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Audiology - Communication Research

versão On-line ISSN 2317-6431

Audiol., Commun. Res. vol.23  São Paulo  2018  Epub 03-Dez-2018

http://dx.doi.org/10.1590/2317-6431-2018-2044 

Artigo Original

Instrumento de avaliação de linguagem na perspectiva da Comunicação Suplementar e Alternativa: elaboração e validação de conteúdo

Luciana Maria Galvão Wolff1 

Maria Claudia Cunha1 

1 Programa de Estudos Pós-graduados em Fonoaudiologia, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC – São Paulo (SP), Brasil.

RESUMO

Objetivo

Desenvolver e validar o conteúdo de instrumento de avaliação de linguagem pautado na Comunicação Suplementar e Alternativa (CSA).

Métodos

O instrumento foi elaborado a partir de revisão bibliográfica, em conjunto com a experiência clínica da pesquisadora. Em seguida, foi avaliado por juízes especialistas na área e uma nova versão foi construída, incorporando as colaborações dos juízes.

Resultados

O instrumento foi elaborado em 4 eixos de conteúdo, com instruções e sugestão de contextos e símbolos gráficos. A partir da avaliação dos juízes, o instrumento foi aprimorado e proposto, em sua versão final.

Conclusão

O instrumento denominado CSA_Linguagem se mostrou operacional, de fácil e rápida aplicação e baixo custo. Contudo, esta pesquisa tem limitações, na medida em que não há instrumentos de avaliação de linguagem padronizados, que considerem a utilização de símbolos gráficos como possibilidade de comunicação.

Palavras-chave:  Transtorno autístico; Auxiliares de comunicação para pessoas com deficiência; Estudos de avaliação; Avaliação rápida; Comunicação não verbal

INTRODUÇÃO

A ausência ou atraso na aquisição de linguagem nos primeiros anos de vida de uma criança gera preocupações quanto ao seu desenvolvimento e pode sugerir diversas etiologias e condutas.

Diante dessa criança com necessidades complexas de comunicação, a interpretação de poucas produções é possível, mas tende a se restringir às vocalizações ininteligíveis, ações, gestos e expressões corporais, fazendo-se necessárias mais referências para a interpretação, como símbolos gráficos.

Considerando-se que, no processo de aquisição de linguagem, em um contexto que a linguagem é compreendida não como um produto estrito de aprendizagem, é indispensável colocar o sujeito na posição de criador de sentidos e, para tal, o interlocutor precisa interpretar as produções da criança, de modo a atribuir-lhes forma e sentido, inserindo-as em redes de significação (1,2).

Tornam-se, assim, fundamentais, referências para a interpretação, que pode ser feita com símbolos gráficos, adentrando, nesse momento com a possibilidade de inserção desses sujeitos na linguagem proposta, então, pela Comunicação Suplementar e Alternativa (CSA).

CSA é um termo traduzido do inglês Augmentative and Alternative Communication (AAC), que pode ser definido como um conjunto de ferramentas e estratégias das quais um sujeito pode se apropriar para resolver os desafios da comunicação cotidiana e que tem efeitos quando a intenção e o significado propostos por ele são compreendidos pelo outro. De que forma isso vai acontecer, ou seja, a forma ou o meio são menos importantes, o que vale é o sucesso no envio da mensagem(3).

A CSA é uma área de pesquisa, clínica e prática educacional, que auxilia nas limitações de atividades e restrições de participação social de sujeitos com necessidades complexas de comunicação(4).

Com os símbolos gráficos da CSA, a linguagem oral ganha materialidade e é movimentada pelo efeito da fala do outro (“fala que está na escuta”) (5). Essa materialidade permite a dialogia, que resulta em mudança favorável na relação do sujeito com a linguagem(6), mudança necessária e importante quando atribuímos à linguagem um papel constitutivo, condição esta para significação e nascimento do sujeito(7).

Os sistemas de símbolos, ou os símbolos gráficos propriamente ditos, são compreendidos, neste estudo, como uma imagem familiar, ou não, embora possam ter conotações especiais para mais do seu significado evidente e convencional. Assim, uma palavra ou frase representada por uma imagem se torna simbólica quando implica alguma coisa além do seu significado manifesto e imediato(8). O símbolo é a representação de algo vivenciado e assim significado por aquele que o utiliza para se comunicar e, neste estudo, se refere sempre aos símbolos gráficos, que podem ser desenhos, figuras ou fotos(9).

Os símbolos da CSA podem ser organizados em uma prancha de comunicação e apresentados por meio de equipamentos eletrônicos, ou não, ou seja, em baixa (figuras e desenhos no papel), média (vocalizadores) ou alta tecnologia (equipamentos eletrônicos, computadores ou dispositivos móveis), com objetivo de promover a comunicação(10-12).

Nesse contexto, os estudos fonoaudiológicos são imprescindíveis, tanto na intervenção, como na avaliação. Entretanto, como avaliar possibilidades e/ou o uso desses símbolos se não há ferramentas, instrumentos ou roteiros. Principalmente, partindo do princípio que as intervenções com CSA não podem se restringir a reconhecer, nomear e apontar símbolos visuais, considerando a linguagem como constitutiva da subjetividade e não somente como código de comunicação(13).

Instrumentos de avaliação têm sido cada vez mais utilizados como auxiliares para a terapia fonoaudiológica. Na prática clínica, eles permitem a documentação do atendimento clínico e, muitas vezes, podem ser importantes auxiliares para o direcionamento, para traçar objetivos e aspectos que devem ser priorizados, possibilitando melhor direcionamento dos recursos disponíveis(14).

Em um panorama geral, observa-se escassez de literatura sobre instrumentos de avaliação da linguagem de crianças com necessidades complexas de comunicação, assim como ausência de instrumentos de avaliação na perspectiva da CSA e, principalmente, com essa concepção de linguagem.

Na Fonoaudiologia, vale referir dois instrumentos brasileiros de avaliação disponíveis: o Teste ABFW(15) - Teste de Linguagem Infantil nas Áreas de Fonologia, Vocabulário, Fluência e Pragmática -, especificamente o subteste de avaliação da Pragmática e o Protocolo de Observação Comportamental (PROC) (16). Ambos se propõem a avaliar a comunicação na ausência da oralidade, mas privilegiam a linguagem, enquanto código, em que a fala é abordada nos aspectos desviantes das normas linguísticas universais(1).

Nenhum dos instrumentos referidos aborda a CSA como estratégia de comunicação, em uma perspectiva de desenvolvimento de linguagem, foco desta pesquisa.

Por outro lado, na perspectiva da CSA, há trabalhos que avaliaram crianças com comprometimentos motores, mais especificamente com encefalopatia crônica não evolutiva(17,18). Cesa(17) desenvolveu um protocolo fonoaudiológico de avaliação conversacional para ser utilizado na avaliação dos meios, dos atos comunicativos e dos pares adjacentes observados em contexto conversacional. Foram desenvolvidos, também, protocolos de avaliação para identificação de habilidades comunicativas no contexto escolar(19) e no contexto familiar(20), direcionados para alunos com deficiência, sem oralidade e utilizados por professores. Todos esses protocolos são focados nas estratégias de comunicação, mas ainda não visam, diretamente, o uso da CSA, enquanto linguagem.

Ampliando a questão para o âmbito internacional, é importante destacar um estudo que analisou 30 anos (1985-2014) de publicações do AAC Journal (21) (Augmentative and Alternative Communication Journal). Os autores subcategorizaram os resultados em estudos que relataram as intervenções (aqueles com impacto de uma variável independente sobre o desempenho dos participantes), estudos descritivos (aqueles com métodos observacionais ou qualitativos), estudos experimentais (descrevem o efeito de uma variável independente, diferente de intervenção, com não usuários de CSA) e estudos direcionados para instrumentos e medições (desenvolvimento e avaliação de ferramentas). O estudo mostrou um pequeno interesse de pesquisas nessa área, apenas 7% no período estudado, mas com crescente aumento, sendo que, nos primeiros 15 anos da revista (1985-1999), foram cinco artigos e, no período seguinte, passou para 14 artigos. Mesmo com o crescimento da área, esse número ainda é pequeno, sendo necessárias mais pesquisas. Os autores concluíram que é difícil identificar ferramentas de medição que sejam confiáveis e válidas. As pesquisas com a CSA são, frequentemente, muito desafiadoras, devido à heterogeneidade da população de que utiliza a utiliza, a complexidade dos sistemas e das intervenções e a complexa natureza do processo da comunicação(21).

Salienta-se que pesquisas sobre avaliação de linguagem, com foco na CSA, para pessoas com necessidades complexas de comunicação são incipientes.

Assim, esta pesquisa se propôs a desenvolver e validar o conteúdo de um instrumento de avaliação de linguagem pautado na CSA.

MÉTODO

Esta pesquisa foi desenvolvida de acordo com as normas éticas preconizadas para pesquisas com seres humanos e aprovada pelo Comitê de Ética da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP, sob o protocolo nº. 1.227.183. Todos os indivíduos envolvidos assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

O instrumento CSA_Linguagem foi elaborado a partir de revisão de literatura sobre aspectos teóricos e metodológicos de aquisição e desenvolvimento de linguagem, assim como sobre avaliação de linguagem, acrescida da experiência clínica da pesquisadora (observação sistemática de situações clínicas). O instrumento se propõe a avaliar a linguagem, visando possibilidades com a CSA para mediar a interação comunicativa, considerando os símbolos gráficos como apoio comunicativo em contexto dialógico, a partir de situações lúdicas, de modo a avaliar as possibilidades de comunicação do sujeito.

Um dos métodos mais estudados para a obtenção da validade de uma medida é a validade de conteúdo(22). Sendo assim, após o desenvolvimento, o instrumento foi submetido à avaliação de juízes especialistas, quanto à clareza e pertinência dos itens levantados(23,24).

O procedimento se deu em três fases. A primeira fase foi a elaboração e desenvolvimento da versão preliminar do instrumento CSA_Linguagem. O instrumento foi estruturado com instruções e orientações para aplicação, material, procedimento e questões a serem observadas.

Foram sugeridos três contextos interacionais, encenados em situações lúdicas, a partir de símbolos gráficos, como apoio para a interpretação das condutas comunicativas. Os temas sugeridos no instrumento foram música, animais e meios de transporte, selecionados a partir de elementos presentes no repertório infantil, considerados como motivadores sociais e culturais, conforme observação clínica da pesquisadora. Com base nesses temas, foram elaborados materiais da CSA na técnica com auxílio, ou seja, pranchas de comunicação temática, com os símbolos do sistema PCS (Picture Communication Symbols) em baixa tecnologia (cartões impressos e plastificados). Tanto o sistema PCS, como os temas e figuras, são apenas sugestões, os símbolos gráficos podem ser modificados de acordo com a disponibilidade do sistema, assim como algo que tenha significado socialmente e culturalmente.

Na segunda fase, foi realizada a seleção de especialistas, elaboração e aplicação de questionário de avaliação. Foram selecionados dez juízes fonoaudiólogos, com experiência clínica e reconhecida competência expertise no atendimento de crianças com necessidades complexas de comunicação, utilizando a CSA(22).

Foi enviada para os juízes uma versão preliminar do instrumento CSA_Linguagem, em conjunto com um questionário de avaliação para que verificassem se os itens mensuravam adequadamente o instrumento que se propôs avaliar e que fizessem sugestões e/ou modificações, quando necessário.

Com as avaliações em mãos, na terceira fase, foram feitos os ajustes necessários e pertinentes ao pressuposto teórico do instrumento CSA_Linguagem (versão inicial e elaboração da versão final).

RESULTADOS

As contribuições consideradas pertinentes ao objetivo da pesquisa e fundamentos teórico metodológicos utilizados na elaboração do instrumento foram incorporadas no instrumento CSA_Linguagem (Anexo 1).

A versão inicial do instrumento contava com 9 questões e, a partir das contribuições dos juízes, foram acrescentadas 7, totalizando 16 questões ( Quadro 1 ).

Quadro 1 Comparação entre as versões inicial e final do instrumento CSA_Linguagem, quanto à introdução, orientações e procedimento  

Versão um Versão dois Sugestão dos juízes
Introdução # Não tem Objetivo do Instrumento Esclarecer o objetivo
Orientações para aplicação * Local Explicação básica Mais bem detalhado Explicar o local
*Duração Cinco minutos de introdução inicial Duração da proposta: 10 minutos Especificar o tempo sugerido e a proposta
*Contexto Contexto breve Contexto mais detalhado Explicar melhor a atividade
*Material Sistema Picture Communication Symbols (PCS) Sugerido PCS, mas adequar com possibilidades e disponibilidade. Sistema de símbolos gráficos sugeridos
# Não tem Descrição de uma padronização Explicar uma padronização dos símbolos
Procedimento * Mencionada a filmagem Explicação sobre a realização da filmagem Explicar quem realizará a filmagem e como será feita

#Conteúdo incluído;

*Conteúdo modificado

Verificou-se que a maioria das sugestões dos juízes (quanto aos procedimentos de aplicação) foi a respeito do maior nível de detalhamento nas instruções, objetivos, especificação do local e tempo de aplicação, assim como a padronização dos símbolos gráficos utilizados. As sugestões foram integralmente incorporadas na elaboração da nova versão. As orientações para a aplicação do instrumento consistiram em recomendações quanto ao local, duração da proposta e contexto para aplicação.

Para aplicação do instrumento, o local deve ser pequeno, sem atrativos visuais e o fonoaudiólogo deve ficar, preferencialmente, sozinho com a criança. A proposta tem a duração de 10 minutos de interação livre, mediada por símbolos gráficos que possam ter significados para a criança. É sugerido o uso das figuras do Picture Communication Symbols (PCS), montadas em pranchas temáticas com três blocos (representando animais, meios de transporte e músicas), de 4 símbolos cada, na técnica com auxílio, montados em forma de cartões soltos (fixados com velcro em uma folha, relacionados com o tema) e baixa tecnologia. Esses símbolos são apresentados à criança visando a interação livre e procurando estabelecer comunicação verbal e / ou não verbal em atividade dialógica.

Com relação ao conteúdo dos itens que compõe os eixos temáticos do instrumento, a maior parte das sugestões foi incorporada à versão final CSA_Linguagem, levando em consideração a necessidade de deixar os exemplos mais claros, assim como a possibilidade de incluir outras manifestações de respostas por parte dos sujeitos (olhar, intenção e iniciativa comunicativas). Os 4 eixos permaneceram, com o acréscimo de alguns subitens e as respostas permaneceram em: sim (respostas consistentes), às vezes (respostas assistemáticas) e não (ausência) ( Quadro 2 ).

Quadro 2 Comparação entre as versões um e dois do instrumento CSA_Linguagem, quanto aos eixos e perguntas do instrumento  

Eixo Questões Versão um Versão dois Sugestão dos juízes
I. Intenção Comunicativa * 1, 2 e 3 Exemplos simples Exemplos novos, mais bem explicados. Explicar melhor com o exemplo.
# 4 Não tem Resposta da criança com o olhar Incluir mais uma opção de resposta
#5 Não tem Resposta com mais de um recurso de comunicação Incluir mais possibilidades de resposta ao mesmo tempo
#6 Não tem Inclusão da pergunta Incluir a intenção comunicativa, iniciando o diálogo
II. Manejo funcional dos símbolos gráficos *7, 8, 9 Exemplos simples Exemplos mais bem explicados. Explicar melhor com o exemplo.
III. Perguntas e comentários envolvendo os símbolos gráficos *10, 11, 12 Pergunta simples Perguntas mais objetivas e acréscimo de exemplo Deixar mais claro
IV. Emissão de sons verbais #13, 14, 15 e 16 Não tem Perguntas sobre emissão verbal Inserir perguntas para investigar as vocalizações

#Conteúdo incluído;

*Conteúdo modificado

No primeiro eixo, “Intenção comunicativa”, a criança é avaliada quanto ao interesse pelos símbolos gráficos, se os utiliza para se comunicar, ou se a comunicação se dá por meio de gestos, se responde utilizando o olhar, ou com mais de um recurso de comunicação, se inicia uma interação utilizando o símbolo gráfico.

No eixo “Manejo funcional dos símbolos gráficos”, o roteiro se propõe a avaliar a criança quanto ao compartilhamento dos símbolos gráficos, de forma espontânea, quando solicitada, ou reproduzindo a utilização feita pelo outro.

No eixo “Respostas ao estímulo verbal e não verbal”, ou seja, envolvendo perguntas e comentários mediados pelos símbolos gráficos, são avaliadas as respostas da criança quando o terapeuta se expressa apenas verbalmente, ou quando utiliza, como suporte, os símbolos gráficos ou gestos.

Por fim, no último eixo, “Emissão de sons verbais”, é verificado se a criança emite algum tipo de som com intenção comunicativa, mostrando ou olhando os símbolos gráficos, se emite sons somente de forma contextualizada, ou com entonação (Anexo 1).

O instrumento CSA_Linguagem apresentou-se com conteúdo diferente do que foi inicialmente proposto, incorporando grande parte das sugestões de modificações realizadas por parte dos juízes, tornando o instrumento mais claro, simples, objetivo e com instruções mais claras sobre os procedimentos de aplicação e pontuação.

DISCUSSÃO

No formulário de avaliação preenchido pelos juízes, ficou clara a necessidade de reformulação da versão preliminarmente elaborada pela pesquisadora, visando dar maior clareza e objetividade às instruções e procedimentos de aplicação, assim como à redação dos itens que compõem o instrumento, especificando as habilidades avaliadas. Tais contribuições estão de acordo com o que se postula sobre o processo de construção e elaboração do conteúdo de um instrumento (23,25,26).

Analisando as sugestões dos juízes, no que se refere aos itens que compõem o instrumento, verificou-se que, muitas delas, estavam de acordo com o como recomendado pela ASHA (American Speech-Language-Hearing Association), em documento que especifica o papel e as responsabilidades do fonoaudiólogo, frente à CSA (4). Esse documento técnico coloca a ausência de testes padronizados de avaliação na CSA e alguns princípios gerais são recomendados, no que se refere a procedimentos de avaliação.

Verificou-se, dentre as modificações sugeridas pelos juízes para o CSA_Linguagem, a preocupação com aspectos mencionados no documento, como a necessidade de melhor descrever e definir o local de aplicação e a presença de acompanhantes, por exemplo. Da mesma forma, houve a preocupação em detalhar e descrever melhor de que forma podem ser observadas as manifestações do paciente, no sentido de se comunicar, o que pode ser constatado nas sugestões para cada um dos itens, como, por exemplo, a importância das respostas a estímulos verbais e não verbais.

Nesse mesmo documento, é possível encontrar instruções quanto à necessidade de avaliar habilidades de comunicação e identificação de contextos para que essas habilidades possam ser promovidas e aprimoradas como parte do processo de intervenção futura(4). Observa-se que tais recomendações estão de acordo com os princípios balizadores, a partir dos quais foi elaborado o CSA_Linguagem, especificamente no que diz respeito à estruturação do instrumento em torno de eixos interacionais que envolvem diferentes contextos.

Verificou-se, na área, um predomínio de trabalhos cujas bases se ancoram nesse tipo de concepção de linguagem, em que a comunicação se reduz a apenas algumas de suas funções. No entanto, a elaboração dos princípios que norteiam o conteúdo do instrumento CSA_Linguagem, assim como as observações sugeridas pelos juízes aqui consultados, buscaram, na medida do possível, abordar de forma mais abrangente as dificuldades das crianças com necessidades complexas de comunicação.

A versão final do roteiro foi assim aprimorada, especialmente quanto à introdução e instruções para a aplicação e foram mais bem explicados os conteúdos pertinentes aos pressupostos teóricos da proposta.

Nessa direção, o instrumento CSA_Linguagem propõe parâmetros que auxiliam o fonoaudiólogo a avaliar as possibilidades e limites da utilização da CSA, diante dos recursos simbólicos e de linguagem de cada sujeito.

O objetivo proposto foi contemplado, no sentido de avançar no processo de validação de conteúdo de um instrumento de avaliação, na perspectiva da CSA.

CONCLUSÃO

A elaboração do CSA_Linguagem contou com o levantamento de dados e colaboração de profissionais experientes na construção de um instrumento complexo. A população com necessidades complexas de comunicação, público-alvo para aplicação desse instrumento, é heterogênea e com condições de linguagem complexas, o que dificulta o levantamento de dados e padronização de elementos a serem inseridos na avaliação. Contudo, a elaboração e validação de conteúdo do CSA_Linguagem foi concluída com sucesso.

Esta pesquisa tem limitações, na medida em que não há instrumentos de avaliação de linguagem padronizados, que considerem a CSA como possibilidade de comunicação. Sendo assim, não foi possível atender ao critério de comparação do CSA_Linguagem com outro(s) roteiro(s) disponível (is), para efeitos de validação do instrumento.

O instrumento proposto não pretende suprir a avaliação de linguagem, mas fornecer subsídios e abrir horizontes pra a reflexão de possibilidades de comunicação, além da oralidade. Acredita-se que possa subsidiar pesquisadores e clínicos na investigação de possibilidades da CSA, em sujeitos com necessidades complexas de comunicação, no tocante à identificação de habilidades e possibilidades importantes para a aquisição e desenvolvimento da linguagem.

Anexo 1. Instrumento CSA_Linguagem

INSTRUMENTO DE AVALIAÇÃO DE LINGUAGEM UTILIZANDO A COMUNICAÇÃO SUPLEMENTAR E ALTERNATIVA

Nome: ________________________________________ Responsável: _____________________________________

Data de nascimento: ___/___ /__ Idade: _______ Gênero: () F () M

Nível de escolaridade: () Creche () Pré-escola () não escolarizada

Introdução: Este instrumento tem por objetivo avaliar as possibilidades do uso de símbolos gráficos como estratégia de comunicação em crianças com necessidades complexas de comunicação e assim promover discussão sobre os ajustes necessários em situações conversacionais que podem ser direcionadas a partir de um sistema de CSA para utilização na terapia fonoaudiológica.

Orientações para aplicação do instrumento:

Local: Criança (C.) e terapeuta (T.) sozinhos em uma sala, preferencialmente pequena e sem atrativos visuais para haver o menos possível de dispersão e dificuldade de manutenção de foco e atenção. Se a criança demandar um acompanhante, o mesmo poderá ser admitido, recebendo instrução de não interferir.

Duração proposta: dez minutos de interação livre com a utilização dos símbolos gráficos (sugeridos abaixo). Em caso de recusa pela criança, anotar a duração específica a cada sujeito.

Contexto da atividade: T. se apresenta à criança e interage livremente visando estabelecer comunicação verbal e/ou não verbal. Mostra os três blocos de símbolos gráficos descritos abaixo, apresentando um tema por vez, independentemente da ordem. Faz comentários e perguntas a respeito, enquanto apresenta os símbolos. T. deve apontar, pegar o símbolo gráfico e fixá-lo em uma prancha com velcro, buscando sempre o estabelecimento de atividade dialógica. Por exemplo: “Uma maçã! Ah eu adoro maçã!” ou “Um trem! Piuí!” ou “Que porquinho fofo!” ou “Vamos cantar uma música?”. Sempre falando e mostrando.

Material: Devem ser elaborados cartões em papel e plastificados individualmente. Sugestão de tamanho: 10 x 10 cm. Foram selecionados quatro símbolos gráficos agrupados em três categorias semânticas, sugeridos a partir de elementos presentes no repertório infantil, considerados como motivadores sociais e culturais. Por exemplo: meios de transporte (carro, trem, caminhão, bicicleta), animais (cachorro, gato, galinha, porco) e músicas (sapo, dona aranha, palma e pintinho amarelinho) ( Figura 1 ).

Figura 1 Símbolos gráficos sugeridos do Picture Communication Symbols 

Procedimento de coleta de dados: As atividades devem ser integralmente filmadas com câmera fixa, para posterior análise dos itens descritos no instrumento. As respostas de cada questão devem ser assinaladas:

() não () às vezes () sim. Obervações: _____________

I. Intenção comunicativa

A criança:

1. Mostra interesse pelos símbolos gráficos? Ex: A criança olha atentamente ou fixamente para o símbolo

2. Comunica-se por meio dos símbolos gráficos? Ex: A criança pega o símbolo, vocaliza e entrega para o terapeuta

3. Comunica-se por meio de gestos? Ex: A criança pega na mão do terapeuta, puxa, cutuca ou aponta algo.

4. Responde a algum comentário ou pergunta utilizando o olhar? Ex: T. pergunta: “Cadê o caminhão?” A criança olha para o símbolo do caminhão.

5. Responde com mais de um recurso de comunicação? Ex: A criança olha, aponta o símbolo, vocaliza e olha novamente para T. em resposta a algo.

6. Inicia uma interação utilizando o símbolo gráfico? Ex: A criança pega o símbolo, entrega para T. iniciando um diálogo ou uma interação.

II. Manejo funcional dos símbolos gráficos

A criança:

7. Compartilha o significado dos símbolos gráficos de forma espontânea? Ex: A criança aponta uma figura e olha para T. espontaneamente.

8. Compartilha o significado dos símbolos gráficos somente quando solicitado pela T? Ex: T. pergunta e apresenta dois símbolos como opção de resposta, “Esse ou esse?” A criança pega um dos símbolos.

9. Utiliza os símbolos gráficos reproduzindo a utilização feita por T? Ex: T. retira um símbolo da prancha, a criança faz o mesmo.

III. Respostas ao estimulo verbal e não verbal (perguntas e comentários envolvendo os símbolos gráficos)

A criança

10. Responde quando T. se expressa apenas verbalmente? Ex: T. fala “Vamos cantar parabéns?” A criança sorri e bate palmas.

11. Responde com o suporte dos símbolos gráficos utilizadas por T.? Ex: T. diz: “Vamos cantar essa música?” (mostrando um símbolo). A criança começa a vocalizar na melodia da música representada.

12. Responde com o suporte de gestos utilizados por T.? Ex: T. gesticula uma música (batendo palma). C. olha, sorri e vocaliza cantando a música representada.

IV. Emissão de sons verbais

A criança

13. Emite algum tipo de som com intenção comunicativa?

14. Emite sons mostrando ou olhando os símbolos gráficos?

15. Emite sons somente de forma contextualizada?

16. Emite som com entonação?

Trabalho realizado no Programa de Pós-graduação em Fonoaudiologia, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC – São Paulo (SP), Brasil.

Financiamento: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), nº 88887.151937/2017-00.

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Recebido: 06 de Julho de 2018; Aceito: 17 de Outubro de 2018

Conflito de interesses: Não.

Contribuição dos autores: LMGW pesquisadora principal, concepção e delineamento do estudo, levantamento da literatura, coleta, análise e interpretação dos dados, redação do artigo, submissão e trâmites do artigo, responsável pela coleta de dados e escrita do texto; MCC supervisão, elaboração do estudo, análise e interpretação dos dados, correção e revisão do artigo.

Autor correspondente: Luciana Maria Galvão Wolff. E-mail: luwolff@uol.com.br

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