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Audiology - Communication Research

versão On-line ISSN 2317-6431

Audiol., Commun. Res. vol.23  São Paulo  2018  Epub 03-Dez-2018

http://dx.doi.org/10.1590/2317-6431-2018-2006 

Artigo Original

Processos de designação e substituição semântica usados por crianças falantes de Português Europeu numa prova de vocabulário

Sandra Cristina Araújo Ferreira1 

Anabela Cruz-Santos2 

1 Programa de Pós-graduação em Estudos da Criança, Instituto de Educação – CIEd, Universidade do Minho – Braga, Portugal.

2 Instituto da Educação – CIEd, Universidade do Minho - Braga, Portugal.

RESUMO

Objetivo

Este estudo teve por objetivo a análise e quantificação dos processos de designação e substituição semântica apresentados na prova do vocabulário do Teste de Linguagem Infantil ABFW, padronizado no Brasil e adaptado para Português Europeu (PE), assim como a comparação dos resultados obtidos nos dois países, de forma a analisar a pertinência da sua extensibilidade à população portuguesa.

Métodos

A prova foi aplicada a 150 crianças de 5 e 6 anos de idade, de desenvolvimento típico, na Região Norte de Portugal. A prova é constituída por nove categorias conceituais e cada categoria formada por diferentes vocábulos, que foram avaliados sempre pela mesma ordem sequencial.

Resultados

A amostra mostrou desempenho inferior, em relação à norma, apenas nas categorias semânticas vestuário, locais e alimentos. Todas as outras categorias revelaram desempenho superior. As categorias do vocabulário que apresentaram maior percentagem de respostas corretas foram: animais, formas e cores e brinquedos e instrumentos musicais . As categorias que apresentaram percentagem superior de processos de substituição, em relação à norma, foram alimentos e locais. Os processos de substituição mais utilizados foram: substituição por co-hipônimo, vocábulos que designam atributos semânticos, valorização do estímulo visual, hiperônimos e parassinônimos.

Conclusão

Dada a homogeneidade dos resultados deste estudo com os resultados obtidos em outros estudos no Brasil, esta prova revela potencialidades como instrumento de avaliação do vocabulário em Portugal.

Palavras-chave:  Vocabulário; Linguagem; Designação; Substituição; Avaliação

INTRODUÇÃO

É consensual que a linguagem é indispensável na vida de um ser humano que, ao existir como um ser social, necessita se comunicar e manter o contato com os outros. São várias as definições de linguagem, mas, de uma forma geral, pode-se defini-la como o processo utilizado por grupos de indivíduos, em que é atribuído significado a um conjunto de sons, palavras, gestos e símbolos para que possam se comunicar uns com os outros(1,2). Deste modo, os falantes/ouvintes de uma língua aprendem as regras de um sistema linguístico, para poderem comunicar. Perceber como se desenrola este processo ajuda a determinar se uma criança tem um desenvolvimento normal, de acordo com os parâmetros adequados a sua faixa etária, ou se apresenta um padrão anormal de desenvolvimento da linguagem(3).

A aquisição de vocabulário torna-se um dos marcos mais notórios, no que diz respeito ao desenvolvimento linguístico(4,5), como também na identificação e diagnóstico de uma alteração mais importante da linguagem, como a perturbação específica da linguagem(6,7), pois é o que apresenta maior evolução em idades mais precoces (8,9).

Como é do conhecimento geral, numa criança de desenvolvimento típico os primeiros itens lexicais surgem, aproximadamente, com 1 ano de idade(10,11). Nesta fase inicial, as palavras são adquiridas lentamente (entre uma e três palavras novas por semana). Por volta dos 15 meses de idade, a criança poderá ter um vocabulário até dez palavras, mas já poderá ser capaz de compreender até cerca de 20 palavras(3). Por volta dos 20 meses de idade, ocorre uma expansão bastante acentuada, sendo que o vocabulário da criança pode chegar até 50 palavras. A velocidade de aquisição das palavras aumenta cada vez mais, podendo chegar a oito palavras novas por semana. Aos 2 anos, o vocabulário da criança pode estar entre as 200 e as 500 palavras e ela pode compreender muito mais palavras, para além destas(3,12). O período pré-escolar é um dos períodos de maior crescimento lexical. Aos 3 anos de idade, as crianças podem apresentar um vocabulário expressivo, entre 900 e 1000 palavras. Aos 4 anos, o seu vocabulário expressivo chega a 1500 palavras, sendo capaz de se exprimir melhor, com um comprimento médio, por enunciado, de 4,71 palavras(3,13). Aos 5 anos, a criança pode ultrapassar as 2000 palavras no seu vocabulário expressivo(3). Nesta idade, as suas frases já são mais longas, mostrando maior complexidade da sua expressão, aumentando notavelmente o número de vocábulos por enunciado(13). Aos 6 anos de idade, o seu vocabulário compreensivo pode variar entre 20000 e 24000 palavras e é capaz de possuir um vocabulário expressivo que pode variar entre 2600 e 7000 palavras(2,3,12). Aos 5/6 anos, o vocabulário (campo lexical) de uma criança já é muito semelhante ao campo lexical de um adulto, ainda que o vocabulário continue a desenvolver-se até a idade adulta, de acordo com a experiência, ambientes (casa, escola) e contextos nos quais está inserida(14-17). Salienta-se o impacto da aquisição e desenvolvimento do vocabulário como ferramenta necessária para o sucesso de áreas académicas (leitura, escrita, etc.)(1-3).

Estudos sobre essa matéria mostraram que, em primeiro lugar, vem a aquisição das palavras referentes a objetos, ações e acontecimentos mais facilmente percetíveis. Só depois são adquiridas as palavras mais genéricas, relacionadas a classes, categorias e determinados tipos de objetos e ações mais complexos(4,18). Existe, ainda, outro fator que parece influenciar a estrutura organizacional lexical, a frequência das palavras, ou seja, a frequência com que as palavras são usadas no meio envolvente da criança, nas experiências e palavras a que são expostas diariamente. As palavras usadas com mais frequência são reconhecidas pelas crianças, mais rapidamente e mais objetivamente do que as palavras utilizadas poucas vezes, com baixa frequência, o que sugere que a maior frequência da palavra facilita o processamento conceptual(19-22).

À medida que o léxico da criança se expande, aumenta a necessidade de melhor organização entre as palavras e, assim, vão se formando novas relações e conexões semânticas, permitindo à criança perceber e enunciar palavras cada vez mais complexas e desenvolver noções gramaticais (2,22,23).

As crianças com problemas na linguagem demonstram mais dificuldades do que as outras crianças em adquirir novas relações e conexões semânticas e fazem-no mais lentamente(22). Manifestam essas dificuldades muitas vezes associadas às hesitações, disfluências, reformulações e processos de substituições de palavras(16,17,24,25). Adicionalmente, estas crianças usam, com grande frequência, um grande número de palavras sem uma referência clara (por exemplo, coisa, isto, aquilo, aqui, ali)(2). Uma criança com distúrbios relacionados com a semântica mostra-se capaz de aprender palavras de determinadas classes, principalmente relacionadas com objetos, mas mostra, posteriormente, ter problemas em aprender palavras de classes mais abstratas ou figurativas(2,16,18). Tal como já foi referido, à medida que o vocabulário da criança vai aumentando, ela vai sendo capaz de restringir, cada vez mais, os termos e os seus significados, passando do geral para o específico, mas uma criança com perturbações na linguagem vai utilizando e aplicando sempre os mesmos termos gerais, com o passar do tempo(2,26).

Em Portugal, ainda é notória a escassez de instrumentos que avaliem a linguagem e, especificamente, alguns componentes da linguagem que permitam perceber todos esses processos do seu desenvolvimento. No Brasil, para avaliação da linguagem e dos processos inerentes à sua aquisição, é utilizada, com frequência, a prova de vocabulário do Teste de Linguagem Infantil ABFW (ABFW - Teste de Linguagem Infantil nas Áreas de Fonologia, Vocabulário, Fluência e Pragmática) (16), tanto no campo da investigação, como no campo clínico, avaliando crianças com desenvolvimento típico, mas também crianças com perturbações específicas da linguagem, com perturbações fonológicas e surdez(16,17,27). O instrumento analisa, em diferentes categorias linguísticas, os métodos utilizados pelas crianças para a designação do vocabulário e a tipologia dos processos de substituição que utiliza, na tentativa de nomear a palavra (figura) apresentada.

Esta prova foi anteriormente adaptada para o Português Europeu (PE) e revela ter potencialidades como instrumento de avaliação do vocabulário, designadamente na identificação precoce de dificuldades da linguagem, em crianças portuguesas de 5 e 6 anos falantes do Português Europeu(27). Contudo, é importante comparar os resultados das duas populações, principalmente no que diz respeito aos processos de designação e substituição semântica que as crianças utilizam, o que poderá reforçar a pertinência da sua aplicabilidade e padronização para a população portuguesa.

Sendo assim, este estudo teve o objetivo de avaliar um grupo de crianças nas faixas etárias de 5 e 6 anos, na área do vocabulário, em Portugal, analisando e quantificando os processos de designação e substituição semântica utilizados nos 118 vocábulos apresentados na prova do vocabulário (Parte B) do Teste de Linguagem Infantil ABFW(16), e comparar com os resultados obtidos no Brasil.

MÉTODOS

Este estudo foi autorizado pelo Conselho Científico da Universidade do Minho, depois de terem sido assegurados todos os aspetos de confidencialidade e anonimato dos dados.

Participantes

Para este estudo, foi utilizado o método de amostragem não probabilístico, amostragem por conveniência, por critérios geográficos e facilidade de acesso. Foi, então, reunido um grupo de 150 crianças, das quais, 75 com idades compreendidas entre 5 anos e 5 anos e 11 meses e as outras 75 com idades compreendidas entre 6 anos e 6 anos e 11 meses, ou seja, crianças que frequentavam o ensino pré-escolar e o 1º ano do 1º ciclo do ensino básico da Região Norte de Portugal.

Os professores identificaram as crianças deste estudo como sendo de desenvolvimento típico, monolíngues, tendo o Português como língua materna. As crianças foram avaliadas no início do ano letivo, pelos professores do ensino regular, por meio de escalas/inventários informais de rastreio, de forma a rastrear crianças com e sem suspeitas de perturbações do desenvolvimento. Estes inventários consistem numa lista de itens/comportamentos, que descrevem competências ao nível da linguagem compreensiva e de produção, que podem ser cotados em dois parâmetros (tem adquirido, não tem adquirido) (10).

Para prosseguir o projeto, foi entregue aos pais, para assinatura, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), explicando os objetivos e os procedimentos do estudo e, também, garantindo o anonimato e confidencialidade das informações adquiridas.

Instrumento

Para este trabalho, foi utilizado, como instrumento, a prova do vocabulário (Parte B) do Teste de Linguagem Infantil ABFW(16). Esta prova é constituída por nove áreas lexicais, que devem ser sempre avaliadas na mesma ordem sequencial. Cada área lexical é composta por diferentes vocábulos/figuras/itens.

Para que a sua utilização fosse adequada para o contexto de Portugal, adaptaram-se 26 vocábulos, mantendo a imagem original: sandália (sapatilha), coruja (mocho), pintinho (pintainho), cachorro (cão), viatura (carro de polícia), foguete (foguetão), caminhão (camião), ônibus (autocarro), trem (comboio), sanduíche (sandes), macarrão (massa), pipoca (pipocas), banana (ananás), abajur (candeeiro), geladeira (frigorífico), privada (sanita), pia (lavatório), xícara (chávena), barbeiro (cabeleireiro), fazendeiro (agricultor), policial (polícia), marrom (castanho), violão (viola), gangorra (balancé), escorregador (escorrega) e balanço (baloiço) (27).

Deste modo, fazem parte do campo conceitual do vestuário dez vocábulos, sendo eles: bota; casaco; vestido; boné; calças; pijama; camisa; sapatilha; sapato; bolsa/mala. Fazem parte do campo conceitual dos animais 15 vocábulos: pássaro; coruja/mocho; gato; pintainho; vaca; cão; pato; galinha; cavalo; porco; galo; urso; elefante; leão; coelho. Fazem parte do campo conceitual dos meios de transporte 11 vocábulos: barco; navio; carro de polícia; carro; helicóptero; avião; foguetão; camião; bicicleta; autocarro; comboio. Fazem parte do campo conceitual dos alimentos 15 vocábulos: queijo; ovo; carne; salada; sandes/sanduíche; sopa; massa; alface; pipocas; maça; banana; cenoura; cebola; ananás; melancia. Fazem parte do campo conceitual dos móveis e utensílios 24 vocábulos: cama; cadeira; cómoda; ferro; tábua de passar; candeeiro; frigorífico; sofá; fogão; mesa; telefone; sanita; lavatório; chávena; garfo; copo; faca; frigideira; panela; prato; colher; pente; pasta dos dentes; toalha. Fazem parte do campo conceitual das profissões dez vocábulos: cabeleireiro; dentista; médico; agricultor; bombeiro; carteiro; enfermeira; polícia; professora; palhaço. Fazem parte do campo conceitual dos locais 12 vocábulos: montanha; igreja; sala de aula; rua / estrada; prédio; cidade; estátua; estádio; loja; jardim; floresta; rio. Fazem parte do campo conceitual das cores e formas dez vocábulos: preto; azul; vermelho; verde; amarelo; castanho; quadrado; círculo; triângulo; retângulo. E por último, fazem parte do campo conceitual dos instrumentos musicais e brinquedos 11 vocábulos: casa; tambor; viola; corda; piano; robô; balancé; patins; escorrega; baloiço; apito.

As 118 palavras/figuras que fazem parte da prova foram apresentadas às crianças num álbum, em tamanho de 12 cm × 21 cm, fornecido pelas autoras do instrumento.

Procedimentos

Para a realização deste estudo, foram previamente concedidas as devidas autorizações dos respetivos estabelecimentos de ensino, assim como dos encarregados de educação de todas as crianças. Os pedidos de autorização explicavam os objetivos e os procedimentos do estudo e também asseguravam o anonimato e confidencialidade de toda a informação obtida, respeitando os requisitos exigidos pela Comissão Ética da Universidade do Minho.

Depois da obtenção das autorizações necessárias, foram marcados os dias para a realização das provas.

No dia marcado, todos os jardins de infância e escolas disponibilizaram um espaço reservado e sossegado para a aplicação do instrumento. As provas foram aplicadas individualmente, em tempo letivo, e cada criança demorava entre dez e 20 minutos para a sua concretização. A prova foi aplicada a todas as crianças submetidas à avaliação, sempre da mesma maneira. Os nove campos conceituais foram avaliados sempre na mesma ordem sequencial, tal como a exibição das figuras. Em cada uma das figuras, foram aguardados dez segundos para que a criança pudesse responder. Nos casos em que as crianças não responderam, passou-se à figura seguinte.

As respostas das crianças foram gravadas em arquivo de áudio e, posteriormente, transcritas para uma folha de registo individual de respostas.

Nos casos em que a criança utilizou o vocábulo usual, foi assinalado o termo DVU (designação do vocábulo usual). Nos casos em que a criança não respondeu, ou respondeu “não sei”, foi assinalado o termo ND (não designação). Por último, nos casos em que a criança usou outra designação para o vocábulo em causa, foi assinalado o termo PS (processo de substituição) e, à frente, inserida a tipologia do vocábulo substituído. A tipologia destes vocábulos foi atribuída segundo os processos de substituição apresentados pelas autoras da prova: modificação da categoria gramatical; substituição por hiperônimo; substituição por co-hipônimo (próximo ou distante); substituição por hipônimo; substituição por parassinônimos; criação de neologismo por analogia morfo-semântico-sintática; substituição por vocábulos que designam os atributos semânticos; substituição por paráfrases culturais; substituição por designação de funções; substituição por atributo de co-hipônimo; valorização do estímulo visual; utilização de onomatopeia;

Os dados foram analisados estatisticamente por meio do software SPSS, versão 21. Para a comparação dos resultados alcançados com os valores de referência do ABFW, foi usado o Teste t. Foram adotados valores de significância de p menores que 0,05.

RESULTADOS

Na amostra deste estudo, verificou-se um desempenho inferior ao esperado, nas categorias conceituais vestuário, alimentos e locais. Todas as outras categorias conceituais apresentaram uma percentagem de DVU superior à esperada. Verificou-se, através da análise estatística, diferença significativa entre todas as categorias conceituais, no que respeita aos valores obtidos e aos valores esperados ( Tabela1 ).

Tabela 1 Tabela percentual geral de designação usual do vocábulo, processos de substituição e não designação nas diferentes categorias, para o desempenho esperado e para o desempenho alcançado  

Categorias DVU PS ND
% A %E p %A %E p %A %E p
Vestuário 70 80 <0,001 * 27,5 20 <0,001* 2,4 0 <0,001*
Animais 85,5 70 <0,001* 12,0 10 0,008* 2,47 20 <0,001*
Meios de transporte 78,6 70 <0,001* 19,55 25 <0,001* 1,81 5 <0,001*
Alimentos 75,7 90 <0,001* 18,73 5 <0,001* 5,6 5 0,207
Móveis e utensílios 74,8 65 <0,001* 20,04 30 <0,001* 5,17 5 0,778
Profissões 61,7 45 <0,001* 33,9 30 0,007* 4,4 25 <0,001*
Locais 47,2 70 <0,001* 48,17 25 <0,001* 4,58 5 0,319
Formas e cores 88 85 0,002* 9,1 10 <0,001* 2,8 5 <0,001*
Brinquedos e instrumentos musicais 83,6 70 <0,001* 11,82 20 <0,001* 4,54 10 <0,001*

*Diferença estatística (p≤0,05) – Teste t

Legenda: % A= percentagem alcançada; % E = percentagem esperada; DVU = designação usual do vocábulo; PS = processos de substituição; ND = não designação; p = valor de significância

Os campos semânticos que manifestaram maior percentagem de respostas corretas foram: formas e cores, animais, brinquedos e instrumentos musicais e meios de transporte ( Tabela 1 ).

Em relação à utilização de PS, as categorias que registraram uma percentagem expressivamente mais elevada do que o esperado foram: locais e alimentos ( Tabela 1 ). Todos os outros campos revelaram uma percentagem muito semelhante e até inferior à esperada. Confirmaram-se diferenças estatisticamente significativas entre as várias categorias conceituais, no que concerne aos valores obtidos e esperados ( Tabela 1 ).

Relativamente às ND, as categorias animais, meios de transporte, profissões, formas e corese brinquedos e instrumentos musicais expressaram uma percentagem inferior à esperada, enquanto a categoria vestuário obteve percentagem superior à esperada. Nos restantes campos conceituais, não existiram diferenças estatisticamente significativas, no que se refere às ND ( Tabela 1 ).

As tipologias de processos de substituição mais significativamente utilizadas foram, respectivamente, substituição por co-hipônimo, substituição por vocábulos que designam seus atributos semânticos, valorização do estímulo visual, substituição por hiperônimo, substituição por parassinônimo ou equivalente, substituição por designação de funções, modificação da categoria gramatical e substituição por hipônimo ( Tabela 2 ).

Tabela 2 Frequência de uso das diferentes tipologias de processos de substituição  

Tipologia de PS Frequência de uso
Modificação da categoria gramatical 186
Substituição por hiperônimo 345
Substituição por co-hipônimo 1873
Substituição por hipônimo 116
Criação de neologismo por analogia morfo-semântico-sintática 10
Criação de vocábulo foneticamente expressivo 0
Substituição por parassinônimo ou equivalente 286
Substituição por vocábulos que designam seus atributos semânticos 429
Substituição e/ou complementação de semiótica verbal por não verbal 0
Substituição e/ou complementação de semiótica verbal por gesto indicativo 0
Substituição por paráfrases culturais 24
Substituição por designação de funções 207
Substituição por atributo de co-hipônimo 4
Substituição por paráfrases afetivas 0
Valorização do estímulo visual 392
Utilização de onomatopeia 11
Segmento ininteligível 0

Legenda: PS = processos de substituição

DISCUSSÃO

Os campos lexicais que apresentaram pior desempenho, neste estudo, coincidiram com os de outros estudos realizados anteriormente, vestuário(27), locais(17,27-29) e alimentos(17,27).

As categorias que obtiveram desempenho superior, ou seja, as que revelaram estar mais consolidadas diferiram, em certa medida, dos resultados de referência da prova ABFW, para as mesmas faixas etárias, uma vez que as categorias que apresentaram maior percentagem de designação do vocábulo usual, referencialmente, foram vestuário , alimentos, locais e formas e cores(16,27). O campo conceitual formas e cores foi o único que esteve entre as categorias que apresentaram resultados superiores, tanto neste estudo, como no estudo de referência.

Já em outro estudo realizado no Brasil, com crianças de 6 e 7 anos de idade, as categorias que apresentaram desempenho superior foram: animais, meios de transporte, formas e cores, móveis e utensílios(17). Outro estudo brasileiro, com crianças de 5 anos, demonstrou que as categorias que apresentaram desempenho superior nas crianças de desenvolvimento típico foram: animais, alimentos, meios de transporte e móveis e utensílios(28). Existe ainda outro estudo, realizado com a prova ABFW, com crianças de 5 anos, em que as categorias com desempenho mais elevado foram: animais , meios de transporte, móveis e utensílios e vestuário(29). Em todos esses trabalhos, aparecem em evidência as categorias animais e meios de transporte como as mais adquiridas pelas crianças, tal como se verificou nesta pesquisa.

Relativamente aos processos de substituição, os resultados deste estudo coincidiram, em grande parte, com os resultados de referência, nos quais as categorias que apresentaram maior utilização de processos de substituição foram: móveis e utensílios, profissões , locais e meios de transporte(16). Também em outros estudos, as categorias que apresentaram maior percentagem de processos de substituição foram: locais e profissões(17,28). Estes resultados sugerem que as palavras que compõem estas categorias são usadas com menos frequência, pois as palavras usadas com mais frequência são reconhecidas pelas crianças mais rapidamente e objetivamente do que aquelas que são utilizadas poucas vezes, o que indica que a maior frequência da palavra facilita o processamento conceitual(19-22). Além disso, existem pesquisas que afirmaram que a familiaridade e a frequência dos objetos/conceitos no dia a dia das crianças são importantes, pois isso permite a ativação do acesso lexical através da memória, em curto e longo prazo(29). Pode-se deduzir, a partir destas referências, que esses campos conceituais devem ser mais bem trabalhados e mais abordados, tanto nas escolas, como em ambiente familiar.

Quanto à tipologia desses processos de substituição, as mais utilizadas pelas crianças foram, respectivamente: a substituição por co-hipônimo (a criança substitui os vocábulos por palavras da mesma categoria que lhes sejam mais familiares); substituição por vocábulos que designam seus atributos semânticos (a criança identifica qualidades da imagem); valorização do estímulo visual (a criança nomeia um elemento que se destaca na figura); substituição por hiperônimo (a criança substituiu um vocábulo por outro mais genérico); substituição por parassinônimos (a criança utiliza outro vocábulo que tenha significado semelhante); substituição por designação de funções (a criança descreve a função do vocábulo com vocabulário que lhe é mais familiar)(17). Estes resultados estão de acordo com outros estudos realizados no Brasil, que obtiveram exatamente a mesma ordem de utilização, relativamente às tipologias de substituição(17,30).

No que se refere às ND, as percentagens observadas foram sempre inferiores, em todos os estudos realizados, não existindo diferenças de percentagens significativas entre as diferentes categorias, indicando que as crianças optam, quase sempre, por utilizar um processo de substituição para designar um vocábulo, em vez de não o designar(17,29).

Os resultados desta pesquisa apresentaram muitas similaridades, tanto com os resultados de referência, principalmente no que diz respeito ao desempenho global das DVU e às categorias que apresentam maior percentagem de processos de substituição, como com outros estudos realizados no Brasil, que utilizaram a prova de vocabulário ABFW, com relação às categorias com um desempenho superior e à percentagem obtida das ND.

Estes dados reforçam as conclusões de um estudo anterior, que refere esse instrumento como indicativo de potencial para a avaliação do vocabulário de crianças em Portugal. O estudo comparou o desempenho entre as diferentes faixas etárias, em Portugal e no Brasil, e também analisou a validade interna da prova, através do coeficiente Alpha de Cronbach, tendo sido considerada muito boa (.859). Os dados de confiabilidade indicam que a prova revelou-se consistente, contribuindo para a prática clínica e educacional, também naquele país(27).

As diferenças encontradas podem ter ocorrido devido a uma realidade sociolinguística diferente(17,27,28,30), o que aponta para a necessidade da utilização de ferramentas culturalmente adaptadas, além da necessidade de valorizar outras variáveis sociais, como o nível cultural da família, as habilitações acadêmicas dos pais/cuidadores e a condição socioeconômica, entre outras variáveis(17,27-30).

Este estudo teve como limitações uma amostra de conveniência, a restrição das faixas etárias avaliadas e a ausência de análise das variáveis anteriormente assinaladas. No entanto, estas restrições podem conduzir a pesquisas futuras, com forte contributo científico para a área da linguagem, culminando com a aferição da prova ao nível nacional

CONCLUSÃO

Uma vez que os resultados obtidos neste estudo revelaram um desempenho elevado em todas as categorias conceituais da prova de vocabulário ABFW, exceto locais , e que apresentaram muitas similitudes com outros estudos realizados no Brasil, nomeadamente no que se refere às categorias de vocabulário melhor apreendidas, esse instrumento poderá vir a ser utilizado com a população portuguesa, para as faixas etárias especificadas, com as devidas adaptações culturais e linguísticas.

Trabalho realizado na Universidade do Minho – Braga, Portugal.

Financiamento: Este trabalho foi financiado pelo CIEd – Centro de Investigação em Educação, projetos UID/CED/1661/2013 e UID/CED/1661/2016, Instituto de Educação, Universidade do Minho, Braga, Portugal, através de fundos nacionais da FCT/MCTES-PT.

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Recebido: 23 de Abril de 2018; Aceito: 19 de Outubro de 2018

Conflito de interesses: Não

Contribuição dos autores: SCAF pesquisador principal, elaboração da pesquisa, elaboração do cronograma, levantamento da literatura, coleta e análise dos dados, redação do artigo, submissão e trâmites do artigo; ACS orientador, elaboração da pesquisa, elaboração do cronograma, análise dos dados, correção da redação do artigo, aprovação da versão final.

Autor correspondente: Sandra Cristina Araújo Ferreira. E-mail: sandracris3180@gmail.com

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