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Audiology - Communication Research

On-line version ISSN 2317-6431

Audiol., Commun. Res. vol.24  São Paulo  2019  Epub Mar 28, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/2317-6431-2018-2070 

Artigos Originais

A inclusão da disciplina de Libras nos cursos de licenciatura: visão do futuro docente

Luci Teixeira Iachinski1 

Ana Paula Berberian1 

Adriano de Souza Pereira1 

Ana Cristina Guarinello1 
http://orcid.org/0000-0002-6954-8811

1 Universidade Tuiuti do Paraná – UTP – Curitiba (PR), Brasil.

RESUMO

Objetivo

Descrever a percepção de acadêmicos de licenciatura a respeito da disciplina Língua Brasileira de Sinais - Libras, quanto à sua organização e importância na formação profissional, bem como o entendimento dos acadêmicos sobre a Libras e a surdez.

Métodos

Foi realizada uma pesquisa com 59 acadêmicos de duas universidades localizadas em uma cidade no Sul do Brasil, que cursavam licenciaturas e que já haviam finalizado essa disciplina. A coleta dos dados ocorreu por meio da aplicação de questionário sobre a disciplina de Libras, sua organização e propósito.

Resultados

Notou-se, nas respostas dos discentes, que a organização e o funcionamento da disciplina, pelos docentes, parecem seguir uma tendência de ensino de vocabulário e gramática da língua, em detrimento de questões mais abrangentes sobre a surdez, os surdos e sua própria inclusão. A maioria dos participantes afirmou que a disciplina teve um impacto importante na sua visão com relação aos surdos e à Libras.

Conclusão

Destaca-se a necessidade de mais estudos relacionados à inserção da disciplina de Libras nos cursos de licenciatura, para que os discentes não tenham contato apenas com a língua de sinais, enquanto sistema linguístico, mas sim com discussões mais abrangentes a respeito da educação de surdos.

Palavras-chave:  Linguagem de sinais; Ensino superior; Surdez; Legislação; Inclusão educacional

INTRODUÇÃO

A educação dos surdos no Brasil vem sendo amplamente discutida, ao longo das últimas décadas. No que diz respeito a medidas que promovam a acessibilidade desta parcela da população, a Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002 (1) reconheceu a Língua Brasileira de Sinais - Libras como meio de comunicação e expressão da comunidade surda e o Decreto 5.626/2005(2) assegurou o direito dos estudantes surdos à Educação. Tais documentos ainda estipulam a obrigatoriedade da inserção da disciplina de Libras nos cursos de formação de professores, incluindo as licenciaturas e os cursos de Fonoaudiologia.

Uma pesquisa(3) esclareceu que a obrigatoriedade da disciplina de Libras nas licenciaturas é relevante tanto para a desmistificação de conceitos equivocados a respeito da surdez, quanto para o favorecimento dos futuros professores no uso de uma prática pedagógica mais eficaz que beneficie pessoas com surdez na escola regular e a difusão da língua de sinais neste ambiente.

Outra pesquisa(4) explicitou a importância do conhecimento da Libras por parte dos profissionais, principalmente dos futuros educadores que atuarão com crianças e adolescente surdos no ensino regular. Tal pesquisa também esclareceu que o uso da Libras no ensino regular pode favorecer o processo de ensino-aprendizagem dos alunos surdos. Além disso, as autoras argumentaram que, quando a disciplina de Libras é ministrada no ensino superior, pode proporcionar a mobilização dos professores nas instituições e na comunidade, a fim de que utilizem estratégias e práticas de ensino diferenciadas, propiciando a inclusão dos surdos usuários de língua de sinais.

A inclusão da disciplina de Libras no ensino superior é fundamental, uma vez que pode auxiliar os futuros docentes na compreensão de seus alunos surdos e na interação mais efetiva em sala de aula(5).

Apesar de várias pesquisas(6-8) salientarem a importância da disciplina de Libras durante o ensino superior, estudos realizados em torno dessa temática(3,9) questionaram se apenas uma disciplina ministrada ao longo de um curso de graduação seria suficiente para que, de fato, os professores estivessem preparados para atuar com alunos surdos em sala de aula.

Em vista disso, analisar como essa disciplina vem sendo ministrada é fundamental e, portanto, outros estudos e discussões sobre essa temática podem ser implantados, a fim de rever a sua função e formas de organização e aprofundar os estudos em torno dos processos de inclusão e acessibilidade dos surdos no Brasil.

O objetivo deste estudo foi descrever a percepção de acadêmicos de licenciatura a respeito da disciplina de Libras quanto à sua organização e importância na formação profissional, bem como o entendimento dos acadêmicos sobre Libras e surdez.

MÉTODO

Trata-se de um estudo transversal, de natureza mista, no qual foram realizadas análises qualitativa e quantitativa.

Os dados foram coletados em duas universidades particulares, localizadas em uma cidade no Sul do Brasil, que ofertavam cursos de licenciatura, doravante denominadas como Universidade 1 e Universidade 2 (U1 e U2).

Participaram do estudo 59 acadêmicos de licenciaturas, selecionados a partir do critério de inclusão de que já tivessem cursado a disciplina de Libras, mas que ainda estivessem frequentando o curso de licenciatura. Foram excluídos alunos que cursaram Libras antes do ingresso na universidade.

Na U1, foram selecionados 42 alunos matriculados nos cursos de Pedagogia, Ciências Sociais, Matemática e Física e, na U2, 17 alunos que cursavam Educação Física, História e Pedagogia. O número de participantes variou de um curso para outro, conforme a adesão à pesquisa. Ressalta-se que os alunos serão identificados pela letra P e pelos números de 1 a 59.

Em um primeiro momento, uma das pesquisadoras entrou em contato com os coordenadores dos cursos de licenciatura de cada instituição, a fim de obter a autorização para aplicação do questionário. Posteriormente, foi feito contato com os acadêmicos e agendados encontros em sala de aula. Após receberem explicações sobre o objetivo da pesquisa, cada participante assinou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Cada aluno, então, respondeu a um questionário que continha 18 perguntas abertas e fechadas a respeito da disciplina de Libras, sua organização e importância na formação profissional, além de questões sobre entendimento dos surdos e da surdez. Os questionários foram respondidos por escrito, sem a interferência da pesquisadora.

Para pesquisa qualitativa de viés exploratório, foi utilizada a análise de conteúdo(10), por meio da técnica categorial ou temática. Tal modalidade leva em consideração a frequência dos temas extraídos do discurso dos participantes, ou seja, parte do maior número de respostas similares, agrupando-as para organizar uma determinada categoria. Desta forma, ao identificar as categorias presentes na ordenação das respostas, foi possível manter aproximações entre as informações contidas e agrupá-las em três eixos de análise: Eixo 1 – Contato com pessoas surdas e conhecimento da língua de sinais, Eixo 2 - Organização da disciplina de Libras, Eixo 3 - Impacto da disciplina.

Para a análise quantitativa dos dados foi utilizada a estatística descritiva, com valores de frequência absoluta, frequência relativa, gráficos e tabelas. As variáveis foram analisadas por meio da observação dos valores mínimos e máximos, do cálculo de médias, de desvio padrão e de medianas.

Este projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Tuiuti do Paraná, sob o protocolo CAAE: 56025316.0.0000.0093.

RESULTADOS

Participaram desta pesquisa estudantes de duas universidades: Universidade 1 (U1), 42 estudantes, com uma média de idade de 22,38 anos, sendo 69% mulheres e 31% homens, oriundos dos cursos de Matemática, Física, Pedagogia e Ciências Sociais; Universidade 2 (U2), 17 alunos que cursavam os cursos de Educação Física, História e Pedagogia. A média de idade foi de 21,66 anos. Ao contrário da U1, 60% eram do gênero masculino e 40%, do gênero feminino, o que talvez tenha ocorrido devido aos cursos analisados.

Quanto ao período em que a disciplina de Libras ocorreu nas duas instituições de ensino, a maioria dos participantes cursou no 4º, 5º e/ou 6º período, com exceção dos graduandos de Pedagogia da U1, que a cursaram somente no último período.

Somando os universitários de ambas as instituições, percebeu-se que, do total de 59 participantes, 25 não trabalhavam e 34 trabalhavam. Dentre estes, 20 atuavam na área da Educação e os outros 14, em outras áreas.

Eixo 1: Contato com pessoas surdas e conhecimento da língua de sinais

Vinte e cinco participantes, ou seja, 42,37%, responderam que tiveram contato com algum surdo antes de entrar para a universidade. Dentre estes, 11 responderam que estudaram com alguém surdo; 3, que trabalharam com um surdo; 2, que possuíam familiares surdos e 9 participantes tiveram suas respostas agrupadas na categoria “outros”, por considerarem que já haviam tido contato com um surdo, pelo fato de já terem visto um, com respostas como, por exemplo, “observei surdos conversando no ônibus ”.

Os participantes também foram questionados se tinham algum conhecimento da Libras antes de entrarem na universidade. Dos 59 participantes, 17 (28,81%) responderam que sim e 13,55% dos participantes, ou seja, 8 pessoas disseram que conheciam o alfabeto manual e algumas noções básicas, antes de entrarem na universidade. Outros 6 participantes explicitaram que conheciam a Libras a partir da televisão, em geral, por meio da janela de intérprete em programas ou propagandas. Na categoria “outros” do questionário, pontuada por 3 participantes, obtiveram-se respostas como a de P4: “Acompanhei uma pessoa da família num curso específico de Libras”. Novamente, percebe-se que, apesar de alguns participantes terem respondido que conheciam a Libras, 9 evidenciaram, nas suas respostas, que a conheciam a partir da janela de intérprete, ou viram alguém utilizando a língua de sinais, fato que não caracteriza o conhecimento sobre a língua.

Eixo 2: Organização da disciplina de Libras

Com relação à organização da disciplina de Libras, os participantes responderam a respeito de sua visão sobre a carga horária da disciplina. De um total de 59 sujeitos, 43 afirmaram que esta não foi suficiente.

Os participantes também foram questionados com relação a quem ministrou a disciplina e se ela era teórica/prática/ensino a distância (EAD). Observou-se que, na U1, quem ministrava as aulas era uma docente ouvinte e as aulas eram teóricas, práticas e presenciais. Quando questionados se o docente da disciplina deveria ser surdo ou ouvinte, na U1, dos 42 alunos, 26 não responderam. Dentre os que responderam, apenas 3 afirmaram que o docente da disciplina deveria ser surdo. P3 justificou escrevendo: “Nos força a aprender mais. Já os outros 13 respondentes afirmaram que o fato de o docente ser surdo ou ouvinte era indiferente, pois, se o docente tiver o domínio do conteúdo isso não prejudica o aprendizado.

Já na U2, o docente era surdo. Dos 17 participantes, 10 não responderam à questão pela preferência por um docente surdo, 6 responderam que seria melhor que o docente fosse surdo, pois ministraria toda a aula em Libras, o que os forçaria a aprender mais, como na resposta do P5: “Pois exige que você pratique para se comunicar”. Apenas 1 aluno afirmou que o docente ouvinte seria melhor, justificando que, como os ouvintes falam Português, isso facilitaria o aprendizado, como na fala do P4: “Como ouvinte, é preciso ter um correspondente ”.

Quanto à disciplina ser teórica ou prática, dos 17 estudantes da U2, 3 responderam que a disciplina era apenas prática; 8 afirmaram que era teórico-prática; 3 mencionaram que era presencial; 1 não respondeu e 2 afirmaram que o docente era ouvinte e que a disciplina realizada por eles foi em modalidade EAD. Segundo estes estudantes, a disciplina deveria ser presencial e não à distância. Cabe esclarecer que as respostas divergiram na U2, pois, como os alunos são de cursos diferentes, alguns tiveram aulas presenciais e outros a distância.

Os conteúdos que, na visão dos participantes, deveriam ser aprofundados durante a disciplina, estão apresentados na Tabela 1 , na qual as respostas foram divididas em 5 subcategorias.

Tabela 1 Conteúdos da disciplina que deveriam ser aprofundados 

Eixo 2
Categoria 2
Número de participantes Percentagem
Vocabulário 10 16,94%
Práticas de sinais e conversação 7 11,86%
Aprofundamento de todos os conteúdos 5 8,47%
Outros 5 8,47%
Não responderam 32 54,24%
Total de participantes 59 100%

Fonte: Autores

Pôde-se notar que, dentre os participantes que responderam que o vocabulário da Libras deveria ter sido mais aprofundado, evidenciaram-se as respostas de P1 e P3, respectivamente: “Os próprios sinais, expressões, vocabulários ”; “Conteúdos mais do dia a dia, porque para início deveriam ser úteis e de uso”. Observou-se que esses participantes gostariam que o vocabulário da língua fosse mais trabalhado durante a disciplina, especialmente as expressões úteis para o cotidiano. Além disso, outros participantes gostariam de ter tido mais práticas com a língua de sinais e conversação, ou seja, conteúdos que levem em conta o uso da língua de sinais durante a conversação e não apenas o aprendizado de sinais isolados. Exemplos podem ser visualizados nas respostas de P2: “Desenvolver mais a prática com frases longas e até textos; P10: “ Principalmente a conversação, as frases de contextualizações e não termos soltos, como cores, transporte etc.”, e P1: “ Conteúdos sobre as bases, regras da linguagem, não somente a tradução simples de palavras, exemplo como gesticular objetos”. Cinco participantes responderam que gostariam que todo o conteúdo fosse aprofundado.

Agrupadas como “outros” se encontram respostas como a de P19: “ Políticas de inclusão, acredito que deveria ter uma carga horária maior”. Nesta categoria, algumas respostas também indicaram que os acadêmicos querem aprender sinais que, provavelmente, utilizariam em sala de aula com os estudantes surdos e que estão relacionados à sua área de atuação. Por exemplo, P4 respondeu que nas aulas deveriam ser trabalhados “conteúdos voltados à prática em que atuo, ou mais ligados ao curso de Pedagogiae P1: “ Palavras específicas da linguagem matemática”.

Eixo 3: Impacto da disciplina

Os participantes foram questionados a respeito dos aspectos positivos de cursar a disciplina de Libras e seus impactos. A distribuição das respostas é apresentada na Tabela 2 .

Tabela 2 Aspectos positivos de cursar a disciplina de Língua Brasileira de Sinais – Libras  

Eixo 3
Categoria 1
Número de participantes Percentagem
Comunicação e interação 19 32,20%
Conhecimento básico 17 28,81%
Inclusão do surdo 5 8,47%
Outros 8 13,55%
Não responderam 10 16,94%
Total de participantes 59 100%

Fonte: Autores

Dentre os participantes, alguns responderam que um aspecto positivo de cursar essa disciplina é a maior interação com surdos, como, por exemplo, a resposta de P1: “Um pouco de entendimento em Libras e uma maior interação com surdos”.

Outros participantes responderam que a disciplina os ajudou a adquirir conhecimentos básicos sobre a temática, conforme P2 afirmou: “Ter conhecimento básico com relação ao tema”.

Cinco participantes apontaram que a disciplina é importante para aprender a respeito da inclusão de surdos, como pode ser visualizado na resposta de P3: “ Conscientização sobre a importância da inclusão de pessoas com algum tipo de deficiência.

Dentre as respostas que foram classificadas na categoria “outros”, P4 afirmou: “Conhecer e praticar uma nova língua”.

Quando questionados se tiveram alguma dificuldade ao cursar a disciplina de Libras, 40 participantes (67,79%) responderam que não, sem justificar a resposta. Dentre os que responderam que sim, apontaram, como dificuldades, a parte motora da língua e a memorização de todos os sinais. Neste sentido, P38 afirmou que: “Um pouco de dificuldade na coordenação motora e alguns sinais são parecidos e acaba confundindo um pouco”.

Os participantes também foram questionados se, após cursar a disciplina de Libras, sentiam-se preparados para atuar como docentes de alunos surdos, sendo que apenas 3 (5%) responderam que sim. Ao justificar a resposta de que não estariam preparados, observou-se a seguinte afirmação de P5: “Não sei de uma aplicação desta linguagem em uma prática docente ”.

Quando questionados se consideravam importante a exigência do ensino da Libras nas licenciaturas, a maioria, 57 (91,52%) respondeu que sim e, dentre as justificativas, destacam-se as seguintes: P12: “A gente precisa saber se comunicar com os alunos surdos/mudos que podem estar em nossas futuras sala de aula.”; P5: “ Principalmente por causa da integração dessas pessoas. Acho que só isso não é suficiente, mas é um começo”.

Quando indagados a respeito do impacto da disciplina no conhecimento sobre os surdos e a língua de sinais, 42 participantes, ou seja, 71,18%, responderam a essa questão, conforme pode ser visualizado na Tabela 3 .

Tabela 3 Impacto da disciplina no conhecimento sobre os surdos e língua de sinais  

Eixo 3
Categoria 2
Número de participantes Percentagem
Entendimento/comunicação 14 23,72%
Libras/língua e linguagem 7 11,86%
Inclusão do surdo 3 5,00%
Outros 18 30,50%
Não responderam 20 33,89
Total de sujeitos 59 100%

Fonte: Autores

Do total dos participantes, alguns afirmaram que, a partir dessa disciplina, seu entendimento sobre os surdos aumentou, favorecendo a interação com essa parcela da população, como salientou P10:Conhecimento sobre o assunto e a possibilidade de interação”.

Já para outros participantes, a disciplina contribuiu para o aumento de seu conhecimento a respeito da língua de sinais, como pôde ser verificado na resposta de P2: “Compreender que a Libras é uma língua e tem a mesma relevância de aprender o inglês, por exemplo”.

Alguns participantes responderam que a disciplina impactou na maneira como percebiam a inclusão de surdos. Para P29, a disciplina desconstruiu preconceitos: “A cultura surda além de desconstruir alguns preconceitos”.

Na categoria “outros”, foram agrupadas respostas como a de P16: “ É uma maneira alternativa de se comunicar, não deve ser mistificada ”.

Foi perguntado aos participantes se achavam que precisariam de uma formação complementar em Libras, após cursar a disciplina e 48 (81,35%), responderam que sim.

Destaca-se que foi realizado um cruzamento com relação à idade dos participantes e algumas respostas do questionário. Na análise estatística realizada por meio do teste Qui-quadrado, ao nível de significância de 0,05 (5%), verificou-se a existência de relação significativa entre idade e a primeira questão (p=0,0009), ou seja, se já havia existido contato com surdos antes de entrar na universidade.

Quando realizado o cruzamento das perguntas com o gênero dos participantes, na análise realizada através do teste Qui-quadrado, ao nível de significância de 0,05 (5%), verificou-se que não houve relação significativa entre gênero e as questões consideradas, ou seja, não existiu influência dos gêneros nas respostas dessas questões.

DISCUSSÃO

Na análise das respostas referentes ao Eixo 1 – Contato com pessoas surdas e conhecimento da língua de sinais -, dentre os participantes que conheciam surdos antes da universidade, quase metade referiu ter estudado com algum surdo, durante seu período escolar. Este fato pode estar relacionado ao movimento de inclusão, a partir do qual um maior número de sujeitos surdos passou a estudar no ensino regular.

Os dados do Censo Escolar do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP)(11) apontaram que havia, em 2010, 70.823 estudantes com surdez e deficiência auditiva matriculados na Educação Básica. Destes, 22.249 estudantes com surdez e 30.251 com deficiência auditiva estavam matriculados nas escolas comuns de ensino regular. Entre 2003 e 2010, verificou-se uma taxa de crescimento de 105% no número de matrículas desse público, nessas instituições.

Com relação ao conhecimento da língua de sinais antes de entrar na universidade, os dados revelaram que alguns participantes responderam que conheciam o alfabeto manual. É preciso esclarecer que o alfabeto manual é utilizado na língua de sinais para permitir a soletração das palavras da Língua Portuguesa ao surdo; é utilizado para palavra que não possui sinal representativo(12).

Observou-se, além disso, que muitos participantes que responderam que conheciam a língua de sinais antes de entrar na universidade, na realidade, tinham apenas visto alguém utilizar a língua e sabiam que era a língua usada por surdos, mas não a conheciam realmente. Tais respostas podem ser justificadas pelo fato de a Libras ser uma língua nova, utilizada por uma minoria linguística brasileira.

Este estudo concordou com uma pesquisa(13) que demonstrou que as políticas linguísticas brasileiras, em geral, privilegiam a Língua Portuguesa como língua de maior impacto, especialmente nas práticas educacionais com os sujeitos surdos. Sendo assim, segundo a autora, as políticas de acessibilidade, que deveriam possibilitar o uso e a divulgação da Libras no ambiente escolar, não estão sendo colocadas em prática da maioria das escolas brasileiras. Essas políticas deveriam, sim, privilegiar o ambiente escolar como local para a apropriação e o uso da língua de sinais.

Com relação às respostas do Eixo 2, que se refere à organização da disciplina da Libras, a maioria dos participantes mencionou que a carga horária da disciplina não foi suficiente. É preciso esclarecer que a organização e a carga horária da disciplina não são especificadas na lei. Apesar disso, alguns estudos brasileiros(9,14,15) apontaram que a carga horária para o aprendizado da Libras tem se mostrado insuficiente. Segundo essas pesquisas, há certo desconhecimento por parte dos futuros docentes ou aprendizes, ao considerar que é possível aprender esse idioma em carga horária, muitas vezes, inferior a 50 horas.

A falta de diretrizes com relação à carga horária e à organização da disciplina de Libras, segundo um estudo(5), é preocupante e, além disso, aprender a língua de sinais de forma inadequada pode resultar em conhecimento equivocado da disciplina, dos surdos e da surdez.

Com relação à disciplina ser ministrada por professores surdos ou ouvintes, a maioria dos participantes respondeu que a condição auditiva do professor para a aprendizagem do aluno é indiferente. Vale ressaltar que a lei que regulamenta a disciplina evidencia a preferência e não a obrigatoriedade de sujeitos surdos para ministrar a disciplina. Uma pesquisa(10) afirmou que alguns estudantes ressaltaram a preferência por professores ouvintes, argumentando que os professores surdos possibilitaram que aprendessem apenas os conteúdos básicos. Já outra pesquisa(9), com dados próximos dos encontrados neste trabalho, demonstrou que os acadêmicos não apresentaram preferências por docentes surdos ou ouvintes, pois, para esses alunos, o que importa é a competência profissional e não o fato de serem ouvintes ou não.

Quanto ao conteúdo da disciplina de Libras, vários participantes explicitaram que gostariam que o vocabulário fosse mais aprofundado. Destaca-se que a disciplina tem sido ministrada, em algumas universidades, por meio de sinais isolados, tal como mencionado em um estudo(9) que argumentou que esse tipo de ensino não considera que a Libras seja uma língua de modalidade diferente, visual-espacial. Tal estudo referiu, ainda, que a Libras não deveria ser tratada como um sistema fechado, no qual o ensino parte de uma apostila que não leva em conta as interações dialógicas nessa língua e sim o uso de sinais soltos.

Outro aspecto abordado por alguns participantes desta pesquisa foi o de que não basta terem contato com ‘qualquer sinal’, ou seja, isso não é suficiente para sua atuação com alunos surdos. É preciso, sim, ter contato com sinais voltados ao curso universitário que estão frequentando. Esses dados vêm ao encontro de outro estudo(10), que investigou a disciplina de Libras nos cursos de licenciatura, quanto a sua implantação nas instituições de ensino superior (IES) estaduais e federais. No estudo, os acadêmicos afirmaram que um dos objetivos da disciplina de Libras deveria ser o trabalho com sinais específicos inerentes a cada área de atuação profissional.

Pode-se inferir, pelas respostas dos participantes de ambas as universidades, que os conteúdos trabalhados na disciplina de Libras enfatizaram, especialmente, a prática de sinais, sem levar em consideração aspectos discursivos da língua de sinais. É importante ressaltar que o aprendizado de alguns sinais da língua não ajudará esses futuros professores no contexto inclusivo de sala de aula com alunos surdos. Esta pesquisa concorda com outro estudo(3), quando evidenciou que somente o conhecimento básico da língua de sinais não é suficiente para proporcionar fluência ao futuro professor.

Quanto aos conteúdos que deveriam ser aprofundados na disciplina, destaca-se o fato de boa parte da amostra não ter respondido à questão. Pode-se deduzir que, talvez, para esses participantes a disciplina tenha cumprido seu papel e que mais nada precisaria ser aprofundado, ou que os participantes não fizeram uma reflexão mais crítica a esse respeito. Para vários acadêmicos, a disciplina de Libras é entendida como uma oportunidade para aprender sinais da língua de sinais.

Este estudo também concorda com uma pesquisa(5) que argumentou que, no planejamento da disciplina de Libras para a formação docente, deveria ser considerada a seleção de conteúdos, a fim de que a disciplina não se equipare a um curso básico de Libras. A singularidade linguística manifestada pelos alunos surdos poderia constituir-se como um dos objetivos principais para se inserir a língua de sinais no currículo das licenciaturas e outros cursos referidos no Decreto 5626/2005(2).

Os dados deste estudo confirmam os de outra pesquisa(16), que discorreu a respeito da implantação da disciplina de Libras em município do interior de São Paulo, em que os autores realizaram entrevistas com os gestores das universidades do mesmo município. Esse trabalho apontou que o objetivo da disciplina não é formar sujeitos bilíngues, mas sujeitos conhecedores de quem são os surdos. Além disso, o trabalho demonstrou que é preciso desconstruir a concepção de que a simples inclusão de uma disciplina no currículo da educação superior, por imposição legal, seja suficiente(9).

Pesquisa(3) evidenciou que o objetivo da disciplina de Libras na educação superior deveria ser o de dirigir o trabalho pedagógico do futuro professor, para que este possa ensinar, a seus alunos, a maneira como a língua se constituiu, contextualizando-a historicamente, socialmente e culturalmente. Desse modo, pode-se evidenciar que a disciplina não resolverá todas as questões inerentes à educação dos surdos, mas pode ser considerada como uma porta de entrada para novas lutas e conquistas da comunidade surda.

Quanto ao impacto da disciplina apresentado no Eixo 3, alguns participantes revelaram dificuldades ao cursar a disciplina, semelhantes às encontradas em outra pesquisa(9), que apontou que seus participantes tiveram dificuldades ao cursar a disciplina, em função da complexidade dos conteúdos, da coordenação motora ou memorização e da dificuldade de aprendizagem, devido à carga horária ser reduzida.

As respostas de alguns participantes deste trabalho também demonstraram que frequentar a disciplina de Libras os auxiliou no conhecimento a respeito dos surdos e da língua de sinais. Tais respostas estão de acordo com o resultado de outras pesquisas(9,16), em que os participantes também afirmaram que, a partir da disciplina, adquiriram mais conhecimentos para se comunicarem com os sujeitos surdos. Da mesma forma que em outra pesquisa(14), a língua de sinais também é vista pelos participantes como um meio de interação entre surdos e ouvintes. Segundo o estudo, o conhecimento da língua de sinais é considerado fundamental para uma atitude favorável, que refletirá na prática desse profissional dentro da escola(16).

Assim, entende-se que a Libras é uma língua que facilita a assimilação dos aspectos culturais e sociais de quem a utiliza. Neste sentido, outra pesquisa(16) argumentou que o educador que reconhece os surdos e sua língua de direito pode estar mais preparado para o desenvolvimento de sua autonomia, pois, uma vez que reconhece a língua do outro, pode interagir com ele e, inclusive, empoderá-lo no seu agir.

Os dados aqui coletados demonstraram que a Libras ainda é uma disciplina nova e que as universidades, docentes e discentes estão, aos poucos, delimitando sua organização. Observou-se, tanto na literatura como nos dados apresentados, que a disciplina está acontecendo, o que demonstra que a lei está sendo colocada em prática nesse quesito, já que, a partir de 2005, as universidades tinham dez anos para inserir a disciplina como curricular obrigatória nos cursos de licenciatura.

Notou-se, também, pelas respostas dos discentes, que a organização e o funcionamento da disciplina pelos docentes parecem seguir uma tendência de ensino de vocabulário e gramática da língua, em detrimento de questões mais abrangentes sobre a surdez, os surdos e a própria inclusão. Também na visão dos discentes, a carga horária da disciplina é insuficiente, já que a maioria afirmou que se a carga horária destinada à disciplina fosse maior, poderia vir a se tornar proficiente na língua.

É possível evidenciar a necessidade de uma formação discente mais abrangente, que leve em conta as demandas de cada curso, o tempo, o espaço e a transitoriedade dos acontecimentos. Por ser a Libras uma língua em formação, utilizada por uma minoria linguística, parece não existir, ainda, por parte dos governantes e da própria sociedade, a mesma ênfase dada à Língua Portuguesa. Desse modo, constata-se que, apesar de previsto na lei que as escolas devem ser bilíngues e que os estabelecimentos de ensino e instituições sociais deveriam garantir seu uso e difusão, o Brasil é ainda um país monolíngue. Para que essa língua seja mais respeitada, é preciso reflexão e realização de projetos, valorizando a Libras e seus usuários, para que estes tenham mais possibilidades de acesso cultural, social, econômico e político.

CONCLUSÃO

Os participantes deste estudo, discentes de cursos de licenciatura, percebem, em sua maioria, a disciplina de Libras como importante para sua formação profissional. Antes de cursar a disciplina, a maior parte deles não havia tido nenhum tipo de contato com pessoas surdas e nem com a língua de sinais. Sendo assim, a disciplina foi fundamental para ampliar seus conceitos a respeito dos surdos e da língua de sinais.

Discutir sobre a organização e funcionamento da disciplina é fundamental para que se possa refletir sobre a sua importância para a acessibilidade dos surdos no ensino básico. Pode-se inferir que a carga horária e a organização da disciplina não tornam o discente fluente em língua de sinais, a ponto de garantir que esses futuros profissionais tenham condições de promover a inclusão dos alunos surdos em sala de aula.

Destaca-se a necessidade de mais estudos relacionados à inserção da disciplina de Libras nos cursos de licenciatura, para que os discentes não tenham contato apenas com a língua de sinais, enquanto sistema linguístico, mas sim com discussões mais abrangentes a respeito da educação de surdos.

Trabalho realizado no Programa de Pós-graduação em Distúrbios da Comunicação, Universidade Tuiuti do Paraná – UTP, vinculado ao Laboratório de Linguagem, UTP – Curitiba (PR), Brasil.

Financiamento: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) – Brasil. Código de financiamento 001.

REFERÊNCIAS

1 Brasil. Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002. Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - Libras e dá outras providências. Diário Oficial da União [Internet]; Brasília; 2002 [citado em 2018 Agosto 27]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10436.htm [ Links ]

2 Brasil. Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a Lei no 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - Libras, e o art. 18 da Lei no 10.098, de 19 de dezembro de 2000. Diário Oficial da União [Internet]; Brasília; 2005 [citado em 2018 Agosto 27]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/decreto/d5626.htm [ Links ]

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Recebido: 27 de Agosto de 2018; Aceito: 21 de Novembro de 2018

Conflito de interesses: Não.

Contribuição dos autores: LTI e ACG foram responsáveis pela concepção e delineamento do estudo, coleta, análise e interpretação dos dados, redação do artigo e aprovação final da versão a ser publicada; ASP e APB contribuíram com a análise e interpretação dos dados, elaboração e redação do artigo e com a aprovação final da versão a ser publicada.

Autor correspondente: Ana Cristina Guarinello. E-mail: ana.guarinello@utp.br

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