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Journal of Physical Education

On-line version ISSN 2448-2455

J. Phys. Educ. vol.29  Maringá  2018  Epub June 07, 2018

http://dx.doi.org/10.4025/jphyseduc.v29i1.2927 

Artigo Original

EDUCAÇÃO DO CORPO, MODERNIDADE E OS SALESIANOS EM ESCOLAS BRASILEIRAS NO INÍCIO DO SÉCULO XX

BODY EDUCATION, MODERNITY AND THE SALESIANS IN BRAZILIAN SCHOOLS IN THE EARLY OF 20TH CENTURY

Diego Ferreira Lima1 

Edivaldo Góis Junior1 

1Universidade Estadual de Campinas, Campinas-SP, Brasil.

RESUMO

Qual seria a melhor estratégia de educação do corpo em uma instituição católica? Esse foi um debate que acomodou discursos modernos e princípios religiosas em escolas brasileiras no início do século XX. Analisar esse contexto pode ajudar a melhor compreender as relações entre os projetos de modernidade e as religiões em conciliação naquele período no Brasil. Tendo em vista tal consideração, esse estudo tem por objetivo observar como as práticas corporais eram utilizadas como conteúdos educacionais em instituições salesianas de ensino. Adotamos como recorte temporal as três primeiras décadas do século XX, momento crucial no que tange à estruturação da escolarização da educação física no Brasil. Conclui que os Salesianos em nenhum momento negaram seus princípios religiosos, mas souberam acomodar em seu cotidiano práticas corporais que até então eram estranhas, já que eram metódicas, racionalizadas, mas propiciavam por meio da educação do corpo a divulgação para as elites de seu projeto educacional marcadamente católico, mas ao mesmo tempo atual e dinâmico, condizente com os tempos modernos do início do século XX.

Palavras-chave: História; Educação; Religiões; Educação Física.

ABSTRACT

Which would be the best strategy for body education in a Catholic institution? This was a debate that settled modern discourses and religious principles in Brazilian schools in the early decades of the 20th century. Analyzing this context can help us better understand the relationship between the projects of modernity and religions in conciliation in Brazil in that period. Based on this scenario, this study aims to observe how the body practices were used in teaching in the Salesian schools. As a temporal cut we have selected the first three decades of 20th century, a crucial moment to the structuring of physical education in Brazilian education. It concludes that the Salesians didn’t let their religious principles, but they accommodated in their educational project, corporal practices that until then were strange, since it were methodical, rationalized, but provided the divulgation to the elites of their educational project, markedly Catholic, but at the same time current and dynamic, consistent with the modern times in early 20th century.

Keywords: History; Education; Religions; Physical Education.

Introdução

O objetivo deste estudo foi observar como as “práticas corporais”1 eram utilizadas como conteúdos educacionais em uma instituição de ensino religiosa no contexto cultural brasileiro do início do século XX. Essa problemática desenha-se no campo da cultura a partir de um recorte histórico definido pelas três primeiras décadas do século XX, por representar um período onde os discursos de modernidade proliferavam em um Brasil urbano nas artes, na educação, na saúde pública e no próprio campo político, com promessas liberais e republicanas em contraste com um Brasil agrário e religioso marcadamente católico.

Entendemos a modenidade, a paritr da perspectiva de Jacques Le Goff2 que explica-nos que o termo “moderno” assinala a tomada de consciência de uma dada sociedade em relação a uma ruptura com o passado, como exemplo, este historiador francês argumenta que países atingidos pelo colonialismo europeu precisaram enfrentar a questão do atraso a partir do início do século XX, almejando assim ampliar seus projetos de modernização. Em um processo de identificação, com negação e oposição entre antigo e moderno, a “modernização” teve certas características que devem ser observadas em cada contexto.

Nesse sentido, no caso brasileiro, teríamos como hipótese que o projeto moderno no campo da educação entrou em conflito com a educação religiosa, representando um embate entre a modernidade e uma cultura pré-moderna. Para Anthony Giddens3, embora arriscado, no sentido de uma construção binária, seria preciso a análise das descontinuidades abruptas entre “instituições pré-modernas” e a modernidade, embora inevitavelmente produza “simplificações excessivas”, esses estudos permitiriam observar o campo cultural de forma particular. Mediante essas prerrogativas, Giddens3 apresenta quatro “contextos de confiança” que marcam as culturas pré-modernas em contraste com a modernidade: a) a confiança nas relações de parentesco como dispositivo para estabilizar laços sociais através do tempo-espaço; b) a confiança na comunidade local como o lugar familiar; c) a confiança em cosmologias religiosas como modos de crença e práticas que explicam a natureza e a vida humana; d) a confiança na tradição como meio de conexão entre o passado e futuro.3

Destacamos, aqui, a confiança em “cosmologias religiosas”, termo cunhado por Giddens3 para descrevermos o lugar da religião em culturas pré-modernas, que para ele proporciona a confiança em interpretações morais e práticas que pautam a vida social e individual, dando segurança ao seu praticante. Confiança disseminada por “funcionários religiosos” que desempenhariam um papel relevante na inculcação de discursos e práticas que afetariam o cotidiano, a vida social, mas também, mais especificamente, a educação de jovens. Se pensarmos que mesmo o Brasil urbano do início do século XX era marcado por uma cultura pré-moderna, estaríamos descrevendo o cenário propício para um projeto educacional religioso ter êxito em sua constituição e disseminação, incutindo moralidades, reafirmando rituais e práticas. Contudo aqueles espaço e tempo conheciam também, já desde os anos oitocentos, representações próprias da modernidade que de forma não abrupta no caso brasileiro interpelavam as “confianças” da cultura pré-moderna. Giddens3 descreve o incremento da modernidade em contraposição a esta “confianças” da seguinte forma:

No entanto, a maior parte das situações da vida social moderna é manifestamente incompatível com a religião como uma influencia penetrante sobre a vida cotidiana. A cosmologia religiosa é suplantada pelo conhecimento reflexivamente organizado, governado pela observação empírica e pelo pensamento lógico, e focado sobre tecnologia material e códigos aplicados socialmente. Religião e tradição sempre tiveram uma vinculação íntima, e esta última é ainda mais solapada do que a primeira pela reflexividade da vida social moderna, que se coloca em oposição direta a ela.3):121-122

Pensamos que este processo de ruptura entre modernidade e estas “confianças” das culturas pré-modernas, como por exemplo, a religião, ocorreram de formas diferenciadas em tempos e espaços diversos. Desse modo, na América Latina, assim como no Brasil urbano do início do século XX, os discursos modernos entraram em conflito com a religião, mas também foram acomodados ou mesmo conciliados com as “confianças” pré-modernas. Néstor Garcia Canclini4, ao estudar a produção cultural mediante o modernismo e a modernização socioeconômica na América Latina, apontou a necessidade de irmos além da interpretação que a modernidade latino-americana foi tardia e incompleta em comparação à Europa, mas sim contraditória e hibridizada. Em seus termos:

[...] Apesar das tentativas de dar à cultura de elite um perfil moderno, encarcerando o indígena e o colonial em setores populares, uma mestiçagem interclassista gerou formações híbridas em todos os estratos sociais. Os impulsos secularizadores e renovadores da modernidade foram mais eficazes nos grupos “cultos”, mas certas elites preservaram seu enraizamento nas tradições hispânico-católicas e, em zonas agrárias, também indígenas, como recursos para justificar seus privilégios da ordem antiga desafiados pela expansão da cultura massiva4):73-74.

São estas “contradições latino-americanas” provocadas por ondas modernizadoras em contraste, mas em nosso entender também em conciliação com a religião, que permitem readequar nossa problematização no sentido de compreender como uma instituição religiosa católica empreende um projeto educacional mediante os discursos modernos da educação. Quais são suas estratégias? O embate com o moderno ou a acomodação de seu discurso racional e científico? Se Néstor García Canclini4):73 indagou:

Se o modernismo não é a expressão [mecânica e funcional] da modernização socioeconômica mas o modo como as elites se encarregam da intersecção de diferentes temporalidades históricas e tratam de elaborar com elas um projeto global, quais são as temporalidades na América Latina e que contradições seu cruzamento gera? Em que sentido essas contradições entorpecem a realização dos projetos emancipador, expansionista, renovador e democratizador da modernidade?

Podemos problematizar essas questões de forma mais específica tanto no espaço como no tempo. Enfim, como uma ordem religiosa católica, a saber, os Salesianos, constituiu um projeto educacional em escolas brasileiras no início do século XX? Qual seria sua relação com o contraditório dos discursos educacionais modernos pautados pela ciência que tinham como centro a “educação do corpo”5?

Métodos

Em termos metodológicos, realizamos uma pesquisa documental que teve principalmente como fontes os anuários de colégios salesianos. Fizemos, ainda, um recorte do objeto, por certo arbitrário, na observação de três instituições salesianas: o Colégio Salesiano Santa Rosa, localizado em Niterói, Estado do Rio de Janeiro; e as instituições paulistas: Liceu Sagrado Coração de Jesus, na cidade de São Paulo e o Liceu Salesiano Nossa Senhora Auxiliadora, localizado no município de Campinas. O critério de escolha das três instituições ocorreu a partir da compreensão que o Colégio Salesiano Santa Rosa foi o pioneiro na inserção e expansão da Obra de Dom Bosco no Brasil. Além dele, as instituições paulistas passaram a integrar a pesquisa pela relevância que possuíam no sistema salesiano, localizadas em cidades com importâncias econômica e cultural no período estudado. A partir dos acervos específicos dos colégios foi constituído um corpo documental caracterizado por imagens e documentos escritos, como cartas, reportagens e convites encontrados em 43 anuários. Os anuários não corresponderam a toda periodização, no caso do Colégio Salesiano Santa Rosa os documentos eram sequenciados entre os anos de 1922 a 1930, no Liceu Sagrado Coração de Jesus de 1915 a 1930, no Liceu Salesiano Nossa Senhora Auxiliadora de 1913 a 1930.

Resultados e discussão

A Sociedade São Francisco de Sales - Salesianos - foi fundada em Turim, Itália, em meados do século XIX por Dom Bosco. Já na Itália a ordem se destacou por sua atenção à juventude no campo educacional6, tendo como diferencial os ensinamentos de Dom Bosco que incentivam a “alegria”7. Nas casas salesianas por conta dessa particularidade, a alegria, eram utilizadas como instrumento pedagógico diversas atividades recreativas, que a compreendemos como práticas corporais, onde se destacavam os jogos, as brincadeiras, as músicas e danças6.

A proposta pedagógica dos salesianos diferenciava-se de outros projetos educacionais religiosos pela ênfase na concepção de um protagonismo juvenil, característica salesiana que se consolidou como uma particularidade relevante em suas instituições educacionais. Entende-se por protagonizar o ato de colocar o jovem como agente de transformação do ambiente. A educação salesiana pressupõe a participação do jovem atuando e interferindo na própria comunidade educativa e na sociedade como um todo.

O protagonismo juvenil é uma dimensão que a Educação Salesiana prioriza como uma prática pedagógica que venha a fazer os jovens participarem, ativa e criticamente, como interlocutores ou parceiro dos educadores e dirigentes de programas, no sentido de tornarem-se responsáveis pelo próprio processo de aprendizagem.6): 48

Esta especificidade da instituição educativa de Dom Bosco, o protagonismo juvenil, ampliou a importância pedagógica de práticas corporais como os jogos, música, danças e a alegria juvenis, possibilitou seu sucesso, demandando sua expansão. Azzi8) relata que para cumprir este objetivo houve a migração de missionários para outros países que objetivava não só o crescimento da própria ordem religiosa, mas também uma forma de reação a um período de grandes transformações no continente europeu e crescimento de outras religiões no cenário mundial. Assim a Igreja Católica propunha uma segunda evangelização com características missionárias nos continentes da Ásia, África e América Latina. Em específico, no Brasil, a ordem teria alguns interesses particulares como a expressiva imigração de italianos pobres, bem como, a possibilidade de evangelização de um importante contingente populacional indígena.9),(7).

Mediante esses interesses a ordem salesiana instala-se no Brasil. Contudo sua chegada também ocorria em um cenário de expansão do sistema educacional brasileiro e difusão de novos hábitos em meio à população urbana. Consequentemente muitas ações desenvolvidas pela Ordem e suas instituições de ensino se entrecruzam com os pensamentos difundidos nesse período. Higino10 relata que os Salesianos priorizavam a instalação de oratórios e escolas em cidades que proporcionassem um potencial crescimento para os seus projetos. Dessa forma, as localidades escolhidas geralmente possuíam uma centralidade econômica e cultural, sendo referências nas regiões onde estavam localizadas.

O objetivo inicial da Obra salesiana seria o trato dos jovens que estariam à margem da sociedade, desvalidos, órfãos e pobres; ação que respondia diretamente ao projeto democratizador moderno de cidades brasileiras.11

Outra ação muito representativa da Ordem salesiana para o recorte temporal mencionado era o ensino profissional. Esse tipo de ensino supriria a necessidade de qualificação de mão de obra. Para Silva e Souza11 as instituições voltadas para o ensino de ofícios mecânicos foram empregadas no sentido de formar tecnicamente a população mais pobre. Cunha12):31. ressalta:

Na sociedade imperial-escravocrata e mesmo nas primeiras décadas do período republicano, a educação escolar se organizava em função de dois pólos opostos que defendiam dois mundos escolares: de um lado, o ensino superior e, em função deste, um tipo especial de ensino primário; de outro lado, o ensino profissional ministrado nas escolas agrícolas e nas escolas de aprendizes-artífices, destinados à formação da força de trabalho a partir de crianças órfãs, abandonadas ou simplesmente, sem acesso a escola de qualquer tipo.

As instituições salesianas em solo brasileiro tinham como principais estruturas de atuação os oratórios festivos e oficinas profissionais durante o início de seus trabalhos no Brasil a partir de 1882, diversificando seus cursos entre carreiras urbanas nos grandes centros e agrícolas nas regiões localizadas no interior. Cunha12 relata, porém, que o insucesso dos abolicionistas em um projeto moderno que objetivava a formação de trabalhadores a partir da escolarização dos novos libertos, deu lugar à estratégia das classes dirigentes que apostava em organizações religiosas e, preferencialmente, na igreja católica como instituições disseminadoras do ensino no país.

Logo, o objetivo de tratar apenas da população mais pobre não satisfazia mais os anseios daquela Ordem. Facilitado pela escassez de um sistema educacional de qualidade no território nacional, rapidamente os missionários assumiriam uma função mais específica: educar as elites.

Nas primeiras décadas do século XX, a Ordem já tinham se tornado um grande sistema educacional no Brasil, muitas vezes obtendo subsídios do próprio governo para financiar seu projeto expansionista. Sendo considerada referência na educação de jovens muito particularmente por suas iniciativas, mas também por saber acomodar nuanças do discurso moderno para atrair as elites, como o que se evidenciou nas questões relacionadas à educação do corpo.

As relações entre o projeto educacional salesiano e as práticas corporais utilizadas como estratégias de uma educação do corpo podem evidenciar de que modo uma instituição educacional católica se posicionava a parir de demandas da modernidade. Como por exemplos, a ginástica e os esportes que, sem dúvida, são expressões de um projeto moderno que prometiam uma relação íntima dos indivíduos com a experimentação do corpo, com a anunciação dos seus limites, sacrifícios e prazeres, mediante uma racionalização da ciência moderna, da confiança em “sistemas abstratos” para usarmos os termos de Giddens3.

Pedagogias que nas concepções modernas incidiam sobre um corpo representado agora como uma máquina, que deveria ser limpo, disciplinado e mais produtivo. Essa representação ancorava-se numa concepção econômica, sem dúvida, pois, ele é pensado então como uma máquina que produz, como força de trabalho, mas também concebido pelos governos com um bem pertencente à nação, que deveria cuidar dele, daí brotando expressões como “capital humano” ou “motor humano”13. A máquina, uma vez estudada, poderia dar à ciência por meio de “sistemas abstratos” a confiança no seu desenvolvimento, tornando-a mais resistente, forte e produtiva. Aplicações tangíveis no campo da medicina, mas também em práticas corporais tidas como auxiliares no projeto do corpo-máquina através de seu controle e manutenção14. Contudo, essas representações modernas seriam cabíveis em um contexto de escolarização católica? Como poderiam ser materializadas?

Os primeiros indícios na direção da relevância dessas pedagogias, das práticas corporais modernas no contexto do projeto educacional salesiano, estão situados na própria arquitetura dos colégios. Salienta-se que a construção de um amplo espaço físico para essas práticas era de caráter obrigatório nas instalações das instituições salesianas. Higino10):25. relata que na construção do Colégio Salesiano Santa Rosa, em Niterói:

O terreno de mais de 100 mil m2 foi ocupado uma série de edifícios sólidos, bem arejados e adaptados às exigências de um bom colégio, com pátios amplos e arborizados para cada uma das seis divisões de alunos, campos para jogos, salão de teatro para representações dramáticas e conferências, laboratórios, gabinetes e museus.

Nos estabelecimentos paulistas essas características também podem ser percebidas por meios de documentos que descrevem a distribuição espacial e a localização das escolas. No Liceu Sagrado Coração de Jesus, em São Paulo, na descrição de seu prédio, duas características chamam a atenção para o cotidiano das práticas corporais: um amplo espaço interno que serviria em dias de chuva para os educandos desfrutarem dos momentos de recreio e ao lado de fora estaria o “aprazível” parque destinado aos jogos esportivos15. A instituição campineira, o Liceu Nossa Senhora Auxiliadora, no anuário de 1913, ao mencionar sua localização na cidade no início do século XX, atenta para o espaço de divertimento dos seus alunos em meio a um imponente prédio16.

Dessa forma, ficaria evidenciada a preocupação em relação aos espaços reservados para as práticas corporais nas casas salesianas. Eles eram identificados como “pátios”, locais privilegiados para a exposição das iniciativas da Ordem. Nos pátios das instituições salesianas, além das práticas corporais livres, lúdicas e recreativas, os esportes também são encontrados no cotidiano das escolas de Dom Bosco. Um exemplo era o futebol. Em Niterói, a prática dessa modalidade foi registrada já na primeira década do século XX em uma fotografia que reunia diversos times da instituição que apresentava o seguinte texto em seu rodapé:

Até o dia 7 de Setembro de 1909 não havia, em SANTA ROZA, logar para o bello e empolgante SPORT inglez. Aberta a clareira, são cabriolam á farta, desafogadamente. E é de vêr-se a vibração fremente da nossa garrida petizzada, a flanquear o campo nos dias de festa, oscilla, cresce, inclina-se e, não raro, um fragor de palmas, um explodir de vozes, alongando-se em echos, atroa o bairro, acorda Icarahy.17):s. p.

Relatos de padres, professores e outros funcionários da instituição em partidas de futebol eram frequentes. Diversas fotos vislumbram as representações que o esporte possuía por parte dos Salesianos. Em seus termos:

Os nossos GROUNDS bisemanalmente invadidos pelas quatro divisões collegiais, cujos doze PARES, ao todo 24 TEAMS, cada qual mais campeão, lá nos dias de luta, no dia da desforra, no dia do desempate! Dever-se sim e de se ouvir: porque a multidão infantil, nos MOMENTOS do jogo proclamando as alegrias sans do nosso robusto collegial.17): s.p.

Analisando os dados iconográficos encontrados no acervo histórico da instituição fluminense, pode-se observar a relevância daqueles encontros esportivos para a interação entre os estudantes e a comunidade externa. Além disso, os uniformes demonstravam organização, os corpos alinhados, os estudantes com cabelos muito bem penteados aludiam os hábitos de limpeza, as camisas de manga compridas por dentro dos calções, às vezes presos por cintos e chuteiras completavam a indumentária pertinente à prática desportiva.18

As escolas paulistas também praticavam o “empolgante esporte inglês” em seus pátios. Na escola campineira em seus amplos campos ocorriam ligas e torneios entre as diversas divisões de alunos. Contudo no anuário de 1914, na apresentação sobre as festas desse mesmo ano, relata-se a importância desse desporto não pela sua presença e sim pela sua ausência. Algum grave motivo fez com que naquele ano os passeios-excursões e os jogos esportivos, nesse caso o futebol, não ocorressem. Em seus termos:

Mesmo os nossos jogos sportivos foram grandemente prejudicados, furtando-se dest’arte aos nossos valentes foot-ballers o grato ensejo de, victoriosamente medirem suas forças com outros terríveis clubs. Não importa! Os nossos foot-ballers dormiram sobre os louros colhidos em recentes pugnas... Si nos falharam as excursões festivas, si não tivemos a disputa sensasionaes matches de football, em compensação, cá tivemos nossas festas do ano, interessante e attraente, deixando a todos nós saudades imperecível, recordações gratíssimas.15): 9.

Assim, os jovens poderiam gozar de uma certa autonomia ao organizar suas práticas, contudo essa liberdade era tutelada por adultos, no sentido de garantir um comportamento considerado adequado, ao contrário, a transgressão poderia ser punida com o esvaziamento destas práticas, ou seja, pelo cessearmento das disputas externas, por exemplo. Embora o protagonismo juvenil fosse central, a tutela da juventude também estava presente. Ou seja, a constante presença de religiosos almejava prevenir um comportamento considerado imoral, nos termos dos salesianos, constituir um “sistema preventivo”.

Os resultados desta pegagogia eram propalados em visitas, passeios e apresentações. No ano 1927, no anuário do Liceu Salesiano Sagrado Coração de Jesus há uma fotografia com a seguinte legenda: “Amistoso encontro inter-colegial, Lyceu de S. Paulo versus Lyceu de Campinas19. Os teams congraçados em fraternal abraço. No centro a corbeille oferecida aos nossos amáveis hospedes campineiros”. Na fotografia (Figura 1), os dois times juntos organizados em três linhas de profundidades somavam 23 jogadores com uniformes semelhantes, com listras verticais, calções claros; os goleiros de roupas claras contabilizavam três; ao centro da imagem entre dois goleiros a bola de futebol. Ao lado direito três senhores, ao lado esquerdo mais dois senhores todos bem alinhados já que a fotografia no início do século XX era por si mesma um evento relevante. Além deles, um padre vestindo uma batina preta demonstrava a especificidade da instituição salesiana.19):186.

Liceu Salesiano Sagrado Coração de Jesus, Anuário, 1927

Figura 1 Amistoso entre o Lyceu de S. Paulo versus Lyceu de Campinas 

A presença do futebol é marcante nos documentos que narram o recorte histórico estudado por essa pesquisa, porém, nos pátios salesianos outras práticas também se fizeram presentes. A recreação, os jogos e brincadeiras já presentes na pedagogia de Dom Bosco dividiam espaço com os esportes modernos e institucionalizados. A dinâmica de seus pátios é transmitida nas fotografias. O espaço salesiano é fotografado em meio ao movimento dos pátios. Na pasta de fotografia do Liceu Salesiano Sagrado Coração de Jesus 1902 - 1907, a fotografia “LICEU - SP 41” demonstra de forma clara o protagonismo dado à dinâmica do pátio salesiano20. Na foto, alguns alunos presentes no pátio posicionam-se para o retrato em quanto outros continuam a realizar suas atividades, assim a fotografia ganha movimento com as corridas, jogos, e brincadeiras dos educandos20. Os ensinamentos de Dom Bosco, o prazer proporcionado pelos movimentos livres e a alegria são observados nesta imagem.

Contudo, a prática esportiva ganhava também outros referenciais. Nos campos e pátios das instituições salesianas, o basquetebol, o voleibol e o “ping-pong” também eram praticados. O basquetebol estava presente no pátio salesiano a partir do ano de 1919, sendo assim relatado no anuário da instituição campineira: “Foi inaugurado no pateo dos maiores o novo jogo de basketball, presente do revmo. padre diretor”21):43. A fotografia intitulada “Inauguração do Basket-Ball - Pateo maiores” ilustra toda a passagem anterior. Um campo de terra batida, contabilizando mais de 10 jogadores, entre educandos e o padre, com a cesta ao fundo vislumbrava a dinâmica do novo jogo. O voleibol e o “ping pong” apresentam-se no anuário de 1930, ambos se colocam como práticas de divertimento vivenciadas pelos educandos.22) Contudo, o ping-pong no Liceu Sagrado Coração era mais organizado, constituindo até mesmo clubes formados pelos educandos da instituição.

O <Sport club ping pong P. Bosso> attingiu o de todas as conquistas. Guiado por uma directoria competente foi levado de victoria em victoria. Com ser pequenos os jogadores mostravam-se grandes na táctica, na esperteza e no conhecimento do jogo levaram de vencida todas as turmas de ping pong das divisões colegiais do Lyceu.23):194

A formação de clubes pelos educandos salesianos foi vivenciada em diversas instituições da Ordem. Esse tipo de organização se aproxima de conceitos pedagógicos dos Salesianos, como o protagonismo juvenil24, com uma perspectiva de educação moral da juventude.

A necessidade de atrair as juventudes em um contexto de disputa com o ensino ofertado por outras instituições religiosas, como as protestantes, levava os salesianos a incorporar práticas modernas como os esportes no sentido de promover os interesses dos jovens, evidenciando seus aspectos inovadores, propagando uma pedagogia mais prazerosa e atraente, sem contudo, abandonar um código moral e religioso considerado adequado pela Igreja.

Quando os jovens organizavam suas equipes para as disputas, o protagonismo juvenil tinha centralidade, o que podia ser observado no caso, também, dos educandos do estabelecimento de Campinas. O mais famoso foi o Clube Domingos Sávio, fundado com ajuda do diretor da instituição junto aos alunos no ano de 1913. O clube foi responsável pela organização de grande parte dos eventos esportivos e recreativos dos seus sócios.

Conforme o Estatuto, o Club Domingos Sávio tem por fim o desenvolvimento physico e intelectual dos sócios, em um nobre coleguismo, segundo os princípios Moraes e religiosos que formam a base do sistema educativo de D. Bosco.17):37

Dialogando com o contexto cultural da modernidade, onde a escola foi um forte instrumento de disseminação de práticas que permeavam novos hábitos, além dos esportes descritos, duas práticas corporais se destacavam nos pátios salesianos: o ciclismo e a ginástica. Para Victor Andrade Melo25 o ciclismo foi a prática esportiva da modernidade que melhor respondeu com sua velocidade às necessidades do novo século. Em diversos momentos o ciclismo estaria presente no cotidiano das escolas salesianas, seja apenas no exercício de pedalar ou em eventos cívicos e desfiles pela cidade; a bicicleta teria lugar certo no pelotão salesiano. Como exemplo empírico, um documento caracterizado por um convite enviado ao Colégio Salesiano Santa Rosa pelo Liceu de São Paulo objetivava a participação da instituição fluminense na Comemoração Cívica do descobrimento da América em 12 de outubro de 1913 na capital paulista. No cronograma do evento, uma das principais ações foi a passeata que percorreu as ruas da capital paulista contando com um corpo especial de alunos, um grupo de ciclistas que presidia todo pelotão, mostrando “o majestoso exército de educandos salesianos”.

NA CAPITAL: A’s 8hs. - Na ((gare)) da Luz serão recebidos pelos collegas do Lyceu Salesiano S. Coração. Organiza-se-à em seguida um prestito composto de 2.000 alumnos de ambos os Estabelecimentos com seus respectivos professores, precedidos por um corpo de cyclístas, a caráter, e acompanhado por tres bandas de musica dos mesmos Institutos; desfilarão pelas ruas Brigadeiro Tobias, Viaduto novo de Santa Ephigenia, S. Bento, 15 de Novembro, Largo da Sé, fazendo nesse ultimo exercício gimnastico estheticos-hygienicos; em seguida, pelo Viaduto do Chá, rua Barão de Itapetininga, Praça da Republica, Palacio São Luiz. Ahi cumprimentarão o Exmo Snr. Arcebispo de S. Paulo, seguindo depois para o Lyceu do S. Coração.26):s.p.

O convite ressaltava os preceitos higiênicos da prática esportiva, coadunando-se com os princípios científicos da educação moderna que tanto aludiam à educação integral. Se a disciplina dos corpos como estratégia de educação moderna não feria os princípios da educação salesiana, os missionários souberam integrá-la e incentivá-la, já que outros princípios modernos estariam em contraposição com uma educação religiosa, como por exemplo, a laicidade. Desse modo, a exibição pública da prática esportiva por parte de seus educandos funcionaria como publicidade de sua modernização mediante outras propostas educacionais religiosas que concorriam naquele momento pela educação das elites nas cidades com outras propostas pedagógicas ofertadas por outras instituições. No Anuário de 1913, uma fotografia denominada “Um grupo de cyclistas em exercício no Parque do Lyceu” (Figura 2) representa a imagem de uma infância privilegiada, distinta, uma miniatura do adulto, em particular, sportmen infantis.16):41. O ciclismo assim como as outras práticas estaria dessa forma dialogando com os ensinamentos da Ordem de Dom Bosco, ressignificando aquela cultura escolar.

Liceu Salesiano Nossa Senhora Auxiliadora, Anuário, 1913

Figura 2 Um grupo de cyclistas no Parque do Lyceu. 

Outra prática representativa da racionalização dos corpos, sobretudo, a partir do controle científico era a ginástica. Ligada também aos preceitos higienistas, a ginástica teve presença marcante no cotidiano das escolas salesianas. Essa prática corporal que responderia às necessidades da disciplinarização dos corpos e da regeneração da sociedade era a que melhor representava as ideias de reforma moral, em outras palavras de controle sobre a natureza corpórea. Na instituição niteroiense, a ginástica na primeira década do século XX não se apresentava como disciplina curricular formal da instituição, como em algumas escolas públicas, por exemplos, a Escola Normal da Capital, Escola Normal de São Paulo e o Colégio Pedro Segundo. Porém a ginástica estava presente nos pátios salesianos e em seus eventos religiosos e cívicos. A programação do dia sete de setembro de 1914 expôs a ginástica como uma de suas principais atrações:

A’s 9 horas - No pateo central: benção das bandeiras collegial e das quatros divisões. - Gymnastica sueca por todos os alunos em conjuncto e parcelladamente pelas Divisões, com alteres (100 pares), bastões (125), maças (80) e clavinas Mauses (200) - Inauguração dos aparelhos gymnasticos, barras, parallelas, frontão, etc.27):s.p.

Em Niterói, a ginástica era vivenciada no interior da escola por meio de sessões de treinamento, e algumas vezes, era denominada como ginástica sueca. Uma foto datada de 1930 mostra os educandos em uma sessão de ginástica no pátio central da instituição28. Com o título de “Exercício de Gymnastica Sueca. Collegio Salesiano Santa Roza em Nictheroy” (Figura 3), a imagem revela alunos enfileirados em total simetria, camisa de manga e calças compridas e brancas, coturno preto e quepe branco, expondo a militarização daquela prática28. Características que evidenciavam também um caráter higiênico que apregoava uma reforma de hábitos que não se situava apenas no corpo, mas também em uma educação moral por meio da disciplina.

Colégio Salesiano Santa Rosa, 1930

Figura 3 Exercício de Gymnastica Sueca. Collegio Salesiano Santa Roza em Nictheroy 

No Liceu Nossa Senhora Auxiliadora, em Campinas, a prática da ginástica também pode ser observada. O anuário de 1915 demonstra o caráter ritualístico das lições e apresentações de ginástica. As imagens revelam alunos todos de branco, em uma simetria perfeita, mediante uma homogeneização dos corpos defendida pela razão científica.29 Nesse mesmo ano, nas festividades do dia sete de setembro, os Salesianos ao realizarem movimentos ginásticos na Praça do Pará, em Campinas, ocupavam espaço na imprensa local, sendo mencionado no Jornal matutino do município, o “Diário do Povo”, registrado pelo Anuário de 1915:

A nota do dia coube, porém, innegavelmente, aos briosos estudantes do Lyceu de N. S. Auxiliadora [...] Na praça do Pará os alumnos que constituem as tres divisões, menores, medios e maiores, exhibiram-se em interessantissimos exercicios de gymnastica sueca e evoluções militares, portando-se com tal galhardia, que provocaram constantes applausos de parte da assistencia que foi avultada.29):31

Junto à ginástica na segunda década do século XX, a instituição campineira introduz na grade de ensino dos seus educandos o ensino de instruções militares. Um dos principais professores que ministravam essa prática foi o Segundo Tenente Joaquim Vieira de Mello Filho que modificou as apresentações ginásticas da instituição, dando centralidade aos exercícios militares e as “pirâmides humanas”. Em 1917, nas comemorações da independência do Brasil na Capital federal, as pirâmides humanas foram destacadas pelo “Jornal do Brazil” e registradas pelo respectivo anuário:

A medida que eram executadas as evoluções o enthusiasmo e os applausos da assistencia augmentavam, chegando ao auge, tocando ao delirio quando os pequenos salesianos entraram a formar as pyramides. As palmas eram demoradissimos e surgiam de todos os cantos.30):47

Assim como no Colégio Salesiano Santa Rosa, na instituição campineira as apresentações de ginástica ultrapassaram as paredes da instituição colocando-as em contato direto com um público mais amplo. As apresentações públicas eram frequentes e a ginástica representava o caráter moderno da escola de Dom Bosco diante a sociedade. No Liceu da Capital paulista, a ginástica também faria parte do cotidiano escolar. Na Festa do Revmo. Pe. Inspector, em 11 de agosto de 1927, a ginástica teria local de destaque na programação.19):38

Tornar estas práticas visíveis para um público mais amplo era uma estratégia eficaz de propaganda do projeto educacional salesiano, que mesmo católico, religioso, não deixava de dialogar com práticas racionais e científicas, como a ginástica. Pois suas escolhas marcadas pelo catolicismo não recaíam de forma homogênea e unívoca contra a modernidade, ao contrário, era possível absorver determinadas práticas consideradas eficazes e utilitárias para a formação educacional dos jovens que, concomitantemente, proporcionavam prazer e protagonismo.

Desse modo, a ginástica também esteve presente no pátio, nos eventos e apresentações dos estabelecimentos educacionais salesianos no início do século XX. Porém nas escolas de Dom Bosco essa prática não foi exclusiva ou principal atividade entre os educandos. No interior das escolas pesquisadas, as práticas corporais salesianas como os jogos e brincadeiras dialogaram com as modernas práticas de educação do corpo, por exemplos, a ginástica, os esportes coletivos e o ciclismo. Entretanto, no cotidiano escolar essas teriam funções distintas na educação salesiana. O anuário de 1913 do Liceu campineiro exemplifica essa ação da seguinte maneira:

O Lyceu, attendendo de um modo especial ao desenvolvimento intellectual e moral do alumno, não descura a sua educação physica subministrando-lhe numerosos generos de diversão.

E assim é que vemos, em horas prestabelecidas, percorrerem velozes as nossas avenidas garridos jovens, montados em elegantes bicycletas.

Si dermos mais alguns passos, encontraremos uma enorme area de terreno subdividido em 6 grounds onde, á tardinha, vão os nossos alumnos treinar interessantes partidas de football.17):40

A proposta pedagógica da Ordem Salesiana, assim como as práticas que serviam como adventos da modernidade proporcionaram uma grande interação entre os sujeitos daquelas comunidades escolares (educandos, professores, inspetores, padres, instrutores). Desse modo, suas práticas corporais foram um dos principais instrumentos para a concretização dos princípios da Ordem, como o protagonismo juvenil, particularidade salesiana que colocava em evidência os esportes, as ginásticas, os jogos e atividades recreativas. Consequentemente, também no Brasil o pátio tornou-se um dos principais elementos estruturais do projeto educacional salesiano.

A Ordem Salesiana dialogou com ares da modernidade por meio das práticas corporais. A proposta pedagógica original iniciada por Dom Bosco em Turim é disseminada nas instituições brasileiras, com jogos, atividades livres e recreativas, que conviviam com práticas corporais marcadas pela educação moderna, como a ginástica e os esportes.

Conclusões

Ao retomarmos nosso problema de pesquisa, enfim, construir uma explicação ainda que parcial sobre a atuação educacional dos Salesianos mediante o contraditório dos discursos modernos pautados pela ciência possibilitou outros olhares sobre este objeto. Ao perseguirmos as respostas, compreendemos que a oposição entre a proposta pedagógica religiosa de Dom Bosco e a modernidade, ou mais particularmente, entre as confianças das “culturas pré-modernas” e as confianças em “sistemas abstratos modernos”, proposta por Giddens3, não explicaria de forma precisa o contexto brasileiro quando observávamos a dinâmica de discursos e práticas presentes em escolas salesianas no período estudado. As análises de Canclini4, mais direcionadas ao contexto latino-americano, nos auxiliaram ao passo que apontavam as contradições entre movimentos modernizadores e a modernização socioeconômica nestes países. Em seus termos, na América Latina: “Essa heterogeneidade multitemporal da cultura moderna é consequência de uma história na qual a modernização operou poucas vezes mediante a substituição do tradicional e antigo”4):74. Esse contexto de contradições era propício para que apenas as elites brasileiras pudessem ter acesso a práticas tidas como modernas, aos confortos de uma civilidade urbana, higiênica, racional, conforme as prescrições de médicos e intelectuais31, que produziam distinção por parte de seus adeptos, mas também concomitantemente mantinham as estruturas sociais em confianças pré-modernas como a educação religiosa. Porém em relação aos missionários, longe de estabelecer um paradoxo, determinados discursos modernos podiam ser acomodados pela educação religiosa, constituindo “culturas híbridas”, como propõe Canclini4 em relação ao campo das artes nos países latino-americanos no século XX. Pois, no contexto de uma cultura híbrida, a aceitação de determinadas práticas que não se colocavam contrárias aos seus princípios fundamentais, possibilitavam uma melhor recepção do grupo religioso na comunidade na qual ele se inseria. Seria, desse modo, uma interpretação mais adequada a este objeto deste estudo, pois os Salesianos em nenhum momento negaram seus princípios religiosos, mas souberam acomodar práticas corporais modernas que até então eram estranhas, já que eram metódicas, racionalizadas e pretensamente científicas, mas propiciavam por meio da educação do corpo a divulgação para as elites de seu projeto educacional marcadamente católico, mas ao mesmo tempo atual e dinâmico, condizente com os tempos modernos do início do século XX.

Agradecimentos:

Esta pesquisa contou com o apoio da Fapesp, Auxílio a Projeto de Pesquisa Regular. Processo 2016/00617-6.

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Recebido: 22 de Janeiro de 2017; Revisado: 17 de Julho de 2017; Aceito: 16 de Agosto de 2017

Endereço para correspondência: Edivaldo Gois Junior. Av. Érico Veríssimo, n. 701, Departamento de Educação Física e Humanidades, Cidade Universitária, Campinas, São Paulo, Brasil. CEP: 13083-851. Email: edivaldo@fef.unicamp.br.

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