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Audiology - Communication Research

versão On-line ISSN 2317-6431

Audiol., Commun. Res. vol.23  São Paulo  2018  Epub 03-Dez-2018

http://dx.doi.org/10.1590/2317-6431-2017-1965 

Artigo Original

Ocorrência de alterações auditivas em lactentes expostos à transmissão vertical do HIV

Monalisa Alves Dantas Padilha1 

Elaine Colombo Sousa Maruta2 

Marisa Frasson de Azevedo3 

1 Programa de Residência Multiprofissional em Saúde da Criança e do Adolescente, Hospital São Paulo, Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP – São Paulo (SP), Brasil.

2 Programa de Pós-graduação em Distúrbios da Comunicação Humana, Departamento de Fonoaudiologia, Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP – São Paulo (SP), Brasil.

3 Departamento de Fonoaudiologia, Hospital São Paulo, Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP – São Paulo (SP), Brasil.

RESUMO

Objetivo

Verificar a ocorrência de alterações auditivas periféricas e centrais em lactentes expostos à transmissão vertical do HIV.

Métodos

Análise retrospectiva de 144 prontuários de lactentes que passaram por avaliação auditiva ao nascimento, entre janeiro de 2010 e dezembro de 2015, com pesquisa das emissões otoacústicas evocadas por estímulo transiente e do potencial evocado auditivo de tronco encefálico. Os lactentes foram distribuídos em dois grupos: grupo estudo (GE), composto por 72 lactentes com mães soropositivas para o HIV e grupo controle (GC), com 72 lactentes sem risco para perda auditiva. O GE teve, ainda, os resultados do monitoramento auditivo aos 6 meses de idade analisados.

Resultados

Os grupos não se diferenciaram em relação à idade e ao gênero. Os resultados das emissões otoacústicas foram normais em ambos os grupos, revelando função coclear normal. Houve tendência do grupo estudo de apresentar maior ocorrência de alterações centrais no potencial evocado auditivo de tronco encefálico. A maioria dos lactentes não compareceu ao monitoramento auditivo e, entre os presentes, houve identificação de alteração audiológica.

Conclusão

Não houve alteração de função coclear na população estudada. Houve tendência de mais alterações centrais no grupo estudo, com predomínio das alterações de tronco baixo. Houve pouca adesão ao monitoramento auditivo e baixa concordância entre a primeira e a última avaliação.

Palavras-chave:  Audiologia; Potenciais evocados auditivos; Emissões otoacústicas espontâneas; Transmissão vertical de doença infecciosa; HIV

INTRODUÇÃO

O vírus da imunodeficiência humana (HIV) é um retrovírus específico, responsável pela Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS), que compromete progressivamente o sistema imunológico, propiciando a ocorrência de diversas infecções oportunistas(1,2).

A transmissão do HIV se dá quando há contato direto de fluído contaminado pelo vírus. O aumento do número de mulheres em idade fértil infectadas pelo HIV tem determinado o nascimento de crianças expostas ao vírus, sendo a transmissão vertical (TV) a principal via de infecção pelo HIV, nesta população(3).

O vírus pode ser transmitido por TV em três momentos: no período gestacional, no período periparto, ou no período pós-parto, por meio do aleitamento materno. Cerca de 20% a 25% das infecções ocorrem durante o período intrauterino, por diversos mecanismos, como passagem transplacentária do vírus para a circulação fetal, ou por células mononucleares maternas infectadas pelo HIV. Estima-se que 60% a 75% das transmissões ocorram durante o trabalho de parto ou ao nascimento, sendo uma das razões as rupturas nas barreiras de proteção da pele da criança (4).

A associação entre infecção pelo HIV e deficiência auditiva vem sendo relatada na literatura e tem demonstrado que, durante a fase inicial da doença, o acometimento é menor. Com o passar dos anos, as desordens são mais frequentemente observadas nos pacientes. Os sintomas podem resultar da combinação dos efeitos da infecção do HIV com as infecções oportunistas e/ou dos possíveis efeitos ototóxicos de certos medicamentos, inclusive a terapia antirretroviral altamente ativa – HAART(5).

Essa terapia tem reduzido amplamente a morbidade e mortalidade relacionadas à infecção por HIV. Porém, entre os múltiplos efeitos, está a associação do seu uso e a deficiência auditiva neurossensorial(5).

Estudos com potencial evocado auditivo de tronco encefálico (PEATE) demonstraram anormalidades eletrofisiológicas nos primeiros estágios da doença, antes mesmo do aparecimento de sintomas clínicos, sugerindo comprometimento da sincronia na geração e transmissão dos impulsos neuroelétricos, ao longo da via auditiva em tronco encefálico. Indivíduos expostos ao tratamento antirretroviral também apresentaram mais alterações no PEATE, quando comparados aos indivíduos não expostos ao tratamento(6).

Diante da possibilidade das alterações auditivas ao nascimento e, principalmente, possível alteração tardia, organizações de proteção à saúde auditiva(7) indicam a realização de acompanhamento auditivo, pelo menos nos dois anos iniciais de vida da criança, mesmo quando a triagem auditiva neonatal tenha se apresentado normal.

A hipótese deste estudo é que lactentes expostos à transmissão vertical do HIV apresentem maior ocorrência de deficiência auditiva neurossensorial e alterações centrais, quando comparados a lactentes sem indicadores de riscos.

Desta forma o estudo teve por objetivo verificar a ocorrência de alterações auditivas periféricas e centrais em lactentes expostos à transmissão vertical do HIV.

MÉTODO

Este estudo foi realizado no Núcleo de Investigação Fonoaudiológica em Audiologia Pediátrica do Departamento de Fonoaudiologia da Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP.

Estudo do tipo retrospectivo, longitudinal, com comparação entre grupos, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa - CEP UNIFESP/HU/HSP, sob número 1137/2016.

A amostra foi composta por 144 lactentes de ambos os sexos, nascidos a termo ou pré-termo, no período de janeiro de 2010 até dezembro de 2015, em um hospital público da cidade de São Paulo, distribuídos em dois grupos:

  • GRUPO ESTUDO (GE): constituído por 72 lactentes, cujas mães possuíam diagnóstico pré-natal de HIV positivo, sem outras comorbidades. Estes lactentes passaram por terapia antirretroviral com Zidovudina (AZT) , acrescentada, ou não, de Nevirapina(8), a critério médico;

  • GRUPO CONTROLE (GC): constituído por 72 lactentes sem riscos para deficiência auditiva, segundo o Joint Committee on Infant Hearing (9), pareados aos GE por idade gestacional e sexo.

Pacientes com malformações e/ou síndromes genéticas foram excluídos da amostra.

Inicialmente, os pacientes passaram pela triagem auditiva neonatal, composta por emissões otoacústicas evocadas por estímulo transiente (EOAT) e realizaram potencial evocado auditivo de tronco encefálico (PEATE) com estímulo clique.

Lactentes com falha na triagem auditiva neonatal foram submetidos à avaliação complementar diagnóstica, composta por medidas de imitância acústica, PEATE por frequência específica e pesquisa da via óssea, quando necessário.

Todos os pacientes foram encaminhados para monitoramento auditivo aos 6 meses de idade. Os testes incluídos nesta etapa foram: EOAT, medidas de imitância acústica, observação das habilidades auditivas e audiometria com reforço visual.

As EOAT foram realizadas utilizando-se o equipamento AccuscreenPRO, da marca GNOtometrics®. Foi utilizado, como estímulo, o clique não linear, com velocidade de 60 Hz, intensidade de 70-84 dBpeNPS (45-60 dBNA), autocalibrada, dependendo do volume do meato auditivo externo de cada paciente, faixa de frequências entre 1,4 KHz e 4 KHz e velocidade de amostragem de 16 KHz. Os recém-nascidos foram submetidos ao exame no período de 24 a 48 horas após o nascimento, durante sono natural. Considerou-se, como critério de passa/falha, a análise do próprio equipamento, com artefato menor que 20% e estabilidade da sonda superior a 80%.

O PEATE foi realizado nos recém-nascidos entre 24 e 48 horas de vida, durante sono natural. O estímulo clique (PEATE-clique) foi registrado por meio do equipamento modelo Smart-EP, da marca Intelligent Hearing Systems®, utilizando-se fones de inserção ER 3A.

Após limpeza da pele com a substância abrasiva NuPrepTM, os eletrodos descartáveis de superfície (Meditrace, da marca Kendal®) foram posicionados na fronte (Fpz) e nas mastoides direita e esquerda (M2 e M1), obedecendo à norma IES 10-20 (International Electrode System). A impedância dos eletrodos foi mantida abaixo de 3 Kohms.

Para o registro do PEATE-clique, foram utilizados cliques de polaridade rarefeita a 80 dBnNA, com duração de 100µs, na taxa de repetição de 27,7/s, apresentados por fone de inserção. A janela de análise utilizada foi de 12 ms e os filtros de 100 e 3000 Hz. Foram apresentados, no mínimo, 2048 estímulos, com replicação. Em ambos os grupos, foram analisadas as latências absolutas e amplitudes das ondas I, III e V, bem como os valores dos intervalos interpicos I-III, III-V, I-V. As latências absolutas e os intervalos interpicos foram classificados como normais ou alterados, levando em consideração os padrões estipulados (10) e a idade corrigida do lactente, no momento do exame.

Considerou-se, como alteração central, o atraso nas latências absolutas das ondas III e/ou V, aumento dos intervalos interpicos I-III, III-V e I-V, ou diferença interaural maior que 0.3 ms na latência absoluta da onda V e/ou no intervalo Interepico I-V(10).

A alteração em tronco encefálico baixo foi caracterizada por latência absoluta da onda I e interpico III-V normal, com atraso das latências das ondas III e V e aumento dos intervalos interpicos I-III e I-V. A alteração em tronco encefálico alto foi caracterizada por latências absolutas das ondas I e III e intervalos interpicos normais, com atraso da latência da onda V e aumento dos intervalos interpicos III-V e I-V. O paciente poderia apresentar, ainda, ambas as alterações, com comprometimento tanto de tronco encefálico baixo, quanto de tronco encefálico alto(2).

O PEATE por frequência específica - pesquisa de via aérea e óssea - foi também registrado por meio do equipamento modelo Smart-EP, da marca Intelligent Hearing Systems®, utilizando-se fones de inserção ER 3A, seguindo a preparação mencionada na realização do PEATE-clique.

Para o registro do PEATE por frequência específica, foi utilizado o estímulo tone burst, uma onda sinusoidal, de duração breve, que prediz com maior segurança o grau e configuração audiométrica. A pesquisa foi realizada por via aérea (VA) e por via óssea (VO), nas frequências de 500 a 4000 Hz.

Para a pesquisa do limiar por via aérea, foram apresentados, no mínimo, 2000 estímulos. O nível de apresentação inicial foi de 80 dBnNA, reduzido gradativamente, de 20 em 20 dB, até a onda V não ser mais visualizada. Após, aumentou-se a intensidade de 10 em 10 dB, até a obtenção da menor intensidade na qual a onda V apareceu em menor amplitude, sendo este considerado o limiar eletrofisiológico(11).

No registro do PEATE por via óssea, um vibrador ósseo foi colocado nas mastoides e uma onda alternada foi apresentada a uma intensidade inicial de 50 dBNA, decrescendo de 10 em 10 dB. Como limiar eletrofisiológico, considerou-se a menor intensidade em que a onda V foi identificada e replicada pelo examinador.

As medidas de imitância acústica foram obtidas por meio do imitanciômetro da marca Interacoustics, modelo AZ7. Na aquisição da curva timpanométrica, considerou-se curva tipo A quando houve pico único de admitância entre –150 e + 100 daPa; curva tipo B quando não ocorreu o pico de admitância; curva tipo C quando o pico de admitância esteve deslocado para pressões negativas; curva tipo Ar quando o pico de máxima complacência esteve com amplitude reduzida e a curva tipo Ad ocorreu quando o pico de máxima complacência esteve com a amplitude aumentada(12).

Para observação das habilidades auditivas, foi apresentado um estímulo sonoro de 50 a 70 dBNPS, durante dois segundos, produzido por som não calibrado (guizo), a 20 cm de distância do pavilhão auricular, com intervalo de 30 segundos entre os estímulos, nos planos laterais, abaixo e acima da orelha, conforme recomendado na literatura(13). Foram consideradas como respostas adequadas para a faixa etária de 6 a 9 meses a localização lateral para esquerda e para direita e localização indireta para baixo e para cima(13). Foi pesquisada a presença do reflexo cocleopalpebral a 100 dB com agogô e, também, se houve presença de sinais comportamentais sugestivos de alteração central, conforme descrito na literatura(13).

A audiometria com reforço visual (ARV) foi realizada com o audiômetro pediátrico PA-2 da Interacoustics, que produz tons puros modulados (warble ), nas frequências de 500, 1000, 2000 e 4000 Hz, a 80, 60, 40 e 20 dBNA. Os tons puros modulados foram apresentados a 20 cm do pavilhão auricular do lactente, à direita e à esquerda, nas frequências de 1000, 2000, 4000 e 500 Hz, nesta ordem. O estímulo luminoso como reforço foi acionado quando houve a resposta de localização sonora de virar a cabeça em direção ao som. Considerou-se como nível mínimo de resposta a menor intensidade em que a localização ocorreu para cada frequência sonora. Foi classificado como adequado o nível mínimo de resposta entre 40 e 60 dBNA(2,13). Os resultados da ARV foram vistos em conjunto com os das habilidades auditivas, para compor o perfil audiológico das crianças em monitoramento, de acordo com o protocolo interno da instituição.

Os resultados foram analisados por profissional qualificado, por meio dos seguintes testes: igualdade de duas proporções, ANOVA, valor de p, e índice de concordância KAPPA. Foi estabelecido o nível de significância de 0,05 (5%).

RESULTADOS

A amostra foi composta por 144 lactentes, distribuídos em dois grupos: o grupo controle foi formado por 72 lactentes, 35 do sexo feminino e 37 do sexo masculino. O grupo estudo constituiu-se de 72 lactentes, sendo 33 do sexo feminino e 39 do sexo masculino. Não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos, em relação ao gênero (p= 0,738). A idade gestacional variou de 35 a 40 semanas, com média de 37,8 semanas no grupo controle e 37,9 semanas no grupo estudo, sem diferenças entre os grupos (p=0,450). A idade pós-conceptual variou de 35 a 41 semanas, com valores médios de 38 em ambos os grupos, sem diferença estatística entre eles (p=1,00).

Todos os lactentes foram submetidos à triagem auditiva neonatal, ao nascimento. Dos 144 lactentes da amostra, apenas uma criança do grupo estudo falhou na triagem com EOAT, contudo, passou no reteste. Portanto, 100% da amostra apresentaram emissões otoacústicas presentes, com função coclear normal.

Os resultados da pesquisa dos PEATE encontrados em ambos os grupos estão descritos na Tabela 1 .

Tabela 1 Resultados dos potenciais evocados auditivos de tronco encefálico nos grupos  

PEATE Controle Estudo P-valor
N % N %
Normal 66 91,7% 58 80,6% 0,054
Central 6 8,3% 14 19,4%

Legenda: PEATE = potencial evocado auditivo de tronco encefálico; N = número de sujeitos

Não houve diferença entre os grupos.

Os valores médios das latências absolutas das ondas I, III e V e interpicos I-III, III-V e I-V são apresentados na Tabela 2 (orelha esquerda) e Tabela 3 (orelha direita).

Tabela 2 Valores médios das latências absolutas e interpicos dos potenciais evocados auditivos de tronco encefálico dos grupos estudo e controle, na orelha esquerda  

PEATE - Orelha Esquerda Média Mediana Desvio Padrão CV Min Max N IC P-valor
Onda I Controle 1,839 1,785 0,187 10% 1,630 2,730 72 0,043 0,370
Estudo 1,872 1,800 0,246 13% 1,570 3,200 72 0,057
Onda III Controle 4,644 4,630 0,220 5% 4,170 5,200 72 0,051 0,130
Estudo 4,714 4,675 0,325 7% 4,030 6,220 72 0,075
Onda V Controle 6,983 6,950 0,296 4% 6,300 7,670 72 0,068 0,416
Estudo 7,033 7,040 0,416 6% 6,100 8,070 72 0,096
I - III Controle 2,805 2,810 0,239 9% 2,020 3,280 72 0,055 0,426
Estudo 2,838 2,820 0,257 9% 2,150 3,430 72 0,059
III - V Controle 2,340 2,330 0,250 11% 1,920 3,000 72 0,058 0,723
Estudo 2,325 2,330 0,279 12% 1,630 3,170 72 0,064
I - V Controle 5,146 5,140 0,307 6% 4,450 5,820 72 0,071 0,821
Estudo 5,133 5,100 0,393 8% 4,300 6,130 72 0,091

Legenda: PEATE = potencial evocado auditivo de tronco encefálico; CV = coeficiente de variação; IC = intervalo de confiança; Min = mínimo valor encontrado na amostra; Max = máximo valor encontrado na amostra; N = número de ondas

Tabela 3 Valores médios das latências absolutas e interpicos dos potenciais evocados auditivos de tronco encefálico dos grupos estudo e controle, na orelha direita  

PEATE - Orelha Direita Média Mediana Desvio Padrão CV Min Max N IC P-valor
Onda I Controle 1,85 1,82 0,20 11% 1,60 2,90 72 0,05 0,817
Estudo 1,86 1,80 0,23 12% 1,55 3,35 71 0,05
Onda III Controle 4,61 4,59 0,22 5% 4,10 5,17 72 0,05 0,111
Estudo 4,69 4,67 0,35 8% 3,80 6,17 72 0,08
Onda V Controle 6,95 6,91 0,31 4% 6,13 7,60 72 0,07 0,281
Estudo 7,02 7,00 0,41 6% 5,92 8,20 72 0,10
I - III Controle 2,76 2,75 0,26 9% 1,80 3,32 72 0,06 0,215
Estudo 2,82 2,80 0,24 9% 2,17 3,43 71 0,06
III - V Controle 2,34 2,35 0,26 11% 1,85 2,97 72 0,06 0,836
Estudo 2,33 2,33 0,29 12% 1,85 3,30 72 0,07
I - V Controle 5,07 5,12 0,42 8% 2,95 5,67 72 0,10 0,232
Estudo 5,15 5,13 0,36 7% 4,27 6,05 71 0,08

Legenda: PEATE = potencial evocado auditivo de tronco encefálico; CV = coeficiente de variação; IC = intervalo de confiança; Min = mínimo valor encontrado na amostra; Max = máximo valor encontrado na amostra; N = número de ondas

A análise estatística, nas duas orelhas, demonstrou similaridade entre os grupos controle e estudo, não havendo diferença significativa.

O tipo de alteração auditiva mais frequente nos grupos foi a central, com predominância da alteração auditiva em tronco encefálico baixo. Dos pacientes com alteração auditiva central, 16 obtiveram alteração auditiva em tronco baixo, 3 em tronco alto e apenas 1 apresentou alteração auditiva difusa. O espectro da neuropatia auditiva não foi encontrado em nenhuma criança dos grupos.

Todos os lactentes expostos à transmissão vertical do HIV foram encaminhados para acompanhamento audiológico, com primeira reavaliação aos 6 meses de idade. Houve, porém, pouca adesão ao monitoramento: apenas 22% (n=16) dos pacientes retornaram para reavaliação auditiva; 77,8% (n=56) não compareceram e esse foi um dado estatisticamente significativo (p < 0,001).

Os resultados da avaliação audiológica comportamental das crianças, realizada aos 6 meses de idade, classificados como normais, atraso de desenvolvimento auditivo ou alterações centrais estão descritos na Tabela 4 .

Tabela 4 Distribuição do resultado da segunda avaliação no grupo estudo  

Resultado 2ª avaliação N % Valor de p
Normal 14 87,5% Ref.
Atraso 1 6,3% <0,001 *
Central 1 6,3% <0,001*

*Valores estatisticamente significantes (p≤0,05) – Teste ANOVA

Legenda: N = número de sujeitos; Ref = referência

Em relação aos diagnósticos, 87,5% dos lactentes que compareceram ao monitoramento auditivo tiveram resultado normal, 6,3%, atraso do desenvolvimento auditivo e 6,3%, comprometimento central.

Um dos lactentes teve diagnóstico de alteração auditiva central na segunda avaliação e, na primeira, seu exame estava normal. Quatro apresentavam alteração central ao nascimento e resultado normal no monitoramento. Ao se comparar a concordância entre os diagnósticos da avaliação auditiva ao nascimento e aos 6 meses de idade, verificou-se que o índice KAPPA foi de 0,294, expressando concordância de baixa significância, como apresentado na Tabela 5 .

Tabela 5 Associação entre os diagnósticos do potencial evocado auditivo de tronco encefálico ao nascimento e a avaliação comportamental aos 6 meses  

Avaliação 6 meses Kappa Valor de p
PEATE Normal Alterado Total
Normal 12 1 13 0,294 0,226
Alterado 2 1 3
Total 14 2 16

Legenda: PEATE = potencial evocado auditivo de tronco encefálico

DISCUSSÃO

A amostra não diferiu em relação ao gênero e idade gestacional e pós-conceptual. Este fato era esperado, visto que houve pareamento na seleção da amostra. Entretanto, foi importante para garantir a similaridade entre os grupos.

Não foram encontradas alterações nos exames de emissões otoacústicas evocadas por estímulo transiente na população estudada, revelando que todos os lactentes apresentavam função coclear normal, ao nascimento. Estes dados concordam com estudo realizado com 247 recém-nascidos, sendo o grupo estudo composto por 80 sujeitos filhos de mães soropositivas para o HIV, em que também não foram verificadas associação entre exposição ao vírus HIV, durante a gestação, e ausência de emissões otoacústicas(14).

Ausência de alterações cocleares nas primeiras avaliações auditivas não exclui um acometimento da audição, principalmente quando, de fato, acontece a transmissão do HIV e/ou quando a criança passa pelo tratamento com o antirretroviral. Estudos com crianças e adultos soropositivos para o HIV, em uso de medicação antirretroviral, evidenciaram que 33% dessa população apresentavam alguma alteração audiológica. Não há consenso na literatura se a alteração auditiva foi ocasionada por medicação ou por doenças oportunistas, em razão da baixa de imunidade. Além disso, estudos têm demonstrado maior ocorrência de alterações auditivas em pacientes em estágio avançado da doença(6,15,16).

Em relação aos resultados do PEATE, não houve diferença na ocorrência de alterações, ao se comparar os grupos, mas ocorreu uma tendência do grupo estudo de apresentar mais alterações centrais. Este resultado também foi encontrado na literatura. Em um trabalho que avaliou 69 crianças com PEATE, sendo o grupo estudo composto por 36 verticalmente infectados com o vírus HIV, também não houve diferença entre os grupos(17). Todavia, houve diferenças em relação ao tipo de alterações identificadas. No referido estudo, as alterações eletrofisiológicas só ocorreram no GE, e foram condutivas, enquanto que, no presente estudo, só foram encontradas alterações auditivas centrais, em ambos os grupos.

No grupo estudo, ao se analisar as latências do PEATE, houve aumento na latência das ondas I, III e V, nas duas orelhas, mas sem diferença significativa entre os grupos. Pesquisa realizada com adultos portadores do vírus HIV, utilizando o estímulo clique, revelou que as ondas I, III e V apareceram tardiamente, em relação ao grupo controle hígido(18). Outro trabalho descreveu os efeitos da presença de HIV positivo nos potenciais auditivos cerebrais, alertando para a possibilidade de maior ocorrência do aumento da latência das ondas(19).

No presente estudo, não se observou diferença entre as latências dos grupos. Este achado poderia ser atribuído ao fato de diagnóstico já estabelecido em adultos, enquanto que, nas crianças, o anticorpo positivo da mãe só passa a ser não perceptível entre 9 e 18 meses de nascido, quando o diagnóstico final é comprovado. De fato, estudo brasileiro, identificou maior ocorrência de alterações auditivas centrais (88%) em crianças no final do primeiro ano de vida, comprovadamente infectadas pelo HIV(20). Desta forma, considerou-se como limitação do presente estudo o monitoramento inferior a 12 meses, possibilitando, ainda, a chance do exame negativar em alguns neonatos da amostra (ter ocorrido a sororeversão).

Os resultados apontaram, também, a maior ocorrência de alterações auditivas centrais em tronco baixo. Resultado semelhante foi encontrado na literatura. Em um estudo com indivíduos adultos, em uso de HAART, foi observado aumento dos interpicos I-III e I-V, também caracterizando alteração de tronco baixo (6).

O baixo índice de retorno para acompanhamento auditivo (22%) na população estudada é um fator preocupante, visto que as chances de alteração audiológica tardia são comprovadas na literatura. A baixa adesão também foi obtida na mesma instituição em que o atual estudo foi realizado, no acompanhamento de neonatos com toxoplasmose(21). Portanto, tal fato poderia estar relacionado ao perfil da população atendida pelo serviço onde esses estudos foram realizados, que, em sua maioria, tem baixo nível sociocultural. De fato, estudo demonstrou que o grau de instrução de portadores do vírus HIV é menor que o da população geral, e o das mulheres, ainda menor que o dos homens, sendo este um dos prováveis motivos para o não comparecimento no monitoramento(22). Outro fator associado pode ser a normalidade na triagem auditiva ao nascimento, que pode ter influenciado no grau de preocupação e adesão da família.

Instituições de proteção para saúde auditiva, como o Joint Committee on Infant Hearing(9), não incluem o HIV como risco para alteração auditiva e, por esta razão, não recomendam o monitoramento auditivo dessa população. Entretanto, no presente estudo, uma criança diagnosticada como normal ao nascimento apresentou alteração central no acompanhamento auditivo, com atraso de linguagem. Este dado revela a possibilidade de alterações auditivas centrais nos pacientes expostos à transmissão vertical do HIV, assim como naqueles que, efetivamente, são infectados.

A avaliação comportamental é recomendada para monitoramento de neonatos e permite identificar sinais de alteração central que propiciam alterações de processamento auditivo e de linguagem, que necessitam de intervenção fonoaudiológica. A literatura descreveu, como sinais centrais, as respostas exacerbadas a sons de fraca intensidade, a ausência de reflexo cocleopalpebral e/ou de reflexos acústicos com presença de EOAT e a inconsistência de respostas para tons puros na audiometria com reforço visual(13).

Como a avaliação comportamental é feita na rotina do serviço de monitoramento audiológico da instituição do presente estudo, houve interesse em verificar se havia concordância entre os diagnósticos realizados por meio da avaliação comportamental e eletrofisiológica. Nesta comparação, foi constatada baixa concordância entre os resultados dessas avaliações, que são consideradas complementares.

A baixa concordância entre os diagnósticos da avaliação eletrofisiológica ao nascimento e a comportamental, aos 6 meses, mostrou que uma independe da outra, ressaltando a grande importância da realização do acompanhamento auditivo desses lactentes.

Devido à baixa adesão ao monitoramento auditivo, a pesquisa ficou limitada, podendo ter interferido nos resultados de concordância entre as avaliações iniciais e o monitoramento, além de não ser possível ter o conhecimento de quais crianças, de fato, foram infectadas.

CONCLUSÃO

A população estudada apresentou função coclear normal. Os resultados dos potenciais evocados auditivos de tronco encefálico não revelaram diferenças entre os grupos em relação aos valores de latência e interpicos das ondas. O grupo estudo apresentou tendência a maior ocorrência de alterações centrais. Houve pouca adesão ao monitoramento auditivo e baixa concordância entre os resultados da avaliação eletrofisiológica ao nascimento e comportamental, aos 6 meses.

Trabalho realizado no Programa de Residência Multiprofissional em Saúde da Criança e do Adolescente, Hospital São Paulo, Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP – São Paulo (SP), Brasil.

REFERÊNCIAS

1 Silva AC, Pinto FR, Matas CG. Potenciais evocados auditivos de longa latência em adultos com HIV/Aids. Pro Fono. 2007;19(4):352-6. http://dx.doi.org/10.1590/S0104-56872007000400005 . PMid:18200383. [ Links ]

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Recebido: 13 de Dezembro de 2017; Aceito: 11 de Outubro de 2018

Conflito de interesses: Não.

Contribuição dos autores: MADP participou da concepção, coleta, análise de dados e redação do manuscrito; ECSM contribuiu na coleta e análise dos dados e orientação na redação do manuscrito; MFA orientou todas as etapas do projeto.

Autor correspondente: Monalisa Alves Dantas Padilha. E-mail: monalisapadilha@hotmail.com

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