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Journal of Physical Education

On-line version ISSN 2448-2455

J. Phys. Educ. vol.29  Maringá  2018  Epub Apr 01, 2019

http://dx.doi.org/10.4025/jphyseduc.v29i1.2960 

Artigo Original

EFEITO DE DIFERENTES DURAÇÕES DE PAUSAS SOBRE O SALTO COM CONTRAMOVIMENTO

EFFECT OF DIFFERENT REST INTERVAL LENGTHS ON THE COUNTERMOVEMENT JUMP

Mariana Paulino Oliveira1 

Bruno Pena Couto1 

Camila Cristina Melo1 

Jorge Lúcio Junior1 

Cristiano Arruda Gomes Flôr1 

Leszek Antoni Szmuchrowski1 

André Gustavo Andrade1 

1Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte-MG, Brasil.

RESUMO

A avaliação do desempenho físico de atletas é um dos complexos processos que envolvem o treinamento esportivo. O objetivo deste estudo foi verificar o efeito de três diferentes pausas (15, 30 e 60 segundos) entre as tentativas do teste de salto com contramovimento (SCM) de atletas nacionais do Centro de Treinamento esportivo da UFMG. A amostra foi composta por 12 atletas que participaram de cinco sessões: 2 familiarizações e 3 de protocolo experimental. O protocolo experimental consistiu de três sessões de teste de 15 SCM aleatorizado entre as diferentes pausas entre tentativas (15, 30 e 60 segundos). Não houve diferença significativa para a altura do salto entre os três protocolos de pausa adotados e entre as 15 tentativas de salto no mesmo protocolo. Estes resultados sugerem que, durações de pausas menores, como a de 15 segundos, são suficientes para a manutenção do desempenho em testes de SCM com uma série única de até 15 tentativas.

Palavras-chave: Recuperação; Avaliação física; Desempenho esportivo; Familiarização

ABSTRACT

The evaluation of athlete’s physical performance is one of the complex processes that involve sports training. The purpose of this study was to measure the effects of varied rest interval lengths on countermovement jump (CMJ) performance test. The subjects were 12 national athletes from UFMG Sport Training Center, who performed five sessions, two familiarization sessions and three CMJ experimental sessions. The experimental sessions consisted of three sessions with 15 CMJ attempts, each session with a different rest interval duration. The three rest intervals between CMJ attempts were 15, 30, and 60 seconds and were counterbalanced for each subject. No significant difference was founded in the jump height between the 3 pause protocols adopted and between the 15 attempts in the same protocol. Therefore, this study demonstrated a 15 seconds rest interval was sufficient for recovery during the performance of 15 CMJ attempts.

Keywords: Recovery; Physical Evaluation; Sport perform; Familiarization

Introdução

A avaliação do desempenho físico de atletas é um dos complexos processos que envolvem o treinamento esportivo. Para um adequado monitoramento e controle das cargas de treinamento é indispensável estabelecer critérios de escolha das melhores estratégias de avaliação do desempenho físico. Nessa seleção de protocolos de testes para um esporte em particular, é necessário, sobretudo, identificar as principais capacidades e técnicas que determinam o sucesso competitivo, bem como as que representem as principais demandas energéticas requisitadas pelo esporte.

Segundo Komi1 o sucesso esportivo na maioria dos esportes, depende, especialmente, da capacidade de os atletas desenvolverem força explosiva por meio de movimentos que expressem o ciclo de alongamento-encurtamento. Nos esportes que usam predominantemente os membros inferiores, como o - tênis, futebol, taekwondo, atletismo - pesquisadores da ciência do esporte e treinadores vem utilizando técnicas de salto vertical para avaliar a força e potência de membros inferiores1.

Protocolos de saltos verticais realizados sobre plataforma de força para determinar variáveis dinâmicas como a força máxima, taxa de produção de força, impulso e potência de membros inferiores são comumente relatados na literatura2),(3. Essas avaliações de desempenho são geralmente realizadas por meio de três diferentes técnicas de salto vertical existentes, denominadas: salto agachado, salto com contramovimento (SCM) e o salto em profundidade (SP). Entre essas técnicas citadas, o salto com contramovimento pode ser considerado mais específico em relação à maioria das modalidades esportivas quando comparado à técnica de salto agachado4. O desempenho no teste de SCM pode representar um fator importante para o rendimento em várias modalidades esportivas, uma vez que reflete a capacidade de aproveitamento do ciclo de alongamento- encurtamento nos membros inferiores, semelhante ao desempenho de chutes em modalidades de combate, mudanças de direção, giros, saltos específicos, como no volei e basquete etc. Além disso, o teste de SCM tem se mostrado como uma ferramenta útil para diferentes objetivos, tais como: avaliação da força muscular de membros inferiores3),(5, verificação do estado de fadiga6),(7 e monitoramento das cargas de treinamento8),(9. Devido a ampla utilização da técnica de SCM para avaliação do desempenho esportivo, o seu uso já está bem consolidado pela literatura, assim como alguns dos seus procedimentos metodológicos, por exemplo, a técnica de execução do salto4) e algumas variáveis relativas a ela, como a influência da utilização dos membros superiores10),(11),(12 e aterrissagem11. Tendo em vista o objetivo de avaliar o desempenho esportivo, a familiarização à tarefa também é um aspecto metodológico indispensável13. Com exceção dos estudos de Szmuchrowski et al.9, Claudino et al.13 e Nibali et al.14, não foram encontrados estudos que descrevessem detalhadamente os procedimentos de familiarização ao SCM, bem como a verificação do nível de familiarização dos indivíduos após a utilização desta ferramenta.

A duração dos intervalos de pausa entre tentativas de saltos verticais é outro aspecto metodológico que não está bem estabelecido pela literatura. Entre os diversos estudos nos quais o desempenho foi avaliado a partir do SCM, frequentemente as durações da pausa entre tentativas não são informadas10),(12),(15) ou, quando mencionadas, a duração utilizada não é justificada2),(8),(9),(15. Além disso, não existe um consenso sobre as durações da pausa adotadas, e por isso, uma grande variabilidade de valores tem sido encontrada2),(5),(13),(16),(17. Por exemplo, Impellizzeri et al.2, com o objetivo de avaliar o efeito de dois tipos de treinamento na força muscular de membros inferiores, utilizaram um protocolo de cinco saltos com contramovimento com dois minutos de recuperação entre tentativas. Kirby et al.16, para determinar a relação entre o impulso vertical e a altura no SCM, também respeitaram dois minutos de pausa entre tentativas. Claudino et al.13 utilizaram um protocolo de oito saltos com contramovimento com um minuto de pausa entre tentativas para avaliar a força muscular de membros inferiores nas condições de pré e pós-treinamento. Couto et al.17, com o objetivo de verificar o efeito da vibração mecânica sobre a impulsão vertical, adotaram um protocolo de cinco saltos com contramovimento com pausa de 30 segundos entre as tentativas. Tobin & Delahunt18 que investigaram um protocolo de potencialização pós ativação por meio de saltos pliométricos, utilizaram o intervalo de 15 segundos entre as tentativas de salto em profundidade. Sendo assim, percebe-se uma divergência na literatura quanto aos valores de pausa utilizados e uma carência de estudos sobre o efeito da pausa nesses protocolos de teste de SCM. O único estudo encontrado que investigou o efeito da duração da pausa sobre o desempenho no salto vertical foi o estudo realizado por Read & Cisar19 que investigaram a técnica de SP. Esses autores verificaram que intervalos de pausa menores como a de 15 segundos são suficientes para a manutenção do desempenho em uma série de 10 tentativas únicas de SP. Ainda segundo estes autores, a possível hipótese apontada é a não depleção significativa dos estoques de fosfocreatina. Entretanto, pelas diferenças biomecânicas, neuromusculares e metabólicas existentes entre o SP e o SCM, como as características do ciclo de alongamento- encurtamento, a presença ou não da pré-ativação, mecânica de saída do salto, técnica de salto, força de reação do solo e suas variáveis cinemáticas: posição corporal, amplitude de movimento e o tempo de contato com o solo, os resultados obtidos por Read & Cisar19) são específicos apenas para a técnica de SP. Ainda assim, é razoável que 15 segundos de intervalo também seja suficiente para a recuperação entre as tentativas no teste de SCM. Contudo, não foram encontradas na literatura investigações a respeito desse tema e a técnica de SCM e em decorrência, a maioria dos estudos com SCM, bem como no próprio contexto do treinamento esportivo, utilizaram durações de pausa muito superiores a 15 segundos mesmo adotando protocolos com um volume de saltos inferior2),(8),(9),(13),(16),(17. Baseado nos resultados encontrados por Read & Cisar19) para o SP, faz-se necessaria a investigação do efeito de diferentes protocolos de pausas sobre o desempenho de diferentes variáveis cinemáticas e dinâmicas no teste de SCM.

Dada a necessidade de avaliar o desempenho esportivo de maneira mais específica, a análise do desempenho obtido em gestos técnicos típicos das modalidades apresentam grande importância. Contudo, como na prática nem sempre é possível dispor de equipamentos (recursos) para essas análises específicas, teste de saltos verticais pode ser uma estratégia mais simples e eficaz. Dada a importância do uso do SCM como parâmetro de avaliação física, tanto em estudos científicos, como na pespectiva prática, existem protocolos para familiarização com essa técnica, além disso, é um exercício comumente utilizado nas sessões de treinamento de potência e força explosiva de membros inferiores. Sendo assim, no presente estudo foi adotado um protocolo experimental que constituiu de 15 repetições da técnica SCM, abrangendo, aproximadamente, o número de repetições utilizadas nas avaliações físicas (3-5 repetições válidas), nos protocolos de familiarização13),(17) (10-16 repetições), como também, no treinamento pliometrico ou treinamento com saltos por série9) (5-30 repetições).

Métodos

Participantes

A amostra foi composta por 12 atletas de nível nacional do Centro de Treinamento Esportivo da UFMG, de ambos os sexos, sendo seis mulheres (idade 17,2 ± 1,5 anos, estatura 1,70 ± 0,06m, massa corporal 55,4 ± 7,6 Kg) e seis homens (idade 17,2 ± 1,6 anos, estatura 1,70 ± 0,05m, massa corporal 64,8 ± 5,4 Kg), participantes de um programa de treinamento sistematizado há pelo um ano e tempo de prática na modalidade há mais de três anos. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFMG sob o número de parecer 1.058.26.

Foram adotados os seguintes critérios de inclusão: a) ausência de lesões musculoesqueléticas nos membros inferiores há pelo menos dois meses b) não serem usuários de recursos ergogênicos ou nutricionais há pelo menos um ano. Foram excluídos do estudo todos os voluntários que: a) não participaram das sessões de familiarização; b) não compareceram as três sessões de procedimentos experimentais; c) apresentarem lesões musculoesqueléticas nos membros inferiores após o início das coletas.

Procedimentos

O estudo consistiu de cinco sessões, sendo duas sessões de familiarização (teste e reteste) e 3 sessões de testes compostas por 15 tentativas de saltos com contramovimento com pausas distintas entre as tentativas (15, 30 e 60 segundos)19. Foi respeitado um intervalo de 48 a 72 horas entre as sessões de familiarização e de 24 horas entre as sessões de teste de SCM13. Para evitar que a sequência dos protocolos de teste de SCM com pausas distintas influenciasse nos resultados, a sequência das sessões de teste foi definida pelo quadrado latino.

No início de cada sessão de familiarização, foi realizado um aquecimento padrão no qual o indivíduo foi orientado a pedalar no ciclo ergômetro por três minutos com carga de 0,5 Kg a 60 rpm e, em seguida, foram realizadas três séries de três saltos com contramovimento submáximos consecutivos, com pausa de 30 segundos entre as séries13. Após o aquecimento padrão, foi realizada uma série composta por 15 saltos com contramovimento com intervalo de 60 segundos entre as tentativas. A técnica do SCM foi realizada a partir da posição ortostática, com joelhos estendidos e as mãos apoiadas no quadril, na região supra ilíaca. O salto constitui-se de uma ação excêntrica de flexão de joelhos “até a angulação que o voluntário julgasse ser mais eficiente” seguida por uma ação concêntrica de extensão de joelhos. Os joelhos permaneceram estendidos durante a fase de voo e a aterrissagem foi realizada em flexão plantar. O controle da posição de flexão plantar durante a aterrissagem foi feito por meio da instrução verbal. A posição dos pés na plataforma foi ajustada paralelamente ao alinhamento da articulação do quadril. Para a mensuração da força de reação do solo foi utilizada uma plataforma de força, (OR6-7; AMTI; CIDADE, EUA) embutida e nivelada ao solo. A aquisição dos sinais a uma frequência de 1 KHz e a análise das curvas força-tempo (F-t) foram realizadas com o programa Dasylab (Data Acquisition System Laboratory, DasyTec USA, Amherst,New Hampshire, V11.0). O presente estudo registrou somente a componente vertical da força de reação do solo, direção principal do movimento no salto vertical. A determinação da altura do salto foi realizada a partir do cálculo do impulso como descrito por Linthorne4 dada pela equação (1). Sendo,

I - Impulso

I= t0tfF dt-P (tf-t0)

Sabendo que a equação que liga a dinâmica a cinética, impulso é igual a momento.

t0tfF dt-P tf-t0=m v

Sendo,

m− Massa

É possível definir a variável velocidade e consequente, calcular a altura do salto pela equação (3):

h= vsaída22g

Sendo, g a aceleração da gravidade igual a 9,81 m/ s 2 . E, vsaída, a velocidade de saída.

A força máxima foi determinada pelo maior valor registrado, ou seja, o pico na curva força-tempo na fase de impulsão do SCM20. E a potência máxima, considerada como o maior valor da potência instantânea foi calculada pela Equação 4 3:

Pti= Ftivti=Fti1mtotiFdt

Onde, F ti = força de reação do solo vertical instantânea; v ti = velocidade vertical instantânea do centro de gravidade.

Após a primeira sessão de familiarização, foi respeitado um intervalo de 48 a 72 horas para a realização da segunda sessão. O procedimento de teste e reteste tinha como finalidade verificar a confiabilidade das medidas e a familiarização ao procedimento. O critério de familiarização foi determinado pelo coeficiente de correlação intraclasse (CCI3,1) e o erro padrão de medição da amostra (EPM), ambos calculados a partir da análise de variância para medidas repetidas (ANOVA). De acordo com Weir21, o erro total da medida é dado pela soma dos erros sistemático e aleatório. O coeficiente de correlação intraclasse quantifica o erro sistemático, que pode ser devido ao efeito da aprendizagem motora durante a prática e que, no presente estudo, foi avaliado por meio do resultado do teste F da ANOVA. O erro aleatório é calculado a partir do erro padrão de medição da amostra. A diferença mínima significativa entre as tentativas (DMI)22, é calculada por meio da variação máxima do erro aleatório, de acordo com a equação 4.

DMI=EPM.1,9296.√2

Em que,

Com base nesses critérios de erro sistemático e aleatórios, os sujeitos foram considerados familiarizados se o resultado do teste F da ANOVA não fosse significativo23 e se o desempenho ficasse dentro dos limites da média ± diferença mínima significativa entre as tentativas.

No início de cada uma das sessões foi realizado o mesmo aquecimento padrão utilizado nas sessões de familiarização e em seguida, o protocolo de SCM.

Análise estatística

A normalidade dos dados foi verificada pelo teste de Shapiro-Wilk e o teste de esfericidade de Mauchly’s para averiguar a homogeneidade das matrizes de variância-covariância presentes no design de medidas repetidas. A comparação da altura do salto foi realizada por meio da ANOVA one-way para verificar se há diferença no desempenho do SCM, com diferentes pausas entre as tentativas. Para identificar onde se encontram as diferenças, foi aplicado o teste post-hoc de Tukey. Todos os procedimentos estatísticos foram realizados no programa Statistical Package of the Social Sciences versão 22.0 (SPSS Inc., Chicago, Illinois) e o nível de significância adotado foi de p <0,05.

Resultados

Todas as variáveis investigadas no presente estudo apresentaram distribuição normal. Os dados da familiarização (teste e reteste) foram: CCI = 0,97 (p = 0,001), teste F(0,12) = (4,76) (p = 0,072) e DMI = 0,21.

Não foram encontradas diferenças significativas no desempenho entre os três diferentes protocolos e entre as tentativas do mesmo protocolo. Na Tabela 1 são apresentados os dados descritivos do desempenho obtido nas três durações de pausa.

Tabela 1 Análise descritiva do desempenho obtido nas três durações de pausa. 

Pausa (s) N Média (m) Desvio padrão (m)
15 12 0,31 0,07
30 12 0,31 0,06
60 12 0,30 0,07

Fonte: Os autores

A confiabilidade da variável altura do SCM foi calculada para as três durações de pausa são descritas na Tabela 2.

Tabela 2 Valores de CCI, EPM e EPM relativizado para as três durações de pausa. 

Pausa (s) CCI EPM (m) EPM relativizado
15 0,98* 0,032 0,01
30 0,98* 0,089 0,03
60 0,98* 0,089 0,03

Fonte: Os autores

Também não foram encontradas diferenças significativas para impulso, força máxima e potência máxima, como apresentado na Tabela 3.

Tabela 3 Valores de média e desvio padrão de impulso, força máxima e potência máxima obtidos nas três durações de pausa. 

P15 P30 P60 η2
Impulso (N∙s) 158,6 ± 33,0 158,2 ± 33,2 158,8 ± 32,7 0,082
Força máxima (N) 903,1 ± 214,3 880,7 ± 220,2 851,9 ± 215,8 0,187
Potência máxima (W) 1556,8 ± 418,3 1561,5 ± 498,9 1531,1 ± 431,9 0,103

Nota: P15 = Pausa de 15 segundos, P30 = Pausa de 30 segundos, P60 = Pausa de 60 segundos

Fonte: Os autores

Discussão

Em estudos experimentais, a familiarização é um procedimento indispensável para a análise de desempenho em saltos verticais por reduzir a variação intrassujeito e dessa forma, aumentar o poder estatístico e a sensibilidade das intervenções adotadas13. Em relação aos resultados do presente trabalho, um dos maiores achados se deve aos valores de coeficiente de correlação intraclasse e diferença mínima significativa entre as tentativas encontrados para a familiarização teste e reteste. De acordo com Weir21, o erro total reflete o erro sistemático e o erro aleatório, o coeficiente de correlação intraclasse é a medida para o erro sistemático e o erro padrão de medição da amostra, a medida de dispersão que avalia a magnitude dos erros aleatórios. Sabendo que a partir do erro padrão de medição da amostra é possível calcular a variação máxima do erro aleatório, o qual representa a diferença mínima significativa entre as tentativas22. De fato, os resultados encontrados neste estudo estão de acordo com os valores de confiança reportados pela literatura13),(23),(24. Vale destacar também que o coeficiente de correlação intraclasse e o erro padrão de medição da amostra são duas das medidas mais utilizadas pelos estudos para se avaliar o grau de instabilidade individual13),(23. Portanto, apesar de alguns estudos optarem por não realizar tal procedimento, a aplicação de um método de familiarização com critérios objetivos, como a diferença mínima significativa entre as tentativas e o teste-F da ANOVA, pode ser benéfico não só para pesquisas cientificas, como na própria prática do treinamento esportivo. A partir de tal procedimento é possível reduzir os erros associados com padrões de movimento e efeitos de aprendizagem, assim, garantindo uma melhor avaliação do desempenho individual3),(13, neste caso, nas tentativas de SCM.

O principal objetivo do presente estudo foi comparar diferentes intervalos de pausa em um protocolo composto por 15 SCM. Para tal, a hipótese era de que 15 segundos de intervalo já seriam suficientes para recuperação completa entre as 15 tentativas. Com base nos resultados encontrados, a hipótese foi confirmada, reforçando os achados de Read & Cisar19, em uma série de dez tentativas no SP.

Atualmente, com o aumento da exigência esportiva e a busca pelo melhor desempenho esportivo de atletas, vários estudos têm se dedicado a investigar e desenvolver ferramentas mais eficientes de avaliação do desempenho, inclusive, a partir dos saltos verticais. Contudo, ainda existem algumas lacunas relacionadas aos procedimentos metodológicos utilizados nessas avaliações. Este foi o primeiro estudo que objetivou verificar o efeito de três diferentes durações de pausa no desempenho do SCM em atletas nacionais, após um procedimento de familiarização. Não foram encontradas diferenças significativas na altura do salto, força máxima, potência máxima e impulso entre os três diferentes protocolos de pausa e entre as tentativas do mesmo protocolo. A possível justificativa para os resultados encontrados refere-se a demanda energética exigida durante os SCM.

Segundo Komi1) e Nicol et al.24, a resposta do ciclo de alongamento- encurtamento à fadiga é demonstrada pela diminuição imediata do desempenho durante o exercício, seguida de uma recuperação após um curto intervalo de tempo. Ainda segundo estes autores, essa diminuição do desempenho no salto é justificada pela redução dos reflexos de estiramento e, consequentemente, à diminuição da rigidez muscular, o que levaria a um menor aproveitamento da energia potencial elástica. Ou seja, a fadiga gerada pode afetar o ciclo de alongamento- encurtamento e, por consequência, reduzir a altura do salto6),(7. A não modificação do desempenho entre os três diferentes protocolos e entre as tentativas do mesmo protocolo no presente estudo sugerem que as pausas investigadas no presente trabalho são suficientes para a recuperação entre tentativas de SCM e repetição do desempenho máximo até 15 repetições em um protocolo de série única. Estes resultados podem ser explicados pelo fato de que tentativas únicas de saltos são provavelmente sustentadas pelo ATP disponível24. Como resultado, a regeneração de adenosina trifosfato (ATP) via fosfocreatina não é um fator causador da fadiga19. Sugerindo que 15 segundos são suficientes para recuperação completa entre tentativas de salto, tempo muito inferior a 60 segundos8),(9),(13 e 120 segundos2),(16 de intervalo frequentemente utilizados nos testes de SCM.

A intensidade e a duração do exercício são duas variáveis que influenciam diretamente na fadiga provocada24. O SCM é um exercício de alta intensidade, entretanto, de curta duração, aproximadamente 250 milissegundos1),(24. E, uma vez que no presente estudo foi adotado um protocolo de tentativas únicas, essa duração de exercício provavelmente não foi capaz de provocar uma redução significativa nos estoques de fosfocreatina, o que poderia alterar a produção de força25 e consequentemente, o desempenho no SCM. Como não foram encontradas diferenças significativas na altura do salto, força máxima, potência máxima e impulso ao longo das tentativas para nenhum dos três intervalos de pausa, todos os intervalos utilizados foram suficientes para a manutenção do desempenho máximo no SCM. Entretanto, pensando na simplificação e otimização das coletas, sugere-se a utilização prática da pausa de 15 segundos até 15 repetições.

Outro aspecto que vale a pena ser discutido é que este estudo não objetivou induzir a fadiga e sim, encontrar a partir de um protocolo de 15 saltos, uma duração mínima de pausa que garantisse o desempenho máximo ao longo das 15 tentativas. Sendo assim, a partir dos nossos resultados, é possível afirmar que não foi observada fadiga, uma vez que as variáveis de desempenho no salto se mantiveram estáveis.

Conclusões

A aplicação prática desse estudo se dá a possibilidade de utilização de intervalos mais curtos em avaliações e protocolos de familiarização, o que garantiria uma maior otimização do tempo disponível para testes e avaliações esportivas e o conhecimento de que 15 segundos é tempo suficiente para recuperação entre uma repetição e outra no treinamento com a técnica de SCM até 15 saltos máximos. Contudo, sugere-se a realização de novos estudos com protocolos mais extenso de saltos, por exemplo, para normativas de treinamento (3-5 séries de 15 SCM), bem como, estudos que avaliem intervalos mais curtos, visto que não há necessidade de recuperação entre os saltos.

Referências

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Recebido: 18 de Abril de 2017; Revisado: 22 de Agosto de 2017; Aceito: 17 de Outubro de 2017

Endereço para correspondência: Bruno Pena Couto. Avenida Presidente Antônio Carlos, 6627- Campus Pampulha, Belo Horizonte, MG,CEP. 31270-901. E-mail: brunopena@yahoo.com.br

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