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Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional

On-line version ISSN 2526-8910

Cad. Bras. Ter. Ocup. vol.27 no.3 São Carlos July/Sept. 2019  Epub Aug 29, 2019

http://dx.doi.org/10.4322/2526-8910.ctoao1662 

Artigo Original

Percepção de atletas do rugby em cadeira de rodas sobre os apoios recebidos para a prática do esporte adaptado

Marco Antônio Guevara Becerra1 
http://orcid.org/0000-0002-7496-2363

Mariana Gurian Manzini1 
http://orcid.org/0000-0002-9126-7514

Claudia Maria Simões Martinez1 
http://orcid.org/0000-0002-8997-2767

1Universidade Federal de São Carlos – UFSCar, São Carlos, SP, Brasil.


Resumo

Introdução

A literatura tem atestado a relevância e influência positiva dos apoios sociais para a promoção e proteção do desenvolvimento humano em suas distintas dimensões.

Objetivo

Identificar a percepção de atletas do rugby em cadeira de rodas sobre os apoios recebidos para a prática do esporte adaptado.

Método

Os participantes foram 10 atletas com deficiência física que praticam o rugby em cadeiras de rodas. Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa. As entrevistas foram realizadas individualmente por meio de um roteiro semiestruturado, gravadas e transcritas na íntegra.

Resultados

Observou-se que o primeiro contato com o esporte adaptado ocorreu por meio de amigos, jogadores e treinadores. O apoio mencionado com maior frequência para a prática do esporte adaptado refere-se ao contexto familiar. No contexto esportivo, encontram-se os apoios advindos dos clubes, equipes, staffs, treinador, time, com valorização do espaço para o treino. A motivação para a prática do esporte deu-se por desejos pessoais como busca por melhor qualidade de vida, independência física e desejo de reabilitar-se, bem como possibilidade de se desenvolver no campo pessoal, social e educativo. Os obstáculos para a prática do esporte adaptado centram-se na falta de apoio financeiro e na acessibilidade.

Conclusão

Identificou-se um conjunto de apoios distintos e complementares fundamentais para a prática do rugby, os quais se articulados constituem-se em pontos de uma rede de apoio. Sugerem-se investimentos em ações intersetoriais para incremento da política nacional para a pessoa com deficiência.

Palavras-chave:  Apoio Social; Pessoas com Deficiência; Futebol Americano; Esporte

Abstract

Introduction

The literature has demonstrated the relevance and positive influence of social support for the promotion and protection of human development in its different dimensions.

Objective

To identify the perception of wheelchair rugby athletes on the support received for the practice of adapted sports.

Method

Participants were 10 disabled athletes who practice Rugby in wheelchairs. This is a qualitative approach. The interviews were conducted individually through a semi-structured script, recorded and transcribed in full.

Results

It was observed that the first contact with the adapted sport occurred through friends, players, and coaches. The most frequently mentioned support for the practice of adapted sports refers to the family context. In the sporting context, there is the support coming from clubs, teams, staffs, coach, team, with an appreciation of space for training. The motivation for the practice of the sport was due to personal desires as a search for a better quality of life, physical independence and the desire to rehabilitate as well as the possibility to develop in the personal, social and educational field. Obstacles to the practice of adapted sports focus on the lack of financial support and accessibility.

Conclusion

It was identified as a set of distinct and complementary supports fundamental to the practice of Rugby, which if articulated constitute points of a support network. It is suggested to invest in cross-sectional actions to increase the national policy for people with disabilities.

Keywords:  Self-Help Groups; Disabled Persons; Rugby; Sport

1 Introdução

O esporte paraolímpico caracteriza-se por englobar modalidades esportivas adequadas às pessoas com deficiência, uma vez que são realizadas adaptações e/ou modificações para facilitar esta prática (REINA; MENAYO; SANZ, 2011). O Comitê Paraolímpico Internacional aprovou 23 modalidades para os jogos paraolímpicos de verão: esgrima em cadeira de rodas, atletismo, futebol de cinco, futebol de sete, halterofilismo, basquetebol em cadeira de rodas, bocha, judô, canoagem, tênis de mesa, ciclismo de estrada, tiro com arco, ciclismo de pista, goalball, tiro esportivo, hipismo, natação, tênis em cadeira de rodas, remo, triatlo, vela, vôlei sentado e rugby em cadeira de rodas (INTERNATIONAL..., 2015).

O Rugby em Cadeiras de Roda (RCR) é uma modalidade paraolímpica praticada por atletas com lesão na medula espinhal (nível cervical) ou com lesão neurológica caracterizada por um quadro clínico de tetraplegia ou tetra-equivalência. Pode-se citar como exemplo a paralisia cerebral, amputações e deformidades em quatro membros (INTERNATIONAL..., 2011).

Pesquisas demonstraram que a prática esportiva e a realização de atividade física pode trazer benefícios físicos, motores, sociais, psicológicos e cognitivos (GREGUOL, 2017), diminuição da aterosclerose causada pela lesão na medula espinhal (MATOS-SOUZA et al., 2013), melhora do condicionamento cardiovascular (FAGHER; LEXELL, 2014) e reabilitação e inclusão social (SILVA et al., 2013).

Embora a literatura seja extensa ao apontar os benefícios da prática do esporte adaptado, Fagher e Lexell (2014) afirmam que a participação em esportes também aumenta o risco de lesões como trauma agudo ou lesão por uso excessivo. Os autores apontam que para um atleta com deficiência a lesão também pode ter consequências mais graves em comparação com um atleta fisicamente apto. Willick et al. (2013), por meio de um estudo de coorte prospectivo, caracterizaram a incidência e a natureza das lesões durante os Jogos Paraolímpicos de Verão de 2012 em Londres e concluíram que as maiores taxas de lesões encontradas foram no futebol de Cinco, seguidas pelo levantamento de peso, goalball, esgrima em cadeira de rodas, rugby em cadeira de rodas, atletismo e judô.

Acredita-se que para a prática do esporte adaptado e permanência nessa ocupação são necessárias ações efetivas de uma rede de apoio. Pesquisas têm sido desenvolvidas com o intuito de identificar como estão constituídas as “redes de apoio” das pessoas com deficiência e como estas podem contribuir para facilitar o acesso aos serviços de saúde, reabilitação, inclusão social e implementação de políticas públicas (RIBEIRO, 2010; BITTENCOURT et al., 2011; AOKI; OLIVER; NICOLAU, 2011; HOLANDA et al., 2015; BRIGNOL, 2015; FREIRE et al., 2019).

Olivieri (2003, p. 1) afirma que a palavra “rede” ganhou novos significados ao longo do tempo, sendo empregada em situações distintas:

Redes são sistemas organizacionais capazes de reunir indivíduos e instituições, de forma democrática e participativa, em torno de causas afins. Estruturas flexíveis e estabelecidas horizontalmente, as dinâmicas de trabalho das redes supõem atuações colaborativas e se sustentam pela vontade e afinidade de seus integrantes, caracterizando-se como um significativo recurso organizacional para a estruturação social.

Neste sentido, para a prática do esporte adaptado, apoios de natureza social, material, afetiva e emocional são necessários para o sucesso nesta ocupação. O apoio social é definido como “[...] qualquer informação, falada ou não, e/ou auxílio material oferecido por grupos e/ou pessoas que se conhecem e que resultam em efeitos emocionais e/ou comportamentos positivos” (VALLA, 1999, p. 10). O apoio material refere-se ao acesso dos indivíduos aos serviços e aos recursos materiais; o apoio de ordem afetiva envolve expressões de amor e afeição; o apoio emocional está relacionado com a empatia, carinho, amor, confiança, estima, afeto, escuta e interesse (MINKLER, 1985). Para Holanda et al. (2015, p. 176) “[...] o conjunto dos apoios permutados pelas pessoas inseridas num determinado contexto social constitui uma rede de apoio social”.

Um estudo nacional divulgado na forma de relato de experiência desenvolvido, a partir de um projeto de extensão na Universidade Estadual de Campinas sobre o “rugby” em cadeira de rodas, revela apoios, no contexto universitário, para a prática desse esporte. Em síntese, os apoios ofertados ocorreram na forma de treinamentos planejados, avaliações e jogos específicos para cada classe funcional. A partir dos apoios ofertados, houve a criação de uma nova equipe frente ao aumento da demanda e aumento do nível técnico e, ainda para aumentar a qualidade do apoio, contou-se com o trabalho de uma equipe multidisciplinar, parcerias com associações esportivas e criação de uma associação de esporte adaptado (PENA et al., 2014).

Embora se tenha localizado esse estudo nacional, observa-se uma prevalência de pesquisas desenvolvidas sobre a temática do rugby em cadeira de rodas na perspectiva orgânica, fisiológica e de desempenho, como, por exemplo: avaliação da influência do treinamento de rugby em cadeira de rodas a longo prazo sobre as habilidades funcionais de pessoas com tetraplegia durante um período de 2 anos pós lesão medular (FURMANIUK; CYWIŃSKA-WASILEWSKA; KACZMAREK, 2010); descrição dos aspectos técnicos e táticos do Rugby em Cadeira de Rodas e oferta de indicações de como trabalhá-los para um melhor rendimento do time (CAMPANA et al., 2011); determinação da base fisiológica de associações entre a função autonômica, a Classificação da Federação Internacional de Rugby em Cadeira de Rodas (IWRF) e os índices de desempenho de exercício em atletas altamente treinados (WEST; ROMER; KRASSIOUKOV, 2013); fornecimento de indicativos para o treinamento de rugby em cadeira de rodas (RCR), a partir das alterações fisiológicas, neuromusculares e bioquímicas, características dos atletas com lesão na medula espinhal (CAMPOS et al., 2013) e investigação dos efeitos longitudinais do treinamento em rugby em cadeira de rodas (WR) na composição corporal de indivíduos com tetraplegia (GORLA et al., 2016). A partir destes achados, nota-se que poucos estudos foram realizados sobre os apoios ofertados para a prática, acesso e permanência do RCR.

Nesse sentido, o presente estudo busca identificar a percepção dos atletas do rugby em cadeira de rodas sobre o fenômeno relativo aos apoios que constituem ou se constituíram a rede de suporte para a prática do RCR. Além disso, busca-se conhecer, a partir do relato dos próprios atletas, aspectos que impactaram o acesso e a permanência ao esporte adaptado.

2 Método

2.1 Características de pesquisa

Trata-se de uma pesquisa descritiva e exploratória caracterizada pelo uso da abordagem qualitativa (GIL, 2008).

Quando estamos lidando com problemas pouco conhecidos e a pesquisa é de cunho exploratório, este tipo de investigação parece ser o mais adequado. Quando o estudo é de caráter descritivo e o que se busca é o entendimento do fenômeno como um todo, na sua complexidade, é possível que uma análise qualitativa seja a mais indicada. Ainda quando a nossa preocupação for a compreensão da teia de relações sociais e culturais que se estabelecem no interior das organizações, o trabalho qualitativo pode oferecer interessantes e relevantes dados. Nesse sentido, a opção pela metodologia qualitativa se faz após a definição do problema e do estabelecimento dos objetivos da pesquisa que se quer realizar (GODOY, 1995, p. 63).

2.2 Considerações éticas

Esta pesquisa respeitou e cumpriu as prerrogativas da resolução nº 466/2012 (BRASIL, 2012), garantido aos participantes sigilo e anonimato, sendo aprovada pelo comitê de ética em pesquisa em seres humanos sob o nº 1.888.237. Os participantes receberam e assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido com todas as informações sobre a pesquisa.

2.3 Local e participantes

Participaram da pesquisa 10 atletas praticantes do rugby em cadeira de rodas. A pesquisa foi realizada dentro das instalações de um evento que sediou uma Copa de Rugby em Cadeira de Rodas em uma cidade localizada no interior do estado de São Paulo1.

2.4 Instrumento de coleta de dados

Para atender o objetivo da pesquisa, foi utilizado um roteiro de entrevista semiestruturado com questões abertas. Este roteiro teve por objetivo coletar informações sobre a percepção dos atletas que praticam o RCR sobre os apoios recebidos para a prática do esporte adaptado. A potência e pertinência do roteiro foram previamente testadas e analisadas em etapa preliminar da coleta de dados (LUDKE; ANDRÉ, 1986; MINAYO, 1996).

O roteiro, elaborado por Becerra (2018), ficou composto por 3 blocos temáticos. O Bloco 1 contém questões relacionadas à caracterização dos participantes versando sobre gênero, idade, grau de escolaridade e tempo praticando o RCR, o bloco 2 contemplou temáticas direcionadas às experiências com o esporte adaptado, destacando-se o primeiro contato com o RCR e a motivação para prática esportiva e o bloco 3 abarcou assuntos relacionados com os apoios (familiar, político, governamental) recebidos para iniciar a prática do esporte adaptado, apoios recebidos ao longo da trajetória esportiva e obstáculos enfrentados para a prática do esporte.

Para o preparo da aplicação do roteiro, foram realizadas sessões para o treino e familiarização do pesquisador com o roteiro. Nestas oportunidades, refletiu-se sobre a adequação, estrutura e sequência das questões, bem como o aprimoramento das formas de registro, adaptação e treino da língua portuguesa2, buscando-se assim o controle das possíveis variáveis intervenientes na fase de coleta.

2.5 Procedimento de coleta e análise de dados

Os dados foram coletados a partir da realização de entrevistas individuais. Primeiramente, ocorreu um contato inicial com os clubes que participariam da copa. Os clubes que aceitaram participar da pesquisa informaram o agendamento das entrevistas com os atletas que consentiram ser entrevistados. As entrevistas tiveram duração média de 15 minutos e foram realizadas em dois dias da copa. Todas as entrevistas foram gravadas e transcritas na íntegra. As transcrições foram auxiliadas integralmente por um auxiliar de pesquisa com domínio da língua portuguesa, a fim de dirimir dúvidas.

A sistematização dos dados foi realizada na perspectiva qualitativa (LUDKE; ANDRÉ, 1986; MINAYO, 1996) e a análise dos dados baseou-se nos passos indicados por Alves e Silva (1992, p. 66): a) “Impregnação pelos dados” durante as leituras; b) Realização de anotações “para que nada se perca”; c) “Partilha dos dados” com diferentes pesquisadores para “checagem” das formas de compreensão, explicação e interpretação das respostas advindas da verbalização dos participantes; d) Estabelecimento de relações entre o conteúdo expresso nas falas, a experiência do pesquisador e o pensamento registrado; e) Investigação de “regularidades e diferenças nas respostas”: respostas diferentes podem apresentar “o mesmo fundamento” e respostas iguais podem significar “fundamentos diferentes”; f) “Aprofundamento dos dados” em relação à estrutura, tema e afunilamento de tópicos.

Para melhor compreensão dos dados, a seção de resultados foi dividida em 4 tópicos. O primeiro tópico acena para o primeiro contato com o esporte adaptado. O segundo tópico refere-se à motivação para realizar o esporte adaptado. O terceiro tópico é referente à percepção dos atletas sobre quais foram os apoios mais importantes para a prática do esporte adaptado. O quarto tópico traz dados sobre os obstáculos existentes para a prática do esporte adaptado.

3 Resultados

Participaram do estudo atletas que praticam o rugby em cadeiras de rodas em três clubes distintos3, cuja caracterização em termos de escolaridade, idade e tempo de esporte encontra-se descrita a seguir. A Tabela 1 apresenta a caracterização dos participantes.

Tabela 1 Caracterização dos participantes. 

Participantes Idade Tempo no esporte Rugby Grau de escolaridade
P1 25 anos 2 anos Ensino Fundamental
P2 34 anos 6 anos Ensino Médio
P3 26 anos 1 ano Ensino Superior – em andamento
P4 35 anos 7 anos Ensino Médio
P5 26 anos 4 anos Ensino Superior Incompleto
P6 29 anos 7 anos Ensino Superior
P7 25 anos 3 anos e 5 meses Nenhuma
P8 27 anos 8 anos Ensino Superior Incompleto
P9 39 anos 5 anos Ensino Médio
P10 34 anos 2 anos Ensino Superior

Em síntese, a amostra ficou composta por 10 atletas do sexo masculino, com deficiência física, na faixa etária compreendida entre 25 a 39 anos que praticam esporte adaptado no mínimo há 1 ano e no máximo há 8 anos. Todos os participantes são integrantes de clubes/ associação de ordem pública e encontravam-se inseridos, no momento da pesquisa, em três clubes, no âmbito de uma Copa de Rugby em Cadeira de Rodas. O grau de escolaridade dos participantes variou de nenhuma escolaridade (n=1) até Ensino Superior (n=5).

3.1 Primeiro contato com o Rugby em Cadeiras de Roda

A Tabela 2 mostra informações sobre como ocorreu o primeiro contato dos participantes com o RCR, apresenta elementos facilitadores e contextos que permitiram o acesso ao esporte. São apresentadas ilustrações por meio de trechos das entrevistas transcritas.

Tabela 2 Primeiro contato com Rugby em Cadeiras de Roda. 

Participantes Facilitadores para o acesso Contexto Ilustração de como ocorreu o acesso a esporte adaptado
P1 “Programa Superar” Esportivo Primeiro contato foi no “Superar” que eu fui para poder malhar, nadar... aí eles viram que o Rugby ia cair muito bem para mim e me apresentaram o Rugby”.
P2 Vídeos sobre tema Social Foi a base de vídeos, viagem, fui melhorando a visão sobre o esporte”.
P3 Clínica de reabilitação Saúde Através de uma clínica onde eu fazia fisioterapia, ele me indicou para o Rugby”.
P4 Amigo Social Foi um amigo que ficou sabendo... ele ia até a clínica explicar pra gente como que seria o esporte lá em (nome da cidade).
P5 Hospital Saúde “[...] os atletas do time foram lá consulta, a médica me apresentou a eles, pois a médica tem tipo uma parceria que passa pacientes para o time”.
P6 Filme Social “[...] a haver com o filme “Murderball” que conta a história do Rugby lá no Estados Unidos, foi a primeira vez que me deu vontade de praticar algum esporte adaptado”.
P7 Amigo Social Então, na minha cidade existia uma associação que trabalhava com esporte adaptado, aí um amigo me convidou pra tá indo e conhecendo e a partir daí eu conheci o esporte adaptado. E nunca mais sai”.
P8 Amigo Social Eu estava no hospital de reabilitação no Rio de Janeiro e eu conhecia um amigo chamado E. ele me apresentou o Rugby e a gente praticou lá dentro do hospital um dia. Depois ele me chamou para jogar em um time lá no RJ. Eu comecei a jogar e desde então já não parei de jogar”.
P9 Associação/ clube Esportivo Eu conheci uma associação quando eu tinha 14 anos e lá comecei ... passei por vários esportes. Fiz futebol, fiz basquete cadeira de rodas e aí encontrei a natação que foi o esporte que eu me identifiquei na época e aí segui uma carreira na natação. Hoje, estou no Rugby”.
P10 Amigo Social “[...] depois eu conheci o Rugby, por intermédio de amigos e comecei a praticar aí eu me apaixonei pelo esporte”.

Os dados da Tabela 2 demonstram que o primeiro contato com o esporte adaptado foi promovido para quatro participantes pelos contatos estabelecidos por meio de amigos (P4, P7, P8, P10). Nesta pesquisa, esta variável apresentou-se como facilitadora para o ingresso em uma associação/clube.

Os equipamentos de saúde, como os hospitais e clínicas de reabilitação, se constituíram em 02 casos (P5 e P3) como fonte de acesso ao esporte adaptado. Vídeos e filmes foram outros facilitadores que impactaram dois atletas (P6 e P2). O clube foi o equipamento que possibilitou P9 ter acesso ao esporte. Outro fator que permitiu um participante (P1) ter acesso à realização de um esporte adaptado foi um programa municipal intitulado “Programa Superar”.

Há uma diversidade de fontes de acesso ao Rugby em Cadeira de Rodas, o que pode ser interpretado como algo positivo. Essas fontes ampliam as possibilidades de encaminhamento da pessoa com deficiência física para o esporte e, por outro lado, ilustram que não há uma política clara que define a “porta” que dá acesso ao esporte adaptado.

3.2 Motivação para a prática do Rugby em Cadeiras de Roda

A Tabela 3 apresenta dados relativos à motivação dos participantes para a prática do esporte adaptado e os efeitos da motivação na vida diária.

Tabela 3 Motivação para praticar Rugby em Cadeiras de Roda. 

Participantes Motivação Efeito da motivação para pratica do esporte Trecho do entrevista
P1 Familiar Buscar a felicidade do pai (emocional) O que mais me dá motivação para continuar é meu pai, porque ele sofre às vezes de problema de arritmia... então, a felicidade dele é... eu no Rugby e fora do que eu era antes. Minha motivação maior é meu pai”.
P2 Pessoal Prosseguir com a prática do esporte (social) Eu bem antes do meu acidente, eu já era atleta, então, tive que procurar algo para fazer para não ficar parado”.
P3 Pessoal Reabilitar-se e ter qualidade de vida (saúde) A reabilitação principalmente. Depois, a qualidade de vida”.
P4 Pessoal Conhecer a possibilidade de praticar um esporte
adaptado para
tetraplegia (social)
A princípio eu não conhecia nenhum outro esporte por tetraplégico, eu só conhecia para paraplégico que é basquete, tênis, mas para o tetraplégico eu não conhecia. A partir do momento que eu conheci e vi que eu conseguia, eu joguei”.
P5 Pessoal Melhorar a saúde
(saúde)
Foi conhecer e gostei. Na época, eu não fazia nada por causa do acidente, gostei, sempre gostei de praticar esporte, e fiquei. Foi porque eu gostei mesmo...pra minha saúde também ajudou né”.
P6 Pessoal Ter a possiblidade de mudança de estilo de
vida por meio da prática
da atividade física
(social)
Motivação, cara sinceramente, quando eu era jovem, apesar de eu não ser atleta antes do meu acidente, eu era... eu tinha atividades, eu participava de atividade física em alguma medida. Então, eu tinha uma vontade de fazer algo, eu era sedentário e obeso e ... tinha muito tempo livre no meu dia, então eu vi ali uma possibilidade”.
P7 Pessoal Buscar a qualidade de vida e alto rendimento (social) No começo foi manter uma qualidade de vida melhor, pra mim tá cuidando do meu físico e quando as coisas foram andando eu fui gostando e aí eu partir para o alto rendimento”.
P8 Pessoal Gostar de praticar um esporte (social) Sempre gostei do esporte qualquer tipo de esporte, sempre pratiquei esporte desde antes de minha lesão, depois de minha lesão não pratiquei nenhum até que conheci o Rugby, sempre fui apaixonado pelo esporte”.
P9 Pessoal Ter a oportunidade de realizar uma atividade
(social)
“[…] a informação eu acho que é a primeira oportunidade que a pessoa pode ter... é saber que existe. Né? Algo para se fazer e encontrei uma associação, então foi isso que me motivou a fazer”.
P10 Pessoal Independência (social) A independência física”.

Conforme os dados obtidos na Tabela 3, nota-se que as motivações dos atletas se situam predominantemente no campo da realização de um desejo pessoal (n=9), sendo a melhora da saúde, da condição física, da qualidade de vida e o desejo de reabilitar-se as mais relatadas.

Outras motivações relativas à vida pessoal também foram apontadas, como, por exemplo, ter a possibilidade de mudar o estilo de vida ou mesmo a possibilidade de praticar atividade física ou um esporte. Outros relatos referem-se a ter independência física por meio da prática do esporte adaptado e da pratica de esporte de alto rendimento. Na prática do esporte adaptado também surge como possibilidade desenvolver o campo pessoal da socialização e educação, conhecendo novos lugares, cidades e times.

3.3 Percepção sobre os apoios importantes para a prática do RCR

Os dados a seguir apresentados, na Tabela 4, trazem informações relativas à percepção dos participantes sobre os apoios mais importantes para a prática de um esporte adaptado.

Tabela 4 Identificação dos apoios e contextos mais importantes mencionados pelos atletas para a prática do RCR. 

Participantes Apoio mais valorizado Tipo de Apoio Contexto Ilustração
P1 Pai Financeiro Familiar O apoio maior mesmo é do meu pai. Ele que me ajuda ainda, eu não tenho apoio assim financeiro por outras partes e ele que se for preciso de dinheiro para poder viajar, ele que me ajuda, ele que me apoia em tudo e tudo o que eu faço é por ele também. No momento ainda não tenho, mas eu tô pra receber uma bolsa atleta que vai ajudar bastante, pelo governo. Ainda não recebo, aí então eu tiro do meu benefício que eu sou aposentado e meu pai também ajuda muito”.
P2 Equipe Infraestrutura Social (clube) Eu tive só apoio, apoio mesmo de onde eu jogava, na minha equipe. Falar assim... eu tive que comprar meu material, então foi pouco, mesmo assim o apoio que eu tive foi só do clube onde eu treinava. Ele dava o espaço pra gente treinar, mas o resto, o material, essas paradas, essas coisas, foi tudo eu quem comprei”.
P3 Familiares Emocional Familiar Ah, família, é o que mais apoia. Só família mesmo”.
P4 Amigos e família Financeiro e Emocional Familiar e Social Cara, dos amigos e da família. Parte financeira ajuda bastante, mas principalmente amigos e família, que estão ali sempre apoiando, estão sempre dando aquele empurrãozinho”.
P5 Mãe e Time Emocional Familiar e Social (time) Minha mãe no caso, família, a princípio e do time também, que a gente se ajuda muito, então, foi os dois principais apoios”.
P6 Profissionais especializados Instrumental Esportivo De pessoa profissionalizadas...De profissionais capacitados essa tem sido a mais importante, porque são eles que catalisam qualquer desenvolvimento vai ser muito mais rápido quando você tem gente capacitada para fazer aquela coisa. Não adianta eu que não tenho formação em educação física e nenhum conhecimento especializado em Rugby cadeira de rodas tentar tocar um projeto. Tem que ter alguém com alguma capacidade e aí eu acho que todo meu processo nesses 7 anos, acho que a maior influência tem sido de pessoas capacitadas pra me auxiliar”.
P7 Patrocínios Financeiro Esportivo Eu acho que falta muita coisa ainda pra gente evoluir. E assim, os apoios assim do clube mesmo sem patrocínio acho que é muito importante. Porque se o clube hoje não chamar um atleta e não conversar com ele tal ... e explicar a situação ele acaba saindo do paradesporto, do esporte adaptado, porque não tem como se manter no esporte adaptado porque a maioria das vezes a gente tira do nosso bolso”.
P8 Bolsa Financeiro Governamental Eu acho que o Brasil ele tem projeto de bolsa atleta que beneficia aos atletas que ficou entre os primeiros três na competição nacional”.
P9 Profissionais especializados Instrumental e Infraestrutura Esportivo Eu acho que o espaço da prática esportiva. No meu caso, eu comecei com a natação, eu ter uma academia, eu ter um técnico, é... a disposição para treinamento...é existiam entidades que trabalhavam né com esporte adaptado, então pra mim foi o que me oportunizou ter o espaço”.
P10 Família e Profissionais especializados staffs Emocional e Instrumental Familiar e
esportivo
Da família. Os staffs do time, porque se não tem pra por luva e transferir para cadeira, se não tem esses staffs, a gente não consegue fazer nada”.

Os dados apresentados na Tabela 4 informam que os atletas, na sua grande maioria, identificaram mais de um apoio importante para a prática do esporte adaptado. No contexto familiar (n=5), o pai e a mãe foram os membros da família identificados como mais valorizados, ainda que “família” e “membros familiares”, citados de forma generalizada, também estiveram presentes. O apoio no âmbito familiar esteve relacionado ao apoio financeiro e emocional (“empurrãozinho”).

No contexto esportivo (n=3), encontram-se os apoios advindos dos clubes, equipes, staffs, patrocínio, treinador e time. Nota-se ainda a valorização do espaço para treino, das explicações financeiras passadas entre clube e atletas, oferta de academia e técnico para treinamentos.

No contexto social, encontra-se o apoio dos amigos (n=1). Foi citada a importância do apoio ofertado por profissionais especializados e capacitados para promover o esporte adaptado. No contexto governamental encontra-se o apoio da “Bolsa Atleta”.

Em síntese, os tipos de apoios mencionados são os de ordem emocional, financeira, infraestrutura, instrumental, informativos e social, sendo que os apoios citados com maior frequência são o “emocional” e o “financeiro”.

3.4 Obstáculos mais frequentes para a prática do RCR

A Tabela 5 a seguir ilustra os principais obstáculos para a prática do RCR descritos e identificados por alguns participantes.

Tabela 5 Percepção dos participantes sobre os obstáculos mais frequentes para a prática do RCR. 

Participantes Obstáculos Ilustração
P1 Um conjunto de obstáculos São muitas coisas…”.
P2 Iniciar o primeiro contato com o esporte após a deficiência Sair pela primeira vez de casa para conhecer o esporte”.
P3 Dificuldade financeira Questão financeira”.
P4 Não relatado Não soube responder.
P5 Dificuldade financeira e Falta de acessibilidade “[] financeiro é maior, mas o segundo é a acessibilidade”.
P6 Não relatado Não soube responder.
P7 Grande distância geográfica entre o local dos treinos e a residência O principal obstáculo é a distância da cidade onde eu treino”.
P8 Falta de acessibilidade Acessibilidade. O ginásio ser adaptado, ter um banheiro bom, ter rampa, o acesso, como que o deficiente vai chegar lá?”.
P9 Dificuldade financeira para a manutenção em um esporte adaptado de alto rendimento Manter alto rendimento sem apoio financeiro”.
P10 Um conjunto de obstáculos que na visão do atleta são comuns a todas as pessoas São os mesmos para todos”.

Em síntese, os obstáculos identificados com maior frequência foram a dificuldade financeira (n= 3) e a falta de acessibilidade (n=2). Outros relatos referem-se à situação de sair pela primeira vez de casa para conhecer o esporte (n=1) e a distância para se deslocar até o local do treino (n=1). Dois participantes relataram que há uma variedade de obstáculos para a prática do RCR e dois participantes não souberam ou quiseram responder essa pergunta.

4 Discussão

O tema da presente pesquisa centra-se em identificar a percepção de atletas do rugby em cadeira de rodas sobre os apoios recebidos para o acesso e a permanência nesse esporte a partir da importância de redes de colaboração. Para tanto, foram explorados, no conjunto de questões que compuseram as entrevistas, o acesso à prática do esporte adaptado, a motivação, a percepção dos participantes em relação aos principais apoios recebidos e obstáculos. A partir dos dados obtidos, a hipótese do estudo se confirma, uma vez que foi identificada a necessidade de ações efetivas de uma rede de apoio de natureza social, instrumental e emocional para a população.

Holanda et al. (2015) destacaram que as pessoas da família nuclear se apresentaram como fortes redes de apoio para as pessoas com deficiência física. Além disso, identificaram que as pessoas com deficiência física têm dificuldades na ampliação de relações sociais extrafamiliares devido à dificuldade de acessibilidade. Estes dados vão ao encontro do que fora identificado no presente estudo, no sentido da importância do estabelecimento das redes de apoio para as pessoas com deficiência física.

No presente estudo, tanto para o acesso quanto para a permanência não foram identificadas redes de colaboração pactuadas formalmente, o que denota ausência de políticas públicas intersetoriais na atenção às necessidades de pessoas adultas com deficiência física. Esse achado corrobora com o estudo de Pancoto (2016) sobre o esporte nas políticas públicas de inclusão social para pessoas com deficiência no Brasil e com o estudo de Mauerberg de Castro et al. (2016, p. 25).

O problema no cenário do esporte adaptado é que as instituições públicas, instituições não governamentais e o setor privado estão longe de materializar um sistema de políticas públicas realistas e democráticas que resultem em soluções práticas [...].

Importa, entretanto, destacar a diversidade de pontos que compõem a rede de acesso das pessoas à prática do RCR associada à motivação para o exercício dessa ocupação. Assim, os resultados trazem a forte presença dos familiares/ amigos e dos equipamentos de saúde aliado ao desejo pessoal.

No que se refere à motivação, Dosil et al. (2004) destaca, de forma especial, sua relação com o esporte e afirma que a motivação é o motor do esporte. O autor estabelece a relação da motivação com o ingresso, permanência e abandono da prática esportiva.

A partir dos resultados obtidos, sugere-se que o acesso à rede de apoio seja efetivado por meio de três pontos: núcleo familiar/amigos, setor da saúde e dos esportes. Acredita-se que o desenvolvimento de ações intersetoriais favoreça o acesso das pessoas à prática do RCR por possibilitar a conectividade.

A compreensão da dinâmica da conectividade (propriamente, a dinâmica de rede) passa ainda pelo exame de mais uma característica da curiosa dialética ponto-e-linha no âmbito da rede. Cada conexão representa sempre um par de pontos, pois uma ligação só pode se estabelecer na medida da existência de dois elementos a serem ligados. Nesse sentido, uma linha vale por dois pontos. Em compensação, cada ponto pode manter uma infinidade de linhas que se projetam dele; pode possuir tantas linhas quantos forem os demais pontos pertencentes à rede a que ele estiver ligado (WWF-BRASIL, 2003, p. 18).

Dois conjuntos de respostas foram fundamentais para identificação dos pontos da rede que favorecem a permanência do atleta do RCR nesse esporte: um deles trata dos apoios citados como relevantes para a prática do RCR e o outro trata dos obstáculos.

Em relação aos apoios, as “pessoas-chave” que ofertaram suporte para os participantes dessa pesquisa no processo de permanência no RCR foram os familiares, amigos pessoais, profissionais da área da saúde, os técnicos, os companheiros de time e os staffs. Na pesquisa de Fitzgerald e Kirk (2009) a maioria das famílias ofereceu apoio contínuo para a prática esportiva do jovem com deficiência, compreendendo os benefícios que o esporte implica para o desenvolvimento social. Outros benefícios do esporte para a pessoa com deficiência referem-se ao aumento de relações sociais favoráveis à integração e normalização, desenvolvimento de atitudes, competição de valores e ocupação de tempo livre (RODRÍGUEZ MARTIN, 2015).

Observou-se que a prática do RCR, além de ampliar as ocupações da pessoa com deficiência física, expande suas relações para outros contextos de desenvolvimento como o familiar, clínico, social e esportivo e favorece, assim, a permanência no esporte por permitir que os atletas acessem os apoios de ordem emocional, financeira, infraestrutura, instrumental, informativo e social. Um destaque é dado pelos atletas à necessidade de suportes financeiro e emocional. Para dar conta da diversidade de apoios necessários para permanência no RCR, um conjunto de pontos deve compor a rede, para manter a motivação conforme relatado pelos atletas: família, clubes, programas governamentais e profissionais especializados.

O surgimento das redes ocorre quando um propósito comum consegue aglutinar diferentes atores e convocá-los para a ação. O elemento de coesão das redes é uma ideia-força, uma tarefa, um objetivo. Algo que parece frágil como princípio organizacional, mas quando potencializado pela ação voluntária se constitui num poderoso agente de transformação (WWF-BRASIL, 2003, p. 50).

Em relação aos obstáculos, as maiores barreiras constituem-se nas financeiras e as de acessibilidade. Outro destaque é dado para a necessidade de adequação de espaço físico, como rampas nas quadras, oferta de academia, ausência de bolsas e ausência de recursos financeiros próprios para se manter no esporte. Cardoso (2011, p. 536) afirma que para iniciar e se manter em uma modalidade esportiva adaptada muito ainda precisa ser conquistado:

[...] destaca-se a formação profissional para atuação com pessoas com deficiência, que ainda carece de incremento na qualidade; melhorias e concretizações em prol da inclusão, e também em termos de oportunidades de prática desportiva, que percebe-se que indivíduos com deficiência ainda encontram muitas dificuldades e se deparam com falta de apoio, acessibilidade e preconceito para começar e se manter realizando uma modalidade desportiva adaptada.

Para eliminar tais barreiras sugere-se também o desenvolvimento de ações em rede, assim como já acenado, nesse estudo, para o acesso à prática do RCR. Para além dos núcleos familiar/amigos, setor da saúde e dos esportes, outro ponto a ser considerado na rede é o apoio governamental. Dessa forma, são necessárias articulações intersetoriais com as políticas públicas de saúde, com as políticas esportivas e com as políticas sociais do país.

Nesse período de virada de século e de milênio, a sociedade civil potencializa sua organização em iniciativas, cujos atores envolvidos percebem a colaboração participativa como um meio eficaz de realizar transformações sociais. As instituições do terceiro setor têm procurado desenvolver ações conjuntas, operando nos níveis local, regional, nacional e internacional, contribuindo para uma sociedade mais justa e democrática. Para tanto, e a partir de diversas causas, a sociedade civil se organiza em redes para a troca de informações, articulação institucional e política e para a implementação de projetos comuns. As experiências têm demonstrado as vantagens e os resultados de ações articuladas e projetos desenvolvidos em parcerias e alianças (OLIVIERI, 2003, p. 56).

Diante dos dados obtidos e do diálogo realizado com a literatura, reafirma-se a importância da pactuação entre serviços e pessoas para a construção e conexão dos pontos que compõem a rede de apoio para a prática do rugby em cadeiras de rodas.

5 Considerações Finais

O presente estudo trouxe informações sobre os apoios fundamentais para a prática do esporte adaptado a partir da percepção de atletas que praticam o rugby em cadeira de rodas, possibilitando a identificação de pontos que compõem uma possível rede como um sistema organizacional que favorece a prática desse esporte. Nesse sentido, foi possível identificar os contextos de relacionamento dos atletas no cotidiano, os atores que deles participam e as necessidades e obstáculos para a prática do RCR.

O apoio advindo da família, amigos, profissionais da saúde e de pessoas do ambiente esportivo mostrou-se estratégico, a partir da percepção dos atletas, para seu desenvolvimento e engajamento na prática do RCR. A falta de acessibilidade e problemas financeiros apresentou-se como os maiores obstáculos para a prática do RCR, demandando ações governamentais.

Nessa perspectiva, foi possível identificar um conjunto de apoios distintos e complementares fundamentais para a prática do RCR, os quais, se articulados, constituem-se em pontos (nós) de uma rede de apoio. Dessa forma, sugerem-se investimentos em ações intersetoriais para incremento da política nacional para a pessoa com deficiência, a partir do fortalecimento dos processos de comunicação entre os setores identificados na presente pesquisa.

1Participaram da pesquisa atletas de três clubes. Em geral, a constituição das equipes de rugby varia entre 7 a 15 atletas. Uma amostra por conveniência foi composta, a partir do aceite dos atletas em participar da entrevista (n=10). O nome dos clubes foram omitidos para não identificação dos participantes.

2Importante considerar que o autor do presente estudo realizou a pós graduação na UFSCar / PPGEES por meio do “Programa de Becas OEA-GCUB 2015”, sendo sua língua materna, o espanhol. Cabe ressaltar que, na etapa da coleta de dados caso os participantes tivessem dificuldade de compreender as perguntas, o pesquisador mostrava a pergunta escrita, em português, para o participante.

3Por questões éticas não foram revelados os nomes dos clubes e associações.

Fonte de Financiamento CAPES.

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Recebido: 24 de Fevereiro de 2018; Revisado: 03 de Dezembro de 2018; Revisado: 10 de Abril de 2019; Aceito: 04 de Junho de 2019

Autor para correspondência: Claudia Maria Simões Martinez, Departamento de Terapia Ocupacional, Universidade Federal de São Carlos, Rodovia Washington Luiz, Km 235, Monjolinho, CEP 13565-905, São Carlos, SP, Brasil, e-mail: claudia@ufscar.br

Contribuição dos Autores Marco Antônio Guevara Becerra foi responsável pela coleta de dados e desenvolvimento da pesquisa. Mariana Gurian Manzini foi responsável por acompanhar e contribuir com o desenvolvimento de procedimentos metodológicos. Claudia Maria Simões Martinez supervisionou toda a pesquisa. Todos os autores aprovaram a versão final do texto.

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