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Audiology - Communication Research

versão On-line ISSN 2317-6431

Audiol., Commun. Res. vol.23  São Paulo  2018  Epub 03-Dez-2018

http://dx.doi.org/10.1590/2317-6431-2018-1979 

Artigo Original

Índice de inteligibilidade de fala – Speech Intelligibility Index (SII) e reconhecimento de sentenças no ruído. Estudo em idosos com e sem alteração cognitiva usuários de próteses auditivas*

Erica Antero da Silva1 

Loretta Fabianne Nigri2 

Maria Cecília Martinelli Iorio1 

1 Escola Paulista de Medicina – UNIFESP – São Paulo (SP), Brasil.

2 Universidade de São Paulo – USP – São Paulo (SP), Brasil.

RESUMO

Objetivo

Investigar os efeitos dos processos cognitivos e do Índice de Inteligibilidade de Fala no reconhecimento de fala no ruído em idosos, com e sem alteração cognitiva, usuários de próteses auditivas.

Métodos

34 idosos, de 64 a 87 anos, com perda auditiva neurossensorial simétrica de grau moderado, usuários de próteses auditivas, foram distribuídos em grupos de idosos sem (GA; n=21) e com (GB; n=13) evidências de alteração cognitiva. A fim de garantir que o ajuste das próteses auditivas estivesse adequado, realizou-se o mapeamento visível de fala amplificada e foram obtidos os indices de ínteligibilidade de fala. Os idosos foram submetidos a uma triagem cognitiva (10-CS) e ao teste Lista de Sentenças em Português. A avaliação constou da pesquisa do limiar de reconhecimento de sentenças no ruído. Esta pesquisa foi realizada em campo livre, na condição sem e com próteses auditivas. Para análise estatística, foram utilizados os testes de Qui-Quadrado e Mann-Whitney. O nível de significância adotado foi de 0,05.

Resultados

Não houve diferença significativa entre os índices de inteligibilidade de fala obtidos em ambos os grupos, tanto na condição com próteses auditivas, como na condição sem as próteses. Verificou-se que os idosos com e sem alteração cognitiva apresentaram o mesmo acesso aos sons da fala (SII), nas duas condições. Observou-se que os idosos sem alteração cognitiva apresentaram menor relação sinal/ruído média, para o reconhecimento de 50% das sentenças na presença de ruído tanto na condição sem próteses auditivas como na condição com próteses, do que aqueles com alteração cognitiva.

Conclusão

Idosos com melhor cognição apresentaram melhor reconhecimento de fala em condições de escuta difícil.

Palavras-chave:  Idosos; Auxiliares de audiçāo; Cognição; Inteligibilidade de fala; Percepção de fala

INTRODUÇÃO

O processo de envelhecimento ocorre de maneira global no indivíduo e a perda auditiva neurossensorial é uma das alterações decorrentes deste processo, que compromete significativamente a qualidade de vida(1). Esta perda é denominada perda auditiva decorrente do envelhecimento (Age Related Hearing Loss - ARHL), ou presbiacusia. Os idosos com este tipo de perda apresentam menor audibilidade e, consequentemente, redução da inteligibilidade da fala(2). Nestes casos, a adaptação de próteses auditivas é um dos primeiros passos para a reabilitação do idoso com deficiência auditiva(3).

O objetivo da amplificação é fornecer audibilidade para os sons da fala, em níveis seguros e confortáveis. Para tanto, os parâmetros de ganho e saída da prótese auditiva são calculados por meio dos métodos prescritivos. Após a seleção do método prescritivo e regulagem da prótese auditiva, é importante a verificação dos ajustes realizados, para que se possa avaliar o acesso fornecido, pela amplificação, às informações acústicas(4).

Um dos procedimentos da etapa de verificação é o mapeamento visível de fala amplificada, que determina quanto do sinal de fala é acessível. O Índice de Inteligibilidade de Fala - SII (Speech Intelligibility Index – SII) é parte do mapeamento de fala e calcula o percentual dos sons de fala aos quais o paciente tem acesso (0 a 100%), com e sem amplificação(5). Esta medida é utilizada na clínica audiológica como ferramenta para verificação do ajuste das próteses auditivas, na proporção em que os alvos predeterminados de ganho acústico buscam ser atingidos e, a partir deste ajuste, é possível quantificar quanto do sinal de fala é acessível. Sabe-se que nem todos os sons de fala serão audíveis, mesmo com a amplificação, em função do grau e configuração da perda auditiva(6). O que se busca com a amplificação é fornecer a audibilidade da maior parte dos sons de fala. Sabe-se, no entanto, que o reconhecimento de fala (comunicação) envolve tanto a audibilidade, como os processos cognitivos de atenção e memória, entre outros que são determinantes para que o uso desta informação seja efetivo. Assim, quando se ajusta um sistema de amplificação, tem-se como objetivo fornecer audibilidade. Entretanto, o desempenho comunicativo do individuo irá depender de inúmeros aspectos, como processos cognitivos, escolaridade, nível cultural, entre outros.

Segundo estudos(7,8), a queixa mais frequente dos idosos se refere à dificuldade de compreensão de fala em situação de comunicação desfavorável, como, por exemplo, na presença de ruído, em ambientes reverberantes e velocidade de fala aumentada do interlocutor.

O reconhecimento de fala no ruído depende, mais do que simplesmente tornar a fala audível, também de fatores não audiométricos, como o processamento temporal auditivo supraliminar e o processamento cognitivo(9).

Em situações nas quais ruídos estão presentes, o esforço para ouvir também aumenta, isto é, a demanda cognitiva do processamento das informações sonoras é maior(10). Só recentemente houve a preocupação em estudar os aspectos cognitivos associados ao processamento e compreensão da fala, que são fundamentalmente importantes para o estabelecimento de diagnósticos e estratégias de intervenções, para a seleção de tratamentos apropriados e melhora da qualidade da saúde auditiva da população geriátrica(11).

Testes que utilizam sentenças como estímulos são considerados os mais adequados para avaliar a comunicação do indivíduo no seu dia a dia (12), pois podem demonstrar o desempenho do indivíduo em uma situação habitual de fala. Considerando que, para uma boa comunicação, a habilidade de compreender a fala é extremamente importante, faz-se também necessária a investigação da relação sinal/ruído na qual os idosos usuários de próteses auditivas conseguem reconhecer ao menos 50% da informação (sentenças), pois, desta forma, será possível entender como a presença do ruído competitivo e a presença, ou não, de outras alterações pode interferir no processo de comunicação desses indivíduos.

A partir destas considerações, a hipótese que norteou a realização da presente pesquisa foi a de que idosos com mesma audibilidade dos sinais de fala e com melhor cognição apresentam melhor reconhecimento de fala, em condições de escuta difícil. O objetivo deste estudo foi investigar os efeitos dos processos cognitivos e do SII no reconhecimento de fala no ruído, em idosos com e sem alteração cognitiva, usuários de próteses auditivas.

MÉTODOS

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa de Seres Humanos da UNIFESP (sob o número de protocolo 0834/2016). Todos os participantes da pesquisa foram instruídos quanto aos procedimentos e, desta forma, assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Os critérios de inclusão para a composição da amostra foram:

  • Ter 60 anos ou mais;

  • Perda auditiva neurossensorial simétrica de grau moderado(13);

  • Ser usuário de prótese auditiva há mais de um ano;

  • Não apresentar outras alterações evidentes que pudessem comprometer a avaliação;

  • Ter sido submetido ao teste ADAS-cog (Alzheimer's Disease Assessment Scale-cognitive subscale).

Amostra

Foram selecionados 61 prontuários no arquivo do Núcleo Integrado de Assistência, Pesquisa e Ensino em Audição (NIAPEA), da instituição onde foi realizada a pesquisa. Destes, aproximadamente a metade apresentava resultado sugestivo de alteração cognitiva e a outra metade, resultado normal. Do grupo, foram selecionados 23 pacientes. Os demais, por razões diversas, não participaram do estudo. A fim de conseguir maior número de participantes, optou-se por buscar, nos prontuários do serviço, aqueles que foram submetidos à triagem cognitiva de 10 pontos - 10-CS (10-point cognitive screener)(14). Esta triagem integra o protocolo de avaliação dos pacientes adultos e idosos do ambulatório de adaptação de próteses auditivas, desde 2016.

A partir da análise dos prontuários, a amostra final do estudo foi composta por 34 idosos, com idades entre 64 e 87 anos, com perda auditiva neurossensorial simétrica de grau moderado(13), já usuários de próteses auditivas há, pelo menos, um ano.

Os idosos foram distribuídos em dois grupos, segundo o status cognitivo, de acordo com os resultados obtidos na triagem cognitiva 10-CS, que foi aplicada no momento em que foram recrutados para a pesquisa, na primeira sessão de avaliação:

Grupo A – 21 idosos sem evidências de alteração cognitiva

Grupo B – 13 idosos com resultados sugestivos de alteração cognitiva

Procedimentos

Triagem cognitiva (10-CS)

O rastreio cognitivo 10-CS foi aplicado em todos os participantes do estudo, para classificação do status cognitivo. O 10-CS avalia orientação, recordação de palavra e fluência verbal e a pontuação do teste varia de 0 a 10 pontos. É maior a chance de o indivíduo apresentar alteração na capacidade cognitiva quando a pontuação for menor que 7 pontos. Visto que a escolaridade pode influenciar no teste, uma escala para ajustes de efeito de educação é utilizada. O tempo de aplicação do teste foi de, aproximadamente, dez minutos.

Avaliação audiológica

Os pacientes passaram por todo o acompanhamento de rotina, que incluiu a meatoscopia, audiometria tonal e vocal e a verificação da regulagem das próteses auditivas. Caso os pacientes não tivessem feito uso efetivo da amplificação, eram reorientados e convocados para nova avaliação, após o uso efetivo das próteses auditivas. Foi considerado uso efetivo das próteses oito horas por dia. Este uso foi verificado pelo registro de dados (data logging ), quando disponível e, quando não, pela informação dos pacientes. Todas as próteses auditivas eram da classe B, digitais, com supressor de ruído e gerenciador de feedback, mas nem todas disponibilizavam o registro de dados.

Verificação eletroacústica – Índice de Inteligibilidade de Fala (SII)

A fim de avaliar se a amplificação fornecida estava adequada, os idosos foram submetidos ao procedimento de verificação dos ajustes das próteses auditivas, por meio de medidas com microfone sonda. Foi realizado o mapeamento visível de fala amplificada e obtidos os índices de inteligibilidade de fala. Esta pesquisa foi realizada in situ, utilizando-se o equipamento de Mensuração In Situ, modelo Verifit VF-1, da marca Audioscan. Os pacientes foram avaliados após fazerem uso efetivo da amplificação prescrita, com base na regra prescritiva NAL/NL2 (National Acoustics Laboratories/Non linear2).

Para a realização do teste, os pacientes foram posicionados sentados, a 0º azimute e a 80 cm do alto falante do equipamento, com o microfone sonda posicionado a 5 mm da membrana timpânica, o microfone de referência logo abaixo do pavilhão auricular e a prótese auditiva colocada no meato acústico externo (garantindo-se que a extremidade do microfone sonda não estivesse ocluída pela prótese auditiva).

O estímulo utilizado para esta mensuração foi o International Speech Test Signal (ISTS)(15), criado a partir de gravações em seis línguas diferentes, completamente ininteligível, porém, aceito internacionalmente para verificação de próteses auditivas, a 65 dBNPS.

Com base na mensuração (os valores deveriam estar situados entre ± 4 dB dos valores alvo), o equipamento calculou e disponibilizou o Índice de Inteligibilidade de Fala (SII) para o estímulo de fala, apresentado a 65 dBNPS, amplificado pela prótese auditiva. Tais dados permitiram quantificar, em porcentagem, a acessibilidade aos sons de fala.

Foi também mensurada a saída máxima da prótese auditiva com estímulo tone burst a 85 dBNPS, de forma a garantir que estivesse abaixo dos níveis de desconforto médios estimados para a população (16).

Aqueles pacientes cujos resultados estavam fora dos alvos prescritos, tiveram suas próteses reajustadas, a fim de serem atingidos os alvos, e retornaram após 15 dias, para o prosseguimento das avaliações. Os que apresentaram resultados adequados continuaram com as avaliações no mesmo dia.

Teste Lista de Sentenças em Português

A seguir, os idosos foram submetidos ao teste Lista de Sentenças em Português (LSP)(17).

O teste foi aplicado em campo livre, em ambiente acusticamente tratado, por meio do audiômetro GSI, ao qual estava acoplado o CD player, para a apresentação das sentenças e do ruído, que foram gravados em canais independentes. Foram obtidas as relações sinal/ruído (S/R), nas quais foram reconhecidas 50% das sentenças apresentadas na presença de ruído, apresentado a 65 dB (A), por meio de alto-falantes, estando os participantes posicionados a 1 metro do alto-falante, a 0º azimute. Os participantes foram avaliados com e sem próteses auditivas. Para esta pesquisa, foi utilizada a estratégia ascendente-descendente (18). De acordo com a estratégia, o ruído competitivo foi mantido no nível fixo de 65 dB e a primeira sentença apresentada em uma relação S/R equivalente a zero. Caso a resposta do paciente fosse correta, a intensidade do sinal era diminuída no estímulo seguinte. Se a resposta fosse incorreta, a intensidade do sinal era aumentada no próximo estímulo. Os intervalos utilizados foram de 4 dB e, a partir da primeira mudança de resposta, as sentenças foram apresentadas com intervalos de 2 dB ( Quadro 1 ).

Quadro 1 Parâmetros utilizados na administração do teste Lista de Sentenças em Português  

Parâmetro Ajuste padrão
Lista de sentenças usadas para treino 1A
Lista de sentenças (sem próteses auditivas) 2B
Lista de sentenças (com próteses auditivas) 1B
Nível inicial do estímulo de fala 65 dB
Nível do ruído 65 dB
Incrementos das primeiras sentenças 4 dB
Incrementos das sentenças a partir do erro 2 dB
Saída máxima do equipamento 120 dB

Com base nesta estratégia, foi possível determinar a relação sinal/ruído dos estímulos apresentados, sendo calculada entre a diferença da intensidade média das sentenças apresentadas e o nível do ruído competitivo. Quando a diferença apresenta valor positivo, conclui-se que o indivíduo precisa que a intensidade do sinal de fala seja maior do que o nível de ruído. Caso a diferença apresente valor negativo, conclui-se que o nível de intensidade das sentenças seja menor, quando comparado ao ruído competitivo.

A lista 1A foi utilizada para o treino do paciente, enquanto que a lista 1B foi utilizada para a obtenção das relações S/R com próteses auditivas e a lista 2B, sem próteses auditivas.

Análise estatística

Para análise estatística dos dados, utilizaram-se os testes de Mann-Whitney e Qui-Quadrado. O nível de significância adotado para ambos os testes foi de 5% (valor de p≤0,05), valor este assinalado com (*).

RESULTADOS

Caracterização da amostra

O grupo A (sem evidência de alteração cognitiva) foi composto por 21 idosos, com idades entre 64 e 87 anos e o grupo B (sugestivos de alteração cognitiva), por 13 idosos, com idades entre 71 e 84 anos.

A fim de caracterizar a amostra, foram calculadas as estatísticas descritivas das variáveis idade, gênero e escolaridade e foi realizado o estudo comparativo entre os grupos A e B segundo estas variáveis.

Não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos A e B, quanto à variável idade ( Tabela 1 ).

Tabela 1 Valores médios das idades dos idosos dos grupos A e B e estudo comparativo entre grupos  

Grupo A Grupo B Valor de p Resultado
IDADE Média 76,6 77,5
Mediana 78,0 77,0 0,780 A = B
Desvio padrão 6,9 3,8
N 21 13

Legenda: N = Número de sujeitos

Não houve diferença significativa entre os grupos A e B, quanto às variáveis gênero e escolaridade ( Tabela 2 e Tabela 3 ).

Tabela 2 Distribuição dos idosos por grupo e estudo comparativo, segundo a variável gênero  

Grupo A Grupo B Valor de p Resultado
N % N % N %
Gênero F 13 61,9 8 61,5 21 61,8
M 8 38,1 5 38,5 13 38,2 1,000 A = B
Total 21 100,0 13 100,0 34 100,0

Legenda: F = Feminino; M = Masculino; N = Número de sujeitos

Tabela 3 Distribuição dos idosos por grupo e estudo comparativo entre grupos, segundo a variável escolaridade  

Grupo A Grupo B Valor de p Resultado
N % N % N %
Escolaridade Ensino fundamental completo 2 9,5 0 0 2 5,9 Não aplicável Não há
indícios de
diferenças
Ensino fundamental incompleto 15 71,4 8 61,5 23 67,6
Ensino médio completo 2 9,5 2 15,4 4 11,8
Ensino médio incompleto 1 4,8 1 7,7 2 5,9
Não alfabetizado 1 4,8 2 15,4 3 8,8
Total 21 100,0 13 100,0 34 100,0

Legenda: N = Número de sujeitos

Estudo do SII e relação sinal/ruído

Os valores médios de SII foram obtidos na verificação das próteses auditivas, nas condições sem e com prótese auditiva, em idosos sem e com alteração cognitiva, a fim de quantificar o percentual de acesso aos sons de fala sem e com amplificação ( Tabela 4 ).

Tabela 4 Estatísticas descritivas e estudo comparativo do Índice de Inteligibilidade de Fala com e sem próteses auditivas, nos grupos A e B  

SII sem SII com Valor de p Resultado
Grupo A Média 14,3 50,3 0,834
Mediana 8,00 48,5 Grupo A = Grupo B
Desvio padrão 14 13,4
N 21 21
Grupo B Média 12,8 49,6 0,889
Mediana 8,0 51,5 Grupo A = Grupo B
Desvio padrão 9,7 10,7
N 13 13

Legenda: SII = Speech Intelligibility Index (Índice de Inteligibilidade da Fala); N = Número de sujeitos

Não houve diferença significativa entre os resultados do SII obtidos em ambos os grupos, nas condições com e sem próteses auditivas.

O teste Lista de Sentenças em Português foi utilizado para determinar a relação sinal/ruído, na qual foram reconhecidas 50% das sentenças com ruído competitivo, nos grupos A e B.

Observou-se que idosos sem evidências de alteração cognitiva apresentaram menor relação sinal/ruído média, tanto na condição sem prótese, como na condição com prótese. Na condição com prótese auditiva, esta diferença foi estatisticamente significativa ( Tabela 5 ).

Tabela 5 Tabela demonstrativa das médias e medianas de relação sinal-ruído com e sem próteses auditivas, segundo a presença de alteração cognitiva  

Grupo A Grupo B Valor de p Resultado
Lista 1B S/R
(Com AASI)
Média 7,01 9,17
Mediana 7,40 9,80 0,050 * A < B
Desvio padrão 3,22 2,78
N 21 13
Lista 2B S/R
(Sem AASI)
Média 4,91 5,52
Mediana 4,40 5,60 0,276 A = B
Desvio padrão 3,48 1,90
N 21 13

* Valor estatisticamente significante (p≤0,05) – Teste de Mann-Whitney

Legenda: S/R = Sinal/Ruído; AASI = Aparelho de Amplificação Sonora Individual; N = Número de sujeitos

DISCUSSÃO

Neste capitulo, serão discutidos os resultados obtidos na presente pesquisa e confrontados, quando possível, com os pesquisados na literatura especializada sobre o tema.

Sobre a caracterização da amostra

O grupo A (sem evidência de alteração cognitiva) foi formado por 21 idosos, sendo 13 (61,9%) do gênero feminino e oito (38,1%) do gênero masculino, com idades entre 64 e 87 anos. O grupo B (sugestivos de alteração cognitiva) foi formado por 13 idosos, sendo oito (61,5%) do gênero feminino e cinco (38,5%) do gênero masculino, com idades entre 71 e 84 anos. Não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos, quanto ao gênero e idade ( Tabelas 1 e 2 ).

Observou-se que o número de mulheres, em ambos os grupos, foi superior ao número de homens, embora não tenha sido observada diferença estatisticamente significativa entre os grupos, quanto ao gênero. Geralmente, as mulheres vivem, em média, de seis a oito anos a mais que os homens, de modo que tendem a ter taxas de mortalidade mais baixas em todas as idades(19).

A saúde das mulheres mais velhas varia significativamente de cultura para cultura e de país para país(19), mas o ambiente de trabalho, a menor prevalência de tabagismo e uso de álcool, diferenças quanto à atitude em relação a doenças e incapacidades(20) são fatores que propiciam a longevidade nas mulheres.

Observou-se, neste estudo, que a escolaridade predominante foi o ensino fundamental incompleto, em ambos os grupos ( Tabela 3 ). No estudo de Pilger et al.(20), verificou-se alta porcentagem de idosos com pouca e/ou nenhuma escolaridade. Os autores referiram que, devido a esta realidade, é possível compreender o porquê de muitas iniciativas públicas e ações não governamentais voltarem-se à alfabetização e educação continuada de adultos e idosos, pois influenciam a vida social, econômica e a busca por serviços de saúde. Conforme apresentado no estudo citado (20), o perfil sociodemográfico dos idosos brasileiros mostra que boa parte da população urbana brasileira é atingida pelo analfabetismo.

Segundo estudo nacional(21), o nível educacional deve ser sempre analisado, uma vez que indivíduos com melhor escolaridade apresentam melhor desempenho em situações de comunicação. A maioria dos instrumentos de triagem cognitiva inclui o ajuste segundo a escolaridade, o que também ocorre com o instrumento utilizado na presente pesquisa, o 10-CS (14).

Discussão sobre o SII e a percepção de fala na presença de ruído competitivo

Os dois grupos apresentaram, em ambas as condições, com e sem AASI, valores de SII sem diferença estatística. Tais resultados demonstram que os idosos do grupo sem alteração cognitiva e idosos do grupo sugestivo de alteração cognitiva apresentaram a mesma porcentagem de acesso aos sons da fala, sem e com próteses auditivas ( Tabela 4 ).

Os dados encontrados nesta pesquisa sugerem que os idosos de ambos os grupos obtinham acesso, em média, a 50% dos sons da fala, o que é considerado adequado(22). Sabe-se que nem todos os sons de fala serão audíveis, em função do grau e configuração da perda auditiva. O objetivo da regulagem das próteses auditivas é fornecer audibilidade e o uso do mapeamento de fala mostra, de maneira mais concreta e visual, o quanto está sendo fornecido de audibilidade. No entanto, para a compreensão da fala, não basta apenas fornecer audibilidade. O que cada sujeito fará com as informações auditivas irá depender de diversos aspectos, como atenção seletiva (figura-fundo e fechamento), cognição, escolaridade, entre outros.

Compreender a fala é um dos elementos mais importantes na comunicação humana e, por isso, a utilização de sentenças é considerada o melhor instrumento para avaliar a comunicação do individuo, já que o desempenho do sujeito frente às sentenças fornecerá resultados das situações cotidianas de fala(8,12,21). As situações habituais de fala estão associadas, geralmente, à presença de ruído competitivo, sendo este aspecto, inclusive, uma das queixas mais citadas por idosos(23). Portanto, neste estudo, optou-se por usar teste de reconhecimento de sentenças com a presença de estimulo competitivo (ruído), em campo livre, para avaliar os indivíduos em situação mais próxima do cotidiano.

Desta forma, fez-se necessário o cálculo da relação S/R, que é a diferença entre os níveis do sinal de fala e o ruído. Quanto maior a relação S/R, maior pode ser a dificuldade para a compreensão de fala na presença de ruído competitivo. Observou-se que os idosos do grupo A apresentaram menor relação S/R média, tanto na condição sem próteses auditivas, como na condição com próteses. Pôde-se verificar que os idosos com resultados compatíveis com ausência de alteração cognitiva precisaram que o sinal fosse pelo menos 7,01, em média, mais alto que o ruído, enquanto que os idosos com resultados sugestivos de alteração cognitiva precisaram que o sinal fosse 9,17, em média, maior que o ruído, para o reconhecimento de 50% de sentenças, na condição com próteses auditivas, sendo esta diferença estatisticamente significativa ( Tabela 5 ). Tal dado é compatível com a hipótese de que idosos com melhor cognição apresentam melhor reconhecimento de fala, em condições de escuta difícil.

Na condição sem próteses auditivas, pôde-se verificar que os idosos com resultados compatíveis com ausência de alteração cognitiva precisaram que o sinal fosse, pelo menos, 4,91, em média, mais alto que o ruído, enquanto que os idosos com resultados sugestivos de alteração cognitiva precisaram que o sinal fosse 5,52, em média, maior que o ruído, para o reconhecimento de 50% de sentenças, na condição sem próteses auditivas. Embora os idosos do grupo A tenham apresentado, em média, menor relação sinal/ruído, esta diferença não foi estatisticamente significativa ( Tabela 5 ).

O reconhecimento de fala no ruído exige uma demanda das habilidades cognitivas que se encontram em declínio na população idosa(24). Outros estudos também demonstraram haver correlação entre o reconhecimento de fala no ruído e a cognição. Tal dado mostra-se similar ao encontrado em um estudo(25), em que idosos com resultados sugestivos de alteração cognitiva apresentaram maior relação sinal/ruído para reconhecer 50% das sentenças apresentadas.

Estudo realizado(26), em nosso meio, encontrou correlação entre os escores de relação S/R do teste LSP com os testes cognitivos (Adas-Cog e MEEM - Mini Exame do Estado Mental). Quanto menor o nível cognitivo, pior foi o desempenho do idoso no ruído. Neste estudo (26), o nível de escolaridade, o desempenho cognitivo e os sintomas depressivos influenciaram no reconhecimento de fala no ruído, em idosos usuários de próteses auditivas. Quanto melhor o nível cognitivo, melhor o desempenho do idoso.

Pesquisas(3,7,8) demonstraram que uma reclamação comum entre os idosos refere-se à dificuldade para entender a fala em condições de escuta difíceis. Quando existe dificuldade para a compreensão de fala, principalmente em condição de ruído, sugere-se que o processamento temporal está em declínio (7).

Os resultados obtidos no presente estudo demonstraram que a acessibilidade ao sinal de fala, informada pelo SII, foi semelhante nos dois grupos estudados e que, portanto, não determinaram o desempenho no reconhecimento de fala no ruído.

Acredita-se que a investigação da queixa quanto à dificuldade de compreensão de fala no ruído e, consequentemente, da relação sinal/ruído necessária para o melhor reconhecimento de fala, pode ser fundamentalmente dependente das funções cognitivas, pois estas podem interferir no processo de reabilitação auditiva e na qualidade de vida do idoso.

CONCLUSÃO

O acesso aos sons de fala – SII não determina o desempenho do idoso com perda auditiva em situação de escuta difícil.

Garantida a audibilidade similar dos participantes dos dois grupos, observou-se que os idosos sem alteração cognitiva necessitaram menores relações S/R, em média, para reconhecer 50% das sentenças, na condição com e sem próteses auditivas.

AGRADECIMENTOS

À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP, pelo apoio concedido para realização desta pesquisa, processo nº 2016/13847-0.

Trabalho realizado no Curso de Fonoaudiologia, Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP – São Paulo (SP), Brasil.

* Trabalho de conclusão de curso apresentado à Universidade Federal de São Paulo para obtenção do título de bacharel em Fonoaudiologia, com bolsa de Iniciação Científica concedida pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - FAPESP (Processo nº 2016/13847-0).

Financiamento: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - FAPESP (Processo nº 2016/13847-0).

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Recebido: 19 de Fevereiro de 2018; Aceito: 22 de Agosto de 2018

Conflito de interesses: Não.

Contribuição dos autores: EAS elaboração do artigo, que foi seu trabalho de conclusão de curso; LFN revisão e formatação do artigo; MCMI orientadora de ambas as autoras.

Autor correspondente: Maria Cecília Martinelli Iório. E-mail: cmartinelli@uol.com.br

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