SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.29COMPETITIVE BALANCE IN FOOTBALL: A COMPARATIVE STUDY BETWEEN BRAZIL AND THE MAIN EUROPEAN LEAGUES (2003-2016)APPROACHES BETWEEN THE RODA DE CAPOEIRA AND THE DITHYRAMBIC CHORUS IN THE DIONYSIAN RITUALS OF ANCIENT GREECE author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Journal of Physical Education

On-line version ISSN 2448-2455

J. Phys. Educ. vol.29  Maringá  2018  Epub Apr 01, 2019

http://dx.doi.org/10.4025/jphyseduc.v29i1.2947 

Artigo Original

PERFIL DOCENTE: ANÁLISE DAS DECISÕES DE PLANEJAMENTO DE PROFESSORES ESTAGIÁRIOS DE EDUCAÇÃO FÍSICA

TEACHING PROFILE: ANALYSIS OF THE PLANNING DECISIONS OF PHYSICAL EDUCATION TRAINEE TEACHERS

Francis Natally de Almeida Anacleto1 

Carlos Alberto Serrão dos Santos Januário2 

Gustavo da Motta Silva3 

Janaína da Silva Ferreira4 

José Henrique5 

1Universidade Federal do Vale do São Francisco, Petrolina-PE, Brasil.

2Faculdade de Motricidade Humana, Lisboa, Portugal.

3Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro-RJ, Brasil.

4Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro-RJ, Brasil.

5Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica-RJ, Brasil.

RESUMO

Inicia-se o estudo com as seguintes problemáticas: Existe estabilidade nos pensamentos e decisões de planejamento dos estagiários em sequências de aulas? Ou seja, é possível dizer que existe um perfil de planejamento típico de cada estagiário?; Quais as características dos pensamentos e decisões de planejamento dos estagiários de Educação Física? O design metodológico é qualitativo e quantitativo, de natureza descritiva, em que os instrumentos e técnicas objetivam identificar e analisar os processos de pensamento no planejamento de ensino. A amostra é constituída por 18 estagiários de Educação Física. Para coleta de dados utilizou-se uma entrevista estruturada. Os dados foram tratados com recurso ao programa estatístico SPSS 21, mediante o One Sample T-Test para verificar a estabilidade das decisões e Cluster Analysis para identificar grupos de estagiários baseado na comunalidade das decisões de planejamento. Verificou-se a estabilidade das decisões de planejamento em relação às três entrevistas pré-aula. Os resultados possibilitaram identificar quatro perfis de professores estagiários, com características típicas e atípicas segundo a literatura referendada.

Palavras-chave: Decisões de Planejamento; Professores Estagiários; Educação Física.

ABSTRACT

The study begins with the following problems: Does stability exists in the thoughts and in the trainees' planning decisions in the several classes? In other words, is possible to say that a typical profile of each trainee exists?; Which are the characteristics of the thoughts and the trainees' of Physical Education planning decisions? The methodological design is qualitative and quantitative, of descriptive nature, where the instruments and techniques aim at to identify and to analyze the thought processes in the teaching planning. The sample is constituted by 18 trainees of Physical Education. For collection of data a structured interview nature was used. The data were processed using the SPSS 21 statistical program, using the One Sample T-Test to verify the stability of decisions and Cluster Analysis to identify groups of trainees based on the commonality of planning decisions. The stability of the planning decisions was verified at the three interviews made before the class. The results allowed the identification of four profiles of trainee teachers, with typical and atypical characteristics according to the referenced literature.

Keywords: Planning Decisions; Trainee Teachers; Physical Education.

Introdução

Esse trabalho apresenta parte dos resultados de um projeto de pesquisa longitudinal cujo objetivo principal foi analisar e compreender como se desencadeia o processo de automatização das decisões de planejamento e de ensino nos distintos estágios do desenvolvimento profissional, com a finalidade de conhecer como e quando estes processos se automatizam tornando-se rotinas da sua atividade docente. O presente artigo, em especial, investiga a natureza e as características dos processos de pensamento de planejamento dos estagiários de Educação Física.

O Estágio Pedagógico é um espaço de aprendizagens significativas no processo de formação dos professores. Consiste em experiência de formação estruturada com base nas disciplinas teóricas componentes do currículo acadêmico e etapa da formação responsável pela construção de potenciais possibilidades do cotidiano contribuindo no fazer profissional do futuro professor1.

A experiência do estágio se apresenta como uma fonte do conhecimento para aprender a ensinar, preparando os jovens professores para o início de profissão. Constitui-se em oportunidade de terem contato com a realidade escolar e proximidade com modelos e práticas de ensino2. Porém, por vezes valorizado pela partilha de experiências e pelo enriquecimento em termos de aprendizagem e, por outras, com sentimentos de indiferença, devido seus aspectos burocráticos3.

Embora se entenda que práticas inovadoras também são reflexos dos conhecimentos advindos do estágio4, pensar a estrutura didática e pedagógica do Estágio não é foco deste estudo. Todavia, torna-se inevitável compreendermos esta etapa da formação como um processo de ensino e de aprendizagem com múltiplas facetas subjetivas e ocultas na prática pedagógica, principalmente como esta se organiza nos processos de pensamento no planejamento dos estagiários.

Dedicaremos também espaço ao planejamento de aula sob o prisma do paradigma do Pensamento e Ação do Professor5. Os programas de investigação no contexto deste paradigma preocupam-se fundamentalmente em descobrir quais são os processos de raciocínio que ocorrem na mente do professor durante as fases da ação educativa6),(7.

A conjuntura interna do paradigma do Pensamento e Ação do Professor conglomera três categorias basilares de pensamento: o planejamento (pensamentos pré-interativos e pós-interativos); os pensamentos e decisões interativas (tomadas de decisões durante a intervenção didático-pedagógica); as teorias e crenças docente5. Os pensamentos e as decisões de planejamento norteiam a conduta do professor em suas ações rotineiras na aula, além de atribuir significados aos conteúdos e às conjunturas do ensino8.

Estudar o pensamento e decisões de planejamento dos estagiários possibilita melhor compreender o processo de ensino e de aprendizagem, a fronteira entre o modo de pensar e o método didático utilizado - o que ensinar / como ensinar, desvelando para os próprios atores do processo as múltiplas facetas da ação educativa.

Daí que, quando se fala neste paradigma duas premissas são tangíveis de serem investigadas. A primeira configura o professor como um sujeito reflexivo, que toma decisões, emite juízos, tem crenças e desenvolve rotinas próprias de ensino. A segunda explicita que a postura e conduta do professor são determinadas pelos seus processos de pensamento, juízos e decisões9. É na primeira conjectura de investigação que desenvolvemos as problemáticas e o desenrolar deste estudo.

A disponibilidade dos professores para expressar os seus próprios pensamentos e falar sobre as suas concepções e crenças mais profundas; e a ideia de que esses pensamentos sobrevivem imutáveis ao longo do tempo, são questões que atingem a validade temporal dos estudos, assumindo certo presentismo das concepções e das perspectivas dos professores, embora possam sofrer alterações com o evoluir da pessoa ou dos contextos em que se originaram3.

Nesta perspectiva, esta área de investigação apresenta uma carência e necessidade de estudos longitudinais que investiguem a evolução dos processos de pensamento de planejamento e de ensino dos professores ao longo da trajetória profissional. A compreensão desta evolução profissional dos professores é de extrema importância quando se considera processos de reforma nos programas curriculares do Sistema Educativo.

A investigação sobre os processos de pensamento de planejamento ocorre sob a perspectiva da psicologia cognitiva, onde os professores são concebidos como processadores de informação, interagindo com o seu ambiente de modo único e idiossincrático; e apresenta muitos desafios, constituindo-se como objeto de análise sobre o ensino, na medida em que o planejamento é uma janela privilegiada para melhor conhecer o ensino10.

Objetivamos analisar a natureza e as características dos processos de pensamento dos estagiários de Educação Física, durante o planejamento, tendo como suporte empírico depoimentos das entrevistas antecedentes ao momento da aula, com a finalidade de fundamentar uma análise e reflexão acerca da existência de características de pensamento e decisões de planejamento que definem um Perfil Típico de estagiário.

Assim, pretendemos elucidar nesse estudo se existe estabilidade nos pensamentos e nas decisões de planejamento em cada estagiário nas várias aulas; se é possível perceber um perfil típico de estagiário; e as características dos pensamentos e decisões de planejamento destes estagiários de Educação Física.

Em um primeiro momento, temos como finalidade entender se há diferenças no perfil decisional dos estagiários. Em seguida, o estudo procura compreender a (in)existência de perfis que reunam características comuns nos pensamentos e decisões de planejamento destes estagiários.

Pensar na prática pedagógica dos estagiários implica diretamente considerar a raiz da questão, que está também vinculada ao processo de profissionalização desenvolvido durante o Estágio Pedagógico.

Métodos

No design deste estudo, optamos em utilizar as duas vertentes metodológicas empregadas pelas pesquisas nas áreas das Ciências Sociais e Educacional, qualitativa e quantitativa. Sendo assim, estamos de acordo com a literatura sobre a utilização de um hibridismo metodológico, como via para responder a complexidade dos problemas postos pelas pesquisas nestas áreas do conhecimento, em detrimento da perspectiva paradigmática que promove a superioridade, disjunção e incompatibilidade entre os diferentes métodos8.

A amostra é constituída de 18 professores de Educação Física, que quando estagiários realizaram sua formação inicial numa Instituição de Ensino Superior privada localizada no interior do estado de Minas Gerais, e de 54 aulas, lecionando cada um 3 aulas. Solicitou-se ao Coordenador de Curso que assinasse um Termo de Anuência autorizando a realização do estudo no interior da instituição. Após os participantes estarem cientes do objetivo da pesquisa, solicitou-se a assinatura de um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. A pesquisa foi aprovada pelo comitê de ética da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro sob o número do COMEP: 23083.006714/2015-75, sob o número do parecer 655/2015.

Para a coleta de dados aplicou-se a entrevista estruturada, utilizando o Roteiro de Entrevista Pré-Aula6, já validado. Inicialmente houve a necessidade de verificar a validade do roteiro na realidade brasileira, dado que a princípio foi estruturado para a realidade portuguesa. A fidelidade da codificação foi assegurada de acordo com o método inter e intra-observador, pela percentagem de acordos e de desacordos, com base na fórmula de Tuckwell6.

As entrevistas foram gravadas e posteriormente transcritas e analisadas. Servimo-nos da análise de conteúdo11 para a codificação das categorias relativas aos processos de pensamentos e decisões presentes no planejamento dos estagiários, utilizando seis sistemas de análise: Pensamentos e Decisões Didáticas, Diagnóstico de Aluno, Diferenciação do Ensino, Preocupações Práticas, Decisões Legitimadas e Decisões Alternativas6.

Posteriormente, os dados foram tratados com recurso ao programa estatístico SPSS versão 21. Aplicamos o One Sample T-Test para verificar a estabilidade dos dados de cada professor nas 3 aulas e utilizamos a estatística descritiva e a Cluster Analysis, um método de classificação automática, com intuito de identificar grupos homogêneos de estagiários, com características de pensamentos e decisões de planejamento comuns.

Resultados

A princípio pretendeu-se verificar a estabilidade em cada estagiário das informações coletadas - 18 estagiários / três aulas não sequenciais / 54 entrevistas, utilizando a estatística do One Sample T-Teste. Este fato permitia-nos considerar com maior propriedade cada estagiário como o valor de referência e não os valores de aula a aula.

Dentre as 23 variáveis de planejamento codificadas das características de pensamento dos estagiários, apenas duas categorias - Decisões Legitimadas por Preconcepções e Preocupações Práticas com o Próprio, apresentaram um valor superior a p ≤ .05. Este resultado se assemelha ao encontrado por Santos12, com base na análise dos depoimentos de dois professores em quatro aulas sequenciais, descodificadas por meio do Florida Performance Measuremente System (FPMS)13. Por meio da estatística Qui-quadrado, constatou que em cinco das oito aulas descodificadas pelo FPMS houve estabilidade nos processos de pensamento de planejamento dos professores.

Em seu estudo, Januário6 analisou os resultados relativos à estabilidade em duas aulas de 22 professores, tendo constatado que das 29 variáveis continuas pré-interativas/planejamento, apenas oito não denotaram estabilidade entre as duas aulas (p ≤ .05).

Assim, face aos dados obtidos, é legitimo pensarmos que existe uma estabilidade apreciável nos pensamentos e decisões de planejamento dos estagiários, levando a crer que esta estrutura cognitiva, bem assente, pode ser carreada pelos professores nos anos iniciais de sua prática profissional.

O tratamento dos dados pela Cluster Analysis possibilitou identificar quatro grupos de estagiários (Quadro 1), acerca dos quais explicitaremos as características relevantes e delineadoras dos perfis de seus componentes.

Os autores

Quadro 1 Grupos de Estagiários  

Este resultado parece-nos natural, na medida em que o Perfil 1 enquadra a grande maioria dos professores estagiários (75%), apresentando as mesmas características e concepções provenientes da formação inicial.

A Tabela 1 reune as médias das frequências dos pensamentos e decisões ditáticas dos estagiários que compõem o Perfil 1 e, como referência, o computo da média geral de todos os sujeitos investigados, de modo a permitir observar as características do grupo em relação à totalidade da amostra. As variáveis apresentadas derivam dos seis sistemas de análise já referidos.

Tabela 1 Pensamentos e Decisões Didáticas do Perfil 1 

Variáveis Pré-interativas Média Perfil 1 Média Geral
Frequência total de Pensamentos Didáticos 39,71 42,76
Pensamento Didático de Conteúdo 10,53 11,5
Pensamento Didático de Gestão 10,48 11,25
Pensamento Didático de Clima 3,82 4,25
Pensamento Didático de Instrução 2,86 3.21
Frequência total de Diagnóstico 10,73 11,9
Diagnóstico Específico 5,04 5,63
Diagnóstico Genérico 5,8 6,56
Diagnóstico Acadêmico 3,46 4,23
Diagnóstico Comportamento 7,28 7,9
Decisões Legitimadas pela Experiência 0,71 1,31
Decisões Legitimadas por Preconcepções 0,42 0,8
Decisões Alternativas 2,93 3,51
Preocupações Práticas com a Atividade 1,75 1,65

Fonte: Os autores

Face aos dados, é legitimo pensar que o Perfil 1 é típico de iniciante, apresentando características de pensamento menos complexas durante o planejamento da ação pedagógica, sendo característico uma atitude de Indiferenciação do ensino7),(8. A Diferenciação do Ensino, seja de objetivos, de situações de exercício ou de estratégias requer experiência e conhecimento que possibilite lidar com as diferenças individuais dos alunos6),(8.

Em geral apresentam baixa frequência de Decisões Alternativas, indicando a carência de opções didáticas para antecipar possíveis problemas no ensino-aprendizagem, limitada capacidade para lidar com fatores de contingência e menor plasticidade no processo de planejamento6. Consequentemente, denotam uma reduzida capacidade de reajustamento na intervenção pedagógica, o que era de se esperar, pois, estão em processo de formação.

Constatou-se também, baixa frequência de Decisões Legitimadas por Preconcepções, ou seja, estes estagiários demonstram poucas concepções educativas próprias sobre o ensino da disciplina ou em relação aos conteúdos. Por ainda estarem em formação, não possuem quadros pessoais teóricos bem legitimados, recorrendo assim às concepções proporcionadas pela formação inicial7.

Quanto à dimensão Diagnóstico de Aluno constatou-se uma baixa frequência de natureza Acadêmica e Específica, significando escasso conhecimento relacionado às capacidades e necessidades reais dos alunos referente às aprendizagens na Educação Física. Os poucos diagnósticos realizados referem-se às dificuldades nas aprendizagens das atividades, aos sucessos e insucessos particulares dos alunos e a características de natureza emocional e pessoal, que poderiam influenciar o clima no decorrer da aula. Concernente ao Diagnóstico de Comportamento e Genérico, em geral apresentam valores significativos, quando comparados à dimensão anterior, possuindo uma preocupação excessiva com a conduta dos alunos e privilegiando os processos de socialização, em detrimento de aprendizagens acadêmicas específicas.

A limitação de realizar diagnósticos mais individualizados às necessidades e capacidades dos alunos, consequentemente, influencia as poucas decisões de planejamento relacionadas com a organização e tempo de gestão da atividade.

Esta arquitetura de pensamentos corrobora com a literatura, pois os estagiários tendem a uma maior preocupação com aspectos de natureza comportamental e de participação nas atividades, tornando os diagnósticos mais generalistas e menos específicos em relação aos alunos e à turma7),(8. A qualidade do planejamento define-se pela frequência de Decisões Alternativas, algumas categorias de Pensamentos Didáticos, as Preocupações Práticas e a atitude de Diferenciação do Ensino e as Decisões Legitimadas pela Experiência6.

Outra característica importante comum ao perfil destes estagiários refere-se às Preocupações Práticas com a Atividade, em que evidenciam preocupações com a prática docente, sejam de natureza disciplinar e/ou de participação discente. A escassa capacidade de controle e gestão da classe faz com que o foco de atenção dos estagiários se concentre em manter os alunos ativos e ocupados, de modo a não aborrecê-los ou criar problemas de controle durante o desenvolvimento do ensino7),(8.

Em suma, o Perfil 1 é o típico estagiário, tanto por compreender 75% da amostra deste estudo, quanto pelo fato de suas características serem corroboradas pela literatura concernentes às características de professores iniciantes e/ou estagiários. Apresentam uma atitude pedagógica de Indiferenciação do Ensino, dificuldades em antecipar fatores de contingência - baixa frequência de Decisões Alternativas, quadro teórico próprio escasso, o que é característico de professores em formação inicial, e limitada capacidade diagnóstica dos alunos ao que limita a possibilidade de atenção no nível das suas necessidades. Consequentemente, estes fatores refletem um baixo desempenho relacionado à gestão e controle da aula6.

A capacidade de realizar um planejamento ao nível das necessidades e capacidades dos alunos concretiza-se com o tempo, ou seja, com a prática docente. Se dá de fato quando o professor adquire uma bagagem de experiências que dará corpo ao repertório teórico-prático necessário à legitimação de suas decisões tornando-se, posteriormente, automatizadas na forma de rotinas de pensamento no processo de planejamento. Esta conjectura reforça o valor das vivências no ambiente real de ensino durante a formação inicial e mediante o estágio supervisionado, como forma de agregar experiências que incidirão em melhores competências de planejamento e de ensino, e na sintonia entre estas duas fases do processo educativo.

Relativamente ao Perfil 2, a natureza e expressão dos pensamentos e decisões didáticas nas distintas categorias explicitam que os estagiários componentes deste grupo estruturam quadros didáticos de maior complexidade pedagógica, com densidade significativa de pensamentos e decisões de planejamento, conforme pode ser identificado na Tabela 2.

Tabela 2 Pensamento e Decisões Didáticas do Perfil 2 

Variáveis Pré-interativas Média Estagiário 3 Média Estagiário 13 Média Geral
Diferenciação do Ensino 2,67 1,67 1,55
Frequência de Pensamentos Didáticos 68,33 77,67 42,76
Pensamento Didático de Conteúdo 16,33 28 11,5
Pensamento Didático de Gestão 17 18,67 11,25
Pensamento Didático de Clima 7 10,33 4,25
Pensamento Didático de Estratégia 8 5,67 3,33
Pensamento Didático de Instrução 6 3,67 3.21
Decisões Legitimadas pela Experiência 1,67 0,33 1,31
Decisões Legitimadas por Preconcepções 3,33 1 0,8
Decisões Alternativas 6,33 10,33 3,51

Fonte: Os autores

Segundo a literatura, as categorias de pensamento que melhor identificam os professores pensadores são: Pensamentos Didáticos em quase todas as modalidades, Decisões Legitimadas pela Experiência e por Preconcepções e Diferenciação do Ensino, demonstrando melhor gestão e controle da atividade6),(8.

Independente de serem estagiários, revelam um perfil diferenciador do ensino e esse fato é corroborado pela literatura6 ao relacionar a atitude diferenciadora do ensino com a maior frequência de pensamentos e decisões didáticas. Em face de sua complexidade, a atitude diferenciadora assumida pelo docente articula-se com a maior demanda de pensamentos e decisões em outras categorias como é o caso dos pensamentos didáticos (em todas as variáveis), instrução, preconcepções e decisões alternativas.

A complexidade de pensamentos e decisões de planejamento são expressas na qualidade de diferenciação das opções didáticas e no diagnóstico, que são característicos de professores com certa maturidade profissional3.

Os componentes deste grupo apresentam frequência alta de Decisões Alternativas, característica diferenciadora em relação aos estagiários dos demais grupos; fazem previsões de fatores de contingência, se munindo de conjecturas estratégicas para controle e gestão da atividade. A previsão de alternativas aumenta potencialmente a capacidade de ação do professor e, dessa forma, seria de prever um contributo para a eficácia pedagógica2),(6.

Outra característica relevante refere-se às frequências das categorias Decisões Legitimadas por Preconcepções e pela Experiência, em que o Estagiário 3 apresentou maiores frequências em relação ao Estagiário 13. Esta atitude pré-interativa justifica-se pela trajetória do Estagiário 3, que durante a formação inicial apresentou excelente desempenho acadêmico, edificando um quadro teórico rico; consequentemente, uma capacidade de planejamento complexa e diferenciadora, quando comparado com os demais estagiários do estudo.

O Estagiário 13 tem mais de 35 anos, e mesmo nunca tendo lecionado antes do Estágio Supervisionado, apresentou frequências de Decisões Alternativas, Pensamentos Didáticos de Conteúdo, Gestão e Clima significativas. Um perfil focado no controle e gestão das atividades, demonstrando possuir um vasto repertório de proposições didáticas para lidar com imprevisibilidades da aula. Esta característica justifica-se pela maturidade pessoal e apurado senso de responsabilidade com a formação dos alunos.

A intenção não é discernir as características de pensamento destes estagiários, mas explicitar o fato de que um referencial teórico bem fundamentado na formação inicial e um projeto de Estágio Curricular que aproxime o graduando do mundo real da profissionalização, pode sobrepor às crenças pessoas implícitas dos professores que agarram-se em suas experiências pessoais de vida e como alunos na educação básica.

A frequência de Pensamentos Didáticos está associado às experiências pessoais, que são condicionantes na estruturação de quadros teóricos próprios, a uma atitude de diferenciação do ensino e maior plasticidade na ação pedagógica. Estas características são indicadores de coerência de quantidade e qualidade dos pensamentos didáticos prévios14),(15.

Em síntese, o Perfil 2 revelou características de pensamento e decisões de planejamento que tangenciam as de professores experientes. Apresentam maior quantidade de pensamentos didáticos prévios, proporcionando melhores condições de ensino. No planejamento demonstram atitude de diferenciação - originária de suas preocupações com as aprendizagens discentes e experiências acadêmicas e pessoais, atribuindo constructos que favorecem um clima de aula positivo à aprendizagem, além de possuírem alternativas para melhor gestão e organização do tempo e contexto de aula.

Os resultados na Tabela 3 elucidam que os estagiários componentes do Perfil 3 apresentam alta frequência de Decisões Legitimadas pela Experiência, comportamento justificado por justificarem suas decisões baseando-se nas suas experiências profissionais.

Tabela 3 Pensamentos e Decisões Didáticas do Perfil 3 

Variáveis Pré-interativas Média Estagiário 1 Média Estagiário 4 Média Geral
Decisões Legitimadas pela Experiência 7 6,67 1,31
Frequência total de Diagnóstico 19,33 25 11,9
Diagnóstico Específico 12,33 9,67 5,63
Diagnóstico Genérico 7 15,33 6,56
Diagnóstico Acadêmico 11,67 11 4,23
Diagnóstico Comportamento 7,67 14 7,9
Diferenciação do Ensino 1 1 1,55

Fonte: Os autores

Com efeito, embora sejam estagiários, ambos possuem mais de 35 anos, experiência de ensino anterior ao ingresso na Licenciatura, estando no último semestre da formação inicial para a aquisição da certificação profissional. Esta situação confere-lhes mais segurança e autonomia em relação aos demais estagiários durante o planejamento do ensino. Alguns estudos descrevem as influências socializadoras, que se traduzem em imagens da profissão e modelos de prática pedagógica interiorizados pelos estagiários em experiências escolares anteriores15, atribuindo significados aos seus pensamentos e decisões de planejamento com base em sistemas de valores, representados pelas suas teorias implícitas, crenças e concepções pessoais14.

Foi característico do Perfil 3, uma maior frequência de diagnóstico em relação aos demais estagiários. Diante do cabedal de experiências profissionais anteriores, diagnosticam facilmente os traços mais comuns dos alunos, referenciando os aspectos físicos, motores, afetivos, sociais e cognitivos relativos ao desenvolvimento e à aprendizagem, revelando uma capacidade de prever as dificuldades face às tarefas de aprendizagem. Esta capacidade diagnóstica confere-lhes um melhor conhecimento dos alunos, possibilitando uma estruturação de situações de ensino e de aprendizagem mais adequadas às necessidades e capacidades reais dos alunos6.

O Estagiário 4 apresenta frequência significativa nas categorias Comportamento e Genérico, estes de natureza mais simplista, referindo-se a aspectos relacionados com a participação, o comportamento da turma e dos alunos. Possui mais diagnósticos referentes às características dos alunos, pois realizou consecutivamente todas as fases do Estágio Pedagógico na mesma escola.

O Estagiário 1 apresenta frequência elevada nas categorias Específico e Acadêmico, pois realizou o Estágio Pedagógico numa escola de Educação Especial, exigindo um conhecimento mais específico relativo as crianças com necessidades especiais, onde estes não apresentam comportamentos de natureza disciplinar, mas relativos às suas limitações de aprendizagem (cognitivas, afetivas, sociais e motoras).

Ambos os estagiários do Perfil 3 manifestam uma atitude de Indiferenciação do Ensino, contrariando a literatura ao referir que os docentes com experiência profissional são mais diferenciadores do ensino8. Porém, ainda que denotem maturidade pessoal quando estagiários, ao passo que a interação pedagógica com os alunos apura-lhes o senso diagnóstico, é factível que as experiências profissionais sem a devida conceitualização teórica dos fundamentos educacionais, aos quais têm acesso na formação inicial, fomente nos estagiários a supervalorização do conhecimento tácito proveniente da livre prática na docência (não supervisionada), levando-os a desconsiderar princípios teórico-pedagógicos de uma educação fundada em proporcionar possibilidades de aprendizagem e acesso ao conhecimento a todos os alunos de forma democrática. Portanto, o perfil indiferenciador estaria relacionado à valorização exarcebada da prática sem a devida reflexão e articulação com os fundamentos teóricos da educação.

Em síntese, estes professores quando estagiários recorriam com frequência à sua memória profissional para a tomada de decisões de planejamento, apresentaram um perfil diagnosticador, que se justifica pelas experiências e maturidade pessoal, proveniente de suas trajetórias profissionais antes do ingresso na formação inial em Educação Física. Esta experiência torna-se pilar de concepções pedagógicas e crenças pessoais, passando a ser parte de suas rotinas de planejamento e de ensino proveniente da experiência docente.

Finalmente, o Perfil 4 denota características atípicas de estagiário pois, como se observa na Tabela 4, apresenta médias muito baixas em todas as categorias.

Tabela 4 Pensamentos e Decisões Didáticas do Perfil 4 

Variáveis Pré-interativas Média Estagiário 18 Média Geral
Frequência de Pensamentos Didáticos 16 42,76
Pensamento Didático de Conteúdo 5 11,5
Pensamento Didático de Gestão 2,67 11,25
Pensamento Didático de Estratégia 1 3,33
Pensamento Didático de Instrução 0,33 3,21
Frequência de Diagnóstico 5 11,9
Diagnóstico Específico 1 5,63
Diagnóstico Genérico 4 6,56
Diagnóstico Acadêmico 0 4,23
Diagnóstico Comportamento 5 7,9
Decisões Legitimadas por Preconcepções 0 0,8
Decisões Alternativas 1,33 3,51

Fonte: Os autores

É característico do seu perfil destes estagiários um processo de pensamento didático simplista e descomprometido. Apresenta uma limitada capacidade de lidar com a diversidade comum ao contexto de ensino-aprendizagem. Em principio, demonstram não possuir experiência, diante de um sistema de legitimação escasso, pouca plasticidade na ação pedagógica - Decisões Alternativas, demonstrando dificuldade em lidar com contingências do processo de aprendizagem. Alem disso, a baixa frequência de diagnósticos e de pensamentos didáticos leva a crer em certa desatenção ou descompromisso com as aprendizagens discentes.

O insuficiente investimento ou falta de competência no planejamento, refletido na baixa mobilização de pensamentos e decisões didáticas, indicia pouca capacidade de antecipar o contexto e as interações pedagógicas, além de propiciar acriticamente a reprodução de experiências e modelos de ensino em que foi socializado, quer na formação acadêmica, quer durante a sua experiência como aluno3.

Considerando o Estágio Pedagógico espaço de construção de aprendizagens significativas na formação dos professores, pode-se considerar o Perfil 4 como indiferente a esta atividade curricular, na medida em que não demostra preocupação em adotar uma postura acadêmica comprometida e responsável, característico do papel de um futuro professor.

Conclusões

A pesquisa permitiu verficar a estabilidade nos processos de pensamentos e decisões didáticas de planejamento no conjunto de aulas destes estagiários de Educação Física. A evidência revela que estas experiências podem se tornar duradouras ao ponto de serem assumidas pelos professores no início da carreira docente. Por isso, em se tratando do Estágio Pedagógico como componente da formação inicial, esta arquitetura precisa ser devidamente orientada e constituída de modo a prover o professor iniciante com as condições para iniciar e se desenvolver na profissão. Esta perspectiva possibilita a edificação de um repertório teórico e prático que futuramente será automatizado com a experiência docente, tornando-se rotinas de planejamento e de ensino.

Dentre os perfis identificados na pesquisa encontram-se os estagiários que fundamentam seus construtos pré-interativos na formação inicial; em experiências pessoais, apoiados numa imagética de memória profissional (quando dispõem de oportunidades antes da graduação); ou mesmo na reprodução daquilo que acredita ser o ensino com base em suas experiências de socialização primária. O fato de identificar-se diferentes perfis de planejamento, dentre mais e menos efetivos e/ou complexos, permite compreender que os estagiários desenvolvem aprendizagens diversificadas a partir das experiências de estágio supervisionado conforme a sua maturidade e experiência pessoais, conhecimentos precedentes acumulados, e maior ou menor interesse e valorização destas experiências. Mas, a constatação de perfis típicos e avançados de estagiários ilumina as possibilidades de desenvolvimento e aprimoramento das competências de planejamento durante a formação inicial, pois o estágio atua como atividade promotora da qualidade da formação de professores ao potencializar a articulação de teoria e prática, de modo a formar indivíduos reflexivos e cônscios de suas responsabilidades quanto à democratização das possibilidades de aprendizagem discentes.

Embora o planejamento seja apenas uma parte do processo educativo, a competência no seu desenvolvimento permite estabilizar cenários e decisões, economizar processos de análise e de decisão e, portanto, reduzir a imprevisibilidade do ensino-aprendizagem. A experiência no ambiente escolar aproxima os estagiários das sensações e sentimentos experimentados pelos professores no contexto real de exercício do magistério, levando-nos a concebê-lo como área de produção de saberes. No que tange ao planejamento de ensino, a prática e desenvolvimento de sua concepção permite reduzir as incertezas e qualificar a prática pedagógica de licenciandos e professores, emancipando-os de constrangimentos que comprometam a sua prática e desenvolvimento profissional.

Referências

1. Lessard C. A universidade e a formação profissional dos docentes: novos questionamentos. Educ Soc 2006; (27)94: 201-227. [ Links ]

2. Neira MG. Desvelando Franknsteins: intepretações dos currículos de licenciatura em Educação Física. Rev Mack Ed Fís Esp 2010;(9)1:55-59. [ Links ]

3. Sanches MFC., Jacinto M. Investigação sobre o pensamento dos professores: Multidimensionalidade, contributos e implicações. Rev Soc Port Cienc Educ 2004;(3)3:131-233. [ Links ]

4. Silva M, Bracht V. Na pista de práticas e professores inovadores na Educação Física escolar. Rev Kinesis 2012;(30)1:80-94. [ Links ]

5. Clark C, Peterson P. Teachers’ thought processes. In: Wittrock M, editor. Handbook of Research on Teaching. 3rd ed. New York: Macmillan Publishing Company; 1986, p. 255-296. [ Links ]

6. Januário C. Do pensamento do professor à sala de aula. Coimbra: Livraria Almedina; 1996. [ Links ]

7. Anacleto F. O perfil decisional pré-interativo de professores de educação física nos primeiros anos de desenvolvimento profissional: Um estudo comparativo longitudinal [Tese de Doutorado em Ciências da Educação]. Lisboa: Universidade Técnica de Lisboa; 2013. [ Links ]

8. Henrique J. Processos mediadores do professor e do aluno: Uma abordagem quali-quantitativa do pensamento do professor, da interação pedagógica e das percepções pessoais do aluno na disciplina de Educação Física [Tese de Doutorado em Ciências da Educação]. Lisboa: Universidade Técnica de Lisboa; 2004. [ Links ]

9. Shavelson R, Stern P. Research on teachers’ pedagogical thoughts, judments, decisions, and behavior. Rev Educ Res 1981;(51)4:455-498. [ Links ]

10. Graça A. Breve roteiro da investigação empírica na pedagogia do desporto: A investigação sobre o ensino da educação física. Rev Port Cien Desp 2001;(1)1:104-113. [ Links ]

11. Bardin L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70; 2009. [ Links ]

12. Santos J. A variabilidade das decisões pré-interactivas e pós-interactivas no processo de planeamento [Monografia de Licenciatura em Educação Fisica]. Lisboa: Universidade Técnica de Lisboa; 1990. [ Links ]

13. Twardy BM, Yerg BJ. The impact of planning on inclass interactive behaviors of preservice teachers. J Teach Phys Educ 1987;(6)6:136-148. [ Links ]

14. Freire ES. Preparação profissional em Educação Física: uma comparação entre ingressantes e concluintes. Rev Mack Ed Fís Esp 2007;(6)2:147-154. [ Links ]

15. Verenguer RCG. Graduação em Educação Física: refletindo sobre a docência universitária e as disciplinas do núcleo sócio-cultural. Rev Mack Ed Fís Esp 2007;(6)2:37-53. [ Links ]

Recebido: 21 de Abril de 2017; Revisado: 01 de Outubro de 2017; Aceito: 17 de Outubro de 2017

Endereço para correspondência: Grupo de Pesquisa em Pedagogia da Educação Física e Esporte (GPPEFE). Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro; BR 465, Km 07 - Campo Universitário, Seropédica - RJ, CEP: 23890-000. E-mail: francisnatally@yahoo.com.br

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons