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Journal of Physical Education

On-line version ISSN 2448-2455

J. Phys. Educ. vol.29  Maringá  2018  Epub May 24, 2018

http://dx.doi.org/10.4025/jphyseduc.v29i1.2902 

Artigo Original

BRINQUEDOS ALTERNATIVOS EM ESCOLAS INFANTIS DE UMA CIDADE DO INTERIOR DE SÃO PAULO

ALTERNATIVE TOYS FOR CHILDREN IN SCHOOLS OF A SÃO PAULO INTERIOR CITY

Rute Estanislava Tolocka1 

Maíra Fogolin Pereira1 

Jéssica Eloá Poletto1 

1Universidade Metodista de Piracicaba, Piracicaba-SP, Brasil.

RESUMO

Brincar é uma ação criativa que pode contribuir para o desenvolvimento infantil. Porém, mudanças diminuíram as possibilidades de brincar. O objetivo deste estudo foi construir brinquedos com material alternativo para as crianças atendidas em escolas infantis, ampliando as possibilidades do brincar na escola. Etapa a) oficina com 26 professoras; etapa b) estação de brinquedos alternativos com participação das crianças. Na oficina, houve diálogos entre as professoras e foram a confeccionados 38 brinquedos. Na estação, os pre-escolares se beneficiaram mais do brinquedo que os bebês, dado que os pais dos bebês ficaram com eles no colo a maior parte do tempo. As opções de brincar foram ampliadas, além de possibilitar vivências motoras. Os brinquedos alternativos podem ser utilizados na pré-escola como uma opção que propicia diversão e favorece o desenvolvimento de habilidades.

Palavras-chave: Brincar; Criança; Escola infantil.

ABSTRACT

Play is a creative action that can contribute to child development. However, changes decreased the opportunities to play. The objective of this study was to build alternative toys with alternative materials to children in nursery and preschool to amplify possibilities to play in the school. Step a) workshop with 26 teachers; step b) station of alternative toys with children's participation. In the workshop, there were dialogues among the teachers and the production of 38 toys. At the station, preschoolers got more benefits than babies as the fathers of the babies hold them most of the time. Play options were amplified and it also brought motor experiences. Alternative toys can be used in pre-school as an option that provides fun and favors the development of skills.

Keywords: Play; Children; Kindergarten.

Introdução

Brincar é uma ação vivida naturalmente pelo ser humano, criança ou adulto1),(2; ocorre entre o indivíduo e o meio ambiente e oferece a experiência criativa que começa com o viver criativo, manifestado primeiramente na brincadeira1. Acontece no mundo da imaginação, porque passa pelo procedimento de internalização, além de fazer parte da comunicação de pessoas que partilham da mesma cultura3.

Brincar é um fim em si mesmo, pode-se brincar por brincar. O componente lúdico da brincadeira faz parte da essência do ser humano e refere-se a uma atividade livre na qual o ser humano pode deixar-se absorver de forma intensa e total, sem interesse material e sem obtenção de lucro4. É brincando que a criança desenvolve seu próprio conhecimento e se relaciona com o mundo a sua volta, dando significados a ações concretas e progredindo para pensamentos abstratos5.

Brincar traz a possibilidade do jogo simbólico e forma uma ligação entre a realidade e a fantasia, permitindo que diferentes obstáculos psicológicos possam ser superados através das brincadeiras. A brincadeira colabora diretamente no processo de socialização e favorece a aprendizagem de papéis sociais6, contribuindo para o desabrochar da criatividade, da imitação, da memorização e da autonomia7.

Nessa mesma linha, estudos8),(9 afirmam que as brincadeiras valorizam a diversidade cultural humana, contribuem com a ampliação da técnica corporal das crianças, favorece o trabalho em grupo, a cooperação e convivência com o outro e o respeito pelo seu semelhante e apontam as brincadeiras como instrumentos que as crianças podem utilizar para demonstrar seus interesses nas relações com o ambiente social e físico10.

Embora brincar seja um fim em si mesmo, essa ação pode ser vista também como um meio para outros fins, já que brincar favorece uma série de aspectos do desenvolvimento infantil. Em relação ao conceito de zona proximal, a inter-relação entre desenvolver-se e aprender, analisa possibilidades que o brincar traz para solucionar problemas, imitar, imaginar (“fazer de conta”)11. Para Vygotsky o homem constitui-se em um ser social, que para desenvolver-se precisa do outro e a relação entre brincar e desenvolvimento são primordiais para a construção de novas aprendizagens12, explicando-se assim, o interesse de psicólogos e professores nessa ação que pode ser oportunizada a criança na escola.

A inserção de brincadeiras em aulas no ensino infantil podem contribuir para oportunizar vivências que potencializam o diferentes aspectos do desenvolvimento infantil, promovendo interações sociais, autonomia, aquisição de habilidades cognitivas e motoras13. E o brincar fisicamente ativo promove a prática de atividade física, podendo ajudar a prevenir ou amenizar o sedentarismo e doenças associadas14.

Não é a intenção desse estudo aprofundar a discussão entre estes dois pensamentos sobre o brincar, mas sim, ressaltar que tanto observando-se o brincar como um fim em si mesmo, quanto como um meio para potencializar o desenvolvimento humano, o brincar deve estar na escola. O que se procura aqui é apresentar uma maneira de ampliar estas possibilidades, incluindo construção de brinquedos com materiais alternativos, que podem ser encontrados mesmo em escolas com poucos recursos financeiros.

Isto é necessário porque mudanças ocorridas nas últimas décadas provocaram alterações nos hábitos de vida de crianças, diminuindo-lhes as possibilidades de brincar, seja pela diminuição de espaços físicos, aumento de violência urbana ou ida cada vez mais cedo para a escola15.

Além disto, crianças pequeninas podem permanecer até 10 horas por dia na escola e nelas ficam sujeitas à rotina com atividades predominantemente de higiene e alimentação ou atividades relacionadas ao sono ou televisão sendo poucas as oportunidades de brincar14),(16),(17, o que pode prejudicar o desenvolvimento infantil18),(19, sendo necessário resgatar possibilidades de brincar, oferecendo oportunidades para isto, dentro da escola.

Assim, o objetivo deste estudo foi construir brinquedos com material alternativo para as crianças atendidas em escolas infantis, ampliando as possibilidades do brincar na escola.

Métodos

Participantes

Trata-se de um estudo de campo20 realizado em duas etapas, na primeira foi feita uma oficina e na segunda uma estação de brinquedos alternativos. Para a primeira etapa foi feito um convite, através da secretaria de educação do município (do interior de São Paulo), a todos os professores que atuavam com crianças de zero a cinco anos. Dentre os inscritos, foram sorteados 60 professores dos quais 26 participaram efetivamente do estudo.

A segunda etapa refere-se a uma estação de brinquedos alternativos, com a participação de 89 crianças, entre zero e cindo anos de idade, com seus respectivos pais que frequentavam uma das escolas que participou da oficina e concordou com a realização do mesmo, dentro de um evento comemorativo (aniversário da escola).

Procedimentos

O estudo faz parte do referido programa que foi aprovado pelo Conselho de Ética em Pesquisa de uma universidade naquela cidade, com o parecer 13/12. As professoras envolvidas assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, bem como os pais das crianças; a secretaria municipal de educação concedeu autorização para a realização do estudo.

A oficina teve três horas de duração e construiu brinquedos para duas faixas etárias diferentes: a) quatro a 24 meses b) de 25 meses até cinco anos, a partir de materiais recicláveis levados pelas próprias professoras. Estas professoras foram divididas aleatoriamente em dois grupos e neles, participaram de cada uma das oficinas, realizadas em duas salas diferentes, em sistema de rodízio. A oficina incluiu a construção e utilização do brinquedo, bem como debate sobre a utilização dos mesmos. Todos os brinquedos foram inspecionados para não oferecer riscos às crianças.

A estação de brinquedos foi realizada em um sábado pela manhã, em que foram oferecidas três estações para brincadeiras, sendo duas sem utilização de materiais e uma com os brinquedos alternativos construídos na oficina. Foram analisados apenas os dados da estação com brinquedos alternativos, objeto de estudo. Foram utilizados os seguintes brinquedos: bolinhas de jornal, caixas de papelão de vários tamanhos e chocalhos de garrafa pet, que também seriam os pinos para o boliche, e caixas menores utilizadas como obstáculos. As brincadeiras realizadas foram: arremesso de bolas em caixas de diferentes tamanhos e distâncias, jogo de boliche, travessias em túneis e obstáculos.

Os brinquedos alternativos foram colocados no espaço e as crianças puderam escolher onde queriam brincar e quantas vezes elas queriam participar daquela brincadeira enquanto estivessem na estação. No boliche, havia aproximadamente 85 garrafas de vários tamanhos, que estavam soltas, lacradas e com grãos dentro e foram utilizadas com, aproximadamente, 70 bolinhas de jornal; o túnel estava a frente com fitas prendendo as caixas no chão para que não saíssem do lugar; após a saída do túnel, três caixas menores foram usadas para servir de obstáculos para se chegar a marcação de onde outras 40 bolinhas disponíveis puderam ser arremessadas dentro de três caixas de tamanhos diferentes e também em distâncias diferentes.

Antes do início foi dito aos pais e as crianças quais as brincadeiras previstas, o tempo que o grupo teria para brincar e foi incentivado que os pais ou responsável brincassem junto com as crianças.

Todas as atividades foram gravadas com uma câmera filmadora e os dados transferidos para um computador e transformados em imagens digitais *.avi, através do software Pinacle Movie Box e as cenas foram observadas quadro a quadro com uso de slow motion (câmera lenta), quando necessário. Dados da oficina, tais como materiais utilizados, brinquedos construídos, descrição de brincadeiras sugeridas, habilidades motoras envolvidas (manipulação, equilíbrio e locomoção), agrupamentos sociais que estas propiciaram e locais em que os brinquedos poderiam ser usados, foram registrados em uma ficha, em que também foram transcritas as falas ocorridas durante o debate.

Em outra ficha foram anotados dados sobre a participação das crianças, tais como com quem realizou a brincadeira, tempo de permanência na atividade, interesse pelo brinquedo. Foram anotadas situações nas quais a criança preferiu não brincar ou utilizou o brinquedo de forma diferente da sugerida, bem como a participação ou não dos pais.

Resultados e discussão

A oficina de montagem dos brinquedos

Para a oficina, as professoras trouxeram os seguintes materiais: caixas de papelão, garrafas pet, barbantes, copos plásticos, caixas de sabonete, latas. Com esses materiais foram construídos 38 brinquedos, dentre eles diferentes túneis, chocalhos, carrinhos, caminhões, bonecos, dominós, jogo da memória, telefone sem fio, boliche, bilboquês, binóculo, vai-e-vem, bolinhas, objetos para usar como obstáculos, animais, caixa de sensações, móbiles, dentre outros. As tabelas 1 e 2 mostram os materiais e brinquedos construídos, bem como sugestões de brincadeiras que as professoras lhes atribuíram.

Tabela 1 Confecção de brinquedos alternativos e sugestão de brincadeiras para bebês e toddlers 

Material Brinquedo Sugestão de brincadeira
Caixas de papelão diferentes texturas Túnel Passar pelo túnel sentindo as texturas
Caixa de papelão Túnel com janelas geométricas Passar pelo túnel
Bola de papel e elástico Bola de papel encapada presa no teto por elástico Puxar a bola o máximo que conseguir, bater e desviar
Papelão, barbante e papel colorido Túnel com cortinas de barbantes e papéis coloridos Passar pelo túnel
Papelão e garrafas Túnel com garrafas penduradas na saída Passar pelo túnel
Garrafas, latas e pedrinhas Chocalhos com diferentes garrafas e diferentes pesos Balançar e fazer barulho, rolar no chão
Garrafas e pedrinhas Chocalhos pendurados no teto Passar balançando os chocalhos
Garrafa de amaciante Carrinho Empurrar e puxar no chão
E.V.A., plástico bolha, lã, barbantes, papel Caixa das sensações Explorar a caixa com as mãos para sentir as diferentes texturas
Papelão, barbante Carro Entrar dentro da caixa, dirigir o carro, perseguir outros carros
Lata Chocalho de lata Rolar e engatinhar para pegar
Garrafa pet, lã Boneco chocalho de garrafa pet com peruca Explorar formas de observar e interagir com o boneco
Garrafinha pet, elástico Chocalho preso no teto/lugar alto O bebê tenta alcançar o chocalho pra balançar
Garrafinha pet, sacola plástica e barbante Bonequinho com pára-quedas Jogar o 'boneco' para o alto para que na descida ele caia devagar e seja pego
Garrafa pet, jornal e meia Boliche e bolinha Derrubar as garrafas de certa distância, com uma bolinha
Caixa de pasta de dente Carrinho Empurrar, lançar, conduzir o carrinho no espaço
Rolo de papelão Centopéia de rolo de papel higiênico Puxar a centopéia pelo barbante
Caixa de bombom Caminhão Empurrar, lançar, conduzir o caminhão no espaço
Lata achocolatado, barbante Lata amarrada com barbante como se fosse roda Puxar, arrastar pelo espaço
Barbante, rolo papelão, copo plástico Cobra de barbante e “cones” Puxar a cobra pelo barbante através de diferentes percursos
Jornal, papel, barbante Mini peteca de papel Jogar e rebater

Fonte: Os autores

Tabela 2 Confecção de brinquedos alternativos e sugestão de brincadeiras para pre-escolares 

Material Brinquedo Sugestão de brincadeira
Caixas de papelão diferentes texturas Túnel Passar pelo túnel sentindo as texturas
Caixa de papelão Túnel com janelas geométricas Passar pelo túnel
Bola de papel e elástico Bola de papel encapada presa no teto por elástico Puxar a bola o máximo que conseguir, bater e desviar
Papelão, barbante e papel colorido Túnel com cortinas de barbantes e papéis coloridos Passar pelo túnel
Papelão e garrafas Túnel com garrafas penduradas na saída Passar pelo túnel
Garrafas, latas e pedrinhas Chocalhos com diferentes garrafas e diferentes pesos Balançar e fazer barulho, rolar no chão
Garrafas e pedrinhas Chocalhos pendurados no teto Passar balançando os chocalhos
Garrafa de amaciante Carrinho Empurrar e puxar no chão
E.V.A., plástico bolha, lã, barbantes, papel Caixa das sensações Explorar a caixa com as mãos para sentir as diferentes texturas
Papelão, barbante Carro Entrar dentro da caixa, dirigir o carro, perseguir outros carros
Lata Chocalho de lata Rolar e engatinhar para pegar
Garrafa pet, lã Boneco chocalho de garrafa pet com peruca Explorar formas de observar e interagir com o boneco
Garrafinha pet, elástico Chocalho preso no teto/lugar alto O bebê tenta alcançar o chocalho pra balançar
Garrafinha pet, sacola plástica e barbante Bonequinho com pára-quedas Jogar o 'boneco' para o alto para que na descida ele caia devagar e seja pego
Garrafa pet, jornal e meia Boliche e bolinha Derrubar as garrafas de certa distância, com uma bolinha
Caixa de pasta de dente Carrinho Empurrar, lançar, conduzir o carrinho no espaço
Rolo de papelão Centopéia de rolo de papel higiênico Puxar a centopéia pelo barbante
Caixa de bombom Caminhão Empurrar, lançar, conduzir o caminhão no espaço
Lata achocolatado, barbante Lata amarrada com barbante como se fosse roda Puxar, arrastar pelo espaço
Barbante, rolo papelão, copo plástico Cobra de barbante e “cones” Puxar a cobra pelo barbante através de diferentes percursos
Jornal, papel, barbante Mini peteca de papel Jogar e rebater

Fonte: Os autores

Após a construção dos brinquedos, debateu-se a utilização dos mesmos, bem como a necessidade da criança de brincar dentro da escola.

No debate algumas professoras explicitaram que as brincadeiras indicadas possibilitam a vivência de diferentes papéis sociais, entre os quais foram citados: motorista de carro ou caminhão, maquinista (trem), engenheiro ou pedreiro, jardineiro, mãe ou pai, pára-quedista, jogador de diferentes esportes e de jogos de salão, cuidador de animais, dentre outros.

As brincadeiras trazem benefícios como desenvolver a comunicação e expressão verbal, além de reconhecer seus papéis sociais11, e podem ser utilizadas pelas crianças para evidenciar seus interesses nas relações com o ambiente e que o ‘faz de conta’, além de estimular a imaginação, auxilia na construção da autoconfiança e amizades10.

Discutiu-se também que as brincadeiras permitem diferentes agrupamentos sociais, as professoras indicaram atividades para ser realizadas individualmente, em duplas ou quartetos, utilizando estes brinquedos, sendo que estas poderiam ser praticadas em outras formações também, estimulando relações interpessoais e isto permite o desenvolvimento de competências em estabelecer e manter relações sociais na construção e modificação do próprio ambiente físico, social e simbólico21.

Nota-se também, que os brinquedos citados podem estimular as sensações (percepção visual, auditiva, olfativa e cinestésica), a imaginação e as habilidades cognitivas, como por exemplo: comparar cores, objetos, formas, profundidade e tamanhos, realizar cálculos para acertar salvos, dentre outros13.

Além disto, as brincadeiras descritas nas tabelas 1 e 2 possibilitam atividades de locomoção e manipulação. Não houve sugestão para exploração de atividades de equilíbrio, entretanto percebe-se que a habilidade de equilibrar objetos pode ser estimulada com diversos brinquedos, por exemplo, alguns deles podem ser utilizados como marcos para realização de “poses” de equilíbrio, em brincadeiras do tipo “estátua” (em que a criança imita uma estátua, sendo estimulada a manter-se imóvel em pose de sua escolha) ou em brincadeiras de imitar posicionamento de animais ou posição de objetos.

Verifica-se também que das brincadeiras sugeridas, 31 podem levar a vivência de habilidades de coordenação fina (pinça e empunhaduras) e 22 brinquedos podem propiciar habilidades manipulativas grossas, tais como arremessar, engatinhar, andar, saltar e lançar, além dos 15 brinquedos que poderiam requisitar estes dois tipos de habilidade, privilegiando habilidades de segurar, lançar, engatinhar, caminhar, correr e saltar. Algumas dessas habilidades, como engatinhar e caminhar, por exemplo, são consideradas essenciais, pois contribuem para o pleno desenvolvimento22.

Considerando-se que estudos têm mostrado que nas escolas infantis as crianças estão passando boa parte de seu dia e têm poucas oportunidades de brincar com vivência de habilidades motoras23),(24, a inserção de atividades com estes brinquedos na escola é importante porque amplia as possibilidades de tais vivências.

Muitas destas brincadeiras constam do repertório de atividades “Brincadeira tem hora”25 e do Museu dos Brinquedos do Instituto Cultural Luiza Azevedo Meyer26. Além das brincadeiras citadas pelas professoras durante o debate, verifica-se que outras brincadeiras tradicionais podem ser realizadas com estes brinquedos e isto pode levar ao resgate da cultura popular e o intercâmbio de brincadeiras realizadas em diferentes regiões do Brasil27.

Foram ainda citadas ideias sobre a necessidade de educar para o lazer28, onde a construção do brinquedo junto com as crianças e escolha de como utiliza-lo em diferentes brincadeiras, bem como a guarda e manutenção dos mesmos pode levar a autonomia.

Verificou-se nesse debate a tendência das professoras em analisar a necessidade de brincar, sob o ponto de vista de aprender e desenvolver-se11),(29),(30. No entanto, houve também acolhimento sobre a reflexão de que brincar por brincar é um direito da criança, que precisa ser atendido e que há necessidade também de promover ações que levem a criança a ter autonomia para brincar28.

Oficina de brinquedos com as crianças na escola

Embora todas as crianças estivessem acompanhadas por seus pais ou responsáveis, considerando-se todos os rodízios, as imagens gravadas revelaram que apenas 18 pais participaram efetivamente das atividades apresentadas, ou seja, brincaram junto com as crianças. Alguns ficaram apenas ficaram observando as atividades e outros nem mesmo isto fizeram, apenas conversavam com as outras pessoas presentes, sendo eles os pais das crianças com menos que dois anos.

Observou-se, também, que as atividades estavam previstas para incluir os bebês e as crianças maiores juntas para a realização das atividades, contudo alguns pais não deixaram os bebês irem ao solo para brincar, mesmo este estando limpo e sem objetos perigosos, e as atividades organizadas de maneira a evitar riscos de colisões. Estes pais limitavam-se a pegar um brinquedo e colocá-lo na mão do bebê. Isto pode ter ocorrido porque os pais não estão mais acostumados a brincar com seus filhos e tem destinado pouco tempo para isto31),(32, o que sugere a necessidade de campanhas educativas sobre o direito e a necessidade da criança brincar, bem como oferta de atividades deste tipo dentro das escolas, para incentivar e apoiar os pais a brincarem também.

A brincadeira colabora diretamente no processo de socialização11 em que, por exemplo, meninos e meninas, aprendem a ajudar e competir em jogos coletivos. Isto pode ser observado durante a atividade do boliche, em que, espontaneamente, as crianças começaram a competir, querendo derrubar mais garrafas do que os outros e atenderam à solicitação das professoras para ajudar a levantar as garrafas que foram derrubadas e a recolher as bolinhas que estavam espalhadas, colocando-as em uma caixa para continuar a brincadeira. O mesmo foi observado na atividade de arremessar nas caixas.

Quanto aos bebês que estavam no chão, apenas pegaram uma bolinha e ficaram segurando, como também observado em alguns estudos29. Os bebês que estavam no colo só observavam a atividade.

As crianças ampliavam as possibilidades de ação nas atividades, espontaneamente. Por exemplo, no boliche elas jogavam as bolinhas nas garrafas com força, para que estas ao caírem fizessem mais barulho e derrubassem outras; no túnel algumas das crianças passavam devagar para se esconderem dos pais ou responsável que as observava; nos obstáculos, além de pularem as caixas, faziam ziguezague entre elas; ao arremessar as bolinhas nas caixas, várias crianças preferiram ou ultrapassar ou ficar aquém da linha demarcada para o arremesso. Em alguns momentos as garrafas do boliche viraram chocalhos em que cada criança pegava pelo menos uma garrafa para sacudir, porém uma em especial segurou duas, uma em cada mão, para fazer mais barulho que as outras, e outra criança deitou em cima do chocalho. Isto evidenciou que os materiais utilizados causaram curiosidade e levaram a descoberta de novos sons e possibilidades motoras.

Pode-se afirmar, então, que os brinquedos trouxeram possibilidades para as crianças explorarem o mundo ao seu redor, aflorando a imaginação33.

Ocorreu também que as brincadeiras ofereceram possibilidades de vivências que podem auxiliar no desenvolvimento infantil e através destes brinquedos as crianças puderam criar as suas próprias brincadeiras13.

Ou seja, a utilização de brinquedos, confeccionados a partir de materiais alternativos, pode ser uma alternativa eficaz para lidar com a falta de recursos materiais em algumas situações e desenvolver a criatividade, desde que os materiais sejam construídos considerando-se os itens básicos de segurança para a criança34.

Conclusões

Em um cenário onde há escassez de oportunidades para brincar na escola, verifica-se que para amplia-las pode-se recorrer a construção de brinquedos com materiais alternativos. Essa construção em forma de oficina possibilita a discussão e o desvelar sobre inúmeras possibilidades do brincar, tanto teóricas quanto práticas,

Um evento aproximando pais e professores, oportunizando o brincar para as crianças com materiais alternativos pode constituir-se se em uma opção para que crianças de até cinco anos de idade possam brincar na escola, e ao mesmo tempo vivenciando ações que favorecem o desenvolvimento de suas habilidades, auxiliando-as a se tornarem autônomas e criativas, além de serem de baixo custo e permitirem a difusão cultural.

Agradecimentos:

CNPq, CAPES.

Referências

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Recebido: 04 de Agosto de 2015; Revisado: 28 de Maio de 2017; Aceito: 26 de Setembro de 2017

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