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Audiology - Communication Research

versão On-line ISSN 2317-6431

Audiol., Commun. Res. vol.23  São Paulo  2018  Epub 03-Dez-2018

http://dx.doi.org/10.1590/2317-6431-2017-1955 

Artigo Original

Caracterização da percepção musical em usuários de implante coclear

Sílvia Regina Siqueira de Araújo1 

Sheila de Souza Vieira2 

Carolina de Campos Salvato1 

Alexandra Dezani Soares2 

Brasilia Maria Chiari2 

1 Curso de Fonoaudiologia, Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP - São Paulo (SP), Brasil.

2 Departamento de Fonoaudiologia, Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP - São Paulo (SP), Brasil.

RESUMO

Objetivo

Avaliar a percepção musical de adultos usuários de implante coclear, utilizando o Questionário de Música de Munique (Munich Music Questionnaire – MUMU).

Métodos

Pesquisa transversal, de abordagem quantitativa. Participaram do estudo 22 adultos pós-linguais, usuários de implante coclear há, pelo menos, um ano. O instrumento de coleta dos dados aplicado foi o Questionário de Munique, que abrange questões sobre a participação em atividades musicais e a respeito dos hábitos de ouvir música, em relação aos estilos musicais, aos diferentes instrumentos, ao ambiente de escuta e ao uso de dispositivos auxiliadores. Os dados foram computados em seus valores absolutos e relativos e foi utilizada estatística descritiva para caracterizar a amostra.

Resultados

Foi possível observar que houve melhora na frequência de música ouvida pós-implante coclear. Dos participantes, a maioria respondeu não ligar a música diretamente ao seu processador. A maioria dos pacientes mencionou que ouvia música por prazer e para relaxar e que conseguiam perceber, principalmente, o ritmo. O instrumento com maior frequência de detecção foi o piano, seguido da bateria. O gênero musical referido com grande satisfação foi música para dançar e religiosa. Dos 10 pacientes que tocavam instrumentos antes da perda auditiva, 4 voltaram a tocar após a implantação e 3, que não tocavam, começaram a tocar, após o implante coclear.

Conclusão

Foi possível observar que o uso do implante coclear propiciou melhora na percepção musical dos usuários, refletindo benefício na qualidade de vida. Por isso, a reabilitação deve incluir, dentro do treinamento auditivo, o desenvolvimento de habilidades musicais.

Palavras-chave:  Implante coclear; Música; Questionário; Qualidade de vida

INTRODUÇÃO

A descoberta da deficiência auditiva é um momento impactante, podendo gerar sentimentos negativos, como angústia, tristeza, medo e frustração. A retirada do som da vida do indivíduo faz com que ele se isole de atividades cotidianas, já que há limitações na comunicação(1-3). Pode-se dizer que a deficiência auditiva isola o homem dos outros homens, privando-o, em muitas situações, do convívio social, profissional, acadêmico e familiar.

Atualmente, há dispositivos auxiliares da audição, sendo o implante coclear (IC) um dos avanços tecnológicos das últimas décadas. Ele estimula diretamente o nervo auditivo, através de pequenos eletrodos que são colocados dentro da cóclea. Pode ser utilizado em diferentes faixas etárias, por portadores de perda neurossensorial severa e/ou profunda, que não se beneficiaram com aparelho de amplificação sonora individual (AASI). É um equipamento que beneficia o indivíduo com perda auditiva no desenvolvimento de linguagem, aprimoramento da percepção dos sons da fala e percepção da música.

A utilização de IC e/ou AASI traz benefícios físicos, psicológicos e sociais, que melhoram a qualidade de vida dos usuários+(4,5).

O implante coclear foi projetado, principalmente, para a melhora da percepção da fala(5,6). Contudo, os avanços tecnológicos e o desejo dos usuários de usufruírem música e aproveitarem mais as atividades de entretenimento e lazer têm motivado estudos que buscam aprimorar a percepção musical dos pacientes.

A música é complexa e ampla, incluindo grande variedade de elementos, como ritmo, melodia, timbre, pitch e harmonia(7-11). Está inserida no dia a dia, no entretenimento, diversão e relaxamento, podendo auxiliar no meio criativo e na expressão de sentimentos. Em estudos anteriores, foi possível observar que a frequência, em horas por semana, de escuta da música diminuiu pós-implante coclear, porém, a música continuou sendo de grande importância na vida do paciente(11,12). Uma das estratégias utilizada para melhora na identificação de canções é o uso de pista (letras e/ou ritmo)(13,14).

Existem alguns instrumentos objetivos de avaliação da percepção musical para usuários de IC, como o MACarena Software(8), PMMA - Adapted Primary Measures of Musical Audiation (11) e Mu.S.I.C. test(14). No entanto, há poucos instrumentos de avaliação adicional para conhecer os hábitos e satisfação do usuário, como o Munich Music Questionnaire, também chamado MUMU. Há poucos estudos relacionados aos hábitos e reconhecimento da necessidade da percepção musical em usuários de implante coclear, no Brasil. No período de 2000 a 2010, foi constatada apenas uma pesquisa, no país, sobre o assunto(15).

Assim, o presente estudo teve, como objetivo, avaliar a percepção musical de adultos usuários de implante coclear, utilizando o Questionário de Música de Munique.

MÉTODO

Trata-se de uma pesquisa quantitativa, transversal, em que foi aplicado o Questionário de Música de Munique. O estudo foi realizado no Centro do Deficiente Auditivo da Universidade Federal de São Paulo. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa - CEP UNIFESP, sob parecer n° 1.626.211. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Foram avaliados 22 indivíduos adultos, sendo 13 do gênero feminino e nove do gênero masculino, sob os seguintes critérios de inclusão: maiores de 18 anos, com deficiência auditiva no período pós-lingual, com pelo menos um ano de uso do implante coclear, em acompanhamento pela equipe de implante coclear do Centro do Deficiente Auditivo da instituição. Participaram da pesquisa os usuários que se enquadraram nos critérios acima e que retornaram para seguimento da reabilitação no centro de IC, no período de maio de 2016 a abril de 2017. Foram excluídos os indivíduos que apresentavam outras deficiências registradas no prontuário.

O Munich Music Questionnaire foi criado em 2002 e traduzido e adaptado para o Português Brasileiro no ano de 2015.

O Questionário de Música de Munique foi desenvolvido, especialmente, para a população adulta com deficiência auditiva adquirida no período pós-lingual e usuária de IC. Contém 25 questões para registrar os hábitos de ouvir música, em relação aos estilos musicais, aos diferentes instrumentos, ao ambiente de escuta, ao uso de equipamentos auxiliadores e à participação em atividades musicais, em diferentes períodos da vida do paciente. O questionário tem sido utilizado como medida adicional aos testes objetivos de percepção musical, como MACarena Software(8), PMMA(11) e Mu.S.I.C. test(14), sendo um instrumento importante para avaliar os aspectos da apreciação musical em adultos pós-linguais implantados.

As questões de números 1, 2, 3, 14, 15, 19, 20 e 21 abordam três períodos: antes da perda auditiva, após a perda auditiva, mas antes da utilização do IC, e após a cirurgia de IC. As questões 17 e 18 incluem os três períodos citados e, adicionalmente, a época em que o paciente era criança.

As perguntas foram respondidas com “sim” (S) ou “não” (N), ou seguindo uma escala de classificação de múltipla escolha. Em algumas questões, pode ser assinalado mais de um item.

Os participantes responderam individualmente ao questionário, durante uma sessão de acompanhamento do implante coclear. A avaliadora estava disponível para esclarecer eventuais dúvidas, mas não interferiu nas respostas dos participantes.

Os dados foram computados em seus valores absolutos e relativos e analisados por meio de tratamento estatístico apropriado. Para a análise das questões, foram construídas tabelas de distribuição de frequência e porcentagem, para cada categoria de resposta. Foi utilizada estatística descritiva para caracterizar a amostra.

RESULTADOS

Com base nos critérios estabelecidos, foram analisadas as respostas dos 22 adultos usuários de IC. Os participantes foram atendidos durante a rotina de acompanhamento no serviço de IC, no período de setembro de 2016 a março de 2017. A média de idade dos participantes foi de 44 anos, 21 anos a idade mínima e 71 anos a idade máxima, sendo 13 do gênero feminino e 9 do gênero masculino.

Em relação à etiologia da perda auditiva, 10 indivíduos tinham etiologia desconhecida, 6 devido à meningite, 3 por otosclerose, 2 por sarampo e 1 por doença de Meniére. O tempo médio da perda auditiva foi de, aproximadamente, 21 anos. Dos participantes, 3 usavam IC bilateral e 18, IC unilateral, sendo que, destes, 8 também usavam AASI na outra orelha. Em relação à marca dos implantes, 50% eram usuários do Med-El, 31,81%, do Cochlear e 18,19%, do Advanced Bionics. As informações individuais dos participantes (gênero, idade, etiologia da perda auditiva, idade ao implantar, tempo de perda auditiva, tempo de uso do implante coclear, uso do implante coclear, marca e modelo do IC) estão apresentadas na Tabela 1 .

Tabela 1 Características dos indivíduos incluídos na pesquisa  

Gênero Idade
(anos)
Etiologia Idade ao implantar Tempo de
PA (anos)
Tempo de
uso do IC
Uso do IC Marca Modelo Nº de eletrodos desligados
1. F 51 Otosclerose 48 anos e 10 meses 10 2 ano e 2 meses IC+AASI Cochlear Freedom 0
2. M 38 Meningite 33 anos e 6 meses 30 4 anos e 6 meses IC+IC Cochlear Freedom 0
3. F 50 Desconhecido 47 anos e 5 meses 6 2 anos e 7 meses IC+AASI Med-El Sonata -1
4. F 27 Desconhecido 25 anos e 10 meses 20 2 anos e 2 meses IC+ AASI AB HiRes 90k -1
5. M 38 Meningite 28 anos e 3 meses 11 9 anos e 9 meses IC Med-El Pulsar -2
6. F 64 Meningite 60 anos e 7 meses 4 3 anos e 5 meses IC Cochlear Freedom 0
7. F 39 Desconhecido 35 anos e 6 meses 31 3 anos e 6 meses IC+AASI AB HiRes 90k 0
8. M 32 Meningite 12 anos e 10 meses 21 19 anos e 2 meses IC+IC AB HiRes 90k 0
9. M 66 Desconhecido 57 anos e 8 meses 20 8 anos e 4 meses IC Med-El Pulsar -1
10. F 45 Otosclerose 42 anos e 11 meses 19 2 anos e 1 mês IC+AASI Cochlear Freedom -1
11. F 25 Desconhecido 22 anos e 1 mês 12 2 anos e 11 meses IC Med-El Sonata -3
12. M 65 Desconhecido 58 anos e 9 meses 36 6 anos e 3 meses IC Med-El Sonata 0
13. F 35 D. Meniére 32 anos e 2 meses 22 2 anos e 10 meses IC+AASI Cochlear Freedom 0
14. F 53 Meningite 46 anos e 10 meses 14 6 anos e 2 meses IC Cochlear Freedom 0
15. M 41 Desconhecido 34 anos e 10 meses 22 7 anos e 2 meses IC Med-El Sonata -2
16. F 53 Desconhecido 49 anos e 6 meses 35 4 anos e 6 meses IC Med-El Sonata 0
17. F 30 Desconhecido 26 anos e 10 meses 14 3 anos e 2 meses IC AB HiRes 90k 0
18. M 41 Sarampo 39 anos e 8 meses 24 1 anos e 4 meses IC+AASI Med-El Sonata 0
19. F 21 Desconhecido 19 anos e 4 meses 14 1 anos e 8 meses IC Med-El Sonata 0
20. M 56 Sarampo 47 anos e 11 meses 46 8 anos e 1 mês IC+AASI Cochlear Nucleus 24 -3
21. M 71 Otosclerose 64 anos e 6 meses 38 7 anos e 6 meses IC Med-El Sonata -1
22. F 32 Meningite 14 anos e 8 meses 18 17 anos e 4 meses IC+IC Med-El Rondo 0

Legenda: IC = Implante Coclear; AASI = Aparelho de Amplificação Sonora Individual; PA: Perda Auditiva; AB = Advanced Biônics; F = Feminino; M = Masculino

Na questão 1, “Com que frequência você ouve e/ou ouvia música?”, foi possível observar que, antes da perda auditiva, 40,9% dos participantes ouviam sempre e 27,2%, nunca. Após a perda auditiva, apenas 9,1% ouviam sempre e 50% referiram não ouvir nunca. Com o implante coclear, 31,8% passaram a ouvir sempre, obtendo melhora, em relação ao período que apresentavam perda auditiva ( Tabela 2 ).

Tabela 2 Com que frequência você ouve e/ou ouvia música? 

Sempre
(n) (%)
Frequentemente
(n) (%)
Ocasionalmente
(n) (%)
Raramente
(n) (%)
Nunca
(n) (%)
Total
(n)
Total
(%)
Antes da PA 9 40,90 5 22,73 1 4,55 1 4,55 6 27,27 22 100
Apresentava PA 2 9,10 4 18,18 4 18,18 1 4,54 1 1 50 22 100
Com IC 7 31,81 7 31,81 4 18,18 2 9,10 2 9,10 22 100

Legenda: IC = Implante Coclear; PA = Perda Auditiva; (n) = N = número de sujeitos

Na questão 8, “Quando você começou a ouvir música regularmente após receber o seu implante coclear?”, foi possível observar que 59,07% referiram começar a ouvir música regularmente, dentro do primeiro mês de uso do IC ( Figura 1 ).

Figura 1 Quando você começou a ouvir música regularmente, depois de colocado o seu implante coclear?  

Na questão 12, “Quais instrumentos você consegue detectar sem dificuldade?”, a maioria dos participantes relatou detectar, sem dificuldade, o piano (77,72%), a bateria (68,18%), o violino (59,1%), a guitarra (54,55%) e/ ou o acordeão 50% ( Figura 2 ).

Legenda: Inst. = Instrumento

Figura 2 Quais instrumentos você consegue detectar sem dificuldade? 

Na questão 18, “Quais instrumentos você já tocou ou toca neste momento?”, 8 pacientes referiram que tocavam instrumentos durante a infância e 10 pacientes, que tocavam antes da PA, sendo o teclado o instrumento mais tocado nesses períodos. Após o IC, dos 10 pacientes que tocavam instrumentos antes da PA, 4 voltaram a tocar e 3, que não tocavam, começaram a tocar ( Tabela 3 ).

Tabela 3 Quais instrumentos você já tocou ou toca neste momento? 

Infância
(n) (%)
Antes da PA
(n) (%)
Apresentava PA
(n) (%)
Com IC
(n) (%)
Flauta transversal 1 12,5 2 20 0 0 1 14,28
Piano 2 25 2 20 0 0 4 57,14
Teclado 3 37,5 4 40 1 25 2 28,57
Guitarra 1 12,5 2 20 1 25 0 0
Violino 0 0 0 0 0 0 1 14,28
Inst. Cordas 0 0 2 20 1 25 3 42,85
Inst. Sopro 2 25 2 20 0 0 1 14,28
Inst. Não nomeados 2 25 2 20 1 25 0 0

Legenda: Inst = Instrumento; PA = Perda Aauditiva; IC = Implante Coclear; (n) = Número de sujeitos

Na questão 22, “Você recebeu algum tipo de educação musical fora da escola (aulas de canto e/ou instrumento)?”, a maioria dos participantes (77,27%) mencionou não ter recebido e, dentre os 5 adultos que receberam educação musical, 60% tiveram mais de 3 anos de estudo nessa área ( Tabela 4 ).

Tabela 4 Você recebeu algum tipo de educação musical fora da escola (aula de canto e/ou instrumento)?  

(n) (%)
Não 17 77,27
Sim 5 22,73
Total 22 100

Legenda: (n) = Número de sujeitos

De acordo com as respostas das questões 24 e 25, a maioria dos usuários treinou ouvir música com implante coclear (68,2%), principalmente ouvindo música familiar, repetidamente (60%), e lendo a letra da música, enquanto ouvia (53,3%) ( Tabela 5 ).

Tabela 5 Como é que treinou ouvir música com o seu implante coclear?  

(n) (%)
Ouvi repetidamente música familiar 9 60
Ouvi repetidamente música desconhecida 7 46,6
Ouvi e li música 8 53,3
Tive lições de música 1 6,6
Li e toquei música 3 20
Toquei repetidamente música familiar sem ler a música 5 33,3
Treinei ler música na minha reabilitação 4 26,6

Legenda: (n) = Número de sujeitos

DISCUSSÃO

Identificou-se, no Brasil, apenas um instrumento que possibilita conhecer as atividades musicais de usuários de implante coclear, o Munich Music Questionnaire (12-15). Este instrumento foi criado em 2002 e traduzido e adaptado para o Português Brasileiro em 2015. Ele foi escolhido porque aborda, de forma objetiva, aspectos do indivíduo usuário de IC e sua relação com a música, nos diferentes momentos de vida.

Neste estudo, foi encontrada uma diminuição na frequência com que os implantados ouviam música, ao comparar o período pré e pós IC (11,12). Apesar da diminuição nessa frequência, a música desempenhou grande importância na vida da maioria dos participantes, antes e depois da perda auditiva.

Foi observado que 95,45% dos pacientes não ouviam a música com o auxílio do processador de fala. Este resultado torna-se questionável e limitante, pois a tecnologia do dispositivo pode ser um fator facilitador na apreciação da música.

A maioria dos usuários ouve música por prazer e para relaxar(9,12) e começa a ouvir música, regularmente, nos primeiros meses pós-ativação, demostrando ser este o momento mais importante para encorajar, iniciar, ou já ter começado o treinamento de habilidades musicais.

Os elementos da música, como ritmo, melodia, timbre e pitch ainda são aspectos desafiadores para a maioria dos usuários. No estudo, 81,82% dos implantados responderam que conseguiam ouvir o elemento ritmo durante a música (7,8,10,14). O instrumento que a maioria dos usuários gosta de ouvir é o piano e, em seguida, a guitarra(16).

Os gêneros musicais menos ouvidos, entre os usuários, foram ópera e clássica, podendo ter influência da cultura local(12). Já em outro estudo, foram encontrados gêneros religioso e techno (16).

Dos dez pacientes que tocavam instrumentos antes da perda auditiva, quatro voltaram a tocá-los, após a implantação(17,18). Além disso, três, que não tocavam, começaram a tocar após o IC.

Grande parte dos implantados não cantava antes da PA e, no período após a PA, entretanto, quando com o implante coclear, a frequência da maioria dos usuários aumentou de “nunca” para “ocasionalmente”. Este aumento tem, como hipótese, o feedback auditivo da própria voz.

Apenas 22,73% dos pacientes receberam educação musical antes da PA. De acordo com a literatura, indivíduos que tiveram experiência musical anterior obtêm melhor reconhecimento de elementos musicais(19).

A maioria dos implantados (68,2%) treinou ouvir música com o dispositivo, sendo as estratégias mais usadas ouvir, repetidamente, música familiar e ouvir lendo a letra da música. Na literatura, há comprovação de que a familiaridade com a música ajudou no reconhecimento de trechos e a melhora da experiência musical pós IC (20,21). Treinar reconhecimento auditivo de instrumentos musicais(22), ouvir especificamente algo da música para entender(23) e reconhecer músicas em conjunto fechado(24) são facilitadores para o melhor desempenho.

É importante considerar a variabilidade de resultados encontrada na população clínica e, ainda, que inúmeros fatores são capazes de impactar o desempenho auditivo com o IC e, consequentemente, a apreciação musical. Neste sentido, a análise combinada dos resultados do questionário e de outras informações clínicas dos profissionais que atendem essa população poderão contribuir para a melhor compreensão da inserção da música nas atividades de vida diária dos usuários de IC.

CONCLUSÃO

Foi possível conhecer o perfil dos usuários de IC atendidos na instituição e observar que o uso do IC propiciou melhora na sua percepção musical e qualidade de vida.

Retomando o pensamento de Aldous Huxley “Depois do silêncio, o que mais se aproxima de expressar o inexprimível é a música”.

Apreciar a música é algo inerente ao ser humano e sua falta pode implicar isolamento e insucesso na vida pessoal e profissional. Esta pesquisa permitiu concluir que são poucos os usuários de implante coclear que continuam com os hábitos musicais prévios. Entretanto, é possível começar ou recomeçar a se envolver com a música, ouvindo, escutando, cantando ou tocando algum instrumento. A reabilitação auditiva pré-implantação e pós-implantação coclear é necessária e deve incluir o desenvolvimento de habilidades musicais para a melhor apreciação musical, resgatando, assim, mais um aspecto do mundo sonoro.

AGRADECIMENTOS

Aos pacientes, pela colaboração em participar da pesquisa e compartilhar um pouco das experiências de suas vidas.

Trabalho realizado na Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP/EPM – São Paulo (SP), Brasil.

Financiamento: Derivado de pesquisa de Iniciação Científica do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (PIBIC-CNPq) sob processo número 122274/2016-4.

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Recebido: 11 de Dezembro de 2017; Aceito: 10 de Setembro de 2018

Conflito de interesses: Não.

Contribuição dos autores: SRSA pesquisadora principal, elaboração da pesquisa, elaboração do cronograma, levantamento da literatura, coleta de dados, análise dos dados, redação, submissão e trâmites do artigo; SSV elaboração da pesquisa e correção da redação do artigo; CCS pesquisadora auxiliadora e coleta de dados; ADS pesquisadora auxiliadora e coleta de dados; BMC orientadora, elaboração da pesquisa, elaboração do cronograma, análise dos dados, correção da redação do artigo, aprovação da versão final.

Autor correspondente: Sílvia Regina Siqueira de Araújo. E-mail: silvia.siqueira@yahoo.com.br

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