SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.28EXERCÍCIO RESISTIDO MELHORA A ANSIEDADE E DEPRESSÃO DE MULHERES DE MEIA-IDADEA VIOLÊNCIA RITUAL NAS AULAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Journal of Physical Education

versão On-line ISSN 2448-2455

J. Phys. Educ. vol.28  Maringá  2017  Epub 24-Ago-2017

http://dx.doi.org/10.4025/jphyseduc.v28i1.2821 

Artigo Original

COMPORTAMENTOS OFENSIVOS DIANTE DE DIFERENTES CENÁRIOS DEFENSIVOS NO HANDEBOL A PARTIR DA OPINIÃO DE TREINADORES EXPERIENTES

OFFENSIVE ASPECTS IN TEAM HANDBALL ON DIFFERENT DEFENSIVE SCENARIOS

Rafael Pombo Menezes1 

Heloisa Helena Baldy dos Reis2 

1Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto-SP, Brasil.

2Universidade Estadual de Campinas, Campinas-SP, Brasil.

RESUMO

O objetivo desta pesquisa foi identificar, a partir dos discursos dos treinadores de handebol, as variáveis ofensivas relevantes diante de diferentes sistemas defensivos (fechados, abertos e mistos). Para isso, foram entrevistados quatro técnicos de handebol a partir de um modelo de entrevista semiestruturada. Os dados foram tabulados e analisados com base no método do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC) e revelou que, diante dos diferentes cenários técnico-táticos apresentados, é necessário recorrer a elementos técnico-táticos específicos e a mudanças na estruturação do sistema ofensivo. A variabilidade dos elementos técnico-táticos diante de diferentes contextos defensivos revela uma possível eficácia desses para resolver situações-problema específicas. As variáveis reveladas podem servir como uma diretriz para o processo de ensino-aprendizagem-treinamento da fase ofensiva do jogo em diferentes categorias.

Palavras-chave: Pedagogia do esporte; Esportes coletivos; Handebol; Tática ofensiva.

ABSTRACT

The aim of this work was to identify offensive relevant variables on different defensive systems (closed, open and combinated), from the speeches of team handball coaches. Were interviewed (semi-structured) four handball coaches. Speeches were transcribed, tabulated and analyzed using the Collective Subject Discourse (CSD) method. The analysis of results revealed that front of different technical and tactical scenarios presented, it is necessary to use specific technical and tactical elements and changes in the offensive system structure. The variability of the technical and tactical elements on different defensive contexts reveals a possible effectiveness of these to solve specific situations. Revealed variables can serve as a guideline for the process of teaching-learning-training of the offensive phase in different team handball categories.

Keywords: Sport pedagogy; Team Sports; Team Handball; Offensive tactics.

Introdução

O panorama complexo do cenário técnico-tático dos jogos esportivos coletivos (JEC) sofre influências diretas das ações dos jogadores que possuem ou não a bola e das pressões de tempo, espaço e situação em um determinado contexto do jogo1),(2, que integram um sistema de referência complexo com vários componentes3. O handebol, assim como outros JEC que possuem características como a oposição e a invasão, é marcado pelos embates entre atacantes e defensores, nos quais não são possíveis prever os deslocamentos e as ações de cada jogador (antecipadamente) e, consequentemente, os resultados desses embates.

As relações de oposição entre atacantes e defensores são influenciadas por fatores técnico, táticos, emocionais e da preparação física4, bem como pela seleção de um determinado sistema de jogo (ofensivo ou defensivo) e pela disposição dos jogadores em seus postos específicos. Essas relações entre os jogadores e as suas tomadas de decisão, muitas vezes marcadas pela imprevisibilidade, proporcionam variações do cenário técnico-tático do jogo e a manutenção de sua complexidade5),(6.

Ao longo do processo de ensino-aprendizagem-treinamento (EAT) no handebol, quanto mais se aproxima da fase de especialização ou do alto nível competitivo7 maiores são as demandas referentes ao conhecimento tático e ao domínio das suas habilidades específicas. A combinação do repertório motor dos jogadores (execução das habilidades) com o conhecimento tático desses (procedimentos relacionados à interação entre os jogadores e a resolução das situações-problema) influencia a variabilidade do cenário técnico-tático e, ao mesmo tempo, exige um alto grau de adaptabilidade dos jogadores. Esse processo é conduzido pela capacidade de percepção, formulação da resposta e tomada de decisão1),(8)-(10.

Diante dessa dinâmica complexa e dicotômica das relações de cooperação e oposição, motivada pela conquista de vantagens (numéricas e espaciais) por ambas as equipes, se espera dos jogadores uma rápida adaptação e variabilidade das ações, sejam essas individuais ou coletivas. É requerida uma adaptação no plano organizacional4, referente à construção de uma tática (ou plano de jogo) coletiva a partir do conjunto individual de táticas, na qual a combinação (e não a soma) das táticas individuais com as grupais e coletivas passa a ser preponderante à eficácia na referida fase do jogo.

Durante a fase defensiva, os jogadores organizam-se em um sistema específico que apresenta como eixos norteadores os princípios operacionais propostos por Bayer11: recuperar a posse da bola, dificultar a progressão do adversário e proteger o alvo (dificultar a finalização). Para contemplar essas premissas os defensores utilizam elementos técnico-táticos dentro do contexto estratégico-tático para o qual o sistema defensivo foi elaborado. Em contrapartida, na fase ofensiva Bayer11 e Gréhaigne e Godbout12 destacam os seguintes princípios norteadores: manter a posse da bola, progredir em direção ao alvo adversário e anotar o ponto (ou o gol).

Diante desse sistema dinâmico e complexo, a opinião dos treinadores de diferentes JEC tem se apresentado como uma importante fonte de estudos seja para mapear questões pedagógicas, para buscar parâmetros relevantes na análise do jogo ou, ainda, para a formação desses profissionais13),(14),(15),(16. Por conseguinte, as entrevistas com treinadores podem fornecer importantes parâmetros que permitam identificar aspectos técnicos e técnico-táticos esperados para a obtenção de vantagens em situações específicas.

A função do treinador demanda um conhecimento muito específico dentro da modalidade17, seja esse de cunho técnico, técnico-tático ou dos aspectos referentes à preparação física, que podem ser utilizados nas avaliações do processo de EAT18. Especificamente em relação aos aspectos técnicos e técnico-táticos ressalta-se que o treinador é responsável por planejar e conduzir o processo de EAT para a formação de jogadores críticos que consigam intervir de maneira contextualizada diante das situações-problema que o jogo lhes apresenta19.

Apresenta-se, portanto, como um problema pertinente à atuação dos treinadores e dos jogadores, a necessidade de apresentar comportamentos técnico-táticos variados quando confrontados com diferentes contextos do jogo, como os cenários configurados pela escolha de um ou outro sistema defensivo pelos adversários. Esta justificativa é dada diante das características de cada sistema defensivo, a iniciar pela distribuição dos jogadores nos espaços da quadra.

Os sistemas defensivos no handebol podem se estruturar, basicamente, individuais, zonais e mistas. As zonais podem ser apresentadas em estruturas fechadas (como o 6:0) e em estruturas abertas (como 5:1, 4:2, 3:3, 3:2:1 e 1:5)7),(20. Esses sistemas são considerados zonais pelo fato dos jogadores comporem zonas defensivas, diferentemente dos sistemas individuais (nos quais cada defensor é responsável pela marcação de um atacante) e dos sistemas mistos (que englobam características dos sistemas individuais e zonais)21),(22. Nesta pesquisa foram considerados os três tipos de sistema defensivo: os fechados, os abertos e os mistos.

Relacionando-se ao eixo central desta pesquisa, a opinião dos treinadores é importante por partir de vivências que permitam interrogativas sobre os comportamentos ofensivos considerados relevantes diante de cenários defensivos variados, possibilitando compreender a estruturação dos sistemas ofensivos e comportamentos técnico-táticos dos atacantes frente à dinâmica do jogo e às situações-problema apresentadas pelos defensores.

Considerando a tríade apresentada (cenário defensivo, importância dos treinadores e comportamentos ofensivos) o objetivo desta pesquisa foi identificar os comportamentos técnico-táticos ofensivos mais importantes diante da apresentação dos sistemas defensivos fechados, abertos e mistos, pautando-se na opinião de treinadores de handebol experientes.

Métodos

Quatro treinadores de handebol (S1, S2, S3 e S4) compuseram a amostra, com média de idade de 46,3 (±5,3) anos e média do tempo de atuação profissional de 23,5 (±7) anos. Os critérios para inclusão na amostra se constituíram da participação como membro da comissão técnica da Seleção Brasileira feminina em um dos três ciclos Olímpicos (entre 2004 e 2012) ou treinadores que foram finalistas na Liga Nacional de Handebol feminino ou no Campeonato Brasileiro de Handebol feminino até a data da coleta dos dados.

Dos quatro treinadores entrevistados, um foi finalista do Campeonato Brasileiro e os demais participaram da comissão técnica da Seleção Brasileira feminina. Destes, dois apresentam diploma de curso superior em Educação Física, um apresenta diploma de curso superior em outra área do conhecimento e um não apresenta diploma de curso superior. Todos os entrevistados assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), aprovado por um Comitê de Ética em Pesquisa institucional (parecer CEP 094/2011).

A natureza descritiva dos dados coletados (tendo o pesquisador como instrumento) e a ênfase aos elementos da experiência humana23 justificam a opção por uma pesquisa de caráter qualitativo. Aspectos como o contexto no qual se manifesta o conhecimento dos indivíduos, a atenção do pesquisador com os significados atribuídos aos processos (e não produtos), a análise indutiva dos dados24 e a interpretação de aspectos concernentes à complexidade do comportamento humano25 também são características desta pesquisa.

A entrevista se apresenta como um importante meio de obtenção de dados na pesquisa qualitativa24, na qual o pesquisador objetiva coletar informações que não seriam possíveis em uma pesquisa bibliográfica ou de observação26. Optou-se por um instrumento de entrevista semiestruturada pelos possíveis desdobramentos a partir dos questionamentos básicos24 e pela liberdade do pesquisador para explorar amplamente as questões25. As entrevistas se justificam pela possibilidade de buscar uma compreensão dos aspectos técnico-táticos em diferentes situações de jogo, como os diferentes sistemas defensivos adotados pela equipe adversária, objeto de estudo desta pesquisa.

O instrumento de entrevista foi composto por três perguntas, para mapear as variáveis ofensivas diante de três cenários diferentes: a) “diante de adversários que adotam sistemas defensivos fechados (como o 6:0), o que você espera que seus jogadores façam?”; b) “diante de adversários que adotam sistemas defensivos abertos (como o 3:3, 4:2 ou 5:1), o que você espera que seus jogadores façam?”; c) “diante de adversários que adotam sistemas defensivos mistos (como o 5+1 ou 4+2), o que você espera que seus jogadores façam?”.

As entrevistas foram realizadas a partir de agendamento prévio em local e horário diferentes das atividades profissionais do treinador, sendo gravadas na íntegra. A transcrição foi iniciada no mesmo dia da mesma para manter a fidedignidade aos discursos ainda latentes para o pesquisador27.

Os discursos foram tabulados e analisados de acordo com o método do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC)28),(29, que se baseia em questionamentos de caráter discursivo referentes aos pensamentos e às opiniões sobre o tema proposto. Há a construção e representação do pensamento da coletividade a partir de trechos contínuos e/ou descontínuos dos discursos de cada treinador, mantendo a coerência com cada uma das partes que o compõe.

O DSC é composto por três figuras metodológicas28),(29: as ideias centrais (IC, que representa a descrição fidedigna e objetiva de um determinado discurso acerca da temática, possibilitando a redução da polissemia dos discursos); as expressões-chave (ECH, que são transcrições literais de trechos dos discursos referentes a uma IC); e o DSC (redigido na primeira pessoa do singular a partir das ECH com a mesma IC). Na apresentação dos DSC será identificada a procedência da fala de forma sobrescrita (S1, S2, S3, S4)14),(15.

Resultados e discussão

As ações dos jogadores devem ser orientadas para a resolução das situações-problema com as quais são confrontados, e que devido à complexidade do ambiente dinâmico de jogo, são exigidos numerosos programas de ação, com diversas soluções, em que a mais adequada seja selecionada em um curto período de tempo2),(3. Em um mesmo jogo, por exemplo, os atacantes podem se deparar com os três cenários aqui apresentados (utilização de diferentes sistemas defensivos) na tentativa de recuperação da posse da bola ou, ainda, de não demonstrar um comportamento estereotipado que possa servir de referência para os atacantes desenvolverem suas táticas nos planos individual e coletivo.

Diante dessa necessidade de resolução das situações-problema específicas aos diferentes sistemas defensivos, os treinadores priorizam elementos técnico-táticos (individuais e coletivos), conforme verificado nos DSC a seguir. Para contemplar a diversidade dos cenários, esta seção está subdividida em quatro elementos: comportamentos diante de sistemas defensivos fechados, abertos e mistos, além da análise dos cenários em um panorama geral.

Diante de sistemas defensivos fechados

Quando os treinadores se referem ao jogo ofensivo diante de sistemas defensivos fechados (como o 6:0) são apontadas diferentes possibilidades individuais, grupais e coletivas, sintetizadas no DSC1 (originário da IC-1: “Utilização de diferentes elementos técnico-táticos”, mencionadas por S1, S2 e S4):

“Quando minha equipe joga contra adversários que adotam sistema defensivo 6:0 entendo que os cruzamentos são importantesS1,S4; não podemos esquecer da continuidade do jogo a partir de um cruzamento, que vai depender se o defensor avança ou nãoS2. Os cruzamentos entre os armadores são uma opção de jogo ofensivo, daí conseguimos observar o comportamento dos defensores da região central da quadraS2. Os bloqueios ofensivos são interessantes contra a defesa 6:0 em duas situações: uma quando os defensores se movimentam lateralmente seguindo a bola [em basculação]S4, e quando esta retornar, o pivô faz o bloqueio para a infiltraçãoS1; e outra quando os defensores avançam para tentar roubar a bola ou atrapalhar um passe, que faz com que se produza espaço nas costas para o jogo com o pivôS2. Normalmente a defesa marca muito bem no meio, então uma possibilidade que aparece é o engajamento para que a bola chegue para os pontas, que deve ser um ponto forte das equipes que jogam contra o 6:0S1. Treino os pontas para jogarem bem abertos, jogar bastante com larguraS4, mas para isso a bola tem que ir e voltar, para fechar o meio da quadra e permitir o arremesso do pontaS1. A pantalla permite arremessos de longas distâncias em situações como as cobranças de falta, sem que haja a interferência de um defensorS2. Como no sistema defensivo 6:0 há a preocupação com as infiltrações, pode aparecer a troca de postos específicosS4. As variações nas trajetórias aparecem de uma forma interessante porque os defensores tentam proteger a região central da quadra, então precisa de movimentação para produzir espaçosS1. Outra situação que acho interessante é quando o segundo defensor avança, que eu gosto de provocar o armador central a ir nesse espaçoS2. Eu acredito que a ação individual seja importantíssima também, principalmente o trabalho de 1x1 baseado nas fintasS1”.

Dentre os elementos técnico-táticos grupais e coletivos os treinadores apontam preferência por cruzamento, troca de postos específicos, bloqueio ofensivo e pantalla, justificados pela possibilidade de continuidade do jogo e pela criação de superioridade numérica, que permitem o arremesso de longas distâncias ou infiltrações30. Elementos como o cruzamento e a troca de postos específicos visam alterar a relação de oposição direta31, enquanto o bloqueio ofensivo se caracteriza como um elemento no qual o atacante dificulta o deslocamento do defensor para criar superioridade numérica para infiltração do jogador em posse da bola32.

Os treinadores também apresentam preferências por elementos como fintas, trajetórias e mudanças de direção das trajetórias, pela possibilidade de agregar imprevisibilidade ao jogo ofensivo, subsidiar o desenvolvimento de outras ações individuais, grupais e coletivas (tais como as apontadas no DSC1) e dar continuidade às ações dos demais atacantes.

No DSC2 foram abordados os arremessos de longa distância (IC-2: “Arremesso de longa distância”, opinião compartilhada por S1, S2 e S4), principalmente quando os defensores adversários posicionam-se muito próximos à linha da área e não deixam seus setores:

“Os arremessos de longa distância podem ser eficazes contra a defesa 6:0, principalmente se os defensores ficam próximos à linha da áreaS1,S2,S4. Se o adversário adota um sistema fechado e ofensividade [em linha de tiro], você procura trabalhar mais com os jogadores da primeira linha ofensiva com arremessos de longeS2,S4. Com a defesa em linha de tiro eu acredito que um jogo forte de longa e meia distância vai ser importanteS2”.

Esses se justificam diante de sistemas defensivos fechados nos quais os defensores posicionam-se próximos uns dos outros em linha de arremesso sem que haja flutuação, dificultando as tentativas de penetrações sucessivas (engajamento). Um exemplo dessa situação é o sistema defensivo 6:0 em basculação (ou bloco defensivo), caracterizado pela proximidade entre os jogadores que se deslocam no mesmo sentido da circulação da bola, formando o bloco defensivo33.

Nesse cenário, no qual há a intenção de dificultar as infiltrações, o jogo com o pivô e com os pontas, a opção adotada pelos treinadores são os arremessos de longas distâncias. Pelo fato dos defensores não flutuarem, essa pode ser uma estratégia efetiva para anotar o gol e, como consequência desse tipo de ação, provocar a saída dos defensores da linha de 6m e facilitar o posterior jogo com o pivô. Aliado a isso, Bota e Pereira32 sugerem o bloqueio frontal do pivô para auxiliar o arremesso de longa distância sem oposição.

De maneira geral, a variabilidade das ações ofensivas é tratada de forma central nos discursos que se referem ao contexto diante de defesas fechadas, seja pela menção de diferentes elementos técnico-táticos (DSC1), ou ainda por apontar trocas de posições e/ou funções dos jogadores que culminam em mudança no sistema ofensivo, como verificado no DSC3 (IC-3: “Mudança temporária de sistema ofensivo”, apresentada por S2 e S4):

“A mudança de sistema ofensivo, mesmo que temporária, pode confundir a defesa adversária, principalmente quando a característica dos defensores é de dissuadir para dificultar a circulação da bola. Um dos armadores se desloca para a posição de pivô, principalmente o central, pra ver o que vai resolver a defesa adversáriaS2. A circulação de jogadores aparece como um fator importante contra a defesa 6:0S4, principalmente dos pontas que buscam espaços produzidos pelos armadores ou pelo pivôS2”.

Essa mudança temporária implica na ocupação temporária do posto de pivô pelos armadores e/ou pontas, como o início do ataque em sistema 3:3 clássico com transformação para 3:3 com dois pivôs, 2:4 ou 4:231. Tais transformações buscam aumentar a complexidade do jogo para os defensores, nas quais a mudança de cenário pode sinalizar para que tenham que controlar novas e/ou diferentes variáveis.

Bota e Pereira32 sugerem que diante da defesa 6:0 o sistema ofensivo pode priorizar o jogo com dois pivôs a partir de mudanças no sistema ofensivo, seja pela ocupação desse posto específico por um ponta ou por um armador. É importante ressaltar que se prioriza o aumento da incerteza para o adversário, ao passo que possibilita a produção de espaços em decorrência dos deslocamentos dos defensores durante a reorganização de seu sistema.

Diante de sistemas defensivos abertos

Quando os treinadores são indagados sobre o jogo ofensivo diante de sistemas defensivos abertos é unânime a recorrência às transformações do sistema ofensivo (como a atuação de pontas e armadores como segundos pivôs), assim como diante das defesas fechadas (DSC3), conforme representado pelo DSC4 (IC-4: “Mudança temporária de sistema ofensivo”, expressados por S1, S2, S3 e S4):

“Tenho a mudança temporária de sistema ofensivo como uma excelente possibilidade de jogo, pois a defesa perde um pouco em largura e permite que vejamos melhor os espaços produzidosS3. Eu prefiro que um jogador da armação, preferencialmente, faça a transição de segundo pivôS1,S2, por exemplo o desdobramento do armador central pra onde está o pivô e o pivô troca de posiçãoS2. Geralmente o jogador que vai ocupar o posto de pivô deve estar do lado contrário à bolaS4”.

Essa mudança temporária é concretizada pela ocupação do posto específico de pivô por outro jogador, cuja circulação pode produzir espaços em diferentes setores da quadra. Para Antón García30 a circulação de jogadores visa surpreender o adversário a partir do jogo em um novo espaço e colaborar com os companheiros para o desenvolvimento de outros elementos técnico-táticos. Os treinadores entrevistados esperam que o fato de um jogador (em específico um dos armadores) ocupar temporariamente o posto de pivô provoque mudanças no sistema defensivo.

A opção de que jogadores que estão do lado oposto da quadra em relação à posição da bola ocupem essa função é explícita, principalmente pelo fato de servir como um “elemento surpresa” para o qual a atenção não está voltada naquele momento. Nota-se, ainda, o dinamismo do jogo ofensivo requerido nessas mudanças, principalmente quando essa ocupação é feita pelo armador central na mesma região da quadra na qual esteja o pivô, que demanda mudança de região por este. Torna-se explícita a tentativa de mudança das configurações dos sistemas que, do ponto de vista ofensivo, preocupa-se com o aumento da complexidade do ambiente de jogo2.

Os treinadores apontam também elementos técnico-táticos individuais, grupais e coletivos, agrupados no DSC5 (originário da IC-5: “Utilização de elementos técnico-táticos”, opinião compartilhada por S1, S2, S3 e S4):

“A situação de passa e vai também deve acontecer, mas precisa de coordenação muito legal entre passador e receptor, além de atacar os espaços interdefensivosS2. A orientação é que o jogador jogue sem a bolaS4, mas com atenção para manter um equilíbrio dos postos específicos em profundidade e largura, além da possibilidade de trabalhar o 1-2 com o pivôS2. O bloqueio ofensivo é um meio tático interessante, pois a correta execução nos defensores avançados pode produzir maiores espaçosS1. A mudança de direção de trajetória é importante, porque quando você tem uma defesa avançada, ela segue muito o setor da bola, soma o máximo de defensores possível na linha da bolaS1. Quando a defesa é mais aberta nós vamos ter muito mais deslocamentos dos defensores e dos atacantesS3. O desmarque é importante, pois se o jogador receber a bola desmarcado, já tem meio caminho andadoS1. A superioridade numérica pode ser conseguida a partir do ataque ao ímpar [fixação ímpar], por exemplo, do armador centralS2. Mas esse ataque ao ímpar só será eficiente se a circulação de bola for boaS1”.

Há menção a diferentes elementos técnico-táticos como o passa e vai e o bloqueio para a criar e aproveitar os espaços entre as linhas defensivas. Aliado a esses aspectos, aponta-se a preferência pela mudança de direção das trajetórias e pelo desmarque, também agregados à possibilidade de continuidade do jogo ofensivo a partir dos desequilíbrios defensivos.

Explicita-se, assim, a preocupação com a criação de um ambiente com ações ofensivas variadas na tentativa de dificultar as ações dos defensores tanto em profundidade quanto em largura na quadra. A criação de um ambiente de incertezas para os defensores (a partir da utilização de elementos técnico-táticos variados) pode ampliar as possibilidades de êxito para os atacantes, uma vez que haverá a constante perturbação do sistema defensivo adversário por mais de um jogador.

Bota e Pereira32 apontam que diante de sistemas abertos (como 5:1, 4:2 e 3:2:1) há a prioridade pelo jogo pautado nas ações de bloqueio dos pivôs, tanto nos jogadores da primeira linha quanto da segunda linha defensiva, para facilitar a infiltração do atacante em posse da bola.

Nesse sentido, na tentativa de aumentar a complexidade do jogo ofensivo, os treinadores (S1 e S2) destacam a IC-6 (“Jogar em função do pivô”, que deu origem ao DSC6) e a IC-7 (“Prevalência do jogo dos armadores”, que originou o DSC7):

DSC6: “O jogo em função do pivô diante de defesas abertas aparece como uma opção interessante; eu espero que ele trabalhe sempre do lado oposto da bola, pois se for no sentido da bola vai fechar os espaços produzidosS1. Se os defensores da segunda linha estão mais avançados ou não, eu tento observar se o pivô quando se desloca carrega o marcador do centro da defesa para um dos ladosS2”.

DSC7: “A prevalência do jogo dos armadores faz com que a bola seja levada para as laterais, não aprofunda na pontaS1. Os armadores direito e esquerdo podem aproveitar o espaço produzido entre os defensores 1 e 2S2. A defesa 3:3 provoca um espaço muito produtivo nas laterais, então o jogo para fora entre o armador e o ponta também deve aparecer, com o 2x2 nas laterais com os pontasS2”.

Os sistemas defensivos abertos apresentam um ganho em profundidade e uma perda em largura da quadra quando comparados aos sistemas fechados34, o que sugere dificultar os arremessos de longas distâncias e as infiltrações na região central da quadra. Consequentemente os treinadores revelam a preferência pelo jogo em função do pivô, que possuirá regiões mais amplas para o desenvolvimento de suas ações e a busca pela finalização dos pontas por se tratar de regiões mais vulneráveis desses sistemas (devido à perda de largura mencionada anteriormente). Porém cabe destacar que aparentemente os pontas são utilizados apenas para a finalização, uma vez que deveriam ser utilizados para iniciarem o jogo ofensivo em velocidade, uma vez que possuem espaços naturalmente produtivos com as defesas abertas.

A partir dos apontamentos do DSC6 e do DSC7 entende-se que os armadores possuem a importante função de levar a bola para as laterais para aproveitar os espaços produzidos nessas regiões, enquanto o pivô deve preocupar-se não apenas com a finalização, mas com a execução de bloqueios para a produção de espaços para a penetração dos armadores e/ou para a finalização dos pontas. É possível notar a preocupação dos treinadores com a continuidade do jogo ofensivo, pautando-se na participação de todos os jogadores e reforçando o encadeamento dos elementos técnico-táticos abordados no DSC5.

Diante de sistemas defensivos mistos

Diante dos sistemas defensivos mistos os treinadores aludem de forma unânime ao fato de jogar sem a presença do jogador que recebe a marcação individual, conforme representado no DSC8 (IC-8: “Jogar em situações reduzidas”, compartilhada por S1, S2, S3 e S4):

“Podemos ter duas saídas: a primeira de jogar em situação de 5x5S1,S2,S3,S4, e a segunda de tentar desmarcar o jogador que recebe a marcação individual ou trocá-lo de posiçãoS3. Normalmente se isola 1, deixa esse jogador fora do jogo e acredita-se no que é mais treinado: o jogo 4x4, 5x5S1, dessa forma há mais espaço para trabalharS1,S2, o que vai depender da equipe adversáriaS4. O posicionamento do pivô pode ser variado, seja por sua participação centralizada para atrair a marcação do defensor da região centralS1, ou lateralizada: coloco ele entre 1 e 2, pra ter um 2x2 na ponta com ponta e pivôS2”.

Tal posição adotada pelos treinadores busca desenvolver o jogo em espaços mais amplos para os atacantes, uma vez que haverá um atacante que não participará diretamente do jogo posicional (devido à marcação individual). A opção pela situação de 5x5 preconiza as penetrações sucessivas visando criar superioridade numérica e alcançar distâncias eficazes para o arremesso30. Os treinadores ainda apontam a necessidade de reposicionamento dos pontas para que ocupem regiões mais próximas dos armadores, possibilitando a continuidade do jogo ofensivo e a manutenção da posse da bola. De maneira análoga, caso haja dois atacantes sendo marcados individualmente a opção pode ser pelo jogo 4x4, justificada pela ampliação dos espaços interdefensivos.

Os treinadores citam outro panorama, pautando-se na opção de tentar desmarcar o jogador que está sendo marcado individualmente ou mesmo trocá-lo de posição. Esta opção é justificada pela possibilidade de manter o jogo posicional em 6x6 com a participação daquele jogador em destaque, porém ocupando outro posto específico. O mesmo ocorre diante de um cenário em que o adversário opte por marcar individualmente dois atacantes. Cabe salientar, ainda, as possibilidades dos posicionamentos (centralizado ou próximo à lateral) do pivô que vão ao encontro da tentativa de dar continuidade ao jogo ofensivo e à criação de superioridade numérica em setores específicos da quadra.

Na perspectiva de manter a posse da bola e criar situações para a finalização são apontados alguns elementos técnico-táticos individuais, grupais e coletivos (DSC9, originário da IC-9: “Utilização de elementos técnico-táticos”, compartilhado por S2, S3 e S4):

“Os cruzamentosS2,S3,S4 permitem maior variabilidade das ações ofensivasS3 com uma boa circulação da bolaS2. Os bloqueios ofensivos são uma forma interessante de jogoS3,S4, porque a sua saída permite bloquear o marcado individualS2. Devem ser criadas possibilidades de jogo com o pivôS4, como quando eu isolo o jogador que está sofrendo marcação individual e reposiciono os outros armadores para que jogarem com seu bloqueio entre o segundo defensor e o terceiro defensorS2. A prevalência pelo jogo com engajamento [penetrações sucessivas] é importante pela relação de maior espaço que existe quando jogamos 4x4 ou 5x5S3. Aparecem os desmarques quando optamos pela participação do jogador que sofre a marcação individualS3, em que se orienta esse jogador para que se desmarque e tente jogar sem a bolaS4”.

É observada a preferência pelos cruzamentos e pelos bloqueios ofensivos, cujos objetivos recaem, respectivamente, na variabilidade do jogo ofensivo e na tentativa de livrar o atacante do seu marcador individual para que possa participar da construção ofensiva. Os bloqueios também podem ser utilizados na situação de 5x5, na qual o pivô possuirá maior espaço para se deslocar e, consequentemente, auxiliar nas ações dos armadores e facilitar as ações de desmarque do jogador que recebe a marcação individual (tentando retornar para o jogo coletivo).

A utilização desses elementos técnico-táticos pautam-se nas mesmas premissas identificadas no DSC8, como o desmarque do jogador que recebe a marcação individual, o bloqueio realizado pelo atacante e o cruzamento (que possibilita aumentar a profundidade e/ou a largura do jogo ofensivo). Complementa-se, ainda, com a maior possibilidade de utilizar-se as penetrações sucessivas (engajamento), uma vez que há mais espaços entre os defensores com a saída de um ou dois desses para a marcação individual.

Análise dos cenários apresentados

Na fase ofensiva os jogadores devem resolver, fundamentalmente, os problemas com a utilização da bola4 e com a ocupação espacial da quadra, a partir das combinações entre seus deslocamentos e a variedade de elementos técnico-táticos para alcançar situações ótimas para o arremesso (como a superioridade numérica e os desequilíbrios defensivos). Espera-se que a variabilidade na execução dos elementos técnicos e técnico-táticos aumente a complexidade e os níveis de incerteza do cenário para os adversários, porém mantendo-o compreensível para os companheiros de equipe4),(35. Os atacantes buscam, desta forma, provocar desequilíbrios espaciais e numéricos no sistema defensivo adversário a partir do encadeamento dos elementos técnico-táticos e do aproveitamento dos espaços produzidos.

Independentemente dos cenários apresentados aos treinadores entrevistados, as relações de oposição e cooperação do cenário técnico-tático do jogo são aspectos importantes a serem ressaltados, pois entende-se que a partir do momento em que uma equipe apresenta seu sistema defensivo, os adversários adotarão determinados comportamentos ofensivos para obter êxitos, como a busca pela superioridade numérica ou o desequilíbrio dos defensores. Se diante desse panorama, imposto pelos defensores, os atacantes conseguem levar vantagens, é recorrente a alteração dos comportamentos técnico-táticos defensivos ou, ainda, a mudança de sistema defensivo.

A mudança nas relações entre atacantes x defensores e atacantes x espaços da quadra, após a troca de sistema defensivo impõe um novo cenário técnico-tático com o qual os atacantes devem se relacionar, de forma a resolver outras situações-problema apresentadas. Os atacantes necessitam compreender o cenário apresentado e utilizar diferentes elementos técnico-táticos (individuais e coletivos) para apresentar, a partir de então, diferentes soluções baseando-se no contexto e nas respostas dadas pelos defensores, impondo novas relações de oposição e cooperação. Diante de processos ofensivos ineficazes, Debanne e Fontayne36 relatam que os treinadores optam por três estratégias: conversar com o armador, substituir o armador ou pedir tempo técnico com instruções sobre as táticas a serem adotadas, evidenciando a tentativa de mudança do panorama ofensivo estabelecido no jogo.

Partimos da premissa, portanto, de que os diferentes sistemas defensivos apresentam cenários técnico-táticos específicos que exigem um conjunto de comportamentos ofensivos específicos para a resolução das situações-problema. Esse posicionamento foi confirmado ao passo que foram identificados nos DSC diferentes elementos do jogo ofensivo para cada situação apresentada, conforme sumarizados na Figura 1.

Fonte: Os autores

Figura 1. Opções táticas apresentadas pelos treinadores entrevistados 

A partir da tabulação dos dados e construção dos DSC, observamos que diante de sistemas defensivos fechados são apresentadas mais possibilidades (em número) de utilização de elementos técnico-táticos ofensivos coletivos, quando comparado com os sistemas abertos e mistos. Talvez este fator esteja associado com as escolhas dos sistemas defensivos pelas equipes comandadas por esses treinadores ou pelos sistemas defensivos adotados pelas equipes adversárias, que ao optarem pela utilização de defesas fechadas em jogos e treinamentos, poderão apresentar maior variabilidade de soluções técnico-táticas frente às situações-problema dessa ordem.

Bota e Pereira32 apontam que a organização das ações individuais e coletivas ofensivas deve possuir certas ideias de base aplicáveis a todas as situações, que permitam encontrar soluções eficientes. Dessa maneira, foi possível verificar preferências por alguns elementos técnico-táticos diante dos cenários apresentados, revelando uma possível eficácia dos mesmos para a obtenção de êxito ofensivo diante das situações-problema específicas.

Pautando-se na variabilidade de elementos apresentada na Figura 1 nos remetemos aos princípios de ação ofensivos elucidados por Garganta4: estruturação do espaço de jogo (como o jogo em profundidade e largura e a criação e ocupação de espaços), comunicação na ação (como os desmarques e a superioridade numérica) e relação com a bola (equilíbrio dos apoios, visão periférica e apreciação das trajetórias). As trajetórias e as mudanças de direção das trajetórias (ambas realizadas sem a posse da bola) foram apresentadas como importantes elementos diante de defesas fechadas e abertas, respectivamente, e constituem a base de comunicação tática entre os atacantes e do desenvolvimento dos demais elementos técnico-táticos ofensivos, atendendo aos três princípios abordados pelo autor supracitado.

Em uma análise dos elementos técnico-táticos ofensivos coletivos citados nos DSC observa-se a recorrência aos bloqueios ofensivos, diante dos três tipos de sistemas defensivos apresentados. Trata-se de uma ação ofensiva coordenada (entre o jogador que possui a bola e o que efetuará o bloqueio) que limita o raio de ação do defensor37, estando relacionada com a continuidade do jogo ofensivo, seja pela progressão do jogador em posse da bola, pelas penetrações sucessivas ou pela produção de espaço para o próprio pivô.

Um aspecto que merece destaque, diante deste panorama, se refere à iniciação ao handebol. Autores como Ehret et al.7 e Greco, Silva e Greco38 sugerem que o primeiro sistema defensivo a ser ensinado seja o individual, em suas diferentes nuances (quadra inteira e/ou meia quadra), por proporcionar aos aprendizes noções dos espaços da quadra, das direções, mudanças de direção e velocidades dos deslocamentos, entre outros. Após o ensino dos sistemas defensivos individuais passam a ser introduzidos no contexto do processo de EAT alguns dos sistemas defensivos abertos, como o 1:57, o 3:2:1, o 3:3 e o 4:27),(38),(39. Aparece a preocupação, portanto, com os conteúdos ministrados durante as etapas iniciais do handebol, de forma a contemplar a formação de jogadores críticos, mas que necessitem do acesso aos diferentes elementos técnico-táticos ofensivos diante desse contexto defensivo, que devem ser desenvolvidos paulatinamente ao longo do processo de EAT.

Nas situações-problema apresentadas pelos sistemas defensivos mistos, o DSC aponta para características que refletem os princípios do jogo ofensivo e que possuem um forte apelo relacionado à inteligência tática, como a atuação em situações reduzidas, a adaptabilidade às situações do jogo e o posicionamento variado do pivô. Ainda diante desses sistemas há uma menor recorrência aos elementos técnico-táticos individuais, representado, de forma contextualizada, pelos desmarques (importantes para que o jogador que sofre a marcação individual possa ser novamente agregado ao jogo coletivo).

A necessidade de variabilidade do jogo ofensivo, segundo os treinadores, é um fator preponderante para o êxito nessa fase do jogo. Os DSC elaborados nesta pesquisa evidenciam esse fator quando apontam aspectos como a mudança de sistemas ofensivos (diante de defesas fechadas e abertas), a atuação em situações reduzidas e a leitura e adaptabilidade às situações-problema (ambas diante de defesas mistas).

A presença dos princípios operacionais do jogo ofensivo11 é marcante, evidenciada pela alusão a aspectos como: os diferentes elementos técnico-táticos individuais e coletivos (relacionados com o princípio de conservação da posse da bola); as penetrações sucessivas e o desmarque (relacionados com o princípio de progressão em direção ao alvo adversário); e os arremessos de longa distância e a busca pela finalização dos pontas (relacionados com o princípio de tentar anotar o ponto - ou gol, neste caso). Entende-se, ainda, que os elementos técnico-táticos ofensivos individuais e coletivos também estão relacionados com a progressão em direção ao alvo adversário, bem como o fornecimento de subterfúgios para melhores condições de finalização, como o desequilíbrio dos defensores, a produção de espaços e, consequentemente, a superioridade numérica.

Tais aspectos evidenciam a necessidade do comportamento flexível dos jogadores, pois a mudança de sistema ofensivo implica, muitas vezes, no fato do jogador atuar fora do seu posto específico, no qual deve compreender as possibilidades de aplicação dos elementos técnico-táticos individuais e coletivos. A leitura e a adaptabilidade às situações do jogo apresentam íntima relação com os estímulos proporcionados ao longo do processo de EAT, nos quais os aprendizes se deparam com diferentes situações-problema nos treinamentos e jogos, conduzindo à compreensão dos cenários técnico-táticos e a possíveis comportamentos flexíveis para solucioná-los.

Considerações finais

Consideramos como hipótese inicial desta pesquisa a premissa de que diferentes sistemas defensivos requerem comportamentos ofensivos específicos, que busquem a obtenção de êxito nessa fase do jogo. Os discursos dos treinadores revelaram uma importante variação das ações esperadas por esses em relação aos atacantes diante de diferentes cenários técnico-táticos, apresentados pelos tipos de sistemas defensivos.

Diante dos discursos dos treinadores a hipótese inicial foi confirmada, a partir da variedade de aspectos apresentados por esses para os três cenários apresentados. A complexidade do jogo foi um fator marcante nos discursos, evidenciada a partir de informações divergentes para solucionar situações semelhantes no contexto do jogo de handebol, apontando diferentes possibilidades para a resolução de um mesmo problema1.

Os comportamentos específicos, portanto, aludem à utilização de diferentes elementos técnico-táticos ofensivos para atender o caráter complexo e dinâmico do jogo, mas devem ser suficientemente flexíveis para não conduzir a um jogo ofensivo estereotipado. Observou-se, ainda, que para os diferentes cenários foram apresentados elementos específicos para a resolução das situações-problema, o que indica a alta especificidade das respostas. Face às especificidades, entendemos que devam ser requisitadas quando os jogadores se aproximam de etapas de especialização esportiva, e que deva haver um forte apelo para que o processo de EAT promova experiências motoras e vivências de situações de jogo (e dos problemas inerentes a ambos) para que os jogadores consigam compreender o cenário apresentado e aumentar a complexidade do jogo para os defensores.

Nesse sentido este estudo apresenta como contribuição a compreensão do cenário complexo do jogo ofensivo diante de diferentes sistemas defensivos, de modo que possibilite identificar aspectos que, para os treinadores entrevistados, constituem-se como preponderantes ao desenvolvimento das ações ofensivas. Tais apontamentos possuem importantes relações com o processo de EAT, cujos elementos mencionados possam ser abordados ao longo do tempo, principalmente pelo fato de que as competições de diferentes categorias possuem regulamentações diferentes para a utilização dos sistemas defensivos39.

Entendemos também a necessidade da distribuição desses conteúdos ao longo do processo de EAT de forma a, gradativamente, produzir experiências que levem o aprendiz a perceber, compreender e tomar suas decisões de forma intencional. Assim, a atuação diante de diferentes sistemas defensivos deve ser estimulada desde as etapas iniciais7),(39, para que os atacantes desenvolvam os elementos técnicos e técnico-táticos de acordo com a situação-problema apresentada. Ainda assim, este estudo descreve o conhecimento de treinadores experientes sobre a temática central, que podem revelar características marcantes para a concepção do processo de formação de jogadores de handebol no Brasil.

Referências

1. Paula P, Greco P, Souza P. Tática e processos cognitivos subjacentes à tomada de decisão nos jogos esportivos coletivos. In: Garcia E, Lemos K, editores. Temas Atuais V em Educação Física e Esportes. Belo Horizonte: Editora Health; 2000, p. 11-27. [ Links ]

2. Menezes RP. Contribuições da concepção dos fenômenos complexos para o ensino dos esportes coletivos. Motriz rev educ fis 2012;18(1):34-41. [ Links ]

3. Tavares F. O processamento da informação nos jogos desportivos. In: Graça A, Oliveira J, editores. O ensino dos jogos desportivos. 3.ed. Porto: Universidade do Porto/Centro de Estudos dos Jogos Desportivos; 1998, p. 35-46. [ Links ]

4. Garganta J. Para uma teoria dos jogos desportivos colectivos. In: Graça A, Oliveira J, editores. O ensino dos jogos desportivos . 3.ed. Porto: Universidade do Porto/Centro de Estudos dos Jogos Desportivos ; 1998, p. 11-26. [ Links ]

5. Teodorescu L. Problemas de teoria e metodologia nos jogos desportivos. Lisboa: Horizonte; 1984. [ Links ]

6. Grehaigne J, Godbout P, Bouthier D. The teaching and learning of decision making in team sports. Quest 2001;53(1):59-76. [ Links ]

7. Ehret A, Späte D, Schubert R, Roth K. Manual de handebol: treinamento de base para crianças e adolescentes. São Paulo: Phorte Editora; 2002. [ Links ]

8. Greco PJ. Hándbal: la formación de jugadores inteligentes de balonmano. Stadium 1988;128:22-27. [ Links ]

9. Turner A, Martinek T. Teaching for understanding - a model for improving decision-making during game play. Quest 1995;47(1):44-63. [ Links ]

10. Storey B, Butler J. Complexity thinking in PE: game-centred approaches, games as complex adaptive systems, and ecological values. Phys Educ Spo Pedag 2013;18(2):133-49. [ Links ]

11. Bayer C. O ensino dos desportos colectivos. Lisboa: Dinalivros; 1994. [ Links ]

12. Gréhaigne J-F, Godbout P. Tactical knowledge in team sports from a constructivist and cognitivist perspective. Quest 1995;47:490-505. [ Links ]

13. Pereira J, Hunger D. Formação e atuação profissional no voleibol: opinião de técnicos da cidade de São José dos Campos, SP. Motriz rev educ fis 2003;9(2):89-96. [ Links ]

14. Menezes RP, Reis HHB. Relação entre eficácia defensiva e elementos técnico-táticos do handebol a partir dos discursos de treinadores experientes. Rev Educ Fís UEM 2014;25(4):513-26. [ Links ]

15. Menezes RP, Marques RFR, Nunomura M. O ensino do handebol na categoria infantil a partir dos discursos de treinadores experientes. Movimento 2015;21(2):463-77. [ Links ]

16. Castro D. A concepção estratégico-tática no handebol: implicações para a formação de jogadores inteligentes. [Dissertação de Mestrado em Educação Física]. Campinas: Universidade Estadual de Campinas. Programa de Pós-Graduação em Educação Física; 2013. [ Links ]

17. Mesquita I, Borges M, Rosado A, Batista P. Self-efficacy, perceived training needs and coaching competences: The case of Portuguese handball. Eur J Spo Sci 2012;12(2):168-178. [ Links ]

18. Matias CJAS, Greco PJ. Análise de jogo nos jogos esportivos coletivos: a exemplo do voleibol. Pensar prat 2009;12(3):1-16. [ Links ]

19. Ramos V, Graça A, Nascimento J, Silva R. A aprendizagem profissional - as representações de treinadores desportivos de jovens: quatro estudos de caso. Motriz rev educ fis 2011;17(2):280-291. [ Links ]

20. Gutiérrez Aguilar O, Férez Rubio J. Cuantificación y valoración de la eficacia de los sistemas defensivos empleados en el marco situacional de igualdad numérica en los equipos de balonmano de alto nivel. Kronos 2009;8(14):113-116. [ Links ]

21. Antón García JL. Balonmano: táctica grupal defensiva. Concepto, estructura y metodología. Granada: Grupo Editorial Universitario; 2002. [ Links ]

22. Menezes RP. From the game situations to the teaching of fixations in handball. Motriz rev educ fis 2011;17(1):39-47. [ Links ]

23. Elliott R, Fischer C, Rennie D. Evolving guidelines for publication of qualitative research studies in psychology and related fields. Brit J Clin Psych 1999;38:215-229. [ Links ]

24. Triviños A. Introdução à pesquisa em ciências sociais: a pesquisa qualitativa em educação. São Paulo: Atlas; 1987. [ Links ]

25. Marconi MA, Lakatos EM. Metodologia científica. 6.ed. São Paulo: Atlas ; 2011. [ Links ]

26. Boni V, Quaresma SJ. Aprendendo a entrevistar: como fazer entrevistas em Ciências Sociais. Em Tese: Revista Eletrônica dos Pós-Graduandos em Sociologia Política da UFSC. 2005;2(1):68-80. [ Links ]

27. Oliver D, Serovich J, Mason T. Constraints and opportunities with interview transcription: Towards reflection in qualitative research. Social Forces 2005;84(2):1273-89. [ Links ]

28. Lefèvre F, Lefèvre AMC. Pesquisa de representação social: um enfoque qualiquantitativo. 2.ed. Brasília: Liber Livro Editora; 2012. [ Links ]

29. Lefèvre F, Lefèvre AMC. Discurso do sujeito coletivo: um novo enfoque em pesquisa qualitativa. Caxias do Sul: EDUCS; 2003. [ Links ]

30. Antón García JL. Balonmano: táctica grupal ofensiva. Concepto, estrutura y metodología. Madrid: Gymnos Editorial; 1998. [ Links ]

31. Menezes RP. Modelo de análise técnico-tática do jogo de handebol: necessidades perspectivas e implicações de um modelo de interpretação das situações de jogo em tempo real. [Tese de Doutorado em Educação Física]. Campinas: Universidade Estadual de Campinas. Programa de Pós-Graduação em Educação Física; 2011. [ Links ]

32. Bota I, Pereira A. Modelação e preparação no andebol. Lisboa: Instituto Piaget; 2003. [ Links ]

33. Melendez-Falkowski MM, Enriquez-Fernández E. Los sistemas de juego defensivos. Madrid: Editorial Esteban Sanz Martinez; 1988. [ Links ]

34. Simões AC. Handebol defensivo: conceitos técnicos e táticos. São Paulo: Phorte Editora ; 2002. [ Links ]

35. Panfil R. A paradigm for identifying ability competition (providing examples of sport game and fight). Hum Mov 2011;12(1):16-23. [ Links ]

36. Debanne T, Fontayne P. A Study of a Successful Experienced Elite Handball Coach's Cognitive Processes in Competition Situations. Int J Spo Sci & Coach 2009;4(1):1-16. [ Links ]

37. Fernández Romero JJ, Casais Martínez L, Vila Suárez H, Cancela Carral JM. Balonmán: manual básico. Santiago: Edicións Lea; 1999. [ Links ]

38. Greco PJ, Silva SA, Greco FL. O sistema de formação e treinamento esportivo no handebol brasileiro (SFTE-HB). In: Greco PJ, Fernández Romero JJ, editores. Manual de handebol: da iniciação ao alto nível. São Paulo: Phorte; 2012, p. 235-50. [ Links ]

39. Menezes RP. O ensino dos sistemas defensivos do handebol: considerações metodológicas acerca da categoria cadete. Pensar prát 2010;13(1):1-16. [ Links ]

Recebido: 28 de Janeiro de 2016; Revisado: 21 de Julho de 2016; Aceito: 01 de Agosto de 2016

Endereço para correspondência: Rafael Pombo Menezes. Universidade de São Paulo (USP). Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto (EEFERP). Av. Bandeirantes, 3900 - Monte Alegre. CEP: 14040-907 - Ribeirão Preto/SP.E-mail: rafaelpombo@usp.br

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons