pesquisa. Outros estudos também evidenciam a associação de dificuldades escolares e valores elevados da latência do P33,5.

Em relação à amplitude do P3, não houve diferença significativa na comparação entre os grupos. A média obtida e o desvio padrão da amplitude para o grupo estudo foi de 11,15 uV e 5,65 uV, respectivamente, enquanto para o grupo controle, os valores foram de 13,51 uV e 4,57 uV. Este dado concorda com um estudo semelhante, realizado em um grupo de pacientes com alterações de linguagem14. Apesar de a amplitude representar a magnitude das respostas no córtex auditivo, tal variável não foi um parâmetro fidedigno na comparação entre os grupos da presente pesquisa, concordando com a literatura científica24, que relata valores discrepantes, mesmo em grupos controle, dificultando a análise dessa variável para identificação dos grupos com alterações centrais.

Além das diferenças entre os grupos serem destacadas pela latência do P3, constatou-se que a presença e ausência deste potencial também foi um parâmetro relevante na comparação dos grupos, já que o P3 não foi evidenciado em algumas crianças do grupo com queixas de dificuldades escolares, mesmo garantindo a correta detecção e discriminação dos estímulos acústicos. A ausência da onda P3 infere prejuízos nas habilidades de atenção e memória7,11,12 e ratifica outro estudo25, que evidenciou ausência do P3 em algumas crianças com alterações de linguagem.

Na comparação de gêneros do grupo controle, não houve diferença para latência de P3. Entretanto, o gênero masculino apresentou latências maiores, quando comparado ao gênero feminino, no grupo estudo. Em estudos semelhantes3,9, autores descreveram médias de latência do P3 maiores no gênero masculino. Os resultados do presente estudo podem ser justificados pelas diferenças da funcionalidade da via auditiva entre os gêneros18, em decorrência de aspectos morfológicos e fisiológicos da via auditiva, além de aspectos comportamentais26,27, que se mostraram acentuados no grupo com queixa de dificuldade de aprendizagem, evidenciando resultados piores no processamento da informação acústica em nível central, para o gênero masculino.

A literatura refere que falhas no mecanismo neural ou alterações neurofisiológicas, além de estarem possivelmente relacionadas às dificuldades de aprendizagem, podem acarretar mudanças na latência e na amplitude dos potenciais evocados auditivos, dentre eles o P3. O atraso na latência e a diminuição da amplitude do P3 sugerem alteração do processamento auditivo. Sendo assim, a avaliação eletrofisioológica torna-se útil no diagnóstico de alterações cognitivas e atencionais3,5,6. Autores sugerem que, durante o período escolar, a partir dos 6 anos de idade, há redução da latência, aumento nos valores de amplitude e melhora da morfologia do registro do P37,9,11,28, em decorrência da maturação das vias auditivas, que pode ser influenciada pelo desenvolvimento global da criança. No presente estudo, não foi evidenciada correlação entre as variáveis latência, amplitude e idade, para a faixa etária estudada. Tais resultados confirmam outras pesquisas na população infantil3,9 e se justificam pela pequena amplitude etária das crianças, sendo a idade mínima de 9 anos e máxima de 12 anos. Estes resultados enfatizam que as diferenças encontradas entre os grupos se devem às alterações centrais, que são evidenciadas pelas queixas de dificuldades escolares. Além disso, ressalta-se que o treinamento da tarefa realizado previamente à avaliação do P3, permitiu a correta detecção e discriminação dos estímulos acústicos entre os grupos, garantindo fidedignidade dos resultados para esta amostra.

Apesar de a variabilidade dos valores do P3 ser relatada na literatura científica, é possível identificar mecanismos neurais distintos em crianças com desempenho escolar defasado. No presente estudo, pôde-se constatar alteração das habilidades de processamento auditivo central, evidenciada no P3 em crianças com queixas de dificuldades escolares. A avaliação do P3 permite inferir sobre alterações das habilidades linguísticas, de memória, atenção e discriminação auditiva, refletindo defasagem do funcionamento das estruturas centrais em crianças com mau desempenho escolar, facilitando a identificação e intervenção precoce nas alterações de processamento auditivo central que influenciam o desempenho escolar.

CONCLUSÃO

O grupo de crianças com queixas de dificuldades de aprendizagem apresentou valores de latência do P3 maiores que as crianças do grupo controle. Não foi evidenciada correlação nos valores de amplitude das ondas do P3 entre os grupos.

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Recebido: 26 de Fevereiro de 2016; Aceito: 12 de Dezembro de 2016

Autor correspondente: Pricila Sleifer . E-mail: pricilasleifer@uol.com.br

Conflito de interesses: Não

Contribuição dos autores: JS coleta e análise dos dados e redação do artigo; VOR coleta e análise dos dados e redação do artigo; AZB coleta de dados e redação do artigo; DDD revisão do artigo; PS orientação e revisão do artigo.

Trabalho realizado no Serviço de Fonoaudiologia do Hospital São Lucas, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS – Porto Alegre (RS), Brasil.

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